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História

Nos trilhos para a Mata Atlântica

História de: Pedro Luiz Passos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/05/2005

Sinopse

“Cresci na rua”, conta, ao falar do contraste entre o bairro do Itaim e a escola em que estudava. Com aptidão para as ciências exatas, foi para a Poli cursar Engenharia. Na USP, participou de protestos e mobilizações de resistência à Ditadura Militar. Desde a época em que trabalhou na Fepasa – Ferrovia Paulista –, tomou consciência da dimensão social e logo se engajou com as questões ambientais, onde pode se “sentir inteiro”. Da grande São Paulo para o contato com o meio ambiente, crê na transformação das pessoas para a modificação do mundo.

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História completa

P/1- Pedro, bom dia, obrigado por você ter vindo. Podemos começar com você falando o seu nome completo, data e local de nascimento?

 

R- Pedro Luiz Barreiros Passos, paulistano. Nasci acho que ali pela região da Avenida Paulista, acho que foi na Pró Matre, mas o meu bairro sempre foi o Itaim, o Itaim do tempo lá das chácaras. O Itaim, naquela época, tinha a minha casa, na minha rua, mas outra casa a uns 200 metros de distância, e rodeado de chácaras. E cresci na rua, brincando na rua, coisa que infelizmente talvez as crianças hoje não possam desfrutar da mesma forma.

 

P/1- E a rua mudou de nome ou continuou com o mesmo nome?

 

R- Mudou várias vezes de nome, acho que ela chamava 1932, rua Tapera ou 1932, e agora Bandeira Paulista.

 

P/1- E Pedro, como era a sua família, os seus pais eram de São Paulo?

 

R- Meus pais... A minha origem é: por parte de pai, a família do meu pai é de origem baiana, meu avô era baiano de Salvador; minha avó por parte de pai também; é, eu tenho tios baianos, mas meu pai é nascido em São Paulo. E da parte da minha mãe a influência é italiana, meus avós eram italianos, vieram para cá jovens, mas todos acabaram ficando em São Paulo. Então toda origem da família nessa geração mais recente, o desenvolvimento da família, foi todo urbano, muito paulistano.

 

P/1- E você tem mais irmãos?

 

R- Eu tenho mais um irmão mais velho, sete anos mais velho.

 

P/1- E como é que era essa infância, assim, com irmão sete anos mais velho?

 

R- Era ótimo, ele me abria as portas. Ter um irmão mais velho é uma maravilha, ele sempre ajuda, ensina a gente, o segundo ganha tempo. Primeiro porque ganha muito o beneplácito dos pais, porque o irmão mais velho abre o caminho, então o mais novo consegue fazer as coisas antes. E segundo, na relação com os amigos, é bom ter um irmão mais velho para mostrar as coisas como eram. Mas foi muito bom, foi um convívio excelente, nós somos amigos frequentes ainda hoje, fazemos muitas coisas juntos, viajamos juntos, corremos juntos. Aliás, acho que um pouco da minha história de vida, o que eu posso falar para vocês, é que? Eu tenho amizades de longa data. Quer dizer, até hoje tenho amigos de bairro, e muitos amigos de colégio. Alguns deles eu conheci com seis anos de idade, sete anos, são amizades que eu conservo, mas não é no sentido de conservar, são amizades que você vive no dia-a-dia. Então isso tem sido muito marcante na minha vida, e não é uma coisa pensada, é uma coisa que aconteceu.

 

P/1- E só voltando um pouquinho, os seus pais faziam o que?

 

R- O meu pai tinha uma gráfica pequenininha, e a minha mãe foi professora, uma época dava aula particular, depois aula em faculdade. A área dela sempre foi pedagogia, se especializou nessa área, e sempre foi uma educadora assim, começando pelos filhos. Quer dizer, se dedicou por muitas horas aos filhos, então foi um valor muito gostoso que ela passou para a gente.

 

P/1- E vocês moravam em um bairro que na época eram chácaras, em um lugar tão próximo à natureza?

 

R- Naquele momento a gente nem dava tanto valor a ter um lugar que... A gente às vezes até considerava mais as dificuldades, porque era longe do centro, não tinha um transporte frequente, as ruas eram de terra, quando chovia era uma dificuldade. Meu pai não tinha carro, então imagina, dependia de transporte público e tal. Mas obviamente teve uma infância muito rica, porque onde eu vivia era um bairro emergente. O Itaim, naquela época, era um bairro emergente, com as primeiras casas se instalando, e um lugar bastante simples, que eram as chácaras, etc. Então você podia conviver com gente de diversos níveis sociais, mas muito integrado. Os times de futebol eram frequentes, os jogos de futebol nas várzeas do rio Pinheiros, era um convívio muito interessante. E a gente pôde brincar muito com a natureza naquela época, sem pensar em natureza, só pensando na brincadeira, naquela época, e foi muito bom. O bairro foi se modificando muito rapidamente naquela época, muitas construções, chegando o asfalto, iluminação, etc. Mas acho que durante muito tempo o Itaim e ali a Vila Nova conservou esse grupo de amigos unidos. Foi muito bom, a gente pôde acompanhar o desenvolvimento de cada um deles durante muito tempo.

 

P/2- Os seus estudos se deram onde, Pedro?

 

R- Bom, a minha mãe, preocupada como era com os estudos, na época buscou um colégio que era um bom colégio, uma referência, que era o Dante Alighieri, um pouco distante do bairro onde a gente morava. E eu cursei toda a minha formação, primário, ginásio e colegial no Dante Alighieri. Foi também uma coisa interessante, porque o Dante já era um lugar de convívio de pessoas de educação média, média alta, que era um pouco um contraste assim, de alguma forma, com o bairro. Então eu tinha turmas de diferentes níveis sociais, isso me ajudou bastante na formação, a lidar também com diferentes pessoas e etc., foi também muito interessante.

 

P/2- Como foi essa época de escola? Como era a relação ali dentro, os programas que vocês faziam, a interação com os outros colegas?

 

R- O Dante era um colégio tido, na época, como muito rígido, uma educação muito sistematizada. Então eu confesso que, apesar de ter grandes amizades lá dentro, eu me sentia um pouco tolhido no colégio, porque eu estava acostumado à liberdade da rua, do bairro, da vizinhança, e o Dante era cheio de regras, de normas, etc. e tal. Por outro lado, tinha características muito boas; quer dizer, princípios muito bons, a educação muito boa, e eu fui tendo contato com o outro lado, com gente mais internacional, com uma outra vivência. Então é o que eu consegui com isso, que é uma coisa interessante: trazer alguns dos colegas do Dante para conviverem no meu bairro, para brincarem no meu bairro, até porque uns moravam ali na zona dos Jardins, que já não era tão fácil brincar, então eu trouxe essa turma para cá. E é interessante que muitos são amigos até hoje, amigos de bairro e amigos do Dante, foi uma coisa que permeou e ficou durante muito tempo. Agora, o pessoal do Dante era mais disciplinado, a gente do Itaim era mais bagunceiro (riso).

