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História de: Augusto Carlos Cassaniga
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Cassaniga nasceu em Capivari e mudou-se para São Paulo para trabalhar. Entra para a Força Pública do Estado de São Paulo como soldado com dezoito anos. Durante o período em que ocupa esse cargo, é encarregado de vigiar os presos de algumas cadeias do Estado. Conta causos de situações perigosas que sofreu, apesar de nunca ter tido medo daqueles presidiários. Depois, vai subindo de cargo até atingir o que mais almejava: o posto de bombeiro. É nessa função que Cassaniga constrói sua carreira, e entra para a história do Estado de São Paulo. Foi um dos resgatistas que salvou dezenas de pessoas do incêndio que ocorreu no Edifício Joelma, em fevereiro de 1974. O episódio foi bastante intenso para Cassaniga, que demorou um longo tempo para recuperar-se do trauma. Apesar disso, continuou como bombeiro e resgatista por mais alguns anos. Hoje é aposentado e recebeu a medalha de Valor Cívico de grau ouro do Estado de São Paulo. 

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História completa

P/1 – Oi Cassaniga, você pode falar seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Augusto Carlos Cassaniga, nascido em Capivari, estado de São Paulo, no dia 25 de julho de 1940.

 

P/1 – Seus pais são de Capivari?

 

R – A minha mãe é de Campinas e meu pai, Capivari.

 

P/1 – Como é o nome do seu pai?

 

R – Mário Cassaniga.

 

P/1 – E da sua mãe?

 

R – Escolástica Zanotto.

 

P/1 – E seus avós maternos e paternos, você sabe a origem deles?

 

R – São originários da Itália.

 

P/1 – Tanto de mãe quanto de pai?

 

R – Dos dois lados: mãe e pai.

 

P/1 – E eles se conheceram lá na Itália ou vieram para cá?

 

R – Os pais da minha mãe se conheceram aqui no Brasil, em Campinas, e se casaram em Campinas. Até eu tenho a certidão de casamento do meu avô, que se casou em 1901 em Campinas.

 

P/1 – Que bacana. E o que eles faziam?

 

R – Vieram trabalhar em lavoura de café.

 

P/1 – Então eles migraram no fim do século.

 

R – É. No fim do século, por volta de 1890, 1889, por aí.

 

P/1 – E os paternos?

 

R – Os paternos vieram da Itália, de Milão, e se casaram aqui no Brasil também, e também foram trabalhar em lavoura de café.

 

P/1 – E seu pai e sua mãe, como eles se conheceram?

 

R – Conheceram-se numa fazenda, porque depois de Campinas, os meus avós maternos transferiram para outra fazenda na região de Capivari e lá já residiam os meus avós paternos. E ali minha mãe conheceu e se casou. Porque era interessante, a minha mãe e a irmã dela se casaram com dois irmãos. São dois irmãos casados com duas irmãs. Foi interessante assim, os meus primos são primos irmãos mesmo.

 

P/1 – De verdade.


R – De verdade.

 

P/1 – E aí seu pai fazia o quê?

 

R – Meu pai trabalhava, na época, de cocheiro. Cocheiro é que ordena vaca, trabalha de tratar dos animais. Naquela época usava-se muito os animais para fazer serviço na lavoura, então meu pai trabalhava nessa parte aí com os animais, de cocheiro.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Minha mãe trabalhava na lavoura de café, porque os meus avós eram meeiros de café, então todos os filhos iam para roça. Eram doze irmãos para plantar o café, colher o café, depois, no fim do ano é que repartia metade para patrão, metade...

 

P/2 – Você ia também?

 

R – Não. Eu não era nascido ainda. Isso quando minha mãe, que era solteira ainda, que eu tenho conhecimento.

 

P/1 – Aí ela e seu pai se casaram, eles foram morar...

 

R – Casaram-se, ficaram mais um tempo nessa fazenda e meu pai arrumou um serviço em outra fazenda, numa usina de açúcar, no município de Capivari, então Usina de Açúcar Santa Cruz, e lá que eu nasci.

 

P/1 – Nessa fazenda.

 

R – Nessa fazenda que eu nasci.

 

P/1 – Vocês são em quantos irmãos?

 

R – Nós somos quatro.

 

P/1 – Você é o mais velho?

 

R – Não. A minha irmã mais velha é falecida já.

 

P/1 – Depois vem você.

 

R – Venho eu e mais duas irmãs menores que eu.

 

P/1 – Você é o único homem?

 

R – O único homem.

 

P/1 – Vocês todos nasceram nessa fazenda?

 

R – Não. Três nasceram nessa fazenda e um nasceu já na cidade, em Capivari, porque depois nós mudamos daquela fazenda.

 

P/1 – Mas aí seu pai trabalhava e sua mãe, quando vocês nasceram, continuou trabalhando ou só ficou tomando conta da casa?

 

R – Não. Só tomando conta da casa.

 

P/1 – E até quanto tempo você ficou nessa fazenda?

 

R – Nessa fazenda, meu pai deve ter mudado em 1934 e nós ficamos até 1946. Então na época da guerra eu era garoto, já tinha uns cinco, seis anos, lembro. E nós moramos ali, havia falta de trigo, então eu tinha vontade de pão, não tinha pão. Depois nós mudamos para outra fazenda.

 

P/1 – Mas nesse período, do que você brincava? O que você fazia na fazenda?

 

R – O que eu lembro nessa fazenda, eu me levantava de manhã, meu pai trazia o leite e eu já pegava um litro de leite, minha mãe punha num litro, e eu levava para casa de uma tia, atravessava um campo, era um campo de futebol que tinha na fazenda. Todos os dias eu fazia esse trabalho, com cinco anos de idade, seis anos, levar o leite para minha tia. E voltava para casa com uns torrões de açúcar, porque meu tio trabalhava na usina de açúcar, no Engenho, e trazia aqueles torrões de açúcar refinado. Então eu trazia e guardava numa lata. Depois brincava ali em volta de casa, tinham os pés de bananeira. Minha vida de infância, pré-infância, foi essa. E eu só fui para escola quando nós mudamos para outra fazenda, Fazenda Capuava, que na época essa fazenda pertencia a uma companhia francesa, então os franceses é quem administravam. E eu entrei no primeiro ano da escola mista, antiga, nessa Fazenda Capuava.

 

P/1 – Por que seu pai saiu de uma fazenda e foi para outra?

 

R – Porque o salário era melhor na outra fazenda. E nessa fazenda nós ficamos praticamente dois anos. Eu comecei os estudos nessa fazenda, o primeiro ano da escola mista, segundo ano, aí nós mudamos para Capivari mesmo, na cidade. Aí ficamos.

 

P/1 – A escola ficava perto da fazenda, na fazenda?

 

R – Na fazenda. Era uma fazenda muito bonita, tinha até estrada de ferro na fazenda. Era uma fazenda alegre, com colônias. Os franceses administravam muito bem, isso eu lembro. Até instruções práticas de ofidismo os franceses queriam que as crianças aprendessem, então vinha o pessoal do Instituto Butantã dar aula de ofidismo, traziam serpentes ali para as crianças aprenderem, porque era uma zona rural, então se percebia que... Hoje eu percebo que os franceses tinham uma rigidez nessa parte.

P/1 – E você brincava, passeava pela fazenda?

 

R – Ah, sim. Aos domingos a gente ia assistir futebol, a gente brincava com carrinho de rolimã, andava a cavalo. Nós tínhamos lá um cavalo, então a gente andava a cavalo.

 

P/2 – Mais famílias moravam na fazenda?

 

R – Muitas famílias.

 

P/1 – Muitas?

 

R – Porque ali tinham os motoristas, tinha a vila só dos motoristas, tinha a vila dos administradores, que trabalhavam na administração, tinha o escritório da fazenda, era tudo ali, porque eles tinham usina de açúcar na cidade de Porto Feliz. Essa fazenda ficava entre Capivari e Porto Feliz. Existe até hoje essa fazenda. E o pessoal que trabalhava, eles ficavam até aposentar. Tinham as casas, tinha tudo direitinho. Tinha até uma lavanderia coletiva, onde minha mãe todo dia ia lavar roupa nessa lavanderia. É muito bem organizada a fazenda. E ali nós ficamos até 1940 e...

 

P/1 – Mas você ajudava ao seu pai ou você só ficava por ali?

 

R – Não, eu ajudava, porque também meu pai tinha vaca de leite, então eu entregava leite na fazenda. As pessoas que compravam o leite... Era interessante que eu saía, eu tinha o quê? Sete anos, oito anos de idade. Colocava-se um tipo de um colete, que nós chamávamos de picuá, iam alguns litros de leite na frente e outros atrás, aí eu ia levar os leites nas casas. E cortar capim para cabras, que nós tínhamos cabras e vacas. Eu e minha irmã todo dia íamos cortar o capim de onde tinha e trazíamos aqueles sacos de capim para alimentar as cabras e a vaca.

 

P/1 – E que lembrança você tem da escola assim, você se lembra de alguma professora dessa escola da fazenda?

 

R – Lembro. A minha professora, a dona Terezinha, morava em Porto Feliz, então ela vinha lecionar, mas como era uma escola mista, na mesma sala de aula ela dava aula para o primeiro ano, segundo ano, então a gente sentava em fileiras. Depois que nós mudamos para Capivari eu continuei os estudos, daí me lembro da professora do segundo ano, do terceiro para o segundo, peguei um pedacinho ainda no final, se chamava dona Asta, um nome esquisito, uma baixinha. Depois, para o terceiro ano, era Dulce Bartolomeu Copi minha professora, já é falecida. E no quarto ano, Luís Conforte, professor muito bacana, vinha de terno, gravata. O quarto ano primário é que a gente terminava, recebia o diploma. Diferente de hoje. E um ensino muito bom, que eu não comparo com o de hoje. Então hoje a gente vê crianças que estão fazendo a quarta série, não sabem nem ler, algumas escolas que nós conhecemos. E naquela época então nós tínhamos os ensinamentos bem avançados.

 

P/1 – Do que você mais gostava na escola? O que você gostava de fazer?

 

R – Eu gostava de História. A história do Brasil, por exemplo. E até um caso interessante, a história do Brasil que falava... Hoje a gente pergunta para as crianças, até adultos, a minha filha chama Bartira, coloquei o nome de Bartira, então por que você pôs esse nome? Você não conhece a Bartira? A Bartira foi uma índia, na história do Brasil consta, filha do cacique Tibiriçá, que se casou com João Ramalho. Eu já cheguei até... Um dentista perguntou: “Mas o que é Bartira?”. Eu falei: “Você não estudou História? A Bartira é uma índia famosa, filha do cacique Tibiriçá”. Fica meio pasmado. Então desde aquela infância que eu peguei esse nome. Depois mais tarde estive na selva amazônica também e daí então eu coloquei o nome Bartira. Até ela não gosta, ela fala: “O pessoal fica dizendo que tudo que eu ganho o bar tira” (risos).

 

P/1 – (risos) E por que vocês saíram desta segunda fazenda e foram para Capivari?

 

R – Foi um caso interessante. Eu lembro muito bem que meu pai era o cocheiro também, ordenava vaca, então o que aconteceu? De repente meu pai foi transferido, ele e outro, para uma pedreira. Parecia um castigo. Eu ia levar almoço para ele e...

 

P/1 – Ah, ele foi transferido?

 

R – Transferido do serviço de...

 

P/1 – Cocheiro.

 

R – De cocheiro para a pedreira, com uma picareta lá, quebrando pedra. Então ele se sentiu, poxa vida, se sentiu até ofendido. Aí ele pediu a conta e nós fomos morar em Capivari, na cidade mesmo, onde tinha meu tio, tinha parentes, bastante, daí meu pai mudou, mudou a profissão dele.

 

P/1 – Aí ele foi...

 

R – Foi ser padeiro.

 

P/1 – Por que ele tirou essa ideia de ser padeiro?

 

R – Foi um serviço que apareceu para ele. Então ele aprendeu a trabalhar na padaria e ficou padeiro muito e muito tempo. E lá na frente ele também deixou a padaria e foi ser pedreiro, aí ele ficou até morrer.

