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História

O morde e assopra paulistano

História de: Louise Mendes Bezerra
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/09/2015

Sinopse

Louise nos conta a respeito de sua família no Pará, constituída muito por sua mãe, que a criou sozinha após a ida de seu pai para a Honduras. Sabemos sobre sua infância em Belém, onde sua mãe teve de protegê-la de vários problemas. Louise fala sobre sua escola, onde começou no teatro e na música, e de sua mudança para o Rio de Janeiro aos 17 anos para prestar vestibular. Ouvimos sobre o curso de história na UFF, o bairro da Tijuca e suas diversões na vida carioca. Depois, vemos sua trajetória profissional em meio a várias empresas e sua mudança para São Paulo – misto de estranhamento, adaptação e paixão. Louise nos conta sobre o câncer de mama que a acometeu, sua luta contra ele e a entrada na Rede de Esporte pela Mudança Social em 2013. Ao final, fala sobre sua parceria com o PRODHE, o Ministério do Esporte, sua redescoberta das práticas esportivas e seus sonhos para o futuro.

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História completa

Meu nome é Louise Mendes Bezerra, 19 de fevereiro de 1980, Belém do Pará. Eu sou filha de mãe solteira. Meu pai é de Honduras, fez faculdade em Belém do Pará, foi quando ele conheceu minha mãe. Bem, desse encontro nasci eu, mas a gente só veio a se encontrar 34 anos depois. Eu sei bem pouco da família dele. Ah, a minha mãe é maranhense, ela é filha de agricultor de subsistência, meu avô, que criou onze irmãos numa terra muito pequena próxima a São Luís, no interior do Maranhão. Ela foi, dos onze, a única a se formar, e é enfermeira. Mudou-se pra Belém muito cedo pra trabalhar e eu nasci em Belém por conta disso. É uma criatura muito forte, maranhense e mãe solteira, vocês podem imaginar que é uma combinação bem especial. É uma criatura muito admirável, gosto muito da minha mãe, acho ela uma mulher muito forte, é um exemplo muito forte na minha vida. Se um dia conseguir chegar a ser metade da mulher que ela é eu vou ficar bem feliz já. Depois que eu nasci ele foi embora. Eles tiveram um desentendimento, ele era um pouco mais novo que ela, então, quando ela engravidou ela quis casar e ele não quis, até porque o pai dele lá em Honduras, enfim, não aprovaria isso, ele achava. Então eles se desentenderam nesse momento. Ele ainda ficou dois anos em Belém terminando a faculdade, me conheceu quando eu tinha dois anos de idade, depois ele foi embora pra Honduras. Acho que eles mantiveram contato por carta durante os primeiros anos, assim, mas depois esse laço acabou se perdendo. Eu tive dois professores que me marcaram bastante: uma na quinta série e outro na sexta série. Os dois, não por coincidência, de história, que acabou vindo a ser a minha formação. A professora Betânia, na quinta série, ela foi a primeira pessoa que falou sobre capitalismo pra gente, explicou o que era uma linha de produção, explicou o que era a exploração do trabalho. Eu acho que ela era de esquerda porque, hoje em dia, quando eu lembro a explicação dela era um explicação bem tendenciosa, sabe? Um pouco militante. Isso foi uma coisa que me marcou profundamente, profundamente. A partir desse dia eu comecei a ter discussões em casa, inclusive com a minha mãe, perguntar muitas coisas que vieram dessa conversa. E depois o Cassiano Mignone (?), na sexta série, também professor de história, também de esquerda e que também fazia muito... abria muito pra gente... não era apenas uma aula de conteúdo, ele abria muito pra gente discutir, tentar entender porque que as coisas aconteciam da forma que aconteciam, trazer coisas do nosso dia a dia, do dia a dia das famílias. Então foram dois professores bem especiais. Nessa época eu queria ser médica. Boa parte da minha família trabalha na área de saúde, minha mãe é enfermeira, tenho