Busca avançada



Criar

História

O primogênito dos Borges

História de: Marilton Borges
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/11/2004

Sinopse

Filho primogênito dos Borges, Marilton nasceu em 1943, no bairro de Santa Teresa, Minas Gerais. Na infância, a grande inspiração musical veio de seu tio materno, João, que lhe ensinou a tocar violão e o presenteou com um cavaquinho. A partir daí, apesar do interesse de Marilton pela música ficar cada vez mais evidente, durante a passagem da infância para a adolescência, o rapaz passa a trabalhar como office-boy em uma empresa. Nessa mesma época, a família Borges se muda para o edifício Levy e nas escadarias daquele prédio, Marilton tem um encontro transformador com um jovem Milton Nascimento, que logo seria apresentado a toda a família Borges e daria início a uma parceria emocionante que resultou no Clube da Esquina. Apesar de ter seguido a carreira musical independente do sucesso dos irmãos, Marilton revive, nesse depoimento ao Museu, o Festival de Belo Horizonte, no qual se tornou a primeira pessoa a tocar publicamente a canção “Clube da Esquina”, até então, uma desconhecida composição de seus irmãos e de Milton Nascimento e reafirma a importância da música mineira para o mundo.

Tags

História completa

 P/1 – Bom Marilton, vamos começar a nossa entrevista?

R – Vamos lá.

P/1 -  Eu vou pedir para você falar o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

R – Marilton Fragoso Borges. 31 de maio de 1943. Aqui em Belo Horizonte mesmo, mais precisamente em Santa Teresa.

P/1 – E o nome dos seus pais?

R – É o velho Salomão Magalhães Borges e a dona Maria Fragoso Borges. 

P/1 – E me fala uma coisa, da sua infância assim que você lembra, qual era a ligação dos seus pais com a música? O que é que você lembra assim?

R – É, na verdade, do meu pai é muito pouco, papai mais ligado pelo menos, agora não, até que ele, lá em casa, ouve aquela inversão, né? Os filhos influenciaram os pais, então papai toca um pianinho etc e tal, mas na época não. Ele sempre foi ligado mais às letras e a recordação que eu tenho do meu pai desde menino é que você podia, nós podíamos fazer qualquer coisa, menos falar errado e escrever errado. (risos) Ele ficava bravo demais, isso ele nunca gostava. E com a música, na verdade, a minha mãe, a família da minha mãe, através do tio João, irmão da minha mãe vivo até hoje, que ele tocava violão, cantava muito bem e mamãe que fazia, ela pertencia a coro de igreja. Minha mãe até hoje ela lê, talvez seja o único Borges que aconteça isso (risos), ela lê correntemente partitura musical assim, né? Ela é o único Borges que lê música para valer mesmo. (risos) Porque o resto, todo mundo é de orelha, né?

P/1 – (risos)

R – Eu inclusive, eu leio cifra mais ou menos. Depois, se me perguntarem, eu explico mesmo para vocês como é que eu comecei a ler as cifras, que é a maior loucura, mas então é isso, entende? Essa coisa da família da minha mãe mesmo, minha avó, minha avó faleceu o ano passado, em 2003, e minha avó materna, ela tocava bandolim, a minha avó paterna, eu fiquei sabendo que ela tocava também um instrumento, mas eu não cheguei a ver isso, agora minha avó materna, ela alguns anos atrás na praia, passando final de semana na praia eu perguntei: “Ô vó, que negócio é esse que alguns dos seus filhos tocam? Sua filha, minha mãe, lê música?” Então ela contou a história do velho Olegário, pai dela, o velho Olegário, ou seja, o meu bisavô, o velho Olegário ele foi o primeiro (pigarreia) – perdão – foi o primeiro músico de categoria especial da Banda da Polícia Militar de Minas Gerais. O que é que era o músico de categoria especial? Olegário Soares, era um músico que tocava todos os instrumentos da banda, não tinha um instrumento da Banda da Polícia Militar que ele não tocasse, isso veio desaguar nos Borges cá em baixo já, nos bisnetos dele, onde todo mundo toca alguma coisa, né? Essa coisa lá de casa, entende? Então a minha avó que me contou essa história, eu não sabia, sabe, de onde é que veio esse esse gene musical que está conosco até hoje.

P/1 – Tá jóia. E, Marilton...

R – Hum?

P/1 - ...assim, descreve como é que era o bairro de Santa Teresa e a casa da sua infância.

R – O bairro de Santa Teresa hoje, pela proximidade com o Centro de Belo Horizonte, ele hoje é um bairro muito valorizado. Mas na verdade, na nossa infância, foi um bairro que foi ocupado, porque ali tinha um quartel, onde é que tem o Colégio Tiradentes hoje, ali tinha um quartel da Polícia Militar, então era ocupado por militares, tanto que falavam assim: “Vai, vai soldado.” O pessoal, assim da classe média melhorzinha, não gostava muito de Santa Teresa não. “Vai soldado.” É assim, classe média mais pobre, mais funcionários públicos, entende? Então era um bairro assim muito pacato, muitos lotes vagos, eu passei minha infância brincando naqueles lotes vagos, entende? Muito brejo, a casa da minha mãe, do lado da casa da minha mãe, a casa da minha mãe mesmo foi construída em cima de um brejo, muito brejo, então tinha a rua e aquela coisa, né, o brejo lá no fundo. Meu, já teve que fazer n reformas na casa, que de vez em quando a casa racha tudo (risos) até hoje, você vê que passaram já cinquenta anos, então o bairro era isso, sabe, e o que mais, a peculiaridade do bairro de Santa Teresa, é até hoje porque agora que mudou um pouquinho, mas ele nunca foi um bairro de passagem. Mesmo nós, agora que fizeram a passagem, mas ele ainda é um bairro de chegada.

P/1 – Hum, hum.

R – Apesar da proximidade com o centro da cidade, então você chega em Santa Teresa, mas você não passa por Santa Teresa, porque você não vai para lugar nenhum, chega. (risos) Santa Teresa é o final, sabe? Então essa coisa peculiar do bairro permitiu ao bairro ser a coisa incrustada dentro de Belo Horizonte, uma cidade do interior dentro de Belo Horizonte. Onde até bem pouco tempo, agora esse tempo nem tanto, há bem pouco tempo as pessoas ficavam na calçada batendo papo no final de tarde, sabe, aquela coisa bem interiorana, bem todo mundo conhece todo mundo. “Ô, dona Fulana, me arranja uma xícara de arroz aí fazendo um favor? A senhora tem açúcar aí? Me arruma um pouquinho.” Depois você ia lá e mandava pagar uma xícara de arroz ou de açúcar que você pegou com o vizinho, aquela coisa bem de interior mesmo, até bem pouco tempo Santa Teresa era assim. Agora vieram os bairros, eu felizmente eu consegui, eu fui presidente durante três anos da Associação Comunitária dos Moradores do bairro e eu consegui aprovar, foi a primeira, e até hoje é a única área ADE em Belo Horizonte, Area de Densidade, de Diretriz, mentira, Área de Diretrizes Especiais. Santa Teresa é uma área de...

(falha na gravação)

R - ...é a primeira Área de Diretrizes Especiais de Belo Horizonte. Onde, o que é que é Área de Diretriz Especial? Você tem parâmetros para construir, você não pode construir com mais n andares, você não pode construir, tem que ser até 4 andares me parece. Tem que ter um distanciamento da calçada., diz que o distanciamento do muro para preservar quem mora em casa do outro lado, entende?

P/1 – Hum, hum. 

R – Então assim, eu consegui isso, graças a Deus, e graças aos companheiros lá também, né? Mas eu fui de gabinete em gabinete, aproveitando que a gente é mais ou menos conhecido aqui, de gabinete em gabinete pedindo: “Ó, Fulano, aprova porque isso é importante para Santa Teresa.” Então Santa Teresa hoje, graças a Deus, continua sendo um bairro de chegada e nunca de passagem, sabe?

P/1 – Certo.

R – E essa recordação que eu tenho do meu bairro, eu falo com tanta, né? Um bairro com a sua matinê das dez, a matinê das duas. 

P/1 – Aonde era a matinê?

R – No Cine Santa Teresa que hoje está parado, ali é um, vai se transformar – também a gente conseguiu isso – vai se transformar em um centro cultural. Ali no centro, Centro Cultural Leste, ali na pracinha de Santa Teresa. 

P/1 – Em frente da igreja ali?

R – É quase em frente da igreja. É um...

P/2 – Um galpão.

R - ...um prédio grande que tem ali. Aliás, um prédio grande, é um tipo um galpão mesmo.

P/2 – Um galpão.

R – A gente conseguiu que a Prefeitura tombasse aquilo para a gente. Eu acho que eu fiz algumas coisas pelo meu bairro. Pelo bairro de, até hoje eu estou virando mais sabarense que Belo Horizonte, porque eu estou com um sítio lá, eu estou indo morar lá, mas eu estou conseguindo, a gente conseguiu isso para o nosso bairro, sabe? Que é o tombamento do cinema, é o bairro se transformar em uma Área de Diretrizes Especiais e aquela coisa da infância, nós tínhamos ali na pracinha, por exemplo, tinha os, tinha o footing, que é que era o footing? Era a rapaziada parada e as menina passando. Aí de vez em quando o cara chegava, dizia: “Posso falar com você?” (risos) “Pode, fala.” 

P/1 – (risos) 

R – Aí saía aquele _____, ia para os murinhos, para os escurinhos dava uns amassos ali, aquelas coisas e era engraçado, tinha aquela coisa assim meio preconceituosa, eram três pracinhas, aqui, ficavam os rapazes do bairro, na outra, ficavam os soldados e as empregadas. (risos) E o outro misto, todo mundo. (risos) 

P/1 – (risos) Quais eram as três praças?

R – Não, porque a Praça Santa Teresa era assim, ela tinha três, ela tinha três módulos.

P/2 – Porque ela é grande, né? Então...

R – Cada módulo, aquele módulo em frente ao Bolão ali era um, em frente ao Macarrão do Bolão era um módulo, em frente a igreja, era outro módulo, em frente ao cinema, outro módulo e o trânsito passava por ali etc e tal. Mas...

P/1 – Que filme você assistia na matinê, você lembra assim?

R – Ah, a gente tinha as séries. As séries que eram... acho que por isso que eu tomei raiva de novela, porque se você não podia ir na outra semana você perdia o fio da meada completamente. (risos) Porque tinha as séries de (Rocklane?), Capitão América, que é o que há, e tinha muita série assim. Mais assim, faroeste em série que o cara, Hopalong Cassidy. Que mais? Nossa! Que velheira. Nossa senhora!

P/1, P/2 – (risos)

R – Ataque de velharia que eu tive aqui agora violento. (risos) Então era isso e tinha séries cinematográficas, aquelas coisas e a gente ficava ali, eu me lembro que eu era tão magrinho àquela época que o sujeito assim, às vezes não tinha grana, então aquela, a porta do, aquela porta sanfonada, sabe? 

