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História

O dia em que tudo mudou

História de: Maria Jupira Sanches de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/10/2019

Sinopse

Vivendo em uma família que achava ser sua família biológica, Maria Jupira descobriu depois de crescida ser, na verdade, filha de seu padrinho. Em seu relato de vida, a mulher conta como foi arrancada dos braços de sua mãe logo quando nasceu, relembra os momentos dificeis de sua infância, como lidou com a descoberta chocante, fala sobre o reecontro com a mãe biológica e também sobre o apoio do marido e o carinho pelos filhos. Por fim, diz que seu maior sonho é ter um livro de sua história de vida.

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História completa

P/1 - Dona Jupira, nós vamos começar a entrevista com a senhora, que tem muita coisa para nos contar. Vamos começar então com o seu local de nascimento, seu nome completo e a sua data de nascimento.

 

R - Meu nome é Maria Julia Sanches de Oliveira e nascia dia 20 de abril de 1931 em Itamarandiba, Minas Gerais.

 

P/1 - Pode nos dizer o nome do seu pai, da sua mãe e qual a nacionalidade deles.

 

R - Bom, meu pai chama José Sanches Ruiz e minha mãe Maria Lúcia Caldeira Sanches. Ele é espanhol e a minha mãe é brasileira.

 

P/1 - Sua mãe é brasileira?

 

R - É.

 

P/1 - A senhora sabe quem foram seus avós?

 

R - Por parte de pai e de mãe, Maria Brandina de Oliveira Caldeira e Antônio Ruiz.

 

P/1 - São seus avós.

 

R - São meus avós.

 

P/1 - Agora vamos começar, como era a vida da sua família lá em Itamarandiba? Quando a senhora era criança, como é que a senhora vivia, quantos irmãos tinha, como era sua casa, como era a vida da senhora no interior...

 

R - Bom, eu não morei em Itamarandiba, eu morei mais em Diamantina, Itamarandiba foi onde eu nasci. Mas eu morei em Diamantina, eu tinha uma vida normal, né? De criança, mas eu vivia muito assustada. Sempre haviam visitas na minha casa e sempre eu notava que havia diferença nessas visitas que logo perguntavam: “mas aqui menininha, tu vai ser empregadinha da casa, né?” e mandavam “vai chamar tua mãe”. Então eu chamava minha mãe, aí ela vinha e falava para ela, pra pessoa que entrava, “escuta, ela não é empregada. Como é que você está tratando essa menina desse jeito?”, ela ficava muito brava, né? E dali eu não percebia mais nada da conversa, depois eu ganhava muitos presentes, daí eu tinha uma vida assim, fui até o segundo ano em Diamantina na escola de lá, e depois não sei o que aconteceu, de repente a família tinha que mudar sempre correndo cidade por cidade.

 

P/1 - E tinha outros irmãos?

 

R - Tinha. Eu era a mais velha... não, era a do meio, era a terceira. Tinha o José Maria, o Jacir, tinha eu e mais duas irmãs abaixo, nós éramos em cinco.

 

P/1 - Como era o nome das duas irmãs?

 

R - Era Dolores e Neusa.

 

P/1 - E de Diamantina, a senhora foi morar aonde?

 

R - Nós viemos para Belo Horizonte, porque meu pai estava muito doente, então nós viemos para Belo Horizonte. Mas foi muito curta nossa passagem porque ele estava muito mal, então nós viemos embora para São Paulo, eu tinha 12 anos quando eu cheguei aqui em São Paulo.

 

P/1 - Foi morar em que bairro aqui em São Paulo?

 

R - Nós fomos morar... aliás, nós fomos trabalhando, principalmente eu. Eles me colocaram numa casa, eu trabalhei de pajem porque não havia condições de nos ter juntos porque não havia lugar para morar. Então fomos para casa dos parentes do meu pai, né? Então eles me empregaram e depois empregaram as outras menores todas de pajem. Ele foi para o hospital e infelizmente veio a falecer.

 

P/1 - E a senhora viveu assim, trabalhando muitos anos?