 

P/1 – E onde vocês foram morar em Capivari?

 

R – Nós moramos em três lugares: numa chácara pegada à cidade, Chácara Valezin; depois mudamos para a Chácara Quagliato; e depois para Chácara Colnaghi. Dali dessa chácara que eu deixei, ingressei na Força Pública do Estado de São Paulo.

 

P/1 – Mas como era a vida na sua casa? Como era a vida familiar, quem exercia mais autoridade, seu pai, sua mãe?

 

R – Meu pai, mas nós, por exemplo, eu e minha irmã, que a minha irmã trabalhava, eu também comecei a trabalhar, então a gente ajudava a casa.

 

P/1 – Mas assim, vocês tiveram educação religiosa?

 

R – Tivemos. Eu, por exemplo, fiz o catecismo, primeira comunhão, então eu sou de uma família católica.

 

P/1 – E as comidas, sua mãe cozinhava? Tem algum prato que você lembra?

 

R – Ah, sim, como a gente é italiano, então minha mãe fazia muita polenta. E a gente comia arroz, feijão, mas sempre tinha polenta com frango ou com linguiça. Porque a minha avó, quando ia à fazenda, era muita gente na casa, então ela que distribuía as fatias de polenta e os pedacinhos de linguiça. Era aquilo. Se sobrasse, tinha, senão era aquilo só. Então minha mãe também seguiu os rumos. Não reclamava: “Hoje que mistura tem?”. Hoje não tem carne, hoje tem abobrinha, tem as comidas. E minha mãe que cozinhava, meu pai era o chefe da casa, e nós ajudávamos, eu sempre trabalhei.

 

P/1 – Como vocês iam para escola?

 

R – A pé.

 

P/1 – Mas era perto já em Capivari assim, da chácara?

 

R – Na primeira, na Fazenda Capuava, era perto, dez minutos de caminhada estava na escola. Capivari já era mais longe, então eu demorava em média meia hora da chácara até a escola.

 

P/1 – Mas você ia sozinho, ia com os irmãos?

 

R – Não. Não tinha... Porque na época os meninos estudavam num horário e as meninas em outro, não misturava. Então eu ia com colegas, uns amiguinhos. Nós íamos de manhã e a minha irmã ia à tarde.

 

P/1 – E aí você ia com seu pai à padaria? Quando seu pai foi trabalhar na padaria, o que você fazia? Que você disse que sempre trabalhou.

 

R – É. Quando eu tive idade, já no quarto ano, então eu estudava de manhã e à tarde eu trabalhava numa loja, já arrumaram um servicinho numa loja de armarinhos. Então eu trabalhava nesta loja, limpar vitrine, levar correspondência ao correio, fazer limpeza. Trabalhei pouco tempo também nessa loja e passei a trabalhar num cinema, não como artista (risos). Eu fazia faxina no cinema. Então aí eu já com meus onze anos, doze anos de idade, a chave do cinema ficava comigo, eu ia de manhã, abria, varria todo o cinema, colocava o cartaz, tirava o cartaz anterior e colocava o cartaz do dia no saguão, passava pano no saguão. Depois você selava as entradas, porque naquela época todas as entradas levavam selo, os ingressos, carimbavam todos, selavam e deixava pronto para a noite. E uma vez por semana fazia a entrega dos programas, que o programa era feito no próprio cinema. No próprio prédio lá tinha uma tipografia, vinha um tipógrafo lá, fazia, até eu aprendi a montar aqueles tipos. Então você ia lendo, ia pegando os tipos e montando o programa. Tinha uma máquina manual que imprimia os programas. E eu convidava um garoto, porque eu tinha ordenado no cinema, eu ganhava cem cruzeiros por mês para fazer todo esse serviço, e o garoto que eu convidava para entregar os programas, ele entrava de graça no cinema a troco de fazer as entregas. E eu fiquei nesse cinema até conseguir um emprego numa ferraria carpintaria e mecânica.

 

P/1 – Como chamava esse cinema?

 

R – Cine Politeama.

 

P/1 – E ficava aonde, no centro?

 

R – No centro da cidade.

 

P/1 – E você se lembra de alguns filmes que você via nesse período?

 

R – Lembro. “Sansão e Dalila”, lembro o filme “As mil e uma noites”, as séries, os seriados, que aos domingos tinha a matinê, então passavam as séries, “Os homens morcegos” era um seriado bacana, lembro-me da “Nioka, a rainha da selvas”, “Os tambores de Fu Manchu”, eram filmes que passavam, seriados de filmes. Lembro-me dos faroestes que todo domingo tinha, com Johnny Mack Brown, com Tom Mix, o outro famoso lá, Roy Rogers, Durango Kid, William Bill Elliott. Então eram de caubóis que faziam aqueles filmes muito bacanas. Então eu assistia todos. Lembro-me desse e tem outros que no momento assim a gente...

 

P/1 – E o que você fazia com o ordenado?

 

R – Entregava para minha mãe.

 

P/1 – Inteiro?

 

R – Inteiro. Entregava. Era costume, na época, filhos, filhas, você recebia o pagamento e entregava tudo para pai e mãe. E nesse cinema eu fiquei até ir trabalhar nessa ferraria carpintaria e marcenaria. 

 

P/1 – Por que você saiu e foi para carpintaria?

 

R – Não, eu saí do cinema para ir para carpintaria.

 

P/1 – É. Por que você...

 

R – Aprender ofício. Então nessa carpintaria, eu com treze anos, trabalhei um ano e... Com doze anos e meio até os catorze anos eu trabalhei nessa carpintaria. Então o que fazia o garoto nessa carpintaria? Quebrava carvão. Era um carvão mineral que vinha, esse carvão vinha uns pedaços grandes, o garoto quebrava sentado no cepo, aquelas madeiras, quebrava o carvão para alimentar as forjas dos ferreiros. Então os ferreiros faziam o quê? Faziam arados, ferragens de roda de carroça, ferragem para carroceria de caminhão, calçava o facão, facão de arar terra. Então eu trabalhava de quebrar o carvão quando tinha bastante, ou então eu ia para outro serviço, trabalhar na furadeira. Um garoto de hoje não pode, mas naquela época... Então eu furava ferro na furadeira elétrica, trabalhava no esmeril de esmerilar e trabalhava na pintura da madeira do arado, e das carrocerias de caminhão, das carroças, que ali fabricava tudo isso. Interessante que as forjas eram alimentadas por esse carvão e era elétrica a ventoinha, mas quando não tinha energia elétrica, então se fazia com fole. Puxava uma peça grande, um fole gigante fazendo vento para aquecer o carvão e o ferreiro fazer tudo que tinha que fazer, até as ferraduras de cavalo fazia ali também, parafusos. E ali eu fiquei até completar catorze anos. Aprendi muitas coisa s. Até hoje, se tiver uma furadeira, eu sei manusear a furadeira, sei trabalhar no esmeril, que eu aprendi ali, pinturas.

 

P/2 – Algum dos seus irmãos trabalhava com você?

 

R – Não. 

 

P/2 – Sozinho.

 

R – Era só eu de homem. Minhas irmãs eram empregadas domésticas.

 

P/1 – Você gostava de fazer isso?

 

R – Gostava. A maior paixão minha era quando me mandavam furar ferro: “Vai furar ferro lá que tem bastante”. Um monte de ferro lá. Ficava furando ferro na furadeira.

 

P/1 – Você trabalhava, ia para escola, e você brincava?

 

R – Não. Daí eu já tinha terminado, porque naquela época você terminava o quarto ano primário, não trabalhava mais.

 

P/1 – Não estudava mais.

 

R – Só os filhos mais abastados, de famílias mais poderosas é que faziam admissão, depois que ia fazer o ginásio.

 

P/1 – Aí você parou na quarta série.

 

R – Que seria hoje o curso...

 

P/1 – Ginasial, depois do colégio.

 

R – Primeiro grau, ginasial, hoje é outro nome, né?

 

P/1 – É fundamental.

 

R – Fundamental. Naquela época não, só tinha no ginásio os meninos que iam tudo de gravata, bonitinhos, eu não tinha condições, minha família não tinha condições de me manter no ginásio, mesmo sendo estadual. Então terminou a quarta série, ia trabalhar. Aí com catorze anos meu pai arrumou um serviço para que eu fosse registrado numa fábrica de macarrão, se chamava Pastifício São Sebastião. Então nessa fábrica de macarrão eu aprendi também a ser macarroneiro. Só que é diferente do macarrão que se faz em casa. Na fábrica é trigo e água, e às vezes que faz o macarrão especial que coloca ovos e os outros ingredientes hoje mais sofisticados.

 

P/1 – Mas você fazia a massa?

 

R – Nessa fábrica de macarrão eu trabalhei... Não, tinham os masseiros que aprontavam a massa. Eu trabalhei como escalador de macarrão. Tinha as moças que empacotavam, manual, e eu era escalador.

 

P/1 – O que é escalador?

 

R – Escalador é... O macarrão é estendido, o macarrão comprido, aquele que... É estendido numas varas de bambu, na época, colocado numa estufa, até isso aqui é parecido com uma estufa, ele era colocado na estufa, tinha o ventilador gigante e tinha as serpentinas de água fervente que faziam o calor, e o ventilador fazia a ventilação. Então eram vinte e quatro horas nesse processo para o macarrão secar, que ele entrava verde, mole, depois saía seco. Então eu pegava aquelas varas e escalava o macarrão. Dobrava em dois, colocava no papel e a minha ajudante levava para as moças pesarem e empacotarem. E também eu trabalhava, além de escalador de macarrão, eu trabalhei como operador de máquinas. Tinham as máquinas que faziam o macarrão, então você tinha que pegar aquele macarrão, estender nas varas, cortar no tamanho certo e depois levava para secagem, a primeira secagem no sol, a segunda era levado para as estufas. E trabalhei em serviços até de entregas de macarrão, de sair com os caminhões, entregar macarrão nos armazéns. Naquele tempo não tinha supermercado. Era descarregar caminhões de farinha de trigo. Então nós tínhamos naquela época um consumo grande. Eu lembro que faltou arroz na década de 1950 e nós trabalhávamos dia e noite para fabricar macarrão, e esse macarrão ia para o Paraná. Eu lembro que os vendedores não venciam mandar pedido e nós não vencíamos fazer macarrão. Nós desmanchávamos cinquenta sacos de farinha por dia.

 

P/1 – Você trabalhava quantas horas por dia?

 

R – Porque daí ganhava hora extra, então eu cheguei a trabalhar quinze, dezesseis horas.

 

P/1 – Com catorze anos?

 

R – Com catorze, quinze anos, até dezesseis. E nesse meio de tempo...

 

P/1 – Você ainda tinha tempo para se divertir?

 

R – Tinha. Até que tinha tempo.

 

P/1 – Como você fazia?

 

R – Até que tinha tempo. Nesse meio de tempo havia um promotor de justiça na cidade que formou um time de futebol de crianças, de moleques, e eu participei. Então a gente ainda tinha um tempinho para ir jogar bola. Domingo, às vezes levava a gente para outras cidades. Fomos jogar em Caieiras, Piracicaba, Santa Bárbara d’Oeste. Então um ônibus, um caminhão, geralmente caminhão, levava a gente para jogar, mas moleque. Pouca diversão, mas tive. E aos dezesseis anos e qualquer coisa  eu fui convidado por um engenheiro agrônomo da cidade, eu nem conhecia esse engenheiro agrônomo, disseram que tinha uma escola agrícola, agrotécnica, que formava basicamente técnicos em agricultura, com chance de ir para escola superior, engenheiro agrônomo. Eu lembro que tinham uns meninos lá, tal, nós fomos à casa desse engenheiro à noite e ele orientou a gente. Aí então eu deixei a fábrica de macarrão, falei com meus pais, falei: “Vou tentar estudar”. E fomos para a cidade de São Manuel, onde existia, na época, a Escola Agrícola Agrotécnica Dona Sebastiana de Barros, e lá eu consegui ficar seis meses aluno interno. Na época era uma escola muito boa, onde você tinha alimentação, vestuário, e você tinha período integral. Na parte da manhã você fazia campo e na parte da tarde teoria, e à noite tinha um lazer lá, alguma coisa , porque a escola é fora da cidade. Os alojamentos muito bons, alimentação muito boa. Eu fiquei o primeiro semestre, porque dali nós faríamos um ano básico, depois iríamos para uma escola, ou para Pirassununga, ou Jacareí, onde faríamos mais dois anos técnicos, e aqueles que tivessem condições, daquela fase, iriam para Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba, onde fariam faculdade de engenheiro agrônomo. Mas não deu, seis meses os meus pais precisaram de mim, eu tive que voltar.

