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História

O aprendizado que fez a diferença

Sinopse

Ana Paula Alves Ramos Durães se emociona ao falar dos avós, porque eles lhe deram afeto e uma infância pra lá de feliz; dos pais, porque lhe deram carinho e apoio quando mais necessitou. Essa mineira de Montes Claros, nascida em 1984, 17 de fevereiro, assumiu consigo mesma o compromisso de recuperar o que a gravidez lhe obrigou a retardar. E foi isso que fez. Como professora e como supervisora, fez a diferença na vida dos estudantes. Relembra o sorriso dos seus estudantes no deslumbre pela descoberta e pelo prazer de aprender. E a emoção surgia sempre que alguém lhe mostrava que, de fato, havia feito a diferença ao indicar o caminho para quem precisava recomeçar. Do encontro com o Telecurso destaca o valor do processo para a construção coletiva do conhecimento.

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História completa

Nasci em Montes Claros, Minas Gerais, no dia 17 de fevereiro de 1984. Sou Ana Paula Alves Ramos Durães, tive - e tenho - entre tantos amores, os meus avós paternos, os meus pais, minha irmã e meus filhos. Meus avós fizeram parte da minha criação e fazem parte de minha memória afetiva mais intensa: lembro da infância, alegre e feliz, ao lado deles na fazenda que possuíam, palco de minhas brincadeiras, minhas travessuras e da vida mais solta, natural e divertida: brincar com animais, caçar insetos, montar a cavalo, subir em árvore, correr pelo mato, fazer biscoito.

 

Contudo, lembro também, e com saudade, da escola, da tia que não era tia e que dava uma aula alegre, dinâmica, diferente. E da outra tia, que era tia, que era rígida e colocava a gente de castigo. Castigo que minha avó suavizava, sem a tia brava saber. Foi um tempo bom, mas também teve os seus percalços. Perdi meu avô, em seguida minha avó.

Engravidei aos dezessete anos. Para a minha mãe, uma decepção. Para mim, o reconhecimento de uma certa precipitação. Mas, também, a confirmação de que podia contar com minha mãe, seu apoio, sua compreensão:

 

“Pode estudar. Eu cuido dela para você trabalhar e para estudar”.

 

Bom, aí fui trabalhar de dia e estudar à noite. E passei a morar com meu marido. Consegui então concluir o ensino médio, fiz uma prova, iniciei um cursinho e em menos de um mês eu já estava na faculdade: passei em Fisioterapia, em Pedagogia e em Direito. E agora, qual eu escolho? Eu gostava de criança, gostava de ensinar, queria um retorno meio rápido e queria fazer bem feito: escolhi Pedagogia. Comecei com o Normal superior, passei para Pedagogia. Foi muita dedicação nesse período. Tanto que cheguei a recusar uma oferta de emprego para apenas estudar. Quando me formei, meu segundo filho tinha por volta de dois anos.

 

“Vou me formar e dar uma guinada na vida”.

 

E não deu outra. Costumo dizer que, na vida, estou sempre sendo posta à prova. Assim foi quando tive que abdicar daquele emprego, assim estava sendo agora. Olha o tamanho do desafio e do problema. A direção da escola não me aceitava, seja pela aparente inexperiência, seja pela minha tentativa de mudar o perfil daquela educação com modelo e método que eu julgava ultrapassados. Um tempo lá e eu voltei para Montes Claros. Fui trabalhar com os pequenininhos. Mais um desafio. Pela primeira vez eu ia para uma sala de aula numa escola situada numa comunidade socialmente vulnerável, em situação de risco, com episódios de depredação e invasão da escola. Mas teve momentos gratificantes. Como aquela vez em que eu levei quarenta e três crianças - duas turmas - para visitar o aeroporto. Nada, nada podia pagar ver o sorriso delas assim, com aquela ilusão de que tudo pode acontecer, não é?

 

E, novamente, mais um desafio: dois anos lecionando em unidades prisionais de Montes Claros. A cela adaptada para 15 estudantes apenados. Uniformes vermelhos, caras fechadas, o barulho do cadeado fechando. E qual o desafio maior? Construir nesse contexto um ambiente de aprendizagem.

 

Quando ele leu, eu nunca vi na minha vida um brilho tão maravilhoso nos olhos de uma pessoa. O sorriso dele para mim foi o mais bonito, até hoje.

 

Com o recrudescimento de rebeliões, voltei para a escola, e acabei no Telecurso. Logo vi que era outro desafio. Não se trata, simplesmente, de adquirir o conhecimento, mas de construí-lo. E não era apenas ensinar, mas resgatar aquele estudante com uma história marcada por anos de exclusão escolar. Era necessário aprender coletivamente, descobrir quem eu sou, onde estou, para onde vou.

 

A minha sala era, em verdade, a sala dos “vinte e cinco mais”. Mais esquecidos, mais indisciplinados, mais à margem. Estudantes de uma comunidade exposta à violência, muitas vezes vivendo numa família desestruturada, numa sociedade preconceituosa. E o meu trabalho, como professora, foi recuperar o que eles tinham perdido na vida escolar, uma espécie de voltar lá atrás, “onde eu parei, o que eu não fiz”.

 

E, nesse contexto, me marcou a situação de um estudante - apontado como o mais problemático, o mais difícil e que ditava as regras na sala -  e acabou de alguma maneira se tornando meu aliado na organização da turma para a construção do conhecimento. E assim foi possível realizar toda a dinâmica, alcançar todos os objetivos, praticar toda a interdisciplinaridade do projeto.

 

Na sala de aula do Telecurso você constrói. Você leva para casa o que aprendeu, e não algo para você aprender.

 

Por tudo o que eu passei na minha profissão, por todos os desafios que eu enfrentei e venci, posso dizer que o resultado vem. Educação não vem pronta, é um processo que se constrói com o tempo. Aliás, com o tempo e com o incentivo e a oportunidade que você lhe der, que a sociedade e a família lhe derem.

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