 

P/2- Foi durante essa sua época de escola que você se decidiu pela sua carreira posterior, pela sua faculdade? Como é que foi essa transição de colégio pro...

 

R- Eu tinha uma... Naquela época não se tinha uma diversidade muito grande de opções, se falava muito em ser engenheiro, advogado, médico. O campo em torno deste termo, poucas opções. Eu tinha certa facilidade para física, para matemática, então acabei me dirigindo para a engenharia. Eu gosto muito de matemática até hoje, então a opção foi quase decorrência da minha facilidade nesse campo, e aí eu fui fazer a Poli.

 

P/2- E aí que ano foi isso, que você entrou na faculdade?

 

R- Em 1968 eu entrei na faculdade.

 

P/2- Foi um ano complicado, quais são as suas lembranças disso?

 

R- Eu entrei no final de 1968. No início de 1969 teve um... Você sabe, teve o AI-5 e teve uma cassação dos professores da USP [Universidade de São Paulo] logo que eu estava entrando na faculdade. Então eu fiz parte do movimento de protesto e de mobilização ainda sem ter uma compreensão política de todo significado daquilo, mas simplesmente uma revolta contra a truculência do ato, mais do que eu tinha todo o entendimento da situação política. Mas foi uma época difícil, uma época onde a presença dos órgãos de informação dentro da faculdade eram muito fortes e as pessoas tinham muito medo de se reunir na faculdade, de se organizar. É, eu me lembro que a reunião do grupo de teatro do qual eu fazia parte era quase clandestino, e na maior parte das vezes a gente falava mal do governo, mas na maior parte das vezes a gente estava estudando, enfim, teatro e... Mas foi uma época de uma desagregação, e o movimento universitário não conseguiu, de fato, fazer política, ele estava quase destroçado. A escola de engenharia também já era uma escola mais conservadora, não era o ambiente mais propício para discussão política. Mas a gente conviveu com gente que sumiu, sumiu ou porque fez parte do movimento contra ou porque o governo, naquela época, deu um jeito de fazer com que eles sumissem. Foi uma época difícil, “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Enfim, eu acho que prejudicou muito a nossa formação, o nosso desenvolvimento.

 

P/2- E quando você fez faculdade já era do campus da Cidade Universitária?

 

R- Era, ainda tinha, uma ou outra escola ainda estava fora, mas a Poli já estava no campus da Cidade Universitária.

 

P/1- Eu queria só voltar um pouquinho, que eu estava lembrando de uma fala sua e eu queria estar resgatando isso. Quando você era criança, você falou que morava distante e vocês não tinham carro. Como foi o primeiro carro na família? Quer dizer, porque isso é uma coisa que marca.

 

R- Imagina que meu pai... Primeiro carro, aprendeu a dirigir tarde, compra um carro usado. Naquela época, se testava os carros que você comprava usado, então fomos toda a família para a Praia Grande com o vendedor do carro e todos dentro do carro, e o meu pai obviamente treinou um pouco a direção na praia, porque naquela época se andava na praia, muitos carros. Então realmente foi uma epopéia, e ali ele decidiu comprar o carro. Não sei o que ele testou, porque ele não sabia dirigir, não entendia de automóvel (riso), mas aí comprou o carro e eu, durante alguns meses, passei limpando o carro, que era uma diversão muito grande, aprender o carro, aquele objeto novo dentro da família. Foi isso, foi a primeira experiência, mas acho que um pouquinho... Acho que as condições da família já melhoraram, então já veio um segundo carro – usado também –, que era da minha mãe, era um fusquinha. Aí a coisa já virou mais corriqueira (riso).

 

P/1- E vocês, com a aquisição do carro, do primeiro, vocês começaram a viajar muito, vocês foram muito para praia, como que é?

 

R- Não, viagem não era uma coisa tão usual assim. Acho que viagem, esse hábito de viajar... Os meus pais até eram desbravadores, eles viajavam, faziam viagens diferentes. Eu conheci Ilha Bela, indo de ônibus para a Ilha Bela, com sete anos de idade, então fiz todo o sul do país de ônibus. Porque eles gostavam de fazer essas viagens, mas eram menos frequentes. Essa coisa de todo fim de semana, isso naquela época não existia, lá em casa não existia.

 

P/1- E você falou que a primeira viagem com o carro, o teste do carro foi na Praia Grande. Como é que era a Praia Grande nessa época?

 

R- Me recordo pouco, mas era pouquíssima construção, pouquíssima estrada. Algumas de terra, alguns lugares a estrada era a praia, a comunicação era a praia. Até como muito recentemente, muito recentemente... Eu cheguei a fazer a Rio-Santos, boa parte dela pela praia, Juqueí, enfim, Boiçucanga, aquela história toda a gente fazia pela praia, só tinha estrada nos trechos de contorno de morro ou então pela praia. Então era interessante, porque subia a maré, parava a estrada (riso). Mas era bem selvagem ainda, era uma coisa bem pouco ocupada, era bonito.

 

P/1- Você tinha quantos anos nessa época?

 

R- Eu acho que em torno de uns nove anos de idade, por aí.

 

P/2- E Ilha Bela, que também você disse ter frequentado, como que era a Ilha Bela? Porque nesse período ela ainda estava bastante isolada, né?

 

R- Eu tenho um... Eu acho que daquela primeira viagem eu fiquei gravado, eu fiquei com a imagem gravada do píer de Ilha Bela – que existe até hoje –, já tinha o ferry-boat e também tinha uma balsa de passageiros que fazia a travessia do canal. Eu não sei o que aconteceu naquela viagem, acho que foi um pouco mágico, porque eu fiquei apaixonado por Ilha Bela, e demorei muito para voltar para Ilha Bela, acho que voltei já com 18 anos de idade. E eu me lembro que quando eu me formei na faculdade, decidi passar dez dias em Ilha Bela, sozinho, porque fiquei com um sentimento de que eu precisava aprofundar o meu conhecimento daquele lugar. Ninguém acreditava que, poxa, ficar dez dias sozinho em Ilha Bela... Não eram férias, não era época de temporada. E foi um momento de vida também marcante, porque às vezes você se dá pouco tempo para fazer coisas com você mesmo, sozinho, sem grupo, sem família, amigos, etc. E eu me lembro que eu ficava à noite acompanhando os pescadores, que ali tem uma pesca de peixe-espada, com uma bóinha iluminada com um anzol, e que quando a boia afunda, é porque o peixe fisgou, e eles puxam o peixe, e é muito bonito. Eles passam a noite lá, uma coisa calma, serena, e eu passava com eles. E eu não pesco nada, eu ficava só assistindo. Então foi um momento marcante, e eu gosto de Ilha Bela até hoje, acho que ela está razoavelmente preservada. Eu acho que o parque estadual ajudou a conter um pouco a expansão imobiliária, e por lá não tem estrada que dê a volta na ilha inteira, então tem o outro lado da ilha que permite você fazer trilhas muito gostosas. Ilha Bela ainda é um lugar muito especial, pra mim tem um significado gostoso, boas recordações.

