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História

O comércio em Araraquara

História de: Ivo Dall´Acqua Júnior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/08/2005

Sinopse

Origem italiana dos avôs e de suas atividades. Os pais, a casa e a escola. Os colegas de sala e as principais brincadeiras. O grupo escolar, as aulas de educação física e a paixão pelas matérias de ciências humanas. As opções de lazer na cidade e da indústria do pai. O início da trajetória profissional como boy e a promoção para trabalhar internamente no banco. Mudança para São Paulo para trabalhar nas Tintas Wanda e início da faculdade de Direito no Largo São Francisco. A mudança de trajetória profissional, fundando junto com seus irmãos uma loja de tintas. As atividades da empresa. As atividades exercidas no Sindicato do Comércio Varejista e no Sesc. O comércio em Araraquara.

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História completa

P/1 – Poderia dizer qual o seu nome, local e data de nascimento?

 

R – Meu nome é Ivo Dall’Acqua Júnior, nasci em Araraquara, no dia 10 de novembro de 1946

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – Ivo Dall’ Acqua , meu pai, e minha mãe, Zuleika Bertoni Dall ‘Acqua.

 

P/1 – E o nome dos seus avós?

 

R – Meus avós paternos Higinio Dall’Acqua e Edwirges Coleratto Dall’ Acqua.

 

P/1 – E o nome dos seus avós maternos?

 

R – Pedro Bertoni e Iria Sampaio Bertoni

 

P/1 – Qual a origem do nome Dall’Acqua?

 

R – O meu avô é natural de Garello, província de Mantova, no norte da Itália. A província de Mantova é atualmente Lombardia, mas é da região de cultura veneta. E a minha avó era emiliana. Mas de uma região bem próxima a Mantova também.

 

P/1 – E qual era a atividade dos seus avós?

 

R – Meu avô, inicialmente, veio pro Brasil e voltou pra Itália. Fez o exército, e quando retornou, passou a trabalhar como administrador de fazenda. E foi quando ele se casou. Depois, eles se mudaram pra Araraquara e ele passou a ser representante comercial. Na época, não era representante comercial, era uma espécie de caixeiro viajante. Ele vendia os produtos Polengui, entre outros. Isso nos anos 30. E minha avó montou uma pequena indústria no fundo da residência pra fazer aquilo que os antigos diziam, pra poder dar um ofício para os filhos.

 

P/1 – São quantos irmãos?

 

R – Nós somos em seis. Quatro homens e duas mulheres.

 

P/1 –Qual era a atividade dos seus pais?

 

R – O meu pai era industrial, em conseqüência dessa providência da minha avó, de criar meios para dar um ofício aos filhos, né, mas em 59 a família vendeu a indústria, e ele passou a trabalhar como representante comercial. Inicialmente, ele trabalhava com

os vinhos, que vendíamos na indústria anteriormente, mas depois ele passou a trabalhar com tintas, tintas Wanda, ele vendia nessa região que começa aqui em Araraquara, até o sul de Minas Gerais. O triângulo mineiro. E em decorrência disso, eu também acabei entrando no mercado.

 

P/1 – Seu pai falou alguma coisa sobre como era o comércio nessa época?

 

R – Engraçado, esse tipo de conversa não era tanto com o meu pai. Ele tinha assuntos interessantes, era uma pessoa muito voltada para os acontecimentos, e tal, e a gente conversava pouco sobre trabalho. Essa coisa de trabalho era mais do lado da minha mãe, que tinha uma relação com isso muito forte, aquela coisa do dever, da consciência judaico- cristã, uma coisa até um tanto ou quanto evangélica com relação ao dever e o trabalho. Então, essas coisas eram mais fortes em casa, do lado da minha mãe. O meu pai gostava de contar as coisas interessantes do trabalho, aquilo que o fazia se sentir bem e se divertir trabalhando. Então, a relação que ele tinha era muito gostosa.

 

P/1 – Algum exemplo?

 

R – Ah, muitas histórias e algumas até impublicáveis às vezes, mas ele viajava pelo Interior antes de se iniciarem as construções das rodovias. Então, as pessoas viajavam pelas ferrovias, mas meu pai era um tanto ou quanto janota, dândi, e convenceu o irmão que o bom era ter um carro pra poder viajar. Era uma coisa trabalhosa, desconfortável, eles viajavam com guarda-pós e tal, e ele acabou comprando o carro com o dinheiro da empresa, aí meu irmão disse assim: “ De quem é esse carro?” Ele disse: “ É meu, pra minha viagem.” E ele disse: “ E quem pagou? E ele falou: “ Esqueci, o carro é nosso, para as nossas viagens.” Mas o meu pai usou anos o carro. Então, coisas desse tipo. Naquele tempo não se viajava dessa forma. A ferrovia era mais confortável. E as cidades principais cresciam nos eixos das ferrovias, né? Então, não tinha porque se inventar uma moda dessas. Mas ele gostava, achava elegante, fazia uma boa imagem, e com isso ele se deu bem.

 

P/1 – Ele tirava proveito dessa imagem?

 

R – Ah, sim. Tirava. Apesar de filho de imigrantes, e de ter tido apenas o 4o ano primário, ele passava a imagem de bem-nascido e bem-educado.

 

P/1 – Vamos falar um pouco da sua infância. O que se lembra?

 

R – Me lembro de algumas coisas. Aliás, a gente se lembra de muitas coisas, né, puxar algumas coisas agora seria...

 

P/1 – A rua, o bairro...

 

R – Eu nasci e morei a vida inteira num determinado trecho de Araraquara, era na Avenida Prudente de Moraes, entre a Rua Carvalho Filho e a Gonçalves Dias. Que era perto da casa da minha avó materna, onde era a fábrica, a gente chamava de fábrica, hoje se fala indústria. Pra nós, a fábrica. Era o nosso negócio. Então, era um trecho mais ou menos novo da cidade, embora pertíssimo do centro atual, do centro velho, mas estava se abrindo aquela época. E a gente morava num conjunto de casas idênticas, porque àquela época as pessoas que tinham alguma capital, fazendeiros, construíam casas pra locação na cidade. Era uma forma de... a previdência era incipiente ainda, as pessoas não pensavam em algum tipo de provento para os dias difíceis que não esses, e eu nasci e cresci num lugar pra onde foram morar muitos casais relativamente novos, então, depois de alguns anos, éramos em 26 crianças naquela quadra, que crescemos juntas. Foi uma coisa interessante. Paulista não faz muito esse tipo de coisa, mas mineiro gosta de contar. Então, quando vejo livros ou filmes de autores mineiros contando essas coisas da infância, logicamente que isso me remete à minha, e foi um período muito bom do ponto de vista... foi saudável, a gente teve uma educação rígida, uma consciência de dever muito presente, e quando a gente foi pra escola ela era muito boa, a escola pública era muito boa, havia uma consciência participativa da comunidade em torno da escola, tal, então, até o momento que comecei a trabalhar, acho que fui privilegiado. E Araraquara oferecia equipamentos interessantes, já tínhamos uma biblioteca pública, a biblioteca foi inaugurada acho que em 57, então a gente tinha disponibilizadas armas importantes para a formação, tínhamos uma elite de professores muito qualificada, foi muito bom. Quando fiz 40 anos, até mapeei todos os professores que tive desde o primário até a 4a série ginasial, né, o rito de passagem foi esse. Porque ai fui fazer o curso da escola de contabilidade, mapeei todos os que estavam vivos e procurei fazer contato, mandei um oficio pra cada um deles, flores para as professoras, e um presente pra cada um dos professores, e foi muito legal. Os que ainda hoje estão entre nós, até hoje me festejam muito por conta disso. Mas eu não podia deixar de lembrar dessas pessoas porque foram essenciais naquilo que passaram pra mim. Foi muito importante. Foram tão importantes quanto a minha família.

 

P/2 – Aquele grupo de amigos, quem que fazia parte dos 26, daquela turma da rua?

 

R – Olha, da turma da rua, hoje, a gente tem pouco contato com todos. Mas, por exemplo, o Waldemir, mora nos Estados Unidos. Ele é médico. O Waldir, irmão dele, mora no Paraná. É médico também. O Zé Henrique e a Maria Helena foram pra Corumbá. As meninas da Rosa, eram as cinco sobrinhas da Rosa Freire, também não estão aqui em Araraquara. A Maria do Carmo mora no México, casou-se com o Toni, então, quem eu tenho muito contato hoje? O Zé Roberto, que é gerente da Caixa Econômica, e a gente está sempre junto, o Bento Prado é professor da UNESP, a gente tem muito pouco contato com ele por conta da vida acadêmica, o Celso Luís e o Carlos também a gente está com pouquíssimo contato, olha, da turma da rua ficou a saudade e o convívio com o Zé Roberto.

 

P/2 – E o que vocês faziam de brincadeiras na rua?

 

R – Ah. A gente brincava de tudo que se brincava naquela época. E, não sei se a gente era mais criança, se exercitava melhor essa questão do lúdico, então qualquer coisa era brincadeira. No meio da quadra tinha a casa grande, da família Dias, do Zé Roberto, e tinha uma mangueira enorme lá. Era uma casa de fazenda inserida no centro de uma cidade, quer dizer, com entrada monumental, como casa de fazenda, e um grande quintal, a gente se reunia demais lá. Então, os quatro meninos em casa eram os mais velhos. E as meninas, mais novas. As meninas tiveram pouco convívio com isso, mas os meninos faziam parte da turma, né, junto com quem já mencionei anteriormente. Quando estávamos com as meninas junto, brincava-se de outras coisas. Desde esconde-esconde, que é uma coisa muito, até alguma pelada, algum esporte, tal, muito embora não se tivesse equipamento. O Paulinho conseguiu ganhar uma bola quando fez 12 anos. Uma bola que a gente chamava na época de bola de capotão, porque era de couro, né? E essas coisas eram quase que inacessíveis. O imaginário funcionava muito mais. Brinquedo a gente ganhava um no Natal. Não que nós fossemos pobres. Pro padrão da época, estávamos muito bem. Mas é que o acesso ao consumo não tinha sido ainda institucionalizado como uma coisa essencial pra se buscar a felicidade. A gente era feliz de outro jeito.

 

P/1 – Tinha épocas de brincadeiras específicas?

 

R – Ah, sim. Tinha época de papagaios, por exemplo, que fora de Araraquara chamam de pipa, então nessa época todos faziam os seus. E o quarteirão ficava cheio de crianças brincando com os papagaios. Outra coisa que a gente jogava muito era futebol de botão. Mas com botões que a gente surrupiava de roupas mais velhas, e tudo o mais, porque os botões eram caros, eram ingleses, de osso, um botão era uma peça muito cara do vestuário e a gente tinha que raspar o botão, polir, pra ele poder correr. A gente jogava no chão de ladrilho, né, que era um tipo de revestimento que se usava na época. Ladrilho hidráulico, é. É muito forte aqui em Araraquara. Então essas coisas foram muito presentes.

 

P/1 – E a sua casa, como era?

 

R – Minha casa era uma casa grande quando a gente se mudou pra lá, e quando a gente se mudou de lá, 25 anos depois, era uma casa pequena. Porque era uma casa com dois quartos e duas salas. Que teve uma das salas transformada em outro quarto. Porque as meninas vieram. Então morávamos em oito numa casa que originalmente tinha dois quartos e não teve a estrutura física modificada .Era daquelas casas que tinham um porão, o pé direito mais alto, uma casa muito arejada, tinha uma laranjeira grande no quintal, onde a gente brincava de subir, onde a gente se escondia do mundo, onde a gente tinha o castelinho da gente. Ah! E tinha uma coisa gostosa na minha casa. Eu tinha um tio muito habilidoso, e ele fabricou pra gente um conjunto de um trapézio, um balanço, e uma escada, onde se inseria uma gangorra. E meu pai cercou e botou areia lá. Então, tínhamos um tanque de areia com esses brinquedos. Isso era uma coisa absolutamente luxuosa, eqüivaleria, nos tempos de hoje, a você ter uma piscina olímpica no quintal da tua casa. Então, nas tardes, as crianças iam pra minha casa pra brincar. Porque era um equipamento de altíssimo luxo. Coisa que você faz com conduite de ferro. Mas que coisa fantástica nós tínhamos.

 

P/1 – Agora fale um pouquinho sobre o cotidiano da escola...