 

P/1 – Por que eles precisaram?

 

R – Financeiramente. Então eu voltei e fui trabalhar na lavoura. Trabalhei em corte de cana.

 

P/1 – Com dezesseis anos?

 

R – Aí já tava com dezessete. Que eu fui com dezesseis, voltei com dezessete. Corte de cana, carpa de cana, e trabalhei em olaria. Olaria é fábrica de tijolo. Porque hoje tem maquinário, naquele tempo não, o tijolo era batido à mão, artesanal. Então eu trabalhei uns tempos ali e fui para a construção civil, uns tempos na construção civil. Aí voltei a ser registrado numa empresa que se chamava Agroimpex Importadora e Exportadora de Adubo. Ali veio o serviço militar. Já tinha dezoito anos, me apresentei primeiramente em Jundiaí, fui dispensado de Jundiaí, mas me mandaram para Itu, 2º Regimento De Obuses 105.

 

P/1 – Por que te dispensaram numa e no outro...

 

R – Não, dispensaram aqui porque eu vim para Jundiaí, que tinha parentes, mas eu morava em Capivari, então eles disseram: “Não, quem mora em Capivari tem que ser apresentado no quartel da cidade de Itu”. Então eu fui para Itu.

 

P/2 – Você quis entrar no serviço militar?

 

R – Não, era obrigatório ir. Era obrigatório. Então eu fui, permaneci lá algumas semanas e fui dispensado.

 

P/1 – Mas você queria ficar?

 

R – Queria. Eu queria.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Eu achava que ficando ali no quartel eu seguiria uma carreira. Então eu fui dispensado, excesso de contingente. Quando eu cheguei a Capivari, vi cartazes “Ingresse na Força Pública do Estado de São Paulo”, que também era militar, então eu me inscrevi e ingressei na Força Pública do Estado de São Paulo, aos dezenove anos de idade. Aí é que começa a minha vida militar, com dezenove anos de idade.

 

P/1 – Você queria sair de lá.

 

R – Não, eu queria algo melhor. Queria algo melhor para o meu futuro. Então o meu pensamento era esse, ajudar os pais e tudo.

 

P/1 – E oferecia uma remuneração boa?

 

R – Ah, sim, na época a remuneração era bem melhor do que nos empregos que eu fazia.

 

P/1 – E você teve algum tipo de seleção para fazer?

 

R – Tive. Era um concurso público.

 

P/1 – Ah, era um concurso.

 

R – Era. O Estado de São Paulo. Então eu comecei o concurso público em 1959.

 

P/1 – Como era o concurso? O que caía?

 

R – Na época caíam testes de português, matemática, até história, geografia, conhecimentos gerais, coisa s da época. 

 

P/1 – Porque você só tinha feito até a quarta série aquele semestre.

 

R – Mas o edital, na época não falava edital, mas o que pedia na época era ser alfabetizado, não pedia... Hoje não, hoje nossos componentes da Polícia Militar, uma grande maioria já tem curso superior. E o básico, hoje, para ingressar na Polícia Militar, tem que ter o segundo grau, curso médio completo, senão não vai, uma das condições. E hoje aparecem muito mais candidatos do que naquela época.

 

P/2 – Que era obrigatório?

 

R – Não. O exército sempre foi obrigatório, até hoje, o exército... O garoto de dezoito anos...

 

P/1 – É obrigatório, claro.

 

R – Não é obrigatório para quem quiser fazer carreira no exército. Eu quero ser um oficial do exército, eu não sou obrigado, eu vou, presto o concurso, se eu passar eu vou para AMAN, nas Forças Armadas em geral. Na Polícia Militar é a mesma coisa , o garoto quer ser oficial, ele presta concurso, mesmo quem está dentro da polícia militar presta concurso. Era pela USP, agora acho que é pela Vunesp, né?

 

P/1 – Vunesp.

 

R – Agora é pela Vunesp. Muito mais candidatos hoje do que antigamente.

 

P/1 – E vem cá, como...

 

R – Aí eu passei no concurso. Eu passei no concurso. Eu lembro que na época havia mais candidatos do Nordeste, do Norte, tal, do que de São Paulo. Então eram muitos candidatos. Tiveram as provas, além da prova teórica, aí vinham as provas práticas. Já tinha o psicotécnico, a entrevista, as provas físicas, que naquela época não existia o teste de cooper, hoje se faz um TAF. Na época eram sete provas, de subir em corda, arremessar peso, saltar altura, distância. E a corrida hoje são doze minutos correndo. Naquele tempo não, eram mil metros na corrida, mas não fez o tempo, dispensado. Então se exigiam na época 70% condições físicas e 30% intelectual. Eu fui fazendo os exames, porque é demorado, e só terminei os exames em março de 1960, aí já fui incorporado e fui frequentar a escola de formação. E a escola de formação era em alguns quartéis da Polícia Militar. E eu fui designado para fazer essa escola, esse curso, no 8º Batalhão de Polícia Militar, na época Força Pública, em Campinas.

 

P/1 – Aí você ficou morando em Campinas?

 

R – Fiquei morando no quartel.

 

P/1 – No quartel.

 

R – No quartel.

 

P/1 – E como foi essa mudança, sair de casa e ir para o quartel?

 

R – Eu já tive essa mudança quando eu fui para São Manuel.

 

P/1 – Para São Manuel.

 

R – Então eu já tava meio acostumado a fazer minhas coisa s. Porque na minha casa arrumar cama eu sempre arrumei desde criança, minha mãe sempre me ensinou. Até cozinhar, tudo, minha mãe sempre ensinou, mesmo as mulheres, os homens. Ainda bem, hoje eu tenho umas prendas de cozinha. Então lá em Campinas não foi difícil, não. Morar em quartel não foi nada difícil. E aí terminei a escola de formação, o curso de formação de soldado.

 

P/1 – E você recebia esse período.

 

R – Recebia já, já tinha o ordenado sim.

 

P/1 – E você continuava mandando para os seus pais?

 

R – Continuava.

 

P/1 – Inteiro?

 

R – Inteiro. Eu ficava um pouquinho para mim, mas mandava, sempre mandando dinheiro para família. Aí terminou a escola.

 

P/1 – Você tava com quantos anos aí, dezenove?

 

R – Dezenove. Aí completei vinte.

 

P/1 – E antes disso assim, quer dizer, na juventude, você ia para bailinho, saía com amigo?

 

R – Ia. Eu ia para bailinho... Porque hoje tem as baladas, é diferente. Hoje a gente vê esses barzinhos. Não tinha. Na época os bailinhos, por exemplo, meu pai tocava acordeom, então às vezes tinha bailinho em tal cidade, em tal fazenda, e a gente ia a esses bailinhos ao toque de acordeom, essas coisa s. Na cidade tinha clube, mas era um clube assim, só as pessoas mais da elite é que frequentavam o clube. Eu não tinha condições de frequentar um clube, então a gente ia a esses bailinhos de periferia, de chácaras, de fazendas, juntava lá dois, três colegas, e ia para esses bailinhos.

 

P/1 – Você já tinha tido alguma namorada?

 

R – Sim.

 

P/1 – Qual foi a primeira?

 

R – A primeira foi até interessante. Eu namorei uma mocinha, eu tinha quinze anos, eu trabalhava nessa fábrica de macarrão, essa menina se chamava Isolina Fúba. Não era Fubá, era Fúba. Aí garotos, né? Para pegar na mão era difícil, mas acompanhava até à casa dela, conversava, tal. Depois deixamos. Eu fui para São Manuel, voltei, aí não namorei mais firme ninguém. Porque meu pensamento da época era o seguinte, as mocinhas da época queriam casar e eu não podia casar por causa da família, então eu dizia, se eu casar, mais uma. Porque na época as mulheres quase que... Casou, não trabalhava mais. Agora eu tenho que ajudar minha família e também outra? São duas famílias. Aí eu já explicava para as moças, dizia assim: “Olha, casamento...”. Elas não queriam. Elas queriam casar e pronto, o marido que... Na época era assim. E essa mocinha, olha, anos e anos depois eu fui a uma loja na Florêncio de Abreu, eu não reconheci, era ela que era funcionária da loja. E ela me reconheceu, ela falou assim... Porque foi dado o nome lá a respeito de compra, ela viu o Cassaniga, falou: “Você não é de Capivari?”. Eu falei: “Sou”. Ela olhou bem, falou assim: “Você não me conhece?”. Eu falei: “Não”. Aí que ela disse quem era. Ela perguntou se eu tinha me casado, falei: “Já me casei sim”. E ela também disse que casou, tinha uma filha, mas separada. Eu falei: “Eu ainda não separei, nem pretendo”.

 

P/1 – Que lindo.

 

P/1 – Bom, aí você foi morar no quartel?

 

R – No quartel.

 

P/1 – Como era o cotidiano? O que você fazia lá no quartel? Qual era a rotina?

 

R – Bom, naquela época a Polícia Militar, que o nome era Força Pública do Estado de São Paulo, então era rígido, seis horas da manhã o corneteiro tocava alvorada, a gente se levantava e ia fazer a higiene pessoal, barba, tal, e já ia para o rancho. O rancho era o café da manhã. Saía do rancho e ia para sala de aula, então nós tínhamos as matérias atinentes à formação.

 

P/1 – Que matérias eram?

 

R – Na época nós tínhamos Português, até tinha um professor civil que dava aula de Português para o soldado, escola de soldado. Hoje eu não sei se tem. Hoje os oficiais mesmos que dão aulas. E tinham os oficiais que davam aula também. Então nós tínhamos Português, nós tínhamos Geografia, Matemática, aí vinham as matérias atinentes, específicas ao policiamento, então Noções de Direito Penal, Noções de Processo Penal, Noções de Direito Constitucional. Na época não tinha Direitos Humanos, mas tinha Educação Moral e Cívica, substituía. Até era uma irmã, uma freira que dava aula para gente, ela era contratada do Estado, dava essa aula para a gente. Essa é a parte teórica, depois entrava a parte de prática, então nós tínhamos ordem unida, marchar, educação física, exercício de tiro, exercício de lutas: ataque e defesa, de imobilização, todas aquelas coisas de artes marciais que a segurança pública tem que ter. E assim foi, era período integral. E também fazia serviço, não todos os dias, mas a gente era escalado a serviço de plantão de alojamento, faxina, tudo a gente que fazia. Fim de semana também tinham os escalados, quem não era escalado era dispensado o fim de semana para ir para casa e quem era escalado ficava no quartel fazendo o serviço. E assim foram, na época, seis meses de curso. Hoje é mais.

 

P/1 – Você tava gostando? Você gostava?

 

R – Não, eu gostava, eu vibrava, eu gostava de tudo. Então eu tinha entusiasmo, bastante, tinha vontade de progredir.

 

P/1 – Era a semana inteira, vocês tinham folga, como era?

 

R – Na época, até aos sábados tinham expedientes até o meio-dia. Que hoje não tem mais. E só folgava do meio-dia de sábado até segunda-feira de manhã, tinha que estar a posto.

 

P/1 – E aí você ia para Capivari?

 

R – Nem sempre. Nem toda semana eu ia. Eu ficava no quartel, lavava a minha roupa ali, tal, passava. Aos domingos ia à missa. Essa irmã, essa freira, ela tinha um convento, então ela convidava aqueles que quisessem ir...

 

P/1 – Que ano era isso?

 

R – Isso foi 1960. E já começou em março de 1960.

 

P/1 – Você tinha namorada nesse período?

 

R – Não. Não tinha.

 

P/2 – Você fez amigos no quartel?

