Busca avançada



Criar

História

"Não estou vivendo, estou existindo"

História de: Antonio Barbosa dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/12/2012

Sinopse

Filho caçula de 22 outros, vem para São Paulo do Ceará com a mãe, que com dificuldade tenta manter vivos os filhos. Em função desta dificuldade, o pequeno Antonio acaba sendo adotado por uma de suas irmãs mais velhas, sofrendo violência doméstica em função do ciúme desta pelo marido, que o tratava como filho. Adolescente decide viver sem irmã e consegue um emprego, no qual é pego falsificando informações e realizando furtos.  Em um de seus relacionamentos, permeado também pela violência, ele acaba tendo uma filha, com a qual a relação é bastante distante.  Relatando o uso de drogas, a prisão, as dificuldades e a depressão, Antonio diz não ter conhecido ainda a alegria, um objetivo incerto nesta trajetória.

Tags

História completa

P/1 –  Antonio, você vai contar a sua história, onde você nasceu, quando foi, seus primeiros momentos de vida, sua infância, nome, data de nascimento, local.

 

R – É o seguinte, hoje eu faço 52 anos de idade. Hoje é o dia do meu nascimento, 51 foi ano passado, esse ano foi 52. E minha vida começou vindo embora do Norte, eu vim do Ceará. Antonio Barbosa dos Santos. Aí chegamos pra cá, trouxeram a gente pra cá, fomos trabalhar com café, colônia. Meu pai era alcoólatra e minha mãe dona de casa. A minha mãe era o homem de casa, ela trabalhava. Meu pai era um pingaiada daquele, mas ele era um cara responsável, ela gostava dele. A mulher quando perde a cabeça, ela fica cega, tudo por causa do estado. E assim ela criou 22 irmãos. 

 

P/1 –  Sua mãe e seu pai eram do Ceará, certo?

 

R – Não, só me trouxeram, porque eu era pequeno e não tinha condições de ter vindo. Aí chegamos aqui. Nossa vida naquele tempo, 1962, a situação estava brava, estava tendo guerra, revolução, aquele negócio todo. Castelo Branco tinha entrado na política, coisa e tal, aí em 1964 mataram Castelo Branco. Aí meu pai largou da minha mãe e o negócio começou aí.

 

P/1 –  Isso em São Paulo? 

 

R – Lá em Bilac.

 

P/1 –  Bilac, São Paulo?

 

R – É. Aí meu pai largou minha mãe e foi embora. Aí nós passamos sufoco.

 

P/1 –  Quantos irmãos você disse que tinha?

 

R – Eu tinha 22. 

 

P/1 –  Da mesma mãe?

 

R – É. Da mesma mãe e pronto. Acho que é. Eu nunca perguntei pra minha mãe sério.

 

P/1 –  Não, mas eu estou perguntando, 22 irmãos do mesmo casamento?

 

R – É, exato.

 

P/1 –   Vocês moravam em Bilac?

 

R – Não. Começamos a morar, aí um irmão desgarrou da família, outra irmã veio trabalhar de empregada doméstica, desapartou todo mundo. Aí começou a decadência, ficou só eu, tinha mãe e mais dois irmãos só. Ficamos perdidos no nada.

 

P/1 –   Você lembra dessa relação com seus irmãos?

 

R – Lembro, eu era o caçula, lembro. Eu tinha um irmão que já estava com doze anos, eu tinha quatro pra cinco anos. Tinha uma irmã mais velha, que era do tempo da minissaia, aí começou a dar voltinha, então tinha um namoradinho. Minha mãe trabalhava de boia-fria. 

 

P/1 –   Sua mãe trabalhava de boia-fria?

R – Aí meu pai voltou. Ele namorou minha mãe, fez minha irmã caçula, aí pronto.  

 

P/1 –  Seu pai trabalhava no quê?

 

R – Meu pai era andarilho. Correu o mundo.

 

P/1 –  Mas ele ganhava dinheiro como?

 

R – Ele trabalhava de peão.  Aí ele voltou, namorou com a minha mãe mais um pouquinho, fez minha irmã caçula e foi embora. Aí deixou minha mãe barriguda, com uns filhos crescidos pra criar, outra na barriga, e nós em São Paulo. 