 

P/2- E você disse que você foi para lá quando acabou a faculdade, né?

 

R- Fui passar um período sozinho.

 

P/2- Aí você se formou e atuou como engenheiro a partir de então?

 

R- Logo que eu me formei eu comecei atuando como engenheiro, fui um dos poucos engenheiros da minha especialidade na Poli, que era produção, que foi para a área industrial. Quer dizer, a maior parte, naquela época, já ia para bancos, enfim, para áreas administrativas. Aí imediatamente eu entrei na GV [Faculdade Getúlio Vargas] para fazer uma complementação na área de administração, mas continuei atuando em indústria e tal. Trabalhei em metalúrgica, trabalhei em indústria de plásticos, trabalhei posteriormente na Fepasa, ferrovias. Trabalhei um ano e meio na Fepasa, foi uma experiência fantástica aprender como era uma empresa estatal, e depois vim para a Natura, que é onde eu estou até hoje.

 

P/1- E Pedro, assim, antes der ir para a Fepasa eram empresas privadas. Você falou que aí foi uma experiência porque era numa estatal. Assim, o que você sentiu de diferença?

 

R- Primeiro a dimensão, a dimensão e o propósito, o conceito, para o que serve uma empresa para servir o público. Diferente de uma empresa privada que –

principalmente naquela época – objetivava... A preocupação era lucro, rentabilidade, enfim. Hoje as empresas têm uma clareza maior do seu papel, pelo menos parte delas, na sociedade. E a Fepasa é uma empresa de serviço público, então isso já é um primeiro aprendizado. Por outro lado, a dimensão de uma estatal, com dificuldades burocráticas, pesadas, ineficientes, certo carreirismo lá dentro, certo corporativismo e tal. O que, naquela época, me dava uma sensação mais jovem, uma vontade de mudar aquilo, e uma sensação assim, de alguma forma, de como a gente serve melhor, porque você via muito desperdício. E foi uma experiência maravilhosa poder servir, poder fazer um trabalho... Olha, eu diria que... Eu era remunerado, naturalmente, mas que foi quase o meu trabalho voluntário, porque tinha uma dimensão social. Porque eu trabalhava numa área que mexia com terras inservíveis da Fepasa, terras que não eram mais utilizadas como leitos de ferrovia, e a maior parte delas de interesse público da prefeitura, para fazer uma estrada, para fazer uma escola, uma ex-estação de trem, enfim. Então eu já comecei ali a me envolver com uma dimensão social, que eu até nem tinha muita compreensão naquele momento, mas para o meu aprendizado foi fantástico.

 

P/2- E você trabalhou nas indústrias, que você disse, e isso foi na década de 70?

 

R- Isso.

 

P/2- Que é exatamente a década onde a poluição industrial – principalmente no estado de São Paulo – começou a crescer e a atingir picos cada vez maiores. Realmente não existia nenhum tipo de consciência ambiental por parte dessas indústrias, assim, de preocupação com danos ambientais, o que aquilo acarretaria, a médio e longo prazo?

 

R- Olha, a consciência era muito baixa, e as práticas muito distantes do que a gente pode considerar hoje boas práticas. O sinônimo de desenvolvimento era quase o sinônimo de destruição e de pouca preocupação ambiental. Você falar em, naquela época, preservação, era quase como se você quisesse estar criando obstáculo para o desenvolvimento. Então nós estávamos falando ainda de uma época de regime central, planejamento central, ditadura de um país, de pouco diálogo, imprensa ainda controlada, e a época dos grandes planos, usinas nucleares, Transamazônica, enfim, tudo conspirava contra, e principalmente a falta de diálogo com a sociedade, a falta de liberdade de expressão. Esse assunto praticamente não vinha à pauta. Dentro da faculdade, no meu currículo escolar inteiro nunca se mencionou a palavra meio ambiente. Então é por isso que a gente às vezes fica angustiado com o que acontece. Mas, por outro lado, a gente tem que olhar que houve uma enorme transformação, e essa transformação não veio de governo, vem da sociedade civil organizada, das ONGs, que começaram a debater, a incentivar, a pesquisar, e olha, não veio da academia não. Quer dizer, a academia foi empurrada para discutir esse tema, obviamente que aderiu, porque tem suas mentes brilhantes, e que logo perceberam, mas foram alguns símbolos que criaram esse movimento, e que mudou o mundo. O fato é que, apesar da disfunção e apesar dos inúmeros problemas que ainda temos que enfrentar aí pela frente, o nível de consciência hoje já é outro, e a atitude de empresas, governo, população, é completamente diferente. E olha, não faz muito tempo. Nós estamos agora, em 2005, em 20, 25 anos, essa mudança ocorreu no mundo, e eu diria que no Brasil até em menos tempo. A Suécia é pioneira, então, como pioneira, está fazendo 18 anos. É impressionante a transformação, talvez ainda as práticas estejam ruins, mas a consciência já melhorou de forma definitiva.

 

P/2- Então na década de 60 você não se recordaria de nenhum movimento, de algum grupo que tivesse um pouco mais de espaço?

 

R- Não, aquela época se caracterizou por outro tipo de manifestação, foi a da liberdade individual, primeiro o movimento da mulher, da libertação da mulher, a libertação sexual, com a pílula, até o movimento hippie, que de alguma forma tangenciava a coisa ambiental. Porque ele falava: “Eu não vou entrar nessa onda de consumo, no modelo vigente, eu vou me organizar em comunidades autônomas, etc.” Mas era muito mais a libertação individual, a ruptura dos paradigmas contra aquele modelo vigente do que efetivamente uma preocupação voltada para ambiente, pelo menos do que eu me recordo. Já existiam os (inhumakes?) na época e etc., mas o movimento social era muito mais a liberdade individual, aquela de paradigmas, as roupas, os cabelos, a atitude, e que foi muito forte e muito transformador, 1968, 69, 70, era uma explosão de novidades a cada momento. Fantásticas, na música, nos hábitos de vida. Eu não me queixo de ter sido jovem na minha época (riso), a cada semana era uma coisa nova.

 

P/2- E Pedro, como a gente mesmo já disse, a questão da poluição em São Paulo nas décadas de 70 e 80 era bastante complicada. Como era a qualidade de vida na São Paulo daquele período para você, que sempre viveu e trabalhou aqui?

