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História

O aprendizado da mudança

História de: Maria Lídia Montenegro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2018

Sinopse

Em seu relato, Maria Lídia Montenegro relembra momentos importantes de sua vida, tais como, sua infância em Uberlândia, quando foi adotada por uma família rica para ter uma vida melhor, seus tempos de internato em um colégio do Rio de Janeiro, sua graduação em Direito na PUC e como seguiu carreira na área do Direito Empresarial. Entra em detalhes sobre sua vida no BNDES, lugar onde ela construiu carreira por 25 anos na área de analise de projetos e após esse período devido uma mudança do banco, começou a trabalhar na área de renda fixa, onde teve oportunidade de conhecer o lado social do BNDES, relatando como essa mudança foi enriquecedora em sua vida profissional.

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História completa

P/1 - Boa tarde, Maria Lídia.

 

R - Boa tarde.

 

P/1 - Vamos começar pedindo que você repita seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Meu nome é Maria Lídia de Moraes Sá Peixoto Montenegro, eu nasci em Uberlândia, Triângulo Mineiro, Minas Gerais, e eu tenho 55 anos, nasci no dia 25 de março de 47.

 

P/1 - Maria Lídia, o nome dos seus pais e a profissão.

 

R - Meu pai é Osvaldo Batista Moraes, minha mãe Zilda Fernandes de Moraes. As pessoas aqui no Rio talvez não conheçam uma profissão como essa, mas a verdade é que ele tinha esse título mesmo. Era diamantário e também comerciante. Ele comerciava pedras preciosas, mas o setor dele mesmo de trabalho era com diamantes. Minha mãe, de casa.

 

P/1 - Conta para a gente um pouquinho como é que você passou a sua infância em Uberlândia, como era Uberlândia naquela época...

 

R - Uberlândia sempre foi uma cidade muito progressista, mas era uma cidade do interior. E a minha família era uma coisa muito interessante, porque minha mãe veio de família muito humilde, e os pais dela moravam em uma fazenda. E os pais dela, para proporcionar um estudo, um trabalho, enfim, uma vida melhor, deram a minha mãe para uma outra família criar. Então, a minha infância em Uberlândia foi muito rica, porque na verdade eu tinha duas famílias. Eu tinha duas avós; eu tinha a minha avó realmente, que era mãe da minha mãe, de sangue, e eu tinha a minha avó de criação. E eu considerava tudo a mesma avó. Para mim, não tinha distinção. Se era de criação ou não, para mim era tudo avó. Então foi muito rica. A família enorme, porque a família de criação eram 11 irmãos.

 

P/1 - E dos seus...

 

R - E da família da minha mãe, por parte de mãe, enfim, eram quatro. Então juntava tudo. No final, quando eu já era um pouquinho mais crescida, eu tanto ia para a casa brincar com os meus primos, por parte da avó de criação, como eu ia para a casa da minha avó que era mãe dela mesmo, brincar com meus outros primos. E no final, muitas vezes os primos de um lado vinham comigo para a casa da minha outra avó. Então, era uma grande família, e isso nunca trouxe nenhum resquício de diferença: “Ah, porque foi criada numa outra família...” Nada, isso nunca teve diferença nenhuma. Isso para mim foi uma grande riqueza, a família enorme. Eu tive muito poucos amigos fora da família porque eu não tinha tempo (riso), não comportava outros amigos. Eu ia estudar, meus amigos eram do colégio, porém eu tinha muitos primos no colégio. Então você veja que essa relação da família imensa continuava no colégio, no clube, que eu frequentava muito pouco, porque no interior a gente frequenta mais sítio, roça, fazenda. Essa coisa de clube não existia, e eu sempre acabava indo para o sítio dos meus tios, para a roça da minha outra tia... Enfim, eu não saía do círculo da família.

 

P/1 - Do que vocês brincavam dessas brincadeiras...

 

R - A gente brincava muito de soltar pipa, bicicleta. Nós tínhamos um lugar, para o sítio das minhas primas, elas tinham umas casinhas que a gente fazia, então as meninas ficavam muito ocupadas na brincadeira da casinha com as bonecas. Os meninos, no futebol. Isso era constante, a gente já sabia: ia para o sítio da tia Helena, a gente já levava aquela tralha de coisinhas, de panelinhas de bonequinhas, porque sabia que lá a gente ia montar a nossa casinha (riso). Quando eu estava na minha casa, lá em Uberlândia, era bicicleta; eu gostava muito de pintura, então eu fazia muita coisa com desenho, com aquarelas; soltava muita pipa... E também estudava muito, que meu pai não deixava eu ficar muito solta, então ia estudar piano, ficava o dia inteiro lá; no dia seguinte tinha que estudar o solfejo por causa da aula de piano... Então, sobrava muito pouco tempo para brincar.

 

P/1 - Maria Lídia, ali fora você me contou que a sua avó tinha um hotel na cidade. Conta para a gente.

 

R - A minha avó de criação tinha esse hotel, que era o único hotel da cidade de Uberlândia. O hotel era chamado Hotel Zardo, onde todos os irmãos trabalhavam. Consequentemente, minha mãe também. Eram minha mãe e todas suas irmãs trabalhando nesse hotel. Quer dizer, o hotel era totalmente ocupado pela família inteira, e a gente transitava no hotel. De vez em quando, porque minha vó não deixava que as crianças participassem muito de coisas de adulto, então a gente transitava muito pouco pelo hotel. Durante muito tempo, algumas irmãs da mamãe moravam no hotel. Algumas iam casando e consequentemente saindo do hotel, mas passavam uma grande parte do tempo de vida lá no hotel. Foi um período de vida muito engraçado, muito interessante, porque tinham também grandes espaços, era uma coisa diferente; a gente via gente diferente chegando na cidade, no hotel, e tudo aquilo, para a gente, era uma coisa muito interessante. A minha mãe ficou a maior parte do tempo dela de solteira no hotel, como as outras irmãs. Como eu disse para você, à medida que elas iam casando, iam para as suas casas. Mas eu frequentei muito o hotel. Mesmo pequenininha, minha avó tinha o hotel, e eu frequentava. Tive essa oportunidade de frequentar muito ainda esse hotel. Mas logo depois minha avó vendeu, quando a gente tinha mais ou menos uns 5 anos. Ela vendeu, enfim... Aí era mesmo ficar em casa mesmo. Aí ela tinha posto de gasolina, tal... Aí acabou o hotel. Quer dizer, a fase do hotel. Mas aí eu já tinha 5 anos, e tive oportunidade de aproveitar bastante esse tempo.

 

P/1 - O hotel teve um funcionário que se tornou famoso depois. Conta para a gente.

 

R - Exatamente. Foi até muito interessante, porque esse funcionário, que se tornou, depois de velho, famoso, foi o Grande Hotel, e na época a gente chamava de Grande Otelo. E isso ficou “Grande Otelo” porque ele não conseguia falar o nome “Grande Hotel”. O Grande Otelo, a mãe dele era lavadeira e trabalhava com a minha avó. Ela era lavadeira do hotel. E ela tinha o Sebastião - o nome dele era Sebastião -, que era o menor da família, e ela levava com ela, e ele ficava lá no hotel. E minha avó, enfim, como já tinha tantos de criação, criava mais um ali, outro aqui... Ele ficava o dia inteiro lá no hotel. A mãe dele depois ficou mais idosa, e ele continuou trabalhando lá. Já rapazinho ele ainda trabalhava no hotel.

 

P/1 - Trabalhava de quê?

 

R - Ele era engraxate. E minha avó sempre falava para ele que, quanto mais clientes ele trouxesse para o hotel, ele ia ganhar uns trocadinhos a mais. Então, o que é que acontecia: todo dia de tarde, na hora que o trem chegava, e na hora que os ônibus chegavam, ele corria, ia lá para a rodoviária, ou ia lá para a estação de trem, para pegar os clientes, para trazer para o “Grande Hotel”. Mas ele não falava “Grande Hotel”, ele falava “Grande Otelo” (risos). Então por isso daí o nome de Grande Otelo, porque ele não conseguia falar “Grande Hotel” (risos). E o nome dele artístico, depois de adulto, ficou “Grande Otelo”. Ele saiu de Uberlândia eu acho que já adulto, já grande. Enfim, teve os revezes da vida dele; casou a primeira e tentou o suicídio, aquelas coisas todas; depois casou a segunda vez e teve um monte de filhos, aí veio para o Rio de Janeiro e ficou. Mas a mãe dele, até uns 20 ou 30 anos atrás, a gente tinha notícias da mãe dele em Uberlândia. Velhinha, velhinha... Mas eu lembro que a minha família, umas tias minhas lá, ainda ficaram cuidando dela durante um bom tempo da vida dela. Ela adoeceu, enfim, sem condições, e eu acho que alguém da minha família andou cuidando dela lá em Uberlândia.

 

P/1 - Conta para a gente um pouco do colégio, da juventude...

 

R - Eu comecei em um colégio de freiras em Uberlândia. E sempre junto com os primos. Meu pai achava que férias não precisava existir; eu sempre tive uma professora extra nas férias, e com isso eu tinha muito pouco tempo para fazer outras coisas. Mas eu tive um corte na minha infância. Meu pai achava que Uberlândia era uma cidade muito pequena, e os estudos não eram muito bons. Então, ele resolveu me trazer para o Rio de Janeiro para que eu tivesse estudos, para que eu tivesse um nível de escolaridade melhor. Mas, como eu sou a única filha, ele agiu de uma maneira muito sutil, porque ele não falou para minha mãe que eu vinha interna para o colégio. Ele falou para a minha mãe que era um semi-internato, tal, e que eu ia sair... Mais nada. Com 9 anos. Eu fiz o primário todo nesse colégio, e na admissão - que naquela época tinha a admissão, que era na quarta série primária - ele me transferiu para o Rio.

 

P/1 - Você ficou sabendo?

