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História

Não temos nada, mas nada nos falta

História de: Sebastião José Gomes
Autor:
Publicado em: 08/10/2019

Sinopse

Depois de perder a mãe, quando tinha apenas seis anos de idade, e após a conflituosa relação com o pai, foi morar e trabalhar com os avós, na moagem de cana. Namoradeiro, logo conheceu a namorada e atual esposa e, “com uma mão adiante e outra atrás”, como conta, se mudaram para Uberlândia, ansiando por melhores condições. Com apenas um jacá cheio de ovos, colchões, um caixote, a mulher e um filho, ficou um mês aflito por conta do desemprego. Conseguiu o serviço na CTBT, se aposentou com 30 anos de trabalho, e hoje vive sossegado em seu rancho, comendo churrasco, tomando cerveja e pescando.

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História completa

P/1 – Queria começar perguntando seu nome completo, local e data de seu nascimento.

 

R – A data de nascimento é 15 de fevereiro de 1927.

 

P/1 – Onde o senhor nasceu?

 

R – Em Monte Alegre.

 

P/1 – E seu nome completo?

 

R – Sebastião José Gomes.

 

P/1 – Nome de seu pai e de sua mãe, por favor.

 

R – Meu pai se chamava José Marcolino Rosa.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – Maria Ivana de Jesus. Quando meu pai me registrou, teve uma mudança na minha assinatura, ele pegou a assinatura da minha avó, que era Maria Clara de Jesus, portanto, nos meus documentos, está desse jeito.

 

P/1 – Qual a atividade de seu pai?

 

R – Meu pai era lavrador, morava na roça.

 

P/1 – Terra própria ou...

 

R – Não, não, não. Morava uns tempos em um lugar, uns tempos noutro. Ficou 18 anos sumido. Quando eu soube do o paradeiro dele, bati em cima, trouxe ele pra minha casa, morou comigo dois anos aqui e morreu.

 

P/1 – E os seus avós, o senhor conheceu?

 

R – Conheci.

 

P/1- Tanto da parte de pai como da parte de mãe? O senhor se lembra do nome deles?

 

R – O meu avô por parte de meu pai era Antônio Rosa, tratavam ele de Marcolino; e por parte de minha mãe era João Gomes Figueira, tinha um sítio ali na Furna, para cá de Monte Alegre.

 

P/1 – E as avós?

 

R – Era Maria Clara de Jesus, a minha avó.

 

P/1 – Da parte de?

 

R – Agora, da parte do meu pai, minha avó chamava Francisca... Agora que eu não sei.

 

P/1 – Seus avós eram dali da região mesmo ou vieram...

 

R – Tudo da região.

 

P/1 – O senhor tem irmãos?

 

 R – Da minha mãe, só eu. Eu me criei no mundo, para aqui, para ali, com os meus padrinhos de batismo. Eu ficava uns tempos num lugar, uns tempos noutro. 

 

P/1 – Qual é a casa em que o senhor morou, que o senhor se lembra mais, de cedo, quando o senhor era mais criança?

 

R – Dos meus avós

 

P/1 – Onde era?

 

R – Minha mãe morreu eu fiquei... Com seis anos eu fui para a casa dos meus avós, ali, para lá de Monte Alegre, no Córrego da Estiva. Era um ranchão grande. De um lado morava uma tia minha, e do outro lado moravam meus avós. Ali eu [me] criei até certo ponto, aí eu fui pra casa dos meus padrinhos, padrinho de batismo.

 

P/1 – Aonde?

 

R – Lá no Córrego do Retiro. Depois, de lá, meu padrinho vendeu a fazenda e comprou a fazenda na Matinha, nós fomos pra lá. Lá eu fui estudar, estudei oito meses na escola do Seu Ambrósio.

 

P/1 – E como era o senhor Ambrósio?

 

R – Senhor Ambrósio era um velhão forte. Ele conversava meio esparolado, tocador de cavaquinho, cantador que só vendo. No pagode ele era uma peça. Era bom demais, mas ele era severo. Ia eu e o filho do meu padrinho, todo santo dia. Fiquei oito meses na escola.

 

P/1 – Essa foi sua primeira escola?

 

R – Só essa, não tive mais escola. Depois, de lá, meu pai foi atrás de mim. Ele casou outra vez, estava morando numa fazenda do Norato Bernardo, para lá de Monte Alegre, Córrego da Grama, meu pai foi me buscar. Aí eu já estava com meus 15 anos já. Nós moramos lá três anos, e de lá da fazenda do Norato ele mudou pra fazenda do Roque, numa beira de cabeceira, e fez um rancho lá. Eu fui trabalhar na fazenda do Roque, um tal de Ildo, era aqui de Uberaba. Ele alugou a fazenda e mudou para lá, e eu trabalhava lá. Todo fim de semana eu recebia os meus 35 mil réis. Chegava em casa, meu pai (arrastava?) e botava no bolso, todo o fim de semana. Meu pai nunca foi garrador. Um belo dia, eu cheguei em casa de tarde, com meu dinheirinho no bolso; eu queria o dinheiro, minha roupa já estava toda estragada, rasgada, aí falei: “Esse dinheiro, eu preciso dele para eu comprar uma roupa, porque a minha está toda rasgada.” Ele foi e me tocou de casa. Tinha um fogão de lenha que saía assim lá da parede do meio da casa, eu pus um banquinho ali, perto do fogão, chorei, chorei, chorei. No outro dia, cedinho, juntei minha mochila e nunca mais voltei.