 

R- Era melhor, porque o adensamento não era tão grande quanto é hoje, era melhor porque talvez o problema social não estava tão grave como hoje, mas você já via nitidamente a deterioração na poluição visual, enfim, em todos... Eu não vejo a cidade de São Paulo... Especialmente a cidade de São Paulo teve essa vocação do desenvolvimento; a cidade que não para, a cidade que trabalha e etc. Eu nunca vi um estadista em São Paulo pensando na cidade que tem que respirar, na cidade que tem que ter lazer. Eu vi pouquíssimos parques sendo criados na cidade de São Paulo. O Ibirapuera foi inaugurado, se não me engano, em 1954, ou próximo disso, e dessa região mais central de São Paulo, depois talvez tenham sido criados pequenos parques. Então essa visão de cidade que funciona para as pessoas um ambiente, um ar agradável, com lazer, a cidade que funciona para as pessoas, eu não me lembro – independente de facção política – de nenhum estadista na direção da cidade, mencionando isso por plataforma política, enfim. Isso é um problema assustador, porque acabou se privilegiando o produtivo sem se considerar o humano. As ruas viraram dos automóveis, e quanto mais automóveis se fabrica, mais contente se fica, porque a produção é industrial e isso, entre aspas, é uma geração de renda e emprego. É, eu digo, entre aspas, porque eu acho que é uma medida pobre do que é desenvolvimento. O que eu vi ao longo desse período foram poucas coisas, na verdade, que corrigissem o rumo de uma cidade, planejamento frágil, e normalmente se corrige não através de obras, mas através de um bom planejamento. Eu acho que obras, na maioria das vezes, saem equivocadas, então a educação, o planejamento e a conservação é que poderia... Nós vimos decisões erradas ao longo de São Paulo, aquela várzea do rio Pinheiros que eu jogava bola – mas que eu não sabia naquela época –

servia para comandar o movimento das águas. Virou marginal, leito viário, e hoje, quando precisa aprofundar a calha, precisa fazer um monte de coisas para uma coisa que já estava resolvida, na verdade, no passado. Quer dizer, acho que os meus avós já sabiam que não pode ocupar de forma desordenada as várzeas dos rios, elas têm uma finalidade. Então foram várias decisões erradas, e a cidade se adensando, porque gerava trabalho, concentrava pessoas, atraia gente de todo o lugar. Acho que um pouco de manobra política também de pessoas que vinham para eleger... Enfim, isso tudo eu vejo como um problema. E ainda não sinto, honestamente não sinto, com os nossos governantes, esta visão de “para que serve uma cidade mesmo?” E como é que se evita um problema para daqui a 50 anos, ou pra daqui a dez [anos]? A gente acaba tendo um processo político que usa o raciocínio de curto prazo e acaba a decisão de curto prazo sendo privilegiada. Fica difícil falar em planejamento de 15 anos, de 20 anos.

 

P/2- E ainda nesse período ocorreram fatos que marcaram e hoje a gente sabe da importância deles, como a questão nuclear ali na Juréia, Cubatão, todos esses fatos, essas catástrofes. Algumas não chegaram a acontecer, mas que vislumbravam isso, uma catástrofe ambiental. O que você se lembra disso? Do que falava na mídia, se era falado, como era falado?

 

R- Bem, eu acho que, desses fatos que você citou, a primeira foi a decisão do plano nuclear. Aí o governo Geisel entrou com o plano nuclear, nós já tínhamos uma contestação na sociedade, ainda que surda, ainda que não muito eloquente, mas um pouco mais forte do que nos anos mais duros da ditadura. E, de fato, o plano nuclear brasileiro foi muito contestado. Alguns baluartes, como o professor Goldemberg, os movimentos ambientalistas ali já começando a colocar restrições sobre o desenvolvimento do plano nuclear. E isso para um debate bastante rico na sociedade. Por outro lado, inclusive, questionando o nível de investimento que o país estava fazendo numa tecnologia desconhecida, sem a necessidade, porque poderia desenvolver fontes alternativas de energia, como está provado hoje que poderia ter feito. Não precisávamos daquele ciclo de energia nuclear para efeito de abastecimento de energia elétrica. Eu acho que o domínio da técnica é outra coisa, acho que a USP já vinha fazendo muito bem feito há muito tempo. Outro aspecto que você falou que foi muito debatido, mas aí acho que foi quase já pela tragédia, foi Cubatão. Cubatão, com as doenças recorrentes da poluição, as crianças sem cérebro no nascimento, promoveu... E eu me lembro disso mais no governo do Montoro, um replanejamento do estrago que já estava feito em Cubatão. Me lembro até de tentativas de replantio, jogando sementes através de helicópteros, e uma série de atividades de disciplina mesmo, e órgãos reguladores vindo, como CETESB [Companhia Ambiental do Estado de São Paulo], etc. e tal, e ganhando poder. Acho que ali estava uma transformação positiva, com muita crítica dos falsos desenvolvimentistas, porque toda a regulação ambiental aparecia, naquela época, como custos, como restrições ao desenvolvimento. Mas ali nós tivemos um exemplo... Eu não diria que totalmente bem sucedido, mas um exemplo de disciplina ambiental bastante importante, que começou a mudar aquele lugar, apesar do desastre já ter ocorrido. Inclusive o próprio desastre da Petrobras... Não sei se vocês recordam do desastre do duto da Petrobras, que, enfim, pegou fogo e destruiu aquela favela. Não me lembro se era uma vila...

 

P/2- Vila Socó.

 

R- Vila Socó, em torno daquele duto e tal. Mas acho que aí as coisas começaram a acontecer. E a mobilização pelo Tietê, que foi uma coisa... Acho que, talvez, um dos melhores exemplos de como a sociedade se organiza. E aí aparece na pele da população a vontade de contribuir, de protestar, de andar, de marchar, de fazer contribuições, doações e etc. Então eu acho que aí começou um movimento muito importante, de consciência mesmo. Acho que se ampliou, e que hoje é a coisa mais importante que a gente tem para transformar a sociedade.

 

P/2- E você se recorda de grupos desse período, anterior à SOS [Mata Atlântica], que tinham essa atividade mais pública de...

 

R- Não, eu não me recordo. Eu sei que existiram alguns movimentos, mas, pra mim, o movimento ambientalista aqui na nossa região aparece mais nitidamente com a SOS, até porque a marca, o nome... Ele foi tão feliz, que ele é um discurso em si, a bandeira do Brasil, o nosso verde. Enfim, ele foi muito feliz, rapidamente ficou conhecido.

 

P/1- E Pedro, assim, só antes de a gente passar para a década de 80, que a gente já começou a falar. Na década de 70, como é que foi, assim... Nós falamos que você trabalhava na Fepasa. E depois, como é que foi essa vida profissional?

