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"O meu filho tornou tudo diferente"

História de: Deisy
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/08/2019

Sinopse

Deisy nasceu no estado de São Paulo e, devido aos pais biológicos serem usuários de droga, foi viver em um abrigo. Aos quatro anos foi adotada e levada para viver no Distrito Federal, lá, apesar de ter uma boa vida, sofria bulling na escola e começou a ter problemas com a mãe. Fugiu de casa e foi novamente para um abrigo, tendo morado um tempo na rua, onde passou a usar drogas. Em uma reviravolta em sua vida, descobriu que estava grávida e então decidiu que deveria mudar de vida.   

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História completa

Meu nome é Deisy, eu nasci no estado de São Paulo, em 1994. Eu tenho os meus pais adotivos e os meus pais de sangue; os meus pais de sangue eram usuários de droga e então me tiraram deles. Eu não lembro muita coisa da minha cidade natal não, porque eu fui para o orfanato duas vezes e de lá minha madrinha me tirou, eu fiquei um tempo com ela, aí depois eu voltei para o orfanato de novo, fui adotada e vim pra cá, para Brasília. Fui adotada aos quatro anos.

 

Quando fui adotada foi um pouco estranho, porque meus pais falavam pra eu chamá-la de mãe, ele de pai. Aí eu fiquei meio assim, porque minha mãe e meu pai eram outros. Eu chamava de tia, ela falava: “Não, é mamãe”. Eu: “Não. Não é mamãe, não, é tia”. Foi um pouquinho difícil pra aceitar. Mas depois eles... Sei lá, eles começaram a me dar amor, sabe? Aí eu fui me envolvendo com eles e tinha os filhos também, eles têm mais três filhos.

 

Meus pais fizeram um quarto pra mim, tudo, só que eu não dormia no meu quarto, eu dormia com a minha mãe, porque eu tinha muito pesadelo, chorava muito de noite. Só depois que eu fui crescendo, que eu fui tendo mais confiança, aí eu comecei a dormir no meu quarto mesmo. E eu ia para a escola, gostava de ir para a escola, brincava… Na época eu queria ser advogada, por causa do meu irmão, na verdade eu ainda quero. 

 

A minha relação na casa era boa, só que eu tinha umas manias de rua, porque quando eu morava com a minha mãe de sangue, eu morava na rua, aí foi um pouco difícil de me adaptar, mas era bom. Eu tinha mania de roubar, não queria tomar banho, queria ficar só na rua também, descer, ficava pedindo o dos outros sem precisar. Cheguei a ter alguns problemas, porque aí eu comecei a passar comigo que eu queria roubar, sabe? Tipo, pegar as coisas dos outros, mexia nas coisas da minha irmã, eu fazia... Vixe, foi horrível na época. Eu não obedecia minha mãe, nem meu pai, foi isso.

 

Só depois que fugi mesmo, de vez, que foi quando eu não tava dando certo de jeito nenhum com a minha mãe. Aí eu entrei em depressão, quando tava com uns nove anos pra dez, aí toda vez eu tava querendo me matar, tomava remédio, essas coisas, ia para o hospital. Aí um dia eu falei que eu não queria ficar de jeito nenhum na casa dela, aí acabei indo para o abrigo de novo, com quatorze anos. Aí foi lá que eu comecei a usar droga, comecei a sair...

 

É que eu sofria muito “bullying” na escola, me chamavam de gorda, de tribufu, um monte de coisa, e aí eu não gostava de falar pra minha mãe. E minha mãe também ficava fazendo umas piadinhas, sabe? Mas não era por mal, mas eu misturava com o bullying da escola. Eu ficava com raiva dela, com raiva de todo mundo de lá de casa. Aí acabou que eu não aguentava mais ficar lá, eu queria ir embora e eu fui. Aí no abrigo tava melhor, porque eu não sofria bullying, eu tinha muito amigo, que eu não tinha na época que eu morava lá com a minha mãe. Só que esses meus amigos usavam drogas, algumas se prostituíam, mas eu gostava deles.

 

No primeiro dia no abrigo eu fiquei com medo, eu fiquei com muito medo, porque todo mundo falava que lá eles apanhavam, aí eu tava com medo de apanhar também. Só que quando eu cheguei lá era completamente diferente, todo mundo de boa, me arrumavam as coisas que eu tava precisando, me chamavam pra andar na rua. Lá tem um monte de casa, fica muita gente, muita criança e adolescente. E é normal, a gente almoça direitinho, janta, toma banho, tem a nossa cama, só que o quarto cabe assim, quase umas vinte pessoas, mas é normal.