 

P/1 – O senhor foi para onde?

 

R – Fui pra casa dos meus avós, pais da minha mãe. Meu avô tinha lá um moarzinho de cana, coisinha só para o gasto. Todo domingo ele levava uma carga de rapadura para Monte Alegre, uma carroça de lenha, para defender as despesas. E ali eu, mais os meninos...  Nós éramos quatro pessoas, tudo solteiro. Nós íamos trabalhar na fazenda do doutor Cândido, doutor Cândido de Moura, na moagem de cana pesada. Eu fui para lá, tomei conta do carroção. Eu puxava lenha, puxava cana, tirava os bagaços do engenho. Naquilo ali foi tempo. Aí, de lá, eu mudei. Saí da casa dos meus avós, mudei lá para a casa do pai da dona desse engenho – da única filha que ele tinha –, lá na beira do bebedor. Fui para lá, trabalhar pro velho, um velhão grande, Fernando Pimenta. Peguei umas lavouras de brejo pra tocar, fazenda do Abílio Soares, gerente do banco de Uberlândia... Quanto tempo faz isso? Daqui ele foi para o Rio, ficou o Álvaro no lugar dele. Tinha lá um alqueire e três quartas de roça de brejo; arroz não dava, dava aqueles touceirões... Mas aquilo enferrujava tudo e não dava arroz; mas feijão, milho, abóbora, moranga, nossa senhora, era um absurdo! E ali tinha um retiro, tinha a fazenda velha... Meu sogro muda daqui de Uberlândia para lá, pra tomar conta dessa fazenda. E de lá da fazenda do Fernando Pimenta eu fui lá pra casa do meu sogro; eu era solteiro, nessa época. Eu morei três anos lá com eles, tocando roça. Eu pagava cinco mil réis por dia de despesa, naquela época. De lá saí casado.

 

P/1 – Como é que se chama a sua senhora?

 

R – Maria Lucas da Silva Gomes.

 

P/1 – O senhor a conheceu nessa fazenda?

 

R – Nessa fazenda. Eu tinha... Quando eu casei com ela eu tinha cinco namoradas. Eu era pagodeiro demais, cantava aqueles pagodes, tudo, que ficava assim... E o povo me enchendo as paciências. Olhava uma, estava com a cara feia; olhava a outra, estava com a cara feia... Juntava as namoradas todas ali, cada uma queria uma lasca (risos). E dessas cinco que eu tinha, escolhi essa, e estamos até hoje. Em julho – estava contando pra ela – fiz 50 anos de casado. Foi aquele festão lá na CTBC, lá no CESAG [Centro Esportivo e Social Alexandrino Garcia].

 

P/1 – E como é que o senhor veio para Uberlândia, Seu Sebastião?

 

R – Eu casei e fui morar numa ponta de cabeceira. Morei um ano nessa ponta de cabeceira e mudei de novo, fui lá para o Fernando Pimenta. Tinha uma casa na porta da cozinha assim, uma casa até grandinha, aquelas casonas antigas, de madeira... O povo falava que eu tinha parte com o (dema?). Que ele levantava de noite, ia no curral, levantava o gado pelo rabo igual a um leão. Eu morava na porta da cozinha, ele ia lá, me levantava para ficar com ele lá na cozinha. Eu coava café, nós bebíamos... A cozinha era do comprimento daquela casa, um muro velho. Tinha uma mesona de madeira no meio da cozinha... Ele andava de um lado pro outro urrando. Ali ele saía para o curral, levantava o gado. Tinha um ribeirão assim, ele ia lá, olhava a água e voltava para trás. Eu chegava lá dentro, algum gado já tinha deitado de novo, levantava, falava: “O velho não pode dormir, vocês também não vão”, eu sou bem desse jeito. Aquilo era uma barbaridade... Eu tinha uma faca paranaense desse tamanho, enfiava ela por dentro da camisa... Aquele velho daquele jeito, urrando igual a um leão, daquele jeito, falava: “Se esse velho...” E ali ia até o dia amanhecer. Amanhecia o dia, ia para o pasto, bater pasto Um dia apareceu lá o Olegário, daqui de Uberlândia. Ele tinha comprado fazenda lá no Jatobá, era ele, o (Liesér?)... É, acho que nessa época eram só os dois, depois que entrou o Olegário Marquês... Ele vendeu a parte dele para o Olegário. Morei lá três anos, mas lá dava maleita até nos macacos, naquela época. De lá, nós pagávamos a renda do que plantávamos, e eu mudei lá pros córregos – que ficam no Rio Claro – do genro do José Macedo, morava em Campina Verde. Lá nós pegamos um mato para derrubar, plantar, e o que nós colhíamos era tudo nosso. O dia que fosse pra mudar, entregava formada em capim. Lá eu plantei por dois anos. No ano que era para eu pôr a muda, apareceu minha sogra lá. Eu saí de lá, me faltou banha, e fui lá onde eu morei, no _________. Procurei lá uma banha pra comprar, ele disse que não podia vender. Tinha muita gente que trabalhava para ele nessa época, tinha _______de [porco] capado, não podia vender nenhum litro. Voltei pra casa sem nada. Cheguei em casa, arreei um égua que eu tinha, só pra cabra não entrar; daí eu subi na terra – que lá era um buracão onde nós morávamos –, encontrei com a minha sogra, ela vinha descendo. Tinha ido lá à fazenda, arranjou um cavalo emprestado e ia descendo ela e um casal de filhos, os três num animal só. Falei: “Oh, a senhora desce...”. Eu fui lá na olaria de um tal de Bento, chamava Ogusto,  tocava a olaria e tinha roça lá também. Tinha um capado engordando ___________. Aí eu fui lá, peguei a roça dele para quebrar em troca do capado. Quando eu cheguei em casa, depois da meia noite, ainda matei o capado.

