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História

O barbudo que grita

História de: Daniel Minchoni
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2015

Sinopse

Em seu depoimento, Daniel Minchoni fala sobre o despertar do gosto pela leitura e pela escrita ainda na infância. Fala sobre os movimentos culturais da cidade de Recife, para onde mudou-se quando tinha 17 anos. Comenta sobre suas mudanças de cidade, sobre a faculdade e como conheceu Sinhá, sua mulher.  Também fala sobre sua relação com a literatura e toda a sua participação em saraus, projetos e movimentos de poesias, principalmente como ajudou a fundar o “Poesia Esporte Clube” e o “Sarau do Burro”. 

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História completa

Eu me chamo Daniel Minchoni. Eu nasci em São Paulo, em 9 de abril de 1980. Minha mãe chama Terezinha Ferreira de Godoy Minchoni e o meu pai chama Claudemir Minchoni. A minha mãe é dona de casa e o meu pai trabalhou um grande tempo em indústria, nas Linhas Corrente, e agora ele é aposentado. Meu pai é de São João de Ariranha e minha mãe é de Braganca Paulista, ambos do estado de São Paulo. Eu tenho dois irmãos e uma irmã. Eu tenho um irmão mais velho, o Evandro, tenho um irmão mais novo chamado Ayrton Minchoni e tenho uma irmã caçula, Tatiana Minchoni.

Eu me lembro da minha mãe contando histórias para mim, eu não me lembro se isso é uma falta na minha lembrança ou não, mas eu me lembro da minha mãe contando histórias, mas não me lembro da relação com o livro. Pra mim, a relação com o livro veio através do Círculo do Livro. E eu gostava muito por causa dos truques de mágica e tal, leitura de quadrinhos também foi bastante, esses quadrinhos: Mônica, Tio Patinhas…

Meu pai trabalhou cedo, eu teimei muito por trabalhar cedo, comecei como office-boy, minha carteira de trabalho é com 12 anos. O primeiro trabalho que eu me lembro mais certinho foi quando eu concluí o primeiro grau, que eu entrei no segundo grau em Publicidade, eu entrei para fazer Processamento de Dados por influência do Carlinhos e depois, namorei uma menina que me influenciou para Publicidade: “Você desenha muito e tal, é criativo”, e fui para Publicidade, deixei o Processamento de Dados para lá e comecei a trabalhar na Meio & Mensagem como telemarketing. Eu me considero poeta a partir do momento em que eu comecei a ter mais consciência disso e não: “Vou escrever meu nome ao contrário”, então eu já era poeta, já fazia parlenda, sabe? Tem uma galera que é assim: “Eu descobri que queria ser jornalista com cinco anos, quando a professora me pediu para escrever uma coisa e eu escrevi: ‘Hoje mataram um homem em frente.”, sabe? Não acho isso, eu acho que você escolheu ser jornalista a partir do momento em que você tem consciência do que é ser jornalista e tal.

Nós fomos primeiro para o Recife, fiquei lá um ano, a gente morou em Jaboatão dos Guararapes e foi bastante motivo de redescoberta e isso foi uma coisa bastante chocante para mim, essa coisa do preconceito paulistano que eu tinha, embora eu sempre convivi no ambiente com nordestinos, mas o preconceito do paulistano. Então quando se falou que se ia para Jaboatão dos Guararapes, você pensa assim: “O que eu vou fazer da minha vida agora?”, e você chega em Jaboatão dos Guararapes e fala: “Nossa, tem prédio!”, lógico que tem prédio, imbecil…

Em Recife, esse cenário ficou muito amplo na minha cabeça, porque até então as principais coisas que eu tinha visto e entendido era o rap e o punk. Então a cultura do punk é uma coisa que ficou muito forte em mim. Eu fui para Natal aos 18 anos. Natal abriu uma outra porta para mim, que foi a porta da universidade. Fui com a minha família para Recife, fiquei um ano, exatamente em Recife. Eu cheguei acho que dia 28 de janeiro e saí no dia 28 de janeiro do outro ano. Depois, eu voltei e morei mais oito meses em Recife já sentindo saudades da cidade, do urbano, porque Natal é uma cidade menor, uma cidade pequena, fui morar numa capital, mas uma capital pequena, o que é muito bom e muito rico, mas para quem está interessado em produção cultural, às vezes, é muito complicado. Então, em 98 eu fui para Natal, cheguei em Recife em 97, fui em 98 para Natal. Em 98, eu entrei na universidade. Eu fiz Comunicação. Eu não sabia muito bem o que fazer na universidade, eu fiz curso técnico de Comunicação, de Publicidade, por causa do desenho, mas eu entrei para fazer Processamento de Dados. Eu estava descobrindo esse pensamento, e eu comecei a fazer sarau, comecei frequentar um lugar que chamava “Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do Rio Grande do Norte.