 

R - Sempre trabalhando. Trabalhei bastante tempo em casa, de empregada doméstica, então quer dizer, eu era pajem e depois eu fui crescendo e achava que eu devia melhorar nossa vida. Então eu falava para mamãe, “mamãe, não preciso trabalhar de empregada, eu posso trabalhar fora”, ela me colocou numa gráfica, trabalhei muito tempo na gráfica e depois comecei a trabalhar na São Paulo Alpargatas. Eu tinha dois empregos, era muito pesado para mim, mas infelizmente, logo perdemos o irmão mais velho com meningite. Então eu fui obrigada a viver assim, mas fomos vivendo a nossa vida.

 

P/1 - Nessas alturas as irmãs já moravam todas com a sua mãe?

 

R - Já, morávamos todos juntos.

 

P/1 - Em que bairro?

 

R - Nós morávamos aqui no Brás.

 

P/1 - No Brás.

 

R - É.

 

P/1 - E quando a senhora era pequena, lá no interior de Minas, como era a sua vida com as irmãs, as brincadeiras, o que vocês faziam... Como vocês viviam?

 

R - Bem. Nós sempre nos dávamos muito bem, mas sempre me diziam que eu não era irmã delas, né? Porque eu era muito moreninha e elas eram loiras de olhos azuis, então havia sempre aquela briga entre nós.

 

P/1 - E aí a senhora foi trabalhando com a sua família... E a senhora não estudava, só trabalhava?

 

R - Não, eu estudava e trabalhava.

 

P/1 - E estudava aonde?

 

R - Lá no Brás, não estou me lembrando o nome do grupo... É Romao Puiggari. Mas eu fiquei pouco tempo porque mamãe me tirou e me colocou para trabalhar direto na fábrica, né? E com os 17 anos, ela passou um telegrama para Belo Horizonte para o sobrinho dela que eu considerava padrinho, [dizendo que] ele precisava vir porque ela achava melhor que ele tomasse conhecimento que ela queria que eu casasse. E foi quando ele veio, né? E eu casei com 17 anos.

 

P/1 - E aí esse seu padrinho, o que é que aconteceu? Qual é a história que tem a ver com esse seu padrinho?

 

R – Certo. Aí nós casamos e antes do casamento, ela intimou ele, dizendo que ele devia dar um enxoval para mim, porque senão não ia haver casamento. Então eu fui para Belo Horizonte com ele e quando chegamos em Belo Horizonte, ele preparou. Ele disse que ele ia fazer meu casamento, deu o dinheiro e mandou que eu viesse de volta para casar, né? E aí quando eu me casei, depois de muito tempo, né? Nós tivemos uma visita... Eu fui morar no Aeroporto de Congonhas... Nós tivemos uma visita de um marido de uma empregada da minha mãe que... Quer dizer, minha mãe a trouxe do interior, não era bem uma empregada. Era até como uma filha em casa. E um dia o marido dessa moça - que chama Anita, e ele chama Manuel -, pediu que meu o marido o ajudasse a ver uma passagem de avião para ele ir para o norte. Os dois ficaram a madrugada toda conversando e dali a minha vida mudou, porque o Manuel, conversando com meu marido, falou “A Anita sofreu muito na mão dessa família”, que era a família da minha mãe, então o meu marido respondeu “Mas a Jupira era filha e sofreu”, e ele falou “Mas a Jupira não era filha”, e dali então eu fiquei sabendo que aquele padrinho era o meu pai.

 

P/1 - E esse padrinho como se chamava?

 

R - José Pedro Caldeira.

 

P/1 - Agora a sua mãe verdadeira, como se chamava?

 

R - A minha mãe verdadeira [se chamava] Maria José Reis.

 

P/1 - E eles se conheceram aonde? Como é que foi essa história?

 

R - Os meus avós, os pais do meu pai legítimo, né? Eles tinham uma casa de comércio, era uma família muito bem-conceituada na cidade, Itamarandiba, e ele era único filho. Então ele casou-se muito jovem, mas ele continuou estudando no Seminário do Caraça. Então ele vinha passear e gostou da minha mãe, e ele não queria... Porque o obrigaram a casar por causa de dinheiro, a família da esposa dele era gente que podia também, então acharam que deviam fazer o casamento dos dois...