alguns primos médicos, tem farmacêutico, dentista, fisioterapeuta, o que você quiser lá tem. E aí eu achava que era esse, mais ou menos, o caminho. Minha mãe incentivava bastante, eu já teria mais ou menos uma rede de apoio pra começar a trabalhar, por ter já muita gente nessa área lá em Belém, então me parecia meio que um caminho óbvio. Isso só foi mudar lá pelo segundo grau, quando eu me encantei pela área de humanas. Eu tinha uma tia que morava no Rio de Janeiro, fui passar férias lá quando eu tinha quinze anos e aí, depois de um tempo, ela foi a Belém e pensou: “Ah, e se você fizesse faculdade no Rio?” Eu achei legal a proposta. Tinha um lado meu que também queria fugir mais dessa coisa do controle familiar, da questão religiosa que sempre foi muito pesada pra mim. Então eu pensei: “Ah, o Rio é uma oportunidade pra isso.” E aí eu fui pro Rio, fiz o terceiro ano lá e aí, já durante o terceiro ano, eu comecei a mudar de ideia em relação a fazer direito, mas eu ainda fiz vestibular pra direito e... fiz pra direito em duas universidades e pra história em uma. Aí eu passei pra direito em uma e pra história em outra e fiquei ali, aí na hora de decidir eu decidi por história. Eu fui trabalhar numa assessoria de imprensa chamada Monte Castelo, lá no Rio, que era de um pai de uma amiga minha. Eu já me interessava por comunicação e eu já sabia nesse momento, no final da faculdade, que eu não queria entrar no mundo acadêmico, que eu não queria seguir na academia como pesquisadora ou emendar o mestrado. Depois disso eu pensei: “Eu quero então trabalhar numa empresa maior, com comunicação, né, e construir uma carreira corporativa.” Minha mãe ficou muito feliz, inclusive, quando eu falei isso pra ela, ela falou: “Era isso que eu queria ouvir.” Porque a minha mãe é da geração de grandes carreiras, ela ficou 26 anos no mesmo lugar trabalhando. Então eu fui trabalhar numa multinacional na área de petróleo, que chama Geokinectics, é uma multinacional da geofísica, que é primeira coisa na cadeia de produção do petróleo. Percebi que também não era muito a minha pegada porque, apesar de eu adorar cultura e achar que é uma coisa realmente muito fundamental pra formação, você tem que lidar com uma série de questões, tem que lidar com o ego de artista, você tem que lidar com umas coisas que não eram muito fáceis pra mim. Apesar de eu estar superfeliz trabalhando no terceiro setor, com essas organizações, e de eu perceber o impacto do meu trabalho, o impacto social que teria em cada uma das ongs, eu queria trabalhar numa delas, eu não queria trabalhar num lugar intermediário. E aí foi assim que eu vim pra São Paulo. Olha, o primeiro ano foi muito difícil, muito difícil. Eu falo que São Paulo me mastigou sem saliva no primeiro ano. Primeiro porque o relacionamento não deu certo, então isso por si só já foi um baque. E depois porque realmente eu tive que me adaptar a toda a cultura social de São Paulo, que é bem diferente da do Rio e bem diferente da de Belém. Com o tempo eu acho que o trabalho ganhou uma importância muito grande, eu fui encontrando oportunidades que eu só encontraria aqui. E eu comecei a fazer amigos, né, aprendi as regras de etiqueta, aprendi que você tem que marcar. Você tem que marcar, você não pode aparecer na casa da pessoa assim: “Como assim?” então você tem que marcar: “Vamos nos ver terça-feira que vem?” “Vamos.” “Que horas?” “Ah, então está bom.” “Pronto.” E assim funciona. Aí eu pensei: “Será que eu vou embora? Será que eu fico?” Porque como é que faz essa coisa de tratamento? Não tem família em São Paulo, tem poucos amigos, como é que vai ser essa estrutura? Mas aí, enfim, eu conversei muito com a minha mãe, com a minha família e a gente chegou à conclusão de que eu estava no melhor lugar do país pra ser tratada, que tem os melhores hospitais, os melhores médicos. Então fiquei e aí em 2012 foi o meu ano do