P/1 – Do cinema.

R – Do cinema. Aí chegava um puxava, botava o pé e ficava assim o outro passava. (risos) Agora você, vai: “tum.” Daí ia a rapaziada. E outra coisa da minha infância, tanto que eu fui muito influenciado pelos padres Cruzes, os padres holandeses que estão até hoje lá na... Eu fui ser seminarista em Campo Belo, fui estudar em seminário, fiquei pelo menos dois anos, perto de dois anos em Campo Belo, mas eu não tinha a menor vocação, comecei a namorar as meninas na cidade, etc e tal, tudo, meu negócio não era esse realmente. Mas, celibato? Tchau.

P/1 – (risos)

R – (risos) Um abraço. Castidade jamais, mas eu fui influenciado pelos padres. Tomei muito vinho dos padres lá em Santa Teresa, fazia a cabeça para ir à matinê. Ajudava a missa, depois chegava lá, (risos) biritava o vinho do padre e falfa.

P/1 – E dos terrenos? Você falou que tinha muito terreno, muito brejo...

R – É, Marcinho, meu irmão, ele pegou na beirada do Rio de Arrudas, ele pegou uma bela de uma xistose que lhe inchou todo, etc e tal. Esquistossomose, né? Porque era assim muito insalubre e tudo, mas tinha o campo do Minas, que era no final da Rua Divinópolis, que era um campo de futebol de terra e eu, durante, eu joguei futebol até os quase cinquenta anos, eu fui sempre um aficionado de futebol, então jogava naqueles times todos de Santa Teresa. Eu era um, apesar de minha pequena estatura, eu era um belo goleador, fazia muito gol, ruim de bola mas goleador, nunca fui craque não.

P/2 – As regiões ali em Santa Teresa tinha uns apelidos, não tinha uns apelidos? 

R – Hum, hum.

P/2 – Como é que eram esses apelidos?

R – Da moçada? Tinha o Carcolé...

P/2 – Não, não. Eu digo  das regiões de Santa Teresa.

R – Ah, não lá tinha o Baixo Mandiocal e o Alto Mandiocal. O Alto Mandiocal era o society de Santa Teresa, para cima da praça, o pessoal que morava bem. E nós, coitados, que morávamos para baixo da praça, era o Baixo Mandiocal.

P/2 – Que era mais perto da linha do trem.

R – É. E ali tinha, na beirada do trem tinha o, a casa de prostituição da baiana, sabe, onde a gente, eu tive as minhas primeiras experiências sexuais. Eu tenho, levado pelo, um ex-secretário de Cultura de Minas Gerais, o Fernando Paz, que na verdade foi colega meu e do Marcinho, nós fizemos ginásio junto. Nós chamávamos ele de Fernando Cobrinha, ou Fernando Queixada, que ele é prognata, tem um queixão. 

P/2 – (risos) 

R – Hoje ele disfarçou o queixo com a barba. Então a barba não aparece o queixo do Fernando. (riso) Desculpa, Fernando. (risos) O Fernando Paz. Mas o Fernando foi o cara que me levou assim para a primeira aventura amorosa, né? Na cama mesmo, lá na Baiana, na beirada do Rio Arrudas.

P/2 – Do rio. (risos) 

R – Sabe? Ao lado da linha do trem. Então Santa Teresa era isso, sei lá, limitada pelos trilhos da Central e do Ribeirão Arrudas, né, mas o Ribeirão Arrudas apesar de tudo, já era poluído, não tanto quanto hoje mas já era poluído, mas por exemplo, lá no campo de Minas a bola caía, ninguém tinha problema não, a gente entrava lá no rio e ia buscar a bola. (risos) Eu vou perder a bola para a correnteza? Imagina. (risos) Jamais, né? Então a gente jogava, tinha aquela, outra coisa, outra coisa da infância, um negócio assim bem baixo nível mesmo, mas era, não tem como falar, que era aquela rivalidade com a turma do horto de, da floresta, né? Eu me lembro que uma vez um tal de Satiro, Satirinho, que era uma liderança lá no Horto, ele foi na barraquinha de Santa Teresa. Mês de maio tinha barraquinha de Santa Teresa, onde é que tocava, o alto-falante tocava as músicas de sucesso da época: “que alguém oferece a alguém como prova de muito amor e carinho.”

P/1 – Durante o footing.

R – É. E ali ficava o pessoal. Tinha as barraquinhas e o cara ficava lá ________: “E agora com Carlos Gonzaga: Diana, porque Fulano oferece para a moça de blusa amarela que está sentada no lugar tal, ou está em pé, passando.” Era aquela coisa, o cara se identificava pela roupa, e também anunciava, os caras: “Êeee”, a rapaziada encarnava. Bom, esse Satirinho apareceu na barraquinha um dia, com um paletó bonito, sabe? Com um paletó creme, e na época começou dar rachadinha no paletó. Aí começaram a dar chute na bunda do Satirinho (risos) dar cascudo nele, ele saiu correndo, eu me lembro que eu fui o cara que pegou o paletó (risos) e “rrrrrrrr”, abriu até na cabeça aqui, até na nuca. (risos) O rasgo do..., sabe?

P/2 – (risos)

R – E me lembro também que eu pegando um ônibus de – essa era a coisa da rivalidade – pegando um ônibus em Santa Teresa, lá na Floresta, a hora que eu fui entrando no ônibus eu tomei um pombo sem asa no pé do ouvido quando, (risos) mas com força mesmo. Quando eu olhei, que a hora que eu olhei para trás, era um tal de Roninho, que ele jogava no juvenil do América. Esse Roninho depois foi jogar futebol em Santa Teresa, aí teve a forra, né? Eu falei: “Olha, eu não esqueci daquele pombo sem asa.” ‘Que é isso, eu?” Eu falei: “É você mesmo. E agora você está no meu domínio amigo, se segura que tem.”  Então tinha essa rivalidade, né? Que nós não, ninguém matou ninguém nem, mas tinha sempre uma porradinha, etc e tal.

P/1 – Ô, Marilton, e assim, a casa da família? Descreve como que era o cotidiano ainda dessa sua infância para adolescência, seria?

R – É, na verdade, é assim a gente, eu aos dezoito anos, mamãe tinha a escolinha lá, quando ela ampliou a escola ela precisou da casa inteira. Então nós fomos para o Edifício Levy. Mas ali, enquanto a gente ficou ali, eu me lembro, por exemplo, que eu tinha, eu pegava as garrafas vazias e enchia com água. Tinha um murinho baixo na porta, nossa porta, e graduava as garrafas vazias cada uma emitia uma nota musical, “tan, tan, tan” fazia uma escala. E ali eu ficava na porta tocando as garrafinhas, o povo parava: “Ó, que menino bonitinho, que danado, que menino talentoso.” E eu ficava tocando aquilo ali, aquela garrafinha, então foi assim, fora o violão do tio João – que me ensinou a tocar violão, ele me deu um cavaquinho e depois um violão – foi o primeiro contato meu com música. Na verdade era o seguinte: havia uma diferença de gerações, era eu, o Marcinho, Sandra, talvez os três mais velhos, depois vinha os do meio, né, que era a Sônia, a Sheila, o Lé, o Lô, e os mais novos, que era a Solange para baixo, Solange, Sueli, o Nico e o Téo. Então assim, havia uma divisão de gerações, na verdade era as três meninas, os dois atentados, que era eu e Marcinho, os do meio que era o Lô e o Lé, mas isso em Santa Teresa ainda, porque depois aí já pegaram a adolescência do Levy, já pegamos a adolescência dessa meninada.

P/1 – É.

R – Mas os do meio, que era o Lô, o Lé, e os mais novos. Então a gente jogou muito bente altas na rua, sabe? Tinha um maluco lá, um tal de Papinha que era o maluco assim, depois se reformou, hoje é um cabo reformado da Polícia, mas ele era um maluco, no sentido, o de paralepípedo – a gente jogando bente altas – ele fazia bente altas de bicicleta no paralepípedo. Ele jogava para cima, se jogava e caía de costas no paralepípedo para fazer um ponto de bente altas, né? Então isso é uma loucura. Então a gente tinha muito, muito, muito, a brincadeira do nêgo fugido – que eu acho que era uma brincadeira que vem lá da época dos escravos: “Nêgo fugido pego!” Aí você gritava lá de... mas o nêgo fugido que a gente brincava, assim quer dizer, uma turma ia capturar os nêgo fugido. Mas o nêgo fugido, o cara ia para o outro bairro. (risos) E a gente saía aquela patrulha para capturar os nêgo fugido, ou você era o nêgo fugido, você ia esconder o mais longe possível. Porque se pegava o nêgo fugido era cascudo, etc e tal.

P/1 – (risos)

R – Então você não queria ser pego pela turma. Era uma brincadeira, tinha a brincadeira do pau-de-bosta também, que era (risos), o pau-de-bosta era maravilhosa. Pau-de-bosta é o seguinte: você pegava o cocô de cachorro, etc e tal, e botava em um pedaço de pau. Aí dois companheiros fingindo que estava brigando, sabe? “Eu vou brigar com você!” “Não, que eu vou te dar porrada!” Aquele negócio sério. Aí vinha o bobo, vinha o incauto chegando, né? Com o pau sujo, entendeu? (risos) “Você briga comigo!” Daqui a pouco, que você está com o pau na mão.” “Eu não, vou tirar, segura para mim!” Segurava para o cara, o cara repuxava... (risos) 

P/1 – (risos)

R – Essa é a brincadeira do pau-de-bosta. É coisa de infância, né? A outra brincadeira que tinha de mais era o... (falha na gravação) como é que fala? ______ era assim, o cara vinha, você pendurava, assim, botava um, de noite, você botava uma linha preta e botava, enchia de detrito uma lata de 20 quilos, sabe? Então ela ficava assim, o cara vinha com a namorada, aquele todo limpinho (risos), todo de branquinho, a hora que esbarrava, descia aquilo tudo nos dois, né, a meninada caía no cerrado dando risada, quer dizer, todo mundo achava muito engraçado. Quer dizer, eram brincadeiras da nossa infância.

P/1 – E a dona Maricota não ficava brava não?

R – Nossa senhora, a Maricota sofreu demais, né? Que isso, era eu e Marcinho pilotando essa sacanagem toda, (risos) então, era loucura. Aquela época, mamãe ficava doida, então quer dizer, a gente ficava jogando bola, jogando pelada lá em cima onde a Rua Divinópolis ela fica mais ou menos plana, que é no alto dela, no princípio dela, é, no princípio dela, aí subia as três: Sonia, Sandra e Sandra: (imita) “Marilton e Márcio, mamãe está chamando.” (risos) E descia correndo, porque descia os dois atrás de porrada, para dar porrada. (risos)

P/1 – (risos)

R – Uma outra também que...

