Busca avançada



Criar

História

Neusa: a mulher independente nos anos 50

História de: Neusa Caldeira Sanches
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/08/2018

Sinopse

Neusa nasceu no dia 21 de julho de 1935 na cidade de Minas Novas, Minas Gerais. Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, Neusa conta sobre sua infância muito pobre, em uma rotina itinerante devido à busca de seu pai por melhores condições. Até que pela ajuda de um parente se estabelece em São Paulo, em um cortiço na região do Brás. Traz também as lembranças de São Paulo à partir dos meados de 1940, falando sobre as dificuldades dos imigrantes, passando pelas dificuldades da 2a guerra mundial, a situação de uma mãe solteira e todos os lugares por onde trabalhou e passou.

Tags

História completa

P/1 – O seu nome, onde a senhora nasceu e a data?

 

R – Neusa Caldeira Sanches, nasci em Minas Gerais, na Cidade de Minas Novas em 21/07/1935.

 

P/1 – Certo. Agora o nome dos seus pais e dos seus avós?

 

R – José Sanches Ruiz, Maria Lúcia Caldeira, e avós paternos, Dolores Ruiz Cobos e André Sanches Roldão, e por parte materna Blandina Diniz Vale e Benedito Gomes Caldeira.

 

P/1 – Seu pai ele era descendente de qual país?

 

R – Ele veio de (Otiba?) província de Granada na Espanha, saiu com 17 anos e veio pro Brasil.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – Mamãe mineira, viveu sempre por lá e morreu em São Paulo.

 

P/1 – A profissão dos seus pais?

 

R – Papai veio de um circo, minha mãe conheceu meu pai dentro de um circo, era um artista e percorreu todo o estado de Minas, casaram, aí teve que abandonar o circo. Minha mãe não concordou.

 

P/2 – O que ele fazia no circo?

 

R – Ele fazia tipo força, empurrava dois automóveis, quebrava uma pedra desse tamanho, aquelas coisas de circo, né, e trapézio também, ele queria que a família fosse, né, mas a mãe não aceitou, eram muitos filhos e ele queria todos artistas, né, mas não deu. Não houve possibilidade nenhuma de circo.

 

P/2 – E como ele foi parar no circo?

 

R – Ele se engajou no circo pra poder viajar, porque ele fugiu da Espanha com dezessete anos, embarcou num navio e veio embora atrás de uma tia. E chegando aqui ele não tinha profissão, então ele teve que se alojar em algum lugar e o único lugar que oferecia casa e comida era lá no circo e foi onde ele ficou. Depois ele fez várias coisas, mas circo era uma das coisas que ele mais gostava de fazer.

 

P/1 – E como foi que vocês chegaram em São Paulo? Isso daí foi tudo em Minas, né?

 

R – Foi.

 

P/1 – Ele trabalhou em circo em Minas?

 

R – Largou o circo, foi garimpeiro, extraiu ouro de muito lugar, trabalhou com diamantes. Viajava pra São Paulo trazendo diamantes de uma firma diamantária de Diamantina, onde nós morávamos. E o sonho dele era vir pra São Paulo e morrer aqui porque a família ficaria amparada, porque havia alguns parentes remanescentes ainda. E o que aconteceu foi exatamente isso. A gente embarcou num trem, ele a mulher e cinco filhos e viemos pra cá. Descemos na estação do norte, fomos morar no Brás. Na época da guerra, foi 1943, no dia 7 de setembro que a gente desembarcou nessa terra e aqui ficamos pra sempre. É, amanhã faz aniversário.

 

P/1 – A senhora tem irmãos?

 

R – Tenho, vivos só tenho uma, eu e mais uma, os outros quatro, uma de criação, já são falecidos. É, tem quatro porque a gente trouxe de Minas uma com a gente, que já faleceu também, então filhos mesmo eram cinco e essa outra que veio junto com a gente.

 

P/1 – Vieram todos?

 

R – Todos. Aí espalhou, cada um foi trabalhar num canto, porque não existia moradia, não se tinha dinheiro, cinco filhos pra criar, ta difícil, então pôs um aqui, outro ali, outro ali, não existia lugar pra morar, tava tudo ocupado pelo pessoal que fugia pra São Paulo. São Paulo era lotado, não havia um porão desocupado pra se morar. Eu morei em um que era uma porta com um túnel, mas que com doze anos eu tinha que me abaixar para entrar. Era enorme, confortabilíssimo, você olhava assim, era dois, dois, dois e dois até outra rua, tudo aquilo por 100 mil reis, mas tinha lixo até aqui. Mamãe cavou com meu irmão, com enxada, quando apareceu o cimento ficou bonito, limpinho, mas para entrar você tinha que se abaixar, lá dentro você ficava em pé, mas cá da porta. Eu brincava muito de trenzinho, ia até lá no fundo, né, mas quando batia a cabeça nas paredes desta grossura, porque eram alicerces antigos de tijolos, mas não tinha onde se morar, você tinha que aceitar o que aparecesse.

 

P/1 – E essa residência que a senhora tá descrevendo fica em qual bairro?

 

R – Ficava na Rua Coronel Seabra, no Brás, Mooca também, não sei se ali pertence à Mooca porque é pertinho da Rua da Mooca que já não existe mais nada. Eram uns cortiços, que eu morei em vários. Por isso eu falo um pouco de espanhol, eu lidava com os espanhóis e com os italianos e criança assimila rápido, né? Então eu entendo a língua do pessoal lá e tinha que lidar com esse pessoal todo. Mas a maior parte dessa infância foi ali, eu só vim pra cá, pro Aeroporto quanto eu já tinha catorze anos, aí o pai já estava falecido e tudo.

 

P/1 – E essa vivência no cortiço, como era?

 

R – Era impressionante, um banheiro pra sete, oito famílias dependendo, porque na parte de cima geralmente tem um sobradão. Em cima mora geralmente aquele que pode pagar mais e em baixo nos quartinhos moram os mais simples. Nesse porão que eu morava o casarão era em cima. Então havia um banheiro, sem chuveiro sem nada, banho de bacia e era um bacião. Os meninos tomavam primeiro porque eram mais limpinhos e as meninas tomavam depois naquela bacia com a mesma água pra aproveitar. É impressionante, né?

