Busca avançada



Criar

História

O Balcão foi a minha faculdade

História de: Lázaro Antonio Infante
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/08/2005

Sinopse

Lázaro passou sua juventude no bairro do Ipiranga, zona sul de São Paulo., trabalhou por muito tempo junto de seu pai, dono de um armazém de secos e molhados e, posteriormente, de uma tabacaria. Foi do comércio que tirou as maiores lições de vida e de trabalho, aprendendo a lidar com todo mundo. Lázaro já foi diretor da Federação dos Empregados no Comércio do Estado de São Paulo, a FECESP, e é conselheiro do SENAC desde 1978. Em sua entrevista, conta pra nós sobre como a história de sua vida caminhou com a história do SENAC de São Paulo, as crises e readaptações, a transformação que a tecnologia traz, o papel do SENAC com projetos sociais em comunidades periféricas e os desafios para o futuro do serviço.

Tags

História completa

P/1 - Bom, eu queria começar com o senhor falando o nome completo, o local e a data de seu nascimento.

 

R - Lázaro Antonio Infante, eu nasci em São Paulo, no bairro do Ipiranga em 3 de julho de 1942.

 

P/1 - Certo. Nome dos seus pais e onde eles nasceram?


R - Meu pai chamava-se Moacyr Infante, nasceu em São João da Boa Vista. Minha mãe, Santina Luciano Infante, nasceu aqui na Capital.

 

P/1 - Certo. Qual era a atividade dos seus pais?

 

R - Meu pai era comerciante, sempre trabalhou no comércio, ele tinha um armazém de secos e molhados, e a minha mãe era do lar, ela não tinha atividade fora de casa.

 

P/1 - Certo. E o que é que você lembra do bairro do Ipiranga nessa época, Lázaro?

 

R - Bairro do Ipiranga? São tantos anos, bem, naquela época, hoje você tem a parte alta do Ipiranga, mais desenvolvida, uma parte mais nobre, naquela época era mais desenvolvida aquela parte baixa, mais perto dos trilhos da estrada de ferro, da Presidente Wilson, e era um bairro de classe operária, bairro mais pobre, onde eu passei a minha infância, sabe? E não lembro nada assim que seja notável da época, né, tive uma infância como todas as crianças, brincar na rua, jogar futebol, pelada, jogar pião, bolinha de gude, empinar papagaio, né? Aquela época a gente não tinha os brinquedos eletrônicos, né, que existem hoje, nem os computadores pra crianças, então as brincadeiras das crianças eram na rua mesmo, aquelas brincadeiras tradicionais, né?

 

P/1 - Certo. E você comentou que seu pai tinha um armazém de secos e molhados...

 

R - O meu pai tinha um armazém muito grande de secos e molhados. Antigamente o armazém de secos e molhados era armazém, era loja de ferragem, era padaria, era bar, era loja de presente, enfim, tradicionalmente era bem diversificado, e ele manteve esse armazém até 1950. Em 1950 ele fechou, depois abriu na Rua Silva Bueno, na parte mais em cima, o outro armazém, mas aí era só mesmo de gêneros alimentícios, né? Ficou mais alguns anos e depois ele achou que já estava bem de vida, resolveu, parou de trabalhar, né, mas era muito moço, né, e mais adiante ele teve que voltar novamente nessa ocasião já nos anos 50, ele montou uma tabacaria e aí eu já entrei também na atividade, comecei a ajudá-lo, eu tinha de nove pra dez anos e comecei a ajudar. Na parte da manhã ficava ele na tabacaria e na parte da tarde eu tomava conta. De manhã eu vinha estudar aqui na Álvares Penteado que eu já estava fazendo Comercial Básico, né, fiz preparatório pra comercial básico e aproveitava pra fazer as compras da charutaria, comprava aquilo que era necessário, né?

 

P/1 - Onde é que ficava a charutaria?

 

R - A charutaria ficava na Rua Silva Bueno esquina da Dois de Julho, né, era dentro de uma padaria muito grande que tinha e nós tínhamos um quiosque dentro da padaria. Quer dizer, uma das portas da padaria era fechada pelo lado de dentro e dava pra rua, então ali que funcionava a tabacaria dele, né? Depois pro alto do Ipiranga, tinha um supermercado na Rua Vergueiro quase esquina da Gentil de Moura, então nós alugamos também um box no supermercado e montamos a charutaria ali, a tabacaria ali, ficamos mais acho que uns dois anos mais ou menos ali, um ano e meio.

 

P/1 - E você sempre ajudando o seu pai.

 

R - Sempre ajudando. Aí de manhã eu ia à escola, eu voltava, eu morava na Rua do Manifesto aqui na parte baixa do Ipiranga, almoçava e subia a pé até na Vergueiro que é lá no alto do Ipiranga porque naquele tempo não tinha ônibus que cortava, quer dizer, se eu quisesse ir de ônibus eu teria que pegar um ônibus, ir quase à cidade pra pegar um outro ônibus pra voltar pro Ipiranga. Então eu subia tudo aquilo a pé que deve ser uns três ou quatro quilômetros mais ou menos de subida, né? E todo dia então eu fazia aquele caminho, e ficava até às sete horas da noite, seis e meia, fechava a tabacaria. E de lá duas vezes por semana eu ainda ia estudar inglês na Fisk, de lá eu ainda ia pra escola à noite. Então eu fazia escola de manhã e à noite, né?

 

P/1 - Certo. Quando você vinha pra cidade pra comprar os produtos da charutaria que tipo de produtos você comprava e aonde, quem eram os seus fornecedores?

 

R - Bom. Tinha uma tabacaria aqui na Rua Benjamin Constant onde eu comprava bastante produtos de fumo, palha, alguns cigarros da Petit Londrinos que não era de produção paulista, vinha do Rio de Janeiro, comprava piteira, tinha um outro fornecedor na Avenida São João, que se chamava se não me engano Pacheco, né, onde eu ia comprar chaveiros, isqueiros, cachimbos, né? Porque naquele tempo não tinha assim vendedores que iam vender nos bairros porque os estabelecimentos eram poucos e não compensavam, então a gente tinha que fazer as compras, né, fumo em corda também eu comprava, né? Aliás, uma das minhas maiores broncas era carregar o rolo de fumo de corda nas costas, um lado o fichário da escola, o outro lado fumo de corda no ônibus. (riso) Isso aí me deixava meio chateado, mas isso fazia parte, né?

 

P/1 - Certo. Com que frequência você vinha fazer as compras da tabacaria?

 

R - Não, como eu vinha na escola todo dia, né, na Álvares Penteado, então de acordo com a necessidade eu fazia as compras, né? Nessa época também que ele tinha charutaria na padaria eu comecei a ser empreendedor, né, como naquela época padaria era um centro quase comunitário, tinha um ponto de táxi na esquina, né, e sábado e domingo quando tinha os casamentos, sábados com os casamentos todo mundo ia contratar os táxis pra transportar a noiva e tal, não era como hoje que todo mundo tem carro, né? Então tinha os engraxates, então eu lembro que eu mandei fazer umas caixas de engraxates, comprei o material e coloquei uns três garotos pra trabalhar pra mim, né? Então eles engraxavam, eu dava o material, a caixa, né, o ponto e a gente rachava a féria no fim do dia. (riso) Então eu já comecei a ter a minha renda própria com 10 anos. (riso)

 

P/1 - Senhor Lázaro, quem que era o público da tabacaria, os clientes da tabacaria?

 

R - Era o pessoal em geral, né, que comprava cigarro, fósforos, isqueiro, fumo, então eram todos aqueles que, vamos dizer, ou frequentavam a padaria, ou o ponto de táxi na esquina ou o ponto de ônibus que era em frente. Então era um público em geral, né, todos aqueles que fumavam, que comprava algum produto que a gente fornecia ali, né?