P/1 – Vocês tinham vergonha? O que é que era?

R – A gente ficava puto porque elas vinham chamar a gente para cortar a gente, porque elas vinham, falavam em coro, acho que até contavam: “Um, dois, três: Marilton e Márcio, mamãe está chamando.” (risos) 

P/1 – Você queria morrer.

R – A outra também que eu estava com o pano de chão na mão e fui jogar na Sandra, né? A hora que a Sandra, a Sandra foi, saiu fora, que eu joguei, ela saiu na porta assim, era mamãe que estava chegando. Mamãe tomou aquela pancada de chão na cara. (risos) “Ô menino sem vergonha, safado, filha da mãe.” (risos) Mamãe batia muito, papai nunca bateu, papai sempre aquela, isso que ele é hoje velhinho aos 88 [anos], ele era com 40, com 50, aquela paz. Tanto que assim, eu acho, eu fui muito explosivo na minha juventude, mas com a, você vai ficando mais maduro, você vai ficando mais pacato. Então assim, a diferença é isso, que meu pai foi a vida inteira isso, eu hoje sou muito meu pai, eu pareço, as pessoas acham que eu pareço muito com meu pai no aspecto de temperamento, sabe? Bonachão, sempre levando as coisas numa boa.

P/1 – Hum, hum. Ô Marilton, por que é que ele exigia tanto da língua portuguesa? Parece que isso é uma característica muito forte dele, né? 

R – É, porque o papai sempre foi, papai é um autodidata. Ele fez até o segundo ano do ginásio se tanto, acho que ele não fez o ginásio, ele é um autodidata, mas ele foi considerado, foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais. Ele foi considerado um dos maiores, melhores editorialistas do Estado de Minas, o texto assim portentoso, ele tinha um texto maravilhoso, então eu acho que ele tinha essa, ele sempre teve esse apego com a língua portuguesa. Até hoje a gente vê, porque a gente fala e nem sempre a gente fala, a gente comete uns errinhos de concordância, etc e tal, ele corrige na hora: “Opa, fala direito, cara.” 

P/1 – Até hoje?

R – Até hoje. Hoje nem tanto, porque hoje ele está assim, aos 88, ele já está mais, quer dizer, a inteligência está a mil, mas hoje ele está mais tropegozinho, etc e tal, mas absolutamente inteligente. Isso ele não cobra mais não, mas até há pouco tempo atrás ele cobrava e eu acho que é por isso mesmo, é por ter sido um autodidata, por ter sido um cara que lutou tanto, né?

P/1 – É. E, Marilton, eu queria que você falasse um pouquinho do tio João. Como é que você começou com essa convivência mais próxima dele e aprendeu a tocar violão com ele?

R – É, o tio João ele era um cara assim, ele é um cara até hoje, um cara bonachão. O cara mais engraçado da família, era muito engraçado. Ele, engraçado que hoje a gente vê o tio João mais nos enterros. Eu vejo ele muito pouco, quando morre alguém, quando morreu minha avó, por exemplo, minha mãe chegou lá chorando, etc e tal, ele chegou perto de mim e falou assim: “Sua mãe está comportada, eu pensei que ela ia dar muito mais escândalo que ela está dando.” (risos) 

P/1 – (risos)

R – Sabe, ele, o enterro dos irmãos dele que morreram, ele ia com a minha avó, minha avó dava gargalhada em enterro, que você via assim era o tio João fazendo palhaçada, aquilo é um palhaço mesmo, é um cara engraçadíssimo, tio João é isso, é um cara muito musical, tocava violão bem. Eu me lembro que a gente, grande jogador de dama, depois jogava botão com a gente, ele era aquele cara que fazia o, se transportava à infância e ficava com os sobrinhos como se fosse um menino, tá, ele, quando ele ia jogar botão com a gente, ele ganhava sempre, né? Ele: “Palmas para o campeão, chegou o campeão!” (risos) Só para sacanear, “Palmas para o campeão.” Dama também, jogando dama. Então um cara, assim, muito alegre, muito... E o tio João foi, a gente tocava junto. Eu me lembro ele tocando: (canta) “Criança feliz, feliz a cantar...”, né, com harmonia bonitinho, do jeito que é e ele foi minha primeira grande influência musical, foi o tio João, depois foi a Vivina, que era por parte de pai, era prima, ela era formada no Conservatório, a Vivina, comecei a aprender piano com ela, não agüentei, porque eu fiquei ali uns dois, três meses, mas eu não tive saco para as valsinhas, e aquele aprendizado formal de..., né?

P/1 – De piano.

R – De música. Mas essas, então, foram as duas pessoas que me influenciaram assim em princípio em música, né? E depois, aí, mas depois eu virava influência dos meninos. (falha na gravação) ...com esse negócio de eu gostar muito de música, tocar em garrafinha, e tocar violão com o tio João etc, daqui a pouco vem o Lô. Eu me lembro que o próprio Marcinho, o quarto dos homens, o Marcinho, ele tinha uma malinha pequenininha onde ele escrevia os textos dele. Então, um dia, eu falei para o papai, eu lia escondido os textos do Marcinho, porque ele tinha pavor de que alguém pegasse na malinha dele, xingava, tinha altos segredos, segredo de Estado, um dia eu falei para o meu pai: “Pai, de vez em quando, você dá uma olhada naquela malinha ali, que tem cada coisa boa ali que você não vai acreditar.” “É mesmo?” Eu disse: “É.” Então, de uma certa forma, a gente começou a incentivar o Marcinho a escrever e a ter o texto bonito que o Marcinho tem até hoje, né?

P/2 – Sem dúvida. 

P/1 – Marilton, você aprendeu a tocar com o tio João e aí? Como é que começa essa tua carreira voltada para a música?

R – É, na verdade eu trabalhava, aí já ia para o Levy, eu trabalhava, eu comecei a trabalhar muito novo, com 14 anos eu era, hoje é office-boy, na época era contínuo da Belgo-Mineira, eu era contínuo...

P/1 – Da Belgo?

R - Servia café na Belgo-Mineira. Servia café, etc e tal, quer dizer, para as pessoas formais isso era um empregão, para mim, isso é merda, era a mesma coisa, (riso) sabe? Não me ligava nisso não. Então com catorze anos, outro dia eu me emocionei que eu estou contando, vendo se eu consigo me aposentar, fui pegar um documento da Belgo-Mineira, tem lá: aprendiz, aquela carinha de fuinha, que eu era muito magrinho, que a cara de fuinha é aquela cara de menino bobo, eu estava com quinze, catorze anos. Então trabalhei lá, depois trabalhei junto com o Marcinho, nós fomos estafetas dos Correios, entregamos telegramas dos Correios.

P/2 – Tinha aquele uniforme?

R – É, aquele uniforme, ou seja... Aí aquelas brigas de Santa Teresa, passava um aperto danado porque você tinha que passar em território inimigo...(risos) 

P/2 – (risos)

R - ...para entregar as...

P/2 – (risos) De uniforme.

R – É, de uniforme e tudo, os caras, além da “gozeira”, né, os caras queriam te pegar de porrada. (risos) era duro, então tinha que entregar telegrama na Floresta, no Horto, puxa, era uma loucura.

P/1 – A maior rivalidade era Santa Teresa e Floresta?

R – Santa Teresa, Floresta e o Horto.

P/1 – E o Horto, eram grandes rivais?

R – Grandes rivais. Mas, a gente estava falando sobre Santa Teresa, né? Na, sobre...

P/2 – Seus empregos.

P/1 – Sobre como você começou a trabalhar...

R – A trabalhar.

P/1 - ...com música.

R – Ah, com música. Bom, aí, eu gostava mas assim, eu nunca tive um aprendizado formal de violão não, tanto que eu afinava o violão com a afinação do cavaquinho e dava dois bordões em cima, quer dizer, as quatro cordas debaixo do violão, eu afinava com a afinação do cavaquinho e eu tocava do meu jeito, o violão, que depois virou moda, algumas pessoas que tocam violão cada, os compositores hoje, o próprio Lô. Cada um tem uma afinação diferente para tocar uma música, certa música, às vezes, os caras botam em cima do palco trezentos violões, cada um com uma afinação diferente para adquirir a sonoridade que ele quer, o Bituca mesmo, o Bituca não, o Bituca é um dos poucos caras que usa uma afinação só, né, mas o Bituca ele é um, ele e o Toninho Horta são ases da corda solta, certo? Que é um negócio assim que pouca gente se liga, é  a corda solta no violão, ela dá uma sonoridade, ela conjugada com uma, ou duas, ou três apertadas dá uma sonoridade absolutamente diferente, sabe, a corda solta. Bituca, eu não conheço ninguém como o Bituca e Toninho Horta para fazer isso, aquela coisa na corda solta, eles fazem isso muito bem, sem alterar uma nota do violão, então tinha essa afinação diferente. Então mudamos para o Levy e eu começava a tocar muito nas escadarias do Levy, que eu descobri a, eu mudando daquela cidade do interior para o centro da cidade, pujante, naquela época o negócio assim, era chique você morar no centro de Belo Horizonte, sabe?

P/1 – (risos) 

R – Não é essa degradação que está hoje. Era chique, lá nos anos 1970, era chique morar no centro. As famílias de classe média mais abastada moravam ou em Lourdes ou no Centro, os funcionários assim. O Centro era quase que, tanto que hoje a regional da Prefeitura que trata das coisas, trata Regional Centro-Sul, até hoje. Por quê? Porque o Centro era agregado à Zona Sul e eu descobri, saindo do bairro, eu descobri que as escadarias de um prédio, não tem acústica melhor do que a escadaria de prédio para você tocar alguma coisa, tocar um violão principalmente. Então um dia eu estou tocando um violão...

P/2 – Na escada.

R - ...na escada, aí “prim”, aí respondeu outro violão – nós moramos no 17 º andar – “prim”, aí “prim” lá em baixo. Eu falei: “Uai.” “Prim, prim”, eu “Prim, prim”, sabe? Eu fui descendo. Aí encontrei com um pretinho magrelo, esquisito, feio para danar. (riso)

P/2 – (risos) 

R – Bituca, foi assim que eu e Bituca nos conhecemos. Aí eu conheço Bituca, foi aquela aproximação mágica através da música, começamos a tocar, começamos: ”Você conhece essa aqui? Você conhece essa aqui? Pá.” “Não, mas esse violão seu está muito desafinado.” Ele tocava o violão todo desafinado, sabe?

