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História

O prata da casa

História de: José Novazzi Junior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/11/2004

Sinopse

Em seu depoimento José Novazzi Júnior, que nasceu em São Paulo capital em 29 de janeiro de 1926, nos conta sobre a sua infância pobre em uma família italiana, em que usufruiu do benefício de poder estudar por ser o filho caçula. Como os seus irmãos já trabalhavam, o apoiaram nesse propósito. Foi um bom aluno. O pai foi ausente na sua criação e só pôde compreendê-lo quando já era adulto, um pouco antes de seu falecimento. Relembra sua admissão na Johnson, que lhe concedeu horários flexíveis para permitir avançar nos seus estudos. Então, em 1949, se graduou em Filosofia. Na Johnson ascendeu de cargo, começou como time keeper e quando saiu, em 1971, era responsável por toda a área de Recursos Humanos da empresa, que, inclusive, ajudou a implantar. Também fundou o Clube dos Empregados, o Clube dos 25 e foi responsável pelo Jornal interno da companhia. Nesse ínterim, casou-se com a Sra. Isabel, que também trabalhava na Johnson, e teve 3 filhos. Por fim, recorda seus bons anos de trabalho e nos descreve a sua saída. Em seguida, é admitido no Makro, onde passou mais 20 anos.


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História completa

P/1 - Bom, então iniciando a entrevista, senhor Novazzi, a gente queria que o senhor fizesse uma identificação com seu nome, local e data de nascimento e, a partir daí, a gente vai começar com as suas memórias da infância

 

R - Sou José Novazzi, nasci em São Paulo, Capital em 29 de janeiro de 1926.

 

P/1 - Seus pais?

 

R - Meu pai, José Novazzi e a minha mãe Estefânia Pinto.

 

P/1 - Qual era a formação e a nacionalidade dos seus pais?

 

R - Italianos.

 

P/1 - Italianos?

 

R - Meu pai era mestre de obra e também maestro da prefeitura de Itápolis e a minha mãe dona de casa.

 

P/1 - Como é, o seu pai veio pro Brasil quando e por que motivo?

 

R - Eu não tenho conhecimento dessas datas, mas o motivo acredito que tenha sido dificuldades de trabalhos na Itália e vieram pro Brasil que apresentava maiores possibilidades.

 

P/1 - Certo. E ele veio direto pra São Paulo?

 

R - Não, para o Interior do estado, para uma cidadezinha no norte de São Paulo chamada Itápolis. 

 

P/1 - Itápolis.

 

R - E a minha mãe também veio nessa época para essa mesma cidade, mas voltou pra Itália e foi criada em Itápolis.

 

P/2 - O senhor tinha comentado comigo que a sua mãe nasceu em Araraquara?

 

R - É. Aquilo que ficou pra mim, por exemplo, de informação é que a minha mãe teria nascido em Araraquara e voltou para Itália com a família e foi registrada na Itália e, por isso, é que ela ficou com a nacionalidade italiana. Foi isso que aconteceu. Mas o meu pai era realmente italiano, o meu pai, de Milão e a minha mãe ficou sendo de Pádua.

 

P/1 - Então eles se casaram no Brasil, né?

 

R - Se casaram no Brasil. 

 

P/1 - Se casaram em Itápolis?

 

R - Em Itápolis mesmo. Tiveram oito filhos dos quais hoje três estão vivos, eu tenho, portanto, um irmão e uma irmã que estão vivos.

 

P/1 - O senhor é nessa ordem...

 

R - Eu seria, não o caçula, um antes do caçula que já faleceu.

 

P/1 - Certo. E o senhor, que memórias o senhor tem de família, do início de infância?

 

R - A nossa infância foi muito difícil, a nossa vida, a minha família, foi uma família que teve problemas, o meu pai deixou a família e foi para o Interior de estado e a minha mãe ficou aqui na Capital. A minha achava que poderia dar mais oportunidades para os filhos na Capital em vez de Interior. E o meu pai só retornou a São Paulo em 65 quando faleceu. Então, da minha infância eu não tenho grandes recordações, mas posso afirmar que fomos uma família humilde, pobre, todos trabalhadores em fábricas e todos procurando estudar. Isso foi o que aconteceu com todos nós. Algum fato da minha infância que eu recordo, pitoresco, portanto talvez seja interessante, em 1932 houve a revolução aqui, a Revolução Constitucionalista e um tio meu foi preso pelas forças que não eram de São Paulo e teve que trabalhar no Rio de Janeiro como telégrafo em algum lugar. E eu me lembro de um oficial que veio em casa informar que o meu tio tinha desertado e passado para as forças contrárias, o que foi muito desagradável. O outro fato que eu lembro, o noivo de uma minha irmã foi expulso do Exército aqui em São Paulo e foi readmitido pra participar da Revolução Constitucionalista de 32. Fora disso estudei em grupo escolar público no Cambuci. Depois em ginásio, o Ginásio Paulistano aqui na Liberdade que já não existe mais e depois tinha o Colégio Paulistano também. É o que eu me lembro da... 

 

P/1 - O senhor quando nasceu a sua família já estava radicada em São Paulo há muito tempo?

 

R - Eu já nasci em São Paulo.

 

P/1 - Já estava aqui há muito tempo?

 

R - Já estava em São Paulo eu acredito a uns dois anos, alguma coisa assim.

 

P/1 - Certo. E do bairro onde o senhor morou nesse período, o que é que o senhor lembra?

 

R - Bem, eu morei muito anos no Cambuci, me lembro que era um bairro pobre, mas era mais limpo do que é hoje por alguma razão que eu desconheço. E morei na Mooca também, morei na Penha. Eu acho que nesses três bairros, né, mais no Cambuci do que Mooca e Penha. Naquele tempo havia bonde, eu ia pra escola de bonde ou de ônibus, dependia da possibilidade porque o ginásio era na Liberdade, no grupo escolar não, porque ía a pé, era no Largo do Cambuci. E hoje quando penso que um menino de 7, 8 anos sair ali numa área do bairro Cambuci, porque era longe do Largo do Cambuci, e ir a pé até lá, atravessando ruas, hoje não haveria mais condições, seria atropelado fatalmente, naquela ocasião não, naquela ocasião nunca corri risco, pelo menos, que eu me lembro, está certo? Ia sozinho, voltava sozinho, não tinha problema nenhum. Eu acho que hoje é muito maior o risco do que naquela época. Naquela época não havia nenhum risco, você ia tranqüilo pra escola e voltava. Eu tenho a impressão que naquela época a gente aprendia mais na escola também, porque muita coisa que eu ainda hoje sei, aprendi foi no grupo escolar, não foi mais tarde, está certo? Essa é a lembrança que eu tenho. Aprendi a ler cedo, eu me lembro, naquele tempo os meus irmãos trabalhavam já e traziam "A Gazeta", havia um jornal, não sei existe ainda hoje, "A Gazeta", era um jornal que saía à tarde. Eu lia "A Gazeta", procurava ler até que aprendi, está certo? Não sei como, mas procurei aprender ler "A Gazeta Esportiva" depois, mas inicialmente "A Gazeta" que não era esportiva.

 

P/1 - Isso antes da escola, antes de começar a alfabetização?

 

R - Não, quando já comecei a alfabetização já lia, já lia. Quer dizer, já fui para o grupo escolar alfabetizado, não tive problemas de aprender a ler, foi bom.

 

P/1 - E como é que era o ambiente de escola, os amigos, havia muitos amigos, turmas, ou o senhor era mais recatado ou era um garoto que...

 

R - Não, eu sempre fui tímido na escola, mas...

 

P/1 - Tímido.

 

R - Mas eu acho que era amigo de todos e não sentia que os outros não fossem meus amigos. Eu sentia que havia assim um carinho por todos e a gente se conhecia, porque todos moravam naquela área, compreende? Todos moravam naquela área. Eu durante, até uns 35 anos, sofri muito de enxaqueca e quando era menino...hoje eu me lembro então de alguns fatos, que talvez já fossem sintomas da enxaqueca. Eu me lembro que uma vez no grupo escolar eu tive uma... desculpe, uma ânsia de vômito e vomitei em cima dos cadernos do aluno da frente, e ele me deu o caderno e depois falou: "Não quero mais." (risos) Ele me deu o caderno, quer dizer, ele não deve ter gostado, mas também não me bateu com o caderno na cabeça, me deu o caderno e falou que “ia dar pra você porque eu não quero mais”, está certo? As crianças eram tudo pobres, também. Eu me lembro, a gente tinha um par de sapatos, uma roupinha, o livro, alguém tinha me dado o livro que, o primeiro livro, o segundo livro, o terceiro livro, cada ano tinha um livro, está certo? Então alguém tinha me cedido o livro e depois eu cedi pra outro no ano seguinte. Quer dizer, não havia esse comércio grande de livros e tudo isso que...

 

P/1 - É um livro pra um ano com todas as matérias.

 

R - Eu não me lembro se tinha todas as matérias, mas eu não tinha mais do que um livro, tenho certeza. Tinha o livro, no grupo escolar era um livro só, no ginásio não, tinha um livro por matéria. Mesmo assim a gente conseguia ou no sebo, sabe o que é sebo? Ou no sebo ou com parentes, ou com amigos, os livros, pra poder acompanhar, porque a matéria era praticamente a mesma. Eu me lembro que nas aulas de história, durante os quatro anos, havia um ponto que se chamava "A Transmigração da Família Real para o Brasil". (risos) Não tem, era todo ano a mesma história. E nas outras matérias ia-se um pouco para frente, mas história era a mesma, não tem, dava pra passar. E era isso que acontecia. No ginásio também eu não tive problemas de amizades, de relacionamento, eu fui, eu diria um bom aluno porque eu não atazanei os professores, eu aprendia, eu não tinha problemas, está certo? Eu não fui reprovado, naquele tempo todos passavam, hoje falam tanto em reprovação, mas as pessoas aprendiam pelo menos uma determinada parte da matéria, todas as pessoas aprendiam o suficiente pra poder passar pro ano seguinte. Hoje o que eu leio nos jornais que é uma, é terrível a não aprovação dos alunos. Mas, na minha vida escolar no grupo, no ginásio e, mais tarde, na faculdade, foi muito regular, não teve problemas que me afetassem.

 

P/2 - Nessa época o senhor usava uniforme?

 

R - Nem no grupo escolar, nem no ginásio não havia uniformes, as classes eram mistas e não havia uniforme. Havia ginástica de manhã cedo aí precisava uniforme pra fazer ginástica, mas fora disso não.

 

P/1 - E as escolas, quais eram as que o senhor estudou?

 

R - O grupo escolar era o 1º Grupo Escolar do Cambuci, aquele tempo se chamava assim, depois ele se chamou, mudou de nome por aí. Oscar Thompson era um grupo que existia no Largo do Cambuci, depois mudou pra algum outro lugar. O ginásio foi o Ginásio Paulistano, que era na Rua Taguá na Liberdade e, mais tarde, eles ampliaram pra Colégio Paulistano, porque naquela época havia curso primário, curso ginasial e curso colegial seqüentes e eu fiz tanto o ginásio como o colégio no Colégio Paulistano, está certo?

 

P/1 - Como era a relação dentro da sua família, pelo que eu entendi, o seu pai ficou fora quase que durante a sua infância e adolescência toda.

 

R - O meu pai ficou fora toda a minha vida.

 

P/1 - Como era a relação com os seus irmãos e sua mãe?

 

R - A nossa relação era muito amistosa, todos procuravam se ajudar, nós nunca tivemos problemas de relacionamento familiar. Eu não senti praticamente falta de meu pai, porque ele foi embora cedo e eu nem sabia o que realmente havia acontecido. Eu só voltei a ver o meu pai, devo ter visto quando era pequeninho, mas conscientemente eu só me lembro de ter visto o meu pai quando em 1965, em 1965 eu devia ter perto de 40 anos, ou um pouco menos de 40 anos. Ele veio pra São Paulo porque precisava fazer uma operação e nós fomos ver nosso pai, né, não havia. A minha mãe não queria ir ver, mas nós acabamos levando minha mãe também e ele morreu e eu fiz o enterro do meu pai normalmente e aí fiquei conhecendo o meu pai. Nessa ocasião, eu só, vamos dizer, tomei consciência do sentimento de pai e de filho quando nasceu o meu primeiro filho, antes disso eu não, quando nasceu o meu primeiro filho, comecei a pensar: “como é possível isso que não existiu comigo e com o meu pai”, está certo? Porque você muda de concepção das coisas, enquanto você não tem filho, tudo bem. Na hora em que nasceu o meu primeiro filho, me interessei por saber o que é que tinha acontecido com o meu pai. E o problema foi que a minha mãe quis viver em São Paulo porque ela achava que o futuro dos filhos seria muito melhor na cidade grande do que no Interior, e meu pai quis ir para o Interior, e ele foi. Que eu saiba ele não teve outra mulher, pelo menos eu nunca... houve até, vamos dizer, eu conheci bem os parentes do meu pai, tenho um melhor relacionamentos com eles depois, depois. E nunca houve citação ou menção de que o meu pai tivesse tido outra mulher e nem que minha mãe tivesse tido outro homem. O que poderia normalmente, eu não vejo nenhum problema nisso, está certo? Mas não houve isso. Eu não sei se aqui é o fórum ideal, mas a minha mãe tinha um gênio muito difícil, é claro que eu gostava da minha mãe, não tenho nenhuma... isso não é desrespeito, mas ela era difícil de...

 

P/1 - Era autoritária?