 

P/1 – E essa foi a sua infância? A senhora passou boa parte da infância assim?

 

R – Boa parte. Aos oito anos eu vim pra cá, antes disso foi como eu te disse, eu vivi com meus pais nos garimpos, nas várias profissões que ele teve, mas tenho lembrança de tudo desde meus três anos de idade.

 

P/1 – E essas lembranças mais antigas de infância?

 

R – Me lembro muito, de um rio limpo, cristalino e eu dentro dele.

 

P/1 – Isso na época do garimpo?

 

R – Do garimpo. Aquelas coisas assim que você não esquece nunca mais, cachoeiras. A criança criada assim no mato é muito gostoso, catando morango pra comer. É, eu me lembro muito disso e tenho muita saudade dos rios limpos que nós tínhamos, e aqui eu não consigo ver mais nenhum. Antes de morrer eu gostaria de ir pra uma fazenda onde tivesse um rio limpo, cristalino ainda pra ver, aquelas pedras que você vê no fundo, que você passa por cima daquilo e você vê os peixes nos seus pés. É uma vergonha o que tá hoje.

 

P/1 – E no garimpo? Havia outras famílias lá?

 

R – Várias. Porque era assim, essa cidade era bem menor que Diamantina e a gente foi... meu pai foi se aprofundando de tal maneira que eu não posso te dizer exatamente onde ficava essa cidade porque eu nunca consultei um mapa pra saber. Chamava-se Chapada, o que vocês falam hoje Chapada Diamantina, Chapada ...., não sei qual dessas Chapadas seria, que lá existia o garimpo verdadeiro, que o ouro era vendido no mercado. Cada pai de família trazia seu saquinho de ouro, pesava no meio da rua na balança pequenininha, pesava o ouro, e ali ele dava o dinheiro e você já entrava no mercado e já comprava o que comer, se você não conseguisse garimpar você não teria o dinheiro pra comer. Dentro de rio ou rio cheio de barro porque onde tem o ouro é justamente dentro das barrancas, então você tem que estar o dia inteiro, meu pai doente, até, muita coisa. É mosquito que pica e que vira feridas enormes, isso tudo eu me lembro. Minha mãe tinha sete feridas numa perna nessa época. É mosquito de lavras porque a lavra é um lugar que tem barro e que propicia a isso, você não tinha médico na cidade, né, era o farmacêutico, isso eu me lembro muito bem. O meu padrinho de batismo era o coletor de impostos da cidade. Então você vê, uma cidade que não tinha médico, mamãe foi parteira por opção das pessoas, porque não tinha ninguém que fizesse um parto, então ela fazia vários partos lá sem ter conhecimento nenhum. Só pela experiência da vida. Porque tinha que se salvar as pessoas, mas eram cidades pequenas realmente. Meu pai não tinha condição de sair, quanto mais ele entrava pra longe, menos condição de voltar ele tinha, né, porque eu me lembro de viajar à cavalo, aquelas cestas usadas, colocávamos as tralhas e estrada, lua cheia, me lembro disso, aquela claridade da lua e você no cavalo de uma cidade pra outra, toda a família. Ele foi batalhador à beça. Um excelente pai.

 

P/1 – Aí, num determinado momento vocês vieram à São Paulo?

 

R – Num dado momento alguém deu uma mão, que foi um sobrinho da minha mãe, que era um caixeiro viajante, e ele ficou com pena da situação e ele ajudou a pagar as dívidas e trazer a família mais pra civilização, vamos dizer assim, que foi Diamantina e daí pra Belo Horizonte e Belo Horizonte pra São Paulo.

 

P/1 – Quando vocês chegaram aqui seu pai exerceu qual profissão?

 

R – Ele começou... porque nós fomos morar em casa de parentes, e tinha um tio dele, parente dele que morava em Vila Formosa e nós fomos morar lá, foi quando conseguiu reunir a família outra vez nessa casa com ele, então ele vendia tomate na rua, que se vendia em carroça, né, até conseguir um emprego de pedreiro e foi aí que ele conseguiu. Porque ele não viveu muito tempo aqui, ele veio, da chegada até a morte dele foi menos, foi um ano e pouco, dois anos no máximo. Ele tinha certeza que ele ia morrer, então ele trouxe a família pra ficar aqui, ele achava que aqui era melhor. Então ele tinha uma úlcera que não foi tratada e ele foi trabalhar na Fundação do Colégio do Carmo e o que aconteceu? Ali ele foi piorando. Tanto é que a minha mãe não tinha direito a aposentadoria, foram onze meses de pagamento de API. E um advogado conseguiu pra ela, pela dificuldade da vida, uma mulher viúva numa cidade estranha, com quatro crianças praticamente, todos pequenos. Ele arrumou um mês a mais de pagamento e ela conseguiu a aposentadoria.

 

P/1 – Com o falecimento do seu pai, como ficou o sustento da sua família?

 

R – Passou a ser assim, cada filho que tinha idade de trabalho, catorze anos, foi pra um lugar, uma pra uma casa de família ser pajem, outra foi ser ajudante em outra casa de família, e foram trazendo dinheiro pra mamãe, porque mamãe também foi comigo pra uma casa de família. Eu me lembro muito bem, nós trabalhamos pra uma francesa, a Dona Simone, a memória que eu tenho é muito boa, e eu fui ser, pra ela me levar junto, ela tinha um filho de sete anos, foi na Barão de Campinas, número 39, nós fomos trabalhar e mamãe era cozinheira e eu fiquei como, não babá porque ela já tinha uma babá. Ele tinha sete anos e era um francesinho danado, levado à beça, e eu fiquei ali com a minha mãe, quer dizer, pra poder sobreviver, a família se dividiu. Com muitos, muitos anos depois que a gente conseguiu voltar outra vez numa casa decente, toda a família, aí eu, mamãe não foi mais, nós fomos trabalhar.

 

P/1 – Nesse período que você ainda era criança você estava acompanhando sua mãe, como era o cotidiano da sua vida, como era o seu dia-a-dia?