 

R - Nada. Eu vinha para uma viagem, vinha passear no Rio de Janeiro. A ideia toda era um passeio no Rio de Janeiro. Mas nesse passeio no Rio de Janeiro ele foi me apresentar o colégio que eu ia ficar. E depois soube que não ia ser um semi-internato, e depois... Primeiro, ia ser em Petrópolis. Minha mãe disse que absolutamente em Petrópolis não, porque eu não tinha ninguém lá em Petrópolis com quem eu pudesse, enfim, ter um contato. Minha mãe se negou: “Em Petrópolis ela não vai ficar”. Aí ele conseguiu um colégio aqui no Rio, que naquela época era dificílimo colocar; o pessoal do interior não tinha vagas. E ele então, através de uma madre do colégio de Petrópolis do (Sacré Éclaire?), ele conseguiu uma vaga no Regina Tchelli, lá na Tijuca. E aí eu fiquei. Minha mãe teve que tomar todas as providências porque era para ficar interna. E o internato significava o seguinte: eu vinha em janeiro, fevereiro, e só voltava para casa no final do ano. Mas isso para mim... Não para mim, mas mais para minha mãe. Para minha mãe foi um choque tremendo, foi uma coisa horrorosa, foi terrível. Mas ela deixou.

 

P/1 - E para você, quando você se deu conta que ia entrar no colégio?

 

R - Foi péssimo. Para mim foi uma ruptura muito forte, porque os meus laços da família estavam muito fortes.

 

P/1 - Família enorme.

 

R - Enorme, só com primos e tudo. De repente aquilo foi rompido de uma maneira brusca. Mas ele não imaginava essas coisas. quer dizer, o lado psicológico não funcionou. O objetivo dele...

 

P/1 - Era o lado racional.

 

R - Era o lado racional, de me dar um estudo, e que eu pudesse no futuro ser alguém. Isso que ele pensou. E ele achou que em Uberlândia eu não teria isso. E realmente eu não iria ter, porque lá eu só iria ter um curso médio e acabou. E ele não queria aquilo para mim. Mas isso, naquele momento, jamais eu poderia entender dessa forma. Eu fui entender disso adulta, depois que ele faleceu.

 

P/1 - Você tinha quantos anos? 11?

 

R - Eu tinha 11 anos.

 

P/2 - Permaneceu quanto tempo? Fez tudo?

 

R - Eu tinha 10 anos e fiquei até os 17. Fiquei sete anos. Fiquei exatamente todo o colegial, e naquela época você tinha o clássico ou científico. E mais o clássico, porque eu ia fazer direito, então eu fiz o clássico. Todo nesse colégio. Tudo. Interno, do início ao fim. Não abriu exceção nem para o último ano. O último ano, que foi o terceiro colegial, que eu já queria fazer o vestibular logo em seguida, ele me autorizou que eu fizesse o curso de manhã, ia de tarde fazer o Hélio Alonso, mas teria que retornar ao colégio. Então isso era condição, e não deixava minha mãe fazer de uma maneira diferente. Era da maneira como ele decidia.

 

P/1 - Você tinha parentes aqui também? Alguém próximo?

 

R - Eu só tinha amigos da minha mãe; amigos esses que eram irmãos da mulher do meu padrinho. Esse meu padrinho que morava aqui era muito amigo dele. E a minha madrinha - que eu chamava de madrinha - as irmãs dela, que eram muito amigas da minha mãe, moravam aqui. A única ligação exterior que eu tinha era com esse padrinho e com essa família. Ele tinha vários filhos, e com essa família eu tinha uma ligação externa. E que também era eventual, porque era só assim, em aniversário, num feriado maior que ele ia lá me pegar e que eu ia para a casa dele. Mas fora isso era no colégio. E meu pai, com aquela rigidez, com aquela coisa de estudo, as férias de julho eram aproveitadas para poder estudar para o semestre seguinte. Então, ele não permitia que eu não saísse do colégio não era nem como forma de castigo, nem nada. Era para aproveitar, para ter mais aulas.

 

P/1 - Mas você não voltava nem em julho?

 

R - Em julho, não. Tinha uma autorização do colégio que as madres lá tinham que colocar professoras para me acompanhar para as matérias do semestre seguinte. Então eu não saía nunca, eu só saía no final do ano, entendeu? (risos). Só brincava, só me libertava de estudo no final do ano.

 

P/1 - Retornando, Maria Lídia, você criou uma rede de amizades dentro do colégio?

 

R - Olha, por incrível que pareça, com a perda da família e tal, eu consegui fazer, sim; eu fiz muitos bons amigos no colégio, durante o internato. Pena que depois a gente sai dali, enfim, e o vínculo fica um pouco mais distante, mas nunca cortado. E recentemente eu tive notícias de três amigas. A filha de uma delas eu reencontrei, por acaso. E duas delas namorando dois amigos meus da faculdade. Foi uma coincidência tão grande. Ele comentando comigo: “Estou namorando...” - separou-se, tal - “Estou namorando uma menina chamada Sônia.” Aí ele falou o sobrenome, e eu disse: “Mas essa pessoa é assim, assim, assada?”: “É”: “Não acredito, essa menina foi minha amiga de colégio interno, no Regina Tchelli”. E foi aí que eu reencontrei depois de... Isso foi em 69. Vim reencontrá-la cinco anos atrás. Vinte e cinco ou quase trinta anos depois. Ela estava namorando um amigo meu de faculdade. Então, as pessoas amigas do colégio, que eu fiz muitos amigos, hoje eu vejo muito menos. A minha relação maior mesmo foi de faculdade. Foi esses que até hoje e, enfim, por todas as coisas da vida que ao longo a gente passa, e tem a oportunidade de ter esses amigos, que são os amigos que dão apoio em momentos mais difíceis. Mas foram os de faculdade.

 

P/1 - Então, chegando na faculdade, quando foi o período que você foi fazer o curso para o vestibular... Como foi sua escolha de...

 

R - Engraçado, o direito sempre foi uma coisa muito determinante. Eu nunca tive problemas assim: “Não sei se eu vou ser advogada, ou vou ser socióloga, ou talvez professora, letras...”. Nunca tive essa dúvida. Nunca. Eu cheguei aqui no Rio, no curso primário, depois no curso colegial, e no meu vestibular... Mas foi uma coisa que, assim, direto: “Vou fazer Direito mesmo, vou para o Hélio Alonso.” Já sabia o curso que eu ia, que na época o forte era o Hélio Alonso, que na parte de Direito era muito bom. E nunca tive dúvidas em relação à escolha, veio muito naturalmente. Eu acho que era uma aptidão que eu tinha e que eu nunca tive dúvida, apesar de não a externar quando adolescente, ou quando no colégio, mas não foi uma coisa que me deixou dúvida. Nenhuma.

 

P/1 - Teve alguém que te influenciou?

 

R - Nada. Zero. Meu pai nunca falou nada, minha mãe nunca falou nada, mesmo porque eles não tinham cursos, eram pessoas ainda com um nível pequeno de escolaridade. Então, nunca. Minha mãe nunca falou. Nem meu pai. Ninguém. Era uma aptidão, mesmo, e que depois eu procurei naturalmente. Procurei fazer o clássico, que eu já sabia o que eu queria, que era direito, que eu queria ser advogada, mas sem nenhuma intervenção familiar. E eu fui. Fiz o clássico, aí já busquei o curso do Hélio Alonso, fiz o vestibular para Direito... E mesmo no curso de direito, quando eu terminei, eu já sabia qual o ramo do direito que eu ia fazer depois dos meus cursos de graduação. Tranquilamente. Eu saí da faculdade já determinada, sabendo o que eu queria fazer. E vou dizer uma coisa: todo dia eu agradeço a Deus, porque eu adoro o que eu faço. Adoro. Desde meu primeiro dia de trabalho, em outro trabalho que eu fazia antes do BNDES, fui fazendo o que eu gostava; sempre gostei do lado empresarial, do lado comercial, civil... Sempre. E sempre fiz as graduações, pós-graduação, mestrado, em direito de empresa, que é o que eu sempre quis. Sem nenhuma intervenção. Fiz muito contencioso porque a gente realmente acaba tendo que fazer, mesmo, mas não era por eu gostar, era por eu ter que fazer. Por gostar era (_____ ____?), que eu acabei fazendo também.

 

P/1 - E qual foi a faculdade que você fez? Como foi esse período de faculdade? Sair do internato para a universidade...

 

R - Essa passagem eu diria para você que foi de uma experiência absolutamente profunda, porque eu saí de uma coisa muito fechada. Então, quando eu entrei na faculdade, que eu fiz a PUC... E já desde o vestibular eu comecei a fazer amigos no curso Hélio Alonso, e a gente já mais ou menos que fazia a Nacional, ou a PUC. Um grupo foi para a Nacional, outro grupo foi para a UERJ, outro foi para a PUC. Esse grupo que eu já estava trazendo, que eram pessoas que eu já estava estudando junto, fomos para a PUC. Esse corte de colégio interno, que eu fui até o último momento, para faculdade, foi realmente de um aprendizado de vida muito grande. Porque, enfim, você ter que determinar e administrar a sua vida de uma maneira diferente do que era administrada no colégio interno, com todos os olhos, com toda aquela direção...

 

P/1 - Descobrindo o mundo.

