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"O mineiro é o rei da harmonia"

História de: Luiz Carlos Carvalho Alves (Luiz Alves)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/11/2004

Sinopse

Luiz Alves Nasceu em 1944 no Rio de Janeiro (RJ). Herdou dos pais o gosto pela música e logo começou a estudar e se envolver no cenário musical carioca. Nesta entrevista ao Museu da Pessoa, relembra seus primeiros passos na carreira musical e o papel decisivo de seu tio, Fernando Careca, que lhe motivou a tocar baixo na Boate Arpège, no Rio de Janeiro. Relembra, ainda, como se deu a parceria e amizade com os irmãos Borges, Robertinho Silva, Wagner Tiso e Milton Nascimento, a quem acompanhou como membro do grupo Som Imaginário e nas gravações de "Clube da Esquina" e "Milagre dos Peixes".

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História completa

 

P1 – Oi, gostaria que você começasse falando seu nome completo, local e a data de nascimento.

 

R Meu nome é Luiz Carlos Carvalho Alves, sou carioca, nasci no Rio de Janeiro, em Botafogo, dia 5 de Outubro de 1944, em Botafogo.

 

P1 E o nome dos seus pais?

 

R Meu pai é Augusto Freitas Alves e minha mãe é Léia Carvalho Alves.

 

P1 E qual era a profissão ou é a profissão deles?

 

R Meu pai era cunhador de moedas da Casa da Moeda, mas era músico também, tocava violão, e minha mãe era do lar.

 

P1 Quer dizer que seu pai era músico, então.

 

R Era músico também.

 

P1 E o que ele tocava?

 

R Tocava violão.

 

P1 Ah sim, mas que tipo, que gênero de música?

 

R Ele tocava música regional, ele tocava com a Carmélia Alves e ele tinha um conjunto vocal também, eles cantavam na época, é, aquela época do rádio, né? Eram os boêmios, com o conjunto, eles tocavam com a Carmélia Alves nessa época.

 

P1 E de onde vem o seu gosto pela música?

 

R Olha, eu acredito que..., quer dizer, daí o meu pai tocava já, era músico, já tocava e a minha mãe também gostava de compor. A minha mãe gostava de cantar, e ela..., eu tenho um tio, que é irmão do meu pai, é o mais novo dos irmãos do meu pai, e ele era um pouco mais velho do que eu, uns cinco anos mais velho do que eu, e ele tocava e era músico também, ele tocava bateria. Ele, o Fernando, me influenciou muito, ficava me ensinando aquelas coisas, tudo que ele aprendia, ele me ensinava, percussão, tocava aqueles instrumentos dele, ele era baterista. Mas meu pai tocava violão e eu também aprendia violão com o meu pai, né? Então eu fiz aquela miscelânea toda de percussão com violão, isso aí com uns oito anos de idade, por aí, ainda eu não tinha nada definido se, o que eu queria ser, se eu queria tocar ou não. Eu queria mais era moleque, garoto, queria era brincar na rua, jogar bola, aquelas coisas.   

 

P2 Você somou cordas e percussão, e aí deu...

 

R É, deu uma boa salada porque fui aprendendo tudo, e meu avô era do Nordeste, cearense, minha vó também cearense, por parte da minha mãe. A minha mãe era carioca, filha de português, quer dizer, uma salada, aquela coisa brasileira, né, aquela mistura toda.

 

P1 E onde foi que entrou, quer dizer, qual o seu instrumento hoje?

 