 

P/1 – E você arrumou a banha?

 

R – E a sogra ainda trouxe uma papada dele aqui pra Uberlândia. O senhor sabe o que é uma papada?

 

P/1 – O que é?

 

R – O senhor o racha de cumprido, corta uma banda no meio da cabeça.

 

P/1 – Para fazer recheado?

 

R – Não, tirar... Ou tira o torresmo, a carne, tira lá um pernil. E ela falou: “compadre, vai embora, não fica aqui não.” E no outro dia ela veio embora. Ela veio embora e fui dar na cabeça de ir embora também. 

 

P/1 – Aí o senhor veio pra Uberlândia?

 

R – Vim direto para Uberlândia, porque eles tinham casa aqui. Vim para a casa da minha sogra.

 

P/1 – Onde era a casa?

 

R – Ali na Saraiva.

 

P/1 – Então a vida inteira trabalhando na roça e o senhor veio pra Uberlândia pra fazer o quê?

 

R – Com uma mão adiante e outra atrás. Só trouxe assim, um jacá de duas mãos, cheinho de ovo, com 30 dúzias de ovo; uns colchões vazios – que lá era colchão de paia –; um caixote de panela, a mulher e um filho.

 

P/1 – Já tinha nascido um garoto?

 

R – Que eu levei daqui pra lá. Foi engatinhando. O senhor viu aquele lá, é aquele lá.

 

P/1 – O que o senhor veio fazer em Uberlândia, Seu Sebastião?

 

R – Caçar um meio de vida, porque na roça eu procurei e não achei, só achei doença.

 

P/1 – E como é que o senhor conseguiu emprego aqui?

 

R – Olha, todo dia saía cedo, foram 30 dias, e não arranjava um serviço. Enfrentei depósito de lenha, rachando um metro de lenha para ganhar seis mil réis, naquela época.  E aqui foi indo, naquela vida, até que um dia eu fui... Descendo a João Pinheiro, passei ali aonde era o Hospital Santo Agostinho, hoje é Santa Marta, para baixo da Telefônica, ali. Estava uma construção ali do Seu Alexandrino, o mestre de obra se chamava Eduardo Segadães, era um português. Eu passei lá, pedi serviço, servente. Não sei se ele não foi com a minha cara... Eu estava com meus 28 anos, nessa época: “Não tem serviço não”. Fui descendo. Cheguei na casa do Osvaldo, irmão do Seu Alexandrino,  tinha um pedreiro e um servente que estavam assentando azulejo no banheiro.  Estava ali conversando com ele e chegou o Osvaldo com uma caminhonetinha, aquelas de carroceria de lata, antiga, chevroletzinha. Eu pedi serviço pra ele e contei minha vida, como é que estava. “Oh, rapaz, aqui eu não posso te dar serviço. Agora vai pra pintura a obra, é só terminar o banheiro.” Ele levantou a cabeça pra cima, parou: “Oh rapaz, amanhã você traz uma enxada e uma lata que eu te dou serviço.” Parece que eu fui lá no céu e voltei. No outro dia, quando ele chegou lá, eu já estava esperando ele. Foi lá dentro, deu uma volta, saiu: “Rapaz, põe sua lata e sua enxada e vamos lá dentro”, me levou lá onde eu passei no cara pra pedir serviço e ele falou que não tinha. Chegou lá e falou: “Eduardo, dá serviço pra esse rapaz aqui.” Eu fui lá pra dentro, ele me empurrou uma masseira, uma montanha daquela areia de campo para fazer reboque. Punha a cal queimar à tarde para, no outro dia, fazer a massa, amassar o reboque. Lá eu trabalhei por seis meses, isso foi em 1954. Um dia, de tarde, o velho apareceu lá.

 

P/1 – O velho era o Seu Alexandrino?

 

R – Seu Alexandrino. “Bastião, amanhã você pega sua ferramenta aqui e vai passar lá na Telefônica, nós passamos do Tito Teixeira, vamos começar a construir lá.” Eu passei, peguei minhas ferramentas e vazei para lá. Cheguei lá, eles me empurraram uma betoneira, ia até duas horas da manhã; um pãozinho lá, um lanche, e aquilo foi naquele batidão. Naquele tempo a Companhia estava pobre, não podia fazer muita coisa. A ladeira da rua assim, tinha uma cerquinha de tábua de forro de casa; a minha patroa, incomodada, mandava o irmão dela saber meu paradeiro – eu saía fora de hora. Pegava a bicicleta, chegava lá, olhava nos buracos das tábuas, me via agarrado na betoneira, voltava para trás, contava para ela, que ela ia sossegar, ia dormir.

