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História

O mundo é pra todo mundo

História de: Valdemar Neves da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Valdemar Neves da Silva nasceu em 8 de outubro de 1944 em Ipameri, Goiás. Seus pais moreram quando ainda era criança e foi criado até os 16 anos pelo irmão mais velho. Trabalhou como vaqueiro durante muito tempo e hoje é proprietário de um bar. Foi um dos responsáveis por reavivar a Folia do Divino na região e durante algum tempo foi um dos principais organizadores da festa por conhecer toda a tradição. Hoje participa ativamente como Procurador da Folia, aquele que é responsável pela arrecadação do dinheiro.

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História completa

Eu nasci em 8 de outubro de 1944, em Ipameri, Goiás. Meu pai era João Julião da Silva e minha mãe era Eugídia Monteiro da Silva. Éramos nove irmãos. Minha mãe faleceu primeiro. Ela adulava muito a gente e eu fiquei sem vir outro cinco anos, fui mais bem tratado. Meu pai morreu e eu fiquei com 10 anos de idade e ele ainda me punha no colo, mas trabalhar, tinha que trabalhar.

  Quando nós chegamos pra cá, eu lembro ainda, tinha 3 anos de idade. Não tinha nem um rancho pra ficar dentro, ficamos debaixo dos paus. Viemos lá da fazenda, hoje Bonsucesso, que é de Pedro Passos. Aquilo lá era nosso, aí meu pai vendeu e comprou isso aqui. Isso aqui era um interior, os vizinhos corriam da gente, custaram a acostumar, diziam que eram os mineiros. Aqui até onça ainda tinha. Meu pai falou: “Meus filhos, eu não vou conhecer não, mas vai vir uma capital pra cá, vocês não vendem isso aqui não, isso aqui vai valer muito”. Ele não conheceu porque ele morreu com 53 anos, e logo veio a capital.

  Quando eles morreram, foi uma tristeza a vida da gente. Cada irmão mais velho pegou um mais novo pra criar. Eu peguei a pior [esposa], ela casou com meu irmão mais velho, que era meu padrinho. Rapaz, ela me judiava demais. Aí eu só pensava e falava: “Um dia eu venço na vida, eu vou vencer na vida”. Eu saí com 16 anos. A fazenda foi repartida pros irmãos. Eu falei: “Eu dou conta da minha vida agora” e vim, entrei debaixo de um ranchinho amarrado de palha aqui. Fiquei morando sozinho de 16 a 24 anos. E aí eles venderam para um homem rico, só que me prejudicou demais porque ele queria tomar aqui [também]. Eu fui preso porque ele fechou umas estradas e eu mandei meus cunhados pegar o carro de boi, passar e desmanchar, que ele queria fechar o nosso trânsito. E eu enfrentei. Aí quando ele perdeu no Supremo Tribunal, vendeu a fazenda baratinho e foi embora. Se eu tivesse saído não tinha ninguém aqui, porque ele tirava mesmo.

  Quando eu vim pra cá estava difícil demais, aí eu consegui levantar um financiamento. E disso eu fui adquirindo. Quando eu vim, tinha até conta de mentiroso, tinha sete cabeças de gado, mas vendi acho que três pra começar, fazer um ranchinho melhor. Minha esposa é de Formosa, encontramos e gostamos um do outro, antes de casar eu falei: “Vamos lá pra você ver se quer essa vida, porque vai ser essa”. Aí concordou, eu fiz um barraquinho de tábua, passamos para ali. E ela é trabalhadeira demais, me ajudou demais, que até hoje ela não gosta de cidade, igual eu. Muitas vezes eu falava: “Ó, você vai ficar aí como caseira e eu vou partir no mundo, comprar gado e vender”. Logo eu vi que sozinho não dava para ficar, arrumei uma pessoa, ele plantava e nós repartíamos. E eu pagava um salário também. Teve uma época que eu fiquei fora até 15 dias.

  Meu irmão comprou o jipe e arrumou um motorista, que eu não dirigia naquela época, e esse motorista me pediu pra pôr um comércio nesse local [um bar]. Passou uns seis meses, ele queria vender a área, e eu tive que pagar pra ele e vim pra cá. Foi onde eu melhorei, pus esse comerciozinho, tem não sei quantos anos e ele não acaba até hoje. Eu vendia de tudo, mas de tudo um pouco. Se vendesse muito ficava sem nada, né? Aí foi crescendo, os caras chegavam com galinha daqui do interior, eu comprava, trocava mercadoria, fui fazendo aqueles negócios. E aí eu entreguei a Maria. “Ah, eu não sei mexer com isso”. Eu falei: “Vai aprender, ninguém nasceu sabendo. Você vai tomar conta e eu vou correr atrás de outras coisas”. Toda vida, até hoje, eu já pensei de acabar, mas não acabo porque não tem outro comércio, eu é que seguro tudo. Eu vendo gás, eu vendo milho, sal, arroz, feijão, eu vendo café. Quer dizer, já pensou um vizinho acabar um café, vai ter que ir lá na Fercal buscar? Eu penso nisso tudo. Quantas vezes chega pra buscar um botijão de gás porque o gás dele acabou? Eu tenho não é porque viso o lucro, não. Mas eu já ganhei dinheiro aí.

  Muitos anos atrás tinha folia, mas acabou. Aí chamei o Erandir, que o pai dele que me ensinou a mexer com folia, ele tinha falecido. Chamei pra nós levantarmos a folia. Ele concordou, mas infelizmente mataram ele muito novo; eu continuei. Passei a folia à Associação, que ajudou um pouco, e aí cansei de mexer e passei pra Alarcão. Reuni as pessoas que trabalham na folia, o caixeiro, o alferes, que é o da bandeira, os guias. Os outros são foliões. Tem os violeiros, os que fazem as cantorias, as orações. E à noite, só a catira. Não é uma festa normal: ela tem respeito, é religiosa. Não é obrigado a falar: “Eu sou folião”. Folião é divisado, tem que obedecer as regras da folia. O lenço se usa no pescoço, a divisa prega na camisa, se o folião não tiver isso ele não é um folião. Eu já fiz folia aqui com mil, faço mil lenços desses e mil divisas dessas, e não dá. Passa aqui, já chegou com 400 cavaleiros, quatrocentas pessoas montadas. Aqui em casa eu dou lanche pras 400 e mais convidados, todo ano.

  Ultimamente eles gostam que eu seja procurador, o que recebe a prenda, a “esmola”, que a gente fala. O povo vai pegando, você vai rezando... Quando chega no fim, presta conta de quanto arrecadou. É muito bonito. É uma das coisas que se conta mais importante é o procurador. Porque ele é o responsável pelo dinheiro que o pessoal dá na festa, põe no altar, que tem aquele altar bonito, que põe a bandeira e os instrumentos. E aí, muita gente chega e já sabe, ajoelha, beija, põe aquele dinheiro ali. Só tem uma pessoa pra ir lá e guardar. Esse dinheiro, ou ele é gasto na folia de novo ou vai pra igreja. Assim que é. Cada ano aumenta mais um pouco, aumenta o número de gente.

  A amizade que eu tenho, graças a Deus, é meu orgulho de vida. E o que eu passei e o que eu estou hoje mostra que o mundo é pra todo mundo. Agora, quem desiste cedo, é porque não quer fazer nada.

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