 

P/1 - Era especificamente do bairro, os clientes?

 

R - Ah sim. Do bairro, das imediações, né? Porque também ninguém ia andar muito pra comprar esse tipo de artigo, né? Então era o pessoal da redondeza, né?

 

P/2 - Vocês trabalhavam com rapé?

 

R - Trabalhamos com rapé também. Fazer os outros espirrarem, né? (riso) Tinha, tinha uns pacotinhos de rapé também.

 

P/2 - E você comprava o rapé também nesses mesmos fornecedores?

 

R - Nesses mesmos fornecedores também, o mesmo que vendia fumo, vendia rapé também, né? Naquele tempo a gente fazia manutenção de isqueiro, né, trocava a pedra do isqueiro, pavio, punha fluido, tudo que era possível a gente fazia, né?

 

P/1 - Certo. Lázaro, eu queria que você falasse um pouco da escola, do ginásio que você fez na Álvares Penteado.

 

R - Eu fiz o grupo escolar no Ipiranga. Quando eu terminei o meu grupo escolar, como eu tinha entrado na escola com seis anos como ouvinte, e era só pra ficar como ouvinte porque não podia entrar antes de sete anos naquela época, mas eu acabei indo tão bem que a professora resolveu me passar de ano e isso me causou um problema quando eu terminei o que era chamado curso primário naquela época, eu não podia entrar no ginásio porque eu não tinha a idade que era dez anos, né, eu só faria dez anos em julho, então não me deixaram entrar. Então eu fiquei um ano fazendo admissão, que a gente chamava naquela época admissão ao ginásio. Aí eu resolvi fazer o Comercial Básico porque ele já me daria uma profissão praticamente, né, se eu fizesse o ginásio já não teria, pra poder trabalhar eu não teria nenhuma profissão. E com o Comercial Básico eu já poderia trabalhar em escritório porque já ia aprender um pouco de contabilidade, já ia aprender todas essas matérias dessa área, né? Então eu resolvi fazer o Comercial Básico vim fazer aqui na Álvares Penteado, no último ano do Comercial Básico que seria o quarto ano eu tive que trabalhar o dia todo e Álvares Penteado não tinha Comercial Básico à noite. Então eu fui obrigado a sair da Álvares e fazer o quarto ano numa escola que tinha no Ipiranga, Escola Comercial Nazaré, na Rua Benjamin Jafet, terminei lá o meu Comercial Básico e depois fui fazer o técnico novamente na Álvares Penteado, mas isso já à noite porque o técnico tinha à noite, né?

 

P/1 - Certo. E quais eram as matérias que você mais gostava?

 

R - Ah, eu gostava muito de contabilidade, né, contabilidade, organização, eu sempre gostei muito de números, né, sempre fui muito bem em matemática, sempre fui um aluno excelente na escola. Então essa área de contabilidade, organização, a parte de administração me cativava muito, né?

 

P/1 - Certo. Tinha alguém da sua família que incentivava a fazer o curso comercial? O seu pai?

 

R - Não. Não tinha ninguém, nem, nunca tive, sempre resolvi estudar por minha conta aquilo que eu quis, nunca tive assim, um tipo assim da família ou pressionar ou apoiar ou incentivar, sempre fui fazendo aquilo que pra mim achava que podia, mesma coisa depois que eu terminei o básico eu fui fazer o Técnico em Contabilidade porque eu me formando eu já era técnico em contabilidade, podia ser contador de uma empresa, trabalhar naquela época, assinar balanço, me dar uma profissão, caso eu não conseguisse fazer um curso universitário eu já teria, vamos dizer, uma profissão meio de vida, até porque naquela época o técnico era muito mais valorizado, todas as empresas tinham a sua contabilidade interna feita por um técnico, era um pouco diferente do que é hoje, né? E o contador da empresa naquela época ele acabava quase sendo um assessor financeiro dos donos, um orientador, o homem assim da administração da empresa, né? Então por isso é que eu fui fazer o técnico. Depois do técnico eu me casei, aí fiquei um ou dois anos também assentando a vida e resolvi fazer Direito, né? Aí eu entrei na São Francisco, né, porque a São Francisco também só tinha Direito de manhã o que não possibilitaria eu poder fazer o curso lá, mas aí um ano antes de eu entrar eles fizeram o curso noturno. Aí eu prestei vestibular; no primeiro ano entrei e cursei o curso de Direito na São Francisco, né? Quando me formei eu fiz especialização em Direito Comercial e Tributário, que era a área que estava muito ligada com contabilidade inclusive, né? Exerci durante uns anos, mas depois eu me envolvi com a empresa, a empresa cresceu e fui obrigado praticamente a abandonar o exercício de advocacia, né?

 

P/1 - Certo. Vamos retornar um pouco. Você trabalhou na charutaria, na tabacaria até que idade mais ou menos?

 

R - Eu trabalhei até catorze anos, né, dos dez aos catorze com alguma parada nesse meio tempo, né, quando o meu pai fechou lá na Silva Bueno e pra depois abrir lá em cima na Vergueiro. Teve uma época que ficou sem a tabacaria e eu trabalhei num escritório mobiliário, trabalhei num escritório de contabilidade, mas por prazos curtos, né?

 

P/1 - O que é que você fazia?

 

R - Também de uma forma assim informal porque eu não tinha idade, tinha doze anos, né? Eu ajudava, ia fazer recebimento, ia em banco pagar conta, escrevia a máquina de datilografia, esses tipos de coisas assim, né?

 

P/1 - Aí depois desses escritórios?

 

R - Bom, aí quando o meu pai vendeu a tabacaria lá no alto do Ipiranga eu fui trabalhar na Arno, né? Aí fui trabalhar na Arno, isso em 1956, né, em 56 eu fui trabalhar na Arno. Entrei como office-boy interno, fazia serviço de pegar papel de uma mesa levar pra outra porque aquilo era muito grande, né, você circulava, tirava papeis, levava pra cá, pra lá e como eu nunca gostei de ficar parado eu comecei a ajudar, né? Eu já estudava o Comercial Básico, então pegava serviço de um pra ajudar, serviço de outro pra ajudar e fui aprendendo, né? Naquela ocasião não tinha auxiliar de escritório menor, só depois que ficassem maior, né, então a minha sina lá dentro seria ficar quatro anos como office-boy interno, né? Mas aí depois surgiu uma chance lá num dos departamentos e o subcontador gostava muito de mim e foi falar com o contador e ele não aceitou pelo fato da minha idade, né? Mas eu não desanimei, continuei ajudando, aprendendo e então na sessão de carnê, sessão de estoque, de contabilidade, e às vezes ficava à noite lá, os operadores me ensinavam a trabalhar naquelas máquinas grandes que tinha de contabilidade naquela época, aquelas Burroughs, Nashuas, né? Aí apareceu uma outra oportunidade e aí o contador não pôde resistir e me deu a chance, né? Aí eu fui ser auxiliar de escritório na Arno, né, trabalhava na sessão de crediário, né?

 

P/1 - Certo.

 

R - Aí fiquei algum tempo lá e depois fui trabalhar na Texaco, naquele tempo era The Texas South American Company, né? Era aqui na Rua Formosa, trabalhava também no escritório, trabalhei um tempo lá e de lá eu fui trabalhar num banco, Banco Rural do Estado de São Paulo onde eu entrei cuidando de contas correntes e depois eu cheguei até chefe de controle de departamentos, isso em 1960.

 

P/1 - Quantos anos você tinha mais ou menos?

