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O Carnaval que passou...

História de: Salomão Rovedo
Autor: Salomão Rovedo
Publicado em: 11/03/2005

Sinopse

Salomão Rovedo conta histórias de carnavais que viveu no Rio de Janeiro.

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História completa

Fui criado no bairro do Cachambi, Rio de Janeiro, um enclave entre os mais famosos irmãos – os bairros do Méier e Del Castilho – ali onde o carnaval corre tranqüilo e silencioso, sem outras manifestações senão o famoso bloco As Meninas do Cachambi, que saía no domingo e depois só na terça-feira, ao encerrar os festejos momescos.

 

Depois o bloco foi alcunhado de “As piranhas”, mas aí já estava em plena decadência e hoje só sobrevive um arremedo daquele que chegou a reunir espontaneamente cerca de mil participantes. É verdade que a maior das nossas representações folclóricas, o Carnaval, se transformou numa vistosa ópera popular, voltada principalmente para as elites e para o turismo. No entanto, é bom não esquecer que as escolas de samba nasceram de pequenas aglutinações de sambistas que foram batizadas de blocos, que ainda hoje subsistem em sua formação original.

 

Em pleno Carnaval do século 21, mantendo-se distante da moderna tecnologia eletrônica que as escolas de samba utilizam fartamente, é um prazer se notar que os blocos de rua ainda são um elemento importante nos festejos de Momo. Um desses blocos mais curiosos é o Concentra Mas Não Sai, criado pela cantora Beth Carvalho e amigos, que se reúne num bar em Laranjeiras. Como o nome diz – e a razão da existência – o bloco se concentra, mas nunca sai. A turma da batucada permanece no local durante todo o carnaval cantando samba e recebendo os convidados, famosos ou não, que vão lá dar uma canja no Concentra Mas Não Sai.

 

Mais curioso ainda é o fato de que um grupo de mulheres que cumprem pena no presídio feminino Talavera Bruce, inspiradas em Beth Carvalho para animar o seu próprio carnaval, fundou um bloco homônimo, utilizando apenas um apêndice que explicita sem crueldade a própria condição da agremiação e seus membros. É o Concentra Mas Não Sai Mesmo. Os blocos representam a resistência nesta festa coletiva de liturgia religiosa, que começou popular e se tornou social e profana.

 

Chocante, pois na Idade Média o carnaval seguia direto desde as festas de reis até a quarta-feira de cinzas e os blocos não existiam, mas desde então já os grupos se formavam para se enfrentar numa batalha fingida e violenta. No Rio de Janeiro existem blocos que mantêm a tradição de independência tanto na forma quanto nos enredos escolhidos, que cuidam de levar os protestos e insatisfações populares aos responsáveis, em todos os níveis, embora prevaleça o clamor mais íntimo e mais local. São os blocos de raiz realmente popular formado e sustentado pelas comunidades, sem aceitar patrocínios nem invasões, principalmente aquelas de momento, geralmente ofertadas por políticos de plantão. Um dos mais antigos do Rio de Janeiro era o bloco Chave de Ouro, do bairro do Engenho de Dentro, cuja característica era sair após o meio-dia da Quarta-feira de Cinzas, quando o carnaval já tinha terminado.

 

Como era de esperar, pressionadas pelos comerciantes que não gostavam da bagunça, as autoridades constituídas tomaram a iniciativa de proibir o bloco, outorgando à força policial o poder necessário para coibir o evento. A turma do bloco tomava cuidados para se garantir e proteger seus muitos participantes. Basta dizer que o local de concentração era secretíssimo, a informação corria de boca em boca, criava-se a artimanha de montar uma falsa concentração, tudo para despistar a polícia. Todos esses arranjos e cuidados não evitavam o pior: a polícia se reorganizava, localizava o verdadeiro bloco já em plena evolução, o confronto era inevitável, a porrada comia.

 

Os membros do bloco, tratados como marginais, recebidos na base do cassetete, feridos e sangrando eram levados ao distrito policial, fichados, processados, etc. Até que um dia o prefeito resolveu mudar tudo: em vez de ser perseguido, o Chave de Ouro teria – como teve – proteção policial (e apoio do comércio), não só na concentração mas durante todo o desfile. Foi o fim, perdeu a graça, o bloco Chave de Ouro acabou.

 

Falar no Cordão do Bola Preta, agremiação do clube do mesmo nome, que tem um dos mais tradicionais salões de dança no centro do Rio de Janeiro (Cinelândia), é chover no molhado. Este famoso híbrido de bloco e banda – tem uma orquestra para acompanhar o desfile tocando um repertório tradicional de marcha, samba e marcha-rancho – faz seu desfile inicial no sábado, uma semana antes do Carnaval, antecipando o império do Rei Momo, que acompanha o desfile.

 

O Cordão do Bola Preta era considerado reduto de coroas, mas a tradição fez com que a comunidade do centro respondesse positivamente. Hoje o bloco está renovado, ganhou nome, todos desfilam juntos, agregando mais de dez mil participantes entre a comunidade e turistas. Em contrapartida à existência dos blocos, as comunidades de classe média, ou porque não gostariam de se misturar à plebe ou porque eram barrados nos blocos populares, voltaram-se para si mesmas e criaram associações para brincar o carnaval – esse é um dos motivos porque nasceram as Bandas. Mas a diferença não é somente essa: na prática uma banda é acompanhada de carro sonorizado e elementos musicais de sopro, tendo como repertório o samba, as marchas, alguns raros frevos e elementos recém aportados como o ritmo baiano do momento, mais fresquinho.