 

R – Bom, a escola foi muito interessante, tivemos o curso primário no Grupo Escolar. Naquela época, os Grupos Escolares eram uma instituição muito forte, e nessa época a gente teve convívio com muita gente interessante, os professores eram muito participantes, e a educação tinha um outro tipo de cunho. E aí fui pro ginásio. Esse foi fortíssimo, marcante demais. Foi um contato muito enriquecedor. Tivemos uma turma muito boa no ginásio. Tão boa, tão boa, que as pessoas que estão aí definindo as questões relativas à Araraquara eram daquela geração, daquele grupo, daquela escola. Era o Instituto de Educação Bento de Abreu - Ieba que quando do meu ingresso funcionou no prédio onde é hoje a Casa da Cultura. Que depois abrigou a Faculdade de Filosofia, hoje esse Instituto está aqui na Rua Padre Duarte. Um prédio grande, que era tão importante que à época foi inaugurado pelo governador Carvalho Pinto. Foi um acontecimento aqui em Araraquara a inauguração da nova sede do Instituto de Educação. Que, pro momento, era um diferencial. E que de certa forma foi o embrião da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que hoje é o departamento mais importante do campus da UNESP de Araraquara. E nessa época, funcionava lá em baixo, na Rua São Bento, inclusive não tinha estrutura pra certas coisas. Nós tínhamos aula de educação física no antigo departamento de esportes, aqui na Rua São Bento, o departamento era uma novidade absoluta, aqui em Araraquara. Ele foi criado pelo Cid Fragoso Ferrão, nos anos 40. Era onde hoje é a Escola Industrial Ana de Oliveira Ferraz, naquela quadra da Rua São Bento com a Prudente, a Bandeirantes e a Padre Duarte. E. tinha um conjunto de... tinha pista de atletismo, duas quadras esportivas, conjunto de vestiários e equipamentos pra ginástica em aparelhos, e aparentemente, uma coisa modesta. Mas que foi de muita utilidade, revelou gente, dali, enquanto professor saiu o Júlio Mazzei que revolucionou o conceito da preparação física dos atletas, porque o Palmeiras contratou o Júlio Mazzei pra cuidar dessa parte dos atletas, mas isso não era uma coisa bem recebida pelos atletas profissionais da época e o Pelé, que parece que já deu o exemplo de ser uma das pessoas mais inteligentes e sensíveis que passaram por este país, o chamou para o Santos pra cuidar particularmente da sua preparação. Daí o Júlio passou a cuidar do time do Santos. E quando o Pelé foi pra os Estados Unidos, o Júlio passou a ser o gerente dos negócios do Pelé, porque é uma pessoa em quem ele tem absoluta confiança. Dos joguinhos do acampamento, também saiu o Rosa Branca, que há 20 anos é funcionário do SESC, foi bicampeão brasileiro de basquete, então, muita coisa ocorreu por ali. Então nós fazíamos educação física por ali, e no centro, no prédio velho, tínhamos as aulas, que tinham aquele aspecto de academia mesmo, né, tinha um pequeno laboratório de ciências, tal, mas mesmo com aquela postura acadêmica, aquela postura monocórdica do professor, tipo o lente e tal, eles conseguiram passar um volume muito bom de informações e conhecimentos que acho que deu uma massa crítica legal pra aquela geração. Acho que a geração é boa. E hoje, daquela turma, faziam parte e a gente tem convívio até hoje, quer dizer, eu tenho mais convívio com esse pessoal do que o pessoal da infância, da rua, então tem a Heloísa Michetti, que é minha grande amiga, e foi secretária da Educação aqui no município, o Reginaldo Fiu que foi secretário de Administração do governo anterior, alguns derivaram para outras áreas, de medicina, ah, a Heloísa Barreto é uma grande ..é autoridade na questão de análise de alimentos do Instituto Adolfo Lutz, é reconhecida mundialmente, quer dizer, e gente que fez muita coisa muito boa pela cidade e pelos projetos que a gente pudesse ter. Então, foi um período muito rico. E o pessoal que veio a compor o corpo docente da UNESP, posteriormente, é o pessoal da nossa geração, a Yara Areias, ela hoje é a coordenadora do ensino fundamental, Paulo Renato no Ministério da Educação, e todo esse projeto de reformulação está passando por ela, e foi a geração da gente. Porque a nossa geração foi pra universidade a partir de 65, e foi um período muito rico, né, eu entrei em 68 na USP. E nem se cogitava na época de você fazer uma preparação especial pra buscar a USP porque nem se precisava. Porque nós não fomos formados pra ser colocadores de X em quadradinhos, que você opta numa prova de múltipla escolha. A gente foi formado pra pensar, mesmo. Isso é muito bom.

 

P/2 - O que você gostava mais no Instituto.

 

R - Eu sempre gostei de tudo na área de Humanidades. Gosto muito de história, mas tem aí um componente. É que, embora por um período curto, fui aluno da Ana Maria Martinez, e fui aluno da Cidinha Valério também, né? Então, tem motivo pra gostar .Eu não gostava de matemática e passei a gostar porque fui aluno do professor Ulisses. Gosto demais de geografia. Sempre gostei de geografia econômica, humana, tenho uma relação muito boa com esse tipo de informação. Gosto de saber das coisas, das pessoas e porque a sociedade se estrutura dessa forma. Daí eu ter pensado inicialmente em partir ou pra sociologia ou pra alguma coisa que tratasse disso também, porque estava gostando um pouco de matemática, pra arquitetura, que está na área de Humanidades também, embora você precise adicionalmente de outros conhecimentos. E acabei optando por Direito, porque à época eu pensava que talvez fosse interessante em função de gostar tanto de Humanidades, tentar uma carreira no Itamarati. Mas foi um projeto que acabou virando bolha de sabão. Não sei se não sou tenaz o suficiente, ou se surgiram motivos suficientes pra que eu desistisse da idéia. Porque, depois do AI- 5, você também se sentia desestimulado. Quer dizer, você se prepara tanto pra uma carreira, e vem alguém que só porque usa roupa verde e tem alguns galões toma o lugar de quem devesse ser da carreira. Esse período foi muito difícil para o país e acho que a gente desaprendeu uma porção de coisas importantes, e muita gente se desestimulou, muita gente passou a pensar um pouco no si mesmo, no individual, e na competição nos moldes que as sociedades saxônicas, pregam, coisas desse tipo. Então, não sei se estou usando isso como desculpa pelo projeto que abortou, ou se na verdade isso é verdade. É uma coisa de conversar um pouco comigo. Ainda não tive tempo pra me aprofundar nesse assunto.

 

P/2 – Ainda do Instituto. Tinha uniforme?

 

R – Tinha, tinha. No Instituto a gente usava roupa cáqui, com gravata preta. E a gente odiava aquela roupa. Primeiro, porque era cáqui. Então você via desde um verde quase oliva, até um amarelo quase ocre. Então, não existia uma uniformidade de padrão. A gente crescia muito à época. E as mães eram obrigadas a baixar as barras da gente. Até então, não tinha sido inventada essa barra italiana, que você simplesmente dobra e... Não. Então, a roupa desbotava por fora, e na hora que desmanchava a barra ficava aquela faixa lá em baixo, como se fossem dois galões. E a gente era obrigado a usar isso porque não dava pra ser diferente. Era muito feio. Até que conseguimos, eu estava na 2a série, houve um movimento dos alunos, liderados pelo professor Plínio, que instituiu uma fanfarra, e a partir disso decidimos ter um uniforme de gala pra poder desfilar com a fanfarra. Marcou época. E foi tão forte a história da fanfarra, que a partir desse ano passou a existir um concurso de fanfarras, que depois se transformou em concurso de bandas, e até há uns dez anos existia um grupo especialmente constituído pra tratar desses concursos, vinham as bandas mais bonitas do Brasil todo pra cá. Depois, isso acabou se perdendo. Um pouco por falta de institucionalização, acho que as coisas boas precisam ser institucionalizadas para que se garanta a continuidade, e um pouco também por falta de formação em elementos essenciais da cultura da forma como o curso médio passou a ser tratado. Então, você deixou de ter aula de música, de algumas disciplinas que eram importantes anteriormente. Fizemos um uniforme branco muito bonito, com uma faixa azul na calça, e um blusão ousadíssimo pra época, porque era aquele que o James Dean usava em Juventude Transviada, que hoje qualquer pessoa usa e acha a roupa absolutamente normal, mas foi uma ousadia. Um blusão com uma águia impressa nas costas. A gente ostentava com muito orgulho, talvez pela força da águia ou alguma coisa assim.

 

P/2 – Que significava a águia?

 

R – A águia ... ela enxerga muito longe, é a ave que tem mais força, é poderosa, não voa tão alto como o condor, mas ela... acho que o significado da águia era um pouco isso.

 

P/1 – Queria que falasse sobre a juventude na escola, o que tinha de divertimento na cidade?

 

R – Havia muita coisa. Embora a gente sempre achasse que era pouco. Tínhamos atividades ligadas ao colégio, os cinemas eram muito bons, programação muito diferenciada, Araraquara naquele momento tinha dois cinemas no centro, que existem até hoje, na época era Odeon e Paratodos. E o Odeon já era uma reforma do antigo cine São Bento, e o Paratodos era um cinema novo. Que foi inaugurado no fim dos anos 30, novo, mas era Paratodos desde sempre. E, no final dos anos 50, foi construído o Cine 9 de Julho, depois reformado, daí virou Plaza, e hoje é a Igreja Universal do Reino de Deus, infelizmente, e o Odeon e o Paratodos é atualmente o Capri E naquela época foi construído o Coral, que era no bairro do Carmo, que hoje não existe mais. Mas a programação era muito boa, recebíamos uma programação de filmes de muitos países, não era como hoje, só americana, ou da grande produção do capital internacional. Nós tínhamos filmes franceses, filmes italianos, espanhóis, alguma coisa do cinema nórdico, algumas vezes filmes japoneses, tal, e era uma coisa importante. A gente ia muito ao cinema. Outra coisa que motivava muito a gente eram as competições esportivas. Tínhamos as competições intercolégios, e os times da cidade que disputavam os Jogos Abertos do Interior, e se preparavam pra isso. Araraquara, naquela época, estava começando a jogar futebol de salão. A primeira liga organizada de futebol de salão, que é um esporte brasileiro, foi aqui de Araraquara, dos anos 50, meados dos anos 50. Foi um jornalista aqui de Araraquara que implantou, e a gente tinha uma certa tradição, uma certa elegância na prática desses esportes. E as competições intercolégios eram muito boas. Eram os Jogos da Primavera. Hoje também não existem mais. E depois também foram descontinuados, ficando apenas as competições de vôlei, e tal, mas eram importantes. Existem os bailes dos clubes, mas do que a gente gostava mesmo é do que a gente chamava de brincadeiras dançantes. E não era com orquestra. A gente brincava , dizia, “ com pick-up e seus negrito”. Porque era o sonho de consumo de todos os jovens da época ter um toca-discos marca Sonata, que era semiportátil, né, a gente achava aquele som o máximo. Hoje, quando vejo a falta de qualidade de definição, penso, como é que podia gostar tanto? Mas gostava, era uma maravilha. E estavam acontecendo coisas interessantes , havia a criação de uma linguagem jovem pra música brasileira, era uma época que estavam surgindo o Toni e a Celi Campello, e foi um período muito gostoso, sabe, a relação era muito saudável, lógico, a gente gostava também do time da Ferroviária, que foi fundada em 51 e se transformou num grande clube logo em seguida. Em 59 ela fazia sombra e batia no Santos do Pelé, e era uma coisa muito importante pra nós quando vinha jogar o Santos, por conta de bater no Pelé. E quando vinha jogar o Palmeiras, por conta da identidade étnica. Naquela época, as coisas eram mais ou menos assim. Nós tínhamos um grupo de teatro muito importante, o Teca, com repertório. E esse pessoal era ousado. Tão ousado que chegaram a fazer dois filmes usando material recuperado. Montaram na Estrada de Ferro Araraquara um laboratório pra revelação dos copiões, e utilizavam filmes velhos apagados, e os dois filmes que fizemos aqui foram filmados, revelados aqui, e apresentados publicamente, inclusive dentro de um Festival de Cinema Brasileiro. O Wallace Leal comandava esse grupo, era um grupo muito antenado com o que estava acontecendo no resto do mundo, porque o repertório era embasado em Coward, que já era um autor mais consagrado, e Tenessee Williams que era um autor que estava começando a ser pesquisado no Brasil. Isso nos anos 50, por causa da explosão de “Um bonde chamado desejo.” Mas ele trabalhava outros textos do Tenessee Williams, e alguns autores nacionais eram privilegiados. O conceito de arena foi implantado aqui em Araraquara em 58, na temporada do Teca de 58, quando o Wallace limpou a platéia do teatro, elevou o seu piso, porque o teatro tinha engenhocas que possibilitavam esse tipo de coisa, e apresentou a primeira temporada em arena. E a primeira peça foi “Amigos de Viagem”, do Coward. Foi muito interessante. Então, tínhamos aqui os nossos artistas, o coral araraquarense tinha formação lírica... foi uma pena que o maestro Tescari faleceu nessa época , mas a gente tinha uma formação musical muito forte. Na rádio Cultura tinha programas de auditório, tinha um auditório muito bom e tinha programas ao vivo de música erudita e de música popular com o Trio Marajó, programas de variedades, animados pelo Ênio Rodrigues, que depois foi para a rádio Bandeirantes e fez carreira, pelo Cicarelli que fez carreira na TV Cultura, moraram aqui a Lélia Abramo, a família Abramo morou aqui, né. Eles eram anarquistas, graças a Deus, o Lívio teve uma produção muito grande aqui, depois ele mudou-se para Assunção no Paraguai, algumas coisas do Lívio na área de xilogravura, o Cláudio, Lélia, a Riva Nimitz morou aqui, embora não seja nascida aqui, o Sebastião Campos fez carreira na Tupi, então a gente tinha um grupo muito legal. Era uma coisa muito rica, muito forte. E essas pessoas influenciavam muito tudo o que se fazia aqui. Tivemos a Escola de Belas Artes, que tem uma presença muito forte do ponto de vista estético aqui em Araraquara, a Escola teve duas fases bem distintas, a segunda comandada pelo Mário Barra de Almeida, que é o único filho reconhecido do Almeida Júnior, e a gente tem uma geração de artistas muito interessantes formada na época da segunda fase da Escola. Na parte acadêmica o Ernesto Lias despontou mais fortemente, e na parte mais moderna o Amêndola. E até hoje eles são rivais, é muito interessante. Ah, sim, tinha que ser! Os artistas daquela época cultivavam rivalidades estéticas e isso era muito engraçado.

 

P/1 – Como era o contato com São Paulo, com as manifestações culturais ...