 

R – Olha, eu tenho várias fases, essa que eu trabalhei que eu não gosto de me lembrar, porque não pelo fato de ser empregada doméstica, porque não tinha nada a ver, era porque eu me sentia mal das pessoas não entenderem a necessidade que eu tinha da minha mãe e me obrigavam às vezes ir dormir mais cedo num porão que eu tinha medo dos brinquedos do garoto. Tinha um cavalo branco, e eu tinha sete ou oito anos, não me lembro exatamente a idade, e eu era obrigada a deitar sete horas da noite lá em baixo, e minha mãe ficava em cima. Isso eu não gosto de me lembrar, porque aquele cavalo me assombrava e ninguém me entendia, a verdade é essa. Outra fase boa realmente foi no Brás, depois que meu pai morreu, eu já tinha meus onze, doze anos, eu tocava castanholas, eu sapateava na rua, eu cantava Vicente Celestino, ganhava uma maria-mole cada vez que cantava Vicente Celestino, o dono da leiteria me dava e eu abria o peito e cantava, né, era muito bom porque a gente brincava na rua. Na minha poesia eu falo tudo isso, nós tínhamos o Cosme e Damião que eram dois soldados da cavalaria que passava nos quarteirões e nos davam uma tranquilidade imensa.

 

P/1 – E a região onde você morava, o Brás, como era o cotidiano da cidade nesse período, o que você se lembra de São Paulo?

 

R – Eu me lembro de São Paulo antes da guerra terminar e depois que ela terminou, que esta fase eu vivi bem, antes de terminar quando nós havíamos chegado, em seguida em 45 quando ela terminou, aí vieram as dificuldades, eu me lembro muito bem da falta de pão, de carvão, de farinha, que eu mesmo com pouca idade ia pra fila à noite pra guardar lugar e era a noite inteira pra de manhã pegar um filão de pão que não tinha. Já tinha terminado a guerra, mas ficou uma falta. O gás não existia, carvão também sumiu, os carros foram movidos à gasogênio, você não sabe disso? Gasogênio atrás de carro, mas durou pouco tempo isso. Era tudo muito difícil, faltou tudo porque foi mandada muita coisa do Brasil para os pracinhas, os nossos pracinhas, a Força Expedicionária Brasileira. Então muita coisa faltou em São Paulo, filas de carvão e de pão, então o cotidiano da família era este, pra ir pra fila, passar a noite pra no dia seguinte comprar o pão, um ficava numa fila pra pegar mais um, e assim ia. Agora as pessoas trabalhavam normalmente, o Brás com o seu comércio, os italianos e os espanhóis misturados ali convivendo, muitas brigas nos cortiços também porque depois começaram a vir também os pernambucanos, os nortistas e misturou todo mundo, aí tinham brigas homéricas porque eram muitas raças pra dar certo, né, e todo mundo se entender.

 

P/1 – E com relação aos seus estudos, você estudou?

 

R – Eu fiz o meu primário e meu pai havia falecido justamente naquela época, perdi um irmão que era o esteio da família com dezenove anos, de meningite, morreu em casa com meningite, aquela brava. Não pegou em ninguém graças a Deus, e os hospitais não ficavam com ninguém pra morrer, mandavam morrer em casa porque não tinha condição era muita gente. Então esse meu irmão com dezenove anos falecendo, eu via a família com dificuldade, minhas duas irmãs trabalhavam, o outro rapaz trabalhava também, que na época ele tinha seus catorze, quinze anos e o outro tinha dezoito pra dezenove quando morreu. Ficou o outro que não era muito bom, ele não gostava de trabalhar. Então quem ficava na frente da coisa eram as duas meninas e minha mãe tinha que ficar comigo. E eu vendo a dificuldade nesse cortição que a gente morava, eu saí do colégio, do Romão Puiggari passei numa tabacaria, que Deus o tenha em bom lugar, o Sr. Clemente Teixeira, um português simpático e tinha uma tabacaria na esquina da Rangel Pestana com a Carneiro Leão e eu entrei lá e pedi um emprego com doze anos, e ele, por me ouvir, uma criança tímida, me deu um trabalho. Então eu selava charuto, uma folha, cola com os dedinhos e fazia os montinhos de charutos, mas era uma fábrica de fumo que fazia o cigarro, depois eu ia pra máquina e cortava o cigarro e pegava aqueles montes e tal. Esse foi meu trabalho aos doze anos de idade e daí eu não parei mais. Aos catorze eu tirei meus documentozinhos que era uma autorização do juiz pra trabalhar. Minha mãe vendo minha força de vontade me deixou trabalhar e aí eu comecei e não parei mais. Daí pra cá eu fiz tudo que você pode imaginar honestamente, só não fui desonesta.

 

P/1 – Quais são as lembranças da época da escola?

 

R – Muito ruim, porque eu pertencia à caixa, que a caixa antigamente era o que é hoje da merenda escolar e eles davam um pãozinho, minha fome era tanta que eu comia o pãozinho antes do recreio, beliscando, chegava no recreio eu não tinha o que comer. Fome, por quê? Porque eu estava tuberculosa e não sabia, e meu pai morreu com tuberculose também, meu irmão morreu com tuberculose na laringe dentro de casa e eu fui contaminada, e como eles cuidavam muito da família na época, vinha o departamento de saúde em casa pra ver, tirar radiografias e tal, eu não sei o que se passou. Eu sei que eu tive uma tuberculose e fui saber muitos anos mais tarde. Então a minha fome era justamente por isso, era uma fraqueza imensa, a necessidade da comida que a gente tinha e não tinha dinheiro pra se comprar tudo e, então, sei lá, aquilo se calcificou acho que sozinho, milagre de Deus com certeza. Então a escola pra mim era muito triste porque eu ia para as filas de igrejas pra conseguir roupas e às vezes, naquela idade tão inocente, eu via um vestido que não me servia, mas eu ficava tão encantada que mesmo curto eu queria levar ele pra casa e isso foi a vida da minha mãe, ela foi uma batalhadora, uma heroína porque ela fazia tudo pra conseguir manter a família unida e junto ali feliz com ela.

 

P/1 – Aí, você.....

 

R – Minha infância não foi nada agradável, essas lembranças são muito tristes.

 

P/1 – E a sua adolescência?