Em Natal, com o Rui Rocha, eu fiz o Poesia Esporte Clube. O meu processo criativo é parte disso, ir com uma ideia para um evento de poesia e falar ao vivo, criar o poema ao vivo, do jeito que ele sair, porque os repentistas no Nordeste me fascinavam muito. Só que ele não fica como o repentista do Nordeste que ele obedece a cadeia, ele fica do jeito que ele fica e eu, como comunicador, me interessava pela recepção, pois eu estava estudando isso. Então me interessava muito pela recepção, então para mim, não adiantava eu criar um poema no canto, no quarto, e não entender, não contemplar a recepção. Então eu comecei criar ao vivo.

O PEC é o Poesia Esporte Clube, era eu, o Rui e o Xavier e era uma reunião de poetas, onde não tinha tema, não tinha inscrição, não tinha microfone, é um embrião do que é o Sarau do Burro. Também não tinha poeta, porque em São Paulo, você faz uma reunião dos anões albinos, já tem 50, é bem isso assim. Em Natal, por mais que tinham poetas, os poetas não queriam entrar nesse contexto, por exemplo, o Dia da Poesia, eu nunca vi um lugar ser tão comemorado o Dia da Poesia como em Natal, porque sai poeta de tudo quanto é lugar, assim, você vai no Mcdonalds, abre uma tampa, sai um poeta: “Bigmac, Mac…”, entendeu? No Dia da Poesia é muito, mas o Xavier falou uma vez: “O dia que eu menos vejo poesia é no Dia da Poesia, porque é um monte de louco também querendo aparecer e tal”, mas Natal tem uma característica forte disso, mas não ia. O PEC era muito assim, tinha sete pessoas, dez pessoas, a gente fez isso 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, uns quatro, cinco anos.  Era uma por mês, na casa Ribeira. Tem uma coisa importante no Rio Grande do Norte, porque lá a gente organizou um selo de poesia também, de literatura chamado Jovens Escribas, então eu sou um dos fundadores do Jovens Escribas e esse selo se tornou num dos principais selos do Rio Grande do Norte, até hoje. Tem mais de 50 livros publicados.

Conheci a Sinhá, eu era do DCE, eu era do movimento estudantil na universidade, eu sou dois anos mais velho que ela, e eu estava dois anos na frente na universidade, e ela entrou na universidade, eu entrei na sala para falar e ficou ali um clima. Eu tinha 20 e ela tinha 18. Foi quando ela entrou na universidade, depois eu dei aula para ela. A gente trabalhou junto, mas tudo já namorando. Com sete anos de namoro, eu vim para São Paulo, a gente casou, na Igreja, formal mesmo.  Eu vim empregado, na real, eu vim para trabalhar na África, eu trabalhava na agência África e eu voltei para trabalhar. E foi bem difícil cortar esse elo com a Poesia Esporte Clube, abrir mão disso.

