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História

O Chá da praia

História de: Mamhmdus Hassan (Paraná)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/03/2005

Sinopse

Infância em São Manuel. Primeiro emprego, bastante jovem, embarcado de navio de Companhia Grega. Descrição da guerra, quando navios comerciais pararam de circular, e luta como mercenário. Volta ao Brasil e vai para Paranaguá, donde vem seu apelido. Começa a vender mate. Viaja para o Rio de Janeiro, mas para em Santos. Tem ponto de venda na praia junto ao canal 3. Os políticos e famosos que frequentam o local. Afirma que algumas melhorias na cidade são sua iniciativa, como os chuveiros e os jardins das praias.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Nome, local e data de nascimento Mamhmdus Hassan. Nasci em São Manoel, Estado de São Paulo, à 06 de outubro de 1922.

FAMÍLIA
Nome dos pais David Hassan e Catarina Tudra Hassan. Meu pai nasceu na Palestina, num bairro distante uns 20 quilômetros de Jerusalém.

IMIGRAÇÃO
Vinda do pai para o Brasil Ele não sabia que estava vindo para o Brasil, ele não sabia nada. Ele chegou, pagou dinheiro e viajou porque antigamente não tinha passaporte nem nada. Ele chegava, pagava a taxa, e vinha. O navio veio parar no Brasil. Ele não sabia falar a língua. Começou a aprender a falar, ficou mascate, viajava. Ele acabou ficando em Bauru, aí viajava, trazia arroz, feijão de Bauru, de São Manoel. Minha mãe, ele conheceu depois, aqui no Brasil. Ela era da Polônia. Veio para o Brasil porque meu tio, era jornalista. Ele depois ingressou como jornalista. Ele trazia imigração da Polônia e da Alemanha, daquele setor ali, Iugoslávia,... Então, ele trazia imigração, aí os padres falavam: "Não, não leva, não viaja porque lá tem mosquito que morde e mata, que é a malária, né?" E de fato mesmo. Aí eles veio, viajavam de novo, voltava até no Rio tem a carteira dele. Eu tinha todos os documentos dele, perdi.

FAMÍLIA
Atividade do tio Meu tio, como jornalista, foi ele e um colega dele na África do Sul, aquele pegou uma malária e morreu. Ele voltou para o Brasil pegou seis meses de cadeia, que ele fez o contrato para girar o mundo. Ele ficou preso porque ele não cumpriu o contrato. FAMÍLIA Atividade dos irmãos Nós somos em cinco. Três moram em Sorocaba, um faleceu, e eu. Meu irmão trabalhava, o mais velho, trabalhava numa fábrica de macarrão. Outros eram menores. Outro era maior, também era marceneiro, lustrador, Ele trabalhava na Sorocabana, o mais velho. Lá em Botucatu. Entrou na Sorocabana, depois mudaram ele para Sorocaba. Sabe, negócio de trem, essas coisas, máquina. Mas, ele não era maquinista, trabalhava na oficina. Fazia peças. FAMÍLIA Atividade dos pais Meu pai era comerciante. Ele ia em Bauru, pegava aquelas linhas de trem Sorocabana, ele trazia arroz e feijão em São Paulo. Ele pegava dois, três vagões, alugava e trazia para cá. Minha mãe era patroa de casa, porque quando ela conheceu meu pai se casaram e ficaram.

INFÂNCIA
Mudança de cidade Saí pequeno, bebê, de São Manoel. Nós fomos para Botucatu, uns 10 quilômetros, 15 quilômetros de São Manoel. Ficamos lá até depois da Revolução de 1932. Minha infância foi passada em Botucatu.

EDUCAÇÃO
Escola primária Era Grupo Escolar de Botucatu, não me lembro bem. Eu sei que nós morávamos fora, atravessava um rio e ia até a Vila dos Lavradores, eu me lembro bem. E lá eu ia estudar, não tinha como é hoje. A gente ia descalço e ia na escola.