 

R – Fiz. Porque assim, da minha cidade fomos eu e mais dois, nós éramos três da minha cidade, depois fiz amigos no decorrer do curso. Então tinha até um que depois de muitos anos, depois de mais de quarenta anos nós nos vimos. Ele foi para Araraquara, continua até hoje lá, ele era de lá mesmo. Porque quando termina a escola, quando termina o curso, tem a formatura, recebe o certificado, tudo, aí distribui o pessoal, uns ficam em Campinas, outros vão para outros lugares, e eu não fiquei em Campinas, nem fui para minha cidade.

 

P/1 – Você foi para onde?

 

R – Rio Claro.

 

P/1 – Parou em Rio Claro.

 

R – Rio Claro.

 

P/1 – E aí?

 

R – Então fui destacado, designado para trabalhar em Rio Claro. Nós somos quatro, “então vocês quatro vão para Rio Claro”. Rio Claro é uma cidade bonita, uma cidade toda plana. E fui trabalhar em Rio Claro, serviços de guarda da cadeia, que tinha presos, e mais serviços de trânsito. E ali eu fiquei até me transferirem para outra cidade.

 

P/1 – E como era você tomar conta de preso?

 

R – É um serviço perigoso, arriscado, que a pessoa tem que ter força de vontade, porque você fica 24 horas de serviço, trabalhando duas horas e descansando quatro. Então na época eu entrava meio dia, o meu quarto de hora ia ser do meio dia às quatorze, e os outros colegas ficavam descansando. Aí eu saía às quatorze, entrava outro. É cadeia pequena, tinha o que lá? Doze, tinha quinze presos na cadeia. Então eu ficava tomando conta dos quinze presos.

 

P/1 – Vocês conversavam com os presos?

 

R – Conversava. Conversava normal.

 

P/1 – O que conversava com os presos?

 

R – Normal. Que você pega amizade, então você conversa com o preso. Perguntas, né? “Pô, você não tem religião?”. Aquelas perguntas. 

 

P/1 – E tinha alguém assim que ficava dando uma cantada para você liberar?

 

R – Eu, particularmente, nunca tive cantada, porque eu sempre tive os ensinamentos que a gente tem na escola, nunca ter uma conversa, porque o preso devagarzinho vai tentando, então eu já dizia o seguinte: “Olha, eu sou o segurança de vocês, se precisar de sangue, doar sangue, eu dôo para vocês, mas, por favor, não peçam nada. Tem um carcereiro aí, peçam para ele, ele providencia”. Porque de repente o preso pega alguém, fala: “Ah, você não podia trazer tal coisa  lá da rua? Um maço de cigarro?” “Não. Pede para o carcereiro. Quer? Carcereiro, vem cá. Precisando de alguma coisa , faz a lista aí de quem quer”. Que já tem horário certo de compra de coisa. Então não peça jornal, não peça revista, não peça para dar recado para família que não dou. Eu gosto de falar olho no olho. Pronto, ninguém pedia nada, então o próprio preso falava: “Poxa, não dá, esse não dá, vamos tentar outro”. Então no meu serviço nunca teve uma fuga de preso, porque eu trabalhava não só de tomar conta dos presos ali, como também escoltar presos. Hoje é fácil, coloca num carro, leva. Antigamente a gente levava no trem, o preso ia junto com a gente no trem. Então escoltas longas, algemava o preso no meu braço e o braço dele, iam dois, então a gente ia algemado junto com o preso.

 

P/1 – No trem junto com outros passageiros?

 

R – No trem. Junto com outros passageiros. São interessantes essas passagens.

 

P/1 – Você fez várias viagens dessa?

 

R – Várias viagens. Fiz de Rio Claro para...

 

P/1 – Você não tinha medo?

 

R – Fiz de Rio Claro para cidade de Pacaembu, que é longe, que você vê no mapa Rio Claro–Pacaembu, com baldeações na cidade de Adamantina, descer de um trem, pegar outro. Não, medo não. Medo eu acredito que nós todos temos medo, mas a gente sabe dominar o medo. Então o primordial do ser humano é o domínio do medo. Tenho medo? Tenho. Mas eu domino o medo.

 

P/1 – Tem algum preso que tenha te marcado? Alguma história?

 

R – Tem. Tem um preso que cometeu um crime em Goiás, que na época Brasília tava em construção ainda, e ele ia ser escoltado, porque ele era foragido e foi pego, nós o pegamos em Rio Claro e ele ia ser escoltado até São Paulo, para de São Paulo a vigilância captura transportá-lo para Goiás. Mas de Rio Claro a São Paulo a gente que ia conduzi-lo de trem. Então ia pegar o trem de madrugada e esse preso tinha ramificações em Rio Claro, conhecia muita gente. Eu não sabia. Quem estava escalado para a escolta eram dois soldados. E na última hora, à noite já, eu cheguei do serviço de noite, que também a gente fazia serviço em cinema, diversões públicas, terminou a sessão do cinema, eu me recolhi, porque eu dormia lá na cadeira também, tinha um alojamento nos fundos lá, a gente dormia lá, os solteiros. Então me deram o recado, falou: “É você que vai à escolta amanhã. O outro foi dispensado e você que vai no lugar dele”. Então levantei de madrugada, pegamos o preso e levamos. Algemei o preso em mim e fomos. Aí nós estávamos na estação conversando com o preso, conversando com esse preso e chegou o trem, que naquele tempo tinha linha férrea, era um trem muito bom da Companhia Paulista. O trem chegou, embarcamos, aí ele me falou dentro do trem. Eu tremi também, fiquei com medo, mas dominei. Ele falou: “Olha, a sorte do seu colega foi você” “Por quê?”. Ele falou: “Porque eu não gosto do pai dele e eu ia me jogar na frente do trem e ia arrastá-lo junto, que tava algemado”. Você vê que coisa , eu ia morrer, ia morrer junto ali com ele. Ele falou: “Eu até pensei, mas não fiz, porque você não merece”. Dessa eu escapei. Hoje não se algema mais, mas eu escapei dessa. Aí a escolta veio normal, chegou a São Paulo, entregamos, pronto. Depois tiveram outras escoltas para essa cidade de Pacaembu, depois teve outra para cidade de Ribeirão Bonito e muitas para São Paulo também. E escoltas de levar preso para ser ouvido em fórum da região de Rio Claro à Piracicaba, Rio Claro a Cordeirópolis, Rio Claro à Limeira, eu sempre participava dessas escoltas. Aí me transferiram para outra cidade, nessa cidade eu tenho muitas recordações, de incêndio, por exemplo. A cidade não tinha bombeiro, então nós participamos de madrugada lá, uma fábrica de móveis, um incêndio grande nesta cidade. Ela ficava no centro e o povo todo ajudando com pequenas mangueiras, aí começaram a trazer baldes das casas e pegar água no chafariz da cidade, e passar de mão em mão para jogar no incêndio.

 

P/3 – Que cidade que era?

 

R – Rio Claro. Não tinha bombeiro na época.

 

P/2 – Foi seu primeiro incêndio?

 

R – Esse foi o primeiro que eu participei. Eu ainda não pertencia ao Corpo de Bombeiros. 

 

P/1 – Ah, porque não tinha Corpo de Bombeiros, aí o exército que fazia esse papel?

 

R – Não, a Força Pública.

 

P/1 – Desculpa, a Força Pública.

 

R – A Força Pública.

 

P/1 – E vocês tinham tido algum treinamento já sobre isso quando aconteceu o acidente?

 

R – Ah, sim. Na formação de soldado se tem a matéria de extinção e combate a incêndio, prevenção e combate a incêndio, que os soldados têm toda uma coisa  básica, depois, se for servir no bombeiro, aí sim, aí vai ter outro curso lá quando for transferido para lá.

 

P/1 – Mas até então você nem tinha pensado nisso?

 

R – Não. Não, eu pensava em servir no bombeiro, mas não é porque eu quero ir que vai.

 

P/1 – Mas você pensava já em servir no bombeiro?

 

R – Pensava. Já pensava.

 

P/1 – Por que você pensava isso?

 

R – Porque no meu íntimo, dentro de mim, o meu pensamento era: se eu servir no bombeiro, eu acho que eu vou ser mais útil do que servindo aqui, porque no bombeiro eu vou ser especificamente atuante em salvamentos, em extinção de incêndio e busca de pessoas perdidas, desaparecidas, salvamentos até de animais. Diferente daqui, porque aqui eu tenho que lidar com preso e tal. Bombeiro não, bombeiro é específico naquilo, focado naquilo.

 

P/1 – Mas você queria ser bombeiro também para fugir dos presos?

 

R – Não. Também não, porque se eu ingressei em uma corporação, eu já sabia que eu tinha que servir onde fosse designado. “Ah, não quero, eu quero servir...”. Não. Você vai aonde tem vaga. Então se você quiser ir para o bombeiro, lá na frente você vai conseguir, mas por enquanto você vai ficar aqui. E assim foram se passando os tempos, em Rio Claro tiveram outras ocorrências que marcaram minha mente.

 

P/1 – Quais?

 

R – Por exemplo, eu estava de serviço de trânsito, fazendo um serviço de trânsito, a gente também fazia todo o serviço, e um taxista veio e me chamou, falou: “Ô Cassaniga, eu tava passando ali, daí eu ouvi uns tiros dentro de uma casa ali”. Aí eu embarquei no carro dele mesmo e fui para o local. E no local tinha um pessoal na porta da casa, eu entrei já com todas as precauções e vi uma mulher sentada no sofá, e um senhor abanando essa mulher, e uma arma do lado do sofá. Achei estranho aquilo, o que aconteceu, né? Já peguei aquela arma, ele falou: “Vai ao quarto ver”. Aí eu entrei no quarto, havia uma mulher caída na cama com um tiro no peito, sangrando, uma criancinha, bebezinho ainda, chorando no berço, e um homem caído em cima da cama, uma espingarda caída no chão, e ele com a cabeça esfacelada. Então ele matou a mulher, a mãe dele correu lá, tomou a arma dele, ele pegou uma espingarda que tinha e suicidou. Então uma cena que ficou gravada para sempre. E eu soldadinho novo, peguei a criança, levei-a para fora, que tava aquele cheiro de pólvora, de sangue ali dentro, levei lá, entreguei para uma mulher, falei: “Toma conta dessa criança”. E já providenciei a vinda lá de... Até o delegado compareceu no local, fizemos o levantamento na época. Hoje não, hoje vem a perícia, tudo. Na época a gente que fazia tudo, então o escrivão, o delegado, eu, ajudando virar a mulher, o homem, ver como estavam vestidos, onde pegou o tiro, para depois transportar esse pessoal para o necrotério e ficar lá dois, três dias, até vir médico legista para fazer a necropsia, a autópsia. Então eu passei por essa situação também. No mesmo dia levamos aqueles corpos, eram mais ou menos, até terminar a ocorrência, eram umas duas, três horas da tarde. Levamos esses corpos para o cemitério, deixamos lá no necrotério para aguardar a vinda do legista, voltei para a cadeia para me lavar, tava cheio de sangue, daí a pouco um telefonema que uma criança caiu num tanquinho d’água de lavar roupa, caixa de lavar roupa, e morreu afogado. Essa aí eu não fui, alguém que foi lá levou a criança também para o necrotério. E no mesmo tempo um comunicado que uma pessoa se jogou na frente do trem, o trem de passageiro. Daí eu fui para o local, chegando ao local, o trem parado, tudo, aí os pedaços da mulher. A mulher era a mãe da criança. Que a criança morreu, ela ficou desesperada, saiu correndo, se jogou debaixo do trem. E eu catei os pedaços dessa mulher. Eu lembro que, fica gravado, um dos pedaços era a cabeça, parte do tórax e o braço, e tava a aliança na... Aí catamos os pedaços, colocamos num saco, abriam-se um saco, fez como uma rede, juntamos todos aqueles pedaços e levamos também para o necrotério. No mesmo dia todas essas ocorrências. Então para mim foi um batismo, um batismo de casos assim.

 

P/2 – Que batismo, né?