P/2 – (risos) 

R – “Não, essa nota não está boa não.” Sabe aí começamos a trocar idéia. Eu disse: “Ah, deixa eu afinar esse violão para você, me dá aqui.” E começamos a tocar sucessos. Tinha umas músicas italianas, eu me lembro do Nico Fidenco, que era um artista do: (canta) “Te voi ato lá, lá, lá, rá, rá...” Que o Bituca fazia isso de uma forma maravilhosa, sabe? Lá, rá, lá... como é que era? “Legata a un granello di sabbia.” Que o Bituca fazia isso com uma perfeição fantástica e ele vindo de Três Pontas o Bituca já tinha uma experiência profissional lá com Os W’s Boys, ele fazia baile.

P/2 – Em Três Pontas.

R – É. Ele não gosta que fale não, mas o Bituca é mais velho que eu, um ano. 

P/1 – (risos) 

R – É. Ele fala que eu sou o mais velho dos Borges, o mais velho dos Borges é ele, um ano e tal e fumacinha. Ele fala: “O mais velho é o Marilton.” mas eu não passo aquela graxa de sapato que ele passa na cabeça, por  isso que minha está branca e a dele não. (risos) Brincadeira, né, Bituca. Mas, então o Bituca, na época, o Bituca eu tive essa impressão, né, que eu vou assim lá atrás: “Epa, esse cara, eu estou conhecendo um gênio, bicho. Estou conhecendo um gênio, porque esse cara ele canta para caramba e toca para caramba.” Ele já com essa coisa das cordas soltas que eu estou falando, que é isso é uma coisa assim que não tem como você plagiar ou copiar, porque não tem como. É ele, o Toninho e fim. Aí depois vem o (Pat Matlin?), vem esses caras que tentam, né, dar aquele chupão, mas não é a mesma coisa. O cara é bom, o (Pat Matlin?) é genial, é ótimo. Mas o Toninho é o Toninho, né? (risos) Sem ser bairrista, sendo bairrista para caramba.

P/1 – (risos) 

R – (risos) Espera aí, né? Então foi isso. Aí eu comecei, eu fui falei com o Bituca. Eu falei: “Bituca, deixa eu falar um negócio para você – isso aí depois de um mês etc e tal, eu falei – ó, em casa tem uma galera lá que gosta de música tua.” Nós fomos, aí o Bituca, que ele comia a comida da Pensão da Benvinda que era horrorosa, ele morava na Pensão da Benvinda e a comida era da pior qualidade. Ele começou a ‘filar bóia’ lá em casa. Ele ficava no quarto andar, morava no quarto andar mas ficava no 17º. Tinha o Marcelo Ferrari que até era um outro cara também, sabe, que tocava violão, gostava muito.

P/1 – Morava no Levy, também?

R – Levy também. A gente começou a tocar junto e almoçar, hora na casa do Marcelo, outra hora lá em casa. Aí ele já conheceu o Marcinho, sabe?

P/2 – E o Wagner era de lá também?

R – O Wagner chegou, era...

P/2 – Chegou depois.

R - ...mas chegou um pouco depois. Aí quando o Wagner chegou ele falou: “Olha, está chegando o Wagner.” Que era primo de um pessoal que morava, que é o Joãozinho do sax, _____  e o Gileno Tiso Veiga, que é irmão do Wagner. O Gileno e o, já moravam. O Gileno já tocava em conjuntos de baile, Gileno é dentista, e um grande pianista, o irmão do Wagner. Grande tudo, né? Que toca trompete também muito bem, contrabaixo bem, ele é danado.

P/1 – Mas até então você não tocava profissionalmente?

R – Bom, é aí que vem o negócio. Aí o Bituca foi contratado por uma banda chamada Conjunto Holiday. Conjunto Holiday, para fazer, ia ali no Banco Mineiro da Produção que ficava na Praça Sete ali em Santa Teresa, ele foi fazer uma hora dançante e me levou para fazer no Conjunto Holiday, ele falou: “Marilton, vou falar para você me dar uma  canja lá e cantar.” Eu falei: “Canja? O que é que é isso?” “Não, você canta alguma coisa.” Eu quase morri de vergonha, minha bunda quase caiu no chão de vergonha. “Meu Deus do céu, vou cantar para esse povo todo me vendo? Que é isso Bituca?” Então aí eu senti o primeiro gosto de um palco através do Bituca, eu comecei a, e por influência do Bituca também a gente começou a freqüentar os ambientes musicais de Belo Horizonte, tinha a Churrascaria Palácio, onde o Elvis Vilela, o Aércio Flávio, Valtinho, grandes feras de Belo Horizonte tocavam lá, na Churrascaria Palácio, então a gente ia para lá ver. Um dia o Nazário Cordeiro, que tocava na Churrascaria Palácio, não pode ir, falou: “Marilton, me substitua.”, eu quase morri de vergonha. “Mas substituir você?”, ele falou:“Ah, pega um violão seu.”, eu substituí ele, eu não tinha repertório, não tinha nada. Nessa altura, o Bituca já estava fazendo os bailes com essa banda, como é que chama? Holiday, Conjunto Holiday, o Lancaster, aí tinha a turma do Conjunto Lancaster, que tinha um, olha, para você ver, Lancaster era um desodorante, ou um perfume que tinha na época e a gente falava que era o conjunto mais cheiroso de Belo Horizonte, né? (risos) O Lancaster. Aí esse pessoal do Lancaster estava lá e me chamou: “Ah, você não quer cantar com a gente, não?” Aí começou a minha carreira musical aí, a profissional, eu fui ganhar o meu primeiro dinheirinho, ao mesmo tempo que a gente estava fazendo um quarteto musical chamado Quarteto Evolusamba, que era, aí o Wagner tinha chegado em Belo Horizonte, foi para o Conjunto Holiday, aí ficou Wagner, Bituca, Marcelo e eu, fizemos o Quarteto Evolusamba, o quarteto musical assim em cima daquela onda d’Os Cariocas. 

P/1 – Voltando só um pouquinho para esse começo, né?

R – Hum, hum.

P/1 – Duas perguntas: que tipo de música vocês tocavam, e o que é que você fez com seus primeiros salários assim, você lembra?

R – Bebi tudo, certamente. Bebia muito. Eu estava...(risos) Meu pai nunca precisou de mim graças a Deus, então, certamente que eu bebi tudo ou comprei roupa, não tem outra, porque eu não tinha um passarinho para tratar, né?

P/1 – (risos)

R – (risos) Eu bebi tudo mesmo. Então esse Quarteto Evolusamba, a gente fez poucas apresentações na televisão etc e tal, era um negócio muito bom, mas aí o Wagner já tinha a idéia de ir embora, o Bituca também, de sair fora de Belo Horizonte. E eu pensei em sair, eu tentei até sair também, sabe? Mas eu tenho uma ligação muito forte com Belo Horizonte, com Santa Teresa especial, ou seja, eu tentei morar no Rio, morei algumas vezes, até me dei bem profissionalmente mas – Rio e São Paulo – mas meu negócio é aqui essa fazenda iluminada aqui mesmo.

P/2 – Você só cantava, Marilton?

R – Só cantava. E o piano, que hoje eu trabalho como tecladista, como pi...

P/2 – É, eu sei.

R – Mas fui tocar piano muitos anos depois, lá no final dos anos 70, porque tinha o piano da Maricota, de repente a minha ligação com o piano já foi mais na, eu tocava mais ou menos em casa. Um dia o pianista da banda que eu trabalhava não foi, e eu estava de olho naquele couvert, (risos) porque eu precisava daquele couvert, está entendendo? Ele não foi e não tinha ninguém, aí o dono da casa falou – e a casa lotada, eu era o crooner da banda – aí o cara falou: “Marilton, eu já vi você brincando aí no piano. Senta aí, engana aí. Manda aí, eu preciso de música na casa.” Eu sentei – isso são os anos 1970, são trinta e tantos anos – sentei e não levantei mais do piano.

P/2 – Mas no violão então você não investiu, né? 

 R – Não, no violão eu não investi. Eu me lembro que teve uma época, quer dizer, a influência do Bituca foi o seguinte: esse negócio de tocar com a mão que ele tem também, né, tocar com a, meio com a mão fechada eu tinha também, então tem um antigo radialista de Belo Horizonte chamado  Assad Almeida, que nós fomos na Rádio Inconfidência mostra o quarteto para ele, né, mas na realidade fomos eu, não foi o quarteto, o Wagner não foi não. Tem uma história boa também do Wagner, não me esqueço, eu e o Wagner estudando madureza, que na época era madureza, agora está tudo com outro nome, como é que chama, é?

P/2 – Supletivo?

R – Eu estou pisando no microfone aqui. 

 

[pausa]

 

P/1 – Você ia contar a história do Wagner Tiso.

R – Isso, do Wagner. É que o Wagner houve um momento lá que a gente ficou na dúvida se a gente ia conseguir alguma coisa com a música mesmo ou não, então nós começamos, mesmo tocando na noite, o Wagner tocava, a gente nunca tocou muito na noite juntos não, a gente sempre foi só no Evolusamba, foi nossa experiência juntos, mas continuamos muito amigos, somos amigos até hoje, então ele falou: “Vamos estudar?” Tinha um curso chamado Curso Mário de Oliveira, na Rua Tamoios no Centro de Belo Horizonte. E nós fomos para o Curso Mário de Oliveira fazer na época, hoje é supletivo, na época era madureza. Vamos fazer o madureza de Científico, né, ou Clássico, sei lá, e eu e o Wagner fomos juntos para a mesma, matriculamos juntos e fomos para lá, só que a gente ficava dormindo no colo, porque a gente tocava na noite e a aula era de manhã, ficava aquelas duas marmotas dormindo um no colo do outro assim. “Vocês dois aí no fundo.” “Oi.” (risos) 

P/2 – (risos)

R – “Sim senhor.” De tarde era os ensaios, então não prosperou, a gente ficou lá uns 2 ou 3 meses e desistimos do madureza do Mário de Oliveira. 

P/1 – Ô, Marilton, e onde vocês ensaiavam?

R – Basicamente nas casas, né, e os vizinhos reclamavam muito, nas casas dos responsáveis pelos conjuntos. Ensaiava assim muito, na verdade, ensaiava-se  muito vocal, essas coisas, mas porque os instrumentos em geral, você ia para o pau lá na hora de tocar, usava-se muito pouco ensaio, ensaiava mais assim, harmonia, acompanhamento da música etc e tal. Os bateristas não participavam mas, às vezes, a gente fazia bateria e tudo na casa da gente mesmo, era a maior loucura. Aquela zoada que ____ ficava doido, mas era assim, em casa mesmo que a gente ensaiava.

P/1 – E os vizinhos do Levy ali?

R – Nossa senhora, os vizinhos morriam de ódio, porque era aquela zoada o tempo todo. Se bem que a gente morava no último andar também não, sabe? Tinha umas festas que eles davam também, que todo mundo... Eu acho que a coisa era mais educada naquela época, sabe, as pessoas tinham uma convivência melhor, as pessoas eram mais, permitiam mais, deixar os Fulanos ensaiar. E na hora que eu quiser dar a minha festa aqui na minha casa também, ele vai ter que segurar a onda e é o que a gente fazia, não tinha muito grilo não. Depois os bares, quando a gente começou a tocar em bares, a gente começou a ensaiar nos próprios bares, né? Quando a gente começou a tocar em bar, essa coisa toda, a gente ensaiava lá no local de trabalho mesmo.