 

R - Aí eu já estava com dezoito anos, né, dezoito anos. Aí eu fui convidado, aí eu fui trabalhar na São Pedro, fábrica de espelhos São Pedro, na Bela Vista, uma empresa antiga, mais de cinquenta anos, uma empresa de família.

 

P/1 - Quem que te convidou?

 

R - O contador da empresa me convidou, ele era amigo de um cunhado meu e estava precisando de um assistente de contabilidade, falou com o meu cunhado, o meu cunhado me falou e eu tive lá, conversei com ele e acertamos. Então eu fui lá trabalhar na São Pedro, né? Eu entrei lá como auxiliar de contabilidade, assistente do contador e fui me desenvolvendo lá dentro. Em 1967 houve um problema lá de família, começou em 65 e acabou em 67, e nós como fomos solidários aos que eram diretores da empresa e eles acabaram dando uma participação nos lucros pra nós, né? Aí a empresa construiu um prédio muito grande e mudou lá pra quase perto de Osasco e nós continuamos participando e em 69 eles resolveram se afastar do negócio e nós assumimos a empresa, então assumi o controle acionário da empresa em 1969, né? Aí entrei numa série de outras empresas, as coisas se desenvolveram muito e em 79 eu vendi essa empresa, né, e me afastei dessa empresa.

 

P/1 - Quem era a clientela da fábrica de espelhos?

 

R - Bom, a fábrica de espelhos era atacadista de vidro, quer dizer, além de fabricante de espelho eles eram atacadistas de vidro e quando nós assumimos nós desenvolvemos bastante a empresa. Então nós vendíamos desde o Rio Grande do Sul até no Norte do país, inclusive vendíamos no Acre, a gente mandava mercadoria, por exemplo, pra Tarauacá, Tarauacá ia até Belém do Pará, Belém do Pará via fluvial até Manaus e Manaus descia de pequenos barcos via rio. Então tinha que mandar o vidro encaixotado em pequenas caixas, né, vendia em Piripiri no Piauí, Codó no Maranhão, a gente vendia pro Brasil inteiro, é claro que as vendas eram concentradas em Minas, Goiás, São Paulo, Rio, né, esse pólo aqui, Paraná, era a grande concentração de vendas. Mas nessas regiões a gente fornecia mais como uma região pioneira pra estar com um pé lá pra futuro, né, claro pras nossas estatísticas representavam 0,00 qualquer coisa das vendas, mas a gente tinha presença praticamente no Brasil todo, né? E chegamos a ser a maior distribuidora de vidro do Brasil, né, naquela época, a gente comercializava 120 mil metros quadrados de vidro por ano, por mês. Dá pra ter uma ideia, né?

 

P/1 - Mas assim, quem que cuidava dessa parte do transporte. A pessoa dessa cidadezinha pedia e quem se responsabilizava?

 

R - Veja, nós tínhamos vendedor e representante, né, nos estados aqui do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul nós tínhamos vendedores nossos que viajavam, Mato Grosso, Minas, Goiás, São Paulo, Rio, também nós tínhamos vendedores, no Norte nós tínhamos representantes. Eram empresas que nos representavam e representavam obviamente outros produtos também, né? O transporte, o caso desses estados mais próximos nós tínhamos frota própria de caminhão que fazia, nesses outros estados encaixotava e despachava por empresas de transporte que eram indicadas pelo cliente, né? E paralelamente nós mantínhamos a fábrica de espelho também, né, naquela época com uma produção bastante grande também.

 

P/1 - Certo. Aí em 79, o que você resolveu?

 

R - Aí a gente, além de tudo isso, entramos em obras, né, fazemos também colocação de vidros em obras. Quando foi em 77 nós compramos uma outra firma que chamava-se TemperGlass que só fazia obras, aí nós fizemos uma certa divisão dentro da empresa, né? Tudo que era obra, vidro temperado era feito pela TemperGlass, tudo que era atacado, comércio de vidros era feito pela São Pedro. Fomos montando outras, montamos uma indústria metalúrgica, montamos uma indústria de pré-moldados de concreto, tivemos uma participação no Hotel Atlântico em Santos, né, enfim acabamos montando uma série de outros negócios paralelos, né?

 

P/1 - Certo. E o senhor sempre foi comerciante, né?

 

R - Certo.

 

P/1 - Como que o senhor...

 

R - Eu sempre digo que eu me criei na universidade do balcão, né, que eu acho que é uma das melhores universidades da vida, né, porque acho que no balcão o sujeito tem que ter uma, vamos dizer assim, ele adquire uma experiência e um jogo de cintura muito grande, né? O balconista principalmente, que é o vendedor, vamos dizer, que atende o cliente, principalmente na grande empresa ele é um pouco de tudo, né, ele acaba formando amizade com o cliente, então ele é um pouco do padre que ouve às vezes as confissões do cliente, o desabafo, né, ele às vezes é um pouco psicólogo porque ele ajuda, dá um conselho, orienta, né? Ele é o homem de marketing que ouve as solicitações do cliente, as tendências, vamos dizer, do momento do seu negócio, pra poder direcionar, fazer as compras, né? Quer dizer, ele é um pouco de advogado porque precisa ter muita argumentação pra convencer o cliente do que ele está vendendo é o melhor e nas melhores condições. Realmente a vivência de quem se forma num balcão, pelo menos se formava, hoje com o autosserviço e tal a coisa mudou um pouco, mas naquela época realmente a pessoa tinha essa possibilidade de nascer dentro do comércio e formar dentro do balcão, era uma pessoa que tinha um jogo de cintura muito grande e se daria bem em muitas profissões, né?

 

P/1 - Certo. E como o senhor tomou contato com o SENAC? O senhor já tinha ouvido falar do SENAC?

 

R - Sim. Ouvia mas nunca imaginava realmente o que era, né? A gente ouvia falar fora do sistema. Quando eu fiquei com a empresa eu passei a ter vivência sindical, comecei a frequentar sindicato, fiz a carreira dentro do sindicato, acabei ficando presidente do sindicato da categoria na época e como presidente do sindicato vim pra federação.

 

P/1 - Que sindicato que era?

 

R - Era o Sindicato do Comércio Atacadista de Vidros, né? E acabei vindo pra Federação como presidente do sindicato e fui ser Diretor da Federação e depois acabei sendo eleito pro Conselho do SENAC, isso em 78, 79. Aí é claro, passei a ter uma participação muito grande no SENAC, me envolvi, é um negócio que apaixona, né, você propiciar pras pessoas uma melhoria educacional, uma possibilidade de um trabalho, me envolvi bastante e gosto muito dessa atividade também, né?

 

P/1 - Certo. Quando o senhor tinha a fábrica de espelhos, de vidros, tinha alguns funcionários que faziam curso no SENAC? O senhor incentivava?

 

R – Olha, na época a gente chegou até a programar alguns cursos juntamente com o SENAC na área de vendas, chegamos a fazer alguns cursos na 24 de Maio que foi programado juntamente com o SENAC na área de vendas. E também organizamos alguns cursos na área de vidro temperado pra medição, colocação de vidros também, né?

 

P/1 - E o senhor sentiu retorno desses cursos?

 

R - Ah, é evidente, né? Sempre que você faz curso a pessoa que frequenta um curso alguma coisa ela sempre traz, por mínimo que seja, ela traz alguma coisa, isso você nota, a pessoa sempre abre um horizonte, né? A pessoa às vezes pensa que ela está fazendo é o certo e que só existe aquilo, na hora que ela faz um curso ela tem sempre, coloca em cheque os seus conhecimentos, então ela vai ver que nem tudo que ela sempre fez na vida que ela achou que era certo é a melhor maneira de fazer, né? Então ele vai sempre reorientar, então sempre há algum proveito, sempre alguma utilidade tem, nem que seja uma reciclagem ou então aprendizagem nova, né, é claro. E nessas mudanças todas, principalmente na área de informática, eu tenho mandado muitos funcionários meus fazer cursos na área de informática, que é uma coisa pra muitos nova, né, que aí ele muda totalmente de atividade praticamente, né?