 

P/1 - Já era casado quando conheceu a sua mãe?

 

R - Já era casado. E aí ele começou a querer gostar da minha mãe e minha avó então achou ruim, falou para ele que ele não ia ficar ali em Itamarandiba, que ele ia mudar para Belo Horizonte com a família... E foi que fizeram, o mudaram para Belo Horizonte, mas mesmo assim ele conseguiu fugir e voltar novamente para a terra dele, que o meu avô infelizmente era cego, e ele tinha uma admiração muito grande pelo pai, era o único filho, mas eram uma família muito unida, então aconteceu. Deu problema com a minha mãe, né?

 

P/1 - Sua mãe tinha que idade nessa época?

 

R - Minha mãe nem tinha 14 ainda, tinha 13 anos e pouco...

 

P/1 - Quando você nasceu?

 

R - É, houve o problema. Aos 14 e pouco, eu nasci. Mas o nascimento foi, assim, uma coisa muito triste, né? Porque quando a minha avó percebeu que houve alguma coisa de errado, ela recolheu minha mãe para a casa dela, os meus avós, por parte da mãe legítima, moravam na mesma cidade... Então disseram para ela “Você vai ficar aqui e não vai sair daqui”, mas a minha avó com aquela preocupação da família, disse “Meu Deus, eu tenho que dar um jeito de tirar essa criança daí, já já vai aparecer” e a minha avó fazia muita Quitanda para fora, porque eles tinham casa de comércio, tinham lojas, se chamava Quitanda onde vendiam biscoitos... E aí minha avó chamou ela bem do lado esquerdo dela... Isso eu sei porque a minha mãe contou para mim direitinho... Então ela puxou a pá de pães e ela marcou bem em cima do estômago da minha mãe e ela trouxe a pá com violência, caiu todos os pães... Ela trouxe com toda aquela violência e a minha mãe caiu sentada, e já, logo em seguida, desmaiou. Então aí eles a puxaram para debaixo do porão, que a casa grande era grande, e ali nasceu a criança e essa criança foi colocada como morta. E a minha mãezinha ficou 8 anos me visitando no cemitério.

Até quando houve uma briga muito grande entre as duas irmãs, que era minha avó e a irmã dela, do meu pai legítimo... A minha avó brigando com a irmã e ela disse assim, “Pois eu vou contar, que a Jupira existe, ela é muito bonitinha e mora em Diamantina. Ela está com uma família lá e tem 8 anos.” e esta irmã da minha avó saiu correndo e foi contar para minha mãe legítima, porque ela achava que eu tinha morrido, ia no cemitério me visitar.

 

P/1 - Na hora que deram a pá?

 

R - É, ela caiu, ela ficou ruim e entrou em parto, né?

 

P/1 - Aí pegaram você e sumiram?

 

R - É, sumiram e disseram para ela que eu tinha morrido. Então ela ficou me visitando por 8 anos no cemitério...

 

P/1 - Sem saber que a filha estava viva...

 

R - É, levava flores, chorava lá no meio dos indigentes, porque diziam a ela “Foi enterrada aí, no meio dos indigentes”, porque era uma criança prematura... E aí minha mãe começou a corrida louca a minha procura e eu não sabia de nada, né?

 

P/1 - Nem ela sabia onde a senhora estava.

 

R - E nem ela sabia onde eu estava. Então ela procurava, procurava, mas não encontrava. Um dia disseram a ela que eu estava em Diamantina e ela foi correndo me procurar, disseram que eu já tinha saído... Porque a família que eu estava mudava, assim, de um dia para o outro...

 

P/1 - Por que?

 

R - Porque era ordem dos meus avós para me levar embora, para eu não encontrar com a família.

 

P/1 - Para não localizar a sua existência...