P/1 – E lá na sua casa, né? Tinha o quarto dos meninos, o quarto das meninas e assim, vocês transitando, ensaiando. Como é que...

R – É, o quarto dos homens, né?

P/1 – É.

R – O quarto dos homens tem uma história interessante, do quarto dos homens. Eu namorava uma moça chamada Eliane lá em Santa Teresa. Aí na casa da Eliane, um belo domingo que eu fui na casa da Eliane e passei o domingo lá com o pessoal dela, conheci um primo dela que tinha problema de nanismo, era desse tamanhinho, é o Nelson Ned, Nelsinho. “É o Nelsinho meu primo. Você conhece o Nelsinho.” Mamãe morria de medo de eu casar com o Nelsinho, de eu casar com a Eliane e meus filhos ficar igual o Nelsinho. (risos) Mamãe, tia Maricota, ela morria de medo, mas aí o Nelsinho foi... Tá rindo, é isso mesmo, eu estou falando sério. (risos) Aí o Nelsinho falou: “Viu, eu estou tocando violão, etc e tal.” Pá, cantou comigo. Eu falei: “E lá em casa nós somos onze e todo mundo toca violão e canta, é uma farra danada.” “Eu quero conhecer seus irmãos todos.” Eu falei: “Uai, vamos sim.” “Mas é hoje que eu quero.” Eu falei: “Não, hoje não dá. Hoje é domingo já, são nove horas da noite, dez horas. Eu estou indo embora para casa.” “Não, eu durmo lá.”, ele é muito saído. Eu falei: “Então, se o seu pai deixar, se sua mãe deixar.” Ele é um pouco mais novo que eu, o Nelson Ned, pouca coisa, eu estou com sessenta, ele deve estar com uns cinquenta e poucos agora, é isso mesmo, mas naquela época era muita diferença, eu já era um rapaz e ele era um menino, então eles deixaram. “Não, pode ir. Para sua casa pode ir, imagina.” Então lá vai eu, o Nelsinho comigo, lá vamos nós. (risos) Maldade. (risos) 

P/1, P/2 – (risos) 

R – Aí vamos embora, eu levei o Nelsinho. (risos)

P/1 – (risos)

R – Mão dada, aí levei o Nelsinho para casa, chegamos. Aí chegamos em casa, todo mundo dormindo, porque dormia-se cedo naquela época, onze horas todo mundo dormindo, eu levei o Nelsinho para o quarto dos homens. O Lô, os meninos, o Lé, que era, tinha o quarto dos homem, era assim, o quarto dos homem era o nosso quarto, foram dois beliches, Lô, Lé, Marcinho e eu, eram dois beliches, com o pessoal mais velho dormindo em baixo, para os meninos dormir em cima. (risos) Porque a gente chegava bochechado de noite, como é que a gente ia subir para cima do beliche? Ia cair em cima dos outros. Então, na parte de baixo eu em um, o Marcinho no outro. Em cima, Lô em um canto e o Lé no outro. O Nico e o Telo já dormiam no quarto das crianças, que era um outro quarto para os menores e o quarto das meninas. Bom, estou lá eu, aí eu botei o Nelsinho, os meninos dormindo. Eu cheguei na cama, o Nelsinho tipo valete de copas, né? Um para cima, outro para baixo, Nelsinho lá e eu aqui, ele de cueca, deitamos. (sussurra) Tudo escuro pá, deitamos, fecha o pano. Abre o pano no outro dia, o papai chamando os meninos para ir para a aula. (risos), ele abre a porta: “Ô, gente.” A hora que ele olhou...

P/2 – (risos) 

R - ...voltou o Salomão para trás. Chegou lá: “Maria, o Marilton teve um trem feio essa noite.” (risos) 

P/1 – (risos) 

R – “Tem um trem feio lá que eu não sei o que é. Ele teve um parto esquisito.” (risos) Mamãe: “Eu não sabia nem que ele estava grávido!” (risos) 

P/1 – (risos) 

R – Aí o Nelsinho, aí foi aquela farra. E depois eu fui revê-lo, eu  nunca mais vi o Nelson Ned. Fui revê-lo já nome, cara de sucesso no exterior, etc e tal, eu tocando na noite do Rio de Janeiro lá para os 1978, 1979, tocando na noite do Rio, aí entra o Nelson Ned com segurança, com todo o aparato, né, da grande estrela internacional, ele ficou lá na mesa dele, cheio de puxa-saco, eu estou tocando piano na noite com a minha banda. Aí de repente cheguei perto dele: “Você sabe que já dormiu na minha cama?” “Que é que é isso?  Eu não sou viado não rapaz. O que é que há rapaz? Você está pensando o quê?” Eu falei: “Eu sou aquele lá de Belo Horizonte que era namorado da Eliane, que você foi lá para casa. Borges, Marilton.” Ele começou a chorar copiosamente, mas começou a chorar, me abraçou, chorou, chorou, chorou. Porque nessa época ele estava com problema com droga, etc e tal. Então qualquer coisa que remetesse à infância dele batia forte nele, sabe? Aí botamos ele, aí vai eu com o Nelsinho de novo de mão dada, botei no banquinho. Ele cantou a noite inteira comigo lá. 

P/1 – (risos) 

R – Foi a maior farra isso. Aí já a grande estrela, ele a grande estrela, aí cantou aquelas coisas todas, queria que eu fosse para a banda dele, agradeci. “Nelsinho, não é bem minha onda não.” Foi um barato essa, essas duas passagens minhas com, Nelson Ned na minha vida, né?

P/1 – Tem algum outro causo assim da noite?

R – Aquele causo que eu estava querendo, não é da noite, mas assim do Marku Ribas ________. Tem uns causos engraçado que eu vou lembrar ao longo, aí eu vou lembrando.

P/1 – Hum, hum. Vai contando.

R – Que nós falamos aqui que tinha um problema no estéreo aqui, né? A hora que a gente estava, a gente interrompeu um pouco aqui para olhar o estéreo, então eu me lembrei do caso do Marku Ribas. Que o Marku Ribas foi tocar em uma cidade do interior aí, interiorzão brabo mesmo e chegou lá, mandou uma tora desse tamanho. (risos) Chegou doidão, né, falou assim: “Você tem – sabe assim, uma cidade do interior aí – você tem jazzchorus aí?” Porque jazzchorus é aquele aparelho para guitarra, você achar um jazzchorus em um interior dos bravo... “Você tem jazzchorus aí?” O cara tinha, o cara do som lá. “Tem.” “Me dá dois. (risos) Meu violão é estéreo.” (risos) Que ele queria apertar o cara. “Dois eu não tenho não, bicho, aí é...” 

P/1 – (risos) 

R – (risos) O músico quando fica doidão e quer subir no banquinho sobe mesmo. Isso é uma coisa engraçada, que eu não preciso ficar doidão não, isso é um troço que eu tenho comprovado ao longo dessa minha vida, porque na verdade assim, apesar de não ter gravado nem um, eu transitei, ganhei um festival internacional com a Maria Alcina cantando Fio Maravilha, eu estava junto com ela no palco. A gente transitou nas paradas de sucesso, nos lugares de sucesso e o que eu fico, às vezes, triste é que o sucesso, o sucesso balança as pessoas, o sujeito, ele perde o jeito de ser, perde a essência, ele fica tão cercado por uma entourage, por puxa sacos que, ao invés de ser ele mesmo, ele vira uma entidade, vira uma outra coisa. Então é triste isso, porque é bacana o sucesso de um amigo, um cidadão que você viu começando, virar uma grande estrela, isso é bacana, eu acho, a gente fica orgulhoso. O Bituca quando ganhou o Festival Internacional da Canção com Travessia, não ganhou, ele tirou segundo lugar com Travessia, né, mas que ele, eu vi a capa da Manchete, que era uma revista de sucesso na época, o Bituca na capa da Manchete com a Kim Novak, que era, nossa, né? Eu e Bituca, a gente falava babando da Kim Novak, né? De repente, o Bituca está na capa de uma revista com a Kim Novak, aquilo, quer dizer, não era o Bituca que estava na capa, era eu.

P/2 – É.

R – Você entende? Mas assim, o Bituca ele mantém, apesar da entourage, o Bituca mantém esses valores e não é porque é o Bituca, porque é meu amigo não, ele mantém isso. A gente tem muito pouco contato, a gente se vê muito pouco, mas sempre que a gente se vê é uma festa, é uma grande festa, então é isso. Mas tem alguns amigos nossos que não, o sujeito, ele fica preocupado com o próprio umbigo, ele acha que ele é o centro do universo, e não é, ele é aquele mesmo substrato de merda que nós todos somos no universo, né?

P/1 – (risos) 

R – E naquela mesma coisinha, só que ele conseguiu um brilho. Tem alguns companheiros nossos que não sabem disso, que não, não, ficam muito importantes, né? Quer dizer, na brincadeira essa história do Marku Ribas é um pouco isso, sabe? O sujeito chega no interior: “Ó, me dá dois.”

P/1 – Cheguei.

R – Quer dizer, dois o quê? Dois jazzchorus? Se tiver um, bota a mão para o céu, né? Então é isso.

P/1 – Jóia. Marilton, agora você começou a falar de festivais, né?

R – Sim.

P/1 – Em Belo Horizonte, você chegou a participar de algum festival?

R – Sim, eu ganhei. Inclusive assim, eu cantava muito bem, modéstia à parte, eu cantava muito bem. Hoje eu não canto mais, porque o cigarro devastou minha voz. Depois o negócio de mexer em rádio também você começa a puxar, porque a gente já tem a voz meio aguda e tal, no rádio eu comecei a puxar minha voz para o grave, foi o erro, porque de repente você vai acabando com os seus agudos, a extensão vocal ela diminui, com a idade ela também já diminui. Hoje o Lô canta um tom e meio abaixo, o Bituca também canta alguns tons abaixo, porque é normal, com a idade você vai, a sua extensão vai diminuindo. Mas então eu ganhei um festival, foi, inclusive tinha a moça que, a Lady Francisco que foi uma grande atriz do, na época ela era apresentadora da TV Bandeirantes. Hoje Bandeirantes, na época era aquela TV Vila Rica. O festival teve o Lô e o Beto, cantaram Equatorial, eu cantei com o Wagner, Aldeia do Tavinho. Eu perdi de melhor intérprete por pouquinho para o Eduardo Conde, aquele ator da Globo, que ele é um grande cantor, eu perdi por pouco. Eu fui de pau a pau com ele como melhor intérprete, ele ganhou o melhor intérprete e eu cantei muito bem com o Wagner, Aldeia. E cantei o que mais? Eu cantei uma outra... Clube da Esquina 1.