 

P/1 –  São Paulo, capital?

 

R – É. Sem conhecer nada. E meus irmãos tinham casado, ninguém queria saber de ninguém, era olho por olho, dente por dente. Nós chegamos aqui, aí o irmão pegou compaixão, passou em casa pra cuidar da gente, tava no meio da rua. E aí minha mãe barriguda, minha irmã ficou com dó, aí foram uns irmãos para um lado e outros irmãos para outro, dos que sobraram, né?

 

P/1 –  Você era pequenininho ainda?

 

R – Eu era. Aí eu fui adotado pela minha irmã e pelo meu cunhado. Pior hora que aconteceu na minha vida, um inferno. Minha irmã foi criada por uma irmã que não era tão ruim. Aí meu cunhado casou com essa minha irmã, ele gostava de mim, eu era molequinho ainda. Minha irmã tinha duas filhas, Eliana e Alessandra. Então, como minha irmã tinha duas filhas, ele queria um filho homem. Minha irmã não tinha mais como ter filhos e ele gostava de mim como se fosse filho dele, minha irmã tinha ciúmes de mim. Aí começou o martírio da minha vida. Tudo o que eu fazia dentro de casa tava errado. Eu era canhoto, então eu apanhava porque era canhoto, eu apanhava se eu fazia alguma coisa. Tinha saído a televisão da válvula, passava televisão e eu não podia assistir. Eu apanhava pra estudar, apanhava no almoço, apanhava cedo, apanhava de tarde, minha irmã não me suportava. Quando o cara chegava ele me abraçava, me afagava, aí minha irmã ficava louca e o couro comia, cara. E isso foi passando um ano, dois, cinco, seis. E eu sempre quieto, não ia falar nada, ué. Se eu falasse alguma coisa ia pra FEBEM [Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor].

 

P/1 –   Você já ia pra escola?

 

R – Ia. Eu tinha que ser o melhor, eu era o melhor.

 

P/1 –  Você brincava na rua?

 

R – Chegava em casa, cozinhava. 

 

P/1 –  Você ajudava na casa?

 

R – Não. Ajudava, não, eu fazia. Lavava louça... Com seis anos de idade eu fazia tudo o que uma mulher fazia dentro de casa. E imagina se não estivesse bem feito! O couro comia. Eu era canhoto, sou canhoto, apanhava porque era canhoto, aí eu aprendi a escrever com a mão direita. Apanhava porque eu era canhoto e mentia dizendo que estava escrevendo com a mão direita. Aí falou com o psicólogo e ele falou: “O menino vai pirar, você tem que tratar ele melhor.” Aí eu via aqueles filmes de bang-bang e eu não tinha pra onde correr.

 

P/1 – E com seus irmãos, as irmãs adotivas?

 

R – Foram crescendo comigo. Meus irmãos sendo criados por outras pessoas, sendo judiados também. E os mais velhos não querendo nem saber. Aí eu fiz catorze anos de idade, falei: “Acho que é hora de eu dar jeito na minha vida.” Aí entrei na TAM, consegui entrar na TAM... Ô, glória! E eu não tinha estudo, né? Estava estudando, mas se eu estudasse eu apanhava, se eu não estudasse eu também apanhava, não queria nem saber. E eu queria sair daquela situação que eu estava, queria sair da casa da minha irmã, lá eu dormia embaixo de uma mesa! Eu jogando bola estava errado, estudando estava errado, indo pra rua conversar com alguém estava errado. Não tinha nada certo, minha vida virou um inferno 24 horas. Minha vida ficou totalmente transtornada, aí entrei na TAM. Um belo dia falei: “Chega!” Aí virei ladrão, aprendi a roubar.  

 

P/1 – Mas você roubava ou trabalhava na TAM?

 

R – Eu aprendi a roubar na TAM. Eu virei um bom ladrão, entrei na TAM, manufaturava as notas da TAM, aprendi a falsificar as assinaturas das chefes, das secretarias que davam autorização, fiquei bonzinho lá, virei sócio. Chega de tanto apanhar. Aí virei o Seu Toninho. Eu tinha meu dinheiro, fiquei bem de vida. Aí falei: “Agora vivo só!” Mas a casa caiu. Aí descobriram, fizeram um levantamento na firma e eu saí da TAM.