 

R – Olha, era uma coisa tão interessante, porque a gente não tinha Internet, não tinha TV a cabo, não tinha satélite, pra falar no telefone você esperava horas, e no final dos anos 50, a França disseminou pelo mundo a idéia de Casa da Cultura. A gente tem documentos arquivados na Casa da Cultura que era o Grupo dos Intelectuais Jovens de Araraquara, que se reunia nos anos 40, e está lá nas atas deles, as sugestões para a criação de um espaço chamado Casa da Cultura , onde se cuidasse das várias expressões artísticas e tal, então, há algumas coisas que nem se explicam. Que na verdade, as influências não vêem de uma forma direta. Elas vêem de forma indireta. Então, você consegue explicar coisas aparentemente inexplicáveis, como por exemplo, falando uma bobagem , a influência do simbolismo, que foi uma linguagem esteticamente de artes plásticas , na música nórdica no século XIX, você consegue fazer isso porque algumas influências se explicam através de outras ações. Então, por exemplo, na produção do maestro Tescari , que viveu entre nós dos anos 10 até a morte dele, em 57, ele tem 304 peças registradas. Sendo quatro óperas. Eu conheço inteiramente, e muito bem, o Sacrifício de Abraão, que é uma ópera em dois atos. Essa ópera ele terminou no final dos anos 20. Bom, Puccini morreu em 24. Verdi morreu antes. Agora, Mahle viveu nessa época e compôs nessa época. E você identifica. Aquela grandiosidade do Verdi, aquela coisa do crescendo, aquela dramaticidade do Puccini, aquela coisa trágica e ao mesmo tempo aquele intimismo do Mahle. Você identifica muito bem. E como é que pode? Se não tinha nem disco na época. Se a partitura era lida e você dava a ela a interpretação que bem entendesse. Era uma coisa meio recente aquela coisa da leitura da partitura, porque as músicas passaram a ser escritas a partir do século XVI. Quer dizer, a linguagem foi definida, mas assim mesmo são referências, não se diz que aquilo tinha que ser tocado daquele jeito. E como é que você consegue explicar um negócio desses. Então, uma cidade que estava a 270 km, que não eram 270, eram 308, porque se chegava à capital pela estrada de ferro, e se viajava sete horas pra isso, era um fim de mundo isso. E as coisas aconteciam. Então a influência era grande, e talvez pelo fato de os contatos serem difíceis, as pessoas os exercitavam à exaustão, quer dizer, conseguiam fazer como o fabricante de suco de laranja hoje. Não perde nem o cheiro. Embala o perfume pra vender. Mas à época as coisas eram assim. Pra mim foi um privilégio ter nascido logo depois do final da guerra, e ter vivido os anos 50, que foram muito ricos, numa cidade que aparentemente era calma, mas que tinha essa efervescência toda.

 

P/1 – Como você se relacionava com tudo isso?

 

R – Ah, era uma coisa assim. Eu não era um esportista, sempre fui um espectador , sempre gostei de pensar as coisas e nunca de ... mas eu sempre participava de tudo porque sempre gostei dos grupos, das pessoas. Mas levava a sério o que me diziam. Então, no dia que a dona Fanny disse : “Olha, está vindo o filósofo Jean-Paul Sartre, ele vai fazer uma conferência, talvez vocês nem entendam direito o que ele vai falar, mas é muito importante o que ele vai dizer. Tentem, pelo menos pra ouvir um pouquinho do francês, porque o meu francês é um francês de brasileira que aprendeu na França, mas é de brasileira, o dele é muito melhor.” Aí eu fui à conferência. Então, aí você aprende a exercitar esse tipo de coisa. Eu sempre acreditei. Quando alguém me diz que a coisa é boa, deve ter um motivo. Então eu vou.

 

P/1 - Quais as coisas que te marcaram.... Do Sartre, do que você lembra?

 

R – Ah, muita coisa. Olha, estive no Teatro Municipal. Não assisti à conferência do IEBA que nem cabia todo o mundo lá. Foi na implantação da Faculdade de Filosofia. Eu me lembro mais da parte externa do que da interna. Eu me lembro do casal saindo, descendo a Avenida Duque de Caxias, achei a Simone pedante, mas era uma francesa... eu imaginava, talvez as francesas sejam assim, né Porque eu tinha uma imagem do cinema francês, né, e daquela senhora , que era uma diva da literatura. Então, me lembro mais de coisas decorrentes do que propriamente da conferência em si, que vim a conhecer no livro. Foi editado um livro pela... posteriormente, né, “Conferência de Araraquara” mereceu esse privilégio. E depois, foi como um rito de passagem pra nossa história cultural. Acho que a coisa mais forte, o momento mágico que mexeu comigo, foi a encenação de “Amigos de Viagem”, que o Wallace dirigiu em arena, no Teatro Municipal. E...

 

P/2 – Você tinha quantos anos?

 

R – Tinha 12. Mas gostei do texto, achei que aquilo era um jeito tão inteligente de se comunicar, sabe, gosto daquele humor cáustico do Coward, sabe, foi muito forte. E a Júlia Abraão, pra mim, uma diva. Até, um dia, escrevi um artigo em homenagem a ela. Afinal de contas, a gente não precisa buscar as divas, pessoas distantes da gente. É legal você se reconhecer em alguém tão especial e tão perto. O gosto pelo teatro veio daí, sabe? Estudei música, também. Mas achava que, por que é que eu tinha que tocar, se as pessoas faziam melhor e eu podia apreciar .Uma coisa meio assim. Então, estudei o suficiente pra saber o que significa aquilo tudo. Hoje, se você me pedir pra repetir qualquer coisa, num instrumento, no piano, violão, olha, vai sair muito mal. Identifico todas as notas, junto três ou quatro, mas não vai sair uma coisa legal. Vai sair meio tocador de órgão de churrascaria, que acho ridículo.

 

P/2 – Como vocês se vestiam nessa época?

 

R – Ah, a roupa era meio caretinha, sabe. Do jeito que eu me visto hoje, careta. Tinha pouca ousadia. As coisas começaram a mudar um pouco no final dos anos 60. E a gente acompanhava o formal, mesmo. E... não havia muita imaginação naquele tempo. Menino era menino, tinha que andar daquele jeito, pronto. Agora, as meninas, não. Elas pareciam bolos de aniversário. Porque eram enfeitadas de rendas e laços, né? Então, era uma coisa meio desequilibrada. Mas era assim que a gente se vestia.

 

P/1 – E como se dava a paquera?

 

R – Ah, a paquera não foi uma coisa interessante. Porque ...era uma coisa muito elegante, muito discreta... a gente tinha horror de levar um fora, e por isso mesmo você não ousava, né, e então a paquera era meio complicadinha, e o footing era na Rua São Bento, que tinha uma conformação física idêntica à da Voluntários da Pátria. Eram os mesmos oitis da Voluntários da Pátria, porque foram plantados na São Bento e na Voluntários da Pátria. Em 1911, isso. E naqueles anos eles ainda não tinham o porte que têm hoje, as árvores eram bonitas, a rua, os postes também, eram de ferro batido, né, com um conjunto de três lâmpadas, e as moças desciam a Rua São Bento em frente ao cine Odeon, até a Esplanada das Rosas, em frente do lugar onde é a prefeitura hoje, que era o teatro Municipal e o Clube Araraquarense. Do conjunto hoje não existe o Teatro Municipal. Mas o Hotel Municipal está lá, o clube está lá, a Casa da Cultura, que era o Instituto de Educação, a Câmara Municipal, onde era a prefeitura, antigamente, porque Câmara era onde hoje funciona o Museu. Isso foi a Escola de Belas Artes também. E então, a paquera era assim: as moças iam e vinham, e a gente ficava olhando. Até que alguém ia falar com elas. Esse período, pra mim, foi um período de pré, né, porque eu saí daqui com 15 pra 16 anos, pra ir pra São Paulo. E nessa época, 15 anos era um pouco cedo pra namorar. Diziam pra gente que era cedo e a gente acreditava, né? Obedecia. Então, os namoricos eram... eram até interessantes, porque muito românticos, é. Porque o amor romântico é uma invenção burguesa, né, e é de um período recente. É posterior daquele ....aquela instituição epistolada, das primeiras comunicações, e tal. Mas era um período em que se exercitava esse romantismo, imaginação, e tudo, os próprios ritmos da época, e nós tínhamos o Araraquara Repórter, que era um serviço de alto-falante na praça, e uma música que eu ouço e me remete à imagem daqueles momentos, que é a Dinnah Washington cantando “What a difference a day makes.” Mas daí não sei se esse remetimento é porque Araraquara era sofisticada, em termos de gosto musical, ou se fui eu que selecionei essa música.

 

P/1 – E no comércio, seu pai nessa época já tinha indústria?

 

R – É, a gente transferiu a indústria em 59.

 

P/1 – E você freqüentava essa indústria?

 

R – É, freqüentava. Eu gostava muito de ir à sessão de embalagem de balas, eram mesas enormes onde se colocavam as balas, e as moças embrulhavam uma a uma. E eu gostava particularmente de ajudá-las a embrulhar os caramelos quadradinhos, porque a embalagem era toda dobrada. Então, tinha um pequeno arco de metal na beirada da mesa, e você botava embalagem da bala, punha a bala e dobrava uma a uma . E era uma equipe enorme de moças, elas eram muito engraçadas, trabalhavam alegres, rindo, e às vezes me sentava ali com elas e ficava horas embrulhando bala. Outra coisa que eu gostava muito era quando engarrafávamos o vinho também, quer dizer, o exercício era todo o dia. Então os tonéis eram depositados, eram 200 litros cada tonel de madeira, e recebíamos o vinho básico do Rio Grande do Sul e dávamos o padrão da nossa marca, né? Então, o vinho era tratado, descansado e depois ia pro engarrafamento, depois de um tempo de descanso. E era gostoso justamente participar do engarrafamento. Eram torneiras de madeira que saíam dos tonéis, que eram colocados um a um, né, e precisava sempre de dois homens pra colocar os tonéis no suporte. E a gente tinha uma espécie de distribuidor, com quatro pinos, que entravam nas garrafas. Com o peso da garrafa, eles paravam no momento em que a garrafa ficava cheia. Então, o embalador tinha que trocar as garrafas de pino. Eu gostava também de ajudar nessa tarefa. Era uma coisa divertida. Eu não gostava muito do escritório. Achava que a parte divertida da fábrica era onde estavam os operários. Eram muitas moças que trabalhavam ali. Algumas ficaram minhas amigas, hoje senhoras, quase vetustas, mas era uma coisa forte. E em decorrência da necessidade, na época não se terceirizava, tínhamos um carpinteiro que fazia os engradados pra colocar as garrafas embaladas, fazíamos a seleção da palha para aquelas garrafas que iam em sacos de aniagem embalados em palha, então tínhamos esse tipo de artesãos trabalhando com a gente, né, e acabava sendo, pra criança, um pouco lúdico isso. E talvez por isso eu gostasse do ambiente, do pessoal.

 

P/2 – Tinha algum cheiro característico?

 

R – Ah, sim. Era uma delícia quando você trabalhava doce de leite, tinha aquele cheiro de caramelo que ficava no ar, era muito bom. Era prazeroso isso, sabe? E outra coisa. Você está ajudando, então você vai e come uma, duas e três não sei quantas devo ter consumido nesse período e nem sei como não sou obeso. De tanto açúcar à disposição.

 

P/1 – Seus irmãos estava sempre junto também?

 

R – O Marcos. Os outros, não. Porque o Marcos nasceu em 49, né. Então, ele tinha 10 anos quando vendemos a fábrica. Os outros já eram bem mais novos e não desfrutaram desse tempo. Acho que desfrutar é uma palavra legal porque define como era gostoso aquilo.

 

P/2 – Como se chamava a fábrica?

 

R – A Mantovana. Porque meu avô era da província de Mantova, Itália. Foi um período gostoso. Foi a primeira infância, inclusive, né?

 

P/1 – Depois que a fábrica foi vendida vocês vieram pra São Paulo?

 

R – Não, não. A gente continuou aqui. Fui sozinho pra São Paulo. Fui pra trabalhar nas tintas Wanda. Porque meu tio trabalhava lá e me arrumou um trabalho. Então fui, porque afinal de contas, como se dizia naquela época, precisava me encaminhar.

 

P/1 – Qual era a atividade nesse trabalho?

 

R – Eu já trabalhava aqui, no escritório de contabilidade. E entrei no escritório pra fazer serviço de boy, serviço externo. Como eu tinha uma caligrafia muito boa, eles descobriram sem querer, porque eu já era datilógrafo relativamente hábil . Um dia eu ia ao Banco do Brasil fazer um pagamento, e o dono do escritório pediu pra eu fazer uma relação das guias que eu estava levando. Que por sinal, era o pagamento da contribuição sindical. Pagava-se no dia 31 de janeiro de cada ano. Na época. E nesse dia, ele pediu pra fazer uma relação e peguei o papel, botei na máquina, e ele falou assim: “Não senhor, não, faça à mão, porque à máquina você vai demorar muito” Ele nem sabia que eu escrevia bem à máquina. Porque eu fazia serviço externos, e mesmo fazia faxina. Mas era engraçado. Porque eram três meninos, e os outros dois não faziam a faxina do lado de fora, por nada. Que era para as outras meninas não verem, porque eles tinham vergonha. E eles dois moravam na periferia de Araraquara. E eu, numa boa. Eu estudava no melhor colégio, e ia lá, varria o chão, e as meninas que moravam na casa em frente e estudavam no colégio comigo, vinham conversar comigo, na boa. E eles ficavam admirados. Então a Zezé e as outras, que sempre foram muito bonitas, ainda são hoje, atravessavam a rua, vinham conversar comigo enquanto eu varria a calçada. Então eu fazia esse tipo de trabalho. Aí, nesse dia, o Waldomiro pediu pra eu fazer uma relação à mão, sentei numa mesa ali no cantinho, fiz a relação e entreguei pra ele. Aí, quando voltei, ele perguntou: “ Pagou tudo?.” “Paguei” “ Foi você que escreveu isso?” “Lógico, seu Waldomiro.” E ele disse: “Você tem uma letra boa, não? Vou te ensinar a passar livro-razão.” Aí os outros dois ficaram morrendo de ciúmes, porque o que eles mais queriam era não fazer serviços de boy e serviços externos. E eu passei a fazer serviços internos de escritório muito antes. Mas é porque eu estava disponível e eles nunca estavam. Porque eles tinham preconceitos com relação a algumas atividades. E eu não podia ter preconceito, de jeito nenhum, porque aquelas coisas eu tinha que fazer na minha casa. Porque minha mãe perdeu a visão quando eu tinha 12 anos, e a gente teve que compartilhar o serviço doméstico pra poder dar conta.

 

P/1 – Onde você aprendeu datilografia?