P/2 – Clube da Esquina.

R – Clube da Esquina 1. A primeira pessoa que cantou ela assim em algum lugar fui eu. 

P/1 – Primeiro foi em Belo Horizonte e depois foi para o Rio? Como é que foi isso?

R – É porque a música ainda não tinha sido gravada. Clube da Esquina 1 não tinha sido gravada pelo Bituca ainda, ela ainda não tinha sido gravada não.  É porque condição sine qua non desses festivais, olha que coisa, como é que eu fui lembrar disso aqui agora? Nem lembrava mais. Fui o primeiro cara a cantar Clube da Esquina 1 para o público assim, né? Mas então foi assim, esses festivais eram um negócio sério, Vera Cruz, por exemplo, que é do Bituca e do Marcinho, essa música primorosa, linda, que já foi gravada por n bandas do mundo inteiro, ela tomou aqui em um festival aqui em Belo Horizonte com um samba de quinta categoria do Jota D’Ângelo, quinta categoria. O Jota, que é meu amigo,  que me perdoe, mas, sabe? Então assim, Belo Horizonte tem umas coisas assim que você não entende.

P/1 – Ô, Marilton...

R – Eram os festivais, mas assim, aquela coisa do festival. Chama aquela dona Fulaninha, dona Chiquinha não sei de quantas, que é vizinha da prima da mulher do secretário de Estado. A outra, chama a dona Fulana que deu aula nos anos, né, no século atrasado, nem foi no passado, porque no passado nós todos estávamos, ela deu aula para não sei quem. Então assim, são júris absolutamente desqualificados, entende, para... Eu acho que a coisa tem que ser mais técnica, eu acho que os festivais, eu sempre gostei dos festivais, sempre achei assim que tiveram a maior importância para mostrar gente nova, gente que aparecia, novas, tanto que apareceu essa safra toda, Chico Buarque, essa turma toda veio em cima de festival, Bituca, né? Mas tinha esse lado negativo que era essa distorção da qualidade das coisas através de júris absolutamente suspeitos. 

P/1 – E me fala uma coisa, como é que era assim, vocês, no fim vocês estavam concorrendo nós mesmos, os amigos...

P/2 – Os irmãos.

P/1 - ...as pessoas de Belo Horizonte, os irmãos, como é que era isso?

R – É, mas na verdade assim, mas assim, na verdade, era uma grande confraternização, não era uma concorrência. A concorrência era para quem estivesse vendo lá, no fim era aquela cachaçada danada, todo mundo ia para um restaurante, tomava todas e todo mundo se abraçava, todo mundo se beijava, todo mundo... Não tinha essa, sabe, não existia essa coisa de competir, era uma grande mostra, né? Então eu acho que funcionou como uma grande mostra, eu acho que era um barato, mas não... Aí então para o pessoal que estava concorrendo ser primeiro, segundo, terceiro, sabe? E essa Lady Francisco é aquela que ela teve um papo do, ela foi apresentar falou: “E agora terceira concorrente da noite: – e, vez de falar Equatorial, ela leu mal – Equatorial! De Lú Borges e Bete Guedes!”

P/1 – (riso) 

R – Quer dizer, ela pisou no nome da música e dos intérpretes,né?

P/1 – (risos)

R – E dos compositores. Não acertou nada, né? (riso)

P/1 – (risos) Isso entrou para a história, né?

R – Ah, acorrege a pronúncia minha filha, pelo amor de Deus. (risos) Dá seu jeito.

P/1 – (risos) Ô, Marilton, e a recepção do público para a música Clube da Esquina?

R – Foi legal, foi legal, as pessoas gostaram muito. A música foi, ela, na verdade esses festivais de Belo Horizonte eles foram diferencial de, dos grandes festivais de Rio e de São Paulo, porque lá tinha aquelas torcidas mais profissionalizadas. Porque nego “Ah, tá.”, aqui não tinha muita.

P/2- E vaia.

R – É, vaia uma, sabe? “Vamos vaiar Fulano porque ele é forte. A música dele é boa.” Aqui não tinha muito disso não, sabe? Tinha as torcidas das músicas, mas todo mundo aplaudia todo mundo, eu não me lembro de ter sido vaiado, desses poucos festivais que eu participei, eu não me lembro de ter sido vaiado.

P/2 – Você participou aqui e no Rio também, né?

R – No Rio eu participei desse do, porque eu trabalhava na noite do Rio. Aí você vê como é que são as coisas dos festivais, eu participei desse, eu trabalhava em uma casa, eu cantava em casa chamada Number One, que tinha no Rio de Janeiro, na Rua Maria Quitéria ali perto da praia em Ipanema. Nós tínhamos o Quarteto Forma, que era um quarteto que acompanhava o Osmar Milito, um grande pianista da noite do Rio de Janeiro e a gente fazia backing vocal para a Maria Alcina, que fazia o show da casa, o show do clube. Foi lá também que, por exemplo, o Sérgio Mendes viu o Paulinho da Costa tocando conosco, o Paulinho da Costa tocava, um grande percussionista e hoje o Paulinho da Costa, eu levava ele em casa, depois ele chegava: “Marilton – não é nem Marilton – Mineiro, como é que é? O homem me chamou para ir embora para os Estados Unidos.” E a mulher dele barrigudinha, grávida, magrinha. Magrelinha assim, barrigudinha. Eu me lembro disso, o maior... “Estou com a mulher grávida.” Falei: “Deixa com a sua mãe, deixa com a sua avó, deixa com a sua tia. Isso é a oportunidade da sua vida, cara, vai embora. Vai embora.” Hoje o Paulinho da Costa é um dos maiores percussionistas do mundo, grava com Madonna, com Michael Jackson, nunca mais voltou para o Brasil e hoje certamente se passar por mim, não vai me conhecer, isso aí que eu estou falando é de 30 anos atrás, mas era um cara que trabalhava conosco nessa época, fez um festival com Maria Alcina também no Fio Maravilha. Então, bom, freqüentava, freqüentavam a casa, essa casa Number One, todos os grandes nomes da cúpula da Rede Globo. Boni, Daniel Filho, os caras de crachá., dizem que a turma do crachá dourado...

P/1 – (risos)

R - ...ou cinza, não sei. Tem um crachá lá que é assim: só “nego” da, só pica grossa. Você tá entendendo? (risos)

P/1 – (risos)

R – Não tem, né? (risos) E essa turma freqüentava o Number One, e outro que freqüentava o Number One também é o Jorge Ben. Hoje Jorge Ben Jor, né, segundo os numerologistas, né? (risos) O Jorge Ben freqüentava, ele e a turma do Trio Mocotó. A turma do Trio Mocotó, por exemplo, o Nerildes, ele freqüentava a casa, ele tinha aquele negócio que cantava, depois eu trouxe para a noite cantava: “(canta) Lá no Japão, o china com o homem sentado no chão, mas quem tiver furúnculo quebra a tradição – aí ele falou – tou com o cru pegando fogo, e o toco é meu.” O Neril... (risos)

P/1 – (risos)

R – Esse Neril era uma figuraça, né, do, da noite do Rio, do Trio Mocotó. Então o Jorge Ben, o Trio Mocotó, eles trabalhavam juntos, freqüentavam. Então o Jorge Ben falou: “Eu estou com uma música, rapaz.” Falando do Fio. O Fio era um grande, o centroavante do Flamengo que fazia gol de tudo quanto é jeito, hoje é entregador de pizza nos Estados Unidos, né?

P/1 – Hum, hum. 

R – O Fio era um grande ídolo do Flamengo e o Jorge Ben, flamenguista roxo, ele falou: “Eu fiz uma música para o Fio.” E mostrou para a gente, mostrou lá na noite lá e o Boni:  “Escreve isso que isso ganha festival.” Com aquele sotaque paulista pesado, né, meu? “Porra, escreve essa porra lá.” Resultado: “Faz com o pessoal aqui da boate mesmo que fica mais, sabe? Que vocês já estão acostumado a esses...”, a gente brincava. Não deu outra, chamaram o maestro Severino Filho para dar um brilho no arranjo, que era o maestro d’Os Cariocas e fomos lá, fase nacional, uma fase que foi nacional, fomos para a fase internacional e ganhamos a parte internacional.

P/1 – Com a Maria Alcina?

R – Com a Maria Alcina.

P/1 – Aquele vozeirão.

R – Agora, você não imagina, não dá para imaginar – eu conto para as pessoas – não dá para imaginar, eu fico imaginando porque eu tenho um amigo meu que jogou no Flamengo e falou assim: “Marilton, você não sabe o que é quê é um Maracanã urrando para cima de você.” Eu falei: “Eu sei o que é que é um Maracanãzinho.”, bandeira rubro-negra de cabo a rabo. A hora que a gente, a Maria Alcina entrava: (canta imitando) Fio Maravilha, nós gos...” “Yeaaaah” aquele negócio, aquela loucura, sabe? E aí que eu via, você vê como é que são as coisas de festival onde tem Rede Globo no meio. O Boni, que tinha sugerido à gente, que era o big boss da, ele correndo a coxia assim e o pessoal: “Mais um!” Querendo que repetisse, porque não podia, era um festival, pô, tocou uma vez foi e ele: “Pode repetir que eu garanto, eu mando nessa porra aqui!” E a gente repetiu duas, três vezes o Fio Maravilha, na fase nacional e na fase internacional, teve bis. A única música em festival que teve bis, que era a música que o Boni estava torcendo.

P/2 – Costa quente.

R – Costa quente. Vamos lá e repetimos. E eu tive os meus 10 segundos, segundo (Mc Loughan?), né, dez segundos de celebridade.

P/2 – 15.

R – São 15?

P/2 – 15.

R – Eu tive os meus quinze segundos de celebridade, assinei ainda autógrafo na Praia de Ipanema e o cacete, porque (risos) durante uma semana eu fui rei da Praia de Ipanema ali.

P/2 – (risos) Aí depois desse não participou em festival mais?

R – Não, não, essa foi a última vez, porque pouco deu. Isso foi em 1970 eu acho, 1969, 1970 por aí, mas eu saí na revista porque quando a Maria Alcina ganhou o festival, aí nós saímos capa de revista de circulação nacional, etc e tal, foi uma loucura, né? Mas são boas lembranças, são boas lembranças, mas ficou esse ensinamento, festival só sendo, se aparecer algum festival só se o cara não for escorado em um, a chance é mínima. Tem a escora ou da gravadora ou da emissora. Tem a escora. Não vá achando que pelos seu belos olhos você não vai ganhar festival não, porque não vai não, xará. (risos) 

P/1 – (risos)

R – Não vai mesmo. Pode ser muito bom, muito talentoso, ter muito boa música mas não vai.