 

R - Descobrindo o mundo, porque universidade, PUC... Eu também não tinha lá muito conhecimento. PUC era uma faculdade na época um pouco mais cara, e não tinha essas informações muito, não. Aliás, eu não tinha informação nenhuma (risos), eu tinha nada de informação. Quando eu fui para a PUC, eu fui porque eu queria fazer um bom curso de Direito. Essa era a minha determinação. E foi para a PUC, comecei a minha faculdade. Logo depois... Não tive, assim, dificuldades. Tive dificuldades médias... Passando, fazendo os amigos... Enfim, levei a faculdade com exatamente uma ânsia de começar a trabalhar. Então, no segundo ano eu já pedi a um professor que me arrumasse um estágio, porque eu queria fazer um estágio em algum lugar. E foi esse meu professor de Direito Tributário que me conseguiu um lugar de estagiário na Companhia de Habitação do Estado. E foi o meu primeiro trabalho. Ele, inclusive, era diretor jurídico de lá, e eu estagiava com ele. Eu acho que foi assim, um presente, porque você estudando e já fazendo estágio naquilo que você já futuramente ia exercer, te dá uma visão, te dá um conhecimento muito diferente do que você estar só numa faculdade, só através de livros. Então, a minha experiência foi muito rica. Muito rica porque eu comecei já no segundo ano de direito. No segundo ano eu já comecei e já fui me enfronhando. Isso para mim na parte prática foi de uma riqueza, que talvez na parte processual, que muitas pessoas têm dificuldade nos cursos de direito, para quem tem a oportunidade de fazer um estágio durante a faculdade, isso torna-se muito mais fácil, muito mais tranquilo. Para mim foi uma experiência muito enriquecedora, porque eu comecei no meu segundo ano, e ao longo do meu curso de direito eu não sentia muitas dificuldades, entendeu? Eu senti muito poucas dificuldades, talvez porque eu tivesse o estágio me ajudando muito na parte prática do direito. Foi um curso que eu fiz com muita tranquilidade. Primeiro porque eu gostava, e segundo porque a experiência que eu estava trazendo do estágio foi muito rica...

 

P/1 - Me conta só uma coisa. Aí você saiu do internato, como é que você foi morar, como é que você...

 

R - Ah, bom. Tem essa passagem. Quando eu saí do internato, meu pai não deixava que eu ficasse... Na época você tinha aquelas casas que tinham as famílias que... Ou alugava um quarto, enfim, para pessoas que tivessem estudando aqui. Meu pai não admitia isso. De jeito nenhum. Ele achava que isso tinha que ter uma mudança. Qual foi a mudança? Era minha mãe sair de Uberlândia e mudar para o Rio de Janeiro.

 

P/1 - Porque você também não podia morar sozinha.

 

R - Eu também não podia morar sozinha, então quando eu entrei na faculdade, no meu primeiro ano, minha mãe mudou para o Rio de Janeiro. Veio de armas e bagagem para o Rio de Janeiro. Ela deixou tudo lá, abandonou tudo lá, alugou um apartamento aqui, e eu fiquei com a mãe aqui.

 

P/1 - Foi bom ter a mãe de volta?

 

R - Ah, foi muito bom (risos). Isso você fez uma lembrança muito interessante. Talvez isso tivesse amenizado essa saída do internato e a entrada na faculdade. Porque ela estava junto de mim. Quer dizer, aquela estrutura da família que eu voltei a ter, isso amenizou muito a minha saída. Você tocou num ponto fundamental. Foi a vinda dela para cá. Então, com a vinda dela para cá eu estava no céu, entendeu? No céu completamente.

 

P/2 - Vocês moravam em que bairro do Rio?

 

R - No Flamengo, na Marquês de Abrantes

 

P/2 - Você falou que desde o curso Hélio Alonso já tinha um grupo de amigos, e que esse grupo acabou indo para a PUC. O que vocês faziam? Como era? Divertimento.

 

R - Olha, divertimento era... E aí entra meu pai de novo na jogada, entendeu? (risos). Divertimento era o seguinte: só sábado e domingo que a gente ia a festas. Era clube, era o Fluminense, era na casa de um, na casa de outro... Era muito mais no âmbito de festa na casa de alguém, entendeu? A festa em clube, Fluminense, em clubes em geral, era muito raro ele deixar, porque ele mantinha ainda o exercício de pai ali (risos), que não deixa cair de jeito nenhum. Ele não abandonava aquele padrão dele, que era um padrão rígido, aquele baiano rígido, que eu olhava uma vez e não olhava a segunda porque (risos) não adiantava. Entendeu? Porque não tinha como, era não e não e pronto. Eu com 18, 19 anos aí, ele... No meu primeiro trabalho, só para você ter uma ideia, quando eu cheguei em casa que eu disse que tinha conseguido um trabalho, que eu ia trabalhar, que eu tinha tido um estágio, ele disse: “Mas você não me perguntou se eu aceito que você vá trabalhar nesse lugar; eu primeiro preciso saber onde é que fica, com quem você vai trabalhar.” Gente, eu já tinha quase 20 anos nas costas. Ele é que tinha que optar e me dizer se aquele trabalho era bom para mim. E ele fez isso. Um dia, eu saí da faculdade e ia direto para o trabalho. Cheguei lá no trabalho e quem é que estava lá? Meu pai (risos). Meu pai me esperando (risos). Eu digo: “Papai, o que aconteceu?”: “Eu vim aqui saber quais são as pessoas que trabalham aqui, com o é que é o ambiente, como é que é isso...”

 

P/1 - Sondar (risos).

 

R - Sondar (risos). Meu Deus do céu. Como se diz hoje em dia, eu paguei um mico (risos). Mas eu não me importava, era o jeito dele, ele era daquele jeito mesmo. E depois minha mãe me falou: “Olha, seu pai quis ir e não teve jeito.”

 

P/2 - E o estágio era remunerado?

 

R - Era remunerado. E aí eu tinha meu dinheiro, porque o estágio era remunerado. Mas ele fazia questão que eu desse um pouco desse dinheiro para minha mãe (risos). Não deixava tudo comigo, não. Um pedaço tinha que ir para minha mãe, porque minha mãe tinha coisas para fazer em casa... Tá bom, um pedaço era para minha mãe. Então ele sempre exerceu esse mando em cima de mim muito forte. Engraçado, eu vou contar para vocês depois uma passagem que vocês vão entender, e eu entendi depois muito bem essa coisa, que isso foi tudo muito bom para mim. Então, esses amigos continuavam, nessas coisas de festinha, cinema... Eu ia muito ao cinema. E a gente estudava muito sábado, de tardezinha a gente sempre estudava um pouco. Depois dali a gente sempre ia num cinema ou em uma festa em casa de família. Não teve muito mais, assim... Férias eu continuava indo para Uberlândia, porque eu não desligava. Essa ligação eu tinha, que durante o ano, nas férias, eu interrompia e ia para Uberlândia, encontrava lá com meus primos e minha família; ficava na casa de tios e depois voltava para o Rio. Eu e mamãe. E aí continuava a nossa vida.

 

P/1 - E namorar com um pai que era uma fera?

 

R - Aí, minha amiga, esse pedaço foi sério (risos). Porque eu comecei a namorar e o cara estava namorando sério (risos). Meu pai só admitia um namoro se fosse um namoro sério, senão ele não admitia (risos) e eu não queria nada dessa coisa muito séria, entendeu? (risos). Mas para ele, para namorar tinha que ser. Tinha que ser sério. E a minha mãe falava: “Osvaldo, ela está com 19 anos”: “Não, se tem que namorar, tem que namorar sério; o rapaz tem que vir aqui, eu tenho que saber...” Mas foi muito engraçado, porque esse meu namorado também queria levar muito a sério o namoro (risos); queria que fosse um namoro sério, então batia sempre com o que meu pai queria. Mas isso depois, enfim, mudou completamente; o rumo da história mudou completamente (risos).

 

P/2 - Só para frisar, que ano você entrou na universidade?

 

R - Foi em 65. Eu fui para o colégio interno em 58, saí em 65. Em 65 eu fui para a faculdade... Não, em 66. Me formei em 70. Em 72 meu pai faleceu.

 

P/2 - E para ele também de alguma forma devia ser um desafio. Do interior da Bahia, ter uma filha no Rio de Janeiro... (risos)

 

R - Isso é verdade, porque era uma família simples, ele não teve escolaridade... Era um desafio com relação aos amigos dele sem dúvida, porque era o único baiano que sai lá do interior e que conseguiu colocar uma filha no Rio de Janeiro. É verdade. E quando eu me formei então, isso foi uma satisfação...

 

P/2 - Muito grande.

 

R - Bárbara, incrível. Porque aí ele falava para todo mundo que a filha do Osvaldo Moraes - ele não falava meu nome - se formou no Rio de Janeiro e era advogada. Então, realmente isso daí...

 

P/1 - Era a realização dele.

 

R - Dele. Muito grande, porque era uma pessoa que lutou e que realmente conseguiu. Aquele objetivo que ele perseguia de repente era isso, ele conseguiu mesmo. Mas talvez para mostrar para os amigos, enfim...

 

P/1 - Ou talvez um sonho dele, que ele realizou através de você.

 

R - É verdade. Era uma coisa dele.

 

P/2 - Mas a escolha do direito foi uma coisa que...

 

R - Não, isso foi totalmente minha, ele nunca... Nem minha mãe também. Nunca, nada.

 

P/2 - E quais eram as expectativas que você tinha da carreira de advogada na época de faculdade ainda, quando você...

 

R - Olha, realmente eu tracei... A minha expectativa era sempre pós-graduação, sempre... Era transitar no Direito cada vez avançando mais. Era fazer o mestrado, era fazer pós-graduação, sempre subindo na minha carreira. Na minha carreira que eu digo é no Direito. Não parar no curso apenas; eu queria fazer a minha especialização.

 

P/2 - Você fez direto?

 

R - Eu fiz direto. Eu saí da faculdade, logo em 72 eu fiz a Fundação, um curso CEPED da fundação; em 74 eu já estudava para o concurso do Banco, que foi em 75. E em 77 eu comecei o mestrado. Então foi uma coisa de uns sete anos intercalando aí CEPED, curso daquilo, curso de outro. Em 77. Então, realmente eu tinha essa visão, eu não queria ficar apenas com o curso básico da faculdade; eu realmente queria deslanchar muito na área do Direito de Empresa, principalmente na área do Direito de Empresa que foi...

 

P/1 - Era essa a área que você queria?