 

R – Que batismo. Então eu permaneci em Rio Claro, fiquei praticamente de 1960 até final de 1961 fazendo esse serviço de guarda de trânsito. E naquela época, quando um soldado ou alguém entrava de férias em municípios vizinhos, destacava-se um homem para ir para essa cidade ficar quinze dias substituindo, depois voltava, ia outro e ficava mais quinze dias. Porque na época se pagavam as diárias de diligências. Então eu ficava quinze dias lá, ganhava quinze diárias de diligências, um dinheirinho a mais. E como eu era solteiro, sempre eu que ia. Então de Rio Claro eu trabalhei em Conchas, cidade de Conchas, que pertencia ali, hoje não, hoje descentralizou. Trabalhei em Águas de São Pedro, trabalhei em Cordeirópolis, trabalhei em Leme, Charqueada, Elias Fausto, toda cidadezinha que a gente ia substituir, mas depois voltava para Rio Claro outra vez. Até que um dia veio uma ordem para me transferir para uma cidade chamada Iracemápolis. Uma cidade é encravada no meio do canavial, não tinha nada. Eu cheguei lá, tinha cinco presos numa cadeiazinha pequena, cinco presos. Mas fiquei mais alegre, que tinham dois colegas que fizeram curso comigo, que trabalhava naquela cidade. E tinham outros soldados, mas aqueles dois eram meus amigos. Então tinha um alojamento bom, já fiquei morando ali também. Eu falei: “Meu Deus...”.

 

P/2 – Onde era essa cidade?

 

R – Iracemápolis. É a terra até desse jogador... Como é o nome dele, meu Deus? Que machucou a perna, não lembro o nome dele, jogou na seleção brasileira. Era uma cidadezinha pequena, não tinha nada, nove horas da noite não tinha mais ninguém na rua. E até arrumei uma namorada nessa cidade. Interessante, o pai dela tinha um bar, e ela estudava em Limeira, porque lá só tinha o grupo escolar, quem quisesse fazer ginásio e tal, tinha que... O ônibus levava para Limeira na prefeitura e depois trazia. Mas a família não queria. Então a gente se gostava até, mas a família não queira. Por ser soldado, acho que tinha preconceito na época. Mas tudo bem. E ela propôs para mim: “Você não quer fazer um concurso? Abriu um concurso aí na Caixa Econômica estadual, você presta o concurso”. Mas tinha que deixar a vida militar, eu falei: “Não”. E expliquei para ela também que tinha que ajudar a família, tudo. Eu falei assim: “Você vai esperar eu sair da Força Pública?” Ela falou: “Eu espero”. Eu falei: “Só que você vai morrer solteira, porque eu não vou sair”. E acabei, depois, me preparando, porque eu não tinha condições de passar no exame de admissão para fazer um curso para graduado. Pra ir para academia não dava mais, porque tinha um limite de idade também.

 

P/1 – Você tava com quantos anos?

 

R – Não, até dava para academia, mas ainda não tinha o que necessitava para Academia do Barro Branco, já naquela época era bem disputada. Mas para ir para fazer o curso de cabo, sargento, tinha que estudar bastante. Então eu já vinha estudando desde Rio Claro um pouquinho, tal, aí arrumei um professor particular na cidade, era o único professor que morava na cidade, até o nome dele eu não esqueci, era Benedito Barbosa esse professor. E a gente ia... Até eu falei com um colega, falei: “Vamos estudar, tal”. Ele falou: “Ah, eu não passo, não sei o quê, eu tô noivo”. Falei: “Vamos, vamos, vamos”. Conquistei, fomos nós dois. A gente pagava mensalmente para o professor e ele dava aula na casa dele, mas só que o menininho dele vinha puxar a toalha, tal, ele falou: “Não dá para eu ia lá à cadeia?”. Aí falamos com o sargento que era o comandante, ele falou: “Não, pode vir à minha sala aqui. Eu deixo umas horas, aí vocês...”. Aí ele vinha todos os dias. Depois do almoço ele vinha lá dar aula para gente. E dava aula, dava aula. Eu prestando exame e não passava, meu colega passou e eu não passei. Aí meu colega deixou a cidade e veio para São Paulo fazer o curso, que eram seis meses de curso. E o curso de cabo, sargento, naquela época era na Academia do Barro Branco, era feito ali juntos com oficiais. Separado, é lógico, mas no mesmo prédio. E até a cidadezinha pequena falou: “Ih, o Darcy agora vai largar Lazinha”. Que era a namorada. Mas ele foi fiel ali, terminou o curso, foi promovido, foi classificado em São Paulo, aqui em São Paulo, para trabalhar aqui, todo contente. E voltou lá, me convidou para ser padrinho do casamento dele. Eu fui padrinho de casamento, foi bacana. E o povo da cidade falou: “Ele foi fiel”. E trouxe a esposa para São Paulo. E eu fiquei lá, prestei mais um exame e não passei. Estudar, estudar, aí passei. Aí consegui passar e vim para São Paulo, fiz o curso, aí fui promovido cabo. E como cabo eu voltei para o interior, designado para trabalhar na cidade de Leme. O cabo na época comandava o destacamento, então eu comandando o destacamento...

 

P/1 – Que ano é esse?

 

R – Em 1963, o curso de cabo. Em 1960, soldado, em 1963, cabo. E eu estava em Leme, o meu comandante me liga, até fiquei: “Ué, meu comandante me ligando”. Era um capitão, um capitão rígido, o pessoal até tinha: “Ah, esse capitão é meio bravo, tal”. Chama-se Capitão Evandro Francisco Martins. Falou: “Cassaniga, eu recebi aqui um documento aqui de um pessoal de Limeira, que eles querem formar uma Guarda Mirim, e eu quero designar uma pessoa para ir dar aula, formar essa Guarda Mirim lá na cidade de Limeira, você quer ir?”. Mas que depressa eu falei: “Eu vou sim. Tá para mim”. Aí me recolheu de Leme e me mandou para Limeira. E eu comecei a formar os garotos. Garotos de uma casa espírita, Nosso Lar, que tem até hoje em Limeira. Eram órfãos que moravam na casa espírita e mesclando com alguém da cidade nós formamos a Guarda Mirim. A primeira Guarda Mirim acho que de tudo, não existia Guarda Mirim, eu acho que não, eu acho que essa foi a primeira. Jundiaí tem uma muito... Mas perde para de Limeira. Limeira foi a primeira. Inclusive eu tenho fotos. Na época nós fizemos fotos antes, os meninos todos descalços, e depois, todos fardadinhos, bonitinhos. E a guardinha se formou direitinho, prestava o serviço junto ao fórum e alguns órgãos públicos, e no trânsito. Esses meninos fardadinhos, tudo, tinha a cabininha, tinha o cassetetezinho branco naquela época, apito. Então foi muito bonito, foi muito bacana, comentado em jornais, tudo. Aí eu fiquei ali até conseguir ir para escola de formação do sargento. Aí consigui passar, voltei para São Paulo, fiquei um ano na academia e me formei sargento. Aí voltei para o interior novamente, sargento, aí começa a quase chegar ao bombeiro.

 

P/1 – Mas você ia crescendo nessa carreira ali, mas você pensava em ser bombeiro?

 

R – O pensamento era sempre bombeiro. Inclusive nas escolas eu pedia para ir para o bombeiro, falavam: “Não tem vaga, tal”. Então vai indo. Eu me formei sargento e voltei para Piracicaba, daí me mandaram para Piracicaba, como sargento. Eu cheguei lá, duas semanas depois uma tragédia, em 1900... Foi no dia seis de novembro de 1964. Desabou um prédio em Piracicaba, onde morreram quarenta e cinco pessoas, e muitas feridas. E eu participei desse salvamento. Porque daí veio bombeiro de Campinas, Piracicaba tinha bombeiro também, eu participei junto no salvamento dessas vítimas, pessoas que ficaram feridas, e os mortos, recolhendo os corpos. E ali foram duas semanas de trabalho, foram diuturnamente. Então a gente descansava um pouco, voltava, foi montada ali uma cozinha industrial, a prefeitura montou, já almoçava ali mesmo, jantava ali mesmo. Aí depois que resgatou a última vítima, já sem vida, o meu comandante me chamou lá, falou: “Olha, agora eu vou oferecer para você trabalhar... Você vai comandar no destacamento de Santa Bárbara d’Oeste”. Cidade que tinha muitas indústrias, a Romi, fabricava até essas romisetas que de vez em quando a gente vê, mas não tem mais. E eu fui comandar essa cidade. E nessa cidade teve algumas passagens também, incêndio, que não tinha bombeiro, eu participei de incêndio comandando lá guarnições que vieram de usina de açúcar, até chegar o bombeiro de Piracicaba. Conseguimos salvar outras residências. Apreensão de um avião de contrabando que desceu na cidade. Aterrissou forçado, lá não tinha campo de aviação, acho que não tem até hoje, e ele fez uma aterrissagem forçada num canavial, que havia cortado a cana e ficam aquelas costelas, aquelas lombadas. E esse avião recolheu o trem de pouso e desceu de bojo. E nós corremos para o local, fomos chamados com a intenção de prestar socorro à vítima, mas era um avião com cargas de whisky, whisky Old Parr e cigarro americano. Naquele tempo, né? O piloto fugiu, nós arrecadamos, apreendemos a carga toda. Inclusive isso foi manchete de jornal, tudo, na época. Fizemos as apreensões todas, até o escrivão falou: “Olha, eu estou aqui há mais de vinte anos, nunca aconteceu um caso desse. Você aqui já...”. Falei: “Será que eu sou um ímã, um para-raios, que tudo que acontece...”. Piracicaba também nunca havia caído um prédio, eu venho aqui, cai um prédio, meu Deus! Aí fiquei lá em Santa Bárbara, fui recolhido para Campinas, trabalhei alguns meses na administração de Campinas e fui designado para ir para Jundiaí. Jundiaí é um destacamento grande, com cinquenta e tantos homens. Que seria comando de oficial, mas mandaram o sargento comandar o destacamento. E eu fiquei em Jundiaí comandando o destacamento. Não só Jundiaí, como os municípios pequenos de Itupeva, Várzea Paulista e Campo Limpo Paulista.

 

P1 – Você tava com quantos anos aí?

 

R – Eu tinha vinte e seis.

 

P/1 – Você já tinha casado?

 

R – Não. Ainda não.

 

P/1 – Nem namorada, nada?

 

R – Aí já tinha uma namorada em Jundiaí também, mesma situação. Porque meus pais mudaram, nesse meio de tempo meus pais se mudaram de Capivari para Jundiaí.

 

P/1 – Por que você tava lá?

 

R – Não. Porque vieram para Jundiaí, arrumaram um local lá que era uma porcelana, uma fábrica de porcelana, que meu pai foi ser caseiro, morar dentro dessa porcelana, tomar conta da fábrica e morar ali dentro, tudo, então era bem mais... Aí ficou mais confortável. Aí uma das minhas irmãs se casou. As duas, a mais velha e a outra abaixo se casaram, então ficou só uma irmãzinha pequena, meu pai e minha mãe, então era mais fácil de a gente ajudar. Falei: “Agora vai dar para casar”. Mas aí eu venho para Jundiaí e Jundiaí eu sou comandante lá, policiamento de campo de futebol, tal, Jundiaí já uma cidade maior, mas a intenção bombeiro. Num determinado dia veio um comandante geral da Força Pública, que era um coronel do exército. Comandante Geral da Força Pública do Estado de São Paulo, ele vem inesperadamente fazer uma inspeção em Jundiaí e me encontra como comandante. Então ele pediu, falou: “Aqui não é comando de sargento, nós temos que instalar uma companhia aqui, não um destacamento”. Aí coube a nós conseguir um espaço físico para montar uma companhia. Um acordo com o prefeito, tal, conseguimos um prédio bem bacana lá e instalamos uma companhia. Consegui telefone, conseguimos instalar mesmo tudo bacaninha. Aí veio um capitão comandar, eu sargento passei o comando para um capitão. Aí veio mais gente, aí ficou uma companhia. E eu fui transferido para o Corpo de Bombeiros, daí eu fui para o bombeiro. Falei: “Agora, tudo que eu fiz valeu a pena”. E fui apresentado para servir no antigo 2º Grupamento de Bombeiros. Não, vamos falar 2º Grupamento, senão confunde aqui, agora em São Paulo tem o 2º Grupamento de Bombeiros. Na época falava Corpo de Bombeiros de Campinas. Então eu servi, fui para lá em 1967, no final, fiquei lá 1967, 1968, 1969 e 1970. Nessa minha ida para o bombeiro...