 

R - Era difícil. E provavelmente o meu pai não suportou isso e se mandou. Isso deve ter acontecido, eu não sei se o que eu estou dizendo não é bem o que interessa, mas é a verdade, está certo? É a verdade. Houve um, vamos dizer, não um atrito, mas uma mágoa dos parentes do meu pai. Quando eu me casei, o pai da minha esposa já era viúvo e a minha mãe nem sabia onde estava o meu pai. Então, no casamento só apareceram o nome do pai da minha esposa e o nome da minha mãe. E nós mandamos o convite pros parentes do meu pai também e eles ficaram muitos zangados, ficaram terrivelmente zangados, depois me falaram que ficaram muito zangados por essa reação. Mas são coisas da vida. Mas, o nosso relacionamento em casa, apesar de uma vida difícil, foi muito bom, muito bom, meus irmãos, todos trabalharam, não havia falta de trabalho naquela época, todos trabalhavam. Um dos meus irmãos, que era gráfico, ainda está vivo. Uma das minhas irmãs, que era costureira de chapéus, naquele tempo chapéu era de palha, né, havia umas fábricas de chapéu de feltro, mas umas de palha, era costureira de uma fábrica de chapéus. Uma outra minha irmã trabalhava em laboratório. Um outro meu irmão, que morreu cedo, também trabalhava em laboratório e o meu irmão mais velho, ele foi engraxate, marceneiro, auxiliar de contabilidade na empresa que ele começou a trabalhar depois, se chamava naquela época primeiro contador e depois a empresa pagou a ele... Ele não era contador ainda, auxiliar do contador. A empresa pagou a ele um curso de contador na Álvares Penteado, é uma escola de contabilidade, não é a fundação lá embaixo, não, é aqui em cima, era no Largo São Francisco, não sei onde é hoje. Ele se formou e ficou lecionando na Álvares Penteado e esse foi o que teve mais sucesso, vamos dizer, nos estudos. Eu, todos queriam que eu estudasse, os meus irmãos porque todos trabalhavam e tudo isso a gente era pobre, mas queriam que eu estudasse. Então, eu decidi que ia estudar realmente, ia fazer um curso, por isso é que eu ia sair da Johnson & Johnson em 1945. Eu ia procurar um emprego de meio dia em algum lugar quando a Johnson & Johnson, através de um desse superintendentes da fábrica, me concedeu a liberdade de um horário móvel que me permitiu estudar. Eu comecei a estudar e logo no primeiro ano da faculdade, a gente precisava de dinheiro e eu comecei a dar aula também, aulas particulares, comecei a dar aula em curso de madureza. Primeiro fui como professor substituto e no curso de madureza os alunos são ávidos de aprender, eles querem aprender, eles não aborrecem os professores, querem aprender realmente. E eu não tinha matéria definida, eu ficava de substituto dependendo do professor que faltasse, eu era convidado ia pra dar aula, está certo? Então, eu apanhava o livro, dava uma olhada e de peito aberto, eu enfrentava os meninos todos lá. (risos) Mas eu nunca tive problemas, sempre procurei ensinar, eu procurei mais ensinar a vida do que a matéria. Dentro da matéria mostrando realmente o que interessa. Eu sempre tive facilidade pra números, números e mesmo na Johnson & Johnson quando eu entrei, não nos primeiros meses, mas logo depois, eu comecei a ensinar as pessoas. Arrumava umas salas lá porque havia muitos chefes de seção, mestre, contramestres que não tinham condições de fazer cálculos, de ter uma idéia realmente dessas coisas básicas que a gente precisa. A um deles eu tive demonstrar um dia como era o mundo porque ele tinha uma idéia de que nós estivemos dentro. Mas eu fui, eu fui, até cheguei a ensinar pra eles a calcular porcentagens, extrair raiz quadrada, calcular eficiência, tudo isso. E eu ganhei ascendência, né, ganhei ascendências. Você quando acontece de ganhar ascendência sobre todos e talvez essa tenha sido uma das razões da minha evolução favorável na Johnson & Johnson. Foi isso que aconteceu.

 

P/1 - Bom. Vamos voltar então e o senhor contar como é que foi o início da sua carreira profissional, né, o senhor se forma e, aliás antes de o senhor se formar já estava trabalhando num outro serviço antes da Johnson. E até a Johnson como é que foi essa trajetória?

 

R - Antes da Johnson?

 

P/1 - Isso, como é que é esse período entre a sua formação e os primeiros trabalhos e a Johnson?

 

R - Antes da minha formação eu já fui trabalhar, antes da Jonhson também num estúdio fotográfico aberto para o público. Inicialmente como um atendente, alguém que ficasse tomando conta enquanto o proprietário ia fazer as fotos ou fazer um recibo, receber, entregar. Mas ali eu me interessei, porque se fazia ali e eu aprendi a retocar negativos. Os negativos eram placas de vidro recobertas por uma gelatina que as manchas todas você, depois de passar sobre a gelatina um preparado com breu, alguma coisa parecida para que o lápis realmente ficasse ali, você tirava as manchas, limpava os rostos das pessoas. Ninguém gosta de aparecer cheio de espinhas, com rugas, deixava.... (risos) Então, isso eu aprendi a fazer bem, aprendi a retocar e a colorir positivos também, colorir positivos com tintas transparentes e também passei a trabalhar no quarto escuro, se chamava naquele tempo. É um lugar onde você imprimia, revelava e fixava as fotos. Aí, eu fiquei cerca de dois anos de 1939 a 1941, só então que eu fui a Johnson & Johnson, por indicação de uma vizinha, de nome Irís Carvazelli, ela trabalhou muito anos na Johnson & Johnson, é muito conhecida na Johnson & Johnson. E ela me conheceu menino e achou que seria melhor que eu entrasse numa empresa. E ela me indicou para um dos mestres da área têxtil.

 

P/1 - Qual era a função dela?

 

R - Ela era telefonista-recepcionista. Mas era uma função importante porque ela era, naquela época, era um ponto de referência grande na empresa, hoje não é tanto assim. Mas, na ocasião, ela tinha uma função importante e muito conhecida, muito aceita e muito acatada. Bom, eu fui falar com esse mestre da área têxtil e ele me disse porque não poderia me admitir porque eu não tinha 18 anos e disse que ia conseguir uma entrevista com alguém da diretoria e me mandou voltar pra um determinado dia, às seis horas da manhã. Eu cheguei às 15 pra seis e esperei até quase nove e meia, dez horas, quando fui chamado e fui entrevistado por um americano que mais tarde eu soube que era vice-presidente da empresa e o nome dele era Andrew (Hoffman?). E não preciso dizer que fiquei até assustado de ver aquele americano enorme me fazendo uma série de perguntas, me perguntou se eu tinha estudado álgebra, se eu sabia resolver isso, se eu conhecia trigonometria, geometria, raiz quadrada e terminou me mostrando uma régua de cálculos, que naquele tempo era o instrumento que se utilizava em vez de calculadora, perguntou se eu conhecia, eu disse que conhecia que eu sabia apenas multiplicar e dividir e extrair uma raiz qualquer. Então, eu posso concluir que ele ficou muito satisfeito de ter encontrado alguém que sabia responder essas coisas porque ele era engenheiro, um tipo de entrevista meio estranha pra mim hoje, mas ele perguntou uma série de coisas, acho que ele pensou que eu não fosse saber nada, está certo? Mas quando ele estranhou que alguém respondesse alguma coisa, mesmo porque na fábrica depois eu constatei que não tinha ninguém que soubesse alguma coisa nesse sentido. E o que eu diria chocou, é que ele mandou que eu fosse contratado e estabeleceu um salário que era um salário de adulto muito bom, acima do nível da média. Que é claro que eu fiquei satisfeito, mas fiquei com medo que me fosse colocar pra fora logo (riso) porque era um salário que eu não esperava receber, era um salário muito bom pra um menino de 15 anos recém completados.

 

P/1 - Quanto era?

 

R - Era um número que eu não... 400 mil réis, provavelmente, porque eu ganhava 60 mil réis, eu acho que o cruzeiro ainda não tinha chegado, né, em 1941 não tinha chegado, porque o cruzeiro chegou em 1942, então devia ser mil réis. E o salário mínimo, na ocasião, de menor, era de 100 reais, 110 reais, alguma coisa parecida. Eu ganhei, eu comecei com um valor que foi muito bom, compreende? Foi muito bom e eu fiquei satisfeito evidentemente. E fui trabalhar na área têxtil com um trabalho que se chamaria hoje de time keeper, isto é, fazendo controle de produção de tecelões, controle de produção na fiação, pra que a produção, que era individualizada, ela servia para, como base de pagamento. Eu informava isso em uns papéis especiais pra administração e a produção total servia de base de pagamento pra outros grupos. Então, eu fiquei durante algum tempo fazendo isso, mas nessa época estava na empresa, tinha chegado na empresa um americano de nome Charles Rudolf, ele vinha da Ticopia. A Ticopia era uma subsidiária da Johnson & Johnson, mas na área têxtil, e ele não falava bem o português e eu também não falava bem inglês, mas nós nos entendíamos. E como eu me dava bem com os números, quase tudo que ele precisava que se fizesse, eu fazia pra ele. A parte de medida da resistência dos fios, da qualidade dos fios, a medida da eficiência das máquinas, a umidade relativa das áreas. Tudo que ele queria fazer, eu fazia.

 

P/1 - Qual era a função dele nessa ocasião?

 

R - Ele era o manufactering superintendent, o superintendente da fábrica, está certo, da fabricação. Então, eu praticamente ia onde ele me pedia pra ir, o que ele queria que eu fizesse, eu ia fazer. Mas, tinha sempre aquela parte dos resumos de valores pra informar que eu tinha que fazer e, às vezes, tinha que fazer fora de hora, porque ele me dava outras atribuições que eu tinha... Uma das que eu me lembro, que não me sai, volta agora, durante a guerra faltou cloro e faltou soda, soda cáustica. E cloro e soda cáustica são materiais utilizados para alvejamento de tecidos e de algodão também, porque o algodão que você recebe não é alvejado, você precisa alvejar pra se tornar absorvente. E os tecidos você precisa alvejar porque quando é feito o tecido, o algodão não é alvejado ainda, ele é algodão cru. E o que foi montada, foi montada uma sala pra fazer eletrólise do sal, do cloreto de sódio, e quem ficou controlando a eletrólise fui eu, está certo? (risos) Era uma coisa terrível porque eu tomei choques ali também, não foi fácil. Porque o sal era colocado na água, passava a corrente elétrica e quebrava a molécula de cloreto de sódio e o gás subia para uns tubinhos era apanhado em algum lugar e a soda pingava e apanhada num outro recipiente. E eu fiquei ali algum tempo, até que aquilo funcionou e depois largamos na mão dos operadores comuns da área de alvejamento. Cada coisa que aparecia eu ia fazendo e largava. E foi um tempo bom porque eu aprendi muito, eu aprendi quase todo os procedimentos de todas as áreas, como se fazia esparadrapo, como é que se fazia escova de dentes. Escova de dentes pra o senhor ter uma idéia hoje. O senhor já viu uma fábrica de escova de dentes ou não?

 

P/1 - Não, não conheço.

 

R - Hoje umas prensas, em que o cabo já sai pronto, sai meia dúzia de cabos já prontos, entra um pó, um material que é...o cabo já sai pronto e depois é que... Naquele tempo eram umas placas que tinham que ser cortadas, cortadas e feitas os cabos pra depois fazer, colocar as cerdas, era muito mais difícil de fazer, quer dizer, eram coisas terríveis. Esparadrapo, o tecido, a companhia fabricava, recebia borracha, solvente e breu pra fazer aquela massa, pra passar em cima do tecido. Durante a guerra faltou o solvente normal que se chamava toluol, aí resolveram usar outros solventes, um solvente chamado benzol e deu problema, deu muitos problemas. Até que acertava, o esparadrapo não colava ou colava demais, era terrível tudo isso. Eu acompanhei essas fases todas e durante um grande período, quando eu tinha tempo, examinei todos os motores das máquinas da companhia pra saber qual era a potência desse motores e saber, ligados às engrenagens, qual seria o 100 % de eficiência das máquinas. E com isso, a gente pôde, mais tarde, estabelecer padrões de incentivo pra pagamentos. Mas, era tudo o começo, a Johnson não era muito grande, a área farmacêutica era pequeníssima, era uma sala, eu diria de 20 por 40, com um pequeno mezanino e as especialidades farmacêuticas eram preparadas ali. Havia um farmacêutico responsável chamado Oscar Bueno, isso é importante pra vocês, hein, Oscar Bueno. Seu Oscar foi farmacêutico até 1964. Lamentavelmente ele morreu num acidente comigo, nós despencamos de automóvel na ida a uma convenção de vendas e ele faleceu. Vocês vão entrevistar Armando Macias, não vão?

 

P/1 - Sim.

 

R - Ele também estava no carro nesse dia. Eu consegui superar isso porque eu não tive nenhuma culpa, eu fui processado, mas fui absolvido totalmente sem nenhuma...foi um desastre realmente que aconteceu. Eu não bebo, não fumo, não corro com o carro, foi uma desgraça que se sucedeu, mas lamentavelmente aconteceu isso. O Oscar Bueno que era o farmacêutico na ocasião, a substituição do Oscar Bueno eu vou andar um pouco porque eu perco. Foi feita, eu contratei o substituto do Oscar Bueno, porque eu fiquei alguns meses também hospitalizado.

 

P/1 - O senhor sofreu alguma fratura?