TRANSIÇÃO
Mudança de vida Depois quando cresci, chegou muitos anos depois, uns dois anos depois, chegou um comandante, amigo do meu pai, ele me viu, ele falou: "Não quer adotar ele para ele embarcar comigo?" Era amigo do meu pai. Então, ele gostou de mim e falou: "Deixa ele viver comigo, ele vai aprender mais coisas na vida." Então me levou. Nós viajamos para Itália. Embarcamos em Santos. Vim de trem desde Botucatu. Depois descemos naquela Estação da Luz, em São Paulo. E aí trocou de trem e veio para cá. Vim. Entrei aí no cais, ali no porto.

SANTOS
Década de 40 Quando eu cheguei, tinha meia dúzia de prédios na orla da praia. E tudo era chácara, chalé, areia, não tinha asfalto. VIAGEM Impressões Eu não conhecia o mar. Viagem a gente acostuma. Criança, a gente entra no navio de cargueiro, a gente pega, acostuma que nem eles. É tão simples, depois que se acostumar... Falavam árabe. Carregava alimentação, tudo, Não podia trazer laranja e banana porque apodrecia. Naquela loja tinha frigorífico, tinha, tinha mal e mal para a gente comer, se virar.

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Viagem durante a Segunda Guerra Sei falar árabe e hebraico porque eu morei em Israel, quando estourou a guerra. Quando nós atravessamos o Canal de Suez, a embarcação parou lá numa cidade chamada Jafa, aí a guerra começou, a gente não sabia quando ela ia parar. Seis sete, oito meses, o comandante não tinha mais verba porque não podia o navio sair nem viajar, não nós, todo o mundo. Na Guerra Mundial, embarcação não viajava, só navio de guerra, ia e vinha. Então, ficamos lá e eu fiquei. Aprendi falar árabe um pouquinho, comecei trabalhar e trabalhei em Telavive. Eu não esqueci falar português porque minha idioma, minha língua. Eu falei: "Acho que não existe essa língua naquele tempo." Eu falei: "Acho que o Brasil não existe porque ninguém falava português." Uma vez no navio, embarcação, eu estava em Jafa, aí vou falar: "Tem um navio para o Brasil." Eu fui pedi para falar com alguém, aí veio os dois, três lá, o comandante veio, me abraçou, me beijou, começamos chorar. Que era difícil brasileiro sair antigamente, né? Não é como hoje. Hoje, qualquer parte jogam bola. Então, me admirou, ele queria me trazer, mas não dava. Depois estourou a guerra mundial, eu me alistei no exército inglês para comer o pão de cada dia, porque se você tinha 16, 17 anos, você era obrigado a alistar. Quando você tem família, depender da tua família, quando não tem família você tem que trabalhar. Eu viajava, entrava no Canal de Suez, ia até a Turquia, voltava pra Grécia e fazia aquele caminho. Me alistei, como voluntário. Eu era driver, motorista. Aprendi a dirigir no exército mesmo. Tudo se aprende no exército. Eu não sabia, era Jipe, dirigia Jipe porque lá a gente ficava no Canal de Suez, lado do Deserto do Saara era tudo Jipe. Eu fiquei muito em Líbia, Trípoli, aquele redor, eu comi o pão que o diabo amassou. Passei, passei, um aperto. Uma bomba explodiu o Jipe. No deserto, cortou a minha mão quase aqui. É minha filha, a gente... Fiquei até o fim da guerra.

AVALIAÇÃO
Experiências no pós-guerra Minha aula e minha escola foi que eu aprendi a viver. Eu não gostei do povo inglês, é falso. Francês também não. Se você não tiver amizade, você... Se não souber falar francês, ninguém olha para tua cara. Inglês também não era... Então o único mundo que dava, tinha amizade era judeu e árabe palestino. Eu vivi lá em Telavive, trabalhava em Telavive tudo, na construção ali me dei muito bem. Trabalhei. Tem que aprender de tudo, tem que fazer, viu? Eu aprendi trabalhando e... Com o mundo árabe e com judeu. Eu me admiro que está essa guerra agora. São tudo... Olha, era uma vida muito saudável tinha lá, viu? Viajava todo o fim de semana para Jerusalém na festa e eu me sinto até com vergonha dessas brigas bobas. Era uma vida saudável minha lá, eu tenho saudades. Depois da guerra, fui trabalhar na construção civil. Era prédio de segundo ou terceiro andar, não tinha elevador, mas bem feito... obra muito bonita. Eu fiquei em Telavive na independência de Israel 1948. Em 1946, eu estava lá.