Tudo isso só para não perder também a minha relação com isso, paralelo a isso, entrando e saindo de agências de propaganda, seja mandado embora ou me empregando nisso, então, isso me consumia um tempo. Então nessa época, eu falava mais de fora, eu me encaixava de acordo com o que eu podia fazer. Então o que acontecia? Eu trabalhava na África, por exemplo, eu trabalhei de janeiro a julho sem folgar sábado e domingo, direto, seis meses e trabalhando até nove horas da noite. Então era muito puxado e no dia que eu tinha folga, eu pegava o Guia da Folha e ia em tudo que tinha, eu acordava às dez horas da manhã, vai ter uma caminhada no parque, ia, ficava louco assim, para poder consumir, parque caramba, eu estava aqui em São Paulo e eu vim por causa da cultura, se eu não me envolver com isso, o que eu estou ganhando? Estou aqui gerando dinheiro para o Nizan ficar milionário e tal. E aí, a cena estava rolando, foi o momento que começou a surgir a segunda geração, se assim a gente pode dizer, porque a primeira geração é ali a Cooperifa, o Sarau do Binho, pelo menos dos periféricos, que tem outros saraus que dizem que são mais antigos e tal, mas eu estou falando desse contexto. Lógico, deve ter um sarau na USP que tem 50 anos, deve ter tantas outras coisas, mas estou falando desse contexto especifico, tinha a Cooperifa, o Binho. E nesse momento, começou a surgir o Sarau da Brasa, o da Ademar, eu posso cometer algum delito aqui, mas o Elo da Corrente, e perdoa quem tiver assistindo, porque se eu não citei o seu nome, mas o Elo da Corrente, aí o Maloqueiristas, e foram surgindo os saraus novos, Mesquiteiros… O Burro em 2008, mas essa geração ainda é a segunda, tipo o Sarau da Brasa, o Elo da Corrente, o da Fundão, acho que alguns saraus mais… antes do Burro, um ano ou dois antes, o Poesia Maloqueirista. O Maloqueirista já estava na cena, mas sempre flutuando. Hoje, se for para caracterizar, o Burro já seria uma terceira geração, fim da segunda geração, já pegando a terceira. Hoje dá para dizer que é uma terceira. Porque hoje tem muito sarau, né? É fácil de comparar porque naquela época não tinha, inclusive nessa época, surgiu o Rui Mascarenhas, poeta da Bahia, importante, colava no Maloqueiristas. Por que eu gostava do maloqueiristas? Eu conheci o Galdino, o Mascarenhas. O Mascarenhas, parece que ele tinha uma formação de ópera, ele cantava assim: [cantando] “Bahia”, ou então: “A cabeça é o que lhe impede de rasgar… rasgar a cabeça”, era um bagulho assim, pô, legal, coisa rigorosa! E o Rui organizou uma espécie de Guia dos Saraus naquela Casa das Rosas, nessa época tinha 60 saraus, era coisa pra caramba, mas se fizer hoje, cara, tem dois por dia, tem três por dia, todo dia tem, então, hoje tem mais de 200 saraus.

O Sarau do Burro tem acho que é seis ou sete anos. Eu sou ruim com datas, porque vocês podem ver aí, eu já falei que fui em 98, depois foi em 97… eu acho que o Burro é de fim de 2008, começo de 2009, mas eu não sei. Agora, a gente criou o Burro Ido, o Burro sempre teve uma relutância contra a música, porque a música no sarau, ela rouba a cena e o objeto do Burro era não ser a música, podia ser qualquer coisa, o cara levar um sapateado, podia ser a música, mas não podia ser a música no sentido de eu vou fazer um show. A música apareceu, eu sou um compositor e estou mostrando aqui na viola. E, a gente criou o Braço Armado do Burro, que é o Burro Ido, é um armado de guitarra, já é ao contrário, para fluir a música e tal, ainda nessa esperança de fazer da poesia um esporte popular, a música ainda é o melhor caminho, os slams. O slam também tem essa característica mais popular porque envolve sangue e as pessoas gostam.

A Sand slam eu não sei precisar quando começou, mas eu acho que foi 2008. O ZAP foi o primeiro slam no Brasil, Roberto trouxe essa cena e são slams de três minutos, então tinha uma questão muito forte da verborragia. E eu sempre gostei dos poeminimos, dos haicais, das coisas do Leminski. De três minutos e eu pensei: pô, isso dá para TV, porque eu sempre tive essa busca: como botar a poesia na TV sem descaracterizar? E quando eu vi o slam eu pensei: isso dá para TV e fiquei nessa lombra, e tal. O menor slam do mundo foi inclusive o haicai, eu tinha essa vontade: não dá para fazer um evento de poema curto, mas tem tanta gente que produz. No sarau, se você manda um poema… agora já tem o momento “Curtinhas”, mas não tinha esse espaço para curtinhas. Não tinha esse momento “curtinhas”, isso já é um negócio difundido, quase todo sarau tem, mas não tinha. Então, esse espaço da “Curtinhas” eu falava: “Pô, tem tanta gente que produz poemas curtos, mas também você vai no sarau e você espera a sua inscrição, três horas, até os caras que produziam poemas cursos, na hora que ele chegava e falava só assim”; sei lá: “Em casa de menino de rua, o último a dormir, apague a lua”, não fazia muito sentido você esperar duas horas, por mais que o que você quisesse dizer era isso, então você acabava aproveitando mais o tempo com outras coisas.  O menor slam do mundo é ao contrário, é tipo um espaço para poesia curta.