 

R- Então, eu cheguei na... Eu trabalhei na Fepasa, acho que comecinho da década de 80. Um amigo – as coisas na minha vida sempre foram na base das amizades – que trabalhava na Fepasa, que é meu sócio hoje na Natura, eu jogava futebol, ele me convidou para trabalhar na Fepasa, trabalhei muito tempo com ele lá. Aí, na troca de governo, fomos todos sumariamente demitidos, por alguma razão política (riso), enfim, fomos cada um procurar os seus caminhos. Posteriormente, ele já integrante da Natura, como sócio da Natura, me convidou novamente para trabalhar com ele na Natura, no início da década de 80. Então aí, o daltônico, Pedro Luiz Passos, foi fazer maquiagem (riso). É, então foi uma experiência interessante, porque eu não tinha conhecimento desse produto, desse mercado. A rigor eu tinha um pouco, porque cheguei a trabalhar como fornecedor de embalagem para o setor. Então eu conhecia um pouquinho o mercado, é, mas a minha competência era mais o ramo do desenvolvimento de produtos, da engenharia de processos, enfim. E vim trabalhar na Natura, com a fábrica que fabricava maquiagem e perfumes. A Natura, naquela época, eram empresas separadas; tinha a fábrica de produtos de tratamento, tinha essa fábrica de maquiagens e perfumes, e tinham três distribuidoras que distribuíam para o Brasil. E foi isso.

 

P/1- E como foi essa chegada na Natura? Porque foi uma coisa muito diferente das outras, você vinha de uma coisa de engenharia...

 

R- É, eu trabalhava numa empresa maior naquela época, com 800 funcionários, tinha a área industrial comigo, e esta fábrica que eu comecei a trabalhar na Natura, naquele momento tinha 17 funcionários. Eu vim atraído porque eu gostava das pessoas, vim atraído porque conhecia esse meu sócio, conhecia os propósitos da empresa e sabia que seria muito bom trabalhar junto com pessoas que você compartilha valores. Não me imaginei um profissional executivo tradicional, carreira numa multinacional que era... Me imaginei cinco anos na frente e falei que não era isso que eu queria para mim. Então eu resolvi empreender nessa pequena empresa, e aí foi o começo desta história, obviamente tomando contato com produtos, principalmente do universo feminino, que já é uma grande transformação na vida da gente. A educação tinha um componente machista em torno dessa educação nesse período, então eu me lembro de um almoço em casa, no sábado, eu dizer que eu ia sair da multinacional e ia empreender nessa agroempresa, praticamente, que fabricava maquiagem. A reação do meu pai (riso) foi assim: “Você tem certeza?”. Ele era muito tolerante, muito aberto para os padrões dele e etc., muito amigo, mas não foi sem surpresa que ele recebeu a notícia. E foi muito bom, porque eu acho que aí deu início da minha verdadeira relação com o ambiente. É, na Natura a gente entende o cosmético como um instrumento auxiliar na sua relação com você mesmo, e de certa forma também promovendo uma relação com o outro, em síntese, porque a vida é uma cadeia longa de relações, uma cadeia de relações interdependentes. Então o primeiro contato que eu tive com o raciocínio ambiental, com o que era o ambiente, foi a partir da minha relação comigo e da relação com o meio. Foi essa, de fato, a semente filosófica de que o mundo está no todo e o todo está no mundo, que me permitiu começar, ainda de uma forma racional, ainda de uma forma filosófica, entender a vida como uma cadeia de relações. É evidente que, daí, para você chegar no ambiente é um passo. Daí, para você entender o desenvolvimento sustentável é um passo, mas acaba, de certa forma, submerso dentro de uma filosofia de um ser urbano, porque eu sempre fui urbano, paulistano, com poucos contatos com a natureza. Então foram experiências depois, práticas, de contato com a natureza, com a floresta, a vida, é que de fato você se apaixona pelo tempo, e aí as coisas realmente fazem sentido. Eu costumo dizer que nós temos uma imensa dificuldade na transmissão dos conceitos, às vezes, ambientais, porque o ser urbano não abraça árvore, não está acostumado a abraçar árvore, a ter contato com a realidade da floresta, com a realidade da comunidade tradicional. Essa vivência precisa existir, porque senão fica num plano racional, filosófico. A destruição da floresta é uma coisa que está distante de você, a elevação da temperatura do planeta é uma coisa quase acadêmica. Então, voltando, foi a partir da minha relação, deste entendimento do relacional que existe no seu autoconhecimento, na relação com o próximo, com o meio, que começou a se desenvolver o caminho para que eu entendesse a importância do ambiente e da vida, da biodiversidade e da preocupação com as gerações futuras, e é aí que a coisa ocorreu do ponto de vista filosófico. Mas foram experiências práticas, de ir a Ilha do Bananal e viver em contato com o rio, em um lugar desprovido de qualquer facilidade urbana, de entender a relação daquelas pessoas que viviam na margem do rio, e a vida que o rio representava para elas, como transporte, como proteína, e esse encadeamento todo dessas relações. É aí que você fala “agora entendi o que eu vinha pensando antes”. E aí foram inúmeras experiências que vão te trazendo para as causas, saindo dos valores para as práticas.

 

P/2- E Pedro, a Natura possui hoje, inclusive, linhas, como a Ekos, que é voltada especificamente para a questão ambiental brasileira. Ela sempre teve essa preocupação, pelo menos desde que você entrou, que você faz parte da equipe, da empresa?

 