 

R - Eu sofri fratura da perna e fiquei, fratura da clavícula e alguns problemas na coluna também, porque eu não tenho mais nada hoje. Mais alguns problemas na coluna, eu tive de ser engessado, fiquei só com essa mão de fora. Mas, a substituição do Oscar Bueno vocês precisam saber quem foi, é importante, eu fui incumbido de achar um substituto pro Oscar Bueno, nessa ocasião eu já era o gerente de recursos humanos e administração de pessoal. Eu resolvi procurar na faculdade de farmácia um catedrático qualquer que me desse alguma recomendação e me recebeu muito bem, eu não me lembro o nome dele. Mas ele me recebeu muito bem, ele falou que ia me dar o Fermino, que era um ex-aluno, brilhante, que ele ia procurar o Fermino e ia me mandar pra que eu entrevistasse. Até que um determinado dia o Fermino veio pra entrevista, quando eu olho, o Fermino era um japonês, o nome dele era Fermino Yamashiro, na Johnson & Johnson não trabalhavam japoneses, ele era brasileiro, mas não havia, em razão da guerra, nem os japoneses procuravam a Johnson, nem a Johnson procurava os japoneses. Eu sempre tomei cuidado de não criar nenhum preconceito racial na Johnson & Johnson, não havia isso, havia pretos, nordestinos, baianos, sei lá, espanhóis, portugueses, mas japoneses eu nunca tive oportunidade de contratar, porque eles também não apareceram pra ser contratados. Acredito, em razão da guerra, o Japão, até a década de 1950, não tinha a expressão que tem hoje, hoje há japoneses em todos os lugares no Brasil, moças, rapazes, tudo. Mas, naquela ocasião, não havia japoneses como há hoje, e nós contratamos o Fermino apesar disso, nós não tínhamos realmente preconceito racial e o Fermino realmente tinha um currículo muito bom, uma experiência muito boa, e ele foi contratado, e foi o farmacêutico responsável durante, eu saí em 1971, ele ainda era o farmacêutico responsável. Hoje eu sei mais, eu sei que ele não trabalha mais na Johnson & Johnson, mas eu não sei quando ele saiu, e se saiu nem sei o que aconteceu. Isso foi o que aconteceu. A área de produtos farmacêuticos era pequena, muito pequena e ela só se desenvolveu, eu diria, quando começaram a se desenvolver as atividades de pesquisa na Johnson & Johnson, já tinha biotério, tinha biotério, mas o laboratório era pequeno. O primeiro diretor de laboratório que eu conheci foi um americano chamado doutor Henning, era o diretor de pesquisas e havia um argentino, que vinha às vezes pra cá, porque a Johnson tinha alguma coisa na Argentina, chamado doutor (Patao?), mas o meu contato com eles era muito pequeno, eu não tinha contato nenhum nessa, antes de 1950 eu não tinha contato nenhum. Eu tive...

 

P/1 - Eu vou pedir pro senhor um tempinho só pra gente trocar a fita.

 

R - Fique à vontade.

 

[fim da fita 004-A]

 

P/1 - Vamos retomar, então.

 

R - Com respeito ao doutor Henning, o meu contato foi muito reduzido com ele. Ele apenas, não sei por indicação de quem, me chamou um dia e me mostrou um livro que ele tinha com umas flores e perguntou se eu sabia onde podia conseguir aquelas flores, uma flores muito pequeninas. Eu disse que pareciam flores que eu encontrava no meu caminho e que ia apanhar algumas e quando eu levei as flores ele disse: "São essas mesmo". Aí eu apanhei uma quantidade que ele queria e foi esse o meu contato com ele. A minha impressão, naquela ocasião, é que ele estava trabalhando em digitalina, alguma coisa parecida com isso, que eu não saberia dizer o que ele ia fazer com aquelas flores. E o diretor seguinte de pesquisas foi uma pessoa chamada doutor Paulo de Almeida Machado, ele era um militar, acho que ele era capitão do Exército e ele começou a desenvolver o laboratório da companhia. Foi na gestão dele que ocorreu, vamos dizer, o aparecimento da Garlicina, a Garlicina era um produto derivado de garlic, que em inglês significa alho, e que depois de colocada no mercado, os laudos americanos indicavam que ela era inócua e ela foi retirada do mercado e o doutor Paulo de Almeida Machado foi demitido. O doutor Paulo de Almeida Machado chegou a ser ministro da Saúde no governo Geisel, mas que eu saiba ele nunca teve nenhum problema maior com a Johnson & Johnson.

 

P/1 - Isso foi quando?

 

R - Ele foi demitido em 1951 eu acredito, em 1951. Mas, acredito que a saída dele está muito relacionada com a Garlicina, como eu disse, a Johnson cheirava a alho tremendamente nessa ocasião e o produto era esperado que fosse realmente alguma coisa fabulosa contra doenças tropicais que afetam os intestinos das pessoas. mas na realidade não aconteceu nada. Depois do doutor Paulo de Carvalho, um americano chamado Walker, que era da área farmacêutica, que já estava em desenvolvimento é que assumiu durante algum tempo o laboratório. E ele foi substituído por outro americano de nome Vassel, mais tarde substituído por um brasileiro, que veio dos Estados Unidos, cujo nome eu não recordo, mas que não deu certo. E mais tarde o laboratório ficou com pessoas como Ansfagel, José Tabachini, que eu não sabia exatamente qual era o posicionamento deles. O setor farmacêutico na Johnson & Johnson, eu acredito que ele só apareceu como independente com a vinda desse americano chamado Walker, porque em 1941 havia um diretor presidente, havia um diretor de compras chamado Daniel Delong, um diretor de vendas chamado Álvaro Ribeiro Branco, um diretor financeiro chamado Jacinto Severo Gouveia, um diretor administrativo chamado Helmut Doze e na fabricação, aqueles superintendentes que eu mencionei a vocês, inicialmente um americano de nome Charles Rudolf, depois um italiano Vitório Castelotti, que ficou alguns meses na companhia e depois, o senhor José Sinuca, que ficou durante muitos anos na companhia. Mais tarde é que o senhor Walker apareceu, na área farmacêutica e o senhor Peper, na área não farmacêutica. Depois houve outras divisões, houve outras divisões que surgiram. O José Gimenez Sanches entrou na companhia em 1942 como propagandista farmacêutico. Ele cresceu, foi supervisor e assumiu também a diretoria da área farmacêutica, ele teve como auxiliares supervisores em São Paulo e supervisores no Rio, no Rio era o José Augusto Pinto inicialmente, em São Paulo eu não me lembro quem seria, mas trabalharam com ele, o João Alfredo Mendes, o Plínio Seabra e havia uma pessoa interna que eu acho que fazia a revisão das bulas que se chamava Mário Carpentiere, que também é falecido. E aí é que o setor farmacêutico foi se desenvolvendo e cresceu e hoje é essa potência que nós temos, está certo? Eu acho que o grande desenvolvimento foi de fabricação deve ter sido em São José dos Campos porque aqui na área de São Paulo da Avenida do Estado nunca houve uma área grande pra produtos farmacêuticos.

 

P/1 - O senhor podia descrever assim como é que era a fábrica nesse início na década de 1940, em que ela se constituía em termos de linha de produção, particularmente a área farmacêutica?

 

R - Eu vou tentar, mas na área farmacêutica eu tenho muita dificuldade porque... Eu vou tentar. Eu vou partir pra uma descrição da fábrica. A fábrica na Avenida do Estado tinha um escritório e na parte de baixo desse escritório havia alguns laboratórios, inclusive o biotério.. Em direção aos fundos é que havia os chamados acabamento de produtos, acabamento é: você tem a preparação, fabricação e o acabamento. A preparação é na área têxtil, está certo, de fabricação. E os acabamentos na área de acabamentos que era entre o escritório e a fábrica. A fábrica têxtil tinha dois andares grandes, uma fiação enorme e uma tecelagem enorme. A companhia recebia algodão cru, esse algodão era transformado em fio e o fio era transformado em tecido. Outra parte do algodão, outro tipo de algodão porque cada coisa precisa uma fibra pra fazer, pra fazer tecido precisa de uma fibra mais forte do que pra fazer algodão hidrófilo. Outra parte do algodão era alvejada pra fabricação de algodão hidrófilo. Então, o tecido, o que se fazia naquela ocasião, eram ataduras, esparadrapo, algum tecido era vendido em rolos, mesmo pra cobertura de plantações, plantações de fumo eram cobertas com tecido, está certo? Acho que para os insetos não... A companhia fabricava creme Pond's, Pond's V e C era fabricado pela Johnson & Johnson naquela ocasião, eu me lembro disso. Além de esparadrapo se fazia também emplastro, que é mais ou menos a mesma coisa, só que é uma coisa um pouco diferente. Sabonete Johnson, que não era feito na companhia, era comprado, mas embalado, absorventes higiênicos, Modess, só existia um tipo naquela ocasião, preservativos eram comprados, Jontex, eram comprados e embalados, acho que havia uma fábrica especializada que fazia dentro das especificações da Johnson & Johnson e vendia. Talco, algodão hidrófilo de vários tipos e tamanhos, escova de dentes, escova dental. Acho que não era muito mais do isso que a companhia fazia na área cirúrgica naquele tempo. Existiam algumas coisas que eu não sei definir se são... pomada Johnson, por exemplo, eu não sei é farmacêutica ou se não é farmacêutica, coisas que é popular nem tem mais pomada. Agora tem uma outra pomada que fizeram aí pra... foi lançada recentemente mas eu acho que não é da área farmacêutica... deve ser...

 

P/1 - Pra que é que servia?

 

R - Pra ferimentos.

 

P/1 - Pra ferimentos?

 

R - Pra ferimentos. Depois lançaram uma pomada que tem muita propaganda, pra jogador de futebol quando tem uma lesão alguma coisa. Na área farmacêutica, no início, havia muito pouca coisa o que eu me lembro, as coisas que foram aparecendo: Rarical, Paralon, Paraflex, Stugeron, estou dizendo os nomes dos produtos que eu me lembro, está certo? Stugeron, Kalyamon, Kalmonerve, eram todos produtos da área farmacêutica, mais tarde, o soro anti rh para determinar o rh do sangue. Mais tarde, um calmante que eu não me lembro o nome, tem um nome muito conhecido, Valium, calmante da Johnson. E o grande desenvolvimento eu acredito que ocorreu pouco antes de eu sair quando a Johnson começou essas associações com laboratórios internacionais, europeus ou suiços, eu não sei de onde. Mas, não era grande a área farmacêutica, não havia, não era muito grande. Essa era a minha visão do que acontecia naquela ocasião.

 

P/1 - Como era o ambiente de trabalho na Johnson? Nos vários níveis, de escritório a linha de produção que o senhor conheceu todas de perto, não?

 

R - Bom. O ambiente de trabalho era excelente. A Johnson & Johnson era muito procurada, todos queriam trabalhar na Johnson & Johnson. Primeiro porque havia uma filosofia que isso vinha da matriz, vamos dizer, e imposta pela direção da companhia também de respeito total à dignidade pessoal e profissional das pessoas. Treinamento contínuo das pessoas, possibilidade de desenvolvimento, igual oportunidade a todos. Não havia um ambiente em que as pessoas se sentissem não aproveitadas. E Johnson & Johnson pagava melhor do que o mercado, tinha isso, isso era importante também. Pelo menos bem na faixa das melhores empresas do mercado. Até a minha saída da Johnson & Johnson atravessamos períodos difíceis, mas nunca tivemos greve. Embora outras empresas entrassem em greve, paralisações enormes em São Paulo, a Johnson & Johnson não sofreu essa situação. Os nosso empregados não queriam fazer greve, a Johnson & Johnson foi cercada por grevistas, mas nós continuamos trabalhando.

 

P/1 - Quando?

 

R - Eu diria que isso foi em 1956, 1957 houve greves terríveis em São Paulo, está certo, quando o capitão Porfírio da Paz marchava na frente dos piquetes e tudo isso. E, nessa ocasião, eu estava, eu dava aula à noite num colégio na Rua Oriente. E eu estava dando aula quando me ligaram dizendo que a rua estava repleta de gente e que a segunda turma ia sair, entrava uma terceira turma às 10 horas da noite e que eles estavam preocupados que a fábrica fosse parar. Então, eu deixei as aulas, vim imediatamente pra companhia, o superintendente e um dos diretores também, não lembro se foi o senhor (Hoffman?). E nós nos reunimos e eu fui a tecelagem e avisei a todos da tecelagem: "Vocês querem parar?" "Não, nós não queremos parar". Porque quando eles querem parar, não há quem faça, você não pode obrigar a ninguém a trabalhar. "Então, vocês vão fazer o seguinte, embora o pessoal da terceira turma não entre, sejam impedidos de entrar, vocês mantenham as máquinas trabalhando e especialmente essas máquinas que estão próximas da rua". Enquanto isso, nós ficamos no refeitório da companhia e recebemos uma comissão do sindicato não sei o quê, e ficamos discutindo. E a fábrica não parou. Quando entrou essa comissão, entrou outros empregados que queriam trabalhar também, a fábrica não parou.

 

P/1 - Qual sindicato era?

 

R - Sindicato da Indústria Farmacêutica. Só que o jornalzinho do sindicato que saiu na manhã seguinte já anunciou que a fábrica tinha parado, está certo? Porque esperavam que a fábrica parasse. Mas a Johnson não parou em nenhuma, em nenhuma das greves, foi sempre, vamos dizer, tivemos a sorte de que os empregados não estavam com disposição de fazer greve, porque se eles estivessem, ninguém iria impedir, está certo? Eu tinha uma grande ascendência na fábrica, com os empregados da fábrica todos, porque eu cresci na fábrica com os empregados. Então, e apesar de ter crescido na fábrica, eu também tinha um relacionamento grande na parte administrativa, nos escritórios, tudo isso. Tive condições de, pelo menos, receber a solidariedade deles de não querer, não quiseram fazer greve, foi isso que aconteceu. Isso é a resposta pra sua pergunta qual era o ambiente. O ambiente era bom, mas numa empresa existem certas diferenças que você tem que conviver com elas. O pessoal do escritório acha que o pessoal da fábrica é o pessoal da fábrica, está certo? Não tem, então nunca o relacionamento do pessoal do escritório com o pessoal da fábrica é aquele ideal. O pessoal do acabamento, que então fica entre o escritório e a fábrica, a fábrica é a fabricação, fiação, tecelagem e acabamento, são aquelas moças que embalam também, é um grupo diferente. Mas se dá melhor com o pessoal do escritório, não tem dúvida. Porque além de tudo, elas almejam, esse pessoal almeja passar pro escritório um dia. E tem o outro grupo, que esse é o grupo eu diria mais preparado, é dos laboratórios de pesquisa que é um grupo mais, que tem uma diferenciação também com todos, está certo? Mas havia uma amistosidade, não havia guerras entre, eu era um elemento de contato de todos porque eu me dava bem com todos, não tinha e o meu grupo também, o meu pessoal também, eles estavam treinados pra isso. "Vocês não são nem da fábrica, nem do escritório, nem do acabamentos, nem dos laboratórios, vocês são da empresa e nós temos de conviver na empresa". Quando a gente se refere às áreas de promoção de vendas e vendas eu diria que a área farmacêutica era a elite da companhia e a área de vendas populares, cirúrgicas, não era elite, não vou dizer que era alguma coisa, só que a elite era a área farmacêutica, era um pessoal de uma formação melhor, de um relacionamento melhor, de uma, vamos dizer, de uma educação melhor. Acho que, pela necessidade do contato que eles tinham de ter com a classe médica ou alguma coisa parecida, então era um grupo... Eu nunca disse a eles que eram a elite da companhia, estou dizendo a vocês agora, está certo, que eles eram a elite da companhia. Nós tínhamos festas, muitas festas e havia congregação total nessas festas.