 

P/2 - Você chegou a fazer curso de informática no SENAC, né?

 

R - Fiz, eu fiz no início em 82, quando começou a existir a informática mais no campo pessoal, de pequenas empresas que até então você tinha grandes equipamentos, né, e quem trabalhava nessa área era um sujeito muito especializado, era um programador, linguagem de máquina, um negócio assim de um nível altíssimo era muito difícil uma pessoa ter isso como alguma coisa a mais na sua atividade, né? Em 82 é que a gente começou a ter aqui no Brasil a entrada dos computadores pessoais, né, começou em nível de brincadeira, né, aquele Sinclair, TK85, o sujeito fazia lá um programinha de 1k de memória, depois ele começou a pôr um gravador de fita pra gravar aquele programinha, né, e o monitor do televisor da sua casa pra ver e aquilo foi. Aí começou a entrar o Zapa, começou a entrar o Prologica e aí as coisas começaram a ser utilizadas mais profissionalmente, de uma maneira incipiente, programas americanos, né, e isso foi em 82. E de lá pra cá você vê o salto que a gente deu, né? Quer dizer, hoje grandes equipamentos só em empresas muito grandes, né? E hoje um minicomputador tem uma capacidade em relação aos grandes equipamentos da época, eles ficaram totalmente defasados, né? Eu lembro quando eu coloquei na empresa o primeiro minicomputador, veja, não é microcomputador é minicomputador, um Edisa, eu tive que botar ar condicionado, né, era um disco de 8, a capacidade dele de memória 64k, né? Quer dizer, hoje você já fala, Winchester naquela época nem tinha, tinham um disco de 8 que era 1 mega, né, hoje você tem Winchester de giga bytes, quer dizer, a capacidade de memória mínima é 8 mega, quer dizer, é um negócio que naquele tempo era 64k. Quando surgiram os primeiros IBM já era 640, era dez vezes e a gente achava que era extraordinária, né? E hoje a gente fala em 8 megas, 16 megas, quer dizer, um chipzinho desse tamanho, então a evolução nesse sentido foi violenta. E o SENAC nessa área realmente ele está na ponta, né, ele acompanha essa evolução, ele começou dando aqueles cursinhos no Sinclair, depois passou pro Apple, Prologica e quando vieram os primeiros PCs e hoje a gente trabalha com equipamentos de última geração, com cursos de nível excelente e equipamentos sempre de ponta, né? Então nessa área o SENAC hoje em termos de cursos de informática a gente pode dizer que temos uma liderança no mercado, né? Inclusive agora lançou mais uma novidade que é na parte de informática fazer autoinstrução, quer dizer, lá na Teixeira da Silva, né, onde a pessoa faz o seu horário e a sua carga horária, quer dizer, o seu nível de desenvolvimento. Então a pessoa já tem uma noção, não precisa pegar um curso tradicional onde ela vai ficar duas ou três semanas, né? E às vezes no curso tem uma pessoa que é mais atrasada então o professor também não pode disparar porque os outros não acompanham, então pra ele o curso fica maçante. Lá não, cada um faz seu horário, cada um tem a sua máquina, senta, tem um monitor pra esclarecer as suas dúvidas e ele então faz o curso no seu ritmo, né? Um curso ou o aprimoramento de um produto que ele já usa, né, um software, ou um software novo que ele queira usar, então, ele tem essa possibilidade muito mais dinâmica de se adaptar, né?

 

P/1 - Certo. E voltando um pouco. Quando você tomou contato com o SENAC em 78, o que é que estava acontecendo na diretoria?

 

R - Veja bem. Em 78 pra cá o SENAC passou por várias reformulações. Até 78, claro, o SENAC tinha uma presença importante, tinha muitos cursos, mas eram mais cursos, vamos dizer, no dia a dia, na área tradicional, então era curso de Balconista, curso de Vitrinista, ou curso de Cabeleireiro, ou curso de Datilografia, né? Eram, vamos dizer assim, não tinha entrado na modernidade ainda, né, e também naquela época a gente tinha unidades assim nas grandes cidades, né, eram unidades ainda decorrente do milagre brasileiro, grandes unidades, unidade às vezes até maiores que até a cidade realmente na época comportava, né? Em São Paulo nós tínhamos a 24 de Maio que era a área de escritórios, nós tínhamos a Tiradentes, né, tinha inclusive o restaurante, e tinha acabado de inaugurar isso já aí no finzinho de 79, início de 80 que inaugurou a Francisco Matarazzo. Grande São Paulo a gente tinha só alguns polos avançados, a carreta que funcionava e essa era a ação do SENAC, né? Então daquela época pra cá primeiro houve um aumento qualitativo muito grande nos seus cursos porque o SENAC entrou em muitas outras áreas, em áreas modernas, em cursos de maior nível, né, e ao mesmo tempo a gente passou por alguma mudança no sentido de também fazer algumas unidades na Grande São Paulo, que era carente da presença do SENAC, unidades na capital que também era carente e passamos a fazer unidades em cidades menores, certo, e unidades adequadas ao tamanho da cidade. Em 82 o SENAC passou por uma situação muito difícil financeira, eu lembro que no final do ano, quase na época do Natal tivemos de despedir quase um terço do quadro do SENAC, foi uma coisa muito traumática, muito dura, você despedir as pessoas numa, praticamente numa véspera de Natal e muitos que eram qualificados, tinham se dedicado, que tinham estudado até essa participação no SENAC. Mas era uma questão de sobrevivência, realmente tivemos que fazer um enxugamento muito grande, foi uma época muito difícil pro Brasil todo e daí partir pra uma nova mentalidade, uma nova direção de curso, né? Então nesses últimos anos o SENAC... eu tenho esse orgulho de ter participado desse desenvolvimento, que inclusive na escolha de terrenos, tanto no Interior como na Grande São Paulo, São Paulo eu fiz parte da comissão que foi escolher, procurar os terrenos, selecionar, comprar, né? Sempre fizemos negócios muito bons, terrenos muito bem localizados e que atenderam plenamente a expectativa, né? Então daquele ano pra cá, a gente fizemos Guarulhos, Santo Amaro no início alugado, hoje é em prédio próprio, fizemos Jabaquara, Santana, Tatuapé, Jabaquara já falei, Vila Prudente, né, na Capital e ainda temos terreno pra fazer em Itaquera, Penha, Lapa e aqui no centro, na Bela Vista. No Interior fizemos Jundiaí, Barretos, São José do Rio Preto, São José dos Campos, Limeira, né? Além de uma nova fase que entra o SENAC agora que também não é investir mais em prédios, é claro que quando você adquire um terreno, faz uma planta e constrói você tem um tempo pra viabilizar tudo isso mais ou menos longo além de um investimento muito grande. Então as cidades hoje que querem a parceria do SENAC, porque nas grandes cidades nós já estamos em todas, são cidades menores, têm oferecido ao SENAC um prédio onde a gente... em forma de comodato que possa ser reformado, adaptado rapidamente com um investimento relativamente pequeno e começar a funcionar a unidade quase que imediato, né? Então são unidades menores, polivalentes, que fazem uma reciclagem de cursos que na cidade pequena também não adianta implantar um curso em caráter permanente porque você chega uma época que você esgota o público, né, então tem que ter essa reciclagem, sempre alguns cursos, sim, você tem público permanente, mas alguns cursos que você fez uma, duas, três vezes na cidade já atendeu o público que necessitava daquilo lá, daquele conhecimento.