R Olha, aí eu comecei a tocar violão, estudar violão, fui para a escola estudar música, estudei com o professor Joaquim Naegele no Méier, no subúrbio do Rio. Aí comecei a tocar, com quinze anos eu tinha um conjunto vocal, formei um conjunto vocal, nós fomos pra rádio Mayrink Veiga. Aí começamos a tocar, fazer uns programas da rádio Mayrink Veiga. Naquela época, isso em 1958, por aí, eu tinha uns quinze anos, e aí depois eu comecei a fazer baile. Daí, do violão, comecei a fazer uns bailinhos, tocar, aquela coisa. Quem me influenciou, quem sempre me influenciou muito foi esse meu tio, o Fernando. Fernando Careca, ele chegou pra mim e falou: "Pô, por que você não toca contrabaixo? Você tem um jeito pra harmonia, tal". E eu não era muito solista, sabe, aqueles caras espevitados de ficar solando. Eu era mais tímido, ficava fazendo base, né? Eu era guitarra base, fazia mais base. Aí ele falou: "Pô, por que você não toca contrabaixo?" Até então eu não estava nem aí, não, aí ele falou, aí eu fui. E nisso, já com uns dezoito anos, por aí, fui servir no exército, servi no paraquedista. Fui aqui no Rio, fui servir no exército. Quando eu dei baixa do exército, aí eu já estava naquela, não sabia o que eu ia fazer, né? Não sabia o que eu ia fazer da vida, aquele negócio. Deu baixa, aí: “E agora, tem que trabalhar”, vamos fazer estudava primário aquelas coisas, né? Aí o Fernando me arrumou. Tinha uma boate no Rio, se chamava Boate Drink, eles iam sair todo fim de semana à boate, no fim de semana pra fazer baile, o conjunto efetivo, né? Porque naquela época todas as boates, todos os bares tinham um conjunto trabalhando, tinha música ao vivo, não tinha negócio de DJ, não sei o quê, de "rép, rép, rap", não tinha nada disso, tudo era música ao vivo mesmo. Então o coro comia, todo mundo trabalhava. Aí o Fernando falou assim: "Pô bicho, tá precisando de um baixista". Olha só que loucura. "Tá precisando de um baixista lá na Boate Drink." Na época dessa Boate Drink que não era nada, não era nada, era uma boate que tocava Djalma Ferreira, tocava Miltinho, cantava Miltinho, era uma boate da época que era famosíssima ali naquele centro do Leme aqui no Rio, né? Tinha uma boate Arpège que era do Waldir Calmon, tinha a boate Fred’s do lado que era tudo com show com orquestra, tinha show de carnaval, aquelas coisas, né? Tinha a boate Sacha’s também, e tinha a Drink, aí eu fui, cheguei lá, à tarde, na Boate Drink pra ver como é que eu ia tocar, né? Pra ver, ensaiar, dar uma ensaiada, tal. Aí, quando eu cheguei lá, tinha um amigo do Fernando, meu tio, o Tião, que já até faleceu, que tocava baixo lá na boate. E o Tião me deu umas dicas, assim, como é que pegava no instrumento. Era um instrumento com a escala de baixo acústico, mas era elétrico, era um instrumento alemão, era o primeiro que eu vi daquela época, naquela época já tinha esse instrumento, foi o primeiro que tinha lá, era um baixo framus. E pô, era com espelho, toda a escala de baixo acústico, mas o corpo era pequenininho, era elétrico. Aí eu falei: "Ih, meu Deus, piorou". Aí eu falei: "Agora vou". Aí fui lá, ele me ensinou, me deu umas dicas, como é que pegava, mas como eu tocava violão e harmonizava, tinha bom ouvido, né? Musicalidade tal, aí, mas ainda faltava, né? Tinha que ter estrada, começar a estudar mesmo pra poder tocar direito. Aí eu cheguei lá, quando chegou a noite, arrumei um terninho, um paletozinho, uma gravata, aí fui. Aí por sorte pra mim, né, quando eu cheguei lá, arrumaram outro, porque viram que eu não ia dar, que eu era muito novo, eu ia começar no..., aí eles me falaram: "Ah, já arrumaram outro aí",  não sei o quê. Deram uma desculpa. Nisso que eu fiquei, aí eu saí, né? Aí eu conheci o Anselmo Mazzoni, pianista, que era muito amigo da minha família. A gente morava lá em Botafogo, e ele era amigo dos meus pais e a família dele. Então conhecia ele e ele era pianista, ele tocava no Arpège, na Boate Arpège do Waldir Calmon. Aí ele me viu lá ele falou assim: "Poxa, você não quer fazer lá não, porque não tem ninguém tocando lá, tá faltando músico, você quer tocar lá?". Aí me chamou pra tocar lá, daí eu fui. Comecei a tocar no Arpège, aí, no Arpège, o instrumento já era aqueles baixos elétricos, já era um baixo elétrico comum, aí era mais fácil até pra mim, porque, como eu tocava violão, era mais ou menos a mesma afinação. Afinação do violão, afinação do baixo mi-lá-ré-sol, é o violão, só uma oitava abaixo, né? Aí eu fui, aí fui desempenhando, e nisso: "Ó, você quer voltar semana que vem?". Aquela coisa, aí eu fui ficando, aí nisso aí a história vai, eu tenho muita história pra contar. 

 

P1 Então fala mais precisamente do momento em que você conheceu o pessoal do Som Imaginário.  