 

R - Ah, com o seu Marcílio Maragolli, como meia Araraquara conseguiu aprender. Ele era meu vizinho.

 

P/1 – Era uma escola de datilografia?

 

R – Ele tinha um conjunto de máquinas antigas, aquelas Underwod, né, e funcionavam até o momento em que fui lá aprender datilografia também. Meus irmãos acho que aprenderam no SENAC, mas eu sou pré- SENAC, tenho a idade do SENAC, nasci em 46, como o SENAC.

 

P/1 - Continuando no seu trabalho de contabilidade, depois que você passou a executar trabalhos de escritório...

 

R – Então, daí comecei a fazer os serviços internos, aprendi todos os mecanismos de escrituração fiscal, contábil, naquele tempo as coisas eram manuais, a gente transcrevia os livros diários, então você precisa de uma caligrafia bonita, hoje, depois que a gente vai pra faculdade, isso se perde. Então eu comprava aquelas canetas de madeira com penas, gostava muito de escrever com a caneta Rondy, que tem aquela pena diagonal, então eu fazia toda a letra sombreada, ficava bonito, uma coisa meio bordada, trabalhei um período grande, enquanto isso terminei o meu ginásio, e optei por não fazer o colegial, que na época era ou clássico ou científico, e fui pra Escola de Comércio fazer curso de contabilidade. E naquela época a escola era do professor Jorge Borges Correia, pai do Zé, da Ana e do Luizinho, e fiz o primeiro ano de contabilidade aqui, e trabalhei no escritório Bandeirantes, no meu primeiro registro em carteira, com data de 1962, muito embora tivesse começado a trabalhar em dezembro de 1960. Essa foi a minha primeira relação de emprego. Mas àquela época nem se registravam os funcionários e nem se pagava salário mínimo. O sonho de todo o mundo em Araraquara era poder trabalhar na Nestlé ou na Lupo, porque essas empresas pagavam salário - aspas - e o salário mínimo era uma coisa bem definida pela Constituição de 88, mas que nunca foi botada em prática, era um salário digno. Você mantinha uma família ganhando um salário mínimo na época. Foi uma experiência muito rica, e deu uma visão, inclusive, das questões empresariais. Porque tinha sob minha responsabilidade a escrituração de empresas de ramos diversos. E algumas hoje são grandes empresas, com escritórios próprios. Os primeiros conhecimentos do Rodoviário Morada do Sol eu datilografei. Eles transportavam leite pra Nestlé. Depois é que passaram, compraram aqueles Fenemês barriga d’água., tão em moda na época. O Alfa Romeu FNM - Fábrica Nacional de Motores. As primeiras linhas de escrituração, por exemplo, dos livros do Morvillo, uma loja de material de construção muito importante, fui eu que fiz. Algumas outras lojas do centro, como a Doméstica, e tal, eu transcrevia todos esses livros. E aprendi muita coisa, porque a gente tinha também a responsabilidade das contas do Frigorífico Araraquara e aprendi a questão de carne verde, de matança, de como é a tributação, aprendi muito de como se estabelecem essas relações. E tinha oportunidade, porque era uma gama muito variada de clientes, de ter uma visão bem globalizada das coisas. E fiquei lá até fevereiro de 63, quando fui pra São Paulo pra trabalhar nas Tintas Wanda.

 

P/1 – E em São Paulo, como foi esse trabalho?

 

R – O trabalho foi interessante, você passa a ter uma outra visão do contrato de trabalho, e passa a ter uma outra visão da relação do contrato social da essência, do Rousseau. Foi uma vivência rica. Foi bom, porque eu tinha 16 anos à época... tinha um primo que era vice-presidente do Banco de Boston, e a minha primeira conta bancária foi lá. Então, eu nem tinha 18 anos e era muito vaidoso porque o Banco de Boston não tinha talões de cheque. Eu tinha uma carteira de couro com os cheques individualizados e personalizados. E quando fazia um cheque daqueles, as pessoas se impressionavam, mas não tinha nem justificativa pra ter uma conta bancária. Mas...eu tinha. E passei a ter uma relação interessante com São Paulo, porque embora tivesse parentes, muita gente lá, o começo foi muito solitário, e por esse fato e pelo fato de você, na cidade grande, não poder ter uma relação... falo cidade grande , como se dizia na época, mas acho uma bobagem muito grande hoje. Mas você não podia estabelecer o mesmo tipo de relação que estabelecia na sua cidade com as pessoas que te conheciam desde que nasceu, e vice-versa. Então, passei a ter uma posição mais de observador pra uma porção de coisas. E meu social passou a ser exercitado de uma forma muito individualizada. Com isso, passei a ocupar meu tempo com coisas até muito interessantes. Ia muito a cinema, teatro, lia bastante, e acho que isso foi um ganho, uma hibernação nas relações sociais. Fiz algumas amizades naquele período, algumas permanecem até hoje, e quando entrei na faculdade, em 68, multipliquei meu campo de relações e muita gente que está aí, alguns dos perseguidos que voltaram, alguns dos que estão ocupando postos na política, tal, foram ou meus companheiros de luta ou meus adversários políticos dento da escola... Então foi um período legal. Quando me inscrevi pra fazer vestibular, me inscrevi apenas na USP e escolhi três cursos diferentes. História e Geografia e Direito. Mas fui muito bem qualificado pra Direito, acabei fazendo o curso lá, e fiz até o 3o ano, embora estivesse carregando dependência desde o começo, porque fui ótimo estudante e um aluno razoável ou ruim. Em certos aspectos. Mas valeu, porque fui aluno do Garcia, do Washington de Barros Monteiro, do Gofredo, e isso é bom, enriquece. É a segunda coisa forte. A primeira foi o ginásio, e a segunda a Faculdade de Direito. A velha e sempre ... brincadeira, velha... academia. Na faculdade, participei do Coral 11 de Agosto, gostava demais, foi outra vivência muito jóia. Tive muita participação no 11 de Agosto, fui diretor do 11, tive uma vivência política bem rica. E você ganha consciência de muitas coisas, é um período difícil, porque entra em conflito com a família por causa de posições que você assume, as pessoas sempre aconselham achando que estão sendo generosas com você, te preservando disso ou daquilo, e na verdade a gente não tem que se preservar de nada. A gente tem mais é que viver o que tem que ser vivido porque pra ninguém é dado avaliar o que é bom pra um ou outro. Então, fui muito pressionado pra largar de fazer aquelas bobagens, e largar de andar naquele tipo de companhia. Minha mãe queria morrer, coitada. Mas ela morreu de outra coisa. Não foi disso, não. E não me sinto culpado, muito ao contrário.

 

P/2 – Você entrou na a faculdade bem em 68?

 

R – Em 68. Havia coisas que a gente nem sabia direito que estavam acontecendo. Porque naquela época já era grande a Faculdade. Eram dois mil alunos. Um absurdo. Mas o gostoso é o volume de possibilidades que isto te oferece, sabe. Então aí você desmistifica e desmitifica uma porção de coisas e pessoas, e isso foi legal.

 

P/1 – Qual era o seu partido?

 

R – O meu partido não era o melhor em termos da discussão política, e consegui passar ileso de não me vincular a nenhum movimento rotulado, sabe. Então, na época, fortes eram a Ação Popular, a POP, a POLOP, a JUC, que eram ligadas ou ao Partidão... e tinha pessoas com segmentos mais definidos, escolhendo esse ou aquele líder filosófico, um pessoal era Trotskista, tal, eu não cheguei a assinar carteirinha de nenhuma dessas agremiações - aspas. E o partido ao qual eu pertencia na faculdade era o Renovador. Mas, em junho de 68, a proposta que se fez é que todos os ligados às questões progressistas não se apresentassem enquanto partidos mais. Porque nós tínhamos os partidos acadêmicos, né. E o único partido que sobrou, era uma espécie de PDS, ou de Arena, da época, era o PRA, Partido de Representação Acadêmica, que era a ala conservadora da escola, eram os bem-nascidos e bem-situados. E as esquerdas todas se colocaram debaixo do manto do Movimento 23 de junho. Que 23 de junho de 68 foi o dia que tomamos fisicamente o prédio da faculdade. Invadimos literalmente e ficamos sitiados até setembro. E essa foi uma outra vivência interessante. Porque diziam que a gente ia acabar com aquilo, deteriorar, e a gente tomou conta daquilo como toma de um tesouro. Nós literalmente ficamos acampados dentro da faculdade e aí foi gostoso. Você passear pelas plataformas das estantes, das bibliotecas, você poder ler o Estado de S Paulo, a Província de São Paulo, desde mil oitocentos e setenta e poucos, todos os números, aquelas matérias, você ter acesso a algumas obras ricas , aliás, coisa jurídica a gente nem ia atrás, mas a gente descobriu coisas interessantíssimas na biblioteca, nos departamentos, e de certa forma, o movimento serviu pra alguma coisa, principalmente para estrutura dos cursos jurídicos. Isso foi bom. Em setembro, fomos desalojados, e todos que estavam ali naquele momento foram levados pro DOPS. E outros fugiram.... Eu fiquei meio à deriva, a gente passou a se reunir com o pessoal da PUC, o Zé Dirceu era o presidente da UEE, na época ele era ruim de discussão política, e depois ele cresceu um pouco, e tinha uma porção de gente legal, que freqüentava a gente. E aí aconteceu o famigerado Congresso de Ibiúna, onde não fui, onde 640 foram presos. – Aspas- . Nem tinha lugar pra tanta gente. Aconteceu também a prisão de muitos amigos... O ano retrasado encontrei o Marcos Aurélio Ribeiro num churrasco, aliás, numa camaronada que ofereceram pra gente em São Vicente, num quartel onde ele tinha sido preso em 68. Foi muito engraçado. Falei: “Marcão, como é que você está se sentindo aqui?” Porque eu tinha ido com a Beti e com a Jane pra visitá-lo. Porque a Beti tinha carro, e não era todo o mundo que tinha. Ela tinha um Fusca. E a Jane era namorada dele. Aliás, eles se casaram. E falei: “ Como é que você está se sentindo aqui.” Ele disse: “ Engraçado, são quase trinta anos, né.” Mas foi um período muito legal. Foi muito rico também. E estabeleceu algumas relações interessantes. A gente se gosta, a gente se respeita. E a gente vai costurando durante a vida toda esse tipo de coisa, aí você se perde, você se afasta, de repente volta, reconstrói, é gostoso.

 

P/1 – Enquanto você fazia faculdade continuou a trabalhar?

 

R –Tinha que trabalhar. Não fui daquelas pessoas que ...eu estudava, porque trabalhava. Não podia ser invertido. Eu precisava ...Como dizia meu pai, que era um sábio: “ Felizmente, dei pra vocês só o que precisavam. Esse negócio de dar demais, estraga.” Então, vocês tiveram que ir buscar o resto.  Ele brincava com esse assunto, mas acho que é por aí mesmo. As pessoas têm que saber avaliar o que é essencial.

 

P/1 – Nessa época, como estava a evolução do teu trabalho?

 

R – Bom, trabalhei na fábrica de tintas cinco anos e meio. Fui um excelente funcionário até entrar na faculdade. Depois, achei aquilo uma porcaria total. Não tinha prazer nenhum em trabalhar. Queria fazer outras coisas. Comecei a ficar relapso. Até que um dia, a minha consciência não me permitiu que ficasse lá. Então, pedi que considerassem o meu contrato rescindido e saí. Fiquei um período desempregado, procurei outras coisas pra fazer, até que a necessidade obrigou que eu tivesse um pouco mais de pressa pra achar outra coisa pra fazer. E acabei sendo selecionado... Fui procurar uma agência de empregos e lá me indicaram pra ir pra uma indústria metalúrgica lá na Avenida Presidente Wilson, chamada Fábrica de Aço Paulista. Pertencente a um grupo sueco, Grupo Agha. O superintendente era um finlandês, uma pessoa ótima, e quando sentei pra preencher a ficha lá, um professor meu era gerente de RH, e eu tinha sido um ótimo aluno dele. E acabei sendo contratado como trainee, pra ocupar um cargo de gerência de uma futura filial que viesse a ser aberta ou em Porto Alegre ou em Belo Horizonte. Entrei com essa condição. Só que eu não queria ir, queria ficar em São Paulo. Achava que São Paulo era tudo. Fantástico, era o mundo, em São Paulo se pensava, se criava, sempre tive um fascínio muito grande pela capacidade de transformação da cidade, acho que o Caetano foi muito feliz quando falou da força da grana que ergue e destrói coisas belas, e eu tinha uma relação desse tipo com São Paulo. Mas topei a parada. E comecei a me esforçar muito pra ser essencial do esquema da gestão da empresa na cidade de São Paulo, e acabei não indo. Enquanto trainee passei pelo setor financeiro, e acabei substituindo dois funcionários na junção de um setor de cadastro e de financiamento de vendas, e depois agreguei mais o setor de cobrança, eram funções que tinham coordenações específicas e a coordenação dessas áreas ficaram comigo. E acabei não indo pra filial nenhuma e em dois anos e meio já era procurador da empresa. Mas aí veio o pior, porque subi demais, já estava em cargo de confiança, tinha procuração e não tinha escolaridade pra isso do ponto de vista técnico-acadêmico, porque eu estava no 3o ano de Direito, e a empresa foi vendida pra um grupo americano, Ellis Chalmers. Como cargo de confiança, você coloca à disposição e eles, lógico, colocam um americano, porque era cargo de absoluta confiança. Aí fiquei meio à deriva. Porque eu tinha uma condição profissional em carteira muito consistente e não tinha formação pra isso. Então, pra aquilo que me apresentava...eu não tinha história pra ter chegado onde cheguei. Era complicado. E começou a bater o desespero. Você fica sem dinheiro, e quem é só tem mais dificuldade ainda porque não tem como compartilhar, tem que prover seu alimento diário, seu transporte, moradia, e outras coisas mais. Aí vim pra Araraquara pra passar o 7 de setembro e pensar um pouco na vida... E um amigo aqui me propôs... Conversei com um amigo gerente de banco e expus a minha situação. E disse que não sabia o que fazer. Aí, no dia seguinte, ele me ligou, um outro amigo me convidou pra fazer um trabalho até o final do ano, pra implantação de O&M na empresa, e acabaram acontecendo outros fatos que me prenderam à Araraquara. Quem me contratou foi o Jorge Afonso, né, e ele sofreu um acidente indo pra os Estados Unidos, e acabei auxiliando na resolução de algumas questões, porque já tinha vivência disso, estávamos comprando uma revenda de tratores em Ibitinga pra empresa, compramos, o negócio foi um sucesso, o retorno do capital se deu em menos de um ano, começamos o ano de 73 com dois milhões, foi o capital que ele reservou pro negócio, e no final de 73 eu devolvi dois milhões e 83, pra ele, quer dizer, fizemos uma festa em Ibitinga, que eu era um pouco ousado na postura, fizemos uma festa “Cem dias, cem tratores” Porque no ano anterior, a revenda tinha vendido oito tratores só. Imagina, num município como Ibitinga que tem 693 pequenas propriedades agrícolas, tinha, hoje não sei qual é a situação real. Pôxa, é pra você trabalhar isso... E depois, naquele momento de Brasil grande, de dinheiro à bessa, você financiava equipamento agrícola pra pagar em cinco anos, com juros subsidiados, e outras coisas, então foi fácil trabalhar lá, a gente fez muito sucesso, e como eu tinha essa vivência de revenda General Motors, e implantei um sistema gerencial interessante, que a Massey & Ferguson não tinha isso ainda, acabei sendo convidado pra trabalhar numa outra revenda Massey. Aí, sim, ganhei na Loteria , porque o meu salário se multiplicou por quatro, vim pra cá, porque era a revenda aqui de São Carlos e Araraquara, né, e comecei a pensar em alguma forma de botar um negócio, me estabelecer, ou em alguma coisa pra resolver minha vida, porque não queria ficar a vida inteira trabalhando para os outros. Teve momentos que isso foi bom, mas depois você acaba se sentindo castrado, porque tem o ônus, mas não tem o bônus. E no final de 75, a gente montou a loja. Mas aí foi uma conjuntura de situações interessantes. Porque a idéia da montagem da loja não foi minha. Meu pai tinha passado a representação para os meus irmãos. E eles tinham ampliado. Era uma fase de muito crescimento, de desenvolvimento do ponto de vista econômico.