HISTÓRIA
Independência de Israel - comemoração Eu estava em Telavive em 1946. Foi festa, né? Sabe o que é festa? É que nem futebol, ganha o time, aquela festa, depois todo mundo esquece. VIAGEM Retorno ao Brasil Eu voltei aqui em 1950, a Copa do Mundo. Fiquei 18 anos fora do Brasil. Eu voltei porque eu viajei até Gênova, de Gênova foi o cônsul brasileiro me mandou para o Brasil. Lá quando eu estive em Israel, me falaram: "Você quer naturalizar palestino, israelense?" Eu falava: "Não, eu nasci pedra tenho que morrer pedra." Nunca troco a minha pátria, hein? Porque antigamente não é que nem hoje. Antigamente, quando você saía, depois da mudança de Israel, aí pode ter duas nacionalidades. Agora era uma só antigamente e eu ia me alistar em Gênova, legião estrangeira. Eu ia perder cidadania brasileira, eu não aceitei porque eu era moço, eu gostava de movimento. A gente aprende sozinho, quer movimento. Não aceitei, porque ia perder a minha nacionalidade. Depois surgiu que pode ter duas nacionalidades, que o judeu tem duas. Bom, aí eu estava na Itália, eu não tinha documento, eu precisei ir no cônsul, aí eu falei: "Quero voltar para o Brasil" porque na Itália já é diferente. Outra, é frio lá, já não me acostumei. Eu quando vim para o Brasil, também não me acostumei, não? Eu fui morar em Paraná, na Curitiba, Paranaguá, eu não me acostumei morar em São Paulo, horrível. Eu vim para São Paulo, trabalhei com judeu mascate lá, fazer compras, etc. etc.

COMÉRCIO AMBULANTE
Venda de caldo de cana Minha mãe e meus irmãos falaram: "Você para acostumar, você tem que ir no Paraná. Lá, o clima é idêntico com a Europa, com a Palestina." Eu peguei e fui, mas nós fomos até Paranaguá, uma festa do Rocio, leva aquela bijuteria e faz uma barraca, aluga uma barraca em frente a igreja e começa... Comecei a gostar disso. Aí formei aquele brinquedo de criança. Aí foi armando uma barraca, começou vender. Aí, faturei um dinheiro. Aí, faturei, voltei. "Já, aonde que está aquela festa?" "Em tal lugar." E aí. Eu ia também, comecei a fazer. Aí, eu acostumei, aí eu provei fazendo mate, eu não sabia fazer mate. Eu vendia lá... esse caldo de cana, comprei uma máquina de moer cana, comecei vender caldo de cana... COMÉRCIO AMBULANTE Venda de mate Aí, chega um: "Paraná"... Não era Paraná, Zé me chamavam Zé. "O senhor não quer vender mate gelado?" Eu falei: "O que é isso?" "Mate gelado." Aí, chegou o capitão dos portos falou e um deputado federal, aí falou: "Por que o senhor não vende? Eu tenho Instituto de Mate do Rio. Era que nem o café, tem o Instituto do Café, tem o Instituto do Mate, eu te mando uma carta para o capitão dos portos de Paranaguá", me fez uma carta para mim levar, lá no Rio. O presidente do mate era no Rio. Eu fui, me apresentei lá como o deputado e o capitão dos portos. Ele fez uma festa lá no Rio para mim e me deu um aparelho para fazer mate e me ensinou como fazer, eu peguei e me deram uma bolsa. Bolsa são 20 quilos de erva mate, até eu despachei que, antigamente, saía de Paranaguá para o Rio, tinha transporte passava em Santos, Paraná, Rio e Paranaguá. Aí, eles me despacharam a coisa, de avião. Eu fiquei em Paranaguá fazendo mate. Eu vendia, vamos supor, caldo de cana, mas cana aquela cana caiana, a roxa assim, eu vendia 30 litros e comecei vender mate, mate, mate matou o caldo de cana, que o meu mate é gostoso. Aí eu comecei a vender mate e agora eu vendia, dobrou que eu vendia 300... Começou 30 litros de caldo de cana, começou a vender mate, 30 litros. Vendia para a turma lá, para o povo, na cidade. O prefeito me deu uma cantina no meio da praça ali. Eu peguei amizade com ele, ele me deu na Praça Coronel, nem sei o nome da praça. Eu sei que era no coração de Paranaguá, perto da estação de trem.