 

P/1 - Certo. Você comentou que sempre escolhia terrenos bem localizados, né?

 

R - Sim.

 

P/1 - Pra atender a demanda do SENAC o que precisava do terreno, a localização do terreno?

 

R - Bom. Primeira coisa é o transporte, certo? Não adianta nada o SENAC pegar um terreno em lugar onde você não tem transporte fácil para o comerciário porque normalmente ele vai fazer um curso à noite, ele sai da onde ele trabalha, ele vai frequentar esse curso e voltar pra casa. Se é um lugar onde a condução é difícil, o transporte é complicado, você já não tem um público fácil. Então o que a gente procura fazer? Sempre perto do metrô, era o primeiro requisito, quer dizer, um terreno que se adaptasse ao que a gente pretendia, tivesse um preço condizente, né, e que também fosse perto de linha de metrô e tivesse público perto também. Então você vê, Tatuapé está na estação do metrô Tatuapé, você desce da estação, atravessa a rua e está dentro do SENAC, né? Jabaquara está atrás da Avenida do Café, do metrô, você desceu, atravessou, está no SENAC, quer dizer, tanto pra ir quanto pra voltar, mesmo que você seja de outro bairro você não perde tempo. Em Vila Prudente também futuramente o metrô vai estar ali encostado, o dia que fizerem a linha que já era previsto desde aquela época, até hoje não fizeram, mas um dia farão e nós vamos estar na porta do metrô. De qualquer forma onde passa todos os ônibus da região, Oratório, por ali é um movimento. Santana nós estamos no entroncamento onde passam todas as linhas de ônibus também daquela região de Santana, né? Osasco estamos no centro da cidade. Guarulhos estamos no centro da cidade, Santo Amaro estamos no centro e onde passa todas as linhas de ônibus, ali é a rua que todos os ônibus que vai pra aquela região passam ali. Então, quer dizer, a primeira coisa que a gente leva em conta é a facilidade de transporte pra quem vai utilizar. Nós já tivemos algumas experiências principalmente no Interior de você fazer um SENAC num lugar bonito, lindo, ótimo, só que a cidade cresceu pro outro lado, então ficou uma unidade que pra pessoa frequentar a noite pra fazer um curso, fica difícil, né, tem carência de transporte, tem problemas. Então em São Paulo, principalmente na Grande São Paulo a coisa que a gente deu a maior ênfase foi a seguinte: transporte, eu acho que é básico pra facilidade. Como o terreno que nós temos, por exemplo, em Itaquera, certo? É em frente à estação Itaquera, né, na Penha é praticamente na estação Penha do metrô, pertinho, né, na Lapa é ali na Rua Fausto, Guaicurus onde passa todo o sistema de transporte, perto da ferrovia, que você atravessou dois, três quarteirões você está... Tem a estação da Lapa ali também, de trens, né? Então, quer dizer, a prioridade foi sempre essa, facilidade de transporte e ter público no local, né, não adianta eu pegar e fazer um SENAC no lugar onde está distante de tudo também, é um pouco diferente a filosofia do SESC - SENAC, né? O SESC como é área de lazer, primeiro precisa de uma área maior, então você tem que tirar fora do centro porque senão você não encontra área no centro e como é lazer a pessoa vai frequentar mais fim de semana, né, como são os centros campestres. Então aí a pessoa tendo condição, não tem problema de horário, vai tranquilo, quer dizer, é uma filosofia um pouco diferente. O SENAC não, o SENAC tem que estar no lugar onde estão as lojas, lugar que, se é no Interior, onde o sujeito vai a pé pra ir pra escola, sai da loja e vai a pé, sem problema, anda ali dois, três quarteirões, tem que estar bem no centrão mesmo, né?

 

P/2 - E vocês fazem estudo, por exemplo, a nível de população de cidade do Interior?

 

R - Ah, sim. Todas as unidades que foram feitas no SENAC não foram feitas assim porque achamos que a cidade é bonita, porque o povo nos agradou, porque alguém pediu. Em todas elas foi feita o levantamento econômico da cidade, o potencial de comércio, o público que vai utilizar a unidade. Então, isso é muito fácil, hoje você tem através da Secretaria da Fazenda, através de uma série de institutos que te dão a renda da cidade, arrecadação de impostos, número de estabelecimentos. Então todas as cidades onde nós fizemos são cidades onde tem um comércio muito importante, muito forte, né, ou são polos de região, né? Evidente que numa primeira fase a gente atendeu primeiro todas as cidades grandes que são até politicamente o centro da região, né? Hoje a gente está descendo pra cidades menores, mas sempre cidades que têm potencial, né? Evidente que algumas outras ações essa cidade age regionalmente, né? Então, ela faz cursos, ela tem potencial de cidade pequena que não dá pra ter um SENAC, mas você eventualmente pode fazer um curso na cidade, junto com o sindicato da cidade, ele cede as suas instalações, o SENAC vai lá com os seus Técnicos, então tem muito esse tipo de parceria também que você dinamiza a ação do SENAC, né?

 

P/1 - Você comentou lá fora com a Rosali que hoje existe uma preocupação de não fazer prédios tão grandes...

 

R - Exato.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Porque mudou a realidade brasileira, né, houve uma época no Brasil que, a época do milagre, tudo tinha que ser grande, né, então foi a época dos estádios de futebol, né, então era Pelezão, não sei o que lá, Castelão, quer dizer, a cidade tinha vinte mil habitantes mas tinha que fazer um estádio de futebol pra quarenta mil, né, que tinha que ser o maior da região, né? E tem cidades até que notabilizaram por querer tudo maior, né, então naquela cidade a torre da igreja é mais alta, o campo de futebol é maior, o SENAC ele é o maior prédio. Foi uma época, hoje não, hoje o pessoal está mais pé no chão, quer dizer, a gente tem que fazer as coisas, adequar à realidade, né? E hoje a gente tem que acreditar o seguinte: houve um empobrecimento, né, das pessoas, houve um empobrecimento do país, das empresas, então você... acabou aquele fausto, né, você tem que fazer a coisa de uma forma funcional, né, mas de uma forma correta com a época, né, não se pode desperdiçar, eu acho que os recursos hoje são poucos, então eles têm que ser otimizados. Então aquilo anteriormente que você construía com luxo, hoje você constrói duas coisas, né, a coisa mais modesta, mas bem funcional, agradável, todas as unidades do SENAC são muito agradáveis, né, aproveitando a topografia, aproveitando sempre, né? Você vê Barretos é uma cidade muito quente, né, então foi feita uma construção que tem um pátio interno, tinha uma árvore, foi preservada, então tem uma sombra dentro da escola. O pessoal fica no pátio debaixo de uma árvore, de uma sombra, né? Vocês conhecem Barretos? Então a gente aproveita tudo, né, Jundiaí o terreno era em desnível então se aproveitou, a gente tenta fazer a coisa de uma maneira bem funcional, né, e com economia de espaços, né? Então é uma época, o Brasil viveu uma outra época. Quem entra, por exemplo, no prédio na Secretaria da Fazenda aqui em São Paulo, existem corredores lá que são maiores que esse prédio nosso aqui, né, é um desperdício corredores assim de dez metros de largura, cinco metros de altura, numa construção moderna você faria umas vinte salas num corredor daquele, mas foi uma época, tudo de mármore. Nós vivemos essa época, a gente vive, aprende e cresce, né, eu acho que nós crescemos, né?