 

R - Desde a faculdade. Desde o segundo ano de faculdade eu queria... Eu lia muito a parte de revistas, de empresas, do direito de empresas; lia livros também. E sempre. Sempre. Era uma coisa que também eu tinha, e eu queria. Eu queria. Eu queria perseguir o curso de mestrado e pós-graduação em direito de empresa.

 

P/2 - Quando você se formou, você estava como estagiária na COHAB. E você ficou lá durante um tempo?

 

R - Fiquei lá até 75. Eu entrei lá em 67 e fiquei até 75. 75, início de 76. Fevereiro, março de 76.

 

P/2 - Nesse momento que você fez o concurso para o Banco?

 

R - Foi. Em 75 eu fiz o concurso. Não fui chamada, fui cadastrada. Quando foi em 76, o doutor Clemente, que era o diretor da FIBASE, que era uma das subsidiárias do BNDES, como eu estava cadastrada, ele me convidou para ser advogada na FIBASE. E aí eu fui.

 

P/1 - Deixa eu só voltar um pouquinho. Como foi fazer uma faculdade em uma época de ditadura? O que se comentava? Como era?

 

R - Foi uma experiência também rica, porque a PUC não era muito ativa naquele momento. Mas a gente tinha os diretórios, e os diretórios eram muito ativos. Então eu tinha amigos que a gente participava muito do diretório, então...

 

P/1 - Você acompanhava essa vivência de diretório estudantil?

 

R - Eu acompanhei. Acompanhei não ativamente, porque eu não tinha muito aquela... Talvez o conhecimento político, entendeu? Eu era muito ingênua, boba talvez. Eu não tinha ainda o conhecimento político. Eu tinha conhecimento, mas não a ponto de ter um envolvimento maior, como eu tive amigos que tiveram um envolvimento muito grande. Mas a gente não deixou de participar das passeatas. Quantas e quantas vezes a gente veio para o centro para participar das passeatas; quando teve aquele estudante que levou um tiro lá na Casa do Estudante, ali em frente à Faculdade de Sociologia, que é hoje a Maison de France, ao lado. E aí sim tinham os grandes comícios, as grandes corridas.

 

P/1 - Universidade do Brasil?

 

R - Universidade do Brasil. E tinha também a Faculdade de Sociologia, que era ao lado da Maison de France. Então, eu saía da PUC, ia trabalhar, e depois do trabalho a gente ia para lá para se reunir. Mas eu não tinha, não vivenciava muito o que era o movimento. Eu sabia que tinha algo que era difícil, que era uma coisa nova, mas talvez eu tivesse pouco conhecimento. Eu tive amigos que foram mais ativos, mas eu não tive muito conhecimento, não tinha muita vivência. Talvez até porque o meu passado de colégio não me deu essa... Eu fiquei muito quadrada; a minha visão era muito curta em relação a isso. Mas isso, por exemplo, talvez para a gente tenha atrapalhado, porque tinham muitos movimentos, a faculdade parava, e tinha um temor de não continuar, se o país realmente... Se o meu pai poderia custear minha faculdade... Talvez o temor viesse muito por aí: “Como ia ficar a situação financeira dele para eu continuar na faculdade?” Talvez muito mais nesse sentido. Mas eu não senti muita interferência nos estudos. Professores e... Não, eu não senti.

 

P/1 - Os professores não chegavam a comentar?

 

R - Muito pouco. Um ou outro. Mais talvez tenha sido... Em 64 eu ainda estava na faculdade. Mas eu já estava mais adiantada. Eu acho que o pessoal que tivesse mais atrás, no primeiro e segundo ano, talvez tivesse uma participação maior; a gente já estava trabalhando, não tinha muita participação. Participava menos. Mas eu acompanhei muitas vezes o diretório, o pessoal trabalhando e discutindo as questões políticas, sociais, da época. Tive amigos que participavam e a gente ouvia, conversava com eles. Mas realmente a gente tinha muito pouco conhecimento. Eu então, muito menos, porque eu vim de um colégio e era muito ainda quadradinha (risos). Não tinha conhecimento nenhum dessa parte política (risos).

 

P/2 - E conhecimento do que era o BNDES?

 

P/1 - Você foi fazer o concurso já sabendo o que era o BNDES?

 

R - Eu fui fazer um curso lá na Cândido Mendes, e lá eu conheci um grupo muito grande de advogados do BNDES. E lá eu fiz amigos que iam fazer o concurso para o BNDES. Então eles me convenceram: “Lídia, faz também o concurso; a gente vai fazer o concurso, a gente estuda junto...” Como a gente estudava juntos no curso da Cândido Mendes, a gente acabou se reunindo para estudar para o concurso do BNDES. Foi aí que eu despertei, justamente nesse curso da Cândido Mendes, com esse grupo que estava se preparando para fazer o concurso para o BNDES, foram eles que me convenceram, que me levaram a estudar e procurar fazer o concurso em 75. 

 

P/2 - E você ia fazer um concurso para um órgão público estável, ou você ia fazer o concurso já sabendo o que era o papel do Banco?

 

R - Quando eu comecei a fazer o concurso, eu procurei conversar com essas pessoas que já tinham mais conhecimento do que eu para saber qual era o tipo de trabalho do Banco, como era que o Banco trabalhava, o que o banco fazia. E aí que eu comecei realmente a sentir, que eu despertei para esse tipo de trabalho. E comecei a ver que talvez dentro dessa estrutura grande de um banco de desenvolvimento eu pudesse deslanchar toda minha vida de sonho. Porque eu queria fazer o direito empresarial, eu tinha intenção de fazer o mestrado empresarial, e talvez ali eu tivesse descoberto que no BNDES eu poderia ter esse desenvolvimento dessa minha carreira, entendeu? Justamente pautando para o lado do direito empresarial. Eu comecei a descobrir o banco justamente com essas pessoas, porque ali a gente começava a estudar para o concurso, e sabendo quais eram as matérias, o que o Banco ia fazer, qual era a função do BNDES... Então a gente, no estudo, a gente tinha que ler um pouco também sobre a atuação do BNDES. E foi ali que eu disse: “Acho que o meu caminho está legal, acho que é isso mesmo que eu estou querendo”. Então foi a partir daí que eu despertei o interesse. O interesse maior, porque a partir dali a gente estudou também qual era a função do Banco: o que o Banco fazia, qual era o trabalho do Banco. E o que nós íamos poder fazer; se passássemos, qual era o tipo de trabalho que nós íamos fazer no Banco.

 

P/1 - Quer fazer uma pausa agora para a gente retomar?

 

P/2 - Quer ir retomando pelo...

 

P/1 - Pelo BNDES, para já começar.

 

P/1 - Maria Lídia, vamos retomar a sua entrada no Banco. Você passou no concurso em 75?

 

R - O concurso foi em 75. Eu fui para a FIBASE, que depois transformou-se em BNDESPAR. Mas fui para a FIBASE em 76, em abril de 76.

 

P/1 - Trabalhar como advogada.

 

R - Trabalhar como advogada na área de análise de projeto. O meu setor era um setor químico/petroquímico. Antigamente, na FIBASE, tinham setores, então minha parte era a parte de química e petroquímica. E química fina. Nós chamávamos de química fina. E os outros advogados eram outros setores: papel e celulose... Que depois eu também fui fazer essa área de papel e celulose, mas logo no início era química, petroquímica e química fina.

 

P/1 - E qual era o projeto assim grande? Tinha algum projeto...

 

R - Vários. Vários projetos. Nessa época,...

 

P/1 - Camaçari já estava em andamento?

 

R - Exatamente. Nessa época foi quando começou a dar início à implantação do complexo petroquímico de Camaçari. Eu tive oportunidade de fazer e de começar a acompanhar, e começar a analisar praticamente todos os projetos do complexo petroquímico de Camaçari. Eu acho que eu participei de praticamente todas... Se não todas, quase todas as empresas que estão no polo petroquímico de Camaçari. Depois veio o polo petroquímico do Sul, em Triúnfo - COPESUL. E depois veio o polo petroquímico de São Paulo, que é em Paulínia. 

 

P/1 - E você viajava para acompanhar os projetos?

 

R - Muito. Muito, porque quando eu passei para o Banco, que eu optei para a área de análise de projetos, o que nós tínhamos que fazer? Quando as empresas davam entrada nos seus projetos para a participação... A FIBASE era uma subsidiária do Banco que cuidava da parte de participação, então nós analisávamos os projetos para participarmos do capital da empresa. O Banco era o financiamento, a EMBRAMEC era uma outra subsidiária, que cuidava da parte de, se eu não me engano, de máquinas...

 

P/1 - Máquinas pesadas.

 

R - Máquinas pesadas. E na FIBASE a nossa análise era pautada para a participação no capital das empresas. Então, não só a gente viajava no início para conhecer o projeto, para ver onde era, como era... Muitas vezes já estava praticamente pronto, outros não, estavam começando; outros eram para implantação, outros eram para expansão. E então a gente ia no início, e depois ao longo, quando a gente já assinava para a conclusão, já na aprovação do projeto, depois a gente fazia o acompanhamento. Nós fazíamos do início, e depois completávamos aí essa sequência de vida de acompanhamento dos projetos. Com isso, praticamente, muitas empresas que a gente começou, eu acompanhei vinte anos. Outras eu vi infelizmente morrerem, acabarem, enfim. Mas muitas estão aí, estão hoje muito bem, e eu acompanhei durante esse tempo todo, quase vinte e poucos anos eu acompanhei.

 

P/1 - Dessas de petroquímica?

 

R - Dessas de petroquímica. E de química.

 

P/1 - E o Banco participava.

 

R - Também. Participava do capital...

 

P/1 - Do capital da empresa.

 

R - Que era onde eu estava. E a FIBASE que fazia isso, e depois foi a BNDESPAR. A BNDESPAR também é uma subsidiária que participava do capital das empresas, que fazia investimento no capital.

 

P/1 - A BNDESPAR é uma reunião dessas...