 

P/2 – Representação de que?

 

R – De tintas. Porque meu pai, quando deixou a fábrica, trabalhou um pouco com os mesmos produtos, e depois, em 64, eu já estava na fábrica em São Paulo, e abriu uma região de representação. Naquele tempo a gente trabalhava com representação. Não era vendedor. E conversei com o pessoal, meu tio, tal, que também trabalhavam lá, e resolveram passar pro meu pai. Ele trabalhou durante muitos anos, e houve um momento que a empresa se transformou, ganhou mais mercado, tudo, quer dizer, ele, pessoalmente, não teria estrutura, porque pra quem viu o espetáculo da peça do Arthur Miller, “ A Morte do Caixeiro Viajante”, não do ponto de vista da morte, mas do ponto de vista da relação, meu pai era aquilo mesmo, daquela forma, era uma pessoa que estabelecia uma relação pessoal aprofundada com todos os clientes, e o envolvimento em todos os lugares que chegava, tá, não dava mais pra trabalhar naquele estilo. Tanto, que ele tinha amigos que ainda são amigos da gente porque ficamos no ramo, e houve um momento que a gente passou a ser referência no estado, inclusive, dentro do ramo. Então, as famílias Pontes, de Hortolândia, Sertãozinho, que estão no ramo, ainda, o seu Benedito Barbosa, lá de Franca, os filhos e netos do seu Miguel Davi Isaac, lá de Ribeirão Preto, quer dizer, são amigos da gente. Em decorrência de uma relação comercial nos moldes que ele estabelecia. Porque ele era uma pessoa agradável, alegre, boêmia, sabe, uma pessoa disponível, que nunca conversou sobre dinheiro com os outros, negócio é negócio, deixa isso pra lá que é desagradável. Agradável é compartilhar, fazer outras coisas, e tal. Então meus irmãos propuseram que a gente montasse uma loja de tintas em Ibitinga, porque meu irmão tinha um prédio disponível, bem localizado, e tal, e a idéia era que a loja funcionasse como uma cadernetinha de poupança pra todos nós. Que ninguém ia deixar as atividades que tinha pra poder tomar conta da loja. Só que... confirmando o velho ditado, o porco só engorda debaixo do olho do dono. Então, houve um momento em que alguém tinha que deixar de fazer o que estava fazendo, pra assumir o negócio. E eu fui o premiado. Foi legal. Aí troquei o meu jeito de agir e fui pro balcão. E uma coisa interessante, primeiro tive que me convencer de que isso era muito bom. Porque quando você convive um pouco com livros, com algumas posturas que são vícios de determinadas profissões ou tipos de trabalho, você tem uma visão preconceituosa de outros. Então de repente você, pra exercitar bem uma atividade de comércio, pra se relacionar bem com o teu cliente, você tem que aprender a abrir a porta do carro quando a pessoa chega no seu estabelecimento. Não digo exatamente isso, mas é pra botar um emblema da coisa. Você tem que carregar a caixa da mercadoria que a pessoa comprou, colocar no porta-malas do carro dela, isso quando você não vai na casa da pessoa, e se você vai lá pra entregar, você tem que descer e colocar no exato lugar que a pessoa gostaria que fosse colocada a coisa. Principalmente uma mercadoria incômoda de carregar como a que nós comercializamos. Você tem que fazer isso. Mas comecei a sentir prazer em fazer isso à medida em que as pessoas valorizavam muito isso. Afinal, sou um moço educado, fino, imagine um moço tão educado fazendo isso pra mim, ele é muito educado. Então, isso estabeleceu uma relação mais forte...Nosso negócio não é um negócio em que você tem uma relação diuturna com as pessoas. A pessoa vai, e volta depois de cinco anos. Mas é bom quando ela volta depois de cinco anos. Aí você sabe que fez direito. Então, escolhemos esse ramo de negócio porque conhecíamos o mercado. Porque tínhamos facilidade de negociação. Porque tínhamos detectado nichos onde havia facilidades pra se atuar. E foi legal. No ano 2 000 vamos comemorar nosso jubileu de prata. 25 anos de efetivo exercício de comércio de varejo.

 

P/2 –Como conseguiu arranjar o dinheiro pra...

 

R – Ah, sim. Nós precisávamos ter um capital. Você me empresta, vou montar um negócio que vai crescer, acabo saindo daqui, você não tem interesse nenhum nisso. Você vai sair, a minha empresa não é grande o suficiente pra te abrigar a vida inteira. Sai o funcionário e fica o amigo. Você vai ser meu amigo a vida inteira. Acho que é um ótimo investimento que posso fazer. E foi muito bom, porque essas coisas gratificam , porque há atitudes que a gente toma e não vê vantagem nisso. Se a gente toma atitudes sem pensar em levar vantagem nenhuma, quando você percebe, lá na frente o tempo te responde o que você ganhou procurando fazer as coisas direito, ou sendo verdadeiro, espontâneo, então... Aí, montar a loja foi um negócio engraçado também, porque a coisa começa, você passa a ter uma inserção diferente na sociedade. E começa a se comunicar de uma forma diversa. Você tem que se rotular, escolher uma marca pra você. Aí achamos que usar o nosso próprio nome seria complicado. Porque nove entre 10, grafam o nosso nome errado. Pra gente é uma moleza, porque foi a primeira coisa que a gente aprendeu. Mas para os outros é tão difícil, e acabei... e a gente começou pensando nomes, coisas, e tal, e acabei optando, que quem escolheu fui eu, o nome De Colores, não tem nada a ver com Opus Dei nem com qualquer movimento desses . Mas, naquela época, anos 70, existia uma consciência pesada, no sentido de forte, de que a gente devia valorizar as questões do mundo novo, da América Latina, porque a tendência era, ou você botava um nome pomposo, inclusive autoritário, tipo Palácio das Tintas, coisas desse tipo, ou botava um nome americano, Colors Center, coisas desse tipo .E à época a Joan Baez cantava o cancioneiro da América Latina, e entre elas tinha essa música, coisas desse tipo, “De colores se vistem los campos en la primavera,” que é uma canção folclórica da Guatemala, e que foi apropriada pelo movimento de cursilho da Igreja, coisa que não gosto muito, porque pra mim isso é muito ligado a questões de autoritarismo e fundamentalismo.. Mas achei que devia ser atrevido e mostrar pra eles que estavam usando a coisa errada. O espírito foi esse. De dar um sentido de que a gente também faz parte dessa raça nova que está aí. O povo da América Latíndia. Daí o nome da loja. E ficou forte. O ano passado, tivemos acesso a uma pesquisa feita por um dos fornecedores da nossa área, chamado Hidronorte, porque estamos trabalhando associativismo, aqui em Araraquara. E tivemos o prazer de saber que temos menos de 10% de rejeição. No mercado. Que pra um estabelecimento comercial, é um negócio fantástico. Vale muito. Porque você trabalha tudo, né? Não só a sua atitude. Você trabalha a imagem que você passa, física, a imagem comportamental, a forma de comercialização, tudo isso. E foi uma coisa muito jóia. Aí montamos a loja em Ibitinga e imediatamente já começamos a pensar na questão da loja de Araraquara. Que era uma vontade muito grande que a gente tinha, mas não tínhamos dinheiro. Recurso algum. Foi uma ousadia. Aí, começamos a procurar lugares pra nos estabelecer, e resolvemos falar com o seu Felício Tanughi . Ele foi o empresário que comprou o negócio da minha família. E o imóvel. Ele fabricava aguardente em Pedra Branca, e usou o negócio pra desenvolver a comercialização do produto dele. Mas houve um momento em que ele parou, os filhos dele não se interessaram, porque um Se formou dentista, outro engenheiro agrônomo, e o outro não quis saber do negócio, o Arnaldo. Ele acabou fechando. E o prédio estava fechado já há alguns anos, até inadequado pra uma loja, a gente conversou com ele e ele fez uma proposta tão boa pra gente... Ele deu uma carência no aluguel, fez um valor muito acessível, e a gente literalmente meteu a cara e estabeleceu a loja aqui. E foi um julho de 76. E... a loja foi um sucesso, foi muito bem. Até que tivemos um acidente de percurso, em outubro de 79, 13 de outubro de 79, às duas horas da tarde. A loja se incendiou. Foi uma coisa muito forte, muito pesada. Nós estávamos com o estoque alto, porque tínhamos feito aquele suprimento que se faz normalmente em vésperas de grandes altas do custo da mercadoria, tínhamos um seguro mal dimensionado, porque o negócio começou com um porte, e acabou ganhando uma nova dimensão no mercado, e a coisa foi muito feia. Do ponto de vista físico, do ponto de vista das conseqüências, esse acidente foi terrível. E foi humilhante, de certa forma, a postura de muita gente, sabe. E você passa a conhecer um lado que talvez você nem estivesse disposto a conhecer, de pessoas ou instituições. Mas a gente teve que encarar. E no momento, não restou outra alternativa pra gente a não ser procurar os fornecedores e fazer um alongamento de dívida, propor uma ampliação do limite de crédito que tínhamos anteriormente, pra que pudéssemos, com um novo trabalho, pagar o que estávamos devendo, e estou contando isso agora rapidinho, mas são decisões que levam tempo e você encontra mesmo sem ter buscado. Quer dizer, você está encaminhando de uma determinada forma, e encontra outro tipo de saída. Mas foi uma experiência muito forte. Primeiro, porque naquele mesmo dia já pude tirar algumas conclusões a respeito de algumas coisas. Cheguei à noite em casa, a minha estante ficava... nunca tive um escritório, então a estante ficava no quarto, com os livros, e tudo, e imaginei, se tivesse incendiado a minha casa, não teria tido importância nenhuma. Porque os livros estão lá porque a gente guarda. Costuma guardar, não sei por quê. Mas na verdade, aquilo que está nos livros a gente tem que carregar de uma outra forma. Então, vale aquilo que a gente agregou ao conhecimento da gente. Não vale aquilo que a gente guardou nos armários.. E outra cosia que a gente sabe. Que mercadoria é um bem fungível. Coisa que numa avaliação você pode transformar, você pode trocar por um outro bem, com valor relativo. O que se negocia, se negocia. E isso também foi legal, sabe. Não vou dizer que eu seja uma pessoa desapegada. Mas não me preocupo em amealhar. Porque dá trabalho pra tomar conta, depois...Acho que você tem que garantir os instrumentos mínimos necessários pra poder continuar levando a tua vida, pra ir podendo fazer as coisas acontecerem de forma legal. Então, a gente optou por reconstruir, por refazer... Depois de um tempo, veio a notícia- este é que foi o choque mais interessante- de que nós teríamos que pagar os impostos de toda aquela mercadoria que queimou. Na verdade, hoje até entendo o mecanismo, a gente não teria que pagar os impostos. A gente teria que estornar o valor do imposto que foi creditado quando a mercadoria entrou na empresa. Porque esse crédito não era nosso. Era o imposto anterior. Então tive que pagar pro estado o valor do imposto de tudo isso. Levei quatro anos pagando. Terminamos isso em 85. Então , o nosso primeiro inferno foi de 80 a 85.

 

P/2 – E como você ficou sabendo do incêndio?