 

P/1 – Queria saber se o senhor estava no trabalho?

 

R – Ih, aquilo rapaz, o tempo foi assim. Depois me puseram numa _________ de andaime, com um homem,eu não sei se ele já morreu, se chamava Zé Florêncio. Mas apanhou uma confiança comigo que precisava ver: “Seu Sebastião, o senhor veja um companheiro que sirva para ajudar o senhor vai isso assim, assim e pronto”. Todo andaime daquele prédio, por dentro e por fora, foi passado na minha mão. Nunca caiu uma tábua. Desmanchava um andaime, pegava o pé de cabra, arrancava os pregos todinhos e jogava numa lata de querosene, nunca um estrepou um pé, nunca. Depois, terminou o serviço, eu fui para a estrada lavrar madeira, lá perto de Xapetuba. Acho que antes dessa madeira me puseram na ‘faxinação’ do prédio. Eu trabalhei um tempo lá... Aí tinha um preto que trabalhava na oficina, chamava (Bargino?). Ele, ao invés de fazer o serviço da firma, ficava fazendo brinquedo, fazendo carrinho pra menino. Um dia o velho chegou lá, achou ele naquela situação, mandou pra rua na hora, o velho naquele tempo era feroz; foi lá onde eu estava, na limpeza, e falou: “Bastião, arranja um para ficar no seu lugar na limpeza que você vai pra oficina. Agora eu fiquei no meio do caminho, aí eu lembrei do Seu Carloto, ele estava trabalhando de servente com um cunhado meu. Fui lá e tomei ele do meu cunhado. “Você arranja outro pra você, que este aqui eu vou levar.” De lá ele saiu aposentado também.

 

P/1 – Aí o senhor começou na oficina e...

 

R – Sozinho. Tinha aquele menino meu que estava com oito anos, ele era brigão. Chegava em casa, as notícias: “O Divino bateu no menino de fulano, bateu no menino de ciclano”, ele era magro. Eu pegava ele, montava no cano da bicicleta e levava pra oficina. Naquele tempo, as minhas ferramentas lá, tinha uma circular, tinha uma furadeira dessas grandes, um torno para fazer aqueles pinos para cruzeta, minhas ferramentas... Aquilo eles desmanchavam uma rede, aqueles postes de aroeira, levava aqueles postes para lá, levava para a [serra] circular e fazia cruzeta daquilo.  A sobra eu levava pro torno, torneava, fazia aqueles pinos para colocar os isoladores. E aquilo ali foi, foi assim, o serviço foi aumentando, a Companhia foi crescendo. Falei: “Seu Alexandrino, olha, o serviço está aumentando, a Companhia está crescendo, e eu sozinho não dou conta do serviço da oficina não.” “Põe lá um da sua confiança na oficina com você, você vê o que serve”. Aí o meu menino já estava lá comigo, já levava ele; cortava aquelas chapinhas, fazia aqueles bracinhos de cruzeta, levava na furadeira, furava; punha um galão de tinta, dava um pincel e mandava ele pintar. E aquilo foi indo, indo, indo; um dia de Natal, ele chegou lá com dois envelopes, um para ele e outro pra mim. Eu abri e tinha cinco mil réis. ________ nunca tinha pegado um dinheirinho assim, ia achar bom, e mais o meu pagamento dentro do meu envelope. E ali a Companhia foi crescendo e foi aumentando gente. [26:10]

 

P/1 – O senhor acabou ficando muito amigo do seu Alexandrino, não é assim? Era uma relação diferente do que ele tinha com as outras pessoas.

 

R – Olha, eu mais o senhor Alexandrino tivemos uns atritos pesados. “Vou te mandar embora agora”, falava pra mim desse jeito. Ele entrava lá pro escritório e dali dez minutos voltava e não era mais aquele que nós estávamos brigando.

 

P/1 – Dá um exemplo de uma situação dessas, de conflito.

 