 

P/1 –  Mas você saiu da TAM porque descobriram seus golpes?

 

R – Mais ou menos. Eu era moleque ainda, tinha dezesseis anos de idade. Era sofrido! Aí não podia voltar pra casa mais, fui pra casa do meu tio. Meu tio comprou uma casa pra mim, como eu tinha vinte contos naquela época, que era dinheiro adoidado, tinha emprestado da TAM, ai fui viver com meu tio. Montei uma banca de jornal e depois fui embora, arrumei uma mulher. Com vinte anos nunca tive uma filosofia de vida, meus sonhos nunca foram sonhos, foi ilusão. Por mais que eu esteja agora tranquilo, trabalho no meu serviço lá, ganho qualquer trocado, eu não sei pra onde eu vou, não tenho sonho. Tenho ilusão, meu sonho foi destruído. Eu não consigo sonhar em ser melhor, pior, ou deixar de ser. Tanto faz ganhar agora dez ou vinte mil reais e gastar com bebida, isso ou aquilo. Eu não tenho opção de vida nenhuma.

 

P/1 – Recapitulando, o senhor abriu uma banca de jornais e se casou, é isso?

 

R – Não, depois fui embora pro interior, arrumei uma mulher, casei dezessete anos.

 

P/1 –  Então casou. Digo, se juntou?

 

R –   E daí nada deu certo, nada deu certo até hoje. Passei por uma, por duas, mas nada deu certo.

 

P/1 – O senhor nunca teve filhos?

 

R – Minha mulher teve.

 

P/1 – Então, sua mulher na época teve filhos com o senhor?

 

R – Ela tem 34 anos agora, minha filha.

 

P/1 – Então o senhor tem uma filha, como ela se chama?

 

R – Rita de Cássia.

 

P/1 – É sua única filha?

 

R – É. 

 

P/1 – E onde ela mora?

 

R – Na Brasilândia.

 

P/2 – Conta pra gente como você conheceu essa sua primeira mulher. Por que você foi pra outra cidade?

 

R – Foi uma coisa até esquisita. Eu cheguei na cidade, estava com dinheiro. Aí eu falei pra um amigo meu: “Sabe de uma coisa? Vou pegar o primeiro ônibus que passar aqui, vou pra qualquer cidade e vou parar.” Porque eu estava com seis mil cruzeiros no bolso. “Vai pra onde?” “Pra qualquer cidade.” Aí o ônibus parou e eu desci na cidade. Aí dei rolê de um lado pro outro, achei um bar, tinha um cara na frente: “Onde tem uma pensão aqui?” “Dona Irene, lá na frente.” Aí fui pra Dona Irene. Aí quando eu passei na rua, encontrei com uma moreninha na rua, eu era cabeludo. Ai eu falei: “Gostou?” “Gostei!” “Eu moro ali, ó.” “Depois eu vou te ver.” Aí chegou a mãe dela e falou assim: “A Maria está te esperando na esquina, se você não for lá, ela vem te buscar aqui dentro.” Aí eu pensei: “Quem é essa mulher?” Aí eu fui lá e ela estava lá. De lá fomos embora. Ela tinha um caso com um velho, de catorze anos de idade tinha um caso com um velho. Aí roubou o velho, alugou uma casa pra nós e fomos morar juntos. Não tinha nem uma semana e fomos morar juntos. 

 

P/1 –  Ela tinha catorze anos, e você?

 

R – Eu tinha vinte. Aí meu sogro foi lá, falou um monte pra mim, que eu não valia nada, aí eu disse que ele valia menos ainda, porque a filha dele não estava com ele, estava comigo. Se ele ficava um mês com a filha, eu fiquei dezessete anos.

 

P/2 – Como foi o casamento?  

 

R – A gente apanhava os dois juntos. Ou ela me batia ou eu batia nela.

 

P/1 – Ela bebia?

 

R – Não.

 

P/1 – E o senhor?

 

R – De vez em quando. Quando eu não batia nela, ela me provocava.

 

P/1 –  Por que motivo vocês se batiam?