 

R – É, a tuberculose voltou aos vinte anos, dezenove anos, foi quando eu já era discotecária, e meu gerente observava como eu tossia, uma tosse seca e tal, mas a gente não tinha tempo de se cuidar. Eu tinha que trabalhar porque aí nessas alturas só tinha eu, minha irmã e minha mãe porque todos tinham já, um tinha morrido, o outro também morreu, ficou uma irmã mais velha casada, minha irmã solteira e eu, então a gente tinha que sustentar a minha mãe. Então você trabalhava com o sapato furado, você punha um papelãozinho ali e ia, porque todo o dinheiro que naquela época se garantia se punha em casa, ajudando pai e mãe, o que sobrava e que a gente tinha as nossas coisas. Então pra mim ficava difícil fazer outra coisa dentro da minha juventude. Eu era feliz porque eu trabalhava no comércio, eu via gente, eu conversava, eu era muito querida até que descobri que havia essa tuberculose, que o médico da firma examinou e mandou tirar radiografias. E eu tive que ir pra, eles pagaram todo o tempo que eu fiquei doente e estava em hotel em Atibaia e eu voltei pra São Paulo só depois que a mancha desapareceu, porque não havia contágio, só tinha uma mancha no pulmão esquerdo, no ápice do pulmão esquerdo, mas escarros e o sangue não estavam como contágio da tuberculose, mas era um processo.

 

P/1 – E os amigos, você tinha muitos amigos na sua juventude, como eles eram?

 

R – Tive poucos amigos, mas muitos colegas de trabalho. Agora amizade que perdura há cinquenta anos, nós somos em três que até hoje estamos juntas.

 

P/1 – Vocês se conheceram como?

 

R – Uma delas junto comigo na loja onde eu trabalhava. A outra saiu de Poços de Caldas e veio morar na minha casa que a gente deu guarita porque ela tinha uma criança, havia se separado e essa está com a gente até hoje. Todas nós estamos juntas, quer dizer, somos as três amigas inseparáveis. Elza Barbosa e Guiomar Teixeira.

 

P/1 – E desse período que você era jovem, quais são suas lembranças?

 

R – Músicas, serestas mil, animava festas tocando violão e cantando a noite inteira e a gente fez isso. Era... eu respiro música desde que eu comecei a trabalhar com disco.

 

P/1 – Quais eram os locais que vocês frequentavam pra se divertir?

 

R – Bailes em casas de família, tudo em casas de família. Mais tarde, quando a gente começou a ficar mais, sei lá, mais maliciosinha, né, porque a gente começa a ficar numa idade, aí tinha os grandes bailes no Aeroporto, bailes de formatura; mas tudo muito bom até que o Aeroporto se transformou, um pouco porque tinha, não gosto de citar nomes, mas tinha um tal de Arancã Clube que foi participar de lá e acabou com os bailes familiares e virou uma pouca vergonha só. Aí já não podia mais frequentar, mas era mais assim, bailinhos em casas de família. Essa era nossa distração e mais tarde as serestas que a gente fazia em festa de aniversário e outras coisas.

 

P/1 – Como eram esses bailes, como vocês iam vestidas, o que vocês ouviam, o que vocês conversavam?

 

R – Vestidas da mesma forma que na época dos anos 60, dos anos 50, então a gente estava sempre ali, né? Agora era música com vitrolinha, né, vitrola na sala e gente se divertia muito, era muito bom, se namorava.

 

P/1 – Como eram esses namoros?

 

R – Mesma coisa que hoje, só que menos público, já que tentar os homens todos tentaram, isso não tenha dúvidas e também tem outra coisa que eu volto no tempo. As lojas que a gente trabalhava no comércio, não na minha loja que eu trabalhei por ultimo, onde eu trabalhei por seis anos, as anteriores, os patrões abusavam da gente, aproveitavam da necessidade.

 

P/1 – Abusavam sexualmente?

 

R – Eles faziam convites, gestos obscenos. Aos catorze anos, não vou dizer que é família tradicional de São Paulo, muito conhecida. Aos catorze anos ele me fez um gesto tão horrível que aos catorze anos eu fiquei tão espantada que eu chorei o tempo inteiro, peguei minha bolsa, larguei documento, larguei dinheiro e fui embora. Era difícil, os homens eram iguais a hoje. Agora os namoros eram... as tentativas eram as mesmas, não tenha dúvida, mas não era tão promíscuo quanto está hoje.

 

R – E você se lembra do seu primeiro namorado?

 

P/1 – Eu tive muito pouco, pra te dizer que eu tive muito pouco namorado, eu gostava das pessoas, só, mas era muito difícil de me aproximar. Eu tinha uma certa timidez em relação às pessoas então era muito difícil. Eu me relacionava, isso mais tarde, na juventude eu se tive três namorados foi muito.

 

P/1 – E esses namoros eram dentro do esquema da época, né?

 

R – Era eu que punha distância por isso que eles não duravam. Eu fui criada de uma forma que tudo era pecado, tudo era pecado, mamãe sempre com aquela coisa rigorosa, não faça isso que você vai para o inferno, é pecado, é pecado mortal, aquela coisa toda, então eu punha distância porque eu queria casar de véu e grinalda, não aconteceu, mas queria me casar de véu e grinalda, ter uma família, por eu ser do signo de câncer, eu sou família, meu sonho era ser mãe, só tenho uma filha por opção minha, mas poderia ter tido mais.

 

P/1 – Então a senhora não é casada e tem uma filha?

 

R – É, eu não sou casada e tenho uma filha, não posso te dizer o nome do pai da minha filha porque ele é conhecidíssimo e ainda vive, eu o respeito muito.

 

P/1 – A senhora teve essa filha com quantos anos?

 

R – É, porque a história foi muito longa, entre o conhecimento, das caronas que ele me dava, ele já estava de olho em mim e eu não sabia e foi um período assim, eu fui ter a minha filha depois de dez anos de relacionamento.

 

P/1 – Você teve um relacionamento de dez anos com essa pessoa?

 

R – Opção minha, eu queria um filho, queria ser mãe, como eu não via chance nenhuma de uma outra forma, engravidou e ficou.

 

P/1 – E ele apoiou você?