 

P/1 - Certo. Você chegou na FECESP [Federação dos Empregados no Comércio do Estado de São Paulo] e logo depois teve o fechamento das escolas, né? Como é que foi recebido isso pelos presidentes do sindicato que faziam parte da FECESP?

 

R - Fechamento das escolas?

 

P/1 - Das escolas do SENAC.

 

R - Quais escolas que nós fechamos?

 

P/1 - Foi o fim dos cursos técnicos de comércio.

 

R - Veja bem...

 

P/1 - E teve a grande mudança pros cursos de formação acelerada...

 

R - O problema é o seguinte: naquela época o SENAC ocupava um espaço que está um pouco fora da atividade dele. O SENAC tem curso profissionalizante, mas nós temos que nos dedicar a área profissionalizante, na época que você tinha o curso técnico você ficava três anos investindo num aluno, ocupando a função do Estado, porque... a parte de cultura geral, está certo? No curso técnico você tem as matérias técnicas e cultura geral, cultura geral quem tinha que dar é o Estado, então nós estávamos desviando recursos que a gente podia otimizar, formar muito mais gente, pra fazer uma função que não era nossa. Hoje nós continuamos tendo curso técnico, só que o sujeito vai fazer a cultura geral através de madureza, enfim, com os meios que ele quiser e ele vem no SENAC se formar técnico em contabilidade, mas só na área de matérias técnicas, né, quer dizer, então em vez de investir três anos num aluno, nós estamos investindo quem sabe seis meses ou um ano, dando ele a profissionalização, certo? Então você, por exemplo, pra formar um técnico você tinha três anos ocupando o prédio, ocupando a sala, ocupando professores, investindo pra formar quiçá ciinquenta alunos, né? Hoje na mesma sala no curso meramente profissionalizante você forma milhares de alunos, então você dá um curso de Informática, você dá um curso de Cabeleireiro, você dá um curso de Enfermagem, você dá um curso de Contatologia, você dá um curso de Provador de Café, enfim, hoje o SENAC atua em centenas de áreas, mas só profissionalizante. Então, quer dizer, a grande mudança foi essa, você atendia um público muito restrito, certo? E fazendo as funções que não eram nossas.

 

P/1 - Certo.

 

R - O que fechou foi a escola técnica, alguns polos avançados que eram convênios com prefeituras, certo? Mas de lá pra cá em compensação nós dobramos a capacidade de atendimento do SENAC, né?

 

P/1 - E o começo das unidades especializadas? Como é que foi a participação do Conselho?

 

R - Veja bem, você antigamente... como eu digo, numa cidade você tinha um monte de unidades polivalentes que ela tem que atender a cidade, não pode ficar restrito a uma área. Em São Paulo, devido à dimensão de São Paulo, nós criamos então as unidades especializadas. Por quê? Porque você tem público permanente porque São Paulo, pela quantidade de pessoas que tem, né, e com isso você se especializa, quer dizer, aquela unidade até a configuração física dela se volta pra aquela atividade, está certo? Então se é uma unidade de Saúde ali dentro vai, como Tiradentes, lá dentro vai circular só pessoas ligadas à área, então está fazendo Enfermagem, o outro Contatologia, o outro Prótese Dentária, o outro Instrumentador Cirúrgico, então, a própria unidade além de ser vocacionada, a estrutura física dela, a decoração, as exposições que você faz, você tem um público grande porque todo mundo é dedicado àquela área, diferença se você tivesse uma mistura de públicos que não teríamos um resultado, né? Entendeu?

 

P/1 - O que o SENAC está propondo pro futuro assim, pras próximas realizações do SENAC pro ano 2000?

 

R - O SENAC tem que sempre estar no aspecto educacional se atualizando, se aprimorando, sempre acompanhando o desenvolvimento, né, e a preocupação da gente também é com a sobrevivência da entidade, né? Então a gente tem que, vamos dizer assim, cuidar muito bem de todos os recursos, otimizar esses recursos, né, e fazer com que a entidade ao mesmo tempo que ela atenda a população ela também gera algum recurso pra sua manutenção, não ficar unicamente dependendo, vamos dizer, de recursos que venha da arrecadação compulsória, esse tipo de coisa. Então o SENAC tem caminhado pra isso pra, através das suas ações, ele também ter um retorno financeiro pra, por exemplo, ter um equilíbrio das suas contas e não ficar só dependente de compulsório, porque já aconteceu no passado, numa época de crise cai essa arrecadação e o SENAC fica numa situação difícil, né? Hoje à mercê do que a gente consegue através dos cursos, através de promoções que o SENAC faz ele já está atingindo um equilíbrio bem maior que ele tinha no passado, né?

 

P/2 - E o projeto da videoconferência, dessa instalação da TV SENAC?

 

R - Sim, isso é mais uma coisa que além de atender, não é isso! Você atender um público massificando a educação num sentido profissionalizante, você também pode no futuro vir a obter receita com isso utilizando todo esse equipamento nosso, essa estrutura toda. Então você, ao mesmo tempo que usa esse equipamento e fornece esse serviço às vezes pra empresas que te dá uma manutenção, você utiliza esse equipamento na área de educação. Então, vamos dizer, se eu trouxer um papa numa área, certo? Vamos dizer, um sujeito pra ensinar um penteado diferente e eu quisesse propagar esse ensinamento eu teria que levá-lo aqui, a Presidente Prudente, a Ribeirão Preto, a Araçatuba, quer dizer, e o custo disso seria... né? Através da videoconferência eu coloco ele aqui numa sala e todas as unidades interligadas aproveitarão esse mesmo curso, até podendo perguntar e interferir por um custo muito minimizado, certo? Então a gente pode massificar as boas coisas da educação, uma palestra, né? Se trouxer um Alvin Toffler pra dar uma palestra, por exemplo, ele daria aqui em São Paulo e quantas pessoas assistiriam? Duzentas, trezentas, e se eu quisesse reproduzir isso eu teria que ter um custo violento, levá-lo pro Interior todo, ou pelo Brasil. Hoje, quer dizer, ele pode dar a palestra aqui e em todas as unidades nossas essa palestra poderia ser assistida por milhares de pessoas por um custo minimizado. E depois a TV SENAC também que pode, o que nós fizemos no passado através do rádio, que o SENAC há muitos anos atrás tinha o... Como é que chamava? Fugiu o nome aqui.

 

P/1 - Universidade do Ar.

 

R - Universidade do Ar, né, que dava cursos profissionalizantes através do rádio, né? Nós podemos fazer através da televisão com muito mais sucesso porque a televisão é um meio de educação quando bem utilizada, né, que facilita muito a aprendizagem, né?

 

P/1 - Certo. Existe alguma preocupação assim da formação de novas áreas de atuação, de novos centros especializados?