 

R - Foi. A antiga FIBASE... Existiam três subsidiárias, que eram EMBRAMEC, IBRASA e a FIBASE. E a FIBASE incorporou a EMBRAMEC e a IBRASA e mudou a denominação para BNDESPAR, então foi ela que incorporou e na mesma época mudou a denominação para BNDESPAR.

 

P/1 - Conta para a gente alguma dessas viagens que você fez. Para Camaçari, logo no início...

 

R - A gente teve muita experiência interessante; essa parte toda do polo petroquímico; tivemos oportunidade de conhecer empresas de celulose e papel, do Grupo Simão naquela época. Eu me lembro que uma dessas empresas, que eram duas irmãs, duas alas da família... As duas empresas representavam, cada uma, uma ala da família. E muito interessante, porque as duas não sentavam na mesma sala. Então, as reuniões aconteciam com uma irmã em uma sala e com a outra irmã em outra sala (risos). Era uma dificuldade, porque a gente tinha que transmitir toda hora para uma o que a outra tinha resolvido. Aí a outra dizia: “Não, isso eu não aceito”. Aí vamos voltar lá de novo... Eram negociações muitas vezes intermináveis por causa disso. Uma irmã representava uma ala, e a outra representava outra. Essa foi uma experiência ótima.

 

P/1 - Vocês passavam um pouco de tudo?

 

R - Um pouco de tudo. A outra nós ficamos numa fazenda, que a gente foi visitar um projeto, e eles achavam que para receber a gente, para receber muito bem, eles queriam que a gente ficasse hospedado numa fazenda deles. Só que a fazenda ficava no interior, e era horrível, num lugar horrível, que era muito mofado, aquele cheiro de mofo. Muita chuva, um cheiro horroroso, sapo... (risos). Era muito tudo. Mas com aquilo eles achavam que estavam recebendo da melhor maneira possível, e a gente queria exatamente o contrário. Se a gente tivesse ficado num hotel, para nós seria muito melhor. Também foi uma experiência muito boa essa, muito engraçada. A outra foi sobrevoar algumas fazendas no interior da Bahia. Olha, a gente pegava cada avião, cada piloto, que a gente nunca sabia se a gente estava sobrevoando uma fazenda ou um brejo (riso), tamanha era a loucura do avião. Uma hora a gente estava assim, outra hora a gente estava embicando... (riso) Era uma coisa de doido, mas foi uma experiência também muito interessante, porque...

 

P/1 - E essas fazendas era por conta de quê?

 

R - Por conta de implantar uma fábrica de celulose, e essa planta era uma planta-piloto, única no Brasil, porque a celulose era na base de uma planta que era parecida com um cacto. Então, essa tecnologia eles estavam desenvolvendo no interior da Bahia. A gente tinha que sobrevoar as fazendas para ver se tinha a plantação da tal planta, que eles falavam que iam fazer o tal da celulose, da pasta de celulose. A gente tinha que sobrevoar para ver se estava plantado aquilo lá. E muitas vezes a gente confundia aquela planta com abacaxi, então a gente não sabia se estava plantada aquela planta que ia fazer a pasta da celulose, ou se era abacaxi (riso). Foi uma discussão ferrenha que eu me lembro nesse projeto, porque a gente nunca chegou a uma conclusão. Aí, um amigo meu falou: “Já que tem a dúvida, vamos descer na fazenda para ver se realmente está plantado lá essa planta.” E foi isso que nós fizemos.

 

P/1 - E tinha mesmo?

 

R - Tinha.

 

P/1 - E saiu a pasta.

 

R - Não, não saiu a pasta (risos). A tecnologia não foi muito boa; essa planta, depois tiveram que fazer uma plantação de outra coisa. Até o Banco nessa época chegou a não aprovar, mas tinha um lado social muito grande, que tinham várias famílias que dependiam da plantação dessa planta, que agora realmente eu até esqueci o nome dela. Depois o projeto se desenvolveu bem, mas com outra tecnologia. Tinha que mudar muita coisa aí no meio do caminho. Então foi ótimo também.

 

P/2 - O Banco participou do desenvolvimento dessa tecnologia? Era uma coisa do Banco? Era uma coisa que estava sendo experimentada no...

 

R - Não, estava sendo experimentada. Estavam trazendo essa tecnologia do Japão, e o Banco ia participar, naturalmente, do desenvolvimento daquela tecnologia. E eles já tinham feito um investimento, e queriam depois que nós participássemos do capital como outro sócio, para desenvolver numa planta maior aquela tecnologia. Eles queriam fazer uma produção de 1000 toneladas com aquele tipo de planta-piloto que eles tinham. Eles tinham feito uma planta-piloto pequenininha, achava que podia dar certo, e queriam que o Banco entrasse como sócio para aumentar, ampliar essa planta. Mas nós vimos que depois que realmente não tinha condição, que a técnica era muito incipiente, que a tecnologia não ia para a frente, as máquinas também... Enfim, os engenheiros do banco chegaram à conclusão que aquela tecnologia, naquele momento, não era possível. Mas foi uma experiência que a gente sobrevoou fazenda, que viu se era abacaxi, se não era abacaxi; vamos por terra... Mas enfim, foram experiências muito interessantes. Muito boas. E vários outros. Também teve aí uma situação meia de horror, meia aquela coisa de criminosa. Era um projeto que a gente ia participar, e que o investidor estava com umas dificuldades administrativas terríveis, envolvido em mil e uma coisas, cheques aqui... Quando a gente fazia análise, a gente tinha que esmiuçar, fazer uma auditoria mesmo. E esse meu amigo estava tentando descobrir uma situação lá, terrível, e realmente foi, na época, uma situação muito interessante, porque na situação de auditoria que a gente estava fazendo, a gente estava conseguindo chegar numa situação muito... Vamos dizer assim, naquela época, difícil. Então a gente via como as análises que o banco faz são muito detalhistas, muito minuciosas mesmo, que desce na minúcia mesmo para saber se aquele investimento é possível, como é possível; se a empresa é séria ou realmente não é séria. Enfim, eu acho esse lado da análise muito salutar, é muito saudável, porque desce realmente à minúcia, não deixa nada, nada, nada. E isso naturalmente dificulta alguns negócios, mas eu acho que o caminho é esse mesmo.

 

P/1 - Mas resguarda, né? E esse projeto não foi adiante?

 

R - Não.

 

P/1 - Esse era um projeto de quê? De celulose também?

 

R - De celulose. É, também, porque na época, na década de 80, 85, vários e vários projetos de celulose estavam sendo implantados no país.

 

P/1 - Esse era um foco dessa época? O que era o foco do Banco quando você entrou?

 

R - Olha, o foco do Banco nessa época acho que foi muito a parte de siderurgia; grandes empresas eu acho que advieram nessa época, que o Banco investiu e que nós também participamos como sócios. Na parte química e petroquímica, o polo químico e petroquímico do país também foi um investimento muito bom do banco.  Empresas maravilhosas que estão aí, que deslancharam muito bem. A parte de química fina que não deslanchou muito bem naquela época, que eu me lembro, mas que hoje está voltando de uma maneira muito bonita. Mas o pesado mesmo era esse, era siderurgia, petroquímica e celulose/papel.

 

P/1 - E quais foram as principais participações do Banco, tirando o polo petroquímico, dessa época, que você se lembra? O Polo petroquímico foi marcante.

 

R - É, foi marcante. Bom, a siderurgia.

 

P/1 - A siderurgia, mesmo.

 

R - A siderurgia foi muito também marcante.

 

P/1 - Com que grupo? Você lembra de algum grupo que...

 

R - Olha, tem vários. A CSN eu acho que é dessa época. A Açominas, a ACESITA... Acho que todas são dessa época, se eu não me engano. Mas acho que todas já eram dessa época em que o Banco já tinha, já fez investimentos. E que hoje são grandes empresas. Como outras de papel e celulose também. Grandes grupos. Na época você tinha o Grupo Simão, você tinha o Grupo CELPAV, você tinha o grupo... Hoje, naturalmente, o Grupo Votorantim comprou, andou comprando algumas participações. Mas foram investimentos que foram começados com o BNDES lá atrás. O Banco que deu o grande impulso aí - eu não tenho dúvida nenhuma - de toda a parte industrial do Brasil. Do Brasil como um todo. Foi com o BNDES. Você vê tanto no Sul como no Norte, Nordeste, Centro-oeste... Sempre o Banco está presente. Não me lembro de nenhuma situação de apoio pesado em um determinado estado. Nunca vi. Nunca vi isso. Se o projeto é bom, é bom. Tem investimento, tem participação. A vida toda que eu tenho acompanhado, eu tenho visto dessa forma.

 

P/1 - Vou voltar um pouquinho para sua vida pessoal. No início do Banco, você não estava casada. Entrando no Banco, estava fazendo seu mestrado...

 

R - Isso.

 

P/1 - E aí, mais ou menos quando você casa? Me conta como foi.

 

R - Foi uma passagem muito engraçada eu diria. Meu marido entrou junto comigo, ele entrou também em 76. Ele é economista, eu advogada, mas ele trabalhava num setor e eu trabalhava em outro setor. Nós entramos em 76. E aí tivemos a oportunidade porque a FIBASE era muito pequena, ela tinha 30 funcionários, se muito. Era uma coisa muito pequena mesmo. Então, nós sentávamos dois a dois nas salas, e eu tive oportunidade de sentar com ele durante um tempo muito grande. Mas nessa época eu não (riso)... Eu comecei a namorá-lo em 80 e casei em 81, o nosso namoro foi muito curto (risos) porque eu já o conhecia de sentar na mesma sala, tal. Então, o período de conhecimento a gente já tinha. Depois a gente passou a trabalhar em alguns projetos comuns, e aí talvez que tenha nascido... Enfim, que despertamos um com o outro. Mas foi a partir dessa época em que a gente começou a trabalhar em projetos juntos. Então, talvez a gente tenha tido a oportunidade de passar mais tempo juntos em viagem, conversar... Talvez tenha sido daí, porque nós entramos em 76, começamos a namorar em 80, e em 81 a gente casou. Então foi muito rápido, o casamento foi rápido realmente.