 

R - É. E aí depois de muito tempo, quando o Manoel contou, eu comecei a procurar também, né? E eu fiquei louca procurando, eu tinha 26 anos. E aí eu comecei a procurar igual louca... Foi quando em 1961 que eu consegui, aliás, uma prima nossa de Itamarandiba, escreveu avisando que meu romance tinha terminado, que eu existia, os meus pais eram outros e não eram aqueles, que aquela que me criou era minha tia, irmã do meu avô. Então foi aquela loucura. Eu consegui achar com muita dificuldade o endereço dela e nisso eu mandei uma carta, ela plantou muitas rosas, mais de duas mil rosas lá em Governador Valadares numa fazenda do Antônio Gabiroba, que são até políticos lá, e o seu Antônio foi muito boa pessoa para mim, porque ele recebeu... Eu escrevi uma carta para ela e escrevi uma carta para ele... Então, eu pedi a ele que entregasse aquela carta a ela, porque era muito interessante ela saber onde eu estava morando e que eu precisava muito vê-la.

E foi aí que ele deu para o meu tio, o meu tio ficou três meses com a carta no bolso e não entregava, e a gente aqui louco para saber por que ela não respondia a minha carta, né? Aí eu comecei a viajar de avião, fui para Belo Horizonte para procurar novamente, pensei que já tinha perdido tudo o que eu tinha feito, né? Aí quando foi um belo dia, era o Dia das Mães, né? E eu estava aqui em São Paulo, quando eu já estava com 30 anos... E eu falei assim... Eu tinha que fazer um programa de televisão para o Durval de Souza, eu tinha que arrumar 12 mães, eu arrumei 11, e eu estava nervosa porque não encontrava mais uma mãe... E tinha que trazer aquelas mães, mãe brasileira, alemã, italiana e tal... Então quando eu estou já com várias mãe na minha casa esperando para levar, eu vejo que chega na minha porta uma senhora com um rapaz. E ele bateu na porta e fui atender. Aí ele disse assim, “É aqui que mora Maria Jupira?” e eu falei “É”. Ele pegou e me deu minha carta, [aquela] que eu havia dado para minha mãe, quando eu vi a carta, e eu olhei nela, aí a outra disse “Você não devia ter vindo aqui, você errou, você devia ter vindo em minha casa”. Ela baixou a cabeça, aí a que me criou falou “Vai depressa na televisão e volta depressa para cá” e eu fiquei meio, assim, perdida, né? Aí eu avisei ao Durval “Onze eu arrumei, mas a doze é minha e eu vou me embora”. Depois o Durval falou na televisão, “aqui se encontram 11, porque o número 12 está junto com a Jupira, é uma grande amiga minha e eu não podia tirar esse dia dela”. E mal sabia o Durval que era naquele momento que eu estava encontrando a minha mãe...

 

P/1 - Que era a primeira vez que a senhora a via...

 

R - É.

 

P/1 - Agora vamos ver um outro lado da sua vida... O seu marido, como foi o seu casamento? Como foi a sua vida de casada, os seus filhos?

 

R - Graças a Deus tudo bem. Eu até agradeço muito meu o marido, que me apoiou muito, que me ajudou muito, porque foi muito difícil para mim continuar a vida depois de tudo aquilo que eu lembrava, do que passei e levar aquela vida para frente, porque eu sofri muito. A família do lado da minha mãe eram todos grandes já, né? Todos adultos e poucos pequenos... E eles assustaram e foi muito difícil fazer o contato. O choque para mim era grande, mas eu tinha que saber conquista-los porque eu precisava de amor, porque eu nunca tinha tido amor, eu só tinha sofrimento. Então, eu tinha aquela loucura de abraça-los e de gritar dentro de mim que eu tinha gente por mim. E a família do meu pai também foi muito difícil a chegada, o encontro, porque eu fiquei vários tempos com eles, mas como prima e não como irmã.

E o meu marido me deu uma boa cobertura. Uma época eu quase perdi a força, mas a gente ser católico, ter fé em Deus [ajuda]... E o meu marido fez com que eu reagisse e falou “Olha, você tem seus filhos, nós, graças a Deus, vivemos bem, não somos ricos, mas vivemos”

 

P/1 - Ele trabalhava com que?