P/1 – Marilton, fala um pouquinho agora de Clube da Esquina.

R – Vamos nós.

P/1 – Que é que era? Como começou assim na sua visão, o que é que é o Clube? Como começou?

R – É. Na verdade eu acho que essa questão do Clube, que todo mundo sabe que era uma coisa meio assim pejorativa que minha mãe falava, porque o pessoal ficava sem fazer nada sentado naquela calçada lá, mandando ver.

P/1 – Já em Santa Teresa?

R – Em Santa Teresa.

P/2 – Vocês voltando para Santa Teresa?

R – Voltando para Santa Teresa. Aí ficava ali o dia inteiro tocando violão, aquela pasmaceira, aquela coisa, muito fumo, fumo da boa, aquela coisa, quando não era fumo, era goró mesmo, e tal, ficava ali o dia inteiro. O telefone tocava: “Cadê Lô?” Eu até freqüentava, confesso que freqüentava pouco, sabe? Aquela questão da geração mesmo, eu já era dois mais velhos, Bituca, aparecia às vezes, porque Bituca já morava no Rio, em São Paulo, vinha, passava temporadas aqui. Mas ficava mais era o Lô, Beto. Vinha, porque tinha ficado amigo deles lá no Centro da cidade, vinha, aparecia, mas ficava mais era o Lô e a roda dele de Santa Teresa. 

P/1 – Os amigos ali daquela geração do Lô?

R – Daquela geração. Os caras vinham tocar violão. O João Luis, meu cunhado – casou com a Sheila minha irmã, depois tudo...

P/1 – Esteve aqui, sábado.

R – É, então assim, então ficava aquela coisa ali, etc e tal. O telefone tocava: “Cadê o Lô, cadê o Fulano, cadê o Lé.” Mamãe: “Estão lá no clube. No Clube, o Clube da Esquina.” Sabe, mas assim de uma forma pejorativa. Aí Marcinho uma hora achou, que eu me lembre isso, aí depois me lembro do Lô, muito tímido mostrando a primeira página da música para o Bituca. Aí o  Bituca: “Vamos fazer uma segunda parte?” Que foi aquela: “(cantarola) Tá, rá, rá, rum...” Pouco depois, o Tavinho chegando com o É Minha Aldeia ali também. E aí depois tem esse festival do Canal 7, Vila Rica, que a gente vai e participa com a música. Antes de virar mesmo um...

P/2 – Um disco.

R - ...um disco. Então eu me lembro disso aí, desses primeiros associados do Clube da Esquina. Dessa coisa assim, é o que eu me recordo assim, Marcinho ____ com certeza, né? Marcinho, Bituca, Lô. Eu acho que é assim, uma coisa que eu, quer dizer, Clube da Esquina inicial: Marcinho, Bituca, Lô, um pouco de Beto, um pouco de Fernando. Não tanto, sabe? Assim os mais atuantes, mais firmes, pelo menos música. E nesse primeiro disco que foi o Clube da Esquina 1.

P/1 – Você lembra dessa gravação? Como é que começou surgir a história? O que é que se falava na sua casa?

R – Não, eu lembro pouco. Eu, na verdade, eu sempre digo que assim, era um pouco porque na verdade a minha turma era outra, eu não era da mesma turma. Tinha a turma, tinha essa turma do Lô, do Bituca, etc e tal, o Bituca quando ele ficou amigo de Marcinho, eles ficaram mais em uma outra turma, porque eu tinha uma outra turma, que é o Elvis Vilela, o Nivaldo Ornelas, aquela turma mais profissional, que já tocava profissionalmente. Inclusive assim, é um troço que eu queria registrar isso falando, porque eu senti muito quando o Lô e o Beto – meninos ainda – foram fazer um show na Fonte da Saudade, por exemplo. Foi o primeiro show deles juntos, Bituca, apresentando Toninho, Lô e Beto lá na Fonte, no Teatro Fonte da Saudade, eu fui. Mas assim, como um irmão mais velho para, eu não participava ou eu morava no Rio, não sei., não sei se eu já morava no Rio, fui lá ver o ensaio. Mas eu senti assim os músicos já mais profissionais, o Luis Alves, o Robertinho Silva, Wagner, um certo ar de superioridade em relação aos meninos que estavam chegando. Aqueles meninos, sabe? Como quem diz assim: “Quem são esses meninos? O que é que há?”, sabe?

P/1 – Hum, hum.

R – E eu me lembro que eu fiquei muito revoltado com isso porque eu acho que os caras mais velhos eles tinham que dar um: “Aí rapaziada, vamos lá.” Eu me lembro. E assim, esse pessoal, depois não, ficou todo mundo numa boa, todo mundo, mas nesse primeiro momento eu senti isso, esse certo preconceito dos caras profissionais contra os caras não profissionais, os meninos. E outro dia, por exemplo, eu estava vendo o Kiko Continentino, que é um talentosíssimo músico da nova geração aí, toca na banda do Bituca, escreve muito bem o Kiko e ele fazendo um ensaio sobre o Milton Nascimento, ele mandou esse ensaio por e-mail, e um depoimento do Paulinho Braga que falou assim: “Pois é, eu conheci o Milton, chegou ele. Ele estava tocando violão e uns caras que não me lembro mais.” E um dos caras era eu, Paulinho lembra sim. Só que Paulinho tem mágoa porque Paulinho ele gostava de tocar muito livre, e quando ele foi tocar comigo, em algumas festas que eu peguei aqui em Belo Horizonte ele teve que tocar e ele nunca me perdoou por ter feito ele tocar mais quadradinho. Mais tarde, a hora que ele foi tocar com o Tom Jobim, teve que tocar quadradinho também, porque senão o Tom Jobim expulsava ele da banda, né?

P/1 – (risos)

R – Mas ao ponto de hoje ele chegar, quer dizer, magoadamente, quer dizer, eu não sei se foi por mágoa ou senilidade, pode ser também. O Paulinho está velho também. Às vezes um ataque de senilidade também...

P/1 – (risos) 

R – Não sei. O Paulinho falou: “Ah, o Bituca e uns caras aí.” Um dos caras era eu, que não tenho a menor importância, mas eu acho que ele tinha que ter a elegância de falar que eu estava no meio, né? Eu sou meio danado também, eu gosto de bater. De vez em quando eu bato.

P/1 – (risos) 

R – Não bato muito não, mas bato. 

P/1 – Ô Marilton, e nessa época, você vendo esses mais novos, né, o Lô, tudo, chegando na música: como que você percebeu isso? Que, você será que, na sua opinião de alguma maneira a tua carreira, o teu envolvimento com música acabou influenciando o resto da família? 

R – Olha, eu vou te falar, eu não tenho essa convicção, eu não tenho essa certeza, o Lô diz que sim. O Lô, em todos os depoimentos, diz que ele vendo eu e Bituca tocando juntos ali, porque a gente tocava de uma forma amadora, não era forma profissional. A gente não teve um, eu e o Bituca não tivemos um, nunca tivemos uma relação profissional, sempre foi uma relação de amizade, tocando, etc e tal. E talvez, certamente, agora, eu acho que talvez tenha influenciado nesse aspecto de ouvir coisa boa, né? Porque eu sempre gostei de ouvir coisa assim, eu e o Bituca ouvia muita Bossa Nova, muita música italiana de qualidade, a gente ouvia muito standard americano e os meninos trançando ali, pegando o violão, aquela coisa da geração que hoje já está para mais ou menos a mesma coisa. O Lô está com cinquenta, eu com sessenta anos, mas nove anos, quando você tem trinta, o cara está com vinte, então assim, você já é um homem e o cara está saindo da adolescência. Então isso aí dá diferença.

P/1 – Você ouvia Beatles? Gostava?

R – Não. Eu tinha muita resistência aos Beatles no princípio, eu fui gostar de Beatles muito mais tarde. Hoje eu gosto de Beatles, mas eu não, no primeiro momento não, não gostei de Beatles não.

P/1 – Por que você não gostava?

R – Eu achava, ______ daqueles discos que eles começaram a elaborar melhor os arranjos. As harmonias começaram a ficar mais elaboradas que eu comecei a gostar dos Beatles. Eu comecei lá na frente, mas assim I Wanna Hold Your Hand, por exemplo, aquelas coisas assim eu não...

P/2 – Iê, Iê, Iê. (riso) 

R - Iê, Iê, Iê eu não gostava não. Eu associava muito com esse Iê, Iê, Iê de Roberto Carlos, que era outra turma também, Roberto Carlos. Hoje por exemplo eu sou apaixonado por Roberto Carlos, para você ver como é que são as coisas.

P/1 – (risos) 

R – Eu tinha pavor na época. Hoje o Roberto Carlos me leva às lágrimas, falando da mulher dele que morreu, etc e tal, e fico emocionado. Eu acho que assim a vida, a gente vai amadurecendo, a gente não piora, a gente refina o sensiômetro da gente, né?

P/1 – Hum, hum.

R – A forma de sentir as coisas fica mais refinado, mas eu não gostava. Não gostava dele, era radical. Não gostava não.

P/1 – Mas eles, os meninos, o Beto e o Lô, eles curtiam?

R – Curtiam sim.

P/1 – Eles montaram o The Beavers, é isso?

R – The Beevers. Tivemos o The Beavers que foi um amigo meu, o Isaías Lansk, que tinha um programa de televisão infantil, e botou os meninos lá. O Márcio, era o Márcio, que eu me lembro assim: o Márcio, o Mará. O Mará era meio empresário, tinha o irmão do Gilberto, o Gonçalo Abreu que foi vereador aqui em Belo Horizonte, o Lô e o Beto. Eles tinham o The Beavers, que era muito interessante, muito gracioso em cima dos Beatles. Eu não gostava de Beatles, entende? Fui gostar, quer dizer, também tem hora que você, ah burrice, pára, né?

P/1 – (risos) 

R – Isso é burrice. Não gostar de Beatles é burrice. Mas assim, aí de repente eu comecei: “Espera aí, epa, epa.” Ouvi com mais atenção, né? Paul MCcartney, hoje é uma das minhas devoções, essa música nova do Paul MCcartney eu fico igual tiete, querendo saber: “Como é que é? Mas que legal, que esse cara é danado.” Mas não foi sempre assim, eu tive essa...

P/1 – Interessante.

R – Eu tive essa resistência aos Beatles, sabe?

P/1 – Joia.

R- Guitarra, eu tinha muita resistência à guitarra assim. De repente hoje eu tenho um filho guitarrista, né?  

P/1 – (risos)

R – É assim, mas por quê? Porque eu incentivei a tocar guitarra, quer dizer, quando ele nasceu, eu já tinha parado com esse preconceito bobo contra, essa bobagem contra guitarra, contra rock.

P/1 – Ô, Marilton...

[Fim do CD 01]

 

P/1 – Marilton, eu queria que você me falasse: a gravação do disco você não participou, do Clube da Esquina?