 

Quando eu fui para esse abrigo, eu tive o meu primeiro namorado e ele usava maconha, sabe? Só que eu não fumava. Um dia eu saí com uns amigos meus e eles conheciam uns moleques de rua, e esses meninos de rua cheiravam cola, aí eu aprendi a cheirar cola, comecei a viciar e fui morar na rua. Aí fiquei viciada em tíner, em cola, depois eu tive um problema de sinusite, eu não conseguia mais cheirar, todo dia eu tava passando mal, passando mal, eu resolvi mudar minha vida. Aí eu voltei para o abrigo e comecei a estudar. Só que aí eu não passei nem uma semana na escola. Depois eu comecei a fumar maconha, aí eu só fumava maconha.

 

Para conseguir dinheiro era só pedir mesmo. Só depois que eu comecei a fazer umas coisas erradas, aí dava pra comprar, mas não gosto de falar disso. Eu fiquei um tempo na rua, acho que foram três meses. Todo dia de manhã a gente ia pra uma lanchonetezinha que o salgado é cinquenta centavos. A gente pedia dinheiro lá, em vez de comprar salgado a gente guardava o dinheiro; tinham alguns que davam um salgado, a gente aproveitava e comia. Mas a gente passava de manhã até umas seis, sete horas pedindo no sinal, ou pedindo na rua, andando e pedindo. Quando o dinheiro ficava acho que uns vinte, vinte e cinco reais, a gente comprava uma lata de cola, aí passava a noite toda cheirando, no dia seguinte a gente começava tudo de novo.

 

No começo eu sentia vergonha, mas eu fazia isso mais por uma amiga minha, que tinha ido pra rua, e eu fui pra rua... Não só pela droga, mais por causa dela. E ela tinha muita vergonha de pedir, muita. E a gente pedia mais pra comer. Eu sentia vergonha, mas eu pedia, porque eu não queria que nem ela, nem eu passássemos fome. Depois eu comecei a pedir mais pra usar a droga mesmo, porque quando eu usava droga eu não sentia muita fome, aí nem ligava. Mas tirando isso…

 

Várias vezes eu tive vontade de mudar de vida. Eu mudava de vida, ia para o abrigo, começava a estudar, aí passavam umas duas semanas eu voltava de novo a fazer besteira. Até que um dia eu falei que ia mudar e voltei para o abrigo. Eu tinha um namorado na época que me ajudou a parar de usar droga, me ajudou a parar com tudo, tirou meus piercings. Mas eu não gostava dele, eu gostava do meu primeiro namorado, que me incentivava a usar droga. Aí a gente começou a brigar, eu fiquei enjoada dele, terminei com ele e pedi pra uma amiga que eu queria morar com ela, só que ela disse que o lugar onde ela tava não era bom para morar, mas mesmo assim eu queria. Eu fui pra lá, a gente ficava na casa de um senhor. Só que não tava dando muito certo, o filho dele também não gostava da gente, aí a gente apanhou desse filho dele e ficamos na rua de novo. 

 

Quando eu via o tanto que eu tava sofrendo, que eu tava fazendo minha família adotiva sofrer também, sabe? Eu pensava muito nisso. Mas depois que eu parava com tudo, acho que era abstinência que me dava, eu não queria mais, eu queria usar droga de novo, queria sair. Aí eu voltava e continuava tudo de novo. Até que depois que eu fiquei grávida, que foi depois que eu fui morar com essa minha amiga, depois que a gente saiu da rua a gente ficou na casa de um amigo nosso, e aí eu comecei a trabalhar. Eu trabalhava numa mercearia do lado e toda vez que eu recebia eu ia comprar droga, eu ia comprar droga, eu nunca gastava com nada além de droga. Saí de lá, voltei para o abrigo de novo, que eu queria estudar; aí de novo retornei a morar com esse meu amigo, comecei a trabalhar num bar, também não deu certo. 

 

Depois eu comecei a trabalhar na casa de uma mulher e comecei a viciar em lança perfume. Toda vez que eu conseguia dinheiro eu cheirava lança; aí ficava uns dois dias sem ir para o trabalho, eu falava pra ela que eu tava doente, que não sei o quê, ela começou a desacreditar de mim. Depois eu comecei a sentir muitas dores, toda vez que eu usava droga eu vomitava muito, aí fui ver que eu tava grávida. A mulher falou que era pra eu ir embora, porque eu já cuidava do marido dela que era um senhor doente, e ainda ter uma grávida... aí não ia dar certo. Aí eu saí e voltei para o abrigo. Passei minha gravidez no abrigo até o sexto mês e foi aí que eu vim para o ViraVida.

 

O meu filho diferenciou tudo. Eu só queria mesmo estudar, trabalhar e conseguir alguma coisa pra eu ajudar meu filho, pra não deixá-lo passar pelas mesmas coisas que eu passei. Até hoje eu tenho isso na minha cabeça, que eu nunca mais vou usar droga, nunca mais eu vou sair sem necessidade, porque meu filho precisa de mim, se eu ficar me distanciando dele, quem vai se prejudicar não... Assim, eu posso até me prejudicar, mas pra mim não tem tanto problema quanto para o meu filho. Eu não quero que ele seja prejudicado por minha causa. Quando eu tive meu filho eu senti muito, muito amor, foi a melhor experiência da minha vida (choro), porque agora eu sei que eu não estou mais lutando por mim, eu tô lutando pelo meu filho, que ele merece.