 

R – Nem um pouco.

 

P/1 – Na gravidez? Foi contra?

 

R – Odiou, não que ele fosse incorreto, ele estava me avisando que não deveria porque ele não poderia assumir. Ele tinha outros compromissos e que não poderia assumir, e eu tô contando minha historia pela primeira vez assim abertamente, e eu passei uma gravidez muito difícil porque eu tive que abandonar a Prefeitura que eu trabalhava, porque eu não quis enfrentar a barra, me escondi num lugar longe, mas eu queria ter minha filha e tive o apoio da minha mãe e da minha irmã. E nasceu, nasceu bem, tudo bem e depois aos poucos foi voltando, mas ele estava certo, eu não vou tirar a razão dele.

 

P/1 – Isso foi em que época?

 

R – Ela nasceu em 63.

 

P/1 – Como era ser uma mãe solteira nesse período?

 

R – Difícil, eu enfrentei algumas dificuldades por esconder aquilo, então criava uma história mentirosa que o meu marido viajava, hoje não, hoje eu berraria aos quatro ventos e não teria problema nenhum. E pra ela foi muito difícil não ter o nome do pai. Ela enfrentou barras horrendas no colégio, mas também pela força que eu tinha. Aos doze anos eu contei a história pra ela, porque ela queria um nome fictício para o pai e eu tinha medo porque enquanto era na escola, tudo bem que uma criança usa um nome de mentira do pai, mas depois que ela tem que assinar documentos, fica complicado, aí eu tive que chegar nela e dizer. Ela conhecia o pai, o pai ia lá e tudo, mas não se relacionavam muito bem porque ele fugia muito. Ele tinha muito medo de se aproximar. Ao se aproximar e ela começar a gostar dele, ele não poderia estar presente. Então eu compreendo o lado dele e o meu lado. Então foi muito difícil e eu continuei criando, e minha mãe me ajudou muito, me apoiou demais e olhou ela enquanto eu trabalhava, pra ganhar o dinheiro e eu consegui com que ela se formasse, tenho muito orgulho disso, é uma excelente profissional, é uma enfermeira conhecida no hospital onde ela trabalha, entrou na faculdade, saiu da faculdade, prestou concurso lá, fez um testezinho, passou e são dezessete anos de emprego. Então acho que eu criei bem.

 

P/1 – Como é o seu relacionamento com a sua filha?

 

R – Maravilhoso, nunca me deu problema, ela não poderia nem depender de mim porque eu não tinha estudo suficiente pra ajudá-la, então ela se virou sozinha, passou com mérito, pegava um ônibus, um metrô, e um trem pra estudar na Zona Leste e morando no Aeroporto.

 

P/1 – Ela é casada?

 

R – Hoje é.

 

P/1 – Ela tem filhos?

 

R – Duas filhas.

 

P/1 – Então a senhora é avó?

 

R – Sou avó e criei as duas também, ela não veio morar comigo depois de casada, ela quis ficar sozinha um tempo, eu deixei os dois sozinhos, mas os aluguéis muito altos e ela não tinha ainda um emprego, assim, o emprego dela não dava o suficiente pra pagar o aluguel daquela casa, do apartamento onde eles moravam. Ele também estava começando a vida de casado, né, e aí eu os convidei pra morar, porque eu tinha um apartamento em Moema ainda, e eu morava sozinha com os dois dormitórios grandes. Eu cedi para eles um quarto que no fim se transformou na casa inteira e eu fui dormir no quarto de empregada. Eles passaram a morar na casa inteira e eu fui pra lá. As crianças, uma delas já era nascida e depois nasceu a segunda e aí ficou pequeno, e ainda não tinha dinheiro pra comprar uma casa pra eles. Então o que é que a mamãe fez? Filha única, vendi o apartamento, fiquei sem nada e dei de entrada na casa dela e passei pro nome dela a casa. Eu fiquei com a mala e a cuia porque se eles brigarem lá e me mandarem embora eu saio de mala e cuia porque eu não tenho mais nada. O que eu tinha eu dei, que foi o apartamento pra comprar essa casa que nós moramos, e fui morar junto porque eles precisam de mim pra cuidar das crianças. Não sou empregada, mas eu tenho que cuidar das meninas, adolescentes.

 

P/1 – A senhora disse que começou a trabalhar aos doze anos na tabacaria, né?

 

R – É, e quando ele morreu, ele me mandou um recado que queria que a caçula, tem um outro nome que se dá quando é uma pessoa, é, qual o nome que ele deu? Eu não me lembro. Porque a gente fala caçula porque era a menor, como se fala quando os jogadores têm aqueles garotinhos? Qual o nome que eles dão? Que entram dentro de campo. Ah, fugiu o termo. Ah, mascote! “Quero que meu filho continue cuidando da mascote da minha filha”. Que ele esteja em bom lugar. Eu fui no enterro dele na Avenida Angélica, mas você vê, é uma criatura que foi legal comigo.

 

P/1 – Esse foi seu primeiro trabalho?

 

R – Esse foi meu primeiro trabalho. Depois foi, depois teve fábrica de rádio, trabalhei na linha de montagem, daí foi pra, cheguei a ser pajem, mas não deu muito certo não, e depois eu fui pra lojas, depois fui pra uma fiação e tecelagem trabalhar no tear. Era dureza trabalhar naquilo, saía cheia de algodão, pegava um matinho cheio de espinhos pra tirar o algodão da saia e como eu tinha um problema de pulmão já antigo, eu tinha muito receio, né, porque o pó que você engole, na tecelagem. Aí eu comecei a optar pelo comércio porque era mais limpo e era o que eu mais gostava de fazer.

 

P/1 – Foi o que você mais se identificou?

 

R – Foi, foi. Vender é comigo mesmo, adoro vender.

 

P/1 – E a sua função no comércio?

 

R – Fui balconista de loja de roupas, balconista desse senhor que me fez perder o emprego, o da esquina da Rua Direita, se eu falar mais todo mundo sabe quem foi. Já morreu com certeza, mas foi muito canalha. Depois eu fui de loja em loja de cidade porque eu era menor ainda, mas quando eu atingi os dezoito anos e tirei a carteira de maior eu já entrei nessa firma que é a loja de discos. Lojas Assunção Sociedade Anônima.