R – Um dia, eu pedi um aumento. Eu estava... Era eu, um sobrinho do Seu Alexandrino, chamado Luis Carlos, Pedro de Souza Carmo e o Divino meu, que já estava rapaz. Ele me prometeu que ia sair o aumento, e esse aumento foi aquele que não saiu.  Um dia eu cheguei na oficina, um menino reclamando que o que estava ganhando não estava dando para comer. Falei: “Senta aí.” Pus todo mundo pra sentar. Tinha uma casa velha onde guardava material usado, eu fui lá ver um material para fazer um DG. Aí eu estou lá olhando a matéria, o doutor Luís entrou na oficina, achou todo mundo sentado – o escritório dele era lá em cima –, mandou todo mundo pra rua.  Eu cheguei lá, só ficou o Luis Carlos, que era sobrinho... Primo do doutor Luis, filho do Zé Maria. Procurei pelos meninos e ele falou: “olha, chegou aqui o doutor Luis, viu todo mundo sentado e mandou pra rua.” Essa hora eu virei um capeta, não vi a hora que eu subi essa escada e fui sair lá no escritório dele. A mesa dele lá, ele sentado, e eu cheguei em frente. Falei: Olha, você mandou meus meninos pra rua, vai acertar as contas deles e a minha também. “Eu vou junto com eles.” E falei: “qualquer solução eu estou esperando lá embaixo.” Meu estopim era curtinho. Quando eu desci, já no pé da escada encontro o velho. O apartamento dele era lá no gaiolão de ouro, acho que ainda é lá, parece que tem apartamento lá ainda. “Oh Bastião, que atitude foi essa que você tomou?” Falei: “Seu Alexandrino, olha, está com dois meses que o senhor está me prometendo melhorar o ordenado dos meninos, e até hoje não saiu nada; os meninos estão reclamando [de] fome. Eu mandei eles sentarem lá até o senhor chegar para ver o que é que o senhor vai resolver e o Luís mandou eles pra rua, foi lá e mandou eles pra rua,  e eu vou junto com eles.” Ele foi lá e na mesma hora pegou os meninos e mandou trabalhar.

 

P/1 – E o doutor Luís, nessa história?

 

R – Ele não desceu mais. Um dia eu queria chegar nele no porrete lá na oficina.

 

P/1 – Em quem?

 

R – No doutor Luís.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Eu apertado de serviço, serrando umas cruzetas, com a circular ligada, serrando a madeira, foi lá na chave e desligou. Fui lá e liguei de novo. Ele tornou a ir e desligar. Ah... Pra que? O velho chegou e eu falei: “Se o doutor Luís voltar aqui vou chegar nele na lenha, doutor Alexandrino”, foi na época que ele foi pra Suécia. “Não! Deixa o Luisinho comigo. Um dia desse ele vai embora, vai estudar e nós ficamos mais sossegadinhos.” E foi mesmo.

 

P/1 – Ao que o senhor atribui essa relação com o Seu Alexandrino? Porque era uma coisa profissional, mas era também de muita amizade, ele tinha respeito pelo senhor.

 

R – Olha, eu toda a vida gostei de progredir, mas gostava também que os outros olhassem o meu lado. Eu não tinha hora pra trabalhar não. Quantas vezes eu levantei da minha cama pra concertar as peças de um trator quebrado na fazenda, pra não ficar três homens parados numa noite? Eles me buscavam e me levavam lá. E lá aquele monte de corrente, dessa altura assim. Cada metro da corrente pesava cinco quilos, corrente de desmatamento. Na volta ela se gastava e estourava. Quando chegava a estourar, ele ficava fininho assim, e encher tudo aquilo ali no suor... Duro. E a noite inteira soldando aquilo ali, aquilo foi uma vida.

 

P/1 – E a oficina que o senhor tinha montada aqui, onde é que ela ficava, exatamente?

 

R – Sabe onde é a garagem, na João Pinheiro? Ali embaixo, no fundo daquela garagem. Ali nós tínhamos uma cozinhação de cruzeta. O velho toda a vida já foi atrapalhado, desparolado, afobado. Os muros eram lá em cima assim, feita de telha de eternit, muito ________ de madeira lá dentro. O tamanho... Grande ali. Fica entremeio da João Pinheiro e o fundo daquele prédio grande. Naquele prédio grande ali era a casa velha que eu fui caçar o material. E ali tem um tacho de ferro, chapa grossa, tem dois metros e meio, as cruzetas.  Tinha dois metros e sessenta, a cruzeta tem dois e meio; punha cinco cruzetas de cada vez dentro daquele tacho cheio de piche, com uma tampa de lado assim e outra de cá. Aquilo ali, quando o piche está soltando uma fumaça branca, está na hora de pular fogo. O velho chegou lá e achou que o fogo estava pouco, e abriu o buraco pra chegar mais fogo lá pra dentro. Rapaz, o fogo foi pra dentro do tacho. Tivemos sorte demais, queimou toda a oficina toda. Tinha uns canos da parede que punha as cruzetas para escorrer, tinha umas canaletas assim – aqueles quadradinhos assim –, escorria lá dentro; a gente tirava e voltava para o tacho, e o fogo pegou nessa madeira pichada. Levou uma hora e vinte de fogo. O Corpo de Bombeiros... Levou uma hora para eles chegarem lá ainda. Subia pelas paredes assim... Levou uma hora e vinte para dominar o fogo.

 

P/1 – E acabou com a sua oficina?

 

R – Queimou tudo, caiu tudo. Ainda bem que, naquela época, tudo era segurado, o seguro pagou tudo. Me lembro como se fosse hoje, 35 mil.

 

P/1 – E quanto tempo o senhor demorou pra reconstruir sua oficina?

 

R – Eu trabalhei muito tempo lá no tempo... Muito tempo. Ele chamou o carpinteiro, fincou quatro esteios de aroeira de novo, fez tudo de novo, foi rapidinho.

 

P/1 – E ele não chegou a comentar com o senhor sobre ele ter aberto fogo lá...