câncer, que também foi o ano, de certa forma, da virada pra mim. Eu fiz quimioterapia, fiquei careca, obviamente, toda aquela questão estética que acompanha as questões de saúde, psicológicas e emocionais. Depois fiz radioterapia. É, fiz a quimio, fiz uma cirurgia em que eu retirei a mama, hoje em dia eu tenho uma prótese de silicone no lugar, e depois fiz radio terapia. Foi muito bom ter ficado em São Paulo pra fazer isso porque foi um momento em que a cidade, depois de me mastigar, que eu cheguei bem... me comeu viva, ela me abraçou. Então eu descobri que os amigos que eu tinha aqui eles já eram mais amigos do que eu imaginava, então se aproximaram muito, eu fui muito cuidada. Aí no final de 2012, quando eu terminei o tratamento eu comecei a trabalhar... eu voltei pra ideia de que eu queria realmente estar no terceiro setor e em uma organização, aí eu fui trabalhar numa organização que trabalha com defesa de aves, uma organização ambiental, que é um organização linda, chama SAVE Brasil. Não deu certo ficar lá por conta de um projeto que foi cancelado e aí, lá pro começo, pra março de 2013 eu me vi sem emprego. Já tinha terminado o tratamento, tava bem de saúde, mas fiquei sem emprego. Em uma semana apareceu uma entrevista que foi pra Rede Esporte pela Mudança Social, que é onde eu trabalho hoje. A Rede Esporte pela Mudança Social ela integra, hoje em dia, 61 organizações, organizações que trabalham com o esporte para o desenvolvimento humano, não necessariamente organizações que fazem atendimento somente. Tem organizações que trabalham com pesquisa sobre isso, tem organizações que trabalham com esporte com outros temas transversais como o empoderamento feminino, inclusão social, as questões de gênero, as questões raciais, com um público bastante amplo. Então tem organizações que trabalham com crianças, outras até com terceira idade. A Rede ela existe desde 2007 e ela existe, em primeiro lugar, pra fomentar a troca de conhecimento entre essas organizações, né, que acaba fortalecendo muito elas institucionalmente. Minha mãe tá em Belém, ela ficou lá. Está aposentada mas é aquele tipo de aposentado que não consegue largar o osso, então ela se aposentou e depois arrumou um outro trabalho, é aquela coisa. Ela gosta muito de trabalhar no que ela trabalha, isso também é um exemplo pra mim, então ela trabalha com hemoterapia, lidando com as questões das doenças de sangue. E é muito dedicada. Está bem, está bem de saúde e, por insistência minha, em parte, e por insistência do meu médico, em parte, está fazendo esporte também. Ela tá caminhando e correndo, segundo me disse, todo dia. Eu fico impressionada. O meu sonho pessoal hoje é ver... ai, gente, peraí. Essa pergunta aí foi profunda. Tá. Os meus planos, deixa eu falar dos meus planos profissionais. Eu gosto muito de trabalhar na Rede, eu acho que eu nunca aprendi tanto e nunca trabalhei com pessoas que eu admirasse tanto, além do que, realmente estar na Rede, trabalhando com o sistema mudou a minha vida porque eu passei a fazer esporte. Depois do câncer, depois dos 35 anos então é um assunto muito querido pra mim hoje em dia, e eu quero poder ficar na Rede por, pelo menos, até após as Olimpíadas, pra poder concretizar muitos dos planos que a gente tem, essas pesquisas que a gente quer fazer. E sair desse lugar vendo a Rede muito visível e muito conhecida. Então, profissionalmente, eu diria que é esse o meu sonho, deixar a Rede mais forte e mais visível e reconhecida no país. O sonho... eu tenho vivido muito no presente, então neste momento os meus sonhos estão muito ligados a questões do trabalho, de ver esse reconhecimento acontecer, de ver... a gente realizou um pequeno sonho pra mim que foi essa coisa da lei de incentivo, tal, e agora eu quero ver essa lei melhorar, eu quero ver a Rede com 100 membros até o anos que vem.

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