MIGRAÇÃO
Mudança para Santos Aí eu fui para Curitiba, abri, vendi mate também em Curitiba. Aí chegou um comandante, ele viajava para Ilhéus, ele falou: "Mas escuta"... Conheci ele num clube, ele falou: "Bom, você é da cana, você não quer ir comigo para Ilhéus? Ilhéus é Bahia. Fica lá um mês, 30 dias, deixo você, volto pego mais sal." Ele viajava, transportava sal e na outra você volta comigo." "Tá bom, tá bom, tá bom." Cheguei aqui em Santos, ia viajar, ele falou: "Em Santos, você me pega, eu vou lá de te pegar." Cheguei aqui: "Eu sou amigo do pai do Taifur, aquele vereador que morreu o Gilberto Taifur. "Não fica aqui", ele morava na Avenida Conselheiro Nébias, perto da Guarda Municipal. "Não, você é muito popular, você pega amizade logo, fica aqui em Santos, você vai ficar na minha casa." Fiquei seis meses na casa dele. Aí comecei fazer mate e ir para a praia. Ah, não brinca Fiz o maior sucesso. Vendia no Boqueirão. No mesmo lugar onde estou hoje. Só sábado e domingo.... Sábado tinha futebol de praia, era Náutico, Caravela, Cruzeiro aqui, Cruzeiro também, todos jogavam ali, no canal dois, canal três, canal quatro, então peguei aquela amizade.

SANTOS
Praia - 1951 O pessoal ia à praia, Jogar bola. Iam de maiô, jogavam bola ali. O povão ficava sabe aonde? Ana Costa, Conselheiro Neves, onde que tem a fonte. Ali que ficava o povão, ficava em frente. Na beirada do canal não tinha ninguém, beirando o canal. Aí, eu fiquei, eu gosto de praticar o futebol, eu gosto de bola, até eu tinha meus times ali. Jogou Clodoaldo, Negreiro. Não jogou Pelé e Pepe, só. Todos os jogadores do Santos Futebol Clube vinham jogar comigo.

LAZER
Time de Futebol de praia Eu tinha o time do Paraná. Eles vinham jogar comigo, em pouco tempo. Então eles jogavam no Santos vinham... "Pô Paraná deixa eu dar uma ..." "Pô, mas você não treinou agora"? "Aqui é mais gostoso." Sabe porque é mais gostoso, porque é livre. Então, toda amizade, eu tinha com eles, eu tenho foto deles. Com os jogadores que vinham jogar. Coutinho jogou, Clodoaldo, Picolé, Pitico, todos eles jogaram comigo. O Nenê, Belarmino, que está em Portugal agora como técnico. Então, fiquei conhecido Paraná. Eu tenho saudades. Primeira coisa, eu ia lá, colocava o meu carrinho, não vinha menina sozinha, menina de 17, 18 anos vinha com a família. Não vinha com o namorado, não, vinha com a família, pai e mãe eram unido antigamente. É diferente. Não fumavam cigarro, nem nada. Não podia atravessar. No tempo do Jânio Quadros não podia andar sem camisa na rua, nem atravessar de biquíni. Não podia atravessar a rua sem camisa. Tinha uma avenida só. Depois formava duas, duas linhas de bonde, não podia atravessar sem camisa. Sem camisa e com tanguinha de jeito maneira. Senão ia preso. É, ia preso. Ia na polícia. Não estou brincando não. As mulheres eram diferentes, não tem.... Não dava... Tudo era aquele roupão grande... Era outro respeito, viu? Estou te falando, eu sinto saudade daquele tempo.

MORADIA
Vila Mathias Eu morei na Vila Mathias, no Campo Grande e comprei um apartamento na Rua Campos Melo.

FAMÍLIA
Casamento Me juntei. Era de Antonina, ela veio, tinha dois filhos. Me juntei com ela, é a mesma coisa que casar. FAMÍLIA Filhos Meus filho moram comigo. Um mora, outro mora aqui na... Perto da praia onde que eu trabalho. Um é arquiteto mora ali. Trabalha na Prefeitura. O outro é inspetor da Orla da Praia. É tudo filhinho de papai. Tudo esses que estão ali que o pai deles é vereador, Fulano de tal, não precisa dizer, né? Meu filho porque é filho do Paraná.