 

P/1 - Mas quando vocês trabalhavam na mesma sala, não teve nada, assim, nenhuma paquera...

 

R - Nada, nada. (riso)

 

P/1 - Um olhar? (riso)

 

R - Não, mesmo porque eu tinha essa coisa de respeitar muito. Ele vai achar meio estranho, mas... Ele era noivo, então eu não podia olhar. Era noivo, eu respeitava. Ele vai dizer: “Que noivo, nada; eu não era noivo”. Não, para mim era noivo, então eu nem olhava. Minha mãe falava: “Gente, não é possível; você tem tantos amigos, não é possível que você não olhe para ninguém, não encontre ninguém, não vê ninguém; olha aquele rapaz que está na sua sala” (risos).

 

P/2 - A sua mãe lhe visitando achou o rapaz na sala interessante, e você não tinha achado nada.

 

R - (risos) Eu não tinha achado nada (risos). Ele era o economista, o Ricardo Montenegro, que trabalhava ali comigo. Eu queria discutir com ele eram os projetos, entendeu? Não eram os projetos de vida, eram os projetos do BNDES. (risos). Então eu não enxergava o Ricardo Montenegro. Eu só fui enxergá-lo mesmo... Acho até que foi uma coisa muito de repente. A gente começou a conversar mais, a trabalhar mais juntos, e saíamos para almoçar, e jantávamos, nas viagens jantávamos juntos... E com isso eu acho que nasceu aí. De repente eu comecei a ouvir minha mãe: “Deixa-me olhar essa pessoa que está aqui ao meu lado” (risos). Não custa nada olhar para ele (risos)

 

P/1 - Como era o nome da pessoa ao lado?

 

R - Ao lado era o Ricardo Montenegro, meu marido (risos)

 

P/1 - Que está casada até hoje.

 

R - Que estou casada até hoje. Nós casamos em 81, vai fazer 21, em setembro.

 

P/1 - E vocês continuam trabalhando no mesmo setor, juntos, ou não?

 

R - Não. Hoje eu estou na área de renda fixa, depois do plano estratégico. E mesmo antes do plano estratégico, lá na BNDESPAR, eu fiquei na BNDESPAR e ele teve um convite para ir para o Banco. E no Banco ele ficou na parte de estudos, e eu fiquei lá na BNDESPAR. Depois, com o plano estratégico, eu fui para a renda fixa e ele continuou na área de estudos.

 

P/1 - Quando ele foi para o Banco ele mudou de prédio também?

 

R - Mudou de prédio.

 

P/1 - Você trabalhava em qual prédio?

 

R - A gente trabalhava no mesmo prédio. Nessa época já era o mesmo prédio, que a mudança foi em 81, para o mesmo prédio, então foi nessa época que ele foi... 85 que ele foi para o BNDES. Nós já estávamos no mesmo prédio.

 

P/1 - Já no da Avenida Chile

 

R - Já no da Avenida Chile. Mas só que eu estava no 19 e ele sempre foi da ala baixa, do sexto andar. Mas a gente não se encontra lá dentro (risos),

 

P/2 - Os elevadores são diferentes?

 

R - Os elevadores são diferentes, eu não almoço com ele nunca

 

P/1 - Mas vão juntos para o trabalho.

 

R - Só vamos juntos para o trabalho. E voltamos. Mas durante o dia é independência total. Ele tem lá seus amigos, almoços, e eu tenho também meus almoços e amigos (risos).

 

P/1 - E você trabalhou ao longo desses anos nessa mesma área?

 

R - Nessa mesma área. Eu entrei na FIBASE nesse setor. Quando passou à BNDESPAR, eu continuei na BNDESPAR, no mesmo setor. Mas aí a BNDESPAR ficou bastante abrangente, porque ela pegou um setor que era um setor de desinvestimento. Então, não só fazíamos a parte de investimento como fazíamos a parte de desinvestimento. Então, eu passei a diversificar um pouquinho mais agora nos últimos seis, sete anos, que eu comecei a entrar muito mais na parte de desinvestimento. Eu dava assistência para um superintendente e para a área de desinvestimento. Eu comecei a entrar muito agora, dos sete últimos anos para cá na área de desinvestimento, mas sempre acompanhando as mesmas empresas, no mesmo lugar de onde eu entrei há 25 anos atrás. Eu só mudei agora com o Plano Estratégico, depois de 25 anos.

 

P/2 - O que é essa área de desinvestimento?

 

R - A BNDESPAR, como é uma empresa de participação, o Banco tem uma carteira grande de ações, que era dos investimentos da BNDESPAR. Então, sempre que a BNDESPAR tinha que vender, que a diretoria autorizava fazer qualquer venda de ativos, de ações, era através dessa área de desinvestimento. Nós fizemos várias vendas de ações através da área de desinvestimento, e aí eu tive a oportunidade de fazer esse trabalho junto com essa área, que era a área de mercado. A venda através de mercado. É a área de desinvestimento que nós falamos. 

 

P/2 - Isso tem a ver com desestatização, ou é coisa completamente diferente?

 

R - Não. Completamente diferente. Quando houve a privatização, que foram implantados os estudos para a privatização, o banco teve um setor bem definido para a parte de privatização. Era completamente separado, com estudos próprios, era um foco determinado com legislação própria... Era completamente separado da parte de desinvestimento. Eu até cheguei a participar, logo no início, junto com o Márcio Fortes. Eu acho que o Márcio Fortes já tinha assim uma visão, porque eu acho que ele fez... Não sei, eu tenho para mim. A primeira privatização já foi com o Márcio Fortes. Eu até cheguei a participar alguma coisa; foi de uma empresa de celulose que nós vendemos. Nós tínhamos a participação e nós resolvemos fazer a venda. Eu acho que talvez tenha sido um dos primeiros exemplos de privatização.

 

P/1 - Qual era a empresa?

 

R - Acho que era CBC se eu não me engano. Companhia Brasileira de Celulose. Acho que um dos primeiros sinais que nós podemos falar, de privatização, tenha sido com ele. E talvez até com essa empresa. Eu participei do...

 

P/1 - Só um minutinho.

P/1 - Você estava falando das privatizações, do Márcio...

 

R - Isso. E depois eu tive oportunidade de participar do primeiro grupo de empresas privatizadas, que foi do setor de fertilizantes.

 

P/1 - Isso já em 90, ou na década de 80 ainda?

 

R - Acho que foi em 90, noventa e poucos.

 

P/1 - Já era no Programa Nacional de privatizações?

 

R - Dentro do Programa; já era no Programa Nacional de Privatizações. Aí eu participei mais da BNDESPAR, como advogada da BNDESPAR. Era um grupo grande de pessoas que trabalhavam, e eu dentro da BNDESPAR trabalhei nesse projeto da privatização do setor de celulose. Mas nunca saí da BNDESPAR (risos)

 

P/1 - Então, me dica da década de 80. Como foi a década de 80? Foi um período difícil? Com estava a situação econômica? Como o Banco lidava com isso?

 

R - Olha, como eu poderia te definir? A dificuldade era de recursos, porque a gente tinha que selecionar muito bem os investimentos. Os investimentos tinham que ser muito seletivos e muito bem analisados, porque como o nosso investimento era em capital de risco, era em capital... Então talvez tenha sido a parte de investimento do Banco, talvez pela dificuldade de recursos, recursos menores, tornaram-se mais seletivos. E grandes empreendimentos que tivessem oportunidade de tomar dinheiro do Banco, do BNDES. Agora, eu não me lembro... Eu não me lembro dessa dificuldade, não. Não me lembro. Porque o cuidado dos investimentos é uma coisa muito natural do Banco, o Banco sempre teve muito cuidado com os investimentos: onde aplicar, como aplicar... Talvez hoje tenham instrumentos mais complexos. Eu acho o Banco muito pioneiro. O Banco é pioneiro. É pioneiro em mercado, é pioneiro em investimento... Eu acho que o Banco hoje, de uns cinco anos para cá, tem trabalhado em desenvolver muitos produtos novos, diferenciados. Então antes era um tipo de investimento; era EMBRAMEC fazendo uma coisa, IBRASA outra, FIBASE outra, e o Banco fazendo investimentos de longo prazo. Hoje uma evolução muito grande que teve no Banco foi exatamente nessa parte de produtos; o Banco oferece uma gama muito grande de produtos. Então, eu diria para você: havia na década de 80 dificuldades? Eu não sei. Talvez não houvesse grandes projetos, mas os projetos eram muito seletivos. O cuidado do Banco... E sempre isso permeou o Banco. Era muito mal talvez pela escassez de recursos. Mas eu nunca senti essa coisa da dificuldade, porque a gente sempre trabalhou, a gente sempre teve muitos projetos, projetos que a gente sempre estava sempre analisando... Eu nunca senti diminuição de carga de trabalho (risos). Eu nunca me lembro do Banco ter tido: “Teve uma época que nós tivemos uma carga de trabalho menor, que a gente se dedicou mais a estudo...” Não me lembro. Realmente não me lembro.

 

P/1 - E me conta da introdução do “S”. O que você achou...

 

R - Para a gente, na época, era muito difícil ter o “S” no BNDE, mas eu te diria hoje que o resultado desse “S” no BNDE foi um resultado absolutamente maravilhoso. Muito, muito bom. E isso eu estou te dizendo porque eu estou conhecendo um pouco mais o “S” do BNDE. Trabalhando hoje na área de renda fixa, eu estou tendo oportunidade de conhecer muito esse “S”. Então, eu acho que esse “S” no BNDE foi em um momento muito feliz quando foi introduzido no Banco. E eu acho que o Banco também se presta, e muito bem, para fazer o lado social. Muito.