 

R – Era à toa. Ela queria apanhar. A semana que ela não apanhava, ela não sossegava, e eu não queria bater. Ela me mordia, me arranhava, aí quando eu sentava a mão nela, ela sossegava. Aí vinha sossegada, era tudo felicidade. Eu esquecia tudo o que tinha acontecido. Aí voltava a me perturbar, começava tudo de novo. Era assim a nossa vida. Entre tapas e beijos. 

 

P/1 –   E quando veio a criança, continuou assim?

 

R – Sempre foi assim. Ela gostava. Chegou uma altura do campeonato que a coisa complicou. Não era só tapa, era facada. Aí foi ficando sério. Aí fui obrigado a largar. Levei uma na cara, mais três no peito, duas nas costas, facada na perna...

 

P/1 – Tudo ela?

 

R – Intermédio, o cunhado, e tal.

 

P/1 – Como foi descobrir que você seria pai?

 

R – A gente ainda estava junto. Nossa, era xodó, Deus no mundo e eu na terra. Só que tem uma coisa, ela não era mulher pra um homem só, ela gostava de namorar, ir pro forró, namorar. Como vocês dizem aqui, rala coxa. Como eu ia tirar a minha mulher daqui e levar ela pro baile pra dançar com outro? Eu não gostava de fazer esse tipo de coisa, ela gostava de fazer fusquinha, aí apanhava em casa. Ela namorava um, namorava outro, depois que eu fui saber. Peguei doença venérea dela, pensei que tivesse sentado em algum lugar, bem otário.

 

P/1 –  Ela trabalhava?

 

R – Não, quem trabalhava era eu.

 

P/1 –   Qual a sua ocupação?

 

R – eu trabalhava de fiscal, sempre fui inteligente, nunca fui burro. Trabalhava de pedreiro, serviço de roça, cortava cana... Cada época tem seu estágio. Eu sempre ganhei dinheiro, então ela ficava mal acostumada. Depois que eu larguei, ela não tinha opção nenhuma.

 

P/1 – E ela trabalhava?

 

R – Nunca trabalhou. 

 

P/1 – Ficava em casa cuidando da criança?

 

R – Da criança, dos meus amigos. Aí dezessete anos depois, fui embora, fui preso.

 

P/1 – Como foi essa passagem quando você foi preso? 

 

R – Eu era ladrão, acostumado à mordomia, boa vida, roubar tranquilo, mas o tempo já tinha passado, né? Aí no primeiro rolo que eu fiz, caí. Como eu já tinha furado gente, tentado homicídio, aí baterem o martelo, fiquei dez anos preso. 

 

P/1 – Como foi esse tempo que você ficou preso? Tem algum momento marcante?

 

R – Aprendi só uma coisa, se milagre existe eu não sei, mas comigo aconteceu um. No dia que eu estava condenado mesmo, eu acordei cedo, aí chegou o café da manhã e eu não quis o café. Aí chegou o almoço e eu não quis: “Vou embora hoje.” “Que embora o quê, rapaz. Você está condenado, não vai embora hoje.” “Vou embora hoje.” Quando deu duas horas da tarde: “Fulano de tal, judiciária, pague alvará.” Eu falei que ia embora e eles não acreditaram! Aí eu comecei a acreditar em Deus. Se alguém acredita em Deus, tudo bem, se alguém acredita na ciência, tudo bem. Mas existe uma força maior na minha vida.

 

P/1 –  Mas na prisão você fazia alguma atividade?

 

R – Sempre fui um cara inteligente. Fazia pulseira, fazia presente pra noiva, fazia pulseira gravada, vaso de flor, sempre trabalhava... Eu tinha um ateliê. Eu tinha lá dentro a minha cachaça, minha maconha, minha pinga, minha televisão, tudo que eu queria eu tinha.

 

P/1 –  Tinha amigos?

 

R – Não, amigos, não. Eu que carregava pra eles. Que ninguém tem amigo, a gente faz investimento.

 

P/1 –  Nenhum amigo de verdade, que você lembrasse?