 

P/1 – Na época da ditadura então você virou bombeiro?

 

R – Virei bombeiro quando teve...

 

P/1 – Você foi para outra...

 

R – É. Virei bombeiro. Aí o que aconteceu?

 

P/2 – Desculpa, você voltar a repetir a sua pergunta? Acho que deu problema na fita.

 

P/1 – Nessa época da ditadura você virou bombeiro, você não precisou participar...

 

R – Eu participei sim. Quando eu estava na escola de sargento é que houve aquele movimento interno da nação. A gente não chama de golpe militar, nem de ditadura, é um movimento interno da nação. Suspendeu-se a escola de sargento e eu fui designado para ir com uma tropa para Utinga. Utinga tem um terminal de oleoduto, onde bombeia os combustíveis de Cubatão lá para Utinga. Então nós ficamos fazendo guarda naquele local, porque o serviço de inteligência teve informações de que eles iriam explodir aquele depósito de combustível. Ali são milhões e milhões de -----------------, escola de sargento, eu fui até auxiliar de um oficial com um pelotão na escola de cabos e permanecemos ali, dormimos ali, fazendo guarda naquele setor, porque corria o risco de explosão.

 

P/1 – Por grupos...

 

R – Por causa desse movimento interno da nação, então grupos não simpatizantes com a saída de João Goulart, o movimento era esse.

 

P/1 – E vocês tiveram um treinamento específico de como agir caso tivesse algum enfrentamento?

 

R – O treinamento sempre houve dentro das instituições militares. Nós tivemos um treinamento constante, não era um treinamento específico. Nas matérias em que caem, nós temos a defesa territorial, que nós somos obrigados a defender a constituição. Seja o partido que estiver lá, nós somos obrigados a defender a constituição, tanto as forças auxiliares, que são as polícias militares e corpos de bombeiro, como também as forças armadas, mais ainda. Então o treinamento específico é o mesmo. Nós fomos fazer serviço de guarda, de segurança, num setor que estava prestes a ser sabotado, mas não houve sabotamento, não houve nada. Nós ficamos o tempo que ficamos lá, foi pouco tempo também, e retornamos à academia e continuamos os nossos estudos. Aí terminou o sargento, fui, passei por tudo isso e aí estava indo para o Corpo de Bombeiros.

 

P/1 – Como foi sua chegada lá?

 

R – Bom, nós chegamos, não fui só eu, foram vários sargentos. Então nós fizemos primeiro um estágio de adaptação de bombeiros, adaptação de sargentos para servir no Corpo de Bombeiros. Uma adaptação, não era ainda o curso específico. Então aprendi tudo aquilo e saía junto, salvamento, naquele tempo não tinha o resgate que hoje tem. Por exemplo, o serviço de salvamento é que fazia toda essa parte de resgate. Hoje é de primeiro mundo, tem material sofisticado, uma técnica sofisticada, tem um protocolo internacional. Que hoje o mesmo bombeiro que faz o serviço aqui, ele faz no Japão, na Itália, nos Estados Unidos, é o mesmo protocolo. O procedimento de chegar a uma pessoa, colocar um colar, fazer a imobilização, é o mesmo. E na época não tinha isso, então a gente não tinha... Você chegava a um acidente com um preso em ferragem, por exemplo, você tinha que cortar ali com uma moto abrasiva. Hoje tem um alicate hidráulico, que não tinha na época. Até meu filho é bombeiro hoje, ele me fala tudo. Eu falo: “Poxa, vocês hoje estão bem melhor que antes, porque antes nós não tínhamos, chegávamos com aquela serra, tinha que jogar água ou senão com um pano úmido ali para a faísca não queimar a pessoa que tava presa nas ferragens”. Hoje é tudo mais sofisticado. Então eu estava servindo como bombeiro naquela época, o nosso comandante designou cinco para fazer um curso de paraquedista e eu fui fazer o curso de paraquedista. Lá em Campinas veio alguém da Brigada de Paraquedista do Rio de Janeiro, montou-se o curso e eu fiz o curso de paraquedista. Então voltei para o bombeiro, paraquedista. E continuei no bombeiro, salvamento, incêndio. Do Corpo de Bombeiros eu passei num... Aí nesse meio de tempo eu comecei a estudar e tal, consegui fazer o primeiro grau, consegui terminar o colegial e fiz um vestibular dentro da corporação, e fui para escola de Educação Física, onde eu fiz o curso de Educação Física. Então eu sou formado em Educação Física, diploma reconhecido pelo MEC como curso superior. Até hoje eu tenho a carteirinha do CREF, Conselho Regional de Educação Física. E estava contente no bombeiro. Então fui designado para ser monitor de educação física, para dar aula para o bombeiro. Comecei a dar aula para o bombeiro, juntamente com um oficial também, então era o sargento e o oficial, os dois preparavam os bombeiros para as atividades. Chegou uma ordem para que eu me apresentasse em São Paulo, que estava sendo formada uma tropa especial, quer dizer, “você vai continuar sendo bombeiro, mas nessa tropa especial”. Como hoje nós temos lá em Brasília as forças especiais, forças...

 

P/3 – Força Nacional.

 

R – Força Nacional. Não tem a Força Nacional? Ela é formada por quem? Por bombeiros e policiais militares, que são levados lá, têm treinamento e vão para o Brasil todo. Onde precisar, essas Forças Nacionais vão. E eu fui para São Paulo com um grupo de pessoas, que uma das condições era ser paraquedista, e formou-se o COE, Comando de Operações Especiais.

P/1 – Aí você fez parte do COE?

 

R – Fundador. Sou um dos fundadores do COE. 

 

P/1 – E fala uma coisa , você nunca tinha vindo para São Paulo ou você já tinha vindo outras vezes?

 

R – Não, já, as escolas que eu fiz aqui, tudo em São Paulo, eu conhecia São Paulo.

 

P/1 – Mas nunca tinha morado?

 

R – Não. Morei um ano quando eu fiz o curso de formação de sargento, seis meses quando eu fiz o de cabo. Um ano e seis meses eu já conhecia mais ou menos São Paulo, porque nos estágios a gente corria São Paulo. Aí vim para o COE e, bom, o COE tinha muitos bombeiros. Os quatro sargentos que faziam parte desse grupo eram todos bombeiros, e mais soldados cabos bombeiros também. Então eu fui designado através de uns exames que foram feitos e passei a vir do Exército, em 1970.

 

P/3 – E de todas que você fez assim, quais as que mais te marcaram? Agora eu to entrevistando.

 

P/1 – Falando das hipóteses, que tinha uma obra...

 

P/3 – Ah, do japonês lá.

 

P/1 – Lá no meio. Estavam construindo...

 

P/3 – Dos operários.

 

R – Ah, sim. Eu, no meu pensamento, ele passou por ali, porque foi feito também uma investigação desses operários, mas eles diziam assim: “Não, a empresa de seleção é registrada tudo aqui, mas vem gente de fora também visitá-los”. Porque era gente do Brasil todo que trabalhava ali. Então vêm amigos dele de fora, sei lá de onde, vem aqui, passam duas, três noites, dormem aqui e vão embora. Não é empregado nosso, mas vêm aqui. No meio da serra lá, do mar. Então será que alguém não seguiu esse japonês, roubou a máquina fotográfica, tudo que ele tinha, enterrou-o e pronto, é um crime perfeito? Até hoje não se tem notícia. Itiro Mutai, o nome desse japonês, Itiro Mutai. Os filhos dele eram engenheiros da antiga Light. Tudo que foi preciso nós fizemos. Aí se suspendeu a busca, dez anos depois o juiz deu morte presumível para poder repartir os bens dele. Morte presumível. Pronto. Nós nunca achamos o corpo. Então passa essa fase de 1973, aí entra 1974. E já logo no começo do ano, em janeiro, vem o incêndio do Joelma. E o COE é designado novamente para ir correr para o incêndio.

 

P/3 – Fevereiro.

 

R – É. Fevereiro. Dia primeiro de fevereiro. Primeiro de fevereiro de 1974 de manhã. O Andraus foi à tarde, o Joelma foi de manhã. Deve ter começado por volta de oito e pouco da manhã, porque nós fomos para lá nove horas. Eu estava de folga, mas morava no quartel. Fardei-me rapidamente, juntamos lá uma patrulha, aí uma viatura levou a gente até o local e lá tinha o oficial da rota, que fazia aquela rota da manhã, era o tenente Olavo Santana, esse tenente falou: “Olha, o pessoal aí...”. Porque ele também é do mesmo quartel, nós servíamos no 1º Batalhão Tobias de Aguiar. Ele disse: “Corre no terraço da Câmara Municipal que o capitão Caldas tá coordenando essa parte de salvamento”. Aí eu subi lá para o terraço, nós subimos, e esse capitão já me viu, eu já tinha trabalhado com ele no outro incêndio, ele disse: “Olha, Cassaniga, eu to precisando de um voluntário para ir num helicóptero e saltar em cima do prédio. Não é obrigado ir, porque é grande risco de vida, eu não estou obrigando ninguém a ir, eu estou pedindo um voluntário”. Eu falei: “Eu vou”. Aí embarquei no helicóptero, o helicóptero sobrevoou o prédio em chamas, fez a primeira passada, não em cima do prédio, longe, porque helicóptero pequeno não tinha autonomia de parar em cima do fogo, se cai o helicóptero lá em cima, pronto, é uma tragédia maior. Aí ele fez a volta, passou, mandou que eu saltasse, eu fiquei de pé me segurando quase no pescoço do piloto, e eu não saltei de nervoso, ele falou: “Vou fazer mais uma passagem, se você não saltar eu volto, não fico mais aqui”. Eu falei: “Mas tá muito longe”. Porque aqui tá o prédio, ele passava longe, se eu salto eu vou cair no vão ali e ser mais uma vítima. Eu falei: “Dá uma entrada e uma saída rapidamente que eu salto”. Aí ele fez isso, fez a volta novamente, aí ele fez a entrada no prédio e a saída, que é quase um “v”.

 

P/1 – Aí você ficou lá?

 

R – Aí eu saltei no telhado. Porque lá é diferente do Andraus, que tinha heliporto. Lá não tinha heliporto, lá era telha mesmo e o pessoal lá em cima da telha. E eu saltei pensando que ia amortecer a queda no telhado, mas não amorteceu, estourou a telha, eu bati com o pé na laje embaixo, que era telhado, mais ou menos um metro, eu bati e já senti formigamento no pé, eu falei: “Estourou meu pé”. E a sorte que eu não caí em cima das vigotas, do vigamento, caí no vão da telha. E aquele pessoal todo ali em cima correndo de um lado para outro, vinha uma língua de fogo, eles corriam para um lado, vinha de outro, eles corriam para o outro, depois parava tudo, eles paravam. E eu percebi gente queimada, gente entre a telha e a laje, eu apertei bem a bota e pensando que o helicóptero ia trazer mais alguém, aí não voltou mais. E aquele pessoal também se auto depredando gritando que ia morrer e tal, então eu tive que usar a psicologia de massa, gritar, gesticular, fazer com eles... Um plano que eu fiz, eles pararem no centro do telhado.

 

P/1 – Você fez na hora o plano quando você percebeu?