R- Olha, a Natura desde sempre... E antes de eu entrar, que eu entrei em 1982, como eu falei, a Natura existe desde 1969. Eu já tinha como razão de ser, por questão divulgada e não por propagada, mas era a promoção do estar; não estar bem. O bem-estar é a relação com você mesmo, o estar bem é a relação com o meio, a Natura faz parte desse meu aprendizado. Mas, para que virassem práticas ambientais, isso demorou certo tempo. É, vamos dizer, os conceitos estão instalados, algumas coisas já vieram sendo feitas, desde lá de trás. Por exemplo, a mais eloquente, talvez, foi introduzir, há muitos anos no Brasil, o conceito de refil, de refilagem dos produtos, que era um gesto... Mais do que uma economia financeira para o consumidor, era um gesto para você. “Olha para você consumir este produto, para repor aquele produto original que você já usou, você vai ter menos consumo de papel, de embalagem, etc.” Mas foram práticas quase isoladas, porque na própria Natura este conceito foi evoluindo. Naquela época, quando eu entrei, a gente não falava em desenvolvimento sustentável. Acho que a primeira manifestação mais abrangente disso vem com uma preocupação maior da empresa no que hoje é dito: responsabilidade social coorporativa, que é a preocupação com todos os seus públicos, com a sua relação com toda a comunidade, e inclusive com o ambiente. Isso já cria uma plataforma também de entendimento quanto empresa, de qual deveria ser o seu papel dentro da sociedade, e aí a percepção nítida de que uma empresa só existe se a sociedade enxergar o valor, e pra que a sociedade enxergue o valor, ela precisa participar da empresa. Então você precisa abrir a porta da empresa para todos os públicos e deixar esse processo de partes interessadas funcionar. Mas, de repente – esse de repente foi em 1997 –, nós nos demos conta que quando a Natura nasceu, ela era o Célio, que ele chamava assim a Natura: cosmética terapêutica. Baseada em princípios ativos naturais, e climatizados, naquela época, para o Brasil... Porque naquela época que ela nasceu, todos os produtos eram importados, então eram fórmulas personalizadas e adequadas para o clima brasileiro. Nós nos demos conta, em 1997, aproximadamente, que nós tínhamos um valor intrínseco lá na criação da Natura, que eram os princípios naturais, e que ao longo do desenvolvimento da história da Natura, ela deixou um pouco de lado. Até porque a tecnologia enveredou pela síntese, e a síntese era o que dominava, a síntese era o que produzia efeito nos anos 80. Então foi mais ou menos em 1997 que nós tomamos uma decisão estratégica das mais relevantes da nossa história, que foi simplesmente: “nós vamos voltar toda a nossa área de desenvolvimento...” Toda não, não é verdade isso, “a maior parte da nossa área de desenvolvimento de produtos para fazer da biodiversidade brasileira a principal plataforma técnica dos nossos produtos.” Mas fazer da biodiversidade brasileira a partir de um uso sustentável da biodiversidade, que une tradição, conhecimento popular e consciência. Porque, há alguns anos – vocês se lembram disso, porque é fabuloso o que eles fizeram – o workshop começou com um apelo muito nítido, mas o workshop tem uma diferença, e não é juízo de valor do que a gente procura praticar, porque ele usou muito a proposta ambientalista contra peças de animais, e a conservação e a preservação da natureza, mas com pouca aplicação de ciência. E o que nós nos propusemos a fazer, a partir de 1997, 1998, foi usar a tradição sim, usar a ética botânica, “para o que esta planta serve?”, você aprende com o povo da floresta, com o povo que vive naquela comunidade, que tem a tradição de anos de utilizar aqueles ingredientes. Então você aprende com essa tradição, mas você tenta analisar o que existe de ciência naquela tradição, e tenta aplicar medidas para entender esse conhecimento, até conhecimentos subjetivos, conhecimentos do tipo: “por que um banho, um determinado tipo de fragrância, produz bem estar?” E hoje a ciência já permite medir o que é essa sensação de bem estar, existem alterações no seu organismo para te produzir essa sensação de bem estar. Então estou fazendo um longo... A história que foi a decisão, relativamente recente, 1997, 1998, de fazer do uso sustentável da biodiversidade brasileira, a principal base tecnológica da empresa. E aí foi uma festa, porque a gente começa a falar de um outro mundo, de extrativismo florestal em comunidade, lidar com as comunidades e ajudar a comunidade a fazer plano de manejo e obter certificação florestal, e tentando ajudá-las a ter renda adicional, para que, com a atividade delas, elas nos deixem um patrimônio: a floresta preservada. Então eu preciso gerar renda para aquela comunidade, para que ela possa preservar aquela floresta e aquela biodiversidade, não tem outro jeito. Eu acho que essa é a grande mudança de discurso, o discurso do “não pode fazer isso, é proibido, tem que preservar, não pode respirar, não pode fazer isso”, porque, para um discurso positivo, que é: “vamos descobrir quais são os caminhos que preservem os recursos de desenvolvimento econômico e desenvolvimento social também.” É que eu acho que essa é a grande batalha do movimento ambientalista, e do movimento... Não é ambientalista, é um desafio do mundo, um desafio dos governantes, de todos nós, como fazer para ir para frente sem destruir e sem eliminar a possibilidade das gerações futuras. Então tem que ter o componente econômico, tem que ter o componente social e tem que ter a preservação dos recursos para as gerações futuras. Então esse momento foi mágico, porque nos ensinou muita coisa em muito pouco tempo, a respeitar aquele povo da floresta, a respeitar o seu conhecimento e a remunerá-lo por isso, remunerar pelo conhecimento tradicional, porque às vezes a gente paga royalties para outros conhecimentos porque não pagar pelo conhecimento tradicional, então é isso.

 

P/2- Mas a linha Ekos é basicamente isso, né?

 

R- A linha Ekos é a síntese desse...

 

P/2- Ela é associada diretamente com essa questão de sustentabilidade por causa dos produtos, que são feitos da semente de copa, de castanha do Pará.

 

R- É, a linha Ekos acaba sendo uma síntese...

 

P/2- Porque ainda que tivesse toda essa preocupação anterior, para o público, em geral, ela é automaticamente associada, né?

 

R- E o que foi muito gostoso foi que nós estivemos recentemente na Europa, fazendo o lançamento da linha Ekos, dando uma entrevista ainda pequena, só com a imprensa. Mas o Brasil... E esse tipo de visão, por incrível que pareça, é moderna, é contemporânea e é inovadora. Muita gente ainda, na Europa, fala de ambiente como uma coisa de conservação só. O desenvolvimento sustentável, a busca de um caminho alternativo ainda não é tão clara. Então, quando você mostra para alguma imprensa especializada produtos que tragam esse conceito, me parece que você tira em um primeiro momento a pessoa do eixo, porque é uma jornalista de beleza recebendo um cosmético, que ela recebe centenas por semana, por mês, e de repente vem um produto cosmético que diz: “olha, mas aqui tem uma historinha para contar, uma historinha que vem do Iratapuru, no Amapá, e está chegando à Paris, uma cadeia que está promovendo o desenvolvimento sustentável, está preservando aquela floresta, as pessoas, a cultura, e está chegando aqui e te servindo, te promovendo o bem estar, te transmitindo o bem estar, uma sensação gostosa do banho baseada na tradição daquele povo”. Esse conceito ampliado é uma coisa que as pessoas urbanas, mesmo do mundo desenvolvido, não têm hoje. Então você tira um pouco a pessoa do eixo, depois ótimo, olha se o produto é bom, se ela gosta, se o cheiro é gostoso, etc. e tal. Mas é muito interessante isso.

 

P/1- E Pedro, aproveitando um pouco isso, como é que foi o seu primeiro contato com a Fundação SOS, como se deu isso?

 