 

R – De verdade não existiu, na vida não existe amigo. Existe meios de investir numa pessoa, pra pessoa lembrar de mim e depois lembrar do que eu fiz. Mas amigo eu nunca tive, nunca. Não sei o que é isso. Eu desconfio até da minha sombra. Eu trabalho com a Dona Irene, que é advogada da minha vida. Mas eu não sei nem por que ela me apresentou pra filha dela. E se eu não disser por que também, a filha dela não acredita em mim. Então é um investimento de razões, certo? Pra ter um respeito. Porque não existe amizade sem ter conceito, o mundo é assim.

 

P/1 – Você começou a acreditar em Deus na prisão ou depois que saiu da prisão? 

 

R – Sempre acreditei na força maior. Tanto faz na parte científica como na parte bíblica. Porque ninguém está aqui à toa. Ah, vão procurar átomo perdido no espaço, não sei o quê, tudo mentira. Vão dizer que o homem veio, começou com os macacos, isso não existe. Deus fez alguma coisa. Se a Terra explodiu e começou a dar vida, é mentira, porque cavando não existe vida? Estava a milhões de graus, explodiu e acabou. Então não pode ter vida um macerote que é puro carvão. Então por aí eu acredito em Deus. 

 

P/2 –  Por que o senhor foi pra prisão pela primeira vez e em que ano?

 

R – Foi em 1999. Eu trabalhei de 1975 até 1999, nunca colocaram a mão em mim.

 

P/1 –  E o que aconteceu pra você ser pego?

 

R – O tempo passou. 

 

P/1 –  Mas o que aconteceu, uma situação que te levou a ser preso?

 

R – Álcool. Eu estava bêbado e entrei no mercado pra comprar uma balinha pra gente chupar. Fui comprar um iogurte e uma faca pra chupar manga. Comecei a roubar. Aí eu peguei um delegado aposentado e cem mil reais. Só que eu peguei, subi até o centro, fica na frente da Ponte Preta, aí a polícia municipal me pegou lá em cima e eu fui em cana. Como o delegado já é delegado, imagina o que aconteceu? Uns sete, com o delegado em cima, me pegaram. O juiz que me julgou, Marcílio Brandão, foi lá. Invadiram ele, a mulher dele, o filho dele e ele. Aí no dia do meu julgamento ele estava bem nervoso, bateu o martelo e falou: ”Vai dançar mesmo.” Aí fiquei dez anos em cana. Dez anos, oito meses e dez dias.

 

P/1 –  Nesses assaltos houveram mortes? Era a mão armada?

 

R – Não, roubava de bem, era um ladrão consciente. Quem está roubando não tem que atirar né? Eu sempre fui na calma, dominava o lugar e não atirava em ninguém. Era caminhão de café, era trator, então eu me dava bem. Daí entrei em consequência: se acostuma com aquilo lá, começa a beber...

 

P/1 – A bebida começa na prisão ou antes da prisão?

 

R – O tempo todo. Quando eu bebi ficava muito agitado, usava droga pior.

 

P/1 – Depois que você saiu da prisão, o que aconteceu?

 

R – Quando eu sair, não... Eu saí faz muito tempo.

 

P/1 –  Então, aí você trabalhou?

 

R – Sempre trabalhei! Voltei pra vida normal, e hoje em dia não tenho opção de trabalho. Já não tinha. Eu trabalhava onde eu trabalho. Eu tenho dinheiro guardado, tenho dinheiro pra ganhar dia dez, se eu continuar fazendo, mas eu não estou nem aí, não sei o que eu vou fazer. Vou acordar amanhã, vou ter meu dinheiro no bolso, eu não sei se vou tomar um suco ou bater um papo com alguém na esquina.

 

P/2 – Quando você se separou, continuou vendo sua filha? Como é a relação de vocês?  

 

R – Legal. É normal, uma bagunça. Mas não é uma coisa, eu não tenho opção nenhuma, não tenho sonho, não penso em sonho, não sei se tenho que arrumar uma personalidade que eu nunca tive na minha vida.

 

P/1 –  Você faz algum tipo de terapia ou não?

 

R – Hoje, aqui. Primeira vez na minha vida que eu converso com alguém, a Odilene sabe disso. A Cíntia, filha dela, me conheceu assim, elas me conhecem do jeito que eu sou. Tranquilo, sereno e calmo. Sempre tomei minhas pingas sozinho. Quando me viu, não sei se sentiu piedade, dó.