 

R - Ele trabalhava no aeroporto de Congonhas. Trabalhava de chofer de praça, trabalhou muitos anos.

 

P/1 - No aeroporto?

 

R - No aeroporto de Congonhas.

 

P/1 - A senhora casou com 17 anos e ele tinha qual idade?

 

R - O meu marido? Ele estava com 25 [anos]. Nós casamos dia 15 e dia 17 ele completou 25 anos.

 

P/1 - Como era o nome dele?

 

R - Arlindo Carvalho de Oliveira.

 

P/1 - Seu Arlindo... Ele hoje ainda é vivo?

 

R - Vivo, graças a Deus.

 

P/1 - E trabalha ainda ou não?

 

R - Não, ele é aposentado. Ele fez ponte safena, né? E está quietinho lá no cantinho dele.

 

P/1 - E os seus filhos, como é que são?

 

R - Os meus três filhos são uns amores. Eu acredito que eles até hoje não cortaram o cordão umbilical, nós somos muito unidos.

 

P/1 - Quais sãos os nomes deles?

 

R - É Elizabeth...

 

P/1 - Que idade tem?

 

R - A Elizabeth está com 38 anos.

 

P/1 - Ela trabalha?

 

R - É professora, está fazendo a terceira faculdade agora, Direito. Ela fez a faculdade de Matemática, Física, Desenho e Pedagogia. A Elizete, a segunda, fez o normal, Inglês e fez uma especialização para surdos e mudos. E o Arlindo Filho, não gostou muito de estudar, né? Mas ele é muito inteligente. Ele gostou mais de informática, está fazendo computação, tem todos os aparelhos e trabalha com várias firmas. Adora fazer o leilão, fazer leilão...

 

P/1 - Que idade ele tem?

 

R - Ele está com 33 anos.

 

P/1 - Todos são casados?

 

R - Todos casados.

 

P/1 - Tem muitos netos já?

 

R - Tenho 7. A Elizabete tem três, duas meninas e um menino, Thiago, Tatiane e Fabiana. A Elizete tem duas, a Luciana e a Juliana. E o meu filho tem o Arlindo Neto e a Cristiane. E [tenho] uma nora que é muito boa, dois genros maravilhosos. Eu só tenho que agradecer a Deus que a minha vida, nesse ponto, é muito feliz.

 

P/1 - E depois que casou a senhora continuou trabalhando ou ficou só cuidando da casa?

 

 R - Continuei trabalhando. Trabalhando até mais, né? Porque eu sempre ajudava mamãe depois de trabalhar, trabalhava ajudando até a mamãe que me criou, porque ela precisava de mim. E sempre tinha ela ao meu lado também. Eu trabalhei com lavanderia. Montei uma lavanderia, trabalhei para o aeroporto, para vários restaurantes, Cantina do aeroporto, para a Cantina do Parque da Água Branca no aeroporto de Congonhas... Conheço muitos restaurantes, todos me adoram. A minha lavanderia chamava Lavanderia Jupira. Eu sempre achei que meu nome passou a ser diferente, para mim ele tinha um destaque diferente. Depois eu parei com a lavanderia, fui convidada para trabalhar na Varig bastante tempo, trabalhei também, depois voltei novamente para minha casa. Então comecei a fazer comida, fazendo marmitex, fazendo salgado, congelados. E depois achei que era muito trabalho, meus filhos não poderiam me dar atenção, meu marido já estava doente. Então, eu resolvi abrir uma escola de culinária. Hoje eu me divirto lá, dando aula, batendo papo com outros, ensinando todo mundo a fazer alguma coisa de diferente. E vou levando.

 

P/1 - E quando a senhora era mocinha em Belo Horizonte, ou mesmo quando chegou aqui, a senhora lia alguma coisa, revista, jornal, livro de culinária... O que a senhora gostava mais de ler?