 

R – Quando ele incendiou o fogo lá, ele foi chamar o corpo de bombeiros, não voltou mais lá, e nós pelejando para apagar. Quando vimos que não tinha mais jeito, meu menino começou a chorar... Os extintores – tinham dois extintores – acabou a carga toda e não dominou. Tinha uma porta que saía assim que tirava a madeira e a outra lá para o lado do escritório. Ele foi (para lá?) e não voltou mais. Teima dele, porque eu falei pra ele: “seu Alexandrino, o fogo não está pouco não, isso aí vai pular fogo.” Mas ele era afobado demais, apavorado.

 

P/1 – Seu Sebastião, nesse momento em que a empresa começa a se expandir, ela começa também a melhorar a tecnologia, e chega um momento em que não precisava mais de poste, de cruzeta. Como é que ficou o trabalho do senhor na oficina?

 

R – Quando eu aposentei, ainda tinha esse serviço.

 

P/1 – Era de mais manutenção?

 

R – Ainda tinha manutenção. Furar aqueles trilhos, fazer postes, trabalhar com maçarico.

 

P/1 – Como é que foi essa mudança de postes de madeira para postes de trilho?

 

R – É que a madeira de aroeira foi acabando. A gente foi executando, via onde tinha poste... Foi comprando, e aqueles postes de aroeira das estradas tinham que estar acerando, e o poste de trilho não precisa, não queima.

 

P/1 – E fazia acero em volta das linhas de transmissão para não queimar os postes?

 

R – E aonde tinha muito facho, tinha que derrubar também pra não queimar em cima os fios depois.

 

P/1 – Não entendi. Como é que é?

 

R – Derrubar de foice, baixar o facho para não queimar a rede, não queimar as linhas.

 

P/1 – E além desse trabalho que o senhor fazia para as linhas, o senhor também fazia trabalhos para as centrais...

 

R – O primeiro DG que eles compraram veio da Suécia, 360 linhas. Eu desencaixotei. Eu estava desencaixotando, o velho ficou ao redor de mim, olhando, olhando. Falei: “Seu Alexandrino, eu faço isso também.” Ele me respondeu “Então você vai fazer um pra mim também”, desse jeito. E eu fui pedir as ferramentas. Ele falou: “você vê as ferramentas que você precisa e manda comprar.” E aí, mais que ligeiro, pedi o material também. Dentro de quatro dias entreguei um daqueles de 360 linhas.

 

P/1 – Que tinha comprado na Suécia?

 

R – Que veio da Suécia.

 

P/1 – E funcionou, o seu?

 

R – Está funcionando até hoje, nós é que fabricamos, até hoje. Todo ano tem ampliação. O Divino, meu, ficou no meu lugar. Agora eles fizeram uma oficina para ele. Eu dei o terreno e eles deram o material e a mão de obra.  Foram três mil e tantos reais, está na frente do predinho lá, meu apartamento lá no fundo.  Ao lado ali tinha pé de mexerica, mandei arrancar, ficou uma mangueira. Doze metros de comprimento por quatro metros de largura.

 

P/1 – E o senhor ainda vai lá mexer na oficina?

 

R – De vez em quando vou lá dar um empurrão para ele. A gente viaja, faz montagem...

 

P/1 – Qual é a lembrança mais forte que o senhor tem de seu Alexandrino? O senhor que era tão próximo dele.

 

R – Olha, o seu Alexandrino, para mim, eu considerei como um pai, como um pai. Quando eu comprei aquele chão ali, comprei aquele chão com a cara e a coragem. Eu não tinha um mil réis por conta daquilo. Fechei o negócio... Você vê como são as coisas; cheguei lá no escritório dele, fechei o negócio, 380 contos. Naquela época era contos. Os homens que me venderam o terreno eram Sebastião e Cario, eram corretores... Cheguei lá, sentei na mesa do lado de lá: “pois não, Bastião?” Falei: “Seu Alexandrino, preciso de 400 conto hoje.” Ele se assustou. Levantou a cabeça, me olhou: “Bastião, o que você quer fazer com 400 conto?” Fui e contei pra ele do negócio que eu tinha fechado. Ele pegou o telefone: “Dona Ilce, arruma 400 conto pro Bastião agora”, desse jeito. Todo mês ele descontava... E eu depositei um dinheirinho na firma, todo mês. Eu tinha uma cota de cimento de seis mil sacos por mês. Comprei 300 sacos de cimento pra mim, na época, porque eu precisava, e fui depositando o dinheiro, pra eu construir lá onde está hoje. E na época eu fui pegando 20 sacos, 30 sacos, 20 sacos 30 sacos. Tinha só um pedreiro e um servente lá trabalhando. Um dia ele apareceu lá com a caminhonetinha dele e foi lá, em uma escadona comprida assim, que fica pra lá e pra cá, ele foi chegando. O mestre de obras estava na última laje de cima. Quando eu vi que ele ia subir, eu vim por trás e segurei a escada. Falei: “Essa escada vai entortar e derrubar esse velho no chão.” Ele foi lá em cima, andou lá em cima tudo, voltou: “Bastião, você está de parabéns”, falou assim e foi embora. Foi a última vez que ele foi lá em casa. Aquela ferragem daquele prédio ali, aquele sobradinho, ali tem cinco metros de profundidade. A base da estrutura daquilo tem 44 colunas. De uma vez só eu ele deu 230 sacos de cimento, gratuito. E aí o Zé Leonardo também foi me ajudando.