 

Eu acho que tudo que eu faço na minha vida, tudo, tudo, é por ele, que eu quero que ele seja uma criança muito feliz, uma pessoa muito feliz. Eu quero que no futuro dele ele possa parar e pensar que eu fui uma mãe de verdade, não só como outras crianças que perderam, que foram abandonadas. Não. Ele pode ter certeza de que no dia em que ele estiver lá em cima, estiver bem, muito bem mesmo, ele vai lembrar muito de mim, não por eu ter feito isso e aquilo, mas por ele lembrar que teve uma pessoa por ele, que fui eu. Muitas outras vão aparecer, mas eu quero que ele saiba que ele foi muito importante na minha vida e eu quero ser muito importante na vida dele também.

 

Antes do ViraVida eu me sentia uma vagabunda. Para falar a verdade, sei lá, como se eu fosse uma louca, não entendesse nada da vida. Eu não tava nem aí se eu morresse, se alguém me batesse, se alguém me torturasse, fizesse alguma coisa para mim. Eu não tava nem aí, não tinha medo de nada, de nada, de nada. Andava de madrugada na rua sozinha, o povo mexia comigo, eu mexia com o povo de volta. Eu era muito louca, não tava nem aí pra nada. 

 

Aí no Projeto eu fiz alguns cursos e estudei até a oitava série. Nossa, é muito legal, eu consigo entender tudo, tudo, tudo. Quando eu estudava mesmo no colégio público, eu não entendia nada, nada. Eu sempre fui muito uma aluna exemplar, eu nunca reprovei, só reprovei na segunda série, porque eu fui adotada, não sabia ler, não sabia nada. Mas quando eu passei na segunda série, depois que eu fiz de novo, aí eu comecei a me empenhar e sempre passava direitinho na escola, os professores gostavam de mim. Só que eu era muito bagunceira também, tipo, conversava muito, mas a minha inteligência era muito boa, eu pegava as coisas rapidinho. Só que depois, quando eu fui para a sétima série, que eu fui para o abrigo, eu fiquei quatro anos sem estudar e estou estudando agora de novo.

 

 Eu voltei pra casa da minha mãe, tô com meu filho, cuidando do meu filho. Cuido do meu filho direitinho, dou banho nele todo dia, o arrumo todo dia. Sempre procuro comprar as coisas bonitas pra ele, pra ele sair sempre arrumadinho. Sempre tento evitar minha mãe brigar comigo, que minha mãe fala muito, mas eu fico calada, porque eu sei que se eu continuar falando aí ela vai brigar mais e a gente vai uma semana brigada. Então eu prefiro evitar, deixá-la falar até onde ela quiser. E é isso que tá ajudando a gente a ficar bem.

 

Eu sou uma Deisy que ninguém mais conhece, completamente diferente. Hoje eu tenho sonho forte mesmo, que antigamente eu tinha, mas era uma coisa que eu só pensava que poderia acontecer, mas talvez ou até com certeza não iria acontecer. Hoje eu tenho certeza que vai acontecer. Eu tenho muito, muito que agradecer a Deus por eu ter ido para a rua, por ter ido para o abrigo, por ter usado droga, porque eu conheci a realidade de perto, eu sei o que muitas outras crianças passam. Hoje em dia o meu sonho é abrir uma instituição para meninas grávidas que são usuárias de drogas, ser advogada, até juíza, com fé em Deus, e lutar pelos direitos dessas crianças que nascem e não têm para onde ir, não têm oportunidade, até têm oportunidade, mas não conseguem enxergar, porque já passaram por muita coisa ruim.

 

O meu maior sonho de todos é defender, é lutar, correr atrás do direito de cada criança dessas que os pais, a família, não deram expectativa de vida para eles. Porque muitos deles acham que estão sozinhos, mas não estão sozinhos e que podem lutar sim, e não abaixam a cabeça para ninguém. Porque as pessoas de fora, que não conhecem e julgam, e julgam, e julgam, e não sabem o que tá se passando... Para eles não olharem para esse ponto, mas para eles olharem que eles se conhecem, que eles sabem o potencial. Alguns podem até não saber, mas que eles têm um potencial e que eles têm que procurar e que muitas oportunidades estão aí e eu quero ajudar muitos deles a entender isso. Esse é meu sonho, de defender todos eles, de não deixar que ninguém faça mal, como o Governo, que toma, muitos tomam comida, isso, aquilo. Eu quero estar sempre ali, firme, para não deixar isso acontecer.

 

“Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações”.

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