COMÉRCIO
Preparação do Mate Tem que cozinhar ele. Por exemplo, eu vou à tarde, cozinho ele, tiro e deixo para o dia seguinte. Aí eu tempero ele com tudo, coou ele, adoço. Agora é preciso ver tempo também para não perder dinheiro. Antigamente eu sabia mais, hoje em dia tudo mudou. Antigamente, eu conhecia o tempo, mas agora tudo mudou. Vem o noroeste, eu sei que vai chover, agora não sabe mais. Noroeste é batata que vinha chuva. E se vinha chuva com noroeste ficava dois, três dias. Tudo é pratica, agora mudou tudo, viu?

SANTOS
Tempestades de Verão Mudou tudo. Eu me lembro bem quando nós jogava na praia, lá para às 15:30, 16:00, virava aquele tempo, ficava escuro tudo... Antes ficava jogando, depois de meia hora abria o sol... SANTOS Temporada Antigamente quando eu chegava cedo, lá pelas 9:00 horas, colocar o carrinho lá na areia, eu colocava na areia, agora eu estou no jardim. "Dá licença", abre caminho, que ficava o povo assim, que nem formiga e onde que eu estava depois começou: "O Paraná está no canal três?" Todo mundo começou ir para lá. Formou-se o Canal Três. A Confeitaria Joinville... Então, o futebol mesmo, eu fiquei muito conhecido, aí eu fiquei: "Não agüento mais." Eu levava três carrinhos para vender. Ah, para que eu vou vender? Vou me matar?

SANTOS
Chuveirinhos na praia Aí, falei: "Vou ficar no jardim.". Cheguei e falei, o Barbosa foi prefeito. Aí, eu falei: "Senhor Barbosa, é o seguinte eu vou colocar um chuveiro ali na orla da praia." Apertou assim, chamou o engenheiro: "Que lugar que você quer?" "Em frente ao Jacarandá, lá onde que vocês me viram." "Bom." Chamou o empregado lá: "Me atende o Paraná, o que você quiser, vê o que ele quer coloca onde que ele quer." Fui lá, arrumei, coloquei o chuveiro. Aí depois entrou a Telma, aí chegou uma engenheira. Falou: "Paraná, eu tenho ordem de atender você, onde que você quer mais chuveiro?" Porque o povo ali era assim, eu não brinco não. Anos atrás, o povo ficava tudo no canal três, era mais famoso. Aí cheguei: "Tenho ordem de colocar onde que você quer chuveiro." Peguei, mandei colocar em frente a Rua da Paz, colocar outro mais na frente, mais três ali pode ver.

SANTOS
Telefone na areia Não eu também queria colocar, até coloquei aquele telefone na areia. Eu queria colocar pertinho de mim ali, ali pertinho da estátua Vicente de Carvalho. SANTOS Jardim da Praia Eu plantei abacate, cerejeira, goiaba. Você entrando na Avenida Conselheiro Nébias, no jardim da orla da praia, não é da orla aquele canteiro onde que o ônibus passa aqui. Aqui, pode ver antes de chegar na Conselheiro Nébias, uma goiabeira. Faz 35 anos que eu plantei ela, está até hoje lá. Goiaba vermelha, todo mundo, esses meninos de rua sobe nela. Aquele edifício que tem a rampa grande, não viu? Pode ver ali, você vê uma goiabeira e perto do relógio do sol tem uma goiabeira ali. Eu plantava muito mamão papaia, mas mamão papaia estraga logo, fica dois três anos estraga, apodrece o pé, aí cortei. Tudo estão ali e ninguém toca. Pode ver onde que vocês me viram, não tem ali "Bem vindo a Santos." Aquele letreiro foi eu, meu dinheiro. "Bem vindo a Santos". Eu cheguei, chamei o jardineiro falei: "Vem aqui, corta aí, vamos por "Bem vindo a Santos." Ele cortou, coloquei, plantei aí falei: "Beto fiz isso.". "Então você fez, está bem feito". É aquela grama Bico de Ouro, Pingo de Ouro, ela é pequenininha assim, amarelinha.