 

R Pois é, daí foi que eu fiquei no Arpège tocando e o Robertinho, baterista. Robertinho Silva tocava no Drink, aí ele começou a ficar no Drink, como eu não fui para o Drink. Depois que eu saí da Boate Drink, o Cauby Peixoto comprou a Boate Drink. Aí era o Moacir Peixoto, que era o pianista que tocava e o Araken Peixoto, e o Robertinho tocava com o Juarez que era o pianista do Cauby. Foi quando eu conheci o Robertinho assim, por acaso, eu tocava na outra boate. Aí nisso, nós fomos conhecendo, encontrava nas esquinas, na hora do intervalo. Aí eu, a gente, quando chegava na madrugada, quando a gente saía das boates, todo mundo ia e se reunia naqueles barezinhos pra jantar, pra bater papo depois da função. Aí encontrei o Wagner, foi quando eu conheci o Wagner, eu achava que o Wagner era garçom. Porque ele não tinha a cara de hoje, parecia um garçom, eu até falava com o Robertinho: "Pô, esse cara aí é garçom?". Mas a gente era assim numa boa, aí o Wagner sentava lá, ele era muito amigo do Reizinho que era um baterista, aí o Wagner foi, a gente foi ficando amigo também, ainda não conhecia o Wagner, nunca tinha visto o Wagner. Aí uma vez nós fomos, aí nós, eu fui numa boate. Aí o Wagner estava tocando. Aí eu: "Poxa". Fiquei amarrado no Wagner tocando, né? Falei: "Pô, o Wagner tocando bonito à beça", com as harmonias já modernas, naquela época, aí eu falei: "Pô, que legal!" Aí eu me amarrei no Wagner. Aí a gente também, ele gostou da gente, aí pintou um casamento legal, assim musical, uma coisa legal, e aí o Robertinho também, e aí já estava naquela época dos trios, né? Aquela época era bossa nova, dos trios, samba-jazz, né? Naquela época já estava rolando, aí nós, isso aí já quase 1970, aí o Wagner, aí nós resolvemos: "Pô, vamos formar um trio, já que a gente tem afinidade tal, vamos formar um trio, juntos, vamos fazer um". Resolvemos fazer, aí fomos ensaiando, tal e fazendo algumas apresentações, assim, mas sem muita..., né? Daí foi que o José Mynssen,  aí tinha a boate Sacha’s na época, José Mynssen que foi o produtor do Milton, ah não, antes, quando o Milton, quando eu conheci o Wagner, o Wagner que me, tocava com o Paulo Moura, e o Paulo Moura, o Wagner me chamou pra tocar com o Paulo Moura, com o quarteto Paulo Moura. Aí era eu, o Pascoal Meirelles, o Wagner e o Paulo Moura, nós fomos tocar com a Maísa, e quando nós voltamos dessa temporada que nós fizemos com a Maysa, nós fizemos depois com o Milton. O Milton tinha feito o festival da canção, foi aí que tudo começou, foi o Wagner que introduziu a gente nos mineiros. Aí o Wagner apresentou o Milton pra gente, o Milton era novinho, tinha chegado logo na época do festival, o Wagner falava à beça do Milton, falava: "Pô, tem um amigo meu amigo lá que tal..., precisa ver as músicas dele", aquelas coisas, né? Aí eu falei: "Pô, legal". Aí o Wagner apresentou a gente ao Milton, aí nós fomos tocar, nessa época, o Robertinho ficou tocando com o Cauby. Aí nós fizemos esse quarteto com o Paulo Moura. Aí nós fizemos um show com o Milton Nascimento, Paulo Moura e tinha mais um vocal, um quarteto vocal, a Málu, Balu, a Ballona, né, a Málu Ballona também cantava, e daí foi. Depois que, aí o Milton deu um tempo, o José Mynssen chamou a gente, isso já em 1969, final de 69, pra formar um grupo pra acompanhar o Milton. Mas o Milton já estava conhecido, já era conhecido, tinha feito sucesso com “Travessia”. Mas só que o Milton parou um pouco no tempo, ele só fez aquele negócio e ficou meio assim indefinido, sabe aquelas coisas, aquela época também, uma doideira danada, todo mundo meio, época da ditadura, né, uma barra. Aí o Milton..., o José Mynssen foi quem impulsionou o Milton. Já estava com aquela nova concepção, negócio de hippie, movimento de paz e amor, essas coisas todas. Aí o José Mynssen que deu a ideia da gente fazer uma coisa mais descontraída, todo mundo sem camisa, com cordão, sabe, botava uma roupa mais..., o José Mynssen foi quem fez o negócio, aí ele chamou, ele nos apresentou o Tavito que eu não conhecia. Aí o Tavito e o Zé Rodrix, a gente não conhecia, eu não conhecia eles não, porque a gente era mais músico de ficar tocando na boate, na noite, e o Zé Rodrix já vinha de teatro, entendeu, já tinha uma outra concepção e tal, ele tocava também, ele tocava piano, tocava aquela gaitinha de, aquela flautinha, como é, flauta doce, ocarina, aquela ocarinazinha. Aí tocava ocarina, tocava piano, ele era muito talentoso, o Zé Rodrix. Aí o Tavito, foi uma fusão legal que deu certo, foi um som legal, com as músicas do Milton, pá, e ficou um som legal mesmo. Aí na época foi uma coisa até nova, foi uma coisa que surgiu, foi legal, foi surpreendente, e a gente tinha uma concepção pop assim, moderna, uma coisa assim gênesis, uma coisa mais de..., uma coisa legal e foi, agora, não durou muito, né, foi por causa da...