 

P/1 - Quando aconteciam essas festas?

 

R - Geralmente no fim de ano. Além das festas por setor, havia uma festa geral. Cada setor fazia a sua festa e a companhia dava uma festa pra todos. Nós tínhamos um refeitório grande e essa festa era realizada no refeitório.

 

P/1 - Isso acontecia desde 1940?

 

R - Não, eu não diria desde 1940, eu acho que no fim dos anos 1940 que tivemos essa, que começamos a... as festas eram muito individualizadas. A companhia só começou a fazer festa, vamos dizer, depois de 1950, as festas antes disso eram muito, vamos dizer, individualizadas, não eram generalizadas, está certo? Não havia isso. Mas o ambiente foi sempre bom, nunca tivemos problemas de pessoal de uma seção que não se desse com outra seção, havia um ambiente bom na companhia realmente.

 

P/1 - O senhor falou da possibilidade de ascensão que é uma companhia que tem essa possibilidade, que abre esse espaço pro funcionário. Como é que isso aconteceu na prática? Como é que o senhor exemplificaria isso?

 

R - Bom. Eu sou um exemplo, está certo? Vivo. Porque eu comecei na companhia como time keeper e saí da companhia como responsável pela área de recursos humanos da companhia. A companhia me deu oportunidade de estudar, a companhia sempre mandou os empregados fazerem os cursos que a gente achava que, as pessoas cresciam na companhia. Numa tecelagem você tem desde o limpador da área até o mestre da tecelagem, o chefe da tecelagem. Eu vi muitas pessoas que cresceram, foram tecelões, foram contramestres, foram mestres e gerentes da... Nas áreas de fabricação, isso é que aconteceu. Os chefes de seção na companhia eram todos funcionários que galgaram posições, por isso, é que eles não tinham aquela formação que talvez hoje fosse necessário e exigida. Eram pessoas que cresceram, começaram num serviço simples e passaram a chefe de seção. Muitos deles vinham da mecânica, porque a mecânica sempre foi uma área privilegiada, vamos dizer. Existia em São Paulo uma escola chamada Escola Técnica Getúlio Vargas, não é a administração, Escola Técnica Getúlio Vargas e os mecânicos que vinham de lá eram realmente bons e eles tinham oportunidade de passar a tomar conta de seções da companhia. Como tinha muitas máquinas, o chefe de seção conhecendo as máquinas podia realmente administrar e também controlar mecanicamente a operação. Na parte de escritório eu acho que muitas pessoas, o Tâmaro, por exemplo, que vocês conhecem, foi meu funcionário no Departamento Pessoal quando rapazinho, cresceu pra seção de custos até chegar numa área de relacionamento com os órgãos institucionais do país numa posição alta na companhia, está certo? O Reginaldo, vocês não conhecem, também começou em cobranças e chegou à parte alta de finanças da companhia. A companhia deu oportunidades, isso eu não posso negar. Eu quando saí, saí porque não concordei com a política de dois novos funcionários americanos que vieram na área de direção da empresa que desejam contratar pessoas de fora invés de conceder oportunidades a funcionários internos. Isso gera desconforto, eles foram embora, também depois eu saí, mas, mais tarde, eles foram embora também então eu não. O que acontece também com esses novos americanos é que em 1967 foi instituído em nosso país o sistema do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, sabe o que é isso? E quando isso foi instituído havia a possibilidade dos empregados estáveis optarem por esse novo regulamento e deixariam de ser estáveis. Eu achei que essa seria uma boa oportunidade pra empresa, o que havia de empregados estáveis na companhia era muito, a companhia pretendia mudar pra São José dos Campos e pra outros lugares e era uma ótima oportunidade pra que a companhia não ficasse com tantos empregados estáveis. Mas, não era justo que os empregados fossem induzidos à opção pelo fundo de garantia, perderem a estabilidade e também ficarem sujeitos a perder o seu emprego. Então, fiz um plano que foi aprovado pela companhia, que os empregados estáveis receberiam uma parte dos seus direitos, dependendo do tempo em que fosse feito esse pagamento, e deixariam de ser estáveis, mas com o compromisso da companhia, meu e do Sanches, que o Sanches era o presidente, de que ninguém seria demitido, a não ser em razão de uma falta grave, realmente. E com isso nós conseguimos que as pessoas, 99 % dos funcionários optaram pelo novo regime e deixaram de ser estáveis. Eles não seriam demitidos, a não ser que cometesse uma falta grave e nós estávamos sempre dispostos a esperar que eles completassem o tempo necessário pra aposentadoria para que ninguém fosse prejudicado. Agora chegam os novos americanos e querem ignorar esse tipo de compromisso e eu não aceitei isso, de jeito nenhum. Não tive atrito, mas tive algumas polêmicas, especialmente com um deles, eu era o responsável pelo jornal da empresa, é claro que existia um responsável legal que era um jornalista, mas era eu que fazia a revisão antes da emissão, da distribuição do jornal. Um dia, discutindo com ele, ele quis saber de mim, qual era realmente a filosofia, o objetivo desse jornal e eu disse a ele o que era. E ele me falou: "Bom, eu gostaria de mudar tudo isso, eu queria dar ênfase no nosso jornal, que nós somos uma empresa americana, porque realmente nós somos uma empresa americana, trabalhamos com capital americano e eu quero dar ênfase a esse fato". Eu falei pra ele: "Eu não vou fazer isso, eu trabalhei durante 20 anos pra dar ênfase que nós somos uma empresa nacional e não é nesse momento que eu vou estragar todo o meu trabalho pra dar ênfase que nós somos uma empresa americana". "Mas você não sabe que com isso nós vamos atrair melhores funcionários, tal". Eu falei: "Eu não quero nem saber, eu lhe entrego a responsabilidade pelo jornal e o senhor faça o que quiser". Bom, daí um pouco o Sanches me chamou: "O que aconteceu, você não...". "Não, acontece que isso assim e assim". Aí o Sanches: "Mas ele está louco?". "Eu não sei, problema seu". Não deu outra, o Sanches modificou e mandou que o jornal continuasse com a mesma filosofia, que seria um absurdo. E tive outros tipos de, vamos dizer, de desentendimentos desse tipo, que nunca chegaram a um atrito, mas eu percebi que estava na hora de deixar a companhia e eu deixei. "Não fico mais aqui não, na companhia não". E acho que pra mim foi bom, pra Johnson também deve ter sido bom, eu não sei, mas pelo menos durante o tempo em que eu estive, dei o melhor que pude e acho que fiz muita coisa, não tenho dúvida disso.

 

P/1 - Eu queria que o senhor recordasse pra gente momentos de crise, como ele foram enfrentados. Quais foram os momentos de crise mais difíceis que você enfrentou, ou crise no sentido mais seu como administrador de uma determinada área ou mesmo numa maneira mais abrangente envolvendo toda a empresa.

 

R - Bom. Eu não posso me referir a crise financeiras ou de resultados da companhia porque não era meu problema, está certo? Como havia dito a Johnson & Johnson tem um ambiente excelente, era uma empresa procurada. Eu tive muito poucos momentos em que poderia me lembrar que houve crise, nós sempre tivemos harmonia com os empregados, não tivemos problemas maiores. Inicialmente, vamos dizer, uma crise inicial, por volta de 1948, sei lá, por aí nós chegamos a conclusão que um tecelão poderia trabalhar com 22 teares em vez de 10 teares, dependendo da forma de movimentação dele, você faz estudos de tempo e movimento e chega a conclusão, o fio que nós empregamos quebra de tanto em tanto tempo, a porcentagem de quebra é essa e aquela e você sabe quantos teares podem ficar sob a responsabilidade de um tecelão. Quando nós quisemos fazer isso, os tecelões não queriam, eles queriam continuar tomando conta de 10 teares só, então nós colocamos a situação pra ele: "A situação é essa, se vocês querem bem, se vocês não querem, nós vamos pagar todos os seus direitos e vocês vão embora". E realmente eles quiseram ir embora, nós tivemos urgência de conseguir novos tecelões e fomos conseguir em Sorocaba. Sorocaba era uma área de empresas têxteis naquela ocasião, eu não sei se hoje ainda é, mas havia muitas fábricas têxteis. E conseguimos em Sorocaba e trouxemos, em pouco tempo a fábrica continuou normalmente, não sei se é esse tipo de crise que você gostaria de ouvir, mas crise de relacionamento sempre houve mas nada que pudesse ser relevante pra ficar guardado ou mencionado. É claro que há momentos difíceis, tudo isso, a superintendência da fábrica tinha atritos com a parte da administração do escritório, a parte de vendas. Às vezes se produzia diferente do que se vendia, ou se vendia diferente do que se produzia, mas são crises sempre superadas, nunca houve maiores crises. Eu acho que a maior crise pela qual a companhia passou, que não tem nada a ver com a minha atividade, foi quando a saída de um diretor, que deixou a companhia, chamado senhor Peper, teve um problema sério com a companhia, ele era da área não farmacêutica, está certo? E ele acabou saindo, teve processo, mas acho que está tudo regularizado, foi um momento difícil. Outro momento, vamos dizer, que me diz respeito pessoalmente, o primeiro presidente que eu conheci, de nome apenas, foi uma pessoa chamada Mister King, com G no fim. O segundo presidente foi o senhor (Hoffman?), que era vice-presidente na hora em que eu fui contratado, depois nós tivemos um terceiro presidente que foi o senhor Williamson, que veio da área de promoção de vendas e tudo isso. Eu tinha uma posição de subordinação que me complicava a vida, porque eu respondia pra superintendência da fábrica, que era um diretor também, para o diretor vice-presidente financeiro e para o presidente também, não existia... todos me cobravam, então eu tinha que me equilibrar nessa situação. Os atritos entre o diretor superintende da fábrica e o outros diretores, sempre consegui me equilibrar, sem  nenhum problema. Às vezes, os méritos ele recebia e eu recebia dos deméritos, (riso) mas paciência, está certo? Não tem, você tem que passar por tudo isso pra manter. Mas, como o senhor Williamson assumiu a presidência da companhia depois que o senhor Peper saiu, eu não tenho nada contra nenhum deles, apenas estou apenas mencionando, né?

 

P/1 - Quando foi que ele saiu?

 

R - Eu acredito que o senhor Peper saiu em 1966, alguma coisa, acho que antes de 1964 uma coisa assim, mas o senhor Williamson ainda era o presidente. Quando o senhor Peper saiu, eu recebi um memorando do senhor Williamson alterando a sistemática de pagamento para os supervisores de vendas de todas as áreas no seguinte sentido, eles ganhavam um valor fixo mais um percentual, comissões sobre vendas, ele resolveu que eles passariam a ganhar um valor fixo muito maior e uma comissão de vendas muito menor. Eu recebi o memorando, eu falei: "Bom, eu tenho de cumprir a instrução que estou recebendo, mas acho que não posso me omitir se eu acho que isso está certo eu preciso..." Eu fui conversar com o diretor financeiro se ele tinha recebido cópia daquele memorando, ele disse que não. Então eu falei: "Olha, o memorando dizia isso assim e eu queria saber se o senhor está de acordo com isso também, que não quer fazer nenhuma observação". Ele me disse: "Mas qual é o problema?". Eu falei: "O problema é simples, nós estamos com uma penada modificando a nossa liability com os empregados, todos pra cinco vezes maior, porque enquanto as comissões eram feitas pela média dos últimos 36 meses, o salário fixo é o último, então você vai ter uma responsabilidade, um passivo trabalhista, eu diria um liability, é o nome em inglês, você vai ter um passivo trabalhista aumentado violentamente só com esse memorando que está aqui". Aí ele me disse: "Você tem que falar com ele, talvez ele não tenha percebido isso". E fui falar, antes tivesse ido não falar, porque ele ficou furioso, acho que eu estava perturbando as medidas de harmonia que ele estava tomando na companhia. Então, foi feito isso, o que aconteceu foi que depois de alguns meses ele morreu, senhor Williamson morreu e o Sanches assumiu a presidência da companhia. E uma das primeiras medidas do Sanches tomou foi eliminar muita gente dessa área toda e o custo foi elevado, não tem dúvida nenhuma foi o que aconteceu. São momentos difíceis. Como eu estou mencionando que não tem nada a ver com a sua história, mas pelo menos já que você perguntou, estou lhe respondendo.

 

P/1 - Fique à vontade.

 

R - Outros momentos difíceis.

 

P/1 - Relacionado com a área farmacêutica o senhor se lembra de algum momento particularmente que tenha sido vivido?

 

R - Não, eu tinha um relacionamento bom com o Sanches, com o José Pinto, com o Alfredo Mendes, mesmo esse outro Carpentiere, que morreu, nunca tive problemas com eles, sempre nós convivemos muito bem.

 

P/1 - Eu digo assim a nível de mercado que a área farmacêutica tenha vivido alguma coisa...

 

R - Eu não poderia saber também porque não era a minha responsabilidade, eu não tinha nada com o fato.

