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História

O artista da família

História de: Ronaldo Jacob Saraiva Serruya
Autor: Grupo XIX de Teatro
Publicado em: 26/07/2017

Sinopse

Criado por pais de famílias grandes e religiosas, Ronaldo cresceu participando das datas comemorativas de cada lado: do pai, seguindo o calendário judaico e, da mãe, o católico. Na adolescência, com a separação dos pais e a descoberta da homossexualidade, decide não seguir nenhuma das duas religiões. Embora sempre questionador em relação aos dogmas, não se considera um ateu, pois vê Deus em vários espaços. Com a mãe e a irmã, aos 14 anos segue para o Rio de Janeiro, onde enxerga na mudança uma oportunidade de crescimento. Motivado pela tradição familiar, ingressa no curso universitário de medicina, mas conclui apenas o primeiro ano do que seria a sua carreira médica. Mesmo com os olhares tortos da família, segue seus sonhos e cursa jornalismo. Com a necessidade de realizar um trabalho de faculdade, faz um curso livre de teatro e se apaixona. Descobre a profissão a seguir e começa a se profissionalizar como ator. Se forma jornalista, mas nunca exerce a profissão, tampouco retira o diploma, pois já teve provas o suficiente de que o teatro é aquilo que nascera para fazer.

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História completa

Quando eu nasci, minha mãe tinha 16 anos e meu pai, 19: eles só se casaram porque minha mãe engravidou. Por conta disso, os meus avós deram um suporte especial para eles. Minha avó conta que era como se minha mãe fosse brincar de boneco comigo, ela não sabia direito o que fazer! O meu pai é de família judia e minha mãe de família católica. Quando eles se casaram, minha mãe não quis se converter, então eu cresci no meio dessas duas religiões. Eu frequentava tanto as festas e datas religiosas da religião judaica quanto do catolicismo. Era páscoa judaica, páscoa católica, Natal e não Natal e o Yom Kipur, que é o Dia do Perdão. Com as religiões, ainda continuo tendo um problema com os dogmas. Como eu cresci cercado das coisas que podiam fazer e das que não podiam, eu não entendia muito o porquê delas. As explicações que me davam nunca me convenciam muito. Eu me considero uma pessoa espiritualizada, não um ateu. Acredito numa série de coisas, no mistério da natureza, que Deus está em vários lugares, mas tenho muita dificuldade em seguir as regras de determinada religião. Quando eu me descobri gay, com 16 anos, isso piorou mais ainda, porque nas religiões não tem um lugar para nós.

 

Eu nasci em Belém (PA), uma cidade na época muito provinciana, onde as pessoas sabiam da vida de todo mundo. Você não consegue sair na rua sem encontrar alguém conhecido e, por isso, você precisava se preocupar com a roupa que estava vestindo! Quando meus pais se separaram, fui morar com minha mãe no Rio de Janeiro. Fomos ela, minha irmã mais nova e eu. O Rio era o oposto de Belém, você podia sair com um abacaxi na cabeça e ninguém estava nem aí pra você! Eu falava: “Nossa, acho que aqui é o lugar mais livre e mais tranquilo pra viver minhas descobertas!” Eu me dava conta disso quando eu ia pra Belém passar férias ou no final de ano, para o Natal. Estranhava as pessoas dizerem: “Nossa, você tá moderno”. Quando eu comecei a fazer teatro, isso piorou mais ainda!

 

Sou de uma família de médicos, então eu cresci sem questionar: era natural que eu me tornasse médico. Passei com 16 anos no vestibular de medicina. Fiz um ano! Logo vi que não era aquilo que eu queria. Foi muito difícil admitir porque desconstruía minha imagem do “filho perfeito que sempre deu orgulho”. Cresci achando que eu tinha que ter um salário fixo, holerite, dia de pagamento. Era esse o ideal de futuro e de ser bem sucedido que me foi vendido! Logo em seguida, decidi passar um tempo na Inglaterra. Quando voltei, fiz vestibular no meio do ano pra PUC, passei e comecei a fazer Jornalismo. No segundo ano, descobri o teatro por uma coincidência. Eu fazia uma matéria que chamava Jornalismo Cultural e a gente tinha que fazer uma dissertação sobre Nelson Rodrigues. Num belo dia, abri o jornal e tinha uma divulgação de um curso de teatro sobre ele na Casa das Artes de Laranjeiras, a CAL. Pensei: “Talvez ajude a incrementar o trabalho”. Pedi pra minha mãe, porque o curso era pago, eu não tinha dinheiro, aí ela falou: “Acho ótimo. Ainda mais que o teatro vai te desinibir. Você é muito tímido!” Fui. Eu tinha 20 anos.