 

P/1 - Nos anos 80, nesses projetos que você analisava, isso aparecia? O lado social como critério para análise...

 

R - Não, porque a nossa análise era direcionada de uma forma diferente, nós analisávamos como acionista, como sócio. Então nossa análise era muito diferente da análise do Banco, porque a do Banco era como investimento e o nosso era como sócio. Então, na minha análise de sócio eu tinha que focar se a empresa ia me dar o lucro, se ela ia me devolver aquele dinheiro em forma de dividendos... Eu queria saber do negócio, porque o negócio bom é que ia me dar um resultado bom.

 

P/1 - E o que é um negócio bom?

 

R - Um negócio bom é que a empresa desenvolva bem o seu produto, aquele objetivo dela, e que deslanche, e que me dê um retorno muito bom. Se eu tenho no contrato que o meu retorno tem que ser de 6 ou 8%, se ela for muito bem ela vai me dar mais do que 6%, mais do que 8%. O meu mínimo era aquele 6%, 8%. Se a empresa vai bem, se ela administrou bem, se ela deslanchou bem aquele produto ou o seu objetivo, cumpriu bem a sua finalidade, e o meu investimento foi para isso, ela me deu um retorno muito bom. E eu, com esse retorno, tenho oportunidade de fazer novos investimentos. Então, isso eu acho que é o bom negócio. É quando eu tenho um bom retorno, acima daquilo que eu coloquei naquele momento, no momento zero, e que o retorno foi tão bom que eu tenho oportunidade de entrar em outros projetos, de entrar em outros investimentos.

 

P/1 - E o plano de estabilização do governo na década de 90 mudou alguma coisa? O Real...

 

R - Mudou. Quando você faz a análise de um projeto, você tem que analisar o aspecto econômico do país. É claro. E sobre o aspecto econômico do país, você tem que ver como é que está a inflação, se não tem inflação, se o país vai exportar, como é que está o plano de exportação do país, se aquele produto tem um custo que vai ser compatível... A competitividade, se ele é competitivo, se não é competitivo... Alguns planos a gente viu que deram esse resultado... Deram resultado que eu digo, assim, nessa competitividade. Eu acho que o plano de estabilização talvez tenha sido aí um fator. Talvez o que eu esteja falando... Eu não sei se é correto, mas eu acho que com isso as empresas tiveram uma estabilidade maior, para poder até saber qual seria o seu custo com determinado produto, se era competitivo ou não-competitivo... Enfim, entrar mais nessa seara se você tiver um plano se estabilização que é sucesso. E quando você não tem, fica difícil você ver essa parte numérica, o resultado da empresa. Eu acho que fica mais difícil. Se você tem a estabilização, eu acho que essa coisa fica mais transparente no resultado da empresa.

 

P/2 - Agora me conta como é que foi depois de 25 anos você mudar de área.

 

R - Não foi fácil, mas eu diria para você que foi bom. Foi bom pelo lado da mudança, que eu passei a conhecer um lado do BNDES que eu não conhecia. E enriquecedor, porque eu estou tendo agora um conhecimento muito amplo, muito vasto, em relação aos setores do Banco.

 

P/2 - Você mudou de andar?

 

R - Mudei de andar (risos). Eu saí do 22 e fui para o sétimo. Já é uma grande mudança (risos).

 

P/1 - Explica para agente como é que é essa área de renda fixa. Como é o trabalho? É um produto novo do Banco?

 

R - Área de renda fixa é tudo que o BNDES faz; é a parte de investimento, é a parte de financiamento. Então, é a área do BNDES. O Banco, depois desse plano estratégico... Renda fixa é todo investimento que você faz com financiamento que tem umas taxas fixas. Então, você tema parte de FINEM e você tem a cesta de moedas. Então você tanto faz o investimento, financiamento hoje na linha de FINEM, quanto você faz também na linha de cesta de moedas. Mas é toda parte de financiamento do Banco. Na renda fixa, hoje, você tem tanto projeto na área de energia quanto você tem projeto da área social. Daí que eu te digo agora que foi de um enriquecimento tão grande que eu tanto analiso, que eu vejo um projeto da área de energia, como eu vejo um projeto social: um hospital... Aquelas que eles chamam de sistema integrado... Esses (PMARTES?), esses (PMIS?) dos municípios... Esses são ligados à área social.

 

P/1 - Você estava explicando a parte toda do seu trabalho na área de renda fixa, que são os projetos que você analisa... Conta para a gente mais um pouquinho.

 

R - Isso. É como eu estava te falando. Hoje a renda fixa envolve todos os projetos que chegam no Banco. Você tem um setor por onde entram os projetos no Banco que é a área de clientes, que faz o enquadramento. Logo após o enquadramento, ele já encaminha para a área de renda fixa para poder fazer análise e contratação. Então nós fazemos a análise do projeto e contratamos. Pode ser de qualquer setor, seja celulose/papel, seja siderurgia, seja social, seja energia, bebidas, informática... Qualquer que seja.

 

P/1 - Todas as áreas...

 

R - Todas. Todas as áreas do Banco, de financiamento, elas vão para a área de produtos, que uma delas é a área de renda fixa, que faz a análise do projeto e a contratação.

 

P/2 - É possível perceber qual é o setor que tem mais volume de projeto hoje, ou é uma coisa mais ou menos equilibrada?

 

R - (risos) Hoje eu acho que é energia. Eu acho que é energia ainda; a grande demanda ainda é energia.

 

P/2 - Voltou a ser.

 

R - É. Eu acho que sim. Eu ainda não contei. Eu ainda não tive essa curiosidade de contar, qual o peso. Mas não sei, a sensação que eu tenho eu acho que ainda é energia. Eu acho. Tem vários projetos ainda que estão sendo analisados.

 

P/1 - Você tinha comentado alguma coisa, que depois do plano estratégico... Conta para a gente. Teve esse plano estratégico agora, e por isso que você também mudou de área...

 

R - Isso.

 

P/1 - Conta para a gente um pouquinho.

 

P/2 - O plano estratégico de 2000?

 

R - É, de 2000-2005. Acho que ele nasceu com o doutor (Grou?), se eu não me engano. E engraçado, porque no início a gente teve a sensação que não teria uma grande mudança. No início, lá no início dos estudos do plano. Era pelo menos a minha sensação; eu não tinha esse conhecimento. Mas ao longo das discussões, que a gente teve mais conhecimento de como seria o plano, aí a gente viu que realmente o Banco ia passar por uma mudança muito, muito grande.

 

P/1 - O que mudou?

 

R - Mudou praticamente... Acho que até filosoficamente a gente também tinha que mudar. Mas isso acho que é com o tempo. A grande mudança hoje foi estrutural. A estrutura mudou, era de uma forma e hoje é de outra. Eu acho também que filosoficamente, a cultura do banco, acho que vai mudar com essa nova estrutura. Porque é muito diferente do que a gente fazia antes. O lado de trabalho eu acho que não; esse trabalho sempre foi e sempre vai ser realmente técnico, um trabalho tecnicamente bom, profundo. Mas eu acho que vai mudar... Como eu posso te explicar? É mudança mesmo. O Banco hoje tem que aplicar os produtos novos nas operações todas, entendeu? Então o Banco que a gente tem antes, que trabalhava com uma visão, de uma forma, esse banco vai ter que pegar todos esses produtos que são desenvolvidos lá dentro e aplicar em todos os seus investimentos. Então, essa filosofia, essa parte filosófica que eu acho que vai mudar, vai custar um pouco a mudar, porque hoje a gente está ligado muito aos padrões do Banco, então qualquer coisa diferente a gente olha: “meio engraçado, esquisito.” Ainda. Mas acho que não vai demorar muito e a gente vai ter essa grande virada, essa mudança também na parte filosófica. Acho que vai ter. Não vai demorar muito não, mas... É claro que toda a mudança depende do tempo. As coisas, com o tempo, vão se encaixando, elas vão começando a entrar numa forma que aí você vai poder aplicar essas coisas novas, diferentes, nesse trabalho novo, nessa estrutura nova. Acho que isso não vai demorar muito. Agora eu acho que a gente está sob o impacto ainda da mudança; a gente ainda está acertando, recebendo um monte de informações. Eu mesma. Eu estou recebendo um monte de informações. Se eu fiquei 25 anos com uma cabeça, hoje eu tenho que estar com outra. E assim outros amigos nossos lá do Banco.

 

P/2 - Você já mudou de área há um ano? Ou não tem...

 

R - Não, não tem um ano. Foi em outubro, faz seis meses. 

 

P/1 - Desses projetos que já passaram pela sua mão, todos, quais os mais interessantes? Tem algum, assim, interessante?

 

R - Olha, eu diria para você... Interessante, interessante, não. Eram coisas que eu já tinha visto, muitas vezes algumas eu já acompanhei lá atrás quando a BNDESPAR era sócia, e hoje eu estou fazendo investimento talvez... O social do Banco eu acho muito interessante. Tá aí. O social do banco eu acho muito interessante. Outro dia a gente teve uma reunião com a área social e eles estavam mostrando para a gente esse conceito de plano integrado - se eu não me engano é plano integrado -, como eles já modificaram a vida de determinadas cidadezinhas do interior, porque eles conseguiram fazer com que um bairro, que vivia de uma forma, que vivia de uma maneira muito ruim, tinha zero de qualidade, e com esse investimento do Banco nesse lado da qualidade daquele local, com a cabeça, como a vida das pessoas mudaram. É porque eu ainda tenho pouco tempo, mas quando eu tiver mais tempo, de repente, eu acho que essa parte social vai ser muito enriquecedora. Para conhecer e para fazer também. A gente já viu que onde foi feito teve uma mudança muito grande, e eu acho que isso é muito legal

 

P/2 - Como é o seu dia de trabalho normalmente?

 

R - Olha, (risos) é uma coisa de doido. É uma coisa de doido! (risos).

 

P/2 - Você chega no banco que horas?