 

P/1 – Está lá na sua casa construidinha, bonitinha, com a família toda abrigada.

 

R – Fiz a casa da frente lá pus a filha solteira, a caçula; casou, pus ela lá. Aí não deu certo com o marido, mas ela casou, pus ela lá e eu mudei pra roça. Quando voltei já tinha estrangulado tudo o casamento dela. Ela já tinha três filhos.

 

P/1 – O senhor, quando resolveu se aposentar, como é que foi essa decisão? Foi obrigado a se aposentar?

 

R – Não. Eu me aposentei com 30 anos de serviço e não deixaram eu sair, trabalhei mais seis anos, aí resolvi parar por conta própria. Pedi a conta, não quiseram me dar. Eu trabalhava com três elementos, quatro comigo. Eu sempre falava pra eles: “O dia que eu sair dessa oficina, essa oficina vai fechar.” Mas eles não acreditavam. E aí trabalhei mais seis anos. Resolvi parar, pedi a conta, não quiseram me dar; trabalhei mais três meses. Ia sair de novo, aí eles resolveram. Eu já tinha meu rancho lá na beira do rio.

 

R – Em que ano foi isso, seu Sebastião?

 

R – Não me lembro não, faz 14 anos que eu moro lá.

 

P/1 – E agora, quando o senhor olha daqui de fora, quando o senhor olha pra CTBC, o que o senhor vê, hoje?

 

R – Olha, a CTBC já esteve em melhor situação do que nos dias de hoje, é o boato que a gente vê, está na boca do povo. Porque naquele tempo o trem era diferente, era diferente. Depois que senhor Alexandrino faltou, quando ele estava na cadeira de rodas – porque ele não enxergava mais quando estava na cadeira de rodas –, eu o vi chegando; eles traziam ele na porta da oficina, eu ia de encontro com ele, conversava, pegava na mão dele... Ele pegava na minha mão e apertava assim, e chorava (pausa). E aquilo ali, vou te contar... O velho faltou. O dia que eu sube que ele tinha morrido, fazia dois dias que tinha sido enterrado.

 

P/1 O senhor não estava aqui em Uberlândia?

 

R – Estava lá no rancho. (pausa)

 

P/1 – Seu Sebastião, o que o senhor teria para dizer pra uma pessoa que fosse começar a trabalhar amanhã na CTBC?

 

R – Olha, eu hoje não posso dar informação de nada que existe lá hoje, a coisa toda mudou, tudo mudou.

 

P/1 – O senhor, embora de fora, como é que o senhor enxerga o futuro dessa empresa?

 

R – Não sei. Naquele tempo a empresa deu serviço pra muita gente, mas era gente que trabalhava. Hoje eles dão serviço pra gente ficar à toa, pra não fazer nada, isso é que eles estão querendo hoje, receber o ‘din din’. Aí não dá. Eu saí de férias e fui pra Lapa do Lobo.

 

P/1 – O Senhor foi lá pra Portugal?

 

R – Lapa do Lobo, Mato Grosso (risos), fazenda deles.

 

P/1 – Do Seu Alexandrino?

 

R – É. Doutor Luis telefonou lá, foi carregar e falou: “o que o Bastião precisar aí, vocês resolvem”. Eu levei meus trens tudo num caminhão pra passar a semana.

 

P/1 – Foi pescar?

 

R – Fui pescar. Fui eu, minha velha e uma filha, solteira – hoje é casada, o marido dela trabalha na Infraero, o carecão lá, o marido dela.  Morou sete anos comigo, lá naquele predinho, depois de casada. Saiu porque quis. Hoje tenho uma neta e uma filha solteira, no predinho. Eu tenho lá meu quarto lá em cima, meus ternos estão todos lá. Eu tinha um lá no rancho, dei para um neto e falei: “leva isso pra lá que eu não preciso disso”. Terno mesmo, de calça e paletó, só tenho três agora. Tinha quatro, não uso! Tenho par de sapato que eu pus no pé uma vez.

 

P/1 – O senhor só vem uma vez por mês aqui pra Uberlândia? Fica lá o no rancho o tempo todo?

 

R – Só venho fazer compras. Eu saio mais a minha velha dia de terça-feira e volto sábado no rancho. Tenho uma boa canoa, um bom motor... (Um dia?) fomos lá para perto de Três Ranchos, quatro léguas. Lá nós armamos a barraca, fazemos nossas comezinhas, aí nós vamos pescar, pegar os peixes, botar nas caixas de gelo, e quando enche, nós botamos tudo dentro da canoa e vamos embora. A família no fim de semana vai lá, gosta de peixe, trás. Hoje, se você for lá no meu rancho, não tem quase pra você comer.

 

P/1 – Olha, nós estamos satisfeitos, acho que nós fizemos uma boa conversa. O senhor teria alguma coisa que o senhor gostaria de ter dito e não disse?