 

P2 E você conheceu o Milton, né, quando foi que você teve contato mais com o pessoal do Clube da Esquina, mais precisamente, com os Borges?

 

R Ah, foi nas vezes que eu fui a Belo Horizonte, nós fomos fazer show lá. Eu fiz no Marília, esse show que nós fizemos no Teatro Marília lá em Belo Horizonte,  com o Paulo Moura, ali nós já começamos a conhecer, tinha o pessoal que morava ali, no prédio onde o pessoal se encontrava, né? Aí a gente ia pra lá, com o Wagner, foi ali que eu conheci o Marcinho, conheci mais o pessoal, o irmão dele que toca piano também, aquela turma. Aí nós nos conhecemos ali, aí sempre quando eu ia a Belo Horizonte, que a gente sempre ia fazer show, tinha aquela turminha, a gente se encontrava, ficava ouvindo música, mostrando músicas, e depois o Milton, quando ele veio, o Milton depois que voltou, que a gente foi fazer o disco na Odeon. Aí foi quando o pessoal veio pra cá também, né? Daí começou a vir o Beto Guedes, o Lô Borges, aí já eram mais novos, depois com o Milton fizemos o Clube da Esquina, tocamos juntos. Aí foi o Som Imaginário, foi uma mesclagem com o Toninho Horta, aí aquela turma toda, né?

 

P2 Deu uma mesclada.

 

R Deu uma mesclada legal porque isso foi uma fase muito boa pra mim particularmente porque conheci muita gente boa, fiz grandes amizades e aprendi muito também. Aprendi muita coisa porque o mineiro é o rei da harmonia, né? Harmonia mesmo musical, aquela da moderna, uma concepção diferente de tocar, e aí juntou legal com a gente carioca, né? Aquela coisa, deu certo.

 

P2 E você lembra de algum caso interessante para contar, da sua vivência com o pessoal do Clube da Esquina, o Som Imaginário, afinal, além do Som Imaginário, você conhece os dois, três discos, não foi? 

 

R Ah, foram tantas coisas que aconteceram, que, poxa, eu sei que nós fomos fazer, nós fizemos o disco “Milagre dos Peixes”, aí já era formação diferente porque também aconteceram várias coisas, porque entrou o Fredera de guitarra,  o Fredera depois saiu, era o Naná Vasconcelos de percussão, depois o Naná saiu, aí teve uma outra formação, que era o Toninho Horta, o Nivaldo Ornelas, eu e o Robertinho Vale. Foi aí que nós fizemos essa formação, tocamos com a Orquestra Sinfônica daqui do Rio e tocamos com a Orquestra de São Paulo também, Orquestra Sinfônica de São Paulo que foi gravado ao vivo, que foi “Milagre dos Peixes”. E aí eu me lembro que lá, eu, naquela época, também não entendia muito bem porque ficava aquela coisa assim. Eu me lembro que o Milton sumiu, rapaz, a gente no Teatro João Caetano, na hora da gente começar o show, o Milton sumiu, o Milton ficou nervoso e foi embora, ele ficou com medo de entrar, por causa da pressão política. Depois eu comentei com ele, tempos depois, eu comentei com ele sobre isso, eu não estava sabendo, é por causa da pressão, ele disse que estava sendo ameaçado, eu não sabia, o Milton estava nervosíssimo e falou que..., e sumiu, e a gente pra entrar no show, todo mundo esperando, querendo, pra começar o show, e o Milton nada de aparecer, eu falei: "Ih meu Deus", eu tinha visto ele sair, né? “Não fala nada não que eu saí”, disse o Milton. Mas aí depois voltou, acho que ele tinha dado uma volta de carro, ele tinha saído. Aí diz ele que tinha saído porque estava, tinha o negócio de militar lá, que estavam perseguindo, que estavam fazendo pressão, aquelas coisas daquela época.