 

No primeiro dia teve uma oficina com uma diretora. Todo mundo se apresentou, as pessoas já eram atrizes, reconheci algumas que estavam na televisão. Chegou a minha vez, contei a minha história: “Nunca fiz teatro na vida, vim aqui porque estou fazendo um trabalho na faculdade de jornalismo e acho que vai me ajudar”. Todo mundo com olhão arregalado pra mim, a diretora falou: “Esse curso é um curso prático pra atores. Espero que você acompanhe.” E aí começou a prática! Deita, aquece, corre, vai! Eu lembro que eu nunca tinha feito nada daquilo, mas tudo me pareceu muito orgânico e foi uma sensação de pertencimento que eu nunca tinha tido na vida até então. “Eu quero estar aqui, esse é o meu lugar”.

 

Quando o curso acabou, depois de seis meses, a diretora fez uma avaliação e me falou: “Olha, acho que você é um ator, então se você quiser se profissionalizar ou seguir isso, porque a gente precisa estudar, acho que é possível, mas eu não sei o que você pretende fazer da sua vida”. E eu já tinha decidido isso no terceiro dia de aula, que ia seguir a carreira. Me inscrevi escondido no curso profissionalizante, não tive coragem de contar pra minha mãe, para o meu pai muito menos! Passei e comecei a fazer o curso escondido. Pra minha mãe eu dizia que estava continuando outro curso livre. Acabou o primeiro semestre, passei na banca e ia começar a próxima etapa. Aí eu não tinha mais como enganar. Eu falei: “Não, chega! Não vou ficar mentindo!” Contei pra minha mãe. “Como assim? Você vai querer fazer teatro como profissão?” Aí vem toda estrutura onde minha família foi educada: “Você vai viver como? Você não vai ter um emprego? Você não vai ganhar todo dia cinco?”. Eu estava completamente alucinado e obcecado pelo teatro. Eu não tinha mais vontade nenhuma de ir à faculdade, queria respirar teatro 24 horas por dia, estar com aquelas pessoas 24 horas por dia. Meu pai falou: “Não vou pagar nada”. O que eu fiz? Fechei um acordo com a Escola. Me ofereci pra trabalhar lá em troca de poder fazer o curso. Concluí a faculdade de jornalismo, mas nunca voltei pra pegar o diploma. Virei o artista da família!

 

Com a mesma diretora, a Ana Kfouri, começamos um projeto de pesquisa, estudo e formação com o  Sesc. O grupo se chamava Companhia Teatral do Movimento. Depois de nove anos com eles, conheci o Grupo XIX num festival de teatro no Rio, em 2002. Um ano depois desse encontro, o XIX resolveu chamar atores homens para o segundo trabalho deles, o Hygiene. O convite coincidiu com a vontade que eu estava de mudar. Comecei a namorar o Lubi, que é o diretor do grupo, e a gente resolveu casar. “A gente vai casar e trabalhar junto? Tudo ao mesmo tempo?”. E a gente bancou! O casamento deu certo, o do grupo. Com o Lubi também, mas acabou seis anos depois.

 

Desde o começo, o XIX se colocou de uma maneira diferente com a não hierarquização das funções. Todos nós decidíamos tudo juntos, desde a feitura do projeto, todo mundo ganhava a mesma coisa e ganha mesma até hoje, não existe uma diferenciação. É muito bacana essa possibilidade de você ficar tanto tempo num coletivo junto com os mesmos artistas e perceber como a gente vai amadurecendo, melhorando em muitos aspectos na maneira como a gente convive e como resolve nossos embates.

 

Somos, hoje, muito mais maduros do que éramos no início. Além de fazer as nossas peças, a gente tem um projeto que caminha em paralelo que são as oficinas de longa duração, onde cada um de nós orienta um grupo. Elas acontecem desde 2006 e temos uma liberdade total nas conduções e nas escolhas dos temas. Eu reverencio muito esse espaço porque de alguma maneira eu reconheço que esse lugar e esse projeto é o que me possibilitou estar no grupo até hoje, porque ele é um lugar de respiro, é um lugar onde a gente pode exercitar outros gritos que a gente não consegue dar juntos. A arte é uma força que pode provocar uma revolução!

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