 

R - Isso daí vai de acordo com o desenvolvimento das coisas, entendeu? Quer dizer, o SENAC está sempre preocupado, nós, por exemplo, temos projetos aí até para o ano 2000 que está aí, está tão pertinho já. (risos) A gente fala ano 2000, mas, quer dizer, o SENAC está sempre vendo o lado do futuro, né, então está sempre projetando mudanças, por exemplo, antigamente você tinha a escola polivalente, eram quase que independentes, então tinha o curso de Informática lá, tinha o curso de Informática em Ribeirão, em Araçatuba, recebiam o mesmo material, mas cada um dele agia mais ou menos de forma autônoma, né? Hoje nós centralizamos as áreas. Então unidade especializada em Informática aqui de São Paulo é que dá a direção tudo que se trata da área de Informática em todas as unidades nossas. Quer dizer, então você tem uma direção de ensino único, trabalhando sempre com o melhor material, com aquilo que melhor se fez aqui dentro, né? E com, vamos assim, um ganho em escala também, não é? Em primeiro, quando agia autonomamente, às vezes lá o monitor ensinava de uma forma, o outro de outra forma, ele pegava o que tinha de melhor em cada curso, em cada experiência, né? Hoje com essa centralização de cada unidade específica de certa forma dá direção mesmo pras unidades polivalentes naquela área. Eu acho que, né, você vê que hoje nós temos um grande sucesso na área de línguas, né, na área de Informática os cursos estão sempre lotados, sempre esperando, algumas áreas, por exemplo, Prótese Dentária é uma concorrência danada, parece que são cem vagas, geralmente são dois mil alunos, então hoje você seleciona o aspecto cultural dos alunos, segundo a habilidade manual, pra não desperdiçar, porque não adianta o sujeito entrar num curso de Prótese se ele não tiver habilidade, ele vai fazer o curso, vai pendurar o diploma e não vai usar. Então nós tiramos a oportunidade às vezes de um que tem essa habilidade e que vai exercer. Então hoje chega ao ponto de ter muitos cursos no SENAC você ter seleção, né? E estamos entrando numa evolução como eu falei também, por exemplo, hoje na área de Hotelaria, nós já temos tecnólogo, né, estamos a um passo de termos futuramente até uma faculdade de hotelaria, uma universidade de hotelaria. Agora quando inaugurarmos, por exemplo, o Grande Hotel Campos do Jordão nós vamos ter cursos superespecializados na área de Hotelaria. Então com São Pedro e Campos do Jordão nós vamos ter uma estrutura na área de Hotelaria similar o que você encontra nas melhores partes do mundo, né? Você vai ter o mesmo nível que você teria num curso de hotelaria na Suíça até porque existe intercâmbios, traz técnicos de lá pra dar curso aqui também, né? Então, assim, o pessoal que trabalha em São Pedro, todos eles saem com emprego garantido, são procuradíssimos os alunos que se formam em São Pedro, cozinheiros, você encontra nos melhores hotéis de São Paulo e até fora do Brasil alunos que fizeram curso de cozinheiro em São Pedro, né?

 

P/2 - Eu queria só fazer mais uma pergunta sobre a questão da regional, das unidades do Interior. Como é que é definida a regional, quer dizer, quem estabelece e como é estabelecido o critério de qual cidade vai ser a regional?

 

R - Bom, a regional está em função do próprio polo político que a cidade representa, você entendeu? Em função, vamos dizer assim, hoje você tem São Paulo dividido até regionalmente por aspectos de administração do Estado, pra aspectos da Secretaria da Fazenda, pra aspectos da Delegacia de Ensino. Então existem algumas cidades que congrega toda essa representação da região, então política, econômica, então o SENAC mais ou menos caminha nessa direção, quer dizer, aquela cidade que esteja num local que ela tenha facilidade de atender a região, de ter o contato com todas as unidades regionais e aí ela passa a ser o polo então, certo? Mais ou menos são critérios de porte da cidade, de economia da cidade, de concentração da cidade de outros organismos que também representam, vamos dizer assim, o polo político da cidade, né?

 

P/2 - E a nível aqui da Capital, da Grande São Paulo, por exemplo, como é estabelecido? Por exemplo, a Ação Comunitária está ligada a Santana, a unidade de Santana. Como é estabelecido isso e por quê?

 

R - Aí são critérios administrativos, né, deve ser por facilidade interna gerencial, uma coisa que é própria, a direção estuda e vê qual é a melhor forma dessa ação realizar, né?

 

P/1 - Lázaro, você é Conselheiro do SENAC?

 

R - Conselheiro do SENAC.

 

P/1 - Eu queria que você falasse como se dá a ação do Conselho, desde quando você participa?

 

R - Olha, eu participo do Conselho desde 78, né? Praticamente todas as cidades onde a gente tem uma unidade você tem um Conselheiro da cidade, certo? Quer dizer, quando a gente faz a eleição há esse aspecto, uma certa distribuição, não adianta todos os Conselheiros serem de São Paulo quando nós temos uma série de unidades no Interior, né? Então com essa possibilidade de ter o Conselheiro da cidade, o Conselheiro do SENAC na cidade onde tem unidade, ele colabora muito com a ação do SENAC na cidade, né? Então ele está sempre em contato permanente com o Gerente da unidade, ele que seria quase como um superintendente, uma pessoa de ligação também da comunidade, da unidade ao Conselho e quando tem algum problema ele traz pro Conselho. Ele então tanto traz pro Conselho um relato do que está acontecendo na cidade, do que a unidade tem feito, você entendeu? Ou traz quando houve algum problema com a comunidade, algum problema na cidade, ele traz também pro Conselho pra que se tomem providências, né? Então ele seria mais como um Diretor, né, não remunerado, que colabora com a administração do SENAC, né? E em São Paulo, vamos dizer, cada unidade especializada geralmente tem um Conselheiro que a gente chama de superintendente, vamos dizer assim, pra manter um contato direto com o Gerente, né, pra acompanhar, pra ouvir se tiver alguma solicitação pra levar pro Conselho, enfim, dar uma ajuda, né, nessa administração. Eu atualmente cuido da área de Informática; já há muitos anos que eu estou ligado à área de Informática do SENAC, né, uma época eu tive a área de baixa renda, que a gente fazia aqueles cursos de periferia também, que é uma coisa que eu tenho uma boa ligação, me sensibiliza bastante. E hoje eu estou na área de Informática.

 

P/1 - O Conselho se reúne periodicamente?

 

R - O Conselho tem uma reunião mensal, né? Então nessa reunião mensal é feita aquela parte formal de aprovação de contas, de aprovação de quadro de funcionários, de aprovação de convênios, né? E cada Conselheiro relata alguma coisa da área em que ele está ligado, se achar necessário, enfim. Mas mensalmente nós temos uma reunião.

 

P/1 - Certo. Eu queria que você falasse um pouco mais assim dessa ligação que você teve com o trabalho de baixa renda, com o pessoal de baixa renda.

 

R - Eu, vamos dizer assim, essa parte social sempre me toca bastante, né, e teve uma ocasião que era até a Pilar que era a responsável, né, e a gente trabalhou bastante nessa parte de, são cursos da área comunitária, foi uma época também que houve uma dificuldade da população, um desemprego muito grande naquela ocasião, então a gente fez muito curso de complementação de renda, sabe? Então a gente ia na periferia dar curso, por exemplo, de quituteira, né, pra pessoa aprender a fazer quitutes pra poder vender, fazer doces, fazer um tricô, enfim, ensinar algumas coisas que a pessoa poderia dentro da sua casa pudesse ter uma complementação de receita, você entende? Teve muito sucesso na época, foi, ajudou bastante pelo menos aqueles que fizeram os cursos, depois nós pegamos os depoimentos e realmente pra eles foi assim uma oportunidade de agregar à sua renda familiar um complemento que era muito necessário, até porque havia um desemprego muito grande, né?

 

P/1 - Como é que vocês detectaram assim quais eram os cursos que podiam complementar a renda: quituteira, bordadeira?

 

R - Aí já é pesquisando, né, a gente vai pesquisando, vai vendo, vai sentindo, a própria comunidade vai trazendo os problemas, vai trazendo as solicitações, né? E essa coisa vem, aparece, né?

 

P/1 - E a comunidade que solicitava, vocês iam no bairro? Como é que era?

 

R - As comunidades solicitavam quando sabiam que o SENAC tinha esse tipo de ação, né, então a gente era muito solicitado, no caso de Grande São Paulo, por prefeitura, nas periferias pelas sociedades amigos do bairro, às vezes pela igreja, entendeu? Então a gente arrumava um espaço físico e passava a ministrar esses cursos, né?