 

P/1 – Certo, e você morava nessa época...?

 

R – Cujo um dos diretores, Sr Álvares Quirino que ainda estava na ativa até pouco tempo no Ibirapuera e o que faleceu recentemente o Dr. Caio de Alcântara Machado.

 

P/1 – Você ainda morava no Brás então?

 

R – Nessa época não, dos catorze anos em diante eu passei a morar no Aeroporto, Campo Belo e Moema.

 

P/1 – E essa loja era?

 

R – No centro da cidade, na Praça da República.

 

P/1 – Como você ia trabalhar, qual era o meio de locomoção?

 

R – Ônibus que se chamava 113 Aeroporto, era o único, e Santo Amaro 103 que eram os únicos que tinham na estrada. Que é uma estrada que vai ao Aeroporto que hoje é a 23 de Maio/Gutenberg, chamava-se autoestrada Moreira Guimarães. Eu morava ali do ladinho, pegava meu ônibus ali em frente à Cruz Vermelha e ia até o Centro e voltava pra casa pra almoçar em duas horas, tomava um ônibus, quarenta minutos pra chegar, almoçava pela boca e pelo nariz e voltava outra vez pra firma, porque não se tinha dinheiro pra comer na cidade. Até descobrir a Liga das Senhoras Católicas, que aí a comida era barata e o ordenado já estava dando e aí eu almoçava lá, porque era muito corrido.

 

P/1 – O ordenado era bom?

 

R – Eu não sei te dizer porque não lembro exatamente, mas nós tínhamos comissão das vendas dos discos, né, então nós tínhamos um salário e a comissão, e a gente vendia bem, né, fazia parada de sucessos também da Rádio Nacional, com o antigo Helio de Alencar, falecido, ia ao ar às onze e meia na Rádio Nacional. E a gente como tinha uma cadeia de lojas muito grande, era selecionado a vendagem de discos maior. E muitos artistas estiveram ali no meu balcãozinho conversando comigo por causa das paradas de sucesso. E a gente então colocava, né, primeiro, segundo lugar.

 

P/1 – Quais artistas ficavam mais tempo, quais se destacaram mais nessas paradas?

 

R – Olha, ali naquela época, no comecinho era mais João Dias, que o Francisco Alves ele era substituto, Sílvio Caldas, tinha Agnaldo Rayol começou também naquela época, Tito Madi era esse pessoalzinho todo que ia pra lá, e Sidnei Morais tinha um conjuntinho também, e Inezita Barroso que fez grande sucesso com “A Marvada Pinga”, e os turistas gostavam muito da nossa música. Vendia-se muito pra se levar pra fora. Então a música brasileira pra eles era assim, uma coisa maravilhosa. Então eles levavam montes, porque antigamente eram LP’s, né, e o vinil, então era isso que eles levavam pra lá.  E esses cantores da época que tinham sucesso. Agora de novidade depois entraram, entrou a época dos anos 60 e já veio a Jovem Guarda que eu ainda estava lá, Jerry Adriani, Roberto Carlos, mas já não iam tão às lojas, aí já eram, aquela história, o sucesso deles já eram garantidos, eles não precisavam correr atrás.

 

P/1 – Aí depois desse trabalho teve quantos mais?

 

R – Depois da loja eu me lembro que fui pra Prefeitura, trabalhei no Departamento do Tesouro que era ali na Florêncio de Abreu, entrega de avisos, eu trabalhava com entrega de impostos, setor de separação. Trabalhei mais ou menos um ano e pouco, aí fiquei grávida e resolvi largar o emprego e fui embora. Daí fui trabalhar por conta própria pra sobreviver.

 

P/1 – O que fez?

 

R – Tudo, eu comprava e vendia, eu trabalhei com vendas de roupas, eu montei essa loja na garagem de casa e depois fui trabalhar na lavanderia que te falei que era da minha irmã pra poder morar nos fundos da casa. Eu tinha minha mãe e minha filha comigo. Eu cuidei da minha mãe que nunca precisou de ir pra fora trabalhar e minha filha também nunca trabalhou. Eu dei conta do recado. Tá certo que o pai dela posteriormente, bem mais tarde, resolveu ajudar alguma coisa, porque aí eu não podia trabalhar porque minha mãe estava muito mal, então eu tive que cavar o dinheiro dentro de casa, e aí eu fiz bandeirinhas pra Fórmula 1, eu fiz macacão de corrida, e peguei um molde de uma professora e sem nunca ter costurado na vida, nunca aprendi, nunca aprendi, nunca fui à corte e costura, peguei os moldes pequenos, médios e grandes, e fiz os macacões e vendi muito.

 

P1 – E hoje em dia?

 

R – Hoje em dia, quando a minha filha se casou eu ainda me sustentava, trabalhei com telefones, vendendo telefones quando era permitido. Depois veio aquela circular proibindo a venda e ficou difícil. Aí comecei a comprar e vender coisas através de um jornal, que se chama Primeira Mão, ganhei muito dinheiro com esse jornal e comecei a me virar. Aí trabalhei num berçário também, depois de, quando ela já estava já com seus dezoito anos. Antes dela casar eu trabalhava num berçário, trabalhei quatro anos num berçário com crianças pequenininhas, adoro crianças, e depois levei as crianças pra casa e trabalhei de baby-sitter que era uma forma de ganhar dinheiro por hora, né, então de noite ao invés de descansar, eu botava ela e o noivo juntos brincando com as crianças e ganhava um dinheirinho.

 

P1 – Atualmente a senhora trabalha? Tem alguma atividade?

 

R – Não, hoje não, porque quando eles vieram morar comigo eu comecei a tomar conta das crianças, então eu ainda trabalhava quando morava no apartamento em Moema, mas quando eu vim pra essa casa, toda a minha vida ficou pra trás, então não tenho conhecimento ali e já não dava mais pra trabalhar fora. Eu fazia alguma coisinha em casa, assim, aí eles passaram a me dar uma mesada por causa do apartamento de 80 mil dólares que eu passei pra eles, então eles me dão uma mesada. Porque agora eu não tenho de onde tirar e nem posso vender o apartamento. Já ta implícito na compra da casa, né, tem um documento que diz que eu tenho a metade, mas não tem valor porque eu nunca registrei esse documento.