 

R – Pelo telefone. Um funcionário nosso me ligou e disse: “ Venha correndo porque a loja está pegando fogo. Está pegando fogo e o bombeiro já está aqui.” E eu tinha ido a Ibitinga passar o final de semana. Vim correndo, em 35 minutos já estava aqui em Araraquara. Naquele período difícil e cheio de regras indecentes, os postos de gasolina não trabalhavam aos sábados e domingos. E eu nem sabia se tinha reserva de combustível suficientes pra chegar aqui em Araraquara. Mas, deu tudo certo. E no caminho, nesses 35 minutos, você faz aquela revisão e de vida, aquele tipo de fogo fátuo. Imaginei mil coisas. Inclusive fiz a previsão do meu futuro, que não foi nem um pouco igual àquilo que previ. E há determinadas coisas que são inacreditáveis. É tudo uma questão de tempo. Há coisas que você julga impossíveis. Não são. Acontecem .Mas foi um período interessante, porque foi de redefinição de tudo. Bom, nós já tínhamos começado sociedade, meus quatro irmãos e o meu tio, irmão da minha mãe, de quem vou falar posteriormente. Aí começaram a acontecer os casamentos. Casamento é gente nova na família e parceiro novo na sociedade. E vem gente com outras culturas. Porque na minha casa, a gente sempre trabalhou com o caixa único. Quer dizer, o que é de um é de todos e o que é de todos é de um. Porque a gente não podia se dar ao luxo, anteriormente, de cada um ter as suas coisas. Não que cada um não pudesse ter o seu sapato, nem nada, mas alguns objetos eram compartilhados. Então, tivemos a primeira trombada interna, que culminou com a saída do Richard da sociedade. Porque era impossível o convívio das minhas cunhadas, do ponto de vista de observações externas. Porque a pessoa que é externa à sociedade sempre tem uma visão muito própria das coisas. Acha sempre que o parceiro é o mais sacrificado, é a pessoa que mais se dedica, que os outros estão levando vantagem, é uma coisa terrível... Então você tem que administrar esse tipo de relação, que é complicada. Depois, o Humberto, meu irmão mais novo, tinha se casado em Curitiba. Também a gente ficou numa situação que não tinha espaço pra um sócio tão sofisticado. Uma sociedade que tinha como bem principal um passivo acumulado. Tinha que pagar as dívidas do incêndio. Residindo em Curitiba e vindo trabalhar em Araraquara...Aí aproveitamos o momento, apareceu um negócio para ele, lá, e fizemos a separação, e ele acabou montando uma loja pra ele, lá. Então, nessas alturas, ficamos eu e o Marco, só, e o meu tio. Que acabou saindo da sociedade em 92, também. Porque , enquanto ele tinha o trabalho dele, o convívio era muito bom. Depois que ele deixou de ter, era terrível. Porque ele ficava em São Paulo, vinha pra cá, aí quando vinha, ele queria reuniões e reuniões. Pô, eu não tinha que ficar dentro da minha sala. O meu público estava lá fora.. Então, ele tinha aquela visão... que eu tive, também, enquanto trabalhei em empresas multinacionais, esse tipo de coisa, tinha a mesma postura. Achava que bastava mandar um memorando, e as coisas aconteciam ali na frente. O exercício de fazer acontecer, a coisa de estar ali na frente, você só vai ter o feeling disso a partir do momento em que usa o balcão. Acho o balcão um emblema fantástico. Acho que o balcão é ao mesmo tempo trincheira, dali você se defende ou ataca, e é confessionário. As pessoas vêm e se entregam pra você. Então é um emblema muito legal do comércio, o balcão. Ele foi inventado por alguém muito inteligente, que não estava pensando em definir espaço. Do cliente e do proprietário. Não, não. Quem inventou o balcão inventou o parapeito, sabe, que é para as pessoas botarem os cotovelos ali e trocarem experiências de vida. Acho que a coisa é meio por aí. E esse meu tio não tinha essas vivência E a relação começou a ficar muito complicada. Porque ele tinha uma postura meio tecnocrata, e nós tínhamos uma postura prática, uma relação afável, e tudo. Ele achava invasivo o comportamento dos nossos clientes, porque as pessoas não marcavam hora e queriam ser atendidas sem ser agendadas. E chegavam na loja, abriam a porta do nosso escritório e diziam: “Ôi...” Quer dizer, uma coisa muito... E ele achava que não estávamos faturando muito. Mas, pra um estabelecimento comercial daquela porte, a gente faturava 300 mil, 400 mil dólares mensais, é um absurdo de muito pro tipo de negócio que a gente tinha. Mas, estou contando como eram as coisas. Olha, a coisa começou a ficar infernal pra o convívio. Meu irmão entrou em depressão... E o pior de tudo é que a relação era assim covarde, porque ele é uma pessoa autoritária e cobrava todo o carinho, uma coisa complicadíssima, por conta do modelo dele, né? Que ele é uma pessoa que te faz um favor e te deixa dependente até à morte. E...então, acabamos tendo um desfecho em termos de contrato em 92, felizmente, num outro momento de crise econômica. E também aquela situação covarde de você estar desfrutando do teu negócio, trabalhando, convivendo, num momento em que ele não está bem, você deixa de olhar com carinho pra ele. Então, aconteceu isso na saída do Humberto, e também na saída do meu tio, do Olavo, também. E acho também muito triste. Não é porque é um negócio. Um estabelecimento comercial tem uma vida. Quer dizer, essa ficção de terem inventado a pessoa jurídica não é uma coisa meramente documental. Que estabelece uma forma civil de você se relacionar com a coisa. Um estabelecimento comercial é vivente, tem energia, sabe, e toda aquela relação embutida, tudo aquilo faz parte da alma do negócio. O negócio tem alma, sabe. Então você tem que ter uma relação muito respeitosa com ele. Ele faz parte de você, te provê na hora que você precisa também. Tanto do ponto de vista material, quanto do ponto de vista psicológico. Porque conheço gente que não saberia o que fazer da vida se não tivesse uma ocupação, um trabalho ou um negócio. Eu, saberia. Sei fazer outras coisas também. Mas sei que há pessoas que precisam disso. Então, acho que é muito covarde virar as costas para aquilo que você criou, que você fez. A gente procura olhar as coisas dessa forma. E agora a gente está num outro momento, está num rito de passagem, precisamos definir algumas outras coisas, porque .. pra quem que vai ficar... Muito embora eu e meu irmão temos numa expectativa de vida meio longa, e se a gente viver até 2 017, talvez a gente chegue aos 140 anos, né, aquilo que se prevê. Mas, a gente não pode pensar dessa forma. E tem que pensar naqueles que estão vindo, tal, agora vêm sobrinhos. Então, a gente está num rito de passagem, tentando explicar pra eles que aquilo...Gozado. Eles não tiveram o que eu tive na fábrica, sabe, de achar divertido embrulhar bala, embalar vinho, de ajudar a carregar o caminhão. Eles já são da época do videogame, E a gente precisa pensar como vamos passar essas coisas pra eles.

 

P/1 – Quando você montou a rede de lojas ?

 

R – Bom, foi assim. Nós tínhamos uma clientela fora daqui. Tínhamos uma clientela boa em São Carlos, Jaboticabal, Matão. Então, a gente sentiu que teria condições de ampliar, inclusive, esse tipo de mercado. E partimos em busca justamente dos mercados onde a gente tinha uma relação boa , de respeito, já gozávamos de conceito, então partimos pra isso, foi no final de 84, que montamos Matão, São Carlos, depois que mudamos pra sede onde estamos hoje, em 86, abrimos Taquaritiga, Pirassununga, em 89 fechamos negócio com um ponto... aí construímos um prédio, um imóvel pra loja de Ibitinga, estávamos com um ponto pronto pra utilizar em Itápolis e tínhamos a loja da Alameda. Acreditamos no Collor, o mercado mudando, e tal, mas não sabíamos, não imaginamos a reversão que iria se dar no mercado, e aí do ponto de vista econômico passou a ser inviável, porque tínhamos gestão cara, eram gerentes, em todas as unidades e praticamente não se justificava esse tipo de presença, a discrepância do faturamento dos pontos onde estávamos para os demais era muito grande, então, gradativamente, fomos fechando. Vendemos duas das lojas, de Matão e de Ibitinga, que eram as melhores, do ponto de vista estratégico, não só de presença no mercado, como também de presença física nas cidades, e as outras nós simplesmente fechamos.

 

P/1 – Como era a convivência com o cliente...

 

R – Ah, com cliente era uma coisa muito gostosa. Porque hoje, trabalhamos praticamente com parte decorativa. Antes, trabalhávamos com tudo. Inclusive artística. Então, era uma coisa até trabalhosa, porque a pessoa vinha pra comprar um tubinho de tinta a óleo pra tela, e tal, e você dedicava a ela a mesma atenção que dava a quem estava comprando material pra pintar uma obra de 15 mil metros quadrados. Mas era uma coisa boa. Gostosa. Houve um momento em que tive necessidade absoluta de me afastar do balcão. Porque na loja da Gonçalves Dias eu ficava ali, ali, na frente, sentado, com o pessoal. Não tinha como dizer que estava ocupado. Então, você acabava dando um atendimento ruim. As pessoas não se queixavam. Mas você acabava fazendo dez coisas ao mesmo tempo. Você falava ao telefone, falava com um aqui, com outro ali, mas isso não era bom. Ficava uma coisa meio de feira, mas era uma relação boa. Porque pessoalmente eu tinha paciência pra algumas coisas, eu inventava, nós hoje temos a máquina que faz duas mil cores, na época não tínhamos. Eu fazia, misturava, bancava arquiteto, ia na casa do cliente, faz assim, assado, tal, e as pessoas gostavam muito disso. Aquela coisa que as fábricas instituíram, tal, a gente já fazia naquela época. Fazia o desenhinho da casa, pintava da cor, mostrava pra pessoa, tinha facilidade pra isso, e as pessoas se sentiam muito valorizadas com esse tipo de atitude. E outra coisa, tínhamos uma presença institucional muito forte, aqui em Araraquara. Porque todo o mundo que ia fazer alguma coisa, ia buscar apoio. E achava as idéias ótimas, sempre. Sempre que alguém tem alguma iniciativa, eu acho muito bom e acabo por apoiar, de um modo ou de outro. Outro dia, a Zilda Mayer me trouxe de presente o cartaz da primeira vez que ela se apresentou no teatro em Araraquara. Então, até 90, 91, estivemos muito presentes em todos os acontecimentos. Todo o ano eu procuro fazer alguma coisa na Semana Luiz Antonio Martinez . Desde a primeira a gente está junto. E mesmo porque, pôxa vida, eu conheci o Luiz, e tal, e foi uma coisa muito boa, e você não pode deixar um trabalho como o dele ser esquecido. E a gente também apoiava o esporte, né. E acabamos tendo, durante sete anos,o time de futebol de salão, que disputou o campeonato paulista, o time juvenil foi vice-campeão do estado, tem uma taça de prata lindíssima que está lá na WL, né, então nos associamos ao Lineu, na WL que é uma agência de publicidade, então WL e De Colores. E tinha o clube de futebol de salão, nós trabalhávamos desde as categorias menores até os adultos, e a gente teve uma presença forte, o Palmeiras vinha jogar com a gente, o Corinthians, e a gente ia jogar com eles lá. Nos anos 80, isso. E fui muito estimulado também nesse negócio pelo Zé Maria Civiero que é o dono do cartório Adalberto, lá em São Paulo, que eles também tinham um time de futebol de salão, só que o dele era campeoníssimo, era o Jercan que foi seis ou sete vezes seguidas campeão do estado, tal, então a gente era quase que um espelho do Jercan aqui no Interior. Foi legal, porque o Paulo saiu do nosso time pra jogar no Jercan, e foi campeão mundial Interclubes, como técnico do Internacional de Porto Alegre.

 

P/1- Voltando à questão da loja, do comércio, do balcão, como é que a loja atraía clientes...

 