 

P/1 – Como você conheceu a Odilene?

 

R – Na tenda da Mooca, onde ela faz o serviço. Eu entro quieto e saio calado, não tenho amizade com ninguém mesmo. Ela me via chegando, eu às vezes chego bêbado, às vezes são. Aí fico cinco meses sem beber nada, quando quero parar. Aí ela me fala: “Vou arranjar um serviço pra você, com alguém.”  Não sabia nem que era a filha dela. Aí fui bem recebido, respeitado, ela pegou uma televisão pra mim, me deu casa pra morar. Eu não deixo a desejar, me deu um beijo, dois. E estou lá, trabalho certinho.

 

P/1 –  Onde você morava antes dela te arrumar essa casa?

 

R – Na rua.

 

P/1 –  E como era morar na rua? Faz tempo?

 

R – Não se dorme, não se vive. Eu agora estou no paraíso, mas me sinto só. Então a decadência está em mim, eu sento e fico olhando. “Pô, se eu for embora daqui, vou passar por tudo de novo, passar fome, não ter onde dormir, comer, jantar, ir dormir num albergue pra implorar uma cama.” Agora estou sossegado, ganhando meu trocadinho, dá pra comprar um suco, um lanche, uma carne, tenho fogão. Na rua não tem nada, só tem maldade. Eu fico lembrando, aí não posso largar.

 

P/1 – Não fez amizade na rua?

 

R – Não, só conhecido. Amizade não tem. Meu pai mora bem pertinho. Mas eu não confio nele. Eu sou um cara sozinho no mundo, tem pessoas perto de mim, mas o mundo foi tão ingrato comigo que eu não consigo acreditar.

 

P/1 –  Essa moça com que você viveu tanto tempo, você ainda a vê?

 

R – Não. Já faz dez anos.

 

P/1 – Sente falta? Teve outra companheira?

 

R – Não. Sinto falta dela, mas da situação que ela me deixou... Como sentir falta dela? Ela me chifrou, me deixou para trás, o que eu acreditava, não tem como acreditar. Vivo sempre só.

 

P/2 – E a sua filha?  

 

R – Está casada, bem, feliz. Eu vivo só, sozinho, não posso acreditar em ninguém nem nada.

 

P/1 –  Você se sente só, você gosta ou é o destino?

 

R – Olha, dizem que o cara, quando está nisso, é uma depressão. Eu estou com depressão há mais de vinte anos e não morri ainda. Eu tento viver em comunidade, eu só tomo decepção. Não confio em mais ninguém. 

 

P/1 –  Quais são essas decepções?

 

R – Todas. Falsidade, mentira, tudo. O ser humano só quer se lascar comigo. Então, pra não me lascar, eu fico pensando: “Poxa, podia ser mais tranquilo, levar canivetada. Mas pera ai! Pra que eu vou levar canivetada?” Então eu me afasto e assim vivo só. É triste, mas eu não tenho sorte.

 

P/1 – Você acha que é sorte, você acredita em destino?

 

R – Não sei. Mas se a vida é boa pros outros, pra mim eu não sei se ela vai melhorar um dia. Eu não sei se analisa isso um dia, porque doido eu não sou, eu não rasgo dinheiro! Mas eu não dou sorte pra viver. E eu não consigo ter felicidade.

 

P/1 – Já conheceu um dia que você se sentiu muito feliz?

 

R – Não. 

 

P/2 – Nem quando você pegou a sua filha pela primeira vez no braço? 

 

R – Nunca.

 

P/1 – E qual foi o seu maior momento de tristeza na vida?

 

R – Quando minha mãe morreu.

 

P/1 – Como foi?

 

R – Eu estava preso. “Irmão, nossa mãe foi visitar Jesus, nossa mãe deixou a gente.” Nossa, aquele dia... Foi daquele jeito.

 

P/1 – Como era sua mãe, você lembra dela?

 

R – Em todos os momentos, eu era o Deco. 

 

P/1 – Mas e ela, como ela era?

 

R – Ela era 24 horas eu. Levantava e já ia fazer café pra mim, falava que eu tinha que comer, me alimentar. Quando eu estava em casa, levantava e fazia caldinho. Meus irmãos iam falar mal de mim e ela falava: “Não, aqui não, deixa meu bebê.” Era xodó. 