R- Primeiro eu era um admirador à distância, visitava sites e tal, era uma coisa que... Acompanhava alguns dos movimentos, o mais nítido para mim foi o Tietê. Mas à distância, quase admirador sem nenhuma participação. É, eu, por um amigo, acabei fazendo parte de um grupo no Guarujá, perto de Bertioga, que tinha como interesse preservar a Serra do Guararu, que é um trecho, acho que é o trecho urbano de mata Atlântica ainda que existe dentro do Guarujá, que é uma beleza fantástica, um manguezal lindo. Mas obviamente, sujeito a uma pressão imobiliária terrível, porque com terrenos muito valorizados, e também sujeito a uma invasão, porque está muito próximo da área central da cidade. Então eu acabei, por um amigo de Iporanga, fazendo parte de um grupo que contratou, fez uma parceria com o SOS Mata Atlântica para nos ensinar o que a gente poderia fazer, como a gente poderia ter uma inserção positiva para tentar preservar aquilo e promover um equilíbrio com aquele povo que mora naquelas terras, talvez de uma forma ilegal, sem títulos, e, ao mesmo tempo, olhar como seria a ocupação daquela região, fazer um planejamento, um plano de desenvolvimento sustentável para aquela região, que é uma região por si só confusa, porque você tem loteamentos de altíssimo padrão, e ao mesmo tempo você tem ali, próximos, invasões e etc. Então é muito frágil, é um ecossistema muito frágil, porque você está falando de um manguezal, você está falando de uma parte de serra muito bonita, mas muito frágil. E o meu trabalho foi aprender com o SOS Mata Atlântica o que poderia ser feito. O meu segundo trabalho era convencer os condôminos que financiavam esse projeto que era importante fazer um trabalho social, que não existe preservação ambiental se as pessoas não forem levadas em consideração, conceitos que muitas vezes as pessoas não têm, às vezes, e um pouco mecanicista: “você quer preservar? Cerca.” Mas não é assim, você cerca para as pessoas entrarem. Ou invadem os ricos com os grandes condomínios, ou invadem os sem-teto para ocupar uma área. Enfim, para estabelecer esse equilíbrio entre sociedade, governo e etc., é uma gestão delicada, que eu já tinha um pouco de experiência, por conta até da minha experiência empresarial, justamente com as comunidades extrativistas e etc. Porque já sabia, mais ou menos, como a mecânica funcionava. Só que aqui de uma complexidade urbana muito maior, pressão econômica muito maior. Então o meu papel acho que foi esse, aprender com o SOS como fazer, e fazer um plano de ação junto com eles. É, e aí ser um pouco defensor da causa, junto aos financiadores do projeto. E foi assim o meu primeiro contato com o SOS, [em] que eu conheci gente muito bacana.

 

P/1- E como foi que você manteve esse contato? Você começou a fazer parte da...

 

R- Então, acho que nesse momento a causa ambiental já fazia parte dos meus valores. Eu já desenvolvia algumas atividades relacionadas com o ambiente, seja de forma empresarial, seja do ponto de vista pessoal. E aí eu fui gostando de interagir com o pessoal do SOS, porque eles são muito inovadores. É, eles têm uns conceitos muito fortes, são pessoas que você sente que vibram com a causa, e que não se abatem com as dificuldades. Então eu fui procurando cada vez mais me aproximar, apoiar esse processo da Serra do Guararu, e finalmente acho que essa interação pessoal fez com que um dia o Roberto Klabin me convidasse para fazer parte do conselho do SOS, o que eu prontamente aceitei, apesar da atividade minha como executivo ser muito demandante. Eu falei “não, para isso eu tenho que abrir espaço, porque é uma coisa que eu gosto e que eu acho que faz sentido.” E de lá para cá tenho tido mais reuniões, mais contatos. Ainda é um processo relativamente recente, de alguns meses para cá. E eu tenho não só aprendido, mas sentido o valor do trabalho que eles fazem, vencendo dificuldades que não são pequenas, e como eu falei, essa articulação entre governo e sociedade... Interesses às vezes tendo o ambiente como bandeira no meio disso tudo. E a sustentabilidade é um desafio, um desafio como de toda organização não governamental, de mobilizarem, e ao mesmo tempo arrecadar fundos, manter a chama viva. É uma coisa que a gente sente, que precisa uma energia muito forte, porque a empresa de alguma forma você vê, é reconhecida, premiada pelo lucro, por fatores até às vezes mais de curto prazo, que acontece no horizonte de um ano, você lança um produto, faz uma ação, uma campanha, etc. e tal. Aqui o movimento é de mais longo prazo, precisa ter literalmente fé, você vai fazer a diferença. E o que eu senti nesse contato foi uma capacidade de inovação muito grande, poucos recursos... Criar ideias, criar propostas de mobilização, propostas de parceria, modelos economicamente interessantes até para promover o reflorestamento de mata nativa e reconstruir a Mata Atlântica de alguma forma, incentivar parceiros nesse desafio. Então, extrapolando em muito a Mata Atlântica, falando em desafios do aumento da temperatura no planeta, do protocolo de Kyoto e da preservação das águas, das nossas bacias. Então de uma amplitude muito grande, o que eu senti foi inovação, espírito inovador, um espírito empreendedor dentro de uma atividade não governamental, e um empreendedorismo social muito forte, e é isso que dá sentido à vida, são essas grandes causas. E é gostoso poder, de alguma forma, contribuir com isso, e de alguma forma poder fazer parte desse time.

 

P/2- E você já citou a questão do Tietê, que foram alguns dos programas do SOS que te marcaram. Quais outros, agora que você faz parte do conselho, que está acompanhando novos projetos, inclusive?

 

R- Bom, eles têm vários. Um que me sensibiliza muito é o programa de monitoramento das águas através de voluntários, onde eles fornecem kits, e crianças... Enfim, pessoas da comunidade acabam monitorando as bacias, os rios. Isso é um processo absolutamente transformador de consciência, porque essa coisa do ambiental, essa coisa do conceito da sustentabilidade, ele precisa se transformar em gestos simples para que as pessoas aprendam. É como a coleta seletiva, o grande gesto: amassar a latinha de alumínio para fazer a coleta seletiva, isso foi de um grande aprendizado, talvez menos pelo impacto real que causou, aquela economia, aquela coleta seletiva, aquela coleta certa, mas pelo gesto. As pessoas, ao fazerem o gesto de separar, elas estão aprendendo muito mais. Eu me sensibilizo muito com esse projeto da amostragem que eles fazem com a mobilização da comunidade para monitorar as águas, e isso cria uma base de dados muito grande. Bom, o segundo, um projeto que eu acho que é transformador, e que se projetaram para dez, 15 anos com uma missão muito maior, é o Florestas do Futuro. Porque nós estamos falando em aumentar a cobertura vegetal em matas ciliares, nas beiras de rios, que tem um impacto para a água, para a qualidade da nossa água, que é um desafio que vamos enfrentar, já estamos enfrentando, e que tem uma lógica de trazer parceiros para esse projeto que pode ter várias... O termo que eles usam é “adicionalidades”, benefícios adicionais por conta desse replantio, seja na água, seja na educação ambiental, seja na mobilização no nível do município. E é um projeto com impacto social, porque ao plantar árvores, você também gera renda. E se você somar o benefício adicional que eventualmente teremos com o protocolo de Kyoto, você pode estar começando a construir um modelo econômico que não é só do suporte, da parceria, do agente consciente, mas é que tudo isso tenha lógica econômico-social. Então eu acho que esse aí é quase uma estratégia, nós vamos aumentar a cobertura vegetal de Mata Atlântica a partir das principais bacias da região. Este é um trabalho que vai... Ao mesmo tempo que ele tem um efeito prático, ele vai iniciando uma educação ambiental, porque vai no nível do município, da escola municipal, dos parceiros privados, aonde as árvores forem plantadas, enfim. E aí eu tenho a impressão que tudo isso vai caminhar para uma mudança. Espera-se –

eu espero – com uma maior vigência, com a vigência do protocolo de Kyoto, de trazer o âmbito empresarial, os empresários para esta preocupação, para essa exigência do carbono neutro, ou seja, a minha atividade tem que ser neutra na emissão de carbono, o meu produto, a forma como eu transporto e etc. E aí eu vou precisar mitigar os impactos e estabilizar os impactos que eu exerço na minha atividade. Esse é o segundo projeto que eu mencionaria com muita tranquilidade, porque ele pode ser muito transformador da região da Mata Atlântica e pode servir de exemplo para outras regiões também.