Eu tenho um livro publicado, na real, eu tenho um livro publicado que é esse, que não é uma produção escrita, é meio delicado para eu falar da produção escrita, porque a produção escrita é o que eu estou falando agora. Eu crio escrevendo, só escrita, mas eu me interesso pela escrita partindo da oralidade, então nesse meu primeiro livro tem um monte de coisa que é isso, criado falado.  Chama “Ouvivendo”; “Iapois poisia”; e “Carnevais”. Foi escrito em três horas, mesmo e sem muita limpeza. Quando eu terminei ele foi lançado na Balada Literária.  

 

Eu me chamo Daniel Minchoni. Eu nasci em São Paulo, em 9 de abril de 1980. Minha mãe chama Terezinha Ferreira de Godoy Minchoni e o meu pai chama Claudemir Minchoni. A minha mãe é dona de casa e o meu pai trabalhou um grande tempo em indústria, nas Linhas Corrente, e agora ele é aposentado. Meu pai é de São João de Ariranha e minha mãe é de Braganca Paulista, ambos do estado de São Paulo. Eu tenho dois irmãos e uma irmã. Eu tenho um irmão mais velho, o Evandro, tenho um irmão mais novo chamado Ayrton Minchoni e tenho uma irmã caçula, Tatiana Minchoni.

Eu me lembro da minha mãe contando histórias para mim, eu não me lembro se isso é uma falta na minha lembrança ou não, mas eu me lembro da minha mãe contando histórias, mas não me lembro da relação com o livro. Pra mim, a relação com o livro veio através do Círculo do Livro. E eu gostava muito por causa dos truques de mágica e tal, leitura de quadrinhos também foi bastante, esses quadrinhos: Mônica, Tio Patinhas…

Meu pai trabalhou cedo, eu teimei muito por trabalhar cedo, comecei como office-boy, minha carteira de trabalho é com 12 anos. O primeiro trabalho que eu me lembro mais certinho foi quando eu concluí o primeiro grau, que eu entrei no segundo grau em Publicidade, eu entrei para fazer Processamento de Dados por influência do Carlinhos e depois, namorei uma menina que me influenciou para Publicidade: “Você desenha muito e tal, é criativo”, e fui para Publicidade, deixei o Processamento de Dados para lá e comecei a trabalhar na Meio & Mensagem como telemarketing. Eu me considero poeta a partir do momento em que eu comecei a ter mais consciência disso e não: “Vou escrever meu nome ao contrário”, então eu já era poeta, já fazia parlenda, sabe? Tem uma galera que é assim: “Eu descobri que queria ser jornalista com cinco anos, quando a professora me pediu para escrever uma coisa e eu escrevi: ‘Hoje mataram um homem em frente.”, sabe? Não acho isso, eu acho que você escolheu ser jornalista a partir do momento em que você tem consciência do que é ser jornalista e tal.

Nós fomos primeiro para o Recife, fiquei lá um ano, a gente morou em Jaboatão dos Guararapes e foi bastante motivo de redescoberta e isso foi uma coisa bastante chocante para mim, essa coisa do preconceito paulistano que eu tinha, embora eu sempre convivi no ambiente com nordestinos, mas o preconceito do paulistano. Então quando se falou que se ia para Jaboatão dos Guararapes, você pensa assim: “O que eu vou fazer da minha vida agora?”, e você chega em Jaboatão dos Guararapes e fala: “Nossa, tem prédio!”, lógico que tem prédio, imbecil…

Em Recife, esse cenário ficou muito amplo na minha cabeça, porque até então as principais coisas que eu tinha visto e entendido era o rap e o punk. Então a cultura do punk é uma coisa que ficou muito forte em mim. Eu fui para Natal aos 18 anos. Natal abriu uma outra porta para mim, que foi a porta da universidade. Fui com a minha família para Recife, fiquei um ano, exatamente em Recife. Eu cheguei acho que dia 28 de janeiro e saí no dia 28 de janeiro do outro ano. Depois, eu voltei e morei mais oito meses em Recife já sentindo saudades da cidade, do urbano, porque Natal é uma cidade menor, uma cidade pequena, fui morar numa capital, mas uma capital pequena, o que é muito bom e muito rico, mas para quem está interessado em produção cultural, às vezes, é muito complicado. Então, em 98 eu fui para Natal, cheguei em Recife em 97, fui em 98 para Natal. Em 98, eu entrei na universidade. Eu fiz Comunicação. Eu não sabia muito bem o que fazer na universidade, eu fiz curso técnico de Comunicação, de Publicidade, por causa do desenho, mas eu entrei para fazer Processamento de Dados. Eu estava descobrindo esse pensamento, e eu comecei a fazer sarau, comecei frequentar um lugar que chamava “Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do Rio Grande do Norte.