R – É, nós fazíamos muita publicidade. Inclusive, a gente aqui da região se ressentia porque não tínhamos um veículo de varejo , um veículo pra anunciar o varejo, porque Araraquara, essa região central do estado de São Paulo, não fazia parte de sinais locais. Era um nicho que tinha que pertencia ao sinal da capital. Era um buraco negro dentro da divisão do estado. E no final dos anos 80, em 87, o pessoal do Coutinho Nogueira, que iria assumir a concessão dessa área pra imagem da Globo nos procurou, digo nos procurou porque à esta altura eu era presidente do Sindicato Varejista e tinha uma relação de amizade com o sogro do Toni, que é um dos filhos do José Bonifácio, o segundo, o mais novo. E o Hilton Paes de Almeida, sogro dele, me conhecia, nós almoçamos um dia em São Paulo, aí eu trouxe o Toni e o Arnaldinho Amazonas pra conversar com o Medina, tal, e acertamos a entrada do sinal da Globo regional, aqui em Araraquara, por Ribeirão Preto inicialmente, e num segundo plano acabou se instalando a emissora em São Carlos. E a gente anunciava bastante. Começamos anunciando em programas esportivos, que achávamos que era o segmento do nosso consumidor típico, o pintor, mas é uma bobagem. O pintor é apenas um dos elementos. O mercado como um todo te observa e precisa ter uma relação com você. Isso estou falando do meu ramo. E aí a gente passou a fazer outros veículos, tal, até que houve um momento que a gente entrou na TV e acabamos entrando com um pouco mais de força. Nós tínhamos a imagem institucional do futebol de salão, que vinha via esporte, e eu tinha uma promessa de um comercial, feito pela moça mais bonita da cidade à época, ou seja, a miss Araraquara , e resolvemos fazer um comercial com ela. Com a Leide. E o comercial era bobinho. Trouxemos um ator de São Paulo, que é meu amigo, o Wagner Maciel, pra fazer uma das cenas, e tal, e chamamos , digamos, pra uma participação extra, um menino que jogava futebol de salão no time porque ele era muito engraçado. Ele tinha uma cara engraçada. E ele tinha que simplesmente ficar sentado no banco da praça, enquanto a Leide passava e olhá-la com um olharzinho , digamos, cobiçoso. Bom, a cena ficou tão engraçada que o Chiquito, que é esse garoto, acabou virando a imagem da loja. E a partir daí ele passou a atuar muito fortemente em tudo aquilo que a gente fazia. A ponto de a gente brincar inclusive com a campanha presidencial de 89, onde ele fazia os candidatos a presidente brincando com as cores. Porque tinha um marronzinho, na época, tinha o vermelhinho que era o Lula, tinha todas as cores nas candidaturas, tal. E ele aparecia verde- amarelo. E o Chiquito chegou a ser capa da Telefônica. E era uma propaganda de, não digo de mau gosto. Mas não era exatamente aquilo que você vê em termos de padrão de qualidade de campanha, que a gente conhece e que o varejo tem hoje no Brasil. Mas foi tão eficiente, tão eficiente, ficou um recall tão forte, que depois disso, durante muito tempo a gente não precisou anunciar. Porque na verdade a gente passou anos usando o personagem do Chiquito. Chiquito chegou a ter vínculos de emprego com a loja. Durante uns cinco anos, até ele terminar o curso de engenharia. Aí foi trabalhar por conta, mas tinha vínculo de emprego com a loja , estudava engenharia, jogava futebol de salão, treinava com o time juvenil, e ainda vendia a nossa imagem. Mas foi obra do acaso. A gente fazia propaganda, tal, e essa campanha nossa foi até motivo de um seminário no curso da UNAERP de como aquilo que aparentemente pode parecer negativo pra imagem, pode alavancar negócios e a construção de uma relação positiva consumidor e fornecedor. E a gente começou a pegar pelas crianças, sem querer. Porque na verdade, quem primeiro se interessou pelo Chiquito, foram as crianças. E ele falava com um sotaque muito característico da nossa região, não forçava, não tinha aquela coisa dos atores pseudo- modernos da Glorinha lá da Globo, da fonoaudióloga da Globo, que todos pronunciam da mesma forma, com todos os S e R , e o refrão, o bordão da propaganda era : “ E aí, tudo certinho?” Mas era ‘cerrrrtinho’, (pronúncia do interior) e não certinho .Aí pegou, ficou forte, que bastava alguém dizer alguma coisa desse tipo as pessoas associavam à nossa empresa. Foi um negócio marcante. E ainda a gente associava uma porção de outras coisas. A ponto de, como a gente estava metido nas promoções, as pessoas me procuravam e falavam: “ Você não quer trazer o artista tal pra Araraquara?” porque achavam que todos os grandes artistas que vinham pra Araraquara vinham porque nós estávamos envolvidos. Porque, na verdade, a gente até promovia espetáculos grandes, mas era pra buscar recursos pra bancar o futebol de salão. A loja sozinha não tinha condição de ter verba pra isso. A não ser que fosse uma enorme empresa. E não era . Então, por um golpe de sorte nosso, o primeiro espetáculo que a gente promoveu foi um show que contratei na baixa e eles chegaram aqui na alta Eu tinha gostado do trabalho, os Paralamas do Sucesso, tinham acabado de gravar o segundo disco, eles estavam ainda naquela coisa do Vital e sua Moto, nas rádios, mas eu já conhecia o segundo disco. Eles foram pro Rock in Rio, explodiram, e aí vieram pra Araraquara e nós pusemos 2 500 pessoas no ginásio, pagando. Depois disso ficamos com recursos pra bancar outros projetos e financiar o futebol de salão. Aí trouxemos a Blitz, Ultraje, Barão Vermelho, e todas as bandas de rock possíveis e imagináveis. E por sinal, o último grande show de rock de Araraquara quem promoveu fomos nós, só que aí com outros objetivos. Fazer fundos pro meu Rotary Club , foi um espetáculo com o Legião Urbana, que chegou aqui em grande estilo, de avião, com entrevista coletiva, com tudo, tal, foi uma coisa muito legal, pra encerrar com chave de ouro. Então, a gente passou a ser associado a todos os grandes eventos de Araraquara. As pessoas me encontravam, eu nem sabia quem eram, e me pediam pra trazer tal ou qual artista. Como coisa que eu pudesse tudo. Mas as pessoas imaginam sempre que a gente possa mais do que a gente realmente pode. E foram projetos muito interessantes. Porque a gente ficou com uma presença institucional muito forte, muito ...E quando a gente se mete em alguma empreitada, assim, as pessoas acreditam, sabem que a gente não tinha noção do limite, e a gente vendeu o limite, não por falta de consciência, mas por não querer saber qual era.

 

P/1 – Voltando pra loja, como era ... Tinha crediário?

 

R – Não, nunca trabalhamos com crediário. A gente sempre trabalhou com preços com margens muito competitivas. E os juros que se praticam, sempre que se praticaram nesse país, em função desse tipo de hábito, que se criou, são assustadores. Então a gente sempre buscou vender com financiamento próprio, mas com prazo um pouco mais curto, então você mostrava pra pessoa que às vezes, com um pequeno sacrifício, com uma ou duas parcelas a menos, elas ganhariam o tanto necessário pra poder fazer outras coisas de que precisassem. A gente sempre financiou a venda a prazo, mas nunca através de terceirização ou de crediário, nem nada.

 

P/1 – Vocês faziam crédito direto?

 

R – É, direto.

 

P/1 – Tinham contrato...

 

R – Não, não. Fatura e duplicata. Sempre uma relação muito simples e descomplicada . Pra pessoas físicas e jurídicas. E até muito pouco tempo atrás a gente tinha cliente de... só a nota, o que levou, e pronto. Uma coisa bem... A gente ainda guarda esse traço interiorano, de ter uma relação de confiança, de uma coisa apalavrada só, e as coisas acabam funcionando muito bem.

 

P/1 – Dava algum problema de não pagamento?

 

R – Ah, lógico. Mas, você não pode analisar pelo que você deixa de ganhar. Você tem que analisar pelo que você ganha.

 

P/1 – Tinha algum sistema de cobrança?

 

R – Ah, um telefonema, uma conversinha, tal, às vezes a pessoa brinca e diz:” Ah, você não está sendo meu amigo, está me cobrando.” E digo assim: “ Ah, não, o meu inimigo está sendo você, eu estou precisando do dinheiro e você não quer me dar...” E, nesse tom, você vai ( risos)...

 

P/1 – Existe moda pra tinta?

 

R – Não... existe tendência. Hoje, por exemplo, é forte a presença dos tons derivados do amarelo. Mas aqui em Araraquara, ainda estamos, eu digo que é o período monagásco, ainda, Araraquara ainda tem a cor de Mônaco. Ela é salmon. Os tons róseos. E nos anos 80, em São Carlos, havia a prevalência de verdes, sabe, há hábitos e costumes que se lançam, por exemplo, aqui em Araraquara, e em Sertãozinho, alguém derrubou um galão de grafite na calçada, viu que ficou bonito e pintou a calçada inteira. Então, todo o piso era pintado de grafite. Isso que acontece no Brasil inteiro hoje, era uma coisa que ocorria em Sertãozinho e Araraquara. Não sei te explicar por quê. Hoje todo o mundo pinta calçadas e pisos externos com tinta grafite. Grafite, na verdade, é um fundo pra proteção de estruturas metálicas. Não é nem uma tinta. Então são tendências que você verifica em função de alguém ter feito alguma coisa e ter dado certo.

 

P/1 – Você percebeu alguma coisa, por exemplo, da mídia, que influencia...

 

R – Não, hoje, por exemplo, os ambientes internos das novelas da Globo, são todos em tons amarfinados, né. Então houve uma tendência forte, porque nos anos 80, todos os interiores eram brancos. Ou gelo, que é o branco sujo. Mas, a alteração de tons foi definida em função dos interiores apresentados na – aspas- casas das novelas. Agora, em relação aos tons externos, hoje se usa um pouco mais de colorido em função da facilidade que essas máquinas de formulação no ponto de venda trazem Porque na verdade, não havia boa vontade por parte dos varejistas de manterem um estoque com 40, 60 tonalidades pra oferecer pro cliente. Porque você tem que ter uma quantidade mínima de cada tonalidade, nas várias embalagens em que o produto é oferecido. Isso faz com que o estoque tenha que ser mais elevado, você tenha dificuldade de capital de giro, então não havia boa vontade. Tanto é que em Ibitinga, tinha uma loja chamada Casa das Torneiras, e tinha quatro cores de tinta pra vender lá. E todas as casas de Ibitinga eram variações em cima dessas quatro cores. Isso é muito engraçado.

 

P/1 – E os pigmentos pra você criar cor, quando começou isso?

 

R – Ah...Esses pigmentos surgiram a partir das tintas emulsionadas, mesmo. Foi no final dos anos 50, começo dos 60. Quando caiu o império da Chevy e entrou a guerrilha da Suvinil. Porque na verdade, Suvinil, hoje, é líder de mercado, pertence ao grupo Basf, tem sede na Alemanha, mas era uma fábrica que o seu Coelho fez na Oscar Freire, as pessoas levavam a embalagem pra encher na fábrica. Era uma fábrica pequenininha. Era Supervinil, ligada ao pessoal da Supertintas o Homero Bellintane, que foi diretor do São Paulo, e esse pessoal todo. E eles acabaram vendendo a fábrica pra Basf, que tinha uma fábrica de tintas automotivas pra atendimento da Wolkswagen, chamada Kombilaca e vem de Kombi, mesmo. E eles compraram a fábrica da Suvinil por conta da marca, inclusive, que já era muito forte. Mas as tintas emulsionadas surgiram no final dos anos 50, né, inclusive a Wanda foi uma das primeiras a aplicar a emulsão como fonte de reação.

 

P/1 – As pessoas procuram muito esses pigmentos?

 

R – Hoje elas não querem mais saber desse tipo de coisa. Por causa da máquina. Por que ficar experimentando se não tem necessidade? Se já tem um catálogo que me dá todos os tons. Até vendemos bisnagas, hoje. Mas muito poucas. E outra coisa, as pessoas não tinham noção exata, e acabavam fazendo bobagens imensas, porque na verdade, você não tem um branco pra chegar na cor. O processo é inverso. E você gasta uma quantidade imensa de titânio pra deixar a tinta branca As tintas coloridas, de cores mais fortes, você fabrica num processo invertido. O processo químico pra chegar no branco, quer dizer, você limpa a tinta, pra depois sujar com o pigmento? Então, as pessoas metiam cinco, seis , bisnagas achando... mas tem um limite. Não passa daquele tom. Pra compor as cores compostas, você tem que trabalhar a partir de cores e não em cima do branco. Pra você fazer, por exemplo, um musgo, você precisa de verde e ocre. E pra fazer o ocre, você precisa do amarelo dióxido, com um pouco de preto e mais um tanto de vermelho de cádmio. Então, você faz um processo pra tirar o tom, pra chegar no branco e depois você joga todas essas... você suja, tira a resistência da tinta. Você fica com pouco veículo e muita carga. E a tinta fica ruim, mancha...

 

P/1 – E como é que funcionam essas máquinas?

 

R – Conheço as máquinas desde os anos 70. Mas o primeiro que implantou uma no Brasil, não foi bem-sucedido . Foi o Caio, lá da Copical de Bauru, e as pessoas não confiaram. E mesmo porque, os pintores resistiram muito. Nós tivemos grandes pintores até o final dos anos 50. Que eles sabiam um pouco da química, da formulação, eles trabalhavam a têmpera, tudo. Depois disso, qualquer pessoa egressa de qualquer sistema penitenciário que comprasse uma escada e um rolo se transformava em pintor. E esse pessoal, sem conhecimento e inseguro, sempre resistiu às novidades. Eu aprendi na carne isso. Tinha um profissional desse tipo em Ibitinga, que era muito cheio de si, mas trabalhava errado. E um dia, fui obrigado a dizer a ele: “ Escuta, meu filho, você trabalha errado.” “ Mas eu sou pintor há 20 anos, e eu sei.” Eu disse : “ Mas você trabalha errado, você continua analfabeto, você não estudou, não se especializou, não se informa. Agora você acha que uma fábrica investe um capital de milhões de dólares, investe em pesquisa, põe um departamento químico, manda as pessoas fazerem especialização, e desenvolve um produto pra você tentar fazer química em cima do produto deles? Você, que nem sabe de onde vem isso? .” Resultado, boicote total. Como o tempo corrige esse tipo de coisa, comecei a anotar onde ele estava trabalhando, e depois , quando aparecia o defeito, eu chegava pro dono da casa e falava : “ Tá vendo, tá vendo, ele não deixou você conversar conosco por conta disso, disso, disso .Em compensação olha quem fez na mesma época que você .” Então, por ignorância, insegurança e por falta de condição pessoal, eles trabalham com o desmonte da situação que você procurou criar. Não têm outro discurso que não o da desqualificação. Às vezes você ouve besteira, e sou obrigado a ficar quieto porque a pessoa não tem condição de receber a informação que você tem pra passar pra ela. Acho que a gente tem que ter responsabilidade com o consumidor . Mas ele também tem que entender que tem que analisar. Mas não analisa.

 

P/1 – Me fala sobre as suas outras atividades junto à Associação Comercial. Como nasceram...