 

P/2- E quais as perspectivas para a Mata Atlântica a médio e longo prazo?

 

R- Bem, eu não posso, nesse momento, ter um discurso muito otimista. Até hoje a gente tem tido dificuldades, porque a Mata Atlântica acabou ficando na região mais valorizada do país, onde tem as maiores pressões, a maior concentração urbana, as maiores pressões econômicas. A dificuldade tem sido muito grande, até hoje, de se conter essa devastação que houve, e mesmo a perda da biodiversidade dessa região. O meu otimismo se prende a um fator, que acho que a mobilização ocorre com um discurso mais positivo, é o que eu venho falando da busca por um desenvolvimento sustentável. E menos a coisa regulatória do “é proibido fazer, é proibido mexer, é proibido tocar”, e é mais a coisa: “como nós vamos nos desenvolver, levando em consideração o povo que vive nessa região? E como a gente extrai riquezas sem destruição daquilo que existe?” Aí eu acho que aparecem algumas pistas dos laboratórios, da mata como inspiração, do ecoturismo, de atividades econômicas da pesca, a necessidade de ter a água limpa, portanto a necessidade da mata ao redor. Eu sinto que por aí se constrói um novo discurso, um novo propósito, mas que ainda está em fase de elaboração, o modelo sustentável. Acho que a gente precisa correr com os melhores cérebros do país, com as melhores pessoas do país para poder colocar o raciocínio que vai mobilizar a sociedade, governos, etc. nessa direção. E o Brasil não pode perder a oportunidade, nós ainda somos... Espero que saibamos preservar, um país mega diverso, nós temos a riqueza... Temos a riqueza que outros não têm mais, que os países desenvolvidos não têm mais. Nós podemos desenvolver um novo modelo, uma nova lógica econômica e social que pode servir de referência. Eu acho que o governo tem um papel também... Nós não podemos perder o protagonismo como país, que nós tivemos, por exemplo, na criação dos mecanismos de desenvolvimento do protocolo de Kyoto. O Brasil tem um papel... Tem que ter um papel de protagonista, e é tido como um dos oito países mais importantes em termos ambientais, seja pela sua diversidade, seja pela sua quantidade de água, pela sua biodiversidade, enfim. Eu acho que nós temos a condição de criar um novo modelo referencial de desenvolvimento, e precisamos mobilizar as pessoas, o governo, a academia, de uma forma mais transversal. Não é uma coisa estanque, porque senão nós não vamos conseguir a mobilização que nós precisamos para criar esse novo modelo. Então o meu otimismo é menos pelo que aconteceu até hoje, mas pelo meu sentimento que está à flor da pele, das pessoas, essa necessidade de descobrir um modelo novo.

 

P/1- É Pedro, nós estamos já no final, e assim, tem mais umas duas perguntas para a gente te fazer. Três! Mas antes disso eu queria te perguntar assim: tem uma coisa que você acha muito importante de você falar que nós não te perguntamos até agora?

 

R- Eu falei tanto para vocês... Não, eu acho que importante é essa consciência de que a gente é parte de um todo, e a partir daí, dessa inter-relação, tudo fica mais fácil, a compreensão da lógica de por que nós estamos aqui e por que a gente, de alguma forma, luta por essa causa.

 

P/1- E Pedro, como você vê a fundação? Qual a importância que ela tem na sociedade, para você, que faz parte, e faz parte da sociedade?

 

R- Bem, eu acho que a fundação tem essa missão de estar à frente da sociedade na discussão do futuro do desenvolvimento sustentável e responsável. Acho que ela tem feito esse papel, eu sinto plenamente o esforço das pessoas da fundação em cada momento: se redescobrir, redescobrir a missão da fundação, e propondo os novos temas, se transformando em um núcleo de excelência, mas com capacidade de mobilizar e disseminar, partindo do princípio de que a transformação vem a partir do desejo da sociedade. E eu acho que ela tem feito isso, em alguns casos, em alguns eventos, de forma exemplar. A Fundação SOS faz parte da mudança da consciência. Pelo menos na região Sudeste eu tenho certeza, acho que ela tem um impacto importante no Brasil – mais na nossa região – muito relevante: formou pessoas, formou lideranças, preparou gente para ser mais competente. Quando você percorre o número de pessoas, a qualidade das pessoas que já passaram pela Fundação, aquilo realmente é uma universidade, ela ajuda a formar líderes dentro da sociedade. A importância, então, da fundação, é de ser um agente positivo nessa transformação, nessa discussão, nessa disseminação. E para mim, é quase um lugar onde eu posso me sentir inteiro, promovendo essa transformação e ajudando nessa transformação. Eu quero participar desse debate, eu me sinto bem participando desse debate, dando a minha contribuição como cidadão, como empresário, enfim, tentando acelerar esse amadurecimento da nossa sociedade sem pretensão. O assunto é difícil, tem que ter humildade, tem que ter paciência, mas não pode [perder] o ritmo.

 

P/1- E como você imagina a fundação daqui uns dez anos?

 

R- Uma fundação que trata de temas globais. A partir de sua origem regional, mas tratando de temas cada vez mais globais, trazendo modelos e exemplos para a sociedade, fazendo cada vez mais o papel educativo e com um número muito grande de associados, de relações desenvolvidas, para que o efeito, a capacidade de mobilização dela seja cada vez maior. Eu tenho certeza pelo que eu sinto, que o esforço da fundação, pela direção que vem sendo dada, que ela vai se tornar uma entidade de propriedade da sociedade, uma ONG que não é de um grupo, é propriedade da sociedade brasileira, uma marca da sociedade brasileira, e não será mais exclusividade de um grupo – que hoje já é grande –, mas ela será muito mais transversal na sociedade brasileira.

 

P/1- Você quer deixar algum recado para esses 18 anos?

 

R- Que a gente comemore esses 18 anos com muita alegria, porque os 18 anos da fundação foram muito efetivos, muita coisa realizada, mas que a gente tenha certeza que estamos comemorando, na verdade, o início. Nós estamos comemorando os próximos 18 anos, os próximos 36 anos, porque a Fundação é para sempre, o papel dela na sociedade é perene, é essa confiança que eu tenho. Nós queremos a Fundação, e é isso.

 

P/1- Você quer falar mais alguma coisa?

 

R- Não, gostei muito.

 

P/1- Então nós agradecemos por você ter ficado.

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