 

R – Na hora assim, na hora. Isso aí a gente aprende. O bombeiro que tem muito disso, que chega a uma situação dessa, tem que fazer um plano de momento, de meio minuto, não é ficar lá marcando, não é nada disso. Você pensa na hora: “Bom, eu tenho que fazer um plano, fazer com que esse pessoal fique no centro do telhado, mesmo que venha a língua de fogo, não vai pegar. Agora, se vai pegar fogo no madeiramento, eu não sei”. Porque tava muito quente ali, o que tava queimando embaixo tava... A laje estava quente, então ia ter um ponto de fulgor, uma temperatura que poderia pegar fogo na madeira. Então eu consegui gritando, gritando, gesticulando. Eu tive até que usar da lógica de meios para não deixar uma pessoa que ia saltar lá de cima, até usar de força para deixá-lo desmaiado ali para não saltar. E consegui. E nada de vir reforço. Aí consegui, comecei a tirar o pessoal que tava debaixo da laje e colocar no telhado, com dificuldade, porque é difícil pegar um corpo, mas eu conseguia, punha ali, e quem ia me ajudar? Ninguém tinha condições. Até que um rapaz, ele me chamou pelo nome, Cassaniga, e falou: “Ô, Cassaniga, em que eu posso ajudar?”. Também todo esfarrapado, todo vermelho. Aí falei: “Então vem cá, vem cá, pega em dois, melhor, põe lá em cima”. Aí pegamos uma moça, coloquei lá em cima, e a moça tava quente, porque ela tava deitada na laje. Ela deve ter entrado debaixo da laje, esquentou, ali ela não tinha mais forças para sair dali. E essa moça estava quente, ela estava sendo cozida, assada, e eu fiz massagem, e ela soltou talvez o café, sei lá, tudo quente. E ela mexia a boca, e eu interpretei que ela dizia: “Não me deixe morrer”. Aí eu fiz a massagem, tal, mas ela morreu, praticamente nos meus braços. Então eu fechei os olhos dela e fui à frente para salvar outras pessoas, essa não teve jeito. E tiramos as pessoas que estavam ali debaixo, colocamos no telhado, até que veio um helicóptero da Força Aérea Brasileira...

 

P/1 – Demorou quanto tempo para chegar?

 

R – Ah, veio de Santos, demorou muito tempo, porque tava neblina na serra tudo naquele dia de manhã. Daí eu percebi no prédio São Patrício, ao lado, havia um grupo de pessoas, esse capitão e mais alguns bombeiros do COE ali, e eu dava sinal para eles que eu tava com o pé... Que eu tava ferido.

 

P/1 – E mesmo assim você tava...

 

R – Então o que eles fizeram? Já que esse helicóptero não vinha de Santos, eles montaram, eles pegaram as pontas da corda naquele prédio São Patrício, que lado sul, então não tem chama de fogo, porque era poço do elevador ali, e o helicóptero veio sobrevoando, sobrevoando, e jogou outro bolo de corda para mim e eu fiz as amarras lá naquele madeiramento. E os colegas do São Patrício vieram pela corda. Eram oitenta metros de altura passando naquela corda e vindo me ajudar. Aí chega o helicóptero da Força Aérea Brasileira com mais três colegas e formou um grupo de oito homens lá em cima. E começamos a carregar, retirar as pessoas que estavam em pânico. Então as primeiras pairadas do helicóptero ficavam um metro, um metro e meio de altura, e nós colocávamos aqueles corpos feridos lá em cima, mas os primeiros foram os que estavam melhores em condições. Não teve jeito, baixou o helicóptero, eles entravam dentro, agarravam no esqui de tal forma que a gente tinha que arrancá-los do esqui, porque não era possível dependurado, que ele caía. Aí as primeiras duas, três passagens do helicóptero, saíram os que estavam em melhores condições. Aí que começamos a gritar, tal, para saírem os feridos. E fomos carregando aquelas pessoas feridas, as queimadas, as desmaiadas. E o helicóptero saía do Joelma e ia até à Câmara Municipal, no topo da Câmera. E da Câmera, os helicópteros menores iam conduzindo o pessoal para os hospitais. E assim foram feitas várias viagens, acho que cento e tantas pessoas foram retiradas do topo do prédio e levadas. Até que num determinado momento, quando nós estávamos tirando os mortos, eu me senti mal, então eu até falei para o colega: “Eu não tô bom, eu tô me sentindo mal”. Aí quando eu acordei, eu tava no hospital, já era madrugada, entubado com sonda no nariz, com soro, com perna enfaixada. E ali eu fiquei internado até o dia seguinte, que eu me recuperei. Não só eu, tinha uma enfermaria improvisada com muitos colegas, só que em piores condições fui eu. No dia seguinte imobilizou, fiquei quarenta e tantos dias imobilizado. E fiquei afastado um tempo, depois...

 

P/1 – Você fez, quer dizer, você participou dessa operação já fazendo tudo com a perna quebrada?

 

R – Não foi uma fratura, foi uma luxação forte, que é pior que fratura.

 

P/1 – Mas você fez lá.

 

R – Mas eu não senti. Depois sim, mas eu não senti, eu trabalhei daquele jeito. E o que aconteceu? Nós fomos... Daí fui para o quartel, eu morava no quartel, depois fui para casa. Então à noite, quando eu estava dormindo com aquele gesso, eu sentia aquelas pessoas segurando em mim, então eu asfixiava o pé lá, rasgava até o lençol, transpirava muito, então eu tive que fazer um tratamento psicológico na época. Fiz o tratamento, pratiquei ioga, tudo, para poder superar aquilo. Inclusive a psicóloga falou: “É bom que você de vez em quando comente, que vai saindo de você”. Mas há quarenta e tantos anos isso fica gravado. quarenta? Trinta e oito, né? Trinta e oito anos. Mas ficou gravada essa passagem do incêndio do Joelma. E aí passa o ano de 1964, no final do ano eu fiz um curso lá de técnico de segurança do trabalho, e durante esse curso eu fui acometido da apendicite, tive que ir para o hospital, fiz a cirurgia toda, fiquei bom novamente. E voltei, daí continuei a minha rotina no COE. Quando veio o ano de 1970 e...  Aí tiveram várias ocorrências, pessoas desaparecidas nas matas. Em 1977, 1978, fomos chamados por volta de meia-noite, um menino que desapareceu aqui na região do Pico do Jaraguá, Jardim Panamericano, que hoje tá povoado, mas naquela época era mata só. E esse menino desapareceu, e nós fomos, e por volta das duas e pouco da madrugada nós conseguimos encontrá-lo. Eu fiz o rastreamento de madrugada, que é difícil, mas consegui ver uma pegada do menino nos bancos de areia, no mato, um pouquinho de areia que tinha lá, umas pegadinhas do pezinho dele. Porque a mãe dele dizia que ele tava com a sandalinha calçada, mas depois uma das equipes achou uma sandalinha num determinado local. Eu falei: “Ah, o que foi encontrado então é pezinho dele mesmo”. Só o sinal do dedinho. Aí seguimos naquela situação ali, estava uma madrugada fria, e por volta das duas e pouco da madrugada eu ouvi um chorinho no brejo, era o menino. Ele entrou num brejo, tava com a água até o joelho, encostadinho num pé de assa-peixe, é um mato que chama assa-peixe, uma madeira, que ela caiu e ele ficou encostadinho ali tremendo de frio. Na nossa corporação existem correntes de que à noite cessam as buscas. Eu nunca aceitei essa corrente, por quê? Se um menino de poucos anos tá perdido no mato, por que eu não posso ficar também? Então encontramos esse menino e salvamos. Saiu com vida, foi para o pronto socorro todo cortadinho de espinho, mato. E esse menino foi salvo. Ele é filho de um motorista de táxi. Hoje já deve tá homem formado, isso foi em 1978. Quantos anos ele tinha? Na época ele tinha por volta do quê? Cinco anos. Cinco, seis anos. Inclusive, quando nós levamos ao pronto socorro esse menino, passamos para fazer o boletim de ocorrência lá, tudo do encontro dele, e havia aquele Jornal Bom Dia São Paulo já de manhã e filmou aquilo ali. Aí o Jornal Estadão acho que viu, o repórter foi, buscou o endereço e foi à casa do menino para ver a veracidade, tirou até foto no menino com a camisetinha rasgada, tudo, então no Jornal Estadão tem a foto dele contando o que aconteceu, o nome dele, endereço, tudo. Morava aqui na região de Pirituba, por ali. Então esse fato é sequência das ocorrências. Aí vem o ano de 1976, eu presto vestibular para fazer Direito, aí vou para faculdade de Direito. Com um grande esforço, demorou seis anos para eu fazer a faculdade.

 

P/1 – Por que você queria fazer Direito?

 

R – Para adquirir melhores conhecimentos, exercer melhor as funções e tudo. Só por isso, porque diziam: “Ah, você vai sair da polícia, você vai prestar concurso para delegado” “Não, eu vou continuar, não tem nada de mal”. Naquela época. Hoje se você fizer uma pesquisa dentro da Polícia Militar, você vai ver o número de pessoas que são formados em Direito, engenheiro, e médico, e tudo, dentista, padre, tem tudo. E advogado... Não posso advogar. Agora posso, mas eu nunca tive aquele pensamento de advogar, então...

 

P/1 – E onde você entrou? Que faculdade?

 

R – Mogi das Cruzes. A Faculdade Braz Cubas, depois transferi para Faculdade Padre Anchieta, em Jundiaí, e terminei em Guarulhos. Sou bacharel em Direito pela Faculdade de Guarulhos, FIG. Hoje eu não sei se é FIG ainda. Nunca prestei exame na Ordem. Não sei se eu prestar hoje, se eu passo. Hoje tá meio difícil, eu vi agora aí, passaram 14%, não foi? Você não viu no jornal?

P/1 – Vi.

 

R – A OAB divulgou catorze, não sei quantos por cento. Porque tem muitos advogados, então se for jogar muito advogado na... Aí não tem jeito. Então eu consegui fazer Direito. Aí eu penso: “Poxa, eu vim lá de trás com o quarto ano do grupo escolar, consegui me formar em Educação Física, consegui me formar em Direito, e ainda fazer cursos técnicos”. Aí vem o outro grande incêndio, o Grande Avenida, em 1981, fevereiro também. Foi no dia 14 de fevereiro de 1981. O COE foi para lá também, fez os salvamentos ali. Aí que o governador concedeu a medalha valor cívico, grau ouro, até deixei uma foto aí do governador colocando a medalha em mim. Na época era o Maluf, ele era que era o governador. Não interessa quem era, interessa que foi o governo do Estado de São Paulo. Depois veio o incêndio...

 

P/1 – Como foi?

 

R – O incêndio do Grande Avenida? Foi num sábado, tinha pouca gente no prédio e tava a faxineira com os filhos. E esse prédio pegou fogo causado por curto-circuito também, e morreram também bastante pessoas ali, foram dezessete. E teve ali um caso do pai, até os jornais, as revistas, publicaram que quando teve o incêndio, esse pai foi correndo lá, porque a faxineira levou os filhos, os dois filhos dela no prédio, e ficaram no incêndio, e ficaram presos lá numa porta de vidro. E o marido subiu lá, pegou as crianças e jogou lá de cima pelo parapeito, ele jogou no debaixo. E ele saltou e quebrou as duas pernas. Foi a reportagem, tem bastante coisa  dele. Daí o bombeiro conseguiu retirá-lo e também as crianças também lá de cima. E nós fizemos uma ponte de corda no último andar do prédio passando para o outro prédio, onde foram feitos os resgates das pessoas através de tirolesa. Até nós improvisamos, na época tinha o oito que fazia rapel, colocamos o oito dentro de uma corda, porque um oficial do bombeiro, o oficial faleceu até, ele subiu no prédio, conseguiu subir pelo prédio em chamas e depois não dava para descer mais, porque a chama tomou tudo. E ele ficou no topo lá, e não podia ir helicóptero, porque tinha a torre, não sei se é da TV Record, Bandeirante, ali na Paulista, e aquela torre não tem jeito de helicóptero chegar. Então nós lançamos uma corda espia, que é uma corda fina, e amarramos a corda grossa com esse oito passado por dentro, até ele. E ele fez amarria lá, nós fizemos a amarria aqui, colocamos os banquinhos, então ele puxava aquela cordinha de um lado, nós amarramos metade, ele puxava aquela cordinha, colocava uma vítima e nós puxávamos do outro lado. Aí voltava, ia e voltava. E no fim fizemos esses salvamentos também nesse prédio. Não só lá por cima, como também foi feito por baixo. Depois veio o incêndio do prédio da Cesp, onde eram três torres, três blocos de prédio e o do meio ruiu. Ali teve um morto. E quase que morreu uma patrulha nossa do bombeiro, porque estava vistoriando o prédio em chamas, ele ruiu todinho, mas eles tiveram tempo de passar para o outro prédio, porque eram os três um perto do outro, o do meio ruiu. E eu participei desse incêndio também. Depois, o último, em 1989, teve um incêndio interno no Mappin. Eu participei desse incêndio no Mappin, aí eu fechei.