Em Natal, com o Rui Rocha, eu fiz o Poesia Esporte Clube. O meu processo criativo é parte disso, ir com uma ideia para um evento de poesia e falar ao vivo, criar o poema ao vivo, do jeito que ele sair, porque os repentistas no Nordeste me fascinavam muito. Só que ele não fica como o repentista do Nordeste que ele obedece a cadeia, ele fica do jeito que ele fica e eu, como comunicador, me interessava pela recepção, pois eu estava estudando isso. Então me interessava muito pela recepção, então para mim, não adiantava eu criar um poema no canto, no quarto, e não entender, não contemplar a recepção. Então eu comecei criar ao vivo.

O PEC é o Poesia Esporte Clube, era eu, o Rui e o Xavier e era uma reunião de poetas, onde não tinha tema, não tinha inscrição, não tinha microfone, é um embrião do que é o Sarau do Burro. Também não tinha poeta, porque em São Paulo, você faz uma reunião dos anões albinos, já tem 50, é bem isso assim. Em Natal, por mais que tinham poetas, os poetas não queriam entrar nesse contexto, por exemplo, o Dia da Poesia, eu nunca vi um lugar ser tão comemorado o Dia da Poesia como em Natal, porque sai poeta de tudo quanto é lugar, assim, você vai no Mcdonalds, abre uma tampa, sai um poeta: “Bigmac, Mac…”, entendeu? No Dia da Poesia é muito, mas o Xavier falou uma vez: “O dia que eu menos vejo poesia é no Dia da Poesia, porque é um monte de louco também querendo aparecer e tal”, mas Natal tem uma característica forte disso, mas não ia. O PEC era muito assim, tinha sete pessoas, dez pessoas, a gente fez isso 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, uns quatro, cinco anos.  Era uma por mês, na casa Ribeira. Tem uma coisa importante no Rio Grande do Norte, porque lá a gente organizou um selo de poesia também, de literatura chamado Jovens Escribas, então eu sou um dos fundadores do Jovens Escribas e esse selo se tornou num dos principais selos do Rio Grande do Norte, até hoje. Tem mais de 50 livros publicados.

Conheci a Sinhá, eu era do DCE, eu era do movimento estudantil na universidade, eu sou dois anos mais velho que ela, e eu estava dois anos na frente na universidade, e ela entrou na universidade, eu entrei na sala para falar e ficou ali um clima. Eu tinha 20 e ela tinha 18. Foi quando ela entrou na universidade, depois eu dei aula para ela. A gente trabalhou junto, mas tudo já namorando. Com sete anos de namoro, eu vim para São Paulo, a gente casou, na Igreja, formal mesmo.  Eu vim empregado, na real, eu vim para trabalhar na África, eu trabalhava na agência África e eu voltei para trabalhar. E foi bem difícil cortar esse elo com a Poesia Esporte Clube, abrir mão disso.

Tudo isso só para não perder também a minha relação com isso, paralelo a isso, entrando e saindo de agências de propaganda, seja mandado embora ou me empregando nisso, então, isso me consumia um tempo. Então nessa época, eu falava mais de fora, eu me encaixava de acordo com o que eu podia fazer. Então o que acontecia? Eu trabalhava na África, por exemplo, eu trabalhei de janeiro a julho sem folgar sábado e domingo, direto, seis meses e trabalhando até nove horas da noite. Então era muito puxado e no dia que eu tinha folga, eu pegava o Guia da Folha e ia em tudo que tinha, eu acordava às dez horas da manhã, vai ter uma caminhada no parque, ia, ficava louco assim, para poder consumir, parque caramba, eu estava aqui em São Paulo e eu vim por causa da cultura, se eu não me envolver com isso, o que eu estou ganhando? Estou aqui gerando dinheiro para o Nizan ficar milionário e tal. E aí, a cena estava rolando, foi o momento que começou a surgir a segunda geração, se assim a gente pode dizer, porque a primeira geração é ali a Cooperifa, o Sarau do Binho, pelo menos dos periféricos, que tem outros saraus que dizem que são mais antigos e tal, mas eu estou falando desse contexto. Lógico, deve ter um sarau na USP que tem 50 anos, deve ter tantas outras coisas, mas estou falando desse contexto especifico, tinha a Cooperifa, o Binho. E nesse momento, começou a surgir o Sarau da Brasa, o da Ademar, eu posso cometer algum delito aqui, mas o Elo da Corrente, e perdoa quem tiver assistindo, porque se eu não citei o seu nome, mas o Elo da Corrente, aí o Maloqueiristas, e foram surgindo os saraus novos, Mesquiteiros… O Burro em 2008, mas essa geração ainda é a segunda, tipo o Sarau da Brasa, o Elo da Corrente, o da Fundão, acho que alguns saraus mais… antes do Burro, um ano ou dois antes, o Poesia Maloqueirista. O Maloqueirista já estava na cena, mas sempre flutuando. Hoje, se for para caracterizar, o Burro já seria uma terceira geração, fim da segunda geração, já pegando a terceira. Hoje dá para dizer que é uma terceira. Porque hoje tem muito sarau, né? É fácil de comparar porque naquela época não tinha, inclusive nessa época, surgiu o Rui Mascarenhas, poeta da Bahia, importante, colava no Maloqueiristas. Por que eu gostava do maloqueiristas? Eu conheci o Galdino, o Mascarenhas. O Mascarenhas, parece que ele tinha uma formação de ópera, ele cantava assim: [cantando] “Bahia”, ou então: “A cabeça é o que lhe impede de rasgar… rasgar a cabeça”, era um bagulho assim, pô, legal, coisa rigorosa! E o Rui organizou uma espécie de Guia dos Saraus naquela Casa das Rosas, nessa época tinha 60 saraus, era coisa pra caramba, mas se fizer hoje, cara, tem dois por dia, tem três por dia, todo dia tem, então, hoje tem mais de 200 saraus.