 

P/1 - Bom. Vamos falar um pouquinho do jornal, o senhor disse que o senhor era responsável pelo jornal, como é que começou o seu envolvimento com o jornal?

 

R - Bom, o jornal começou inicialmente feito no mimeógrafo, era batido à máquina no mimeógrafo e era distribuído para um número reduzido de pessoas. E era muito aceito, até que num determinado dia a direção da companhia autorizou que esse jornal fosse impresso e que se contratasse uma assessoria pra dar cobertura, e foi contratado essa assessoria farmacêutica que eu lhe falei. E aí nós passamos a produzir um jornal em que, com o qual se pretendia informar e integrar a nossa empresa, compreende? Que todos soubessem o que estava acontecendo, onde estavam as mudanças, as alterações e inclusive algumas publicações de novos artigos, novos produtos e quem era responsável, o que fazia, era isso que se fazia no jornal.

 

P/1 - Quando aconteceu isso?

 

R - Eu acho que isso aconteceu bem mais tarde, aconteceu 1960 e alguma coisa não foi , acho que foi nessa ocasião mesmo que a assessoria começou a dar trabalho pra Johnson & Johnson.

 

P/1 - E o anterior, o boletim?

 

R - O boletim começou, ele não era, vamos dizer, era regular também porque era uma coisa que tinha que ser feita a dedo, compreende? Não tinha condições de fazer, e eu fazia quando podia e não tinha muita pessoa pra me ajudar. Eu tinha que fazer a redação, bater a máquina, e alguém tinha que passar no estêncil porque eu não sabia fazer, está certo?

 

P/1 - Como se chamava?

 

R - O jornal?

 

P/1 - O boletim.

 

R - O boletim se chamava J&J, dois J. Depois é que o jornal passou a se chamar Johnson em Revista. Eu me lembro que o desenhista me fez esse logotipo da Johnson & Johnson e essa era a capa do jornal, está certo? Essa era a situação.

 

P/1 - Bom, eu vou pedir um interrupção novamente e logo depois a gente continuar pra trocar a fita.

 

[fim da fita 004-B]

 

P/1 - Vamos continuar então com o jornal que o senhor estava falando.

 

R - O maior problema é que eu tive com o jornal foi quando do lançamento de um produto chamado Suturas Ethicon, Sutura era fabricada enrolada num carretelzinho de vidro e de repente passou a ser fabricada num pacotinho de plástico e o jornal publicou uma foto em que em uma cuba o médico, o enfermeiro estaria virando a Sutura para que ela caísse em algum lugar para ser apanhada. Eu fiz a revisão do jornal e achei que aquela fotografia estava muito bem ali porque não via nenhuma razão de, inclusive o nome Johnson & Johnson que eu podia ler de pé, está certo, que não estava de cabeça pra baixo podia ler de pé. E o jornal foi emitido, distribuído e algumas cópias eram mandadas pra outras Johnson fora do Brasil, está certo? Pra minha surpresa o Sanches me chamou, ele estava irritadíssimo, disse que aquela fotografia estava de cabeça pra baixo. Eu falei: "Mas a Johnson & Johnson está". Ele falou: "Mas não é assim, o médico pega isso dessa forma e esta foto está invertida, está de cabeça pra baixo". Ele falou: "Vai ser muito desagradável porque eu vou receber cartas do exterior sobre isso". E ele ficou aborrecido e eu também fiquei muito aborrecido. Aí, fui direto ao setor de Suturas, que era já um setor independente e fui falar com o gerente da área que era o Alrisol e me lamentei com ele: "Olha o que aconteceu, fui publicar justo a..." Ele olhou e ficou meio assim: "Vamos procurar a literatura americana". E nos livros de literatura americana estava exatamente da forma como eu publiquei no jornal, está certo? (riso) Não deu, levei pro Sanches pra ele ver: "Tenha dó, ninguém vai te escrever nada porque está aqui". Mas foi um momento difícil. Se você quiser chamar isso de momento difícil. O jornal foi muito bem recebido, muito bem procurado. Recentemente, recebi umas cópias do jornal, mas que não é mais o mesmo, é feito num papel de jornal mesmo, não é mais feito como era em papel couché, colorido, não sei se por questão de custo ou qual é a razão disso.

 

P/1 - Bom. O senhor falou também sobre o laboratório, né, que ligando um pouco a questão da área farmacêutica o senhor se lembra quando ele foi constituído porque no início não havia, né?

 

R - Havia um pequeno laboratório, sim.

 

P/1 - Desde o início?

 

R - Desde início. Esse doutor Henning era o responsável por isso. O laboratório começou a existir realmente com o doutor Paulo de Almeida Machado e ele era o responsável pelas pesquisas.

 

P/1 - Em quando?

 

R - Eu acredito que em 1947, alguma coisa por aí, talvez um pouco antes, mas ainda não posso afirmar. No início, acho que não havia nem pessoal suficiente e nem trabalho ainda específico pra ser feito, mas me lembro da criação de uma área no laboratório de doenças tropicais, um nome bem sofisticado sobre doenças tropicais, está certo? E eu acredito que o problema da Garlicina tenha surgido a partir daí, inicialmente não era um problema era uma pesquisa que depois se tornou um problema. Eu me lembro que algumas outras pesquisas foram feitas na área de digitalina, houve inclusive uma explosão no laboratório e morreu um químico porto riquenho que estava trabalhando no Brasil, tinha vindo dos Estados Unidos. Ele, a chama de um bico de Bunsen acho que queimou a mão dele, alguma coisa, ele largou a vasilha que ele tinha e aquilo explodiu, morreu queimado. Eu me lembro que nessa época a companhia comprava gatos pra fazer experiência e havia o biotério que eu vou dar depois este relatório que eu consegui encontrar que o senhor pediu.

 

P/1 - Também desde o início, desde a década de 1940 já existia o biotério?

 

R - Eu não digo 1940, mas 1942 certeza, 42 com certeza, 1943, 1944 com certeza.

 

P/1 - Além da Garlicina, o senhor lembra de outro produto que foi desenvolvido?

 

R - Não, eu me lembro da Garlicina porque é um fato, me lembro que durante algum tempo houve uma pesquisa sobre a possibilidade de extração de álcool de madeira, também era. Cozinhavam madeira o dia inteiro ali numa área que tinha pra procurar, houve algumas pesquisas, essas é as que eu vi, porque eram externas. Lá dentro eu não sei o que se fazia, está certo? Pode ser que havia coisas muito mais importantes do que isso até. Mas, essa pesquisa de álcool foi um americano que veio ao Brasil pra fazer, o nome dele era Finster, era um engenheiro americano, engenheiro químico e acho que não conseguiu. Outra pesquisa que eu vi sendo feita, pesquisa ou pelo menos tentativa, transformar os talos de cacho de banana em polpa pra usar nos absorventes, em vez de algodão alguma coisa parecida e isso eu vi algumas vezes lá mexendo. Mas o laboratório devia fazer os testes, então acho que nessa primeira fase, mais do que pesquisa, fazia controle de qualidade de algum jeito, eu não sei. A companhia montou junto com o senhor Walker um departamento de controle de qualidade de primeira ordem, talvez fosse um dos melhores da América Latina.

 

P/1 - Quando isso?

 

R - Eu acho que foi por volta de 1950, eu não posso lhe afirmar. Foi contratado um russo chinês, não sei se era chinês ou russo, o nome dele era (Olegreshenev?) e ele veio da China, mas o nome dele era (Olegreshenev?), veio da China e ele era muito competente. E, nessa ocasião, a Johnson contratou um grupo de, eu não diria cientistas, mas de técnicos europeus pra área de pesquisas e de controle, havia um deles se chamava (Belawanski?), outro (Gesalesve?), (Elisabetplask?), (Evatov?), todos vinham da Europa Central. E isso criou um ambiente de muita disputa na companhia. Porque era um grupo de uma área difícil. Mas eles eram competentes, eu não tinha dúvidas que eram competentes, tinha uma boa formação, Steve (Dauconski), havia húngaros, tchecos, todos eles oriundos da Europa depois da guerra e que acabaram, por alguma razão, na Johnson & Johnson, ficaram alguns tempos mas não muito. Eu acho que ficaram na Johnson alguns brasileiros mesmo, de nome como Walter Pohl, José Tabachini, (Hansfag?), alguns continuaram, mas esse estrangeiros, esse grupo centro europeu acabou indo embora. (Olegreshenev?) organizou realmente um departamento de controle de qualidade muito bom.

 

P/1 - Como era esse departamento, o que é que ele pretendia exatamente?

 

R - Bom. O departamento de controle de qualidade estabelece as especificações, medida, peso ou sei lá, atividades, mínimos e máximos e depois faz os controles pra ver se os produtos foram fabricados dentro dessas especificações ou se estão fora dessas especificações. E, além de tudo, ensinava os brasileiros que tinham de trabalhar nessa área e eu assisti algumas explanações e ele conhecia muito bem estatística porque você precisa pra isso. Conhecia muito bem estatística, conhecia muito bem matemática e ele realmente, os produtos da companhia a gente podia confiar que estava dentro das especificações porque aquilo que estava fora era descartado.

 

P/1 - Antes disso não havia controle?

 

R - Se havia era um controle precário no laboratório, está certo? Mas, um controle de qualidade assim eficiente não, não havia. Essa era a tendência.

 

P/1 - E de vendas, o senhor chegou a ter contato direto na seleção, no controle do pessoal de vendas da parte...

 

R - Não. Toda a seleção interna da companhia, o recrutamento, a seleção, a administração salarial, o treinamento, o desenvolvimento interno era meu, era da área de recursos humanos, mas a área de vendas eles administravam sozinhos. Eles recrutavam, contratavam, estabeleciam salários, demitiam, eles que faziam todo esse serviço e não aceitavam nenhuma interferência. E eu convivi com isso, aceitei, eles queriam assim, eu não vou interferir nessa... Eu tinha um... a fábrica era muito grande já no final, eu tinha um gerente de pessoal pra fábrica em São Paulo, um gerente de pessoal pro escritório em São Paulo e um gerente de pessoal pra fábrica em São José dos Campos. E esse meu gerente de pessoal do escritório é que mantinha todos os contatos com a área de vendas e que procurava conviver e não deixar que as coisas fugissem muito dos parâmetros normais da companhia.

 

P/1 - Como é que o senhor se lembra da transferência da fábrica pra São José. Foi um momento de uma virada grande na empresa, né?

 

R - A transferência da fábrica para São José aconteceu em 1954, 1955. O primeiro setor transferido foi o de fabricação de esparadrapo e foi destacado pra São José. Adércio Moreira da Silva, que com a mudança de outras áreas pra São José permaneceu como o administrador, o responsável por São José dos Campos, o primeiro homem da direção. A mudança da fábrica foi sem problemas, foi feita a construção, o terreno era enorme e ocupou uma pequena área e o Adércio morava numa casa especialmente construída pra ele e pra sua família na área da empresa. E não houve maiores problemas pra transferência, não tivemos nada que lamentar nessa ocasião, acho que foi bem sucedida, a produção aumentou até, eu acredito. Foi uma medida bem sucedida. Essa foi a mudança da área de produtos, esparadrapos. A segunda área que mudou pra São José dos Campos foi a área têxtil, fiação e tecelagem. Quando foi feita essa mudança já havia aquela opção dos funcionários, aqueles funcionários que não quiseram ir embora, pudessem ser demitidos, alguma coisa nós acomodamos em São Paulo em outras áreas, compreendeu? Em outras áreas até que eles completassem o tempo para a aposentadoria. E eu não me lembro de nenhum caso, e aqueles que quiseram ir embora e quiseram receber mais alguma coisa, a companhia deu e acertou. Nós não tivemos problemas maiores com isso. Inicialmente houve um período difícil durante a construção, nós tínhamos peruas pra levar o pessoal pra São José dos Campos e voltar, não era fácil isso, está certo? Não era fácil. Depois de montada a fábrica, as pessoas que trabalhavam lá, algumas ainda de São Paulo, nós mantivemos um meio de transporte pra eles, mas a maioria morava em Jacareí ou São José e para isso havia ônibus que nós tínhamos contratado pra fazer a coleta e o transporte dos empregados. E eu acredito que também foi uma transferência, uma mudança pacífica. A mudança dos acabamentos acho que já começou na época da minha saída da companhia e eu não soube se houve maiores problemas também. Eu sei que algumas pessoas foram pra São José, eu me lembro de uma funcionária que trabalhou 50 anos na companhia, faleceu há um ano mais ou menos, ela ficou em São José dos Campos, ficou feliz, porque eu tive contatos com ela, eu participei do jantar, do almoço de despedida dela quando ela ia se retirar definitivamente depois de 50 anos de companhia, a diretoria da companhia me convidou para estar nesse almoço porque era uma pessoa que eu tinha trabalhado muito tempo com ela e tudo isso. Ela já estava doente nesse almoço, ela foi premiada, recebeu um apartamento de presente, mas morreu, não gozou, não descansou, ela teve oportunidades de parar antes, mas ela gostava tanto de trabalhar na Johnson que não quis parar de trabalhar, dona Miquelina Adam.

 

P/1 - Qual era o setor?

 

R - Ela, inicialmente era uma auxiliar de acabamentos aqui em São Paulo. Ela cresceu, então estamos de novo naquela possibilidade de crescimento na companhia. E foi a chefe dos acabamentos, cada moça tinha uma... cada sessão tinha um chefe, está certo? Mas ela era chefe de todas as moças, controlava se as moças estavam realmente em condições de trabalhar, se estavam limpas, estavam com o cabelo em ordem, se estavam com as unhas em ordem. Ela foi a chefe do acabamento e substituiu uma americana que deve ter saído da companhia sei lá, em 1945, 1946, de nome Lucy alguma coisa, eu não me lembro o nome dela. A dona Miquelina foi pra São José dos Campos, lá ela ocupou outras posições, ela teve oportunidades de sair da companhia, a companhia ofereceu a ela pra descansar mas ela não quis, ela quis continuar trabalhando. Com 50 anos de trabalho ela pediu então pra sair, foi premiada, foi premiada outras vezes também. Mas, infelizmente, morreu pouco tempo depois.