 

P/1 – Como foi esse do Mappin?

 

R – Do Mappin foi... Eu não sei se foi um curto-circuito também, que pegou fogo dentro do material lá e incendiou por dentro ali, mas foi um incêndio muito feio, vieram guarnições de todos os lados, bombeiros e o COE também correu. O salvamento que teve ali foi a evacuação de funcionários, porque foi à noite, foi mais de vigias, vigilantes ali. Na mesma semana teve um sumiço de uma moça em Rio Grande da Serra, aí nós fomos para lá e encontramos a moça na mata, mas ela foi estuprada e morta. Encontramos o corpo da menina. Aí já veio 1990, eu passei para reserva, aposentei. Em novembro de 1990 deixei o... Aí fui lecionar na rede estadual de ensino.

 

P/1 – Você aposentou já por tempo?

 

R – Por tempo de serviço, trinta anos e oito meses. De serviço na corporação.

 

P/1 – Você chegou ao topo da carreira?

 

R – Capitão.

 

P/1 – Capitão?

 

R – Cheguei a capitão, porque na época eu não tinha o estudo para ir para Academia do Barro Branco. Quando eu tinha estudo, aí já não dava mais, porque na época tinha limite de idade. Hoje não tem mais. Pra quem é da corporação não tem limite, tem para quem não é. Quer dizer, o garotinho lá de 17, 18 anos, que tenha o segundo grau completo, ele quer e ele passa na Fuvest ou na Vunesp hoje, ele vai para o Barro Branco. E os da casa podem ter 30, 40, 50, se ele passar, ele vai, vai e fica cadete lá quatro anos e sair oficial. Daí sim, daí ele pode chegar a coronel. Nem todos chegam a coronel. E eu cheguei a oficialato porque em 1985 houve uma lei aí, a Lei 4794, sancionada pelo governador Montoro, dando condições para aqueles subtenentes. Eu era subtenente e fui promovido a tenente, fui para academia, fiz um curso lá de seis meses e fiquei oficial da Polícia Militar até o posto de capitão. Na vida civil eu lecionei em vários colégios do estado, fui convocado pelo Corpo de Bombeiros para formar dez turmas de combate a incêndio de matas, em florestas. Nós fizemos lá em Jundiaí mesmo pelo IBAMA, mas o Corpo de Bombeiros que ministrou a aula. Então me convidaram para dar aula de navegação e orientação com bússola, uma das matérias. Convidaram peritos da Polícia Civil, engenheiros da USP e os oficiais da PM, que estiveram fazendo curso no exterior também. E formamos quinze turmas mescladas com oficiais de bombeiro, sargento, pessoal da defesa civil, de várias regiões do Estado de São Paulo. Então região de Presidente Prudente, vinha um grupo de lá, quinze pessoas faziam o curso aqui de uma semana, curso teórico e prático. Na outra semana vinha o pessoal de São José dos Campos. A outra semana o pessoal de Bauru. E assim nós formamos o estado todo. Esse pessoal com curso de combate a incêndio em matas.

 

P/3 – Esses cursos foram de que ano até que ano?

 

R – Em 1992, depois teve em 1993 também. E hoje eu não sei se continua. Então esses profissionais voltam para área deles e repassam para outros. Hoje eu tenho... Casei-me com 40 e tantos anos.

 

P/1 – Que época que foi que você tava fazendo? Você não tava aposentado ainda?

 

R – Não. Eu casei...

 

P/1 – Ah, você tinha quarenta e dois anos.

 

R – Quarenta e três, quando eu casei. Quarenta e dois.

 

P/1 – Como você conheceu a sua esposa?

 

R – Na Praça da Sé. Eu era estagiário de Direito, fui fazer estágio, então tava passando na Praça da Sé e encontrei. Eu vi essa pessoa e...

 

P/1 – Como você... Viu na rua assim passar?

 

R – Eu estava cruzando na Praça da Sé, vi, parei, falei: “Se ela olhar para trás...” (risos).

 

P/2 – (risos).

 

R – E eu fiquei lá. Ela olhou, aí nos conhecemos e casamos. Casei com 43.

 

P/1 – Vocês têm filhos?

 

R – Tenho. O meu filho é Carlos Augusto Cassaniga, tá com vinte e nove anos.

 

P/1 – Vocês têm um filho?

 

R – Não.

 

P/3 – Que é bombeiro?

 

R – Ele é bombeiro.

 

P/2 – Qual é o nome dela?

 

R – Formado em Educação Física e é bombeiro. Minha esposa?

 

P/2 – É.

 

R – Aparecida Dias Cândido. Ela é de Penápolis, cidade de Penápolis.

 

P/1 – Vocês tiveram dois filhos?

 

R – Dois filhos.

 

P/1 – Um homem e uma mulher?

 

R – É, mas tem uma filha, que ela já tinha uma filha, na época, uma menina. E essa minha Janaina, então adotamos, eu adotei, coloquei meu nome, tudo, então a Janaina é farmacêutica. Inclusive ela passou num concurso público aqui em São Paulo, ela prestou em 2009, agora, esses dias, chegou convocando-a para fazer os exames, tudo, já passou, vai ser da vigilância sanitária, fiscalizar a região de Pirituba, já fez tudo, já vai tomar posse.

 

P/1 – E seu cotidiano hoje como é?

 

R – E a outra também é farmacêutica.

 

P/1 – Ah, também é?

 

R – A Bartira.

 

P/1 – A Bartira que você falou.

 

R – A Bartira. E o Carlos é bombeiro. E o meu cotidiano é lutar em casa ali, vai levar um, buscar outro. Os três moram em casa, duas não casam, né? (risos)

 

P/1 – Onde você mora?

 

R – Em Jundiaí. Nós moramos em Jundiaí. Três filhos, quatro cachorros e um gato. (risos).

 

P/1 – E você é convidado ainda hoje para falar sobre esses incêndios, sobre esses casos?

 

R – Sim. Sou. O mês passado eu fui convidado para fazer uma palestra na 2º Cia Com, Companhia de Comunicações do Exército, lá em Campinas. Que essa companhia era em Jundiaí, desativou e está em Campinas. Então o comandante me fez o convite, eu fui lá fazer a explanação, passei o filme lá do Joelma, tal, e fiz a palestra lá para os militares. E em Jundiaí às vezes sou chamado também para falar em escolas e tudo. Em outras cidades também já fiz explanação. Capivari, por exemplo, minha terra, fui fazer lá uma palestra, Guarda Mirim da cidade. E sempre tem atividades, sempre a gente tá em atividades. Agora, depois de muitos anos, eles aprovaram já um projeto e eu vou receber o título de cidadão jundiaiense. Depois de muitos e muitos e muitos anos. O mês retrasado foi votado na Câmara Municipal lá e por unanimidade me concederam o título. Acho que vai ser o mês que vem, outubro, não sei quando vai ser a entrega desse título. Não sei se são oito ou doze cidadãos que vão receber o título de cidadão jundiaiense. É uma festa muito bonita no Teatro Polytheama também que tem em Jundiaí. Então no momento tem essas entregas de honrarias lá. Não só dos títulos, como medalhas para o pessoal. Eu sei que tem... Militar só eu que vou receber esse título. Tem dois padres que vão receber esse título também, uns comerciantes lá, cidadãos, mas não sei se tem... Acho que tem quatro mulheres e acho que oito homens que vão receber. Então eu fico contente de reconhecerem, porque todos os lugares que eu ia sempre aparecia o nome Jundiaí e também eu trabalhei em Jundiaí, fui comandante lá do destacamento na época, que eu tava te falando. Que esse comando geral foi lá, então eu fui responsável por segurança pública da cidade, aumentar e tudo. E bom serviço prestei sempre na cidade. Mesmo fora da cidade, eu ia ajudar lá em eventos que tinha, eu sempre estava presente, como até hoje ajudo e participo, por exemplo, só de participar dessa... Dia 26 agora eu vou participar da terceira idade lá numa competição de natação, quero ganhar.

 

P/1 – (risos).

 

P/2 – (risos).

 

R – Ontem mesmo eu fui a um congresso que teve lá das cidades reunidas, sobre essa atividade que vai ter agora da terceira idade, atletismo, tal, natação, e eu participo em natação.

 

P/1 – Qual é o seu maior sonho hoje? Você tem um sonho?

 

R – O meu sonho é escrever um livro. Eu tenho já bastante material, vamos ver se a gente consegue.

 

P/1 – Sobre o quê? Sobre a sua vida?

 

R – Filhos eu já tive, árvore eu já plantei bastante, só falta um livro para concretizar meu sonho.

 

P/1 – Sobre a sua vida?

 

R – Aí é que está, eu fico me indagando: “Seria certo uma autobiografia minha, eu mesmo falar de mim, eu mesmo escrever meu livro?” Não sei. Ou alguém escrever? Existe autobiografia, não existe? 

 

P/3 – Sim.

 

R – O material que eu tenho lá condiciona não eu escrevendo, dizendo. Depois que alguém falou: “Mas você não tá falando de você, você escreveu como se alguém estivesse falando de você: ‘O sargento Cassaniga é transferido para tal lugar’. Não, eu fui transferido. Você foi transferido. Você tá falando que ele foi transferido, você tá criando um personagem que é você mesmo”. Então vamos melhorar isso daí. Não sei se eu consigo. Quanto mais tempo eu tenho de vida? Qual a perspectiva de vida do brasileiro hoje? Homem menos que mulher, 74, 75, então daqui dois anos eu embarco.

 

P/3 – Mas você tá bem de saúde. No mínimo mais dez.

 

R – Quanto?

 

P/3 – No mínimo mais dez.

 

P/1 – Vinte. Bota trinta.

 

R – Eu falei para minha mulher: “Ah, eu vou morrer logo”. Ela disse: “Não fale isso” “Ah, daqui uns trinta anos” “Tudo isso?” (risos).

 

P/1 – O que você achou da experiência de dar esse depoimento aqui para o Museu da Pessoa?

 

R – Eu acho que... Eu não conhecia o Museu da Pessoa, mas pelo que eu estou observando, captando aqui, eu acho que é uma maneira que o Museu da Pessoa vem fazendo, eu não conhecia, mas agora estou conhecendo, para não deixar que a história seja esquecida. Porque muitas pessoas acham que o passado já é passado. Não. Nós temos que viver o passado para poder adquirir experiência, alguma experiência é colhida para ser aplicada no futuro. Então eu acho que o Museu da Pessoa tá fazendo um trabalho muito dignificante, um trabalho que eu acho que é profissional e técnico. Para que as pessoas, ao tomarem conhecimento, vejam coisas que muita gente não conseguiu, não teve conhecimento de coisas ocorridas e que podem servir de experiências e de uma aplicação para o futuro. Como eu vi aqui na coisa do Canadá, coisas do Canadá. Até eu falei para o coronel, teve um capitão do Corpo de Bombeiros do Canadá que veio a São Paulo fazer um trabalho sobre o incêndio do Joelma para levar para lá. Ele veio oficialmente através do governo canadense. Por que não o Museu da Pessoa fazer esse trabalho e ficar exposto aí? Vê o trabalho que ele teve de vir, procurar um, procurar outro, procurar outro. Se o Museu vai fazer, tem tudo. Pronto, não precisa ter esse trabalho enorme. Então eu acho que isso tá de parabéns o Museu da Pessoa e nós também estamos aprendendo muitas coisas hoje aqui. Eu já dei entrevista para Revista Seleções, para jornais, para “N” revistas e tal, mas nunca uma entrevista tão direcionada, tão profissional como a de hoje. Parabéns.

 

P/1 – Nós que agradecemos a presença e foi um privilégio poder escutar essa história aqui.

 

R – E desculpe, porque...

 

P/1 – Foi um PhD de vida.

 

R – Às vezes tem mais coisas que a gente também... Tudo não dá.

 

P/3 – Não, eu acho foi, nossa, espetacular.

 

P/1 – Muito bom.

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