 

P1 – O que a senhora faz hoje pra se distrair?

 

R – Posso falar? Eu jogo bingo, eu adoro bingo e com ele eu me viro. O dinheiro que a minha filha me dá eu gasto lá, de repente, ganho duas, três vezes mais e passo dois, três meses bem, depois me enfio de novo em dívidas, aí vou de novo lá e ganho de novo e assim eu vou levando, e cantando e tocando violão com minhas amigas e sempre fazendo poesias.

 

P1 – A senhora faz poesias?

 

R – Escrevo, escrevo muito, gosto de escrever e tenho uma coisa que não sei explicar pra você, o espírito que desce de repente e aí começo a fazer poesia com um vocabulário que não é meu, você vai ver minhas poesias que eu trouxe pra você vê, que às vezes não sou eu que escrevo aquilo. Não adianta dizer que eu não tenho métrica, que eu não tenho mesmo, não tenho estudo. Eu tenho o primário e uma escola de vida muito grande.

 

P/2 – E quando a senhora começou a escrever?

 

 R – Olha, eu fazia no comecinho, eu brincava muito de fazer quadrinhos, mas nunca uma poesia concreta. Mas houve um episódio em minha vida, quando a minha filha se casou, eu sempre tive muita mediunidade, houve uma temporada que eu não podia estar perto de vocês aqui que você começava a pensar e eu começava a ver o que você estava pensando e eu me sentia mal porque às vezes eu perguntava, e era verdade, e eu comecei a ficar com medo disso porque eu sou católica, nunca fui, não tenho nada contra o espiritismo, pelo contrário, devo ter alguma coisa. Eu tive muitas respostas de coisas minhas através de canais porque as minhas respostas todas foram através de canal. Um dos canais que tive respostas foi o Doutor Fritz era o canal 39, na época eu tinha TV a cabo, eu tava desesperada de dor de coluna e eu comecei a falar com ele sozinha no quarto de empregada, onde eu fui morar no apartamento porque eu dei a casa pra eles e eu comecei a rezar, rezar, rezar e pedir por ele que me ajudasse. Sabia que ele era o único espírito que eu conhecia que era médico e pela televisão ele me disse “Vim atender a sua prece”. Eu arrepiei inteira, olhei pra televisão, não consegui saber o que estava se passando, fiquei o dia inteiro procurando saber se era uma chamada de filme, não ouvi nada desse nome. Dois dias depois eu contei em casa e voltei lá e pedi perdão a ele porque eu não tava conseguindo acreditar naquilo, e ele me respondeu de novo pela TV, dessa vez com a imagem parada. “Eu vim atender a sua prece”. E no dia seguinte eu estava bem. Então são umas mediunidades que a gente tem e não acredita e não vai ver. E a poesia é assim.

 

(troca de fita)

 

P/2 – Nós havíamos perguntado pra senhora quando a senhora começou a escrever.

 

R – Foi no período que a minha filha se casou e eu me senti muito solitária e eu resolvi terminar todo o relacionamento com o pai dela, recolhi as chaves e gritei “Independência ou Morte”. Todo mundo saiu e fiquei sozinha, todo mundo tem sua vida, ela tem o marido e eu fico em casa esperando que eles venham quando eles quiserem. Então aí eu fui embora, fui pra, com essas amigas, pra uma cantina que ela trabalhava como gerente e chama-se Lasarella na Treze de Maio. Aí nós fomos pra lá, tem muita música ao vivo e nós conhecemos os cantores que são pessoas que são de lá, e aí começou a vir à solidão, a falta dela, começou a dar uma, sei lá, alguma coisa me fez ficar muito espiritual e aí eu comecei a sentir uma necessidade de escrever. Eu comecei escrevendo e a coisa foi fluindo, mas durou um período depois eu nunca mais consegui fazer uma frase, ultimamente voltou essa necessidade de escrever. Eu estou dormindo, ouço a poesia e levanto, lembro, acendo a luz e escrevo. Então não sei se eu fico muito numa época, materialista e outra espiritualista. Então a coisa vai, né?

 

P/1 – Você escreve que tipo de versos?

 

R – Tudo, você me dá o perfil da coisa e eu faço. O que brotar vai saindo. Escrevi pra São Paulo, minha vida, minha história inteira está escrita. Tudo isso que eu contei pra vocês está escrito, com mais alguma coisa que talvez eu omiti porque eu omiti inclusive a volta dos pracinhas eu não contei pra vocês que eu assisti da janela da tabacaria. Eles desfilarem pela Avenida Rangel Pestana. Alguns mutilados, outro de muleta e, todos da FEB, da Força Expedicionária Brasileira, e desfilavam todos com o batalhão, e cada um ia entrando na sua rua. Foi muito emocionalmente. Entrando na Caetano Pinto, na Carneiro Leão, na Coronel Sabre e foram entrando, foram indo para suas casas. Então o batalhão foi diminuindo até lá em cima. Muito bonito assistir.

 

P/1 – Vocês se lembram de algum trechinho das suas coisas?

 

R – De cor não. Por isso acho que não são minhas, devem ser espiritual, né, porque eu leio e não consigo gravar, não consigo. Se eu gravei alguma coisa foi porque alguém cantou essa por música e aí pela música eu acabei gravando, mas não sei. Gosto de gravar com fundo musical e falar minha poesia porque é uma forma de eu conservá-las melhor. Porque até encontrar alguém que bata no computador, porque eu tenho uma letra péssima, é garranchinho mesmo, eu escrevo muito rápido. Então pra ficar bonitinho tem que bater no computador e agora que estou conseguindo que uma pessoa ou outra bata pra mim. Já paguei até pra isso e pra poder deixar, conservar. Não que em casa eles se importem porque minha filha não é nada romântica, ela não pára pra ler. Então eu mostro pra um amigo ou outro. Faço uma pra alguém. Eu trouxe escrita e trouxe em fita cassete gravado.

 

P/1 – Você não participa de nenhum grupo de poetizas ou de poetas?

