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História

O eco da latinha

História de: Wallace Rocha da Conceição
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2012

Sinopse

Wallace Rocha nasceu em Vigário Geral e é o filho caçula da família. Criado pela mãe e pela avó, teve uma infância marcada pela violência e pobreza. Gostava da escola, de estudar e desde cedo teve fascínio pela música e pela dança. Em Suburbia, interpreta o personagem Dudu.

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História completa

Na verdade fui criado com a minha mãe e pela minha avó. Quando eu completei meus 13 anos, minha mãe me chamou na esquina, porque meus irmãos já conheciam meu pai, eles eram mais velhos que eu, e: “Você vai conhecer teu pai hoje”. Não foi uma decepção, mas foi gratificante. Eu senti o abraço do meu pai primeira vez. Não tive um colo, não tive nada. Mas depois, tinha hora, quando ele queria falar comigo: “E aí Emerson?”, eu: “Eu não sou Emerson, sou Wallace”, e toda hora tinha que corrigir, já tava ficando chato.

Eu já não queria ficar perto. Bateu um certo ciúme na verdade. Mas dá pra recordar muita coisa boa também, além dessa história do meu pai. Minha avó tinha muito carinho por mim. O que eu sou hoje foi muito graças a ela também. Me deu muito incentivo. Sempre me falou que eu ia ser um bom menino, que eu ia ganhar o que eu mereço na minha vida. Minha avó cuidava da gente quando a minha mãe ia sair pra alguma coisa, fazer algum trabalho, que era faxina, fazia comida pra gente. Pelo que eu não tive do meu pai, ela me deu tudo o suficiente. Sinto muita falta dela. A gente dormia no chão de terra junto com a minha avó, e não tinha nada, era só um lençolzinho.

Em Vigário Geral eu fui crescendo e era muito em casa. A mãe não deixava a gente sair e eu ficava muito no quintal, brincando de fazer pé de lata. Com meus irmãos e os meninos da rua. A gente brincava, mas era muito perigoso onde a gente morava. A verdade é essa. Por isso que a minha mãe não deixava ir pra longe, sair do portão. A gente presenciava passar alguém com um saco na cabeça, sendo torturado, passar uma carroça com vários corpos em cima, algumas coisas que pra gente não era tão normal. Mas a gente tinha que encarar como normal botava açúcar e, ficava sentadinho lá no sol, comendo um biscoitinho de vento mesmo, salgadinhos. Ficava comendo lá, depois descia, tomava um banho, ficava andando na comunidade. A gente tocava na rua, na verdade copiava uma banda que hoje é Banda Makala Música e Dança, é dança afro.

Eles tinham uma performance que era um espetáculo. A gente olhava assim: “Caraca mano”, e pegava latinha no meio da rua e começava a imitar. E a gente aprendeu assistindo e botando na prática. Um ano surgiu a oportunidade de entrar para o AfroReggae, porque eles olhavam a gente: “A gente está tocando não sei onde, eles estão indo atrás. Vamos pegar essa galera para a gente, vamos aproveitar”.

E o grupo foi registrado como Afro Lata, esse grupo ao qual eu faço parte 15 anos. E foi nessa que eu acompanhei, foi nesse crescimento que eu já estava junto. Quando foi ver, desde o comecinho a gente está junto aí, e o Afro Lata já viajou para a Inglaterra, Colômbia, Uruguai, Holanda, fora os lugares do Brasil, Porto Alegre, São Paulo. Eu dou oficina de percussão lá no núcleo. Tudo bem organizado. Para tocar e dançar a gente criou um dom.

A gente ficava só balançando, mexe o corpo para lá e para cá e tocando. E quando entrou de verdade para o AfroReggae, ofereceram oficina de dança afro para gente, com aquecimentos, alongamentos, como pegar na baqueta. E a minha intenção é essa: eu gosto de me atarefar em todas as coisas que o AfroReggae está oferecendo. Eu já fiz aula de baixo, saía voado para oficina de percussões, ia para o ensaio do Makala. Eu ficava correndo para cima e para baixo. E todo mundo falava: “O que é que tu queres afinal de contas? Quer fazer tudo?”.

Então, o que vier, eu vou acolhendo, porque eu sei que é bons frutos que vão ter. No Suburbia eu sou o Dudu, e ele canta uns funks do anos 1990 e dança também. E tem uma mistura. O meu jeito de ser, calmo e sorrir, e o Dudu sorri direto. Na minissérie também eu estou sorrindo direto. É aquela brincadeira e eu sou assim também, eu gosto muito de brincar. Se for contar um, dois, três para criar agora, “Vamos criar! E aí?”, foi, a gente brinca, interage pra caramba. Eu sou o Dudu mesmo.

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