R – Não, não. Eu na verdade, eu vou falar para vocês um negócio que eu tenho que falar, eu, na época, eu tinha um preconceito muito forte, muito forte mesmo contra esse negócio de maconha, de droga, eu achava que maconha... Hoje até que não. hoje eu tenho um filho que gosta e eu aceito normalmente, mas na época eu tinha um preconceito muito grande, então eu achava que era um costume meio degradante, meio, sei lá.

P/1 – Hum, hum.

R – Hoje eu não tenho, eu continuo não fumando maconha, mas eu não tenho nada contra quem fuma. Eu naquela época, é essa coisa que eu estou falando, eu estou falando as verdades. 

P/1 – É.

R – Eu sou muito verdadeiro, então como era um costume disseminado entre os músicos da época eu saía fora. “Ah, esse povo é maconheiro. Eu não vou mexer com isso não.”

P/1 – (risos) 

R – “Eu gosto é de uísque, não vou mexer com esses maconheiros não.”

P/1 – (risos) 

R – Então a minha turma era outra.

P/1 – É, a sua turma era outra. 

R – Os meus costumes eram outros, você entende?

P/1 – Hum, hum.

R – E isso de uma certa forma é, eu fui para outro caminho, quer dizer, será que eu fui prejudicado ou não? Eu não sei, eu não sei, eu levo uma vida boa, eu tenho uma vida boa. Não fiquei famoso como eles, mas também não deixo de ter meu reconhecimento, ser respeitado no meio nem nada. Não sei, você entende?

P/1 – Com certeza.

R – Eu achei meu caminho, sabe? Mas na época isso: “Ah, não mexe com o Marilton não, o Marilton é careta, o Marilton é muito careta, não mexe com esse não. Esse é um caretão, esse cara está por fora.” Isso influenciou de uma certa forma. Então veja bem, eu não participava das, houve um momento em que realmente eu, houve um divisor. Eu fui para um  outro canto, eu fui para outro lado. 

P/1 – Foi trabalhar com rádio.

R – Não, eu fui trabalhar com música mesmo, mas assim, tocando na noite, sabe? 

P/1 – Tá.

R – E mais tarde, eu fui, depois que a gente gravou o disco dos Borges, em 1980. A gente gravou o disco dos Borges, eu fui na Rádio Inconfidência divulgar o disco dos Borges. Eu levei o disco lá para divulgar e tinha um amigo meu de lá atrás, Claudinei Albertini, que era coordenador, diretor artístico da rádio. Ele falou: “Bicho, mas você fala legal, você é solto. Por que você não vem aqui para a rádio?” Eu falei: “O que é que eu tenho que fazer para vir?” Ele falou: “Vir.” Eu falei: “Então já estou. Que dia que eu começo?” “Agora.” Eu falei: “Então eu estou trabalhando.” E aí começou a minha vida na área de comunicação, de rádio, depois tive, eu já tinha uma experiência de televisão como produtor e depois eu virei apresentador de televisão, aqui em Belo Horizonte também, tive um programa diário, o Happy Hour, que era um programa que eu sentava em um piano, entrevistava políticos, jogadores e futebol, músicos. A gente fazia uma grande zoada. Até hoje eu tenho viúvas do Happy Hour na rua, entre populares, o sujeito chega: “Por que é que a televisão te tirou do ar?” Eu falei: “Eu não sei.” 

P/1 – (risos)

R – “Por que é que você não volta?” Eu falei: “Eu não vou pedir a eles. Se eles me chamar eu faço. Eu não vou pedir, pelo amor de Deus. Deixa eu voltar para o rádio? Deixa eu voltar para a televisão? Não. Se me chamar eu estou aí. Mas se não me chamar está bom também, eu estou com a vida boa, está legal.”

P/1 – O disco Os Borges você participou?

R – Sim. Eu participei por, aí eu já tive uma participação bem ativa.

P/1 – Como é que surgiu a idéia de gravar?

R – Porque a Duca que era a mulher do Marcinho, que é a mãe do Zé Roberto, do _______, que era mulher do Marcinho na época, a Duca, ela começou a perseguir essa idéia. “Vamos fazer o disco da família? Vamos fazer o disco da família?” eu falei: “Vamos.” Eu comprei a idéia. Então aproveitei que na época eu era diretor de criação do estúdio HP, trabalhava com propaganda, eu fazia jingles e trilhas e tudo, então eu estava assim muito inteirado, até hoje, graças a Deus, eu, as tecnologias de gravação, eu sou um cara que eu sempre fui um apaixonado com isso. Então eu era diretor de gravação do estúdio HP, eu estava por dentro disso, como hoje a tecnologia digital se eu quiser gravar um CD em casa, eu faço a pré-produção toda em casa e depois só venho para um grande estúdio para finalizar, quer dizer, é uma coisa que a gente, eu me inteirei disso e aproveitando que eu estava muito inteirado na época, dirigindo um estúdio eu falei: “Ah, vou ajudar meus irmãos.” Foi quando eu compus O Carona, que é uma música que Gonzaguinha cantou comigo, eu fiz a letra e a música, e compus a O Outro Cais, que a Elis Regina gravou e eu fiz uma música, uma citação ao Bituca, homenagem ao Bituca, no disco Os Borges, chama O Outro Cais, que é assim, mais ou menos, a harmonia lembra a harmonia do Cais do Bituca. E a Elis Regina achou que, chegou no estúdio e não me conhecia, conhecia Marcinho, ela: “O que é que é isso? Como é que é? Que música é essa? Eu quero cantar ela, uai.” “Uai, então canta.” Ela era tão genial que a música estava para o meu tom, para eu cantar. Ela cantou no tom de homem, cantou mais baixo, subiu, ela fez uma confusão lá, que a extensão dela era imensa, e deu certo e ficou lindo.

P/1 – Ali que você conheceu a Elis?

R – A Elis e o César Camargo que assim, eu fui fã da Elis Regina. Mas muito mais fã do César Camargo. Que eu acho ainda, talvez, muita gente não gosta, eu acho o maior músico desse país, o grande músico desse país é o César Camargo, ele tem uma marca. Ele tem uma marca, que ele faz um arranjo seja onde é que for, se você ouvir um, são dois músicos que têm marca, têm grife, entende? Tem grife. O César Camargo e o Lincoln Olivetti, nego não concorda com isso não. O Wagner Tiso, por exemplo, é um músico fantástico, uma figura assim sinfônico, o Wagner é grande, mas ele assim, o Wagner a gente não reconhece muito, ao ouvir, um arranjo do Wagner. Agora se você ouvir uma música no rádio ou qualquer que for: “Bom, isso é do César Camargo. Opa, isso é do Lincoln Olivetti.” Os caras têm grife, tem um estilo de escrever arranjo, estilo próprio, então esses dois músicos assim, arranjadores talvez, né? E o César aí tem grife no tocar também, você ouve o piano do César você fala assim: “É o César que está tocando aí.” Não tem jeito, as vezes, é arranjo dos outros, mas se ele botar o piano dele, você sabe que é César Camargo. Então nessa época dos Borges eu conheci o César, saímos para almoçar juntos, com a Elis. A Elis falou: “A Odeon contratou o Borges errado, tinha que contratar esse aqui.” O Lô era contratado da Odeon na época, né? (risos)

P/1 – (risos) O Lô?

R – Sacaneando o Lô, né? (risos)  “O Borges que canta é esse aqui.” Eu falei: “Olha, Elis, eu não sou cantor. Sou pianista. Já parei de cantar muito.” Eu cantei no disco dos Borges, para...

P/1 – O que é que você cantou no disco?

R – Carona, eu solei O Carona. Mas cantei as outras todas eu entrei cantando, do Marcinho. As músicas do Telo eu andei cantando junto com o Telo, era um disco que praticamente todo eu cantei com o pessoal. O disco dos Borges de uma certa forma é o meu disco, porque eu canto em quase todas as músicas. Tenho arranjo de base em quase todas as músicas e eu fico orgulhoso quando as pessoas falam: “Esse disco dos Borges é uma referência musical.” As pessoas adoram aquele disco até hoje, procuram e não acham, eu falo: “Ai, que bom.” Porque na verdade eu me sinto, o meu ego me dá beliscada, porque eu fiz a maioria dos arranjos, eu cantei na maioria das músicas, eu participei na maioria das coisas. Ajudei na mixagem, fiz mixagem, quer dizer, aquele disco ele tem muito do Marilton, do pensamento musical do Marilton Borges, ali, sabe? Então aquele disco, quando o sujeito fala: “Esse é um disco histórico.”, eu falo: “Opa, eu fiz um disco histórico.” 

P/1 – (risos) 

R – Apesar de não ter uma carreira de disco, né? Eu tenho uma carreira mais paralela. 

P/1 – Ô, Marilton, e até o seu Salomão e a dona Maricota participaram?

R – Com certeza.

P/1 – Onde surgiu essa idéia deles também entrarem?

R – Foi essa coisa, né? Essa coisa de chamar, fazer a família fazer o disco da família inteira. Infelizmente, hoje até não tem isso muito não, mas na época tinha um distanciamento, sabe? O Lô, a grande estrela e os, o Lô, hoje ele é mais... Então ficou assim, na hora de fazer o show, a execução do projeto ficou meio esquisita, o pessoal muito amador, né, porque ninguém tinha, profissional ali era o Lô e eu, e o Telo de uma certa forma. O Telo tocava na banda do Lô, então na hora de executar o projeto, de botar o projeto em cima do palco ficou esquisito. É “nego” tomando gole, “nego” tropeçando no palco, “nego” caindo, nego...

P/1 – (risos) Vocês chegaram a se apresentar?

R – É. E o Lô cagando e andando para o azar, porque se ele pega assim: “Olha, não vamos deixar isso acontecer não”, eu estava a fim de não deixar isso acontecer, mas eu sozinho não ia dar, não ia conseguir. E assim, Marcinho mais ou menos, a Duca, mulher dele, também assim, eu precisava de mais gente para pilotar o projeto no palco, porque o disco foi um sucesso, um barato. Apesar de não ter vendido muito, é um disco que até hoje “nego” fica, colecionador fica doido atrás dele, foi lançado ultimamente em CD, eu fiquei sabendo, eu não tenho esse CD, não sei mas foi lançado.

P/2 – Eu já vi.

R – Mas é um disco, segundo os entendidos, é um disco histórico, né? Mas enfim, mas eu acho que está passando da hora de hoje, e acho que esse projeto do Museu do Clube da Esquina, ele, de uma certa forma, ele pode resgatar essa coisa de fazer a terceira geração dos Borges. Ou a segunda geração dos Borges, terceira não, segunda geração dos Borges que é vim aí os meninos do Marcinho, o filho do Murilo, os meus filhos, botar essa meninada para gravar, botar essa meninada para continuar