 

R – Não conheço nada, eu só faço agora, uma vez por ano a gente manda um trabalho pro Talentos da Maturidade do Banco Real, que já há três anos que eu faço, nunca ganhei nada, mas quem sabe um dia? Eu acerto eles lá. Porque tem muita gente boa, com estudo. O estudo é tudo na vida, porque não adianta eu fazer uma poesia se pra eles que julgam não tem métrica, não está escrito adequadamente, não é o talento, não é a inspiração que vale, o que vale é a métrica, o que vale é aquilo que você põe no papel que dá certinho como o que eles querem que esteja. E minha coisa não é assim. A minha veio no coração, vai lá, escreve e cabou. Rima em algum lugar, dá certo e tudo bem. Mas eu acho muito bonito o que eu faço. Eu mesmo acho, por isso que eu gravo em fita que eu mesmo ouço.

 

P/1 – Como é sua vida hoje? Seu dia-a-dia?

 

R – É meio complicada porque eu não tenho nenhuma atividade, eu tenho uma empregada muito boa que faz as coisas em casa e eu fico na base de babá, de cuidar das meninas porque não ficam sozinhas ainda, né, então fico em casa e é muito complicado isso, sou muito dinâmica e não gosto de ficar parada, então eu preciso ter algo que, não digo que fosse tanto pelo dinheiro, é que eu gostaria muito de ser independente. Puxa, como eu gostaria de ser. Não gosto de depender de ninguém porque eu nunca precisei. Eu toda a vida me mantive e eu toda a vida lutei por mim, sem ter que se encostar a ninguém. Eu não sou uma mulher de deitar de tarde e dormir, eu vou dormir três horas da manhã e levanto normalmente no dia seguinte. Sou boemia mesmo, eu gosto de ficar a noite, da noite é que eu gosto. Se eu pudesse era artista, vivia pela noite.

 

P/1 – A senhora sempre teve um relacionamento assim com as artes, com a música?

 

R – O signo de câncer é muito disso, né, é o signo regido pela lua, então você está sempre no mundo da lua, né, sempre com a cabeça lá em cima, noite de lua cheia então, atinge barbaridade, parece aquele lobisomem. Chega a lua cheia eu fico indócil, eu quero ir pra rua, quero cantar, eu quero escrever, quero fazer. Tudo isso age em mim. Sinto muito não ter sido alguma coisa na vida. Gostaria de ter sido. Uma artista de teatro, de cinema, cheguei até na Vera Cruz fazer umas pontinhas no Mazzaropi, mas não deu nada certo, mas gostaria sim.

 

P/1 – E de música, a senhora trabalhou como discotecária, né, hoje a senhora ouve muita música?

 

R – Ouço, não as músicas que tem hoje, eu sinto tanto, é uma pena que não há mais letras românticas. Tá uma baboseira incrível escrita e que as crianças nossas se assimilam e acham maravilhoso. “Vem meu cachorrinho” aquela coisa toda, né, eu acho uma pena porque o romantismo perdeu totalmente, não existe mais. Então eu ouço muito sertanejo porque o sertanejo ainda é puro, é raiz, tem história, tem conteúdo. Não digo que não tenha, na nossa época tem, algumas coisas ainda existe de conteúdo e com história, mas são muito poucos os cantores que limpam a coisa e levam pra esse lado. Vão gravando, o cara compõe, sou compositor e faz lá, tamanco com lua e vai em frente e o cara vai e grava e faz sucesso. Por quê? Porque a cabeça dos nossos jovens está cheia de baboseira. O que é que pode sair de uma mente que não vê que o romantismo e as coisas bonitas. Só coisas feias, só violência, só tragédias. O que é que eles podem ser? Nós estamos criando monstros pro futuro porque minha neta adora um filme de terror, quanto mais sangrando mais ela vai pra ver. A mente dela está sendo formada através de uma educação de violência.

 

P/2 – Isso que queria finalizar com a senhora. A senhora contou uma história de uma mulher que viveu sozinha, não viveu nos padrões, não casou. No seu ambiente cotidiano a senhora diria que havia muitas mulheres como a senhora? Gostaria que a senhora falasse pra finalizar essa, sua vida, sua forma de viver ela foi única ou havia muitas outras mulheres que tiveram que passar por essa trajetória também?

 

R – Deveria ter, mas como eu te disse a gente procurava esconder a situação de uma mãe solteira porque era feio, era ruim, o pessoal criticava, não era como hoje aberto.

 

P/2 – Mas a senhora não chegou a conhecer outras?

 

R – Muitas, muitas mulheres como eu, só que eu não tinha vergonha por mim, eu evitava uma situação por causa da minha filha porque ela tinha que enfrentar uma barra lá fora, então eu tinha que ajudá-la da melhor maneira possível. Não era vergonha. Era vergonha ficar grávida solteira, naquela época, era vergonha. Porque pai e mãe achavam o cúmulo o filho, uma filha sair de casa e ir morar com alguém. Era ruim, não era bom. O pessoal ainda admitia muito o casamento. Todo mundo queria se casar. Toda mulher queria se casar, hoje não se faz muita questão disso, morar junto e tudo bem. Eu não critico, sabe, eu só digo assim, naquela época você não tinha escolha porque a sociedade te cobrava, a sociedade te criticava e você não prestava se você tivesse um filho solteira. Eu tive discriminação da minha filha brincar com algumas crianças, de mãe não deixar porque eu era mãe solteira. Daí você vê!

 

P/1 – A sua mãe ainda era viva?

 

R – Mamãe viveu comigo até minha filha ter doz anos. Ela faleceu minha filha tinha doze anos.

 

P/1 – Ela aceitou?

 

R – Aceitou, porque ela não admitia o aborto, ela era católica, então a partir do momento que engravidou ela foi dar o apoio dela. Qualquer mãe temente a Deus, vamos dizer assim, porque era muito melhor do que mandar fazer um aborto. Pra ela seria um crime. Seria não, é um crime. E eu queria ser mãe, tava tudo certo pra mim. Portanto que nascesse e eu fosse mãe tava bom demais. O resto eu nem pensei em enfrentar barra nenhuma. Se ele tivesse ido embora também eu tinha continuado sozinha.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+