 

Já o bloco é animado por uma percussão tradicional, básica para acompanhar os sambistas, que a cada ano escolhem um samba inspirado em tema escolhido de comum acordo. Algumas bandas, como a Banda de Ipanema, são famosas no mundo inteiro, mais pela peculiaridade do que pelo carnaval que apresenta. Inicialmente a Banda de Ipanema, reduto da esquerda festiva, representava privadamente o bairro que leva o nome. A geração que floresceu cultural e artisticamente no bairro, do cinema novo, da bossa-nova, atravessou os vinte anos do regime militar. Esta foi a base política da Banda de Ipanema, nascida para expandir suas manifestações, seus protestos, agravos e desagravos, mas que hoje sobrevive com poucos representantes.

 

Os gays, um dos grupos que se infiltraram na banda para lutar pelos seus direitos, chegou viu e venceu. Hoje é maioria e a Banda de Ipanema é considerada sede do movimento GLS, principal reduto carioca do grupo que se prepara para tomar o poder... Tem um momento que blocos e bandas se confundem: é no protesto sempre latente, na forma de desfilar, rebelde livre, sem peia na irreverência, na falta de preconceito, na desorganização. Os participantes criam espontaneamente os temas. Não são obrigados, mas se concentram para dar início ao desfile, outros são seqüestrados e agregados durante o percurso. Ninguém paga taxa de inscrição, nem compra abadás ou outra vestimenta obrigatória, ninguém é cercado em currais encordoados.

 

A cada ano alguém do bloco ou da banda pede a um artista para fazer o desenho símbolo do tema-enredo. Ziraldo, Jaguar, Millôr, Niemeyer, entre outros artistas populares são convidados e oferecem colaboração gratuita para a criação de uma camiseta, que será oferecida ao custo de dez ou quinze reais. Como ninguém é obrigado a comprar, virou item de colecionador. Alguns blocos e bandas evoluem, crescem, ganham forma de escola de samba. Os famosos blocos dos subúrbios da Leopoldina Bafo da Onça, Boêmios de Irajá e Cacique de Ramos, aglutinam milhares de participantes, são acompanhados de bateria com formação de escola de samba, usam fantasias estilizadas, formam grupos fechados e desfiles organizados. Alguns, como os suburbanos Arranco de Varsóvia e o Arrastão de Cascadura, já se transformaram em escolas de samba e fazem parte dos desfiles oficiais.

 

Mas o que fica mesmo é o ajuntamento de bairro, popular e espontâneo, informal crítico, que vai aos poucos se formando na desordem, batucada de formação simples, tamborim, surdo, agogô, samba na goela e no pé, para sair ninguém sabe quando, ninguém sabe de onde, sem itinerário, sem destino. É o bloco de sujo, que se reúne num canto e sai desfilando de botequim em botequim, o bloco de enredo que vem com samba e fantasia próprias, grande bateria, milhares de participantes ou o bloco de arrastão, que vai atraindo passantes e assistentes, num pega-e-solta interminável, eles são a razão de sobrevivência do carnaval como festa popular.

 

O bloco das Carmelitas sai do antigo convento de mesmo nome em Santa Teresa; – o Vizinha faladeira, de Santo Cristo faz o último desfile porque virou escola de samba; – o Simpatia é quase amor de Ipanema é o preferido dos turistas; – o Suvaco de Cristo sai do Jardim Botânico, justo embaixo do Cristo Redentor, daí o nome; – o Cordão do boitatá sai da Praça XV e fica lá mesmo; – a banda Vem ni mim que sou facinha é feminina e tem ares de bloco, por isso é popular; – o Xêra puêra desfila pelas ruas descalças de Itaipuaçu levantando poeira na cara de quem fica atrás; – o bloco Meu bem eu volto já herdou do Mamãe eu vou às compras os foliões e a irreverência; – o Loucura suburbana reúne os internos (mas nem por isso loucos), do Instituto Nise da Silveira; – o Barbas sai do Bar Barbas, foco de resistência cultural em Botafogo, é uma singela homenagem a Nélson Rodrigues Filho; – o bloco Cachorro cansado sai do Flamengo, eterno vira-lata, pára em todos os postes para o ritual xixi; – o Boca seca exibe formação e som afro-reggae, mas também o fumacê que é a razão da boca ficar... seca; – o bloco do Bonde, idéia de Zé Andrade, reside dentro do bondinho de Santa Teresa, mas este ano não saiu em razão da greve por falta de pagamento dos salários; – outro residente e flutuante é o Se melhorar afunda, que circula na barca Rio-Niterói alegrando os passageiros; – o bloco Galinhas do meio-dia é das mocinhas das noites de Copacabana (a profissão mais antiga do mundo), que, portanto, só acorda e desfila após as 12 h.

 

E assim vai... Ano que vem o Carnaval será o mesmo, mas os blocos serão sempre novos.

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