O Sarau do Burro tem acho que é seis ou sete anos. Eu sou ruim com datas, porque vocês podem ver aí, eu já falei que fui em 98, depois foi em 97… eu acho que o Burro é de fim de 2008, começo de 2009, mas eu não sei. Agora, a gente criou o Burro Ido, o Burro sempre teve uma relutância contra a música, porque a música no sarau, ela rouba a cena e o objeto do Burro era não ser a música, podia ser qualquer coisa, o cara levar um sapateado, podia ser a música, mas não podia ser a música no sentido de eu vou fazer um show. A música apareceu, eu sou um compositor e estou mostrando aqui na viola. E, a gente criou o Braço Armado do Burro, que é o Burro Ido, é um armado de guitarra, já é ao contrário, para fluir a música e tal, ainda nessa esperança de fazer da poesia um esporte popular, a música ainda é o melhor caminho, os slams. O slam também tem essa característica mais popular porque envolve sangue e as pessoas gostam.

A Sand slam eu não sei precisar quando começou, mas eu acho que foi 2008. O ZAP foi o primeiro slam no Brasil, Roberto trouxe essa cena e são slams de três minutos, então tinha uma questão muito forte da verborragia. E eu sempre gostei dos poeminimos, dos haicais, das coisas do Leminski. De três minutos e eu pensei: pô, isso dá para TV, porque eu sempre tive essa busca: como botar a poesia na TV sem descaracterizar? E quando eu vi o slam eu pensei: isso dá para TV e fiquei nessa lombra, e tal. O menor slam do mundo foi inclusive o haicai, eu tinha essa vontade: não dá para fazer um evento de poema curto, mas tem tanta gente que produz. No sarau, se você manda um poema… agora já tem o momento “Curtinhas”, mas não tinha esse espaço para curtinhas. Não tinha esse momento “curtinhas”, isso já é um negócio difundido, quase todo sarau tem, mas não tinha. Então, esse espaço da “Curtinhas” eu falava: “Pô, tem tanta gente que produz poemas curtos, mas também você vai no sarau e você espera a sua inscrição, três horas, até os caras que produziam poemas cursos, na hora que ele chegava e falava só assim”; sei lá: “Em casa de menino de rua, o último a dormir, apague a lua”, não fazia muito sentido você esperar duas horas, por mais que o que você quisesse dizer era isso, então você acabava aproveitando mais o tempo com outras coisas.  O menor slam do mundo é ao contrário, é tipo um espaço para poesia curta.

Eu tenho um livro publicado, na real, eu tenho um livro publicado que é esse, que não é uma produção escrita, é meio delicado para eu falar da produção escrita, porque a produção escrita é o que eu estou falando agora. Eu crio escrevendo, só escrita, mas eu me interesso pela escrita partindo da oralidade, então nesse meu primeiro livro tem um monte de coisa que é isso, criado falado.  Chama “Ouvivendo”; “Iapois poisia”; e “Carnevais”. Foi escrito em três horas, mesmo e sem muita limpeza. Quando eu terminei ele foi lançado na Balada Literária.

 

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