 

R – Não. Eu sempre gostei de teatro. Achava muito bonito, gostava de ler o jornal, saber as notícias, né? Mas eu, infelizmente, essa foi uma tristeza minha, porque eu merecia ter sido educada melhor e não fizeram isso por mim. Porque acharam que se eu estudasse, ia dar alguma uma confusão, né? Então o pouco que eu sei, eu sei por força de vontade, por minhas grandes amigas... Eu também até estudei um pouco de música, mas tudo força de vontade, não que eu pudesse... Também não tinha tempo para encarar os estudos, né? E também não lembrava, porque era uma vida muito corrida, muito agitada, eu sempre trabalhei para fora, eu corria demais. Eu trabalhei 23 anos com lavanderia.

 

P/1 - A senhora leu algum almanaque? Aqueles almanaques que haviam antigamente, lá no interior, em Belo Horizonte?

 

R - Não. Eu gostei muito de uma história que eu li, foi da filha da Mandioca, que se chamava Jupira. Eu tenho até em casa.

 

P/1 - É bonita a história

 

R - É, eu achei muito linda a história.

 

P/1 - Agora me diga uma outra coisa... A senhora participa de alguma atividade de grupo, de comunidade, de associações, de clubes...

 

R - Eu sempre tive problema de pressão, porque infelizmente, é uma parte que não falei, a minha mãe legítima vinha de vez em quando me visitar, e ela faleceu de um desastre na porta de minha casa. Então, eu fiquei [ruim] três meses que eles pensaram que eu ia enlouquecer. Porque ao todo, eu encontrei com a minha mãe 12 anos, mas acho que nem era uma vez por ano que a gente se via, então foi muito triste para mim. Eu tinha problema de pressão alta e eu tratando ali no Campo Belo com a doutora Maria da Guia, ela disse “Você não tem pressão alta, você tem depressão, você vai entrar na biodança, você vai sair bem e vai ficar bem”, ela mandou que eu fosse me inscrever, eu fui e nós estamos lá na biodança. Tenho bastante amigas, somos em 50. Até no dia da festa da terceira idade, nós fomos dançar, fazer uma biodança lá...

 

P/1 - Para o grupo da terceira idade?

 

R - Para a terceira idade. E agora nós vamos, dia 19, para Campos de Jordão. É um ônibus e eu que vou ficar com a turminha.

 

P/1 - É aquele grupo do Ibirapuera?

 

R - No Ibirapuera nós fizemos a carteirinha também para participar lá. Eu gosto muito do yoga, eu acho que é uma coisa muito boa.

 

P/1 - E hoje a senhora mora com quem?

 

R - Estou eu e meu marido, só. Mas em volta de todos, porque moram todos [os meus filhos] perto da minha casa. E eu ainda olho os meus netos, [filhos] do meu filho caçula, eu fico com as crianças porque a minha nora trabalha, dando aula também. Então eu fico lá, tenho a minha escola, mas [fico] com as crianças junto.

 

P/1 - E como é o seu cotidiano?

 

R - Meu dia é assim, quase comum, igual a todos, mas sempre tem uma novidade no meio, né? Eu fico com as crianças, mas eu tenho muitas amizades, muitas visitas. E eu sempre recebo uma surpresa, sempre tem um parente de fora que vem e outro. E às vezes nós vamos fazer uma festa e de repente está aparecendo uma festa lá que eu nem sei porque.

 

P/1 - O curso de culinária funciona de manhã, de tarde...

 

R - De tarde. Eu gosto muito de dar aula para profissional, gosto de orienta-los, para quem gosta de lanchonete, quem quer aprender porque não sabe, um cozinheiro que começou uma cozinha que parou. Parou por que, né? Não pode parar. Então eu gosto de dar aulas mais para profissionais. E damos também para o geral.

 

P/1 - O que foi que mais transformou a sua vida?

 

R - Em tudo?

 

P/1 - Em tudo que se passa em sua vida, o que mais se transformou e marcou mais?

 

R – Olha, o que mais me chocou na vida em primeiro lugar foi saber, na realidade, que eu não era filha [da família de criação]. E eu achei que aquilo foi uma injustiça muito grande, porque eu conheci todas as famílias e não sabia, eu era cega no meio de todos. Então isso me chocou muito, houve uma modificação muito grande dentro de mim e eu sofro sozinha, porque eu acho que eu não posso dividir essa tristeza. Acho que ninguém pode ouvir, porque eu sou alegre para falar, eu sou brincalhona, mas né... Então eu acho que ninguém vai querer ouvir o que foi que me chocou tanto, o que eu modiquei. Eu modifiquei bastante, até para vir aqui, eu fiquei dois dias com 23 de pressão. Porque ao lembrar da minha vida, ao voltar, ao recapitular... Eu tenho dores, mágoas, tristezas, porque eu fui tão boa para todos eles, me achava sempre boa, porque eu não abandonei ninguém.

 

P/1 - A senhora acha que valeu a pena, então, ter vindo?

 

R - Valeu. Nossa, foi a melhor coisa para mim, porque é a primeira vez que quando tem a reunião, que eu compareço. Porque em casa, eu aviso que vou, né? Convidei meu marido, vamos, “Ah não vou”... Mas uma coisa dizia para mim “Vai”, porque a minha maior loucura era estar em um momento desse e falando um pouco de mim. Porque eu acho que ninguém parou para ouvir, assim, e eu até agradeço vocês.

 

P/1 – E qual é o sonho que a senhora ainda tem para realizar?

 

R - Olha, meu sonho seria fazer um livro ou uma novela da minha vida, porque eu acho que não tem coisa... Eu acho que o direito de nascer ficou de lado da minha vida, o meu foi direito de viver, porque até me porem numa caixinha lá e me levarem para uma fazenda... Chegaram lá, a dona da Fazenda não estava, voltaram comigo, olharam novamente e eles queriam acabar comigo... Então eu acho que a minha maior paixão seria essa, a minha maior loucura... E eu agradeço, porque no dia que nós fomos lá na festa, eu não sei... Estava um barulho. Estava todo mundo conversando, de repente eu ouvi falar que quem quisesse, até 10 pessoas podiam comparecer. Então eu imediatamente disse para minha cunhada que estava comigo: “Acho que hoje chegou meu dia”, eu falei, “Ah, cunhada, vou ver se eu consigo escrever alguma coisa da minha vida”. Fiquei feliz.

 

P/1 - Agora vai ficar gravada no vídeo. Me diga mais uma coisa, a senhora teria uma mensagem para deixar para as outras pessoas, para os seus netos, para os seus filhos, para a geração mais nova... Alguma mensagem que a senhora quisesse deixar baseada em toda sua vida?

 

R - A mensagem que eu posso deixar é essa: Que a vida é a coisa mais bela. E que os meus filhos, meus netos, meus genros, minha nora e que todo o pessoal, entenda que amar a Deus em primeiro lugar é a força e a resistência. Depois, a gente tem que lutar porque os obstáculos da vida são muito pesados, mas eu sou feliz porque vejo todos sorrindo e me querendo muito bem. Então é isso o que eu posso dizer de todo o coração.

 

P/2 - E para finalizar, daqui para frente quais são os seus planos?

 

R - Meus planos? Olha, a minha vida é normal ainda, mas eu gostaria de lutar para conseguir chegar lá com esse livro. Eu queria levar direitinho na mão da esposa do meu pai, que ainda é viva e eu queria beijar a mão dela, porque ela desfez, sabe, depois que meu pai faleceu, ela nem me comunicou. Mas eu a amo, e eu acho que eu devia chegar a ela e mostrar para ela que a gratidão que eu tenho por ela é muito grande e a quero muito bem. Não quero que ela fique sentida comigo. Essa é uma vontade que eu tenho muito grande.

 

P/1 - Dona Jupira, muito obrigada por a senhora ter vindo, foi uma ocasião muito importante para nós também e acho que a senhora prestou um depoimento muito interessante. Muito obrigada.

 

R - Eu que tenho que agradecer a vocês. [Estou] muito agradecida.

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