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História

O interior do Brasil

História de: Helio Simon (Helio Sereno Silva)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/06/2016

Sinopse

Nesta entrevista, Helio nos conta sobre sua família, como seus pais e seu avós estrangeiros viviam, sua infância e juventude, entrando no seminário. Fala de sua iniciação na escola de teatro e em como logo começou a fazer viagens com peças. Quase nunca parou, se apresentando mais no interior dos estados do Sudeste, que no próprio Rio de Janeiro. Cedo começou a dar aulas e ter muitos contatos nas prefeituras do interior, conseguindo cargos na área da cultura, abrindo e dirigindo, inclusive, um teatro no Rio. Por fim, nos diz também como foi sua vida na ditadura, sobre os momentos difíceis que passou, os três casamentos que teve até o momento em que entrou no Retiro dos Artistas.

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História completa

Meu nome civil é Helio Sereno Silva, o artístico é Helio Simon. Eu nasci no dia três de novembro de 1946. Eu sou carioca, da Tijuca. Minha mãe era cigana, era filha de cigano com africano, meu pai era descendente de árabes. Meus avós nasceram na cidade de Ankara, Turquia, meu pai era descendente de português. Eles mexiam com fazendas, eram pessoas ligadas a fazendas, animais, gado, tal. Meu pai era comerciante, tinha comércio, ele foi um dos primeiros a ter loja na rua da Alfândega. Ele começou a  se envolver em jogo e foi à falência. Com o meu tio, eles montaram um cassino. Eles ganharam muito dinheiro e  também perderam, porque naquela época, o jogo era muito perseguido. Aí depois, ele casou, aí foi ser um comerciante comum… Ele foi à falência, eu saí de casa cedo… Os meus avós trabalhavam com ouro, o cigano só trabalhava com ouro. Então, eles tinham casas em que eles negociavam as antiguarias, ele ia para esses interiores de fazenda e ele comprava essas estátuas antigas de madeira que os escravos faziam, então, ele vendia a preço exorbitante, ele ficou muito rico. Minha mãe nunca foi uma mulher submissa. pai era um homem muito malandro, muito esperto, entendeu? Era um homem que tinha muitas amantes, mas ninguém sabia.

 

Eu tive uma educação mais dentro de um seminário, eu me formei. Na infância, brincávamos de bola de gude, pipa. Eu gostava muito de reunir grupos de crianças e ler, quando já estava em fase de leitura, e ler. E eu tinha uma coisa comigo nessa idade da infância que você fala de seis anos, sete, tem sempre um mais velho que sabia ler e não sei como aquilo surgia da minha cabeça, eu falava assim: “Lê isso e a gente vai fazer aqui uma brincadeira”, que hoje a gente fala uma dramatização, um jogo dramático.

 

Fui amigo de Erasmo Carlos, Tim Maia, Jorge Ben Jor. Na Tijuca, morei até os 17 anos. Eu sempre fui envolvido com rádio, então, eu estava sempre na Rádio Mayrink Veiga, na Rádio Nacional e nós tínhamos um conjunto, até chamado Sputinik. O meu irmão, que veio, mas ele já morreu, ele se enforcou por motivo de uma paixão. Eu entrei pro seminário quando eu estava com 17 anos. E o padre Aldo, era um polonês, ele me perguntou: “Helio, meu tio é padre, ele fundou um seminário em Niterói. Você não gostaria de entrar?”, na época podia fazer, “você faria o vestibular e poderia fazer Teologia e ser padre. Você não quer fazer uma experiência?”. Aí eu entrei pro seminário. Mas o seminário foi muito importante porque ele me educou muito, me deu muito equilíbrio. Mas o período que eu mais namorei foi quando eu usava batina. Li Kardec no seminário. Aí que vai entrar o problema. Até que um dia descobriram (risos). Eu passei, entrei no seminário e nisto um dia passando por uma livraria ali na avenida Passo, eu vi FEB, Federação Espírita Brasileiro. E mesmo de batina eu entrei. Falei: “Poxa, interessante”. Aí folheando um livro veio uma pergunta: “O que é Espiritismo?”. Aí eu falei: “Mas isso é interessante, vou levar isso pra pesquisa”. Aí me encaminhou para o arcebispo, que na época era o Dom Antônio de Almeida Moraes Júnior, e me suspenderam do seminário durante três meses e eu estou suspenso até hoje (risos). Era a convivência de um colégio interno muito severo, não deixa de ser igual a uma vida miitar. Quando eu saí, eu estava começando a fazer o curso de formação de ator.