 

P/1 –  Como você recebeu a notícia? 

 

R – Foi por carta, da minha irmã. Essa que é evangélica, falou assim: “Tem alguém que não está mais no meio da gente, vem pra minha casa, vamos passar a vida juntos, que a mãe não faz mais parte desse mundo. Já era, agora acabou.” E eu nunca fui nem pra casa dessa irmã.

 

P/1 – Essa irmã que escreveu a carta?

 

R – É. Os outros irmãos viraram as costas.

 

P/1 – E por que você não foi visitar sua irmã?

 

R – Vergonha. 

 

P/1 – Vergonha do quê?

 

R – Do que eu tinha feito.

 

P/1 – Dos assaltos?

 

R – Ela era evangélica e arranjou um namorado agora. Ela é mais velha que eu nove anos. E agora eu não sei o que faço, Dona Irene me trouxe aqui hoje e eu falei que vinha. Falou: “Tá com medo?” “Não estou, é pra conversar com pessoas que me entendem, então tudo bem.” Mas e agora, o que eu faço? Vou sair daqui, voltar pra minha casa, pegar o trem, ônibus, metrô, nunca vivi na minha vida o que eu estou vivendo.

 

P/1 – Você não está tendo um acompanhamento pra falar desses seus problemas?

 

R – Eu não sei se falar com psicólogo, terapeuta, psiquiatra... Se piorar, não vai piorar. Eu vou embora agora, vou ligar a televisão, tanto faz o que passar, faço a comida automaticamente, levanto, vou pro serviço, acabo, ponho meu dinheiro no bolso, vou lá, compro pão, leite e pronto. Não estou vivendo, estou existindo. Fazendo volume na atmosfera.

 

P/1 –  Mas o que você gostaria que mudasse?

 

R – Se eu soubesse, não estou na situação que eu estou. Se eu soubesse procuraria um jeito de… Sei lá. 

 

P/1 –  Como foi contar essa história pra você? 

 

R – Outra pergunta que eu não sei responder. Tipo de um alívio.

 

P/1 – Teria algo mais que  você gostaria de contar?

 

R – Eu queria aprender a ser feliz. Que essa escola eu não aprendi ainda. Se você me der um milhão eu não estou feliz.

 

P/2 – Se o senhor pudesse mudar alguma coisa, o que o senhor mudaria?

 

R – Exatamente o que eu não posso mudar. Se eu pudesse dizer o que eu queria mudar, eu mudava e ficava melhor. Mas eu não tenho essa possibilidade, não tenho o que responder. Não culpo ninguém, não culpo a sociedade, a sociedade não faz nada de mal pra mim. Só não consigo conviver com certas pessoas. Porque eu ganho meu dinheiro, na vida de um pobre eu tenho a minha comidinha, ganho meu trocado. Mas eu não consigo pedir mais nada do que uma pessoa precisa. Mas eu não ia ligar se fosse rico.

 

P/1 – Se você pudesse pedir alguma coisa pra Deus, o que seria?

 

R – Pra me encontrar, ter felicidade. Eu não sei o que é sorrir, ficar de bem com a vida. Pra mim tanto faz pegar o ônibus ali ou ir a pé. Não tenho vontades, prazeres, desejos, que a vida seja mais bela, me faça sorrir. Pra mim tanto faz como tanto fez. Às vezes eu pego o dinheiro, e falo: “Vou festar!” Chego no lugar, sento, olho pro mundo e volto pra trás. Volto pra casa e penso que é por ali que eu devia ficar. Depois, quando não é assim, encho, bebo tudo, fico em casa. Fico dois, três dias ruim, depois volto ao normal. Não tem como. Estou perdido, não tenho como me achar. Um dia eu preciso, não sei como... Talvez tenha que me matar. 

 

P/1 – Talvez seja contando mais essa história, né? Todo mundo tem uma história pra contar.

 

R – Mas a minha não é contada. Não sei se sou amargurado, mas eu não sei.

 

P/1 – Muito obrigada por ter contado essa história.

 

R – Agora eu vou embora, até outro dia se for o caso. E assim eu vou viver minha vida. 


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+