 

P/1 - Havia regras ou normas para os funcionários dentro da linha de produção, dentro da indústria. Como é que era?

 

R - Não. As normas de, vamos dizer, ausência, nós controlamos ausência, o camarada não pode faltar, não pode chegar atrasado. Mas nós não éramos radicais, nós éramos liberais, a não ser que houvesse abuso, está certo? Mas todos tinham que trabalhar uniformizado, todos tinham que trabalhar com unhas limpas, todos tinham que trabalhar com equipamentos de segurança, botas ou luvas, sei lá, oculos, todas essas regras eram cumpridas rigorosamente porque isso tudo era exigidas por lei também, né?

 

P/1 - E o namoro, podia namorar funcionários?

 

R - Sim. Nunca nós tivemos problema com isso, está certo? Muitos casamentos ocorreram na Johnson & Johnson, eu sou um exemplo, eu me casei com uma secretária de um diretor financeiro. O Tâmaro se casou com a secretária do presidente da companhia e há muitos outros casamentos que eu não me recordo mais. Não havia nada, vamos dizer, de condenável naquela ocasião, compreende? Hoje a vida é mais perigosa, hoje já se fala muito em assédio sexual, eu nunca ouvi falar disso na Johnson & Johnson.  Mesmo na Makro, onde eu trabalhei agora mais 20 anos, nunca vi ninguém se queixar de assédio sexual ou qualquer coisa parecida. Mas a Johnson era uma empresa de mulheres, havia muitas mulheres, e conhecida como uma empresa de mulheres bonitas. E elas eram mesmo bonitas, não tenho dúvidas nenhuma disso. (riso) Mas não tivemos nenhum problema nesse sentido. Muitos casamentos na fábrica também, alguns rapazes se casaram com moças da fábrica, não havia problemas. O relacionamento era muito bom, quando nasciam os bebês, a Johnson sempre dava um presente pros bebês, as fraldas, as coisa todas, não havia problemas, está certo?

 

P/1 - Quantos porcento eram mulheres na linha de produção?

 

R - Numa tecelagem é impossível, são quase todos homens. Apenas algumas funções na tecelagem, numa tecelagem tem algumas funções como urdimento, você poderia ter uma mulher trabalhando. Mas na engomagem, nos teares, todas as mulheres foram substituídas no início porque havia duas turmas de mulheres, das seis às duas e das duas às 10, e havia duas turmas de homens das 22 às seis. Pra que isso foi melhorado para que os homens trabalhassem só à noite, eu mesmo que montei isso, nós criamos duas turmas de homens e uma turma de mulher, de forma que se pudessem sempre os homens trabalhavam duas semanas de noite e uma semana de dia, está certo? E as mulheres, a turma de mulheres uma semana de manhã, uma semana de tarde, isso dá pra fazer perfeitamente. Então, numa tecelagem, o número de mulheres era muito pequeno, não era grande porque os mestres, os contramestres são mecânicos de teares realmente, eles eram homens todos, havia algumas funções de mulher específicas, mas eram muito poucas. Na fiação também não era, mas nos acabamentos praticamente só havia mulheres, só em alguns trabalhos mais pesados é que havia homens, está certo? Mas a grande maioria de mulheres, eu diria, vamos dizer, 70 % mulheres e 30 % homens na fábrica.

 

P/1 - Na fábrica?

 

R - Na fábrica.

 

P/1 - E equipes mistas também, né? 

 

R -  E equipes mistas. Na parte de alvejamento é um serviço muito duro, na parte de alvejamento e cardamento de algodão só homens, está certo? Mas, nos acabamentos, a grande maioria de mulheres, no escritório também a grande maioria de mulheres, depois começaram a entrar os homens. Hoje já está ocorrendo o contrário, as mulheres estão ganhando de novo posição, mas havia um número maior de mulheres.

 

P/1 - Na administração também?

 

R - Não. Na parte administrativa eram muito poucas mulheres.

 

P/1 - Poucas.

 

R - Na parte de fábrica, por exemplo, só essas chefes nos acabamentos que eram mulheres. No laboratório havia algumas mulheres pesquisadoras, químicas e tudo isso, e no escritório algumas mulheres em chefias que não eram expressivas, está certo? A maioria eram auxiliares, secretárias, essas coisas. Não havia assim...

 

P/1 - Bom. Como era a linha de produção da parte farmacológica, havia alguma característica especial assim. O que é que o senhor poderia contar pra gente?

 

R - Eu não posso lhe dizer.

 

P/1 - Na parte de fábrica.

 

R - A parte de fábrica era uma parte pequena enquanto eu trabalhei. Era essa parte... eles tinham (grajadeira?), eles tinham algumas coisas que eles fabricavam os cremes, que eles fabricavam a Vagi Sulfa ou alguma coisa que eles faziam lá, comprimidos que eles faziam. Mas, eles tinham um farmacêutico responsável, ele devia ter a fórmula, eles manipulavam aquilo, embalavam e ia pra expedição. Não tinha muita... Eu acho que, eu acredito porque quando eu fiquei em planejamento de produção eu acredito que na outra área devia acontecer a mesma coisa, o setor de vendas devia ter um planejamento de previsão de vendas, devia fornecer essa previsão de vendas com alguma antecedência, o planejamento de produção programava a compra das matérias primas por estarem disponíveis e programava o momento da produção e da embalagem pra colocar na expedição no momento de se fazer as entregas. Isso, às vezes, dá certo e, às vezes, não dá porque, às vezes, as vendas previstas não se realizam e, às vezes, se realizam vendas muito mais do que as previstas e aí começam os atritos, está certo? “Vocês não fizeram”, “vocês não compraram”, ou “vocês fizeram mais”, ou “vocês não venderam”. Mas, acredito que, na ocasião, a parte farmacêutica da Johnson era pequena, não era expressiva, ela deve ter crescido muito, não durante a minha presença lá. E devem ter organizado dessa forma, com planejamento, senão não se chega a nada. Isso é o que acontece.

 

P/1 - Bom. Eu queria falar um pouco da sua família agora, o senhor disse que conheceu a sua mulher na empresa, como é que foi o seu casamento, quando ocorreu e fale um pouco da sua vida familiar depois do seu casamento.

 

R - Bom. Eu vivia numa correria porque tinha que ir pra escola, tinha que voltar pra fábrica, tinha que fazer as coisas que me eram designadas, eu ia pro escritório ia pra fábrica nessa minha vida de estudante e assistente na fabricação de alguma forma. E eu tinha muitos contatos com o escritório também. Em 1945, uma moça chamada Isabel começou a trabalhar na companhia, mas eu nem sabia, pra lhe falar a verdade eu só percebi essa moça nos contatos que eu tinha com um diretor financeiro, porque muitas pessoas às vezes precisavam de ajuda financeira alguma coisa e eu ia lá conversar pra tentar acertar com ele uma forma de empréstimo bancário da companhia ou alguma coisa. Ele era uma pessoa que aceitava o diálogo pra esses fatos. E conheci esta moça que trabalhava lá com ele, mas não tive nenhuma afinidade com ela e nem ela comigo. Pelo contrário, ela disse que não me suportava, que eu era petulante ou coisa parecida, mas eu não percebi isso. Em 1951 ela já estava lá seis anos, então posso dizer, tive alguns relacionamentos com outras moças, relacionamento limpo, está certo? Com outras moças, mas não tinha tido com ela nenhum. E em 1951 ela perdeu a mãe, eu fui no enterro, conversei muito e fiquei, e aí nós nos acertamos. Namoramos, ficamos noivos e em 1955 nós casamos, foi o que aconteceu. Mas durante todo esse período que nós estivemos trabalhando, não tínhamos contatos que pudessem perturbar as atividades de cada um, mesmo porque cada um trabalhava numa área. O meu noivado era na casa dela. E, nesse período, antes de casar, trabalhava durante todo o dia e à noite eu ia lecionar, dar aulas num colégio na Rua Oriente, então não tinha muito tempo mesmo pra... era uma correria danada. Mas, acho que fiz um bom casamento, espero que ela pense a mesma coisa, estamos juntos há 40 anos agora e temos três filhos, os três são formados: um engenheiro, um médico e a moça é advogada. Os dois rapazes são casados, eu tenho duas netas e um neto e vivemos razoavelmente bem. Eu saí da Johnson em 1971, ela tomou um susto porque eu tinha já 44 anos, mas não tinha nenhum receio de sair e eu me sentia muito firme pra continuar a carreira em algum outro lugar. E eu não tive problemas pra arrumar outro emprego, quando digo que não tive problema, demorei alguns meses porque eu não tinha emprego ainda pra... Eu recebi primeiro um convite de uma empresa farmacêutica, estive com o presidente dessa empresa era Elli Lilly, não sei se existe. Elli Lilly que chama, né?

 

P/1 - Laboratório.

 

R - Exatamente. Ele aparentemente ia me contratar, quando passei no departamento pessoal o advogado, porque ele não tinha diretor de pessoal falou: "Olha, ele mandou cancelar todos os anúncios que nós íamos publicar porque ele gostou da sua entrevista". Mas nunca mais me disseram nada, está certo? Ele foi afastado da presidência naquele período mais ou menos, quer dizer, coincidiu. Eu depois respondi alguns anúncios, tinha alguma dificuldade pra ser aceito porque eles achavam que eu estava acima do que eles queriam vindo da Johnson & Johnson, então acharam melhor que eu... eles achavam que eu não ia ficar em algumas empresas. Finalmente, respondi um anúncio do Makro publicado na Veja naquela ocasião, respondi e fui chamado pra preencher uma ficha. E em uma semana só e no dia seguinte recebi um telefonema se eu podia com urgência comparecer nos escritório da Simonsen e Associados, você conhece? Que eles eram encarregados pelo recrutamento e que o grupo holandês estava ali, eles queriam conversar comigo naquele dia. Eram sete horas da manhã e eles queriam que as oito horas eu estive lá. Eu falei: "Tudo bem, eu vou fazer o possível". Fiz a barba, tomei banho, corri pra lá. E lá eles me contrataram, não tiveram nenhuma... marcaram a minha ida pra Europa, passei um mês na Europa me ambientando na nova área, voltei, recrutei todos os executivos da Makro e colaborei bastante na implantação da Makro no Brasil. Foi o que aconteceu. Então, quando eu saí, minha mulher se assustou, nós passávamos as férias em Santos, mas ela ficava mais porque eu voltava pra trabalhar diariamente depois de um determinado período. A Johnson era na Avenida do Estado, então da Avenida do Estado a Santos em uma hora estava lá. No dia seguinte, saí às seis e meia e às oito horas eu estava na Johnson & Johnson. E ela estava de férias quando eu decidi realmente saí, informei a Johnson que não ficava mais, ficaria até o momento que eles indicassem outra pessoa e me propus a indicar também uma outra pessoa porque no grupo de hoje ainda havia muitas pessoas de bom nível. E eu só disse a minha mulher quando nós voltamos de Santos e ela ficou apavorada porque segurança é uma coisa muito importante pras mulheres. Mas tudo acabou dando certo, não houve nenhum problema. A Johnson & Johnson conseguiu um substituto, um americano que lamentavelmente em poucos meses teve que ser demitido. Ele criou alguns problemas que não pude ajudá-lo porque enquanto estive, procurei integrá-lo e fui embora. Quando fui embora, estava em Santos com a minha família aí de novo, sossegado, não estou trabalhando, né? Quando recebo um correio especial em que ele precisava falar comigo, o meu substituto, ele queria que eu interferisse, que ele estava sendo demitido. Eu falei: "Eu não posso fazer uma coisa dessas, preciso saber o que você fez pra..." Ele queria que eu falasse com o Sanches. Aí eu procurei saber o que ele tinha feito e o que eu descobri... achei que não devia falar nada porque eu ia me envolver alguma coisa e deixei. Quando saí, deixei claro na Johnson & Johnson que respondia por tudo o que eu tinha feito e que se alguém tivesse qualquer coisa que necessitasse de esclarecimento que eu gostaria que me chamassem, que não fizessem comentários sem me consultar. E realmente não houve nada que, quando tiveram alguma dúvida me chamaram. Houve um momento que a Johnson & Johnson deixou de recolher o fundo de garantia, o percentual do fundo de garantia sobre horas extras sobre uma coisa assim, e isso montou uma importância alta. E um diretor que era responsável, esse mesmo com quem eu não tinha tido, mandou me chamar porque eu não tinha recolhido durante tantos anos aquela importância. Eu ainda conhecia o pessoal do departamento e pedi que me mandasse as pastas dos memorandos. Todos aqueles valores foram, deveriam ter sido lançados em reservas, uma vez que você não recolhe, está sob júdice uma coisa dessas, lança em reservas pra você não ter... até o mês que eu fiquei trabalhando foram lançados em reserva, mas no fim do ano, terminou o ano, deixei de trabalhar em julho mais ou menos. No fim do ano zeraram, quando zeraram as reservas, houve um acordo político, alguma coisa e o valor passou a ser devido. E ele queria cobrar de mim porque que eu não tinha."Não, querido, vocês é que zeraram as reservas que deviam estar aí pra cobrir isso". Mas, tudo um relacionamento sem problemas. Outros casamentos houve, muitos, Tâmaro se casou com a secretária do presidente, o Reginaldo se casou, o Reginaldo você não conhecem?

 

P/1 - Não.

 

R - Também é um outro colega nosso que se casou, houve muitos casamentos na companhia, está certo? O ambiente era realmente de respeito, as coisas eram sérias, não havia... Nós tivemos problemas com enchentes, isso é uma coisa que talvez... tivemos problemas seríssimos com enchentes.

 

P/1 - Perto da Avenida do Estado.