 

R – Na verdade, comecei a militância nas questões do empresariado através do Sindicato do Comércio Varejista. Não comecei entrando na diretoria do Sindicato. O Joel Aranha tinha disputado o Sindicato e perdido a eleição. Ele é um comerciante, tinha duas lojas de confecções e tecidos muito boa, ele e o irmão, e tinha um grupo que tinha um posicionamento de mudanças e uma série de coisas, tal. Um dia, o Joel veio me convidar pra participar de um processo de seleção de lista tríplice pra Junta de Conciliação e Julgamento Ele achou que eu tinha muito perfil pra estar lá representando os empresários do comércio. Porque quem estava lá não atuava, não fazia, pá, pá, pá. Acabei me inscrevendo, aí fui ao sindicato, pedi a lista dos votantes, pedi tudo, e visitei todos os comerciantes e expliquei pra eles como é que funcionava, o que fazia, o que não fazia, ninguém sabia de nada, ninguém tinha informação nenhuma Dei todas as informações. Disse inclusive qual era a forma de remuneração, quanto a pessoa ganhava, e tal, e disse que era candidato. Foi uma surpresa, todo o mundo foi lá votar em mim. Na verdade, nunca tinha acontecido isso. O pessoal costumava trabalhar no cabresto, uma série de coisas, tal... No dia dessa eleição, o presidente do Sindicato falou pra aquele que viria a sucedê-lo e tal “ Você perdeu a eleição pro Sindicato hoje. Esse moço vai ser presidente do Sindicato.” Desse jeito. Eu escutei. Acabei sendo nomeado suplente pra Junta pelo Tribunal da Segunda Região, e fiquei na minha, tal, até que surgiu realmente a convocação para eleições no Sindicato, e o mesmo grupo veio me procurar, e tal, o Joel seria o candidato a presidente. Fizemos uma reunião das pessoas que iriam compor essa chapa, tal, e todo o mundo começou a ficar no discurso da modéstia, dizendo : “ Ah, eu quero ficar num lugarzinho discreto. .” E todo o mundo : “ Ah, não faço questão, não faço questão...” “ Então tá bom. Eu sou candidato a presidente.” E o Joel ficou tão bravo, eu falei , é a primeira lição, né? A gente deve dizer a que veio. Porque esse negócio de vai, não vou, as pessoas precisam saber o que a gente quer, o que a gente pensa, para o que é que a gente tem disposição. E fomos bem, nos candidatamos, vencemos as eleições. Hoje, estou novamente presidente do Sindicato, e esse é o sexto mandato que começamos. Fiquei três mandados de três anos, nove anos, me afastei, dois mandatos durante seis anos, e agora voltei à presidência do Sindicato. Me coloquei de novo à disposição, porque... eu gosto, porque... tive uma possibilidade de contribuição interessante para as questões do desenvolvimento do comércio de Araraquara, e também porque, sei lá, acho que tenho alguma coisa a dizer agora. Quando quis deixar, deixei, é porque eu estava me sentindo meio como aquela mercadoria deixada no balcão do açougue que já foi vista quatro ou cinco vezes, e...não tem mais razão de ficar lá. Não tinha mais nada a dizer de novo naquele momento. Precisava repensar algumas coisas. Gosto da Ana Akmatova aquela poetisa de São Petersburgo, né? Ela diz que quando você quer esquecer alguma coisa ou alguém, basta deixar de conviver, com a coisa ou com a pessoa. Mas se você quiser esquecer de verdade, mesmo, basta ver todos os dias. É. Você incorpora , né, e passa a achar que está tudo certo. Porque tropeça três vezes nisso que está aí. Na quarta vez, não tropeça mais e acha absolutamente normal que fique aí, e então deixa. E nunca mais vai tirar. E estava me sentindo um pouco assim. Por isso, deixei. Bom. Mas foi uma experiência participativa, o Sindicato passou a se interessar por assuntos... que extrapolaram aquela competência original – aspas- que outorgaram a ele, nós passamos a discutir questões mais aprofundadas, a estimular a participação da mulher, porque afinal de contas a mulher tem uma presença na economia muito importante, e chega na hora da decisão, ela não está lá, por conta também do modelo cultural que a gente tem, tal, então foi muito bom. Com isso acabei catapultado lá , Federação do Comércio, que é o viés natural, e na Federação acabei indo parar no Conselho do SESC. Que é uma instituição que gosto, prezo, preservo, e a gente está aí brigando pelas coisas do SESC, sempre, e procurando mostrar que o modelo de Brasil que a gente quer está mais perto daquilo do que disso que as pessoas apresentam. Bom. Daí também acabei acumulando a presidência da Associação Comercial, por um mandato. E houve um momento em que me senti muito desconfortável na Associação, porque lá você tem que falar macro, com todos os empresários, e na Associação tem que falar pelo segmento que você representa, e há momentos em que a relação é conflituosa entre os setores da economia. Agora, você vai ficar pondo panos quentes ou vai resolver o problema? Então não dá, você pode exercitar mais de uma atividade, sim, mas desde que ela não gere esse tipo de conflito, principalmente pra você. Se houve um momento muito bom para Araraquara, foi a guerra dos pãezinhos, houve um aumento de área de comercialização na cidade muito grande, pela implantação de algumas empresas, e os supermercados começaram a fazer dumping com o pão, por conta de atrair clientes. Lógico que as panificadoras ficaram iradas com isso. Por que? Porque eles só tinham o pão pra vender, e os supermercados tinham todas as outras coisas. Como presidente da Associação Comercial, tinha que defender a justa concorrência, tal, e como presidente do Sindicato Varejista, tinha que dizer que os supermercados estavam apenas exercitando o direito de estimular o cliente a freqüentar as suas lojas. Então, foi um momento de extremo desconforto. Foi quando decidi que não podia fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas assim mesmo, na Associação, a gente deixou alguma obra feita. A Facira foi um projeto da gente. A Facira, que pode parecer apenas mais uma feira, mas não é mais uma feira. É um projeto muito legal, porque envolve instituições sociais com objetivos bem definidos, envolve um mecanismo de participação, envolve trabalho voluntário de mais de duas mil pessoas, envolve assim uma noção de dever e de solidariedade que acho que Araraquara tem bem desenvolvida. E agora, o Sindicato é mais gostoso de atuar porque é o espelho da atividade econômica da gente. É o varejo. E quando você se assume como comerciante, né, como um cidadão que está militando nessa área, há tanta coisa a ser discutida, tal. E de como você pode exercitar essa ação, essa presença, de como você pode influir nas coisas da sua cidade... Agora mesmo, a gente está com uma discussão interessante, que é a revitalização do centro urbano através da presença do varejo, uma visibilidade boa pra todos, inclusive a gente está puxando, assim, um olhar respeitoso de outros segmentos da sociedade, os arquitetos estão encantados pelo fato , eles são cidadãos, agora. Eles não são riscadores de planta... Quer dizer, a partir do momento que a comunidade assume que a arquitetura trata também dos espaços urbanos, e o varejo presente também discute isso, tá, essas coisas estão muito boas. A gente selecionou a agenda 21 como base nessas discussões a partir de agora, e isso abriu muito espaço pra nós, então, essa atividade do Sindicato é muito gratificante, por conta disso. Fora o fato de você poder também segmentar sua fala, né? Então, tem coerência, tem identidade, quer dizer, com o teu modo de vida e com o seu exercício profissional e econômico. E na Federação do Comércio e no SESC a gente acabou podendo tratar de algumas outras coisas que a gente não imaginava que fosse dar essa dimensão a nível estadual, a nível de implantação de políticas, a nível de tudo. Então, acho que a relação que a gente está tendo, e eu, principalmente, estou capitalizando muito, do ponto de vista pessoal, a relação com Araraquara está sendo muito boa. É um privilégio você nascer, se formar, desenvolver a sua atividade econômica no mesmo lugar. E poder fazer isso de uma forma prazerosa, sabe, poder capitalizar as suas vivências, agregar todos esses valores, acho que é um tremendo privilégio. Acho que pouca gente tem esse prêmio. Isso é bom, porque não tira também da gente aquela coisa, digamos, provinciana. Não. Isto é. Não deixa você com uma condição provinciana, porque você, mesmo estando no mesmo lugar, mesmo que não seja o lugar mais importante, não seja o maior lugar do mundo nem o economicamente mais importante, você tem condição de ter uma visão de mundo jóia, equilibrada, tal, você tem condição de saber que pode ver o mundo com equilíbrio e ter uma relação boa com tudo isso. Então, acho que... não escolhi ser comerciante. Aliás, acho um defeito cultural da gente, das famílias, e mesmo de quem milita no comércio, eles não passam pra os filhos que isso seja uma coisa bonita, uma coisa boa, uma coisa importante. Comerciante chega em casa à noite e fala pro filho: “ Olha, você trata de estudar aí , porque estou ralando lá na loja pra você ser alguém na vida.” Como coisa que o comerciante não seja ninguém, não seja um ser importante. Acho um erro isso, sabe? E aí acaba direcionando os objetivos e os gostos dos filhos pra outras coisas que às vezes nem tem nada a ver com eles. Mas o próprio comerciante tem esse tipo de atitude, como se fosse uma atividade menor. E não é. O comerciante é essencial, foi através do comércio, de ações mercantis, que os mercadores fizeram o mundo ficar mais perto, pequeno, as pessoas passaram a se reconhecer naquilo que têm de diferente por conta da aproximação dos povos com hábitos diversos. Isso só foi possível por causa do comércio. Que mesmo as guerras, elas vêm por conta de interesses econômicos. Você vai lá conquistar alguma coisa porque você quer mais. Mas aí você tem que agregar um povo, uma cultura diversa. Aquilo que você está dominando é o mercado que você está controlando. Estou hoje falando com o maior orgulho de poder contar que sou comerciante.

 

P/1 – Como você caracteriza o comércio de Araraquara hoje?

 

R – Bom. Araraquara leva uma vantagem sobre outras cidades. Pelo fato de ter... aquela história de...no final dos anos 20, com a alteração do perfil econômico de todo o Interior, Araraquara teve uma diversificação de atividades, quer dizer, recebemos bons artesãos, pessoas que puderam contribuir de muitas formas para a diversificação da atividade econômica. Então se instalaram algumas pequenas industrias que passaram a ter porte, o comércio passou a ter uma característica interessante de diversificação... Porque Araraquara se colocou como um polo regional, mas não marcantemente de boca de divisão de espaço, mas um polo regional como agregador de uma micro região economicamente equilibrada e com um crescimento sustentado bem respeitável. Bom, com isso, a atividade comercial começou a ser presente, forte, mas não passou a ser absolutamente predominante. Porque quando há predominância muito forte de uma atividade a comunidade perde, porque num momento de dificuldade você acaba tendo crises muito violentas, e elas são difíceis de administrar. Hoje mesmo, a cidade tem uma composição de produto interno bruto que envolve 52,5 % desse valor agregado à atividade do comércio, ou seja, parte comércio atacadista, parte varejista, e parte serviços, que é o setor terciário. E os outros 47,5%, divididos entre agricultura, pecuária e indústria. E parte dessa atividade industrial é voltada para a questão da agricultura. Então, o comércio está inserido numa relação de equilíbrio com todas essas atividades. Isso é uma tremenda vantagem. Por que? É um segmento que representa aí 15 a 17 % do movimento global da economia, mas que é abastecido pela própria riqueza gerada pelos outros setores econômicos. Araraquara tem vida própria por conta disso. E em função disso, o nosso comércio tem uma relação muito equilibrada com a comunidade. Isso é uma tremenda vantagem.. Quando você tem a atividade muito voltada pra um setor só, se der um vento mais forte na Flórida, você empobrece. E coisas desse tipo. Ou então você fica milionário, por conta de algum fator externo. Aqui, não. Aqui as coisas se concertam Então, o comércio tem uma presença forte, marcante, tem uma cara própria, é um negócio tão estranho, que até o nosso shopping center, que não é lá um grande shopping center, é nosso. O dinheiro que está lá, é nosso. Não pagamos royalties pra um grupo econômico que implantou um projeto aqui e alugou lojas para as pessoas da cidade ou para as pessoas que aqui vieram montar alguma coisa. Até isso é da gente. A cidade nos pertence. A maior empresa multinacional que temos aqui é a Nestlé. Que não representa 3% da nossa economia, e é uma senhora empresa. A atividade industrial aqui é exercitada por empresas com capitais araraquarenses, basicamente, as quatro maiores indústrias são a Cutrale, dinheiro nosso. A Lupo, dinheiro nosso, a Nigro, dinheiro nosso. A Rocatti, dinheiro nosso. A Inepar é a única que não é dinheiro nosso, mas é dinheirinho brasileiro. É um do Paraná. Então até nisso a gente tem tido sorte. Quanto ao comércio, a gente está se ressentindo hoje da presença de muita gente que não tem identidade com a comunidade. Mas estamos já muito imbuídos de fazer um trabalho no sentido de, ou envolver ou tomar esse espaço de volta. Porque isso muda um pouco a cara da cidade e acho muito importante que a cidade tenha a cara dela. Um jeitinho que seja dela mesmo.

 

P/1 – Bom, já estamos nos encaminhando para o fim da entrevista, e queria saber se você tem mais alguma coisa a dizer...alguma outra atividade sua, do SESC...

 

R – Não sei...Veja. Acho que a gente enquanto cidadão, está envolvido em tudo. E tem que estar. Sabe, estou aqui disponível, contando o que acho de mim, mas isso é muito pretensioso. É mais interessante você saber que tipo de olhar as pessoas podem lançar sobre você. Então, o que fiz hoje foi uma descortesia. Mas, em todo o caso, como faz parte do projeto, topei. Porque...não posso estar ausente, né? Mesmo porque, o fato de ser convidado pra participar de um projeto como esse, é uma grande homenagem. E mexe um pouco com os sentimentos da gente, aumenta um pouco a responsabilidade em tudo. Afinal, a gente tem consciência de que não é isso tudo. E...embora a gente tenha plena condição de ser. Mas é uma bobagem querer ser. Mas, sei lá... eu diria que...acho que o segredo de tudo isso é você exercitar com prazer tudo aquilo que te for ofertado. Tudo o que te colocarem à disposição, acho que a gente tem que ter sabedoria pra isso... Quando você se coloca disponível, aprende bastante, cresce, e a gente está precisando um pouco disso.

 

P/1 – O que você achou desse exercício, aqui...

 

R – Ah, achei muito bom, porque inclusive vou precisar retomar algumas coisas comigo mesmo, alguns assuntos que deixei pendentes e não resolvi e que tomei ciência disso agora que fui obrigado a mexer um pouco nas paredes da memória e vi que alguns objetos de decoração estavam empoeirados ou tortos. E como tenho ascendente em Virgem, gosto das coisas muito arrumadas.

 

P/1- Então o Museu da Pessoa agradece sua presença.

 

R – Pra mim é uma honra. Nem tenho o que dizer. Tenho que sentir, só.

 

P/1 - Então muito obrigado

 

P/2 - Obrigada.

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