 

P/1 - Tem alguma região da cidade que eles eram mais solicitados?

 

R - De uma maneira geral, né, agora sempre a Zona Leste sempre pedia muito porque é uma região bastante carente, né, então a gente sempre tinha muita solicitação da Zona Leste, né, e mais no extremo da Zona Oeste, né, ali por Osasco em diante, né? Então eram bastante solicitados.

 

P/1 - E aonde que eram dados esses cursos?

 

R - A gente arrumava um local, né, você entendeu? Às vezes a paróquia cedia lá o salão paroquial, às vezes algum clube, às vezes se era na Grande São Paulo a prefeitura arrumava local, punha à disposição os equipamentos. A sociedade amigos do bairro arrumava lá o salão comunitário, enfim, sempre aparece local, isso, quando você se propõe a trabalhar não se preocupe que, né? Eu, no meu sindicato nós começamos a dar cursos também, cursos assim pra empresários, né, pra microempresários e tal na área gerencial e um dos problemas que tinha inicialmente era esse local, eu falei: "A hora que começar a dar curso vocês vão ver que o pessoal vem solicitar o curso e arruma o local." Então já nós demos curso em igreja, já demos curso em templo, já demos curso em restaurante, já demos curso em empresas, o sujeito arruma a sala, enfim, já fizemos curso em prefeituras, em ginásio de esportes, enfim, já fizemos curso em, nós fazemos em média dois cursos e duas palestras por mês no nosso sindicato, né? E atendemos mais ou menos duas mil pessoas por ano e na Grande São Paulo toda, né? Então, por exemplo, nós fomos dar um curso em Salesópolis, Salesópolis não dá pro professor ir e voltar todo dia, né, depois de Mogi é quase lá na serra pra quem vai pra Caraguatatuba, né? Então nós demos um curso numa sexta à noite e um sábado, aí arrumaram uma chácara lá. O professor foi, deu o curso, dormiu na chácara e deu o curso lá dois dias e atendeu lá os comerciantes da cidade. Então quando a gente quer trabalhar, não se incomode que aparecem sempre os recursos, é ter boa vontade.

 

P/1 - Certo. Lázaro, hoje o seu dia-a-dia como é que é, você continua trabalhando?

 

R - Continuo trabalhando, né? Não pode parar de trabalhar, né? Só que hoje eu dedico uma parte do dia aos meus negócios, talvez a menor parte do dia, né, e dedico muito ao sindicato, à Federação, ao SENAC, e outras entidades que eu faço parte, né? Eu também faço aquilo que eu gosto, enquanto eu estiver sendo útil, enquanto o pessoal achar que eu possa colaborar, tudo bem. O dia que achar que não dá mais pra colaborar também não tem envolvimento nenhum, porque todas essas atividades você sabe que não são remuneradas e trazem o prazer pessoal, não financeiro, então também não te envolve, né? O dia que você achar: bom, dei a minha colaboração com o SENAC, sou dispensável, até logo pro SENAC. Ficou a minha marca, ficou o meu trabalho. O dia em que o sindicato também achar que outro pode fazer melhor o trabalho, sem problemas e assim é. Então eu hoje corro bastante, mas muito ligado às entidades, né? O sindicato me ocupa muito porque é um sindicato muito grande, né, hoje mesmo nós estamos iniciando um projeto de qualidade total muito grande, né? Na federação eu também tenho uma participação muito grande, SENAC dentro do possível, então a vida é assim, o dia-a-dia passa correndo de um lado pro outro.

 

P/1 - Dentro da Federação, o que você... Como você participa?

 

R - Bom. Eu sou o primeiro Vice-presidente da Federação, né, evidentemente você tem as reuniões normais que são reuniões de diretoria, reuniões plenárias, né, depois tem outros grupos, por exemplo, eu faço parte do conselho do comércio varejista, então tem as reuniões do comércio varejista, atualmente eu estou dirigindo um grupo de, que está cuidando das reformas constitucionais, tem esse grupo pra estudar as reformas constitucionais. Então... além das representações que você tem que fazer em nome do Presidente, às vezes participar de eventos, reuniões. Então você está sempre em algum lugar.

 

P/1 - Certo. Falando mais assim da sua vida pessoal, você casou, como é que você conheceu a sua esposa?

 

R - Olha, eu conheci a minha esposa numa cidade que se chama Nova Guataporanga, acho que vocês nunca ouviram falar, ela fica depois de, bem lá na Alta da Paulista, quase lá no Rio Paraná, a última cidade é Panorama, fica um pouco antes, né? Eu trabalhava num banco, aquele banco que eu falei, e eu fui lá fazer uma inspeção numa agência, era uma época de carnaval, e quando eu cheguei lá o gerente não estava na cidade e eu acabei ficando preso lá três, quatro dias na cidade e acabei conhecendo a minha esposa. Mas ela morava, quer dizer, os pais dela moravam lá e ela estudava interna em Tupã, então foi uma coincidência assim de eu ter ficado na cidade, não era pra ter ido praquela cidade e numa época que ela também estava lá porque estava de férias da escola. E nos conhecemos, então nós namoramos e noivamos durante dois anos, dos quais estivemos juntos acho que uns trinta dias no máximo porque ela era interna e o primeiro compromisso do velho foi anunciar: "A minha filha tem que se formar." Tudo bem, eu espero, né? E por carta, então era carta pra lá, carta pra cá, pacotes de carta todo dia, né, e assim namoramos, noivamos e casamos, né? E faz pouco tempo, 33 anos, né? (risos) Vivemos muito bem, se eu tivesse que casar com ela, casaria de novo, entendeu? Se nos encontrarmos na próxima geração já marcamos de nos encontrar novamente e eu me sinto realizado no casamento, é uma excelente companheira, eu acho que compreende bastante o meu trabalho, me dá todo o apoio, é paciente, né, porque a gente sempre está ausente, né, então teria que ser alguém muito compreensiva pra me tolerar e me aguentar. Está me aguentando 33 anos, agora eu acho que vamos até o fim da vida, né? (risos)

 

P/1 - Eu queria fazer uma última pergunta pra você. O que é que você achou de ter passado essa hora com a gente e deixando registrado a sua vida, a sua experiência e sua experiência com o SENAC também?

 

R - Foi muito gratificante pra mim, primeiro porque eu pude contar um pouco o que é o SENAC na minha visão, um pouco do que foi a minha pequena participação no SENAC e é isso que eu digo, quer dizer, a gente passa por uma entidade, passa por uma casa como essa e às vezes passa e não há registro, você passa e é esquecido, né? Então eu acho que é muito importante isso que o SENAC está fazendo porque pelo menos vai ficar registrado aqui, quer dizer, que há muitos anos, né, alguém vai dizer: "Poxa, quem naquela época estava no SENAC?" E vai encontrar um registro, um vídeo da gente contando um pouquinho da história do que foi o SENAC da época que nós vivemos, né? Então acho que pra gente isso é muito gratificante e é por esses momentos que vale o esforço que a gente faz em prol de uma entidade, quer dizer, é uma árvore que a gente planta, não é? Ela cresce e fica lá, a marca da gente está ali, ninguém tira, né? Quer dizer, essa marca que vocês hoje estão fazendo de guardar esse depoimento, quer dizer, isso vai ficar pra sempre, ninguém mais vai me tomar esse direito de ter participado e ter estado esse momento presente, né?

 

P/1 - Com certeza, a gente agradece muito a sua ajuda.

 

R - Eu é que fico agradecido.

 

P/2 - Obrigado.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+