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O point da favela

História de: Jailce Felix dos Santos Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2013

Sinopse

As primeiras recordações de Jailce são de sua terra natal na Paraíba, onde passou a infância e a juventude e por lá ficou até depois de casada, quando se mudou para o Rio de Janeiro, já com vinte e cinco anos. Na época, acompanhava seu marido, que trabalhava construção civil. Foi morar na Providência, comunidade pobre do município e de onde se lembra de momento de violência e tiroteio. Por isso mesmo foi fazer parte das associações de moradores do bairro para buscar melhorias. E se envolveu com um grupo de mulheres que resolveu a abrir um bar e restaurante, o Favela Point, para dar mais opções de lazer e melhorar a vida da comunidade. Junto a isso, viu sua própria vida se transformar com seu próprio negócio.

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História completa

“Quando eu tinha 11 anos o meu pai faleceu. Eu não lembro muito como que era a convivência dos meus pais, mas até onde eu presenciei era a minha mãe que decidia mais as coisas, ela que resolvia os problemas. Ela já era mais independente, uma mulher de garra mesmo, uma guerreira. Isso lá na Paraíba, que nasci lá, numa cidade chamada Solânea. Morávamos na roça, em nove irmãos. Ainda chegamos a estudar, eu que cheguei a estudar mais um pouco, cheguei a fazer o segundo ano do ensino médio. A cidade era e a gente ainda morava no interior, não no centro, então pra chegar à escola tinha que passar em estrada de barro. Aí eu parei porque eu fui reprovada. Bateu aquele desânimo,eu fiquei revoltada e não quis mais estudar. Tanto é que quando eu cheguei aqui o meu marido queria que eu continuasse, que eu terminasse o segundo grau e eu não quis, mas hoje eu já me arrependo, eu não quero isso para os meus filhos. Tanto é que eu até penso em estudar a noite pra concluir o ensino do segundo grau, porque faz falta. Eu casei com vinte e cinco anos e vim para o Rio de Janeiro. Ele trabalhava com construção civil, e aqui tinha mais oportunidades. No dia do meu casamento, por causa de um daquelas discussões “Vai dançar comigo. Não, vai com outro. Não, com aquele mesmo”, enfim, teve uma briga no meio da festa e o pessoal lá do interior era tudo cangaceiro. Aí foi aquele tiroteio e meu marido foi baleado. Não aconteceu nada pior, graças a Deus, mas a lua de mel foi no hospital. Os médicos falavam “Chegou a viúva virgem!” hoje dá pra rir, mas na época foi sério mesmo. A gente veio morar no Cruzeiro, aqui na comunidade. Minha filha também já passou por tiroteio. Ela ficou deitada no chão da rua, ligando para mim, chorando, desesperada. E as balas passando por cima. Foi que depois a Associação dos Moradores começou a participar mesmo e trazer benefícios. Eu comecei a fazer parte de um projeto que era Mulheres de Paz. Daí que conheci essa possibilidade de abrir um empreendimento próprio, com a chegada desses projeto aqui, e abri com outras sócias o Favela Point. Essa é a primeira favela do Rio. Na época, havia uma planta chamada “favela”, e foi daí que surgiu esse nome. Quisermos lembrar isso no nome do nosso bar. E agora a comunidade está melhor, e o bar ajuda isso também, na convivência das pessoas. E eu estou com cinquenta e quatro anos, ficaria bem mais difícil conseguir trabalho. Mas eu não queria ficar em casa direto. Meu marido, meus filhos, todos apoiaram, porque sentiram que era a minha vontade de independência.

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