 

P1 E depois desse momento você teve esse envolvimento, você participou do “Milagre dos Peixes”. 

 

R Participei do “Milagre dos Peixes” e aí depois, nós fizemos algumas coisas juntos, depois cada um tomou seu rumo e aí o Milton teve outras formações. Aí o Som Imaginário também teve outra formação porque o Wagner, como ele era o líder do grupo, o Wagner continuou, aí entrou o Jamil de baixo, entrou Paulinho Braga na bateria, teve uma época também que foi Novelli. Aí foi mudando as coisas, cada um foi tomando seu rumo, eu já fui trabalhar pra outro lado também, viajei.

 

P1 Quer dizer que o seu envolvimento mesmo, sua vivência digamos com o Clube da Esquina foi mais em que sentido?

 

R Eu acho que foi mais profissional, né? Agora, foi aquela coisa, profissional, mas a gente fez amizade, né? Eu sempre estava lá, ao longo desse tempo todo, desses anos eu já fui várias vezes a Belo Horizonte. Eu viajei, a gente já se encontrou, vira e mexe o Milton, já voltei a trabalhar com o Milton em outras épocas, e há pouco tempo eu fiz naquele “Tambores de Minas”, eu fiz nesse show agora também o “Crooner”, o último que eu fiz foi o “Crooner” e também viajamos, fomos pra Europa, fizemos eu, com Toninho Horta, Wagner, Robertinho, Milton, excursão pela Europa. Fora já isso aí, quer dizer, foi mais um envolvimento profissional, mas a amizade ficou, né, com certeza, somos amigos até hoje, a gente se ama.

 

P1 E o que significa pra você o disco “Clube da Esquina 1”?

 

R Olha, eu acho que o “Clube da Esquina 1” foi um marco dentro da música brasileira na época inclusiva que nós estávamos vivendo, uma época que não estava acontecendo nada no Brasil em termos de música, estava tudo parado e foi uma foi uma coisa nova, uma inovação mesmo diante da música brasileira, inclusive, como concepção de música mudou, entendeu? Mudou a concepção, como tem a concepção da música da bossa nova, tem antes da bossa nova e depois da bossa nova, também tem a o Clube da Esquina o antes e o depois na música brasileira. 

 

P2 Você vê o Clube da Esquina como um movimento?

 

R Eu vejo como um movimento muito forte e agora eu acho que tinha que ter uma dimensão maior, inclusive. Eu acho que a mídia, inclusive, os meios de divulgação, eu não sei, eu acho que tinha que ter mais, ser mais divulgado, porque morreu aí, sabe?

 

P1 O Ronaldo Bastos disse que o que fez o Clube da Esquina ser o que foi até aquele momento foi a própria juventude, foi a moçada que não tinha o que ouvir, e foi meio que de boca em boca, foi um movimento que foi crescendo.

 

R É verdade, foi um movimento, né, bem dizer, musical, político, musical que tinha as letras do Márcio que eram muito boas, o Ronaldo. O próprio Ronaldo que é um poeta também, surgiram grandes músicos, grandes escritores, grandes. Acho que tinha que ter um empurrão maior em cima disso como teve nos Baianos, entendeu? Hoje em dia só estão os Baianos por cima da carne seca, só dá baiano e eu não sei por quê que esse movimento, que foi um movimento também forte, não aconteceu muito assim, quer dizer, agora eu não sei se é porque Minas, né? Minas não fala muito, mineiro é meio quieto, né? (risos) É isso aí. 

 

P2 E você falou que tinha que ter uma divulgação maior e tal, em relação ao Clube da Esquina, e o que você acha dessa ideia do Museu?

 

R Sensacional, quando o Márcio me falou, quando me falou da ideia do, falei: "Pô, até que enfim apareceu alguma coisa pra levantar, né!". Porque teve uma época em que a Gisele tinha me ligado, já tem um tempo, né? Já tem uns anos isso. A Gisele me ligou querendo fazer um show, pra fazer uma, como é que se diz, reacender a chama daquele movimento, mais do Som Imaginário, da época do Som Imaginário. Quer dizer, do nosso grupo. Aí, mais aí ficou, não sei o quê que houve, depois a Gisele, eu falei: "E aí Gisele?". Aí teve problema, aquelas coisas particulares que a gente não sabe. Ah, porque fulano não sei o quê. O  outro não pode, porque o outro... Aí, infelizmente ficou por aí mesmo.

 

P1 Está bom, então é isso, Luiz, é um a conversinha rápida mesmo, obrigada pela sua participação.

 

R Ah, legal. 



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