 

Eu entrei no Conservatório Nacional de Teatro pra fazer um pequeno curso de ator, onde eu conheci Moal, Haddad e comecei a me envolver com o pessoal mesmo de teatro. Durou três anos. Eu fiz formação de atores, depois curso de Direção. O meu primeiro trabalho foi quando eu fui em São Paulo, foi um dos primeiros, esse é o que me marcou mais, que eu conheci o Plínio Marcos e ficamos três anos em cartaz: “Dois Perdidos numa Noite Suja”. Ele não me contratou, ele falou da peça. Eu falei: “Como eu faço para eu ter essa peça sua?”, ele falou: “Ah, eu vou te dar uma cópia. Eu peguei a cópia feita na caneta. Aí eu fiquei com ela e nesse ínterim o tempo foi passando, o tempo foi passando, eu sempre metido com teatro e nisso veio o período da ditadura, a coisa começou a pegar. Você estava montando um trabalho, a censura era brava. Então, você era obrigado a: “Não pode falar isso, você tem que trocar isso, tem que falar isso, tal”. Então, a gente fazia às vezes “Dois Perdidos numa Noite Suja” com “Dois na Gangorra”, de Gogol, fazia uma comédia, uma brincadeira. Aí os caras viam assim, vinham aqueles homens sisudos de chapéu, tal, olhava, aí colocava lá: “Não, tá aprovado”. Em vez de pensar que aprovou a peça de tal, aprovou a nossa apresentação, davam o certificado e a gente ia viajar.

 

Em “Dois Perdidos numa Noite Suja”, eu fazia o Vado. A gente intercavala. Como são dois atores que pode ser levado em qualquer lugar, então você pode fazer o Vado ou pode fazer o Paco. Depois veio “Navalha na Carne” e eu comecei a me especializar. Então, eu arrumei cinco pessoas, reuni e falei assim: “Olha, gente, vamos sair pra gente ganhar dinheiro. Porque no Rio de Janeiro a gente não ganha”. Naquela época. Aí fomos viajar. Começamos em Minas, Juiz de Fora, e fomos fazendo aquelas cidadezinhas todas. Montamos três espetáculos: “Dois Perdidos numa Noite Suja”, “Chapeuzinho Vermelho” e uma peça infantojuvenil, eram sempre três peças, nós tínhamos três espetáculos quando íamos nas cidades. Aí eu era ator, diretor, além de fazer a produção ia captar recurso para a montagem do espetáculo e ia buscar espaço (risos). Fazia tudo. Aí depois eu abracei o Teatro do Oprimido, que é uma ideia venezuelana que o Augusto Boal muito espertamente usou pra trabalhar os textos, os temas dele e introduziu o nome de Teatro do Oprimido, que é nada mais, nada menos do que um tipo de teatro que eu me formei, que eu fiz um curso durante dois anos. Então, eu me aprofundei com Grotowski e meus cursos foram todos em cima de Grotowski e do Teatro do Oprimido.

 