 

R – Ih, rapaz, é melhor a gente ficar calado (risos). Uma vez, quando eu saí de férias... Eu estava saindo de férias, a oficina era aqui embaixo, na João Pinheiro, ainda. O seu Alexandrino veio e falou pro Zé Leonardo, falou: “Zé, o Bastião está saindo de férias; ele gosta de dar as pescadinhas dele e ele não tem uma condução pra ir pescar. Você vai caçar um carro pra comprar pra ele, e pra ele tem que ser um jipe.” Foi na ocasião que a Safra, ali na Vasconcelos Costa, estava fechando. Tinha um jipe lá, de viajante, com as portas de aço. Eu tenho ele até hoje, faz quase 40 anos.

 

P/1 – Não acaba.

 

R – Está com três anos que reformei o motor dele, gastei dois mil e 300 reais na reforma, só no motor.

 

P/1 – Está inteiro?

 

R – Está. Então o Zé Leonardo foi lá, comprou, mandou pra Intermas, fez a revisão, tudo, já transferiu para o meu nome. Aí o Walter Garcia, filho do seu Alexandrino, que morreu, falou: “olha Bastião, papai te deu o jipe, eu vou te dar o bagageiro”, está lá em cima dele até hoje.

 

P/1 – Seu Sebastião, como é que o senhor se sentiu dando esse depoimento pra nós?

 

R – Pra mim, parece que foi outra vida. Tem dias que eu paro assim e fico pensando no meu passado, me lembro da minha vida de hoje, e comento mais a minha velha: “nós mudamos para Uberlândia, nós não tínhamos uma troca de roupa para vestir”. No armário via que fazia dó. Ela tomou remédio, eu não tomei pra curar não, a maleita voltou pra trás. Vai num dia e no outro dia tremia que nem uma vara verde. Deitava no chão, lá no terreiro, no sol rebentando e tremendo. Foi uma vida dura, não tinha nada pra comer. Tinha um mandiocal na horta, na roça – que lá nós morávamos dentro da roça, num rancho de sapé. Ia lá, arrancava mandioca, botava pra cozinhar, punha sal e enchia a barriga. Aquilo foi vida. Hoje, graças a Deus, nós não temos nada não, mas se aparecer 20 pessoas pra comer lá em casa, hoje, eu não preciso sair de casa pra tratar de ninguém não, graças a Deus. Minha carne acaba, eu telefono aqui, falo: “Vá lá no Catalão e fala pra ele me mandar tantos quilos de carne.” É aquele supermercadinho que tem pertinho  de casa, ali. Agora vou passar lá e pagar uma continha de sessenta reais de carne, que foi. O Divino que estava na porta de casa que levou. O dia que eu quero ir pescar eu vou, o dia que eu não quero eu não vou. Vou tomar minha cervejinha, que tem um boteco lá na entrada. Vou lá, pego uma caixa de cerveja, levo lá pro rancho, uns tubos de refrigerante para os netos... Oh, graças a Deus.

 

P/1 – Muito obrigado então pelas suas histórias, pela sua memória, e pela sua gentileza de reviver as coisas.

 

R – Tem muitas coisas. É muito longo pra gente contar. A gente esquece, a idade vai chegando e a gente esquece. Estou com 74 anos já nas costas, e não são 74 dias não, né...

 

P/1 – O senhor contou boas histórias pra nós. Muito obrigado.

 

R – Foi uma luta dura, mas compensou. Aquele filho lá casou, adquiriu casa, depois dos filhos criados a mulher tocou ele de casa, ficou sozinho. Aí arranjou outra mulher lá do Paraná, já está com dois anos que tão juntos. De vez em quando ele vai com ela pro Paraná, na casa dos parentes dela pra lá; fica três, quatro dias e vem embora. Aí ficou sem lugar pra ele ficar. Tinha aquela casinha lá da frente, eu falei: “esconde aí e seu serviço você faz aqui”. Aquela varanda lá na frente do predinho lá, a oficina dele era ali.

 

P/1 – E a história do seu Isidoro? Tinha uma bigorna...

 

R – Tem, agora até está na oficina dele, no barraco dele. O Doutor Luís mais o Zé Leonardo... Foi através do Zé Leonardo. Eu fiz uns serviços pra ele lá, fiz um bagageiro lá e estava montando na casa dele.

 

P/1 – O senhor quer tomar um gole d’água?

 

R – Não, só depois que eu comer a carne (risos). A verdura que eu mais como é carne. Lá em casa, pode ir lá todo dia que tem carne pra comer.

 

P/1 – Então sua ‘verdura’ é carne?

 

R – É carne.

 

P/1 – Até que enfim a gente conseguiu coincidir de ter o senhor aqui, porque já faz um ano que eu estou inquieto, um ano e meio estou cobrando essa menina, porque eu queria ter o seu Sebastião gravado em vídeo, precisava do seu Sebastião, cadê o seu Sebastião. Ela ligou lá pra filha dele: “onde ele está?”

 

R – Teve um dia que eu cheguei aqui, eles estavam meio doidos pra aposentar um rapaz, o _______ Machado. Já tinham arrumado dois elementos, estava faltando mais um. Cheguei na hora, nós fomos nós três para o INPS [Instituto Nacional de Previdência Social] dar uma entrevista lá também. Ele saiu de lá aposentado também, trabalha por conta própria e mora lá no Rio.

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