 

R - As enchentes realmente passaram a ocorrer, eu penso, depois de 1950, acho que bem mais tarde, talvez em 1960, não havia enchentes porque o Tamanduateí não transbordava, mas acho que com o asfalto, sei  lá, outros córregos, tivemos enchentes violentas, ficamos ilhados na Johnson & Johnson. Houve uma enchente que foi tão terrível que a chave de energia de alta tensão, a água estava numa altura que eu falei: "Nós vamos aguardar até essa altura, se subir mais um pouco, desliga a chave porque se a água atingir a chave, nós vamos ter uma explosão aqui que não..." Então, em determinado momento, nós tivemos que desligar a chave porque a água estava se aproximando. Não podia sair da companhia, nós tínhamos uma equipe de... eu não lembro qual era o nome disso, mas era uma equipe pra dar cobertura pra enchente, eles tinham barcos, todo o equipamento pra isso. Mas, em determinados momentos, o barco não funcionava mais, não tinha condições. Num determinado dia, quando as águas estava ainda, nós tínhamos passado a noite, soa o alarme de incêndio, foi um desespero, moças pra enfermaria e algumas ficaram doentes depois daquilo. Houve enchentes terríveis.

 

P/1 - Qual foi a época da mais terrível que o senhor pegou?  

 

R - Eu acho que foi 1960 e alguma coisa, 1965, 1967, alguma coisa assim.

 

P/1 - A água chegava a entrar e subia até metros, como é?

 

R - A água atingia quase dois metros.

 

P/1 - Quase 2 metros dentro da fábrica?

 

R - Um metro meio a dois metros.

 

P/1 - Danificou muito equipamento?

 

R - Danificava tudo, depois precisava engraxar, estragava. Porque a tentativa era colocar aqueles rolos de tecido em cima das mesas, mas a água... Algumas medidas eram tomadas, vamos dizer, pra tentar evitar, havia barreiras nos portões, barreiras nas portas, barreira externa, barreira interna e areia. Mas a água filtra e vem, vem por baixo e sobe, ninguém segura, ela entra pelos encanamentos dos esgotos, você coloca êmbolos aí, mas também não adianta nada, ela acaba...pra fechar quando a água subir, mas não adianta nada. Então a água, realmente ninguém segura. E o pior, a água penetra nos tanques de óleo que eram subterrâneos e o óleo vem pra cima da água. Então empesteia tudo, é um drama tremendo e a Johnson conviveu com isso ali na Avenida do Estado durante muitos anos, agora com a cobertura do rio que foi feita, não tenho ouvido falar mais de enchentes naquela área. Mas ficava tudo alagado, ficava uma lagoa completa ali. Tivemos um caso de apendicite aguda durante uma enchente, conseguimos levar a moça pro hospital de caminhão, um caminhão grande, está certo? Atravessando a água pra chegar. São momentos realmente difíceis, não tem...

 

P/1 - Antes da gente entrar na conclusão que estamos chegando lá, vamos trocar a fita que está acabando. 

 

[fim da fita 004-C]

 

P/1 - Dentro da fábrica houve incêndio?

 

R - O incêndio foi mais na área de expedição e queimou mais na área. E no escritório, uma vez tivemos um incêndio no escritório novo, no 3º andar, naquela parte nova que foi feita. Mas, não houve feridos nem nada, a única coisa é que tivemos de fazer uma escada de emergência que saía lá de cima pra possibilitar a saída do pessoal que não tinha essa escada de emergência do 3º andar.

 

P/1 - Bom. Antes da gente concluir eu queria que o senhor resgatasse só um momento que eu achei que ficou...

 

R - Pois não.

 

P/1 - ...que deu uma pulada que foi o momento da sua formação profissional, a gente nem chegou a falar sobre esse período de faculdade, né? 

 

R - Muito bem.

 

P/1 - O senhor disse que o senhor conseguiu, o senhor estava na Johnson, conseguiu um período...

 

R - Não, eu fiquei com a liberdade pra frequentar as aulas, eu fiz exame de habilitação, naquele tempo não era seleção. Então, acho que lamentavelmente o ensino era elitista naquela época, hoje ele é mais popularizado. Então o ensino era diurno, não havia cursos superiores noturnos, pelo menos eu não conhecia nenhum, o exame de admissão era de habilitação, só eram admitidos aqueles que tivessem uma determinada média, ainda que restassem vagas, elas ficariam não preenchidas. Então, fiz o meu exame de habilitação, fui aprovado, e freqüentei as aulas na Faculdade de Filosofia de 1945 a 1949, foram quatro anos e mais um pouco. Em três anos, recebi o diploma de bacharel, e com mais um ano de licenciado e depois comecei a fazer especialização também. Mas acho que já tinha uma mentalidade mercenária, precisava de ganhar um pouco mais, era uma vida terrível aquela de estudante, de ganhar algum dinheiro dando aulas e alguma coisa. Eu resolvi, primeiro não aceitei o convite que me fizeram pra eu ir a Bolívia, porque achei que era alguma coisa meio ligado com as esquerdas que eu não tinha nenhuma intenção de me filiar.

 

P/1 - Pra participar de que na Bolívia? 

 

R - Eles queriam, me ofereceram através do Itamaraty a possibilidade de trabalhar em La Paz, na Universidade da Bolívia para dar duas aulas por semana, não sei sobre o que seria, talvez sobre assuntos brasileiros, alguma coisa parecida. Eu imaginei,  e tinha razões para isso, que era uma forma de me requisitar ou catequizar para alguma atividade que não estava disposto a aceitar. Como a Johnson & Johnson me fez uma oferta para essa área de planejamento e programação da produção e o valor que a Johnson & Johnson me oferecia era equivalente, é claro que era pra trabalhar muito, mais aqui do que na Bolívia. E eu também me sentia muito grato a Johnson & Johnson por ter permitido me desenvolver e estudar e sei que devia retribuir e ficar na Johnson & Johnson. E fiquei, fiquei na Johnson & Johnson fazendo esse trabalho. Fiquei dois anos e depois fui convidado pra implantar uma área de recursos humanos, desenvolver e implantar, que inicialmente não me recusei, mas disse que tinha limitações, não era preparado pra isso. Mas o presidente na ocasião disse que ele me daria toda a cobertura, que eu teria uma assessoria jurídica interna e externa, que eu poderia fazer os cursos que julgasse necessário, que eu conhecia muito bem os procedimentos da nossa empresa e conhecia muito bem o pessoal e que eu poderia desenvolver. E eu tentei desenvolver e acredito que com sucesso. E durante esses anos todos mantive uma coisa muito importante que é a harmonia na companhia, que é muito difícil de manter. Eu não sou sofisticado, eu sou prático, eu não digo que eu acredito em treinamento que não seja operacional, mas sou muito favorável ao treinamento operacional. Todas essas teorias sobre treinamento gerencial, de conduta, de comportamento dou validade, mas acho que antes disso capacitação, no sentido de conhecimento daquilo que tem que ser feito. Depois que as pessoas sabem o que tem que fazer, se você tiver que encontrar um meio pra que elas tenham uma conduta gerencial adequada, tudo bem, mas não adianta encontrar uma conduta gerencial adequada pra quem não está capacitado pra uma determinada atividade. Então sou mais pelo treinamento operacional antes de tudo.

 

P/1 - Antes desse momento, a Johnson não tinha um departamento de recursos humanos, como é que funcionava?

 

R - Tinha um departamento incipiente. Quase tudo era... nas empresas daquela época o setor que cuidava dos assuntos de pagamentos era o setor de contabilidade, então a Johnson também era assim, está certo? E tinha alguma pessoa que se encarregava de fazer isso, mas dentro do setor de contabilidade. Só a partir dessa época, 1948, 1949 talvez, é que começaram a aparecer esses departamentos de recursos humanos, de desenvolvimento, de treinamento. Se existia isso, não existia conscientemente. Alguém fazia isso, mas não havia a consciência da necessidade dessas atividades. Uma das coisas que eu acredito que ajudei a fazer, porque não acho que fiz nada sozinho foi o que nós chamamos de (cellary alocation?), a Johnson & Johnson era uma empresa muito complexa e diversificada. Então, pra calcular o custo das coisas, você precisaria ter uma idéia de quanto custou a preparação, quanto custou a fabricação, quanto custou o acabamento, pra saber de mão-de-obra, eu estou me referindo a mão-de-obra. Então, uma das coisas que ajudei a fazer primeiro, por conhecer bastante o procedimento, a operação da fábrica e tudo isso, foi a descrição das atividades. Uma vez escrito essas atividades, codificar essas atividades, e poder saber o que custou a preparação, o que custou a fabricação, o que custou o acabamento, trabalho para o setor de custos contábeis depois poder fazer a necessária contabilização e atribuir os custos onde eles eram efetuados. Eu acho que também o que nós fizemos, fomos pioneiros acho que no Brasil, folhas de pagamento em computador. Porque as folhas de pagamento eram feitas à mão ou tinha uma máquina, uma máquina comprida assim em que se faziam as folhas de pagamento, mas era difícil se fazer isso. O pagamento era feito em dinheiro, eu ia buscar dinheiro do Citibank, ia buscar o dinheiro no Citibank, ia sozinho às vezes, pegava uma mala de dinheiro, pegava um táxi e voltava. Nunca, imagina a diferença, como o mundo mudou, está certo? Não tem... telefonava pro Citibank e dizia: "Olha, nós precisamos de tanto dinheiro, tantas notas de dez, de vinte, de cinqüenta, de cem, assim e assim". Eles separavam, a gente ia lá buscar, levava o cheque, trazia pra companhia, e começava o envelopamento. E tinha que bater, se sobrasse ou se faltasse precisava começar reabrir tudo de novo pra encontrar onde estava a diferença. Então, os pagamentos começaram a ser feitos em computador, menos uma parte, que era confidencial, essa eu fazia pessoalmente. Mas era uma época diferente. A opção pelo fundo de garantia, nós fomos pioneiros também em fazer isso porque quando... eu sabia que a companhia já tinha mudanças programadas, se nós ficamos amarrados com os funcionários estáveis vamos ter dificuldade pra fazer a mudança, por outro lado tinha a consciência: não quero prejudicar nenhum funcionário, a companhia não quer prejudicar ninguém. Vamos encontrar o plano que possa ser útil em todas as partes, está certo? Então, idealizei o plano, apresentei ao Sanches e é claro que no plano tinha o custo também do plano, vai custar mais ou menos tanto. E ele falou: "Não, de jeito nenhum vamos fazer, isso é muito dinheiro". Eu falei: "Tudo bem". E ele foi para os Estados Unidos. Acho que quando ele falou em mudança lá e que perguntaram como ele ia fazer com os liability dos estáveis ele lembrou do meu plano, me telefonou dos Estados Unidos se eu tinha guardado aquele plano que, quando voltasse, ele queria ver aquilo com urgência. E aí nós aplicamos o plano, foi o que nós fizemos. Nós nunca tivemos problemas com fiscalização de trabalho, deixei instruções sempre que os fiscais do trabalho eram representantes do presidente da República quando eles chegassem deviam ser atendidos e eu gostaria de atendê-los pessoalmente, almoçava, discutia, nunca dei dinheiro a nenhum fiscal do trabalho, mas também nunca fui autuado. Na realidade, as coisas estavam razoavelmente bem feitas porque no Brasil a legislação é tão complexa se eles quiserem, encontram alguma coisa, mas desde que você mantenha um relacionamento sadio com eles, não há, pelo menos naquela época, passei por esse problema. A companhia, disse que pagava dentro do melhor padrão do mercado, dava assistência médica dentro do melhor padrão, então nós não tivemos problemas com funcionários. A companhia inicialmente não tinha o plano de assistência médica como existem hoje com essas empresas de serviço, nós tínhamos um grupo de médico e um grupo de hospitais que nós credenciávamos e mandávamos os nossos empregados pra lá. Acontece que isso para os empregados não era tão bom como ter uma empresa de assistência médica. Aí nós partimos pra procurar uma empresa de assistência médica e eu tive oposição dos médicos porque o sindicato não queria que as empresas fizessem contratos de serviços médicos com empresas, eles queriam que os médicos continuassem sempre como profissionais liberais pra isso. E a Johnson & Johnson, trabalhando diretamente ligada a médicos, tinha um impasse aí, mas consegui também acertar, tínhamos médicos, os que nós tínhamos mantivemos, e contratamos uma empresa, deixei ao Sanches a liberdade de escolher. Ele é que escolheu a empresa, eu fiz uma pesquisa e disse: "Olha, essas três são as melhores e você escolhe porque eu não quero que ninguém diga que eu escolhi", está certo? E ele escolheu. Não sei o que mais eu poderia lembrar.

 

P/2 - O senhor foi o responsável pela criação do clube dos 25?

 

R - O clube dos 25 foi criado na minha gestão, mas eu não era membro, só nós recebemos a instrução pra organizar uma festa e criar um clube pros empregados de 25 anos. Essa primeira festa eu não participei, não tinha cabimento eu participar, não eram muitos também . E eu só comecei a participar em 1960, 41, 1966. E participei praticamente de todas as reuniões, porque a gente elegia um presidente para o clube dos 25 anos e durante todo o tempo em que eu estive, fui eleito presidente do clube dos 25 anos. E quando eu deixei a companhia, não recebi convites, recebi um convite formal sem nenhuma... que eu achei que eles tinham mandado pra todos e eu não fui. Os dois primeiros anos depois que deixei a companhia, eu não fui. E lamentavelmente faleceu alguma pessoa da empresa, ou filho de alguma pessoa da empresa e eu me encontrei no enterro com o Sanches. E o Sanches disse pra mim: "Você não tem vindo nas festas do clube de 25 anos". E eu falei: "Por acaso você tem me convidado?". "Você não recebe o convite?" Eu falei: "Não, o convite que vocês mandam pra todos, eu não vou". Ele falou: "Eu vou mandar um convite especial pra você e eu quero que você venha e que você..." Aí eu recomecei e fui de novo, está certo? Mas eu não iria mesmo, lamentável.