ESPORTES
Prática de corrida Ganhei uma medalha de corredor. Não medalha, é um troféu. É que o primeiro corredor quando corria, ninguém andava na praia, eu que inventei a corrida, correr. Juiz de direito, promotor, advogado, milhares correram comigo. Jogador de futebol corria comigo.

POPULARIDADE
Procuram até por mim, "o Paraná, vocês conhecem?" Uma vez, minha sobrinha foram para a Grécia, turismo. Foram, estavam em quatro, cinco, entraram em Atenas, Atenas da Grécia. Aí começaram... Tem aniversário da minha sobrinha, começaram: "Parabéns à você" e aquele grito. Aí, tinha um cozinheiro grego, aí falou: Fala para os brasileiros para esperar que eu quero falar com eles." Que ele estava trabalhando, não tinha tempo. Aí foi: "Vocês são de onde?" "De São Paulo, do Paraná." "Vocês viajam para Santos?" A minha neta falou: "Eu tenho meu tio Paraná." Então, ele começou a chorar, coitado. "Ele é meu irmão, meu amigo. Eu morei muito lá em Santos, é o famoso Paraná." Você vê? Em Atenas. Agora, quando minha família foi para Argentina, em Buenos Aires, aí chegou, sabe? Brasileiro quando tem festa começam fazer aquela arruaça em aniversário começam a falar. Aí começou também no cabaré, lá eles dizem cabaré. No cabaré começou: "Parabéns a você", aí uma família falou: "De onde vocês são?" "De São Paulo." "Vocês vão para Santos?" "Nós vamos para Santos." "Vocês conhecem o Paraná, manda um abraço para ele." Num cabaré em Buenos Aires. Lá bar, eles falam cabaré.

COMÉRCIO AMBULANTE
Capacidade do carrinho A capacidade era 40 litros, agora é de 100. Eu ampliei ele. Aço inox, tudo aço inox. Eu mandei fazer lá no Rio. Antes era quadrado. Era aço inox porque tem que ser aço inox, era quadra... Agora tudo é aço inox, até a bomba, tudo menos o pneu.

PRODUTO
Fornecedores Mate Real, eu compro no Paraná, em Curitiba. Mate Real. Não Leão, o Real. É só escrever lá, mandar um telegrama ele me manda a bolsa quanto eu quiser. Eles queriam: "Bom, mas você... É o seguinte vamos deixar você ser presidente do mate, representante do mate de Santos." Eu falei: "Não, não quero." Eu quero sossego na minha vida, hein? Não vai me arrumar sarna para me coçar. Eu não aceito.

CLIENTES
Para mim não tem, época melhor ou pior. Antigamente era temporada, agora não. Agora qualquer sábado e domingo, eu vendo para chuchu. Se cair no sábado... Porque eu vendo para santista, não me interessa paulista da capital. Agora tem muitos que são conhecidos, tomando mate, volta. O Pepe, saiu na rua com a mulher dele, tomou umas duas, três vezes, o Beto Mansur. Eu sou muito conhecido. Toda alta sociedade vem tomar meu mate porque a praia é uma sujeira, calma pouco. Estou 42 anos na praia.

EMBALAGEM
Copinho plástico, o meu é descartável. Plastificado o meu, o meu é caríssimo. Não é plástico, plástico não se vende, uma sujeira.

CONCORRÊNCIA
Outro dia, estava eu, o Pepe e um corredor, doutor Germano, tem dois médicos, doutor Evandro e o Germano. Aquela Isa, Liza não sei. "Toma um suco de laranja, o senhor é muito orgulhoso." Eu tomei, saí correndo quando cheguei lá no final da areia, lá na ponta da praia, senti uma azia aqui. Eles moem com casca e com tudo, está errado.

HÁBITOS
Esportes que pratica Tomo mate todo dia. Eu pratico muito esporte, eu corro muito. Desde que eu cheguei, estou correndo até hoje. Amanhã, eu vou correr com o Pepe. Aqueles lutadores de boxe, tudo corre comigo. Agora estou correndo 10 quilômetros. Saio aqui do Três, vou até a Ilha Porchat, e volto, Tem 10 quilômetros, cinco e cinco. Agora daqui do Três até a balsa tem nove e seiscentos. Nove e quatrocentos, ida e volta. Eu participo do campeonato da Tribuna, né? Todo ano tem corrida, maratona.