 

R - Tem dias que eu chego nove, tem dias que eu chego oito, tem dias que eu chego oito e meia, tem dia que eu chego nove e meia, tem dias que eu chego dez horas. Tem dia que eu saio sete horas, tem dia que eu saio sete e meia, tem dia que eu saio oito horas, tem dia que eu saio oito e meia. E sempre brigando, porque agora tem o problema da luz, do apagão. Então eu tive que comprar uma luminária própria, para poder acender e para poder trabalhar. Porque era o apagão negro, tudo zero, não tinha luz em lugar nenhum. Eu comprei uma iluminação própria. (riso)

 

P/1 - Sete horas o Banco apaga?

 

R - Sete horas. O Banco apagava às sete, agora apaga às oito horas. Mas é um breu, você não enxerga. Comprei uma lanterninha; tive que comprar uma luminária própria porque tem que sair o negócio, eu tenho que ler. É uma loucura. Há muito tempo eu não sei o que é almoçar na rua. Mas muito tempo. A não ser que tenha uma comemoração.

 

P/2 - Como você almoça?

 

R - Ah, vem uma quentinha para mim...

 

P/1 - Você pede quentinha?

 

R - Peço uma quentinha, almoço na minha mesa. Então, há muito tempo. A não ser quando tem uma comemoração de aniversário de um amigo. E todo o dia eu falo: “Gente, todo dia eu vou almoçar fora com amigos.” Não dá, não tem jeito. E não é... A pessoa com quem eu trabalho, o meu superintendente atual - que é uma pessoa maravilhosa -, ele não é dessa teoria. Ele acha que as pessoas têm que ter suas vidas, têm que aproveitar, tem que... E trabalhar, claro. Não tem dúvida. (riso) Mas ele não é dessa coisa, dessa sofreguidão que eu tenho.

 

P/1 - Quem é o seu superintendente?

 

R - É o Valim. Ele fala: “Tudo no seu tempo, tudo na sua hora; eu acho que nós temos que cumprir com o horário, temos que trabalhar bastante... Tudo bem, mas pelo amor de Deus tenham as suas vidas, não levem trabalho para casa...” Mas tem horas que eu não consigo. O dia é pequeno para tanta coisa. Para ler as coisas, para dar conta realmente do recado. Só para você ter uma ideia. Hoje tem eu e um outro gerentes jurídicos, somos dois na área de renda fixa. Eu atendo três gerentes executivos e meu outro amigo atende três gerentes executivos. Cada um de nós deve ter uma média aproximada de 60, 70 projetos. Em andamento uns 40. E são coisas muito complexas. São coisas muito complexas, que realmente você tem que atentar para as diferentes situações, diferentes legislações. Você tem uma legislação para a área social, você tem uma legislação para trabalhar com o estado, você tem uma legislação para trabalhar com o município, você tem uma legislação para trabalhar com a termelétrica, você tem uma legislação para trabalhar com a hidrelétrica, você tem uma legislação para trabalhar com o emergencial. Meu deus, é legislação para tudo! Então você tem que atentar para aquilo. Se você tem uma legislação que é para atuar na área social do estado, ou na área social do município, você tem que ter um conhecimento daquilo. Então, você tem que parar para ler, para conhecer... E nós estamos começando isso tudo agora, eu e meu amigo estamos novinhos nessa área, então a gente tem que ler tudo; não dá para você parar e ir na leitura só do relatório. Não, você tem que ir nas minúcias mesmo, saber: “E essa legislação? Pode? Pode isso, pode aquilo? Não, não pode. E isso aqui? É possível? Não, não é possível...”. Entendeu? E criar coisas novas, e usar esses produtos que o Banco tem nessas operações.

 

P/1 - E você não acompanha mais projeto?

 

R - Não. Acabou o acompanhamento. Agora é outra área que faz o acompanhamento

 

P/1 - E o que você mais gosta do seu trabalho?

 

R – Tudo (risos). Eu sou apaixonada pelo trabalho. Tudo. Tem horas que eu falo: “Ai, meu Deus, isso aqui está um horror; a gente não tem tempo para nada, nem ginástica, nem não sei o quê; não tem tempo para olhar...”  Tudo é da boca para fora. No fundo no fundo eu adoro aquilo ali, eu gosto de chegar cedo, eu gosto de sair tarde; almoçar ali também para mim não é problema, não é uma coisa cansativa, não é uma coisa... Não. Torna-se um prazer

 

P/2 - Em casa você conversa de trabalho com o Ricardo, seu marido?

 

R - Quase nunca (risos) Ele de vez em quando.

 

P/2 - Ele ainda tenta.

 

R - Ele ainda tenta (risos). Mas aí a gente tem outras coisas, o projeto de aposentadoria (riso), então a gente acaba que vai a conversa para outra coisa. A gente acaba não falando em trabalho.

 

P/1 - Como você se distrai? Como é seu lazer quando você não está lá?

 

R - Meu lazer é uma coisa muito legal. Eu fiz um projeto de aposentadoria que é trabalhar no patrimônio de Minas, de Tiradentes, então eu estou me envolvendo muito com as coisas de lá; estou me envolvendo com coisas da comunidade, estou me envolvendo com a parte cultural, do centro cultural; estou me envolvendo com a parte de patrimônio histórico, de tombamentos, o tombamento da Serra de São José... Então o meu lazer hoje se tornou uma coisa muito prazerosa, eu vou para Tiradentes me envolver com essa coisa toda

 

P/2 - O BNDES também tem participação nesses restauros...

 

R - Tem.

 

P/1 - Vai abrir a igreja?

 

P/2 - Inaugurou?

 

R - Inaugurou agora. Foi dia 20 a inauguração dela, da Matriz de Santo Antônio. Aliás, esse é um trabalho apaixonante do Banco. Acho que eu vou fazer isso de graça quando eu me aposentar. É acompanhar os restauros pelo Brasil afora. Principalmente em Minas Gerais.

 

P/1 - Lídia, e por que Tiradentes? Você tem casas lá, ou...

 

R - Foi uma coisa que surgiu há 20 anos atrás, que eu comecei a ir para Tiradentes, que eu comecei a frequentar muito Tiradentes, comecei a ir para as festas de lá em feriados, passar férias... Um dia eu falei: “Meu tinha tanta vontade de vir para cá quando me aposentasse.” O Ricardo falou: “Eu também gostaria tanto, isso aqui é tão bom.” E começamos a procurar uma casa, e achamos uma casa, e restauramos essa casa durante dez anos; ficamos dez a nos de obra restaurando restaurando essa casa. E hoje estamos com a casa lá, daqui há pouco a gente está se aposentando, e meu projeto de vida, se Deus quiser, é fazer essas coisas todas. Então hoje o meu divertimento - além de ir no cinema, que eu gosto muito - é estar envolvida nessa parte comunitária e de desenvolver coisas em Tiradentes.

 

P/1 - Como são as festas lá?

 

R - A festa mais linda é a da semana santa. É a mais linda. E hoje a mais badalada é o festival de gastronomia. Mas a mais linda, que toca a gente mesmo, é a festa da semana santa. E a mais badalada é a da gastronomia, e o festival de cinema também. São os dois badalos. É janeiro e agosto

 

P/1 - Lídia, me conta o que, ao longo desses 25 anos, você apontaria como a mudança mais significativa do Banco que você sentiu.

 

R - Agora (riso)

 

P/1 - Agora? Com esse planejamento?

 

R - É. Eu acho que está sendo muito significativo, e o futuro eu acho que vai nos mostrar isso. Eu acho que foi o mais significativo, que eu me lembre.

 

P/1 - Eu vou repetir uma pergunta... Quer dizer, eu não vou repetir uma pergunta, mas você já me deu a resposta várias vezes nessa entrevista. (riso) O que é o BNDES para você?

 

R - É uma vida. É uma vida riquíssima, riquíssima. Riquíssima. Lá eu enxerguei o mundo, conheci meu marido (risos). E faço um trabalho que eu amo de paixão. Eu visto a camisa, assim, 100% do Banco. E te digo que vou me aposentar naquela coisa de muita lembrança, de muita vida. Vai ser uma separação que vai ficar... Que não vai ser uma separação, acho que vai ser um começo de um ciclo diferente, mas acho que a ligação nunca vai deixar de ter. Nunca. Eu diria para você que foi uma etapa, uma jornada absolutamente rica. Em todos os sentidos. No sentido humano, no sentido de amigos e no sentido de instituição. Aprendi muito, levo esse aprendizado para o resto da vida, que isso é um patrimônio. E um patrimônio de amigos.

 

P/1 - Seus amigos são de lá? Você encontra?

 

R - Ah, muitos de lá. Encontro. Eu tenho alguns amigos que eu fiz ao longo dessa vida, e que eu tenho muita ligação com eles fora, e tenho muitos amigos da época de faculdade que também permeiam a minha vida.

 

P/1 - O BNDES está fazendo 50 anos. Como você vê o papel do BNDES no desenvolvimento histórico do Brasil nesses últimos 50 anos?

 

R - Olha, eu acho que foi absolutamente de uma importância muito grande. Eu tenho certeza de que sem o BNDES o Brasil seria diferente. Se o Brasil tem o desenvolvimento que tem, se tem a indústria que tem, se tem o desenvolvimento que teve ao longo desses 50 anos, foi graças à presença do BNDES. Não tenho dúvida disso. Nenhuma. Se a gente fosse escrever a história do Brasil, seria uma com o BNDES e outra sem o BNDES. A história seria outra. Sem dúvida nenhuma.

 

P/1 - Bom, a gente está então terminando. Eu queria agradecer a sua participação.

 

R - Eu que tenho muito a agradecer a vocês e ao Banco por ter dado essa oportunidade nesse momento dos 50 anos. Eu acho que isso para mim também está sendo de uma importância muito grande.

 

P/2 - Respondeu a próxima pergunta de encerramento (risos). Obrigada.

 

R - (risos) Obrigado vocês.

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