 

P/2 - Certo. Eu tenho mais uma pergunta pra falar pro senhor que a gente conversou no começo, quando a gente estava preenchendo as fichas. Quando começou a trabalhar na Johnson & Johnson o senhor controlava a produção, tinha todo um mecanismo pra controlar do maquinário a produção do funcionário, eu queria que o senhor retomasse isso pra gente.

 

R - Não, no meu início eu tinha como incumbência registrar em alguns cartões nominais de cada empregado diariamente a produção que eles realizavam. Então cada tear tinha um relógio que marcava os pontos, cada ponto significava um número de metros, alguma coisa assim. Eu andava pela sala de tecelagem, tomava nota dos pontos feitos em cada tear, agrupava para os responsáveis diretos e para o geral e registrava naqueles boletins, naqueles cartões e no fim da quinzena, enviava esses cartões para a Contabilidade e eles somavam e chegavam no valor que devia ser pago como salário a esses funcionários. Por falar nisso, o serviço era feito numa máquina que eu não acredito que vocês conheçam, chamava-se comptômeter, era uma máquina desse tamanho assim, larga, com números e números e as moças, comptometristas, é uma função que não existe mais hoje, comptometristas. Respondi o que você queria?

 

P/2 - Respondeu.

 

P/1 - Bom, eu queria que o senhor me... uma curiosidade que me ficou, porque um homem tão ligado a números fez Filosofia?

 

R - Porque eu fiquei na dúvida, se eu fizesse um vestibular pra uma escola de engenharia, esta pergunta me foi feita por um professor já também, que eu não iria ter o tempo suficiente para poder continuar trabalhando, que eu não iria fazer nem um bom curso e nem um bom trabalho. E como eu precisava tanto do curso como do trabalho, preferi fazer Filosofia, e nem Direito eu quis fazer, falei: "Eu vou fazer Filosofia diretamente". Foi essa a minha... E com uma perspectiva que eu tinha de em breve poder dar aula, está certo? Já no segundo ano dei aulas no cursinho de vestibular da faculdade de filosofia. Havia um cursinho, não existiam todos esses cursinhos que existem hoje. Na faculdade da filosofia havia um cursinho e durante o período letivo você podia dar aulas, não ganhava nada, mas nas férias você ganhava, eles pagavam, não sei de onde eles cobram, mas pagavam. Tinha o grêmio, eles faziam... Então logo no segundo ano dei aulas no cursinho preparatório da faculdade de filosofia e ganhei um dinheirinho que me fazia falta na ocasião, me ajudava realmente. Na realidade, as aulas que dava eram de redação, comentava todas as redações e não era fácil porque havia alunos que eram advogados, outros eram padres, era um pessoal... mas eles cometiam erros imperdoáveis. 

 

P/2 - Certo. E o senhor obteve um título concedido de administrador de empresas.

 

R - É, em 1900 e alguma coisa, que eu não sei, o João Mendes que é da área farmacêutica insistiu que eu fizesse um requerimento para o Conselho Regional de Administração recém instituído para que me fosse concedido o título de, naquela ocasião, técnico de administração. E eu não queria, falei: "Não preciso disso". E o João tanto insistiu que preparou os papéis todos e, ele mesmo é que apresentou a minha petição, tudo isso e recebi, mais tarde, o título que só conseguido fazendo curso técnico de administração e hoje se transformou em administrador. Porque o meu currículo, os diplomas que eu tinha da faculdade de filosofia, tinha alguns outros cursos que fiz de técnicas de trabalho, alguns cursos que eu fiz só para pessoas com curso superior, eu fiz no Senac. Tinha um curso só pra pessoas de curso superior que eram de valor e com isso a minha documentação foi de tal nome que fui um dos primeiros a receber esse título que não sei como chamar, compreende, não sei se pró-forma, o que é que é, mas é um título, tenho a minha carteirinha de administrador de empresas.

 

P/1 - Bom, acho que a gente pode concluir, então. Queria que o senhor concluisse com uma espécie de avaliação, digamos assim, o que é que o senhor teria feito diferente se fosse possível fazer de novo? E que o senhor conclua essa avaliação como o senhor quiser.

 

R - É uma pergunta pra pensar. Eu me sinto muito orgulhoso de ter trabalho na Johnson, acho que a Johnson me deu oportunidades que dificilmente eu teria, tive a sorte de trabalhar numa empresa que me deu essas oportunidades, aprendi muita coisa. Eu acho que retribui também, fiz muita coisa, acho que a Johnson & Johnson sempre teve um grupo de executivos, de diretores de primeira ordem, de primeira linha, muito bem formados, talentosos, de quem tive oportunidade de aprender, tive colaboradores que me ajudaram bastante, tudo que tive na minha vida na Johnson & Johnson se resume em boas lembranças, não tenho lembranças desagradáveis. Eu saí da Johnson & Johnson consciente porque não concordava com a política que queria implantada por um novo diretor e eu não senti segurança que o Sanches pudesse dar apoio porque ele estava se furtando. Então saí. Eu disse ao Sanches que ia sair, que ia só lecionar e que não ia trabalhar mais. E ele aceitou também, não falou nada: “boa noite”, está certo? Eu me sentia muito preparado, me sentia em condições de trabalho. Eu tinha feito um check-up e o resultado é que eu era um health specimen, uma espécie que está em perfeita estado de saúde. Eu fui fazer um teste num laboratório de medida de trabalho, capacidade, esses laboratórios que fazem controle pra medir a capacidade pra indicação de emprego e o dono lá do laboratório me convidou pra ficar sócio, que ele precisava viajar e queria que eu ficasse tomando conta do... Eu falei: "Bom, então acho que devo estar em boas condições. Eu sinto de deixar a Johnson & Johnson nessa ocasião, eu pensava, mas não me sinto mais à vontade, não sinto que haja um apoio das pessoas que poderiam dar, vou embora, vou embora e vou tratar da minha vida". Então, não me arrependo de ter saído, mas gostaria de ter ficado. Foi muito difícil pros meus filhos saberem que eu não mais trabalhava na Johnson & Johnson, que não estava mais lá. E muitas vezes ainda hoje quando eu vou me referir a Makro, falo em Johnson, porque fiquei acostumado com isso, apesar de ter trabalhado 20 anos na Makro. Então, não me arrependo de ter saído, mas lamento porque era uma grande companhia, é uma grande companhia e eu devo muita coisa a Johnson & Johnson, apesar eu também ter retribuído. Por outro lado, acho que sendo prata da casa, teria apesar de toda, vamos dizer, todo o apoio que o Sanches me deu quando assumiu a presidência, o primeiro presidente brasileiro que assumiu a presidência reconheço que me apoiou, me deu condições melhores, realmente me deu, como prata da casa, sempre tive a prata da casa, está certo? Na Makro ou no Makro, como dizem agora, eu não era prata da casa, tinha um cabedal de conhecimentos que imediatamente fui líder nas reuniões do comitê executivo. Porque, primeiro a minha facilidade pra lidar com números, já tive problemas na Makro pra contratar os executivos porque na área comercial os executivos que estavam à disposição naquela época, em 1971 eram muito fracos, não eram os tipos de executivos que eu conhecia na Johnson & Johnson, que eram preparadíssimos, compreende? Então, nas reuniões sentia quando eles estavam falando alguma coisa que não era realmente e eu demonstrava: "Não, não é assim". Existem ICM, IPI, uma porção de coisas que eu nem sabia o que era quando fui, mas são números quando você começa "Peraí, esse número não está correto". Custo de produtos, margem, marcapes, tudo isso foi muito fácil para assimilar e sentir e dominei. Aí, dominei. Inflação, as pessoas não sabiam calcular quanto as vendas tinham ficado acima ou abaixo da inflação, eles diminuiam só, você tem que fazer uma divisão, não é assim que faz. Quer dizer, então tive um sucesso muito grande no Makro e viajei quase que anualmente pra Holanda, pra Bélgica, pra Espanha, pra África do Sul uma vez também. E o meu relacionamento com a matriz, não tinha nenhum relacionamento com a matriz da Johnson & Johnson, com a matriz na Holanda era por telefone. Não tinha, tinha o contato realmente. Acho que no Makro eu me realizei profissionalmente, na realidade eu ganhei muito mais dinheiro no Makro do que na Johnson. Me pagaram realmente, não tive... na Johnson eu recebia o meu salário, já era bem pago, não tem nada, mas o que eu ganhei na Makro era muito mais do que eu ganhei na Johnson & Johnson. Obtive o reconhecimento deles. Eles me tratavam como alguém que era... que sabia ensinar as coisas. Na Johnson, só num determinado nível, porque a nível de diretoria eu não chegava lá. Eu não tinha essa condição, mas não tinha nada contra eles, acho que me respeitavam e eu também os respeitava. Mas só consegui me realizar profissionalmente na Makro eu não tenho dúvida disso. Então foi bom também e hoje eu gosto muito do Makro, eu saí da Makro porque com quase 70 anos não poderia mais trabalhar, é uma política da empresa. Tive o melhor relacionamento com eles mesmo depois da minha saída, realizei trabalhos específicos que me pediram com sucesso e lamento que a Makro não esteja bem hoje, essa é a situação. Na área de pessoal apresentei muitas pessoas pra me substituirem, mas não deram certo.. Por quê? Porque falta a eles o conhecimento estrutural, operacional da empresa que acho básico isso. São ótimas pessoas de formação pra administração de pessoal, mas quando você não conhece a estrutura operacional da empresa pra você poder pegar um relatório e discutir de igual pra igual com o gerente financeiro ou com qualquer outro administrador você perde. E o que acontece é que as pessoas deixam de fazer os estágios necessários pra treinamento e capacitação porque ficam assoberbadas com o trabalho e se perdem, isso que aconteceu. A Makro trocou três pessoas depois que eu saí, tive contatos lá e tudo isso não teve outra... atualmente há uma pessoa que era interna, porque a minha última sugestão foi que eles usassem alguém que já trabalhasse em outra área, que tivesse desejo de trabalhar em pessoal. Eles estão utilizando agora uma pessoa nesse sentido que acredito que vai dar certo, porque não precisa ser nenhum milagreiro pra trabalhar em pessoal. Mas precisa conhecer o trabalho da empresa porque senão você vai encontrar obstáculos intransponíveis. Lamento ter saído da Johnson, mas por outro lado, fico feliz de ter me realizado na Makro, essa é a situação.

 

P/1 - Bom. É isso então seu Novazzi. Você tem mais alguma coisa?

 

P/2 - O que é que o senhor achou de ter passado esse tempo com a gente e deixando registrado a sua experiência de vida, da sua trajetória pessoal? Mais da entrevista.

 

R - Bem, eu fico muito satisfeito de ter podido conversar livremente e informalmente com vocês, porque vocês além de simpáticos, me parecem inteligentes também (risos) Não me fustigaram, me deixaram à vontade e eu também procurei ser o mais sincero possível com vocês. Então, acho que esse é o caminho de vocês procurarem as coisas. Só lamento não ter mais elementos pra trazer, não ter me preparado de alguma outra forma, talvez pra lembrar alguma coisa. Se eu me lembrar de alguma coisa vou procurar mandar pra vocês, está certo? As pessoas que trabalharam acho que mencionei todas, não saberia o que dizer. A companhia teve também um clube de empregados, além do clube dos 25 tinha o clube dos empregados e eu que fundei o clube dos empregados. O jornal, o clube dos empregados, o clube dos 25, uma porção de coisinhas.

 

P/1 - Esse clube ainda existe?

 

R - Eu acho que só se estiver em São José dos Campos. Mas esse clube, a atividade principal dele era futebol, e isso gerou alguma, algum desentendimento entre a área de fabricação e administração porque eles achavam que a gente contratava pessoas pra fábrica só porque iam jogar futebol, não era verdade, mas sempre acontece isso. Mas esse clube de futebol amador foi campeão amador do estado, da Capital e do estado, quer dizer, que a Johnson tinha um time de futebol muito bom, não tem dúvida. Nós tínhamos também um programa de financiamento de estudos que depois foi desenvolvido muito em São José dos Campos, mas já fora da minha...mas nós começamos com esse programa de financiamento de estudos. O clube de empregados na minha época tinha, inclusive, uma área em Amparo com chalés, com lugares pra acomodação pras pessoas passarem, não era grande, mas acho que tinha meia dúzia de apartamentos, alguma coisa lá em Amparo. Mas a companhia não... o clube era uma luta porque a companhia não dava o apoio, a direção não dava o apoio total que necessitaria. E a gente precisava arrecadar o dinheiro dos empregados e os empregados, geralmente, não querem pagar. Mas deve existir o clube ainda. Hoje o clube...

 

P/1 - Quando é que ele foi campeão?

 

R - Olha, na década de 1950.

 

P/1 - Década de 1950?

 

R - É, eu acredito. Mas ou 1960 por aí, não me lembro. Mas foi um clube bom de futebol amador. Hoje o clube tem uma sede em São José dos Campos que a companhia que deu. É uma sede grande, é uma sede de campo realmente, eu já estive lá, devo ser sócio honorário, mas não tive mais tempo pra ir lá. Mas existe ainda. A pessoa que lhe disse, que talvez possa ter jornais da época, é Bruno Zanini, mas não acredito também que ele tenha porque é muito tempo. Talvez essa assessoria farmacêutica que eu lhe indiquei tenha os jornais que foram feitos na ocasião.

 

P/1 - Nós vamos contatar.

 

R - Eu estou muito satisfeito com vocês e me disponho a qualquer outra informação. Lamento não poder informar com mais precisão como funcionava o setor farmacêutico porque realmente não tenho...Acho que talvez o Armando Macias tenha mais alguma coisa, na fabricação acho que morreram todos que podiam informar exatamente o que acontecia.

 

P/1 - Bom, senhor Novazzi a gente agradece então a sua disponibilidade de estar esse tempo todo aqui com a gente.

 

R - Eu é que agradeço. Muito obrigado.

 

P/2 - Muito obrigada.

 

[fim da fita 004-D]

 

 



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