COMÉRCIO NA PRAIA
Diversidade de marcas Antigamente, quando eu cheguei, tinha só Kibon. Gellato, Melato, Telato não existia, só o Kibon. Eu e a Kibon. Quando eu cheguei tinha uma firma mate gelado abriu falência. Porque não é fazer... Quando você quer trabalhar numa coisa, num ramo, você tem que trabalhar com carinho, certo? Dou o mate com todo o carinho. Então, já são terceira geração.

CLIENTES
Capitão dos portos a uns 15 anos atrás ficava lá comigo, ele com a família dele, a mulher... Porque cada quatro anos muda capitão dos portos, ficava comigo. Eu, pede carteira preta da estiva para ele Paraná. Eu só queria pedir, pedia ele me dava. A mulher dele era muito amiga. Quando ele foi embora, ele falou: "O mês que vem, vou embora, tá? O que você quer?" Ele me trouxe meia dúzia de whisky. Até me lembro bem, coloquei debaixo do carrinho, chegou um policial: "Oh, está vendendo muamba? Vai preso" Falei: "Problema é teu, está aqui, você quer chamar a delegacia, preso?" O Capitão dos Portos que me deu... Na época, o capitão dos portos é quem manda na cidade

PORTO
Estiva Carteira preta é para trabalhar no cais. É o melhor emprego que tem. Agora é e não é. Porque antigamente você tinha carteira, os caras: "Que comerciante abriu a porta para você, heim?" Maior respeito ao estivador. Hoje em dia, já caiu o serviço, compreendeu? O comércio abria a porta, que ele era dono da cidade. Porque ele escolhe o melhor emprego que tem no cais, carteira preta. Era aquele tempo bom. Hoje, só tem os antigos

PORTO
Transformações O porto mudou muito. Antigamente para mim, eu acho era muito melhor. Eu conheci tantos portos na Inglaterra, em Gênova, Itália, França, é diferente. Quando vim aqui era uma sujeira tremenda, agora está melhorzinho um pouco. O certo, eles têm que asfaltar aquilo, deixar bonito, para passageiro, para carro. Mas ninguém faz isso. Lembro do tempo dos navios de passageiros. Hoje tem, mas não tem onde que parar o navio. Sabe, não tem profundidade navio grande não pode atracar aqui. Só aqueles pequenos, Andréa "C", Flórida, não sei, só esses. Agora não tem profundidade. Lodo, tem que afundar aquilo ali, não é bicho de sete cabeças. Se nós não construímos uma ponte daqui até o Guarujá, é uma vergonha. Pode fazer por baixo ou por cima.

COMÉRCIO AMBULANTE
Propostas Já me convidaram, para vender mate em outras cidades. O Ney Serra me convidou, todo me convida, mas eu não vou. Chegou antigamente quando estavam construindo aí o Parque Balneário, chegou um amigo meu médico que jogava bola: "Paraná, você vai ser meu sócio." "Teu sócio, do que?" "É o seguinte, eu vou comprar uma loja no Parque Balneário, você entra meu sócio." Ele comprava a loja para mim, para ele, para mim trabalhar fazendo.... "Thum, thum, não espera isso." Eu estou lá no parque, eu não sei se é noite, dia o que é isso? Eu gosto de liberdade, heim? Você chega: "Vamos dar uma corridinha, Paraná?" "Vamos." Eu pego, corro. Liberdade não tem preço.

AVALIAÇÃO
Avaliação do comércio Olha, querida, trabalhando com carinho dá. Tudo dá. O que você planta, você colhe. Não tenho idéia de quanto vendo. Num dia bom vendo tudo, os 100 litros. Tudo que eu fizer. Vendo brincando. E não é para qualquer um não, tem que escolher. Quando tem pouco mate, eu prefiro não vender para gente de fora, aquele que eu conheço. Eu controlo para não faltar, entendeu? Nunca tive ajudante. Só minha mão e Deus, para que ajudante?

FILOSOFIA DE VIDA
Amizades O Joinville faz bolo para mim e me traz, qualquer um... Eu tenho tanto médico amigo, chegou até um juiz de direito empurrar meu carrinho quando eu trabalhava na areia. Essas amizades, eu tenho de montão. "O que você quer Paraná?" "Nada obrigado." A amizade é grande. Então, a gente constrói para tirar o fruto, viu? Primeira coisa, honestidade e ser honesto com tudo, viu? Não só na palavra, ter caráter é muito importante na vida, ganância não presta. Tem muitos aquilo que era do jornal que falava horóscopo, como chama? Morreu ele, o Murilo, do Jornal A Tribuna. Ele chegou: "Paraná, hoje você vai... Amanhã, você vai vender dois, três carrinhos." Eu fiz. Quando era 9:00 horas, virou o tempo. Eu fui na casa dele e joguei tudo no quintal dele. Mentiroso, sem vergonha, ele não... Aí, um desaforo. Eu corri, falei: "Sem vergonha esse tal de Murilo me falou quase nada e disse que sol, quando era 9:00 virou o tempo." Eu te falei porque até essa hora é tempo, né? Eu tenho tudo que eu quero na cidade. Já recebi título de Cidadão Santista. Recebi um prêmio lá no Memorial. Eu tenho aqui na Beneficência, todo lugar. Amigo é tudo, viu? Eu tenho muita amizade muito grande com promotores de direito.

AVALIAÇÃO
Pessoal Eu não gosto de mudar, eu queria ficar o que eu sou, eu amo essa cidade. Estive na Inglaterra, França, Espanha, África do Sul, tudo, não tem, que nem Santos não existe, não existe no planeta. Primeira coisa, temos 20 quilômetros de planície, dá para praticar esporte e o povo daqui é muito querido, muito amigo. A amizade que eu tenho... Todo mundo queria que eu me candidatasse a vereador, eu não quis. Porque para mim não me serve mentira, egoísmo, assinar papel por causa de dinheiro que nem a filha do Pelé, assinou. Não, não não... Eu coloquei presidente, conhece o Pestana? Vereador? Aqui da Beneficência, ele é presidente, eu falei: "Não, você vai ser eleito, eu vou apoiar você." Foi eleito. Ele está com aquelas catracas dos ônibus. Está apoiando essa turma. Eu falei: "Eu não vou me candidatar, você entra vai, vou apoiar você." Porque se eu quero me candidatar, eu chamo o Nuno Leal Maia, eu vou andar de Jipe, duas, três voltas pronto. Já saio eleito, não preciso gastar nada. Quantos não me falaram, eu sou muito popular. Eu tive escola de samba.

SANTOS
Carnaval Eu tive um bloco, o Bloco Mate onde há saudades. Eu tenho alvará, tenho tudo. É tudo da Academia da... Era Medicina, tudo... Do Canadá, tudo onde formava ali na orla da praia. Foi um ano só esse bloco, dá muito trabalho. Me deram muito trabalho. Então, aí eu falei: "Você faz Nóbrega." Jornalista, do Santa Cecília. Um grandão. Eu falei: "Você que faz, eu não quero saber." Está todos os papéis lá em casa". Depois saiu o bloco "Segura no bagre." Eu não aceitei, entrou o "Segura no bagre" um ano depois, não sei que ano 1978, 1968... por aí, não sei... As fantasias eram umas camisas listadas, shorts e boné. Eu me lembro bem, gostoso estava, mas sabe, que é muita dor de cabeça, muita. O Mesquita, doutor Mesquita tinha. Tinha polícia federal, tinha tudo igual que tinha o carnaval.

COMÉRCIO AMBULANTE
Lições Experiência na vida. Porque pega aquela amizade com o povo. Você está lidando com o povo. Então, você sendo homem direito, honesto, direito, você pega amizade com todo o mundo. Você está lidando com gente boa. Tem gente mau, tem gente boa, mas tudo pega o carinho com você. Tem cada mocinha, moço, homem, chega médico, advogado, me abraça e me beija.

AVALIAÇÃO
Depoimento É um prazer. Eu sinto como estou em casa lá, livre, viu? É um prazer estar com vocês. Fazer coisas úteis, boas na vida, né? Quando precisar disponha, tem mais coisa na vida.

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