Aí depois foi só dando aula, viajando, conheci esse Brasil... Na ditadura, tínhamos uma verba do MEC e na época do Figueiredo, logo no início, e fundamos a Carroça da Cultura, que era uma Kombi que ia pras cidades pra divulgar o teatro, as artes. Então nós fazíamos esse trabalho de onde eu comecei a trabalhar nos interiores. Eu era carioca mas eu ficava mais no interior de outros estados. Já com 25 anos mais ou menos, já estava em Campinas, dando aula na Unicamp. Então, eles foram me avaliar e quando eles souberam que a minha especialidade era a linha de Jersy Grotowski, criou esse teatro que tinha uma filosofia de falar que você antes de interpretar, antes de você viver um personagem, você tem que conhecer o seu personagem, quem é você. Você não pode ser o outro sem conhecer as suas máscaras. Então, o nosso teatro, para muitos a gente fala assim: “É um teatro psicanalítico, é uma psicoterapia de grupo?” “Não, é apenas teatro, é você ir em busca de você mesmo, mas buscando um personagem”. Porque ele se baseia no seguinte: como eu posso viver um personagem na sua essência sem eu me conhecer? Então você tem que preparar muito a cabeça da pessoa porque o teatro para muitos é um mascaramento, mas para outros é o descobrimento. Quando eu dei o curso aqui eu dei na linha Stanilavski. Eu tive aqui uma base de quase 180 alunos, na década de 80, no teatro Iracema. Somando todas as peças que fiz, dá uma base de 140. Eu vou desde Nelson Rodrigues, com “Bonitinha mas ordinária”, “Os cafajestes”, “Dragão”. Plínio, Pirandello, Fagundes com “Por telefone”. “Nó cego” do Verez, Shakespeare, Gogol. Quando o Garotinho foi eleito, ele me convidou pra ser assessor de gabinete dele, mas aí me botou em Quintino, onde inauguramos o Teatro Grande Otelo, que mudamos para Teatro Cefet. Eu dirigi aquele teatro.

 

Eu fiquei no Retiro durante cinco anos, de 80 até 84, eu dava aula aqui no Teatro Iracema de Alencar. Fiz o Primeiro Festival Estudantil de Teatro aqui. Na ditadura, fui exilado pra Cuba. Eu fui me casar já com certa idade, sabe? Se eu estou com 68, a primeira mulher eu casei já com 45 anos. É, fiquei oito anos com uma, depois separei, fiquei mais oito anos separado e com essa outra fiquei 20, me separei agora há cinco anos, cada uma tem um casal de filhos. Eu fui a Campinas, de Campinas dei aula na Secretaria de Cultura. Da Secretaria de Cultura fui diretor do Núcleo Cênico. Ali eu dava aula uma vez por semana e comecei a fazer contato com as prefeituras.

 

Mas passei necessidade também, muitas vezes a gente ficava ensaiando na base do café dormido e pão com mortadela, ia até altas horas de madrugada. E isso herdei uma úlcera, tenho uma úlcera até hoje. Eu tenho um sistema nervoso abalado, sou hipertenso, tenho problema de coração. Eu tenho insônia. Às vezes, cochilo. Diz que quando você está na solidão é que você consegue criar, quando você está no silêncio, quando você está procurando ouvir você, quando você consegue ouvir você, você consegue criar. Aí que vem a depressão, as neuroses. Porque o verdadeiro ator, o verdadeiro artista é aquele que tem mil neuroses. Eu tenho mil neuroses. E se eu não tivesse essas neuroses eu não conseguiria criar. Você pode ver que os grandes artistas pela história, tanto da arte como da pintura, como da música, todos eles tiveram seus desequilíbrios emocionais. Mas dentro desses desequilíbrios que eles conseguem criar. Não sou eu que falo, são eles mesmo.

 

Então, eu me separei e fiquei sem chão. Eu falei: “Eu não vou trabalhar agora”. E minha mulher falando: “Helio, se você não der atenção à família, não tá bom, o nosso casamento não tá legal, a gente tem que sentar pra conversar”. Eu falei: “Uma hora a gente conversa”. Não dava crédito. Minha culpa, minha culpa, minha culpa. Eu sou o culpado. Todas as minhas separações o culpado fui eu por não dar ouvido à mulher.

 

Quando me disseram que podia vir aqui, fiquei ainda um mês com a chave na mão. Venho ou não venho? Até que o Henio falou: “Helio, vem ou não vem?”. Aí eu vim, fomos lá em cima, ele me deu a casa, estou na casa até hoje. Muito bem tratado, gosto muito da Cida Cabral, pessoal da Enfermaria, não tenho nada que reclamar. Respeito todos, mas nem todos você tem muita afinidade, mas tenho. A administração muito boa. O Stephan é um presidente excelente. No momento, eu estou com projeto pra ser desenvolvido, porque eu estou com problema de saúde. Meus sonhos hoje, vou te dizer com toda sinceridade. É ainda ter pessoas do meu lado em nível de arte que realmente você sente nelas firmeza de vocação, talentosas, montar uma pequena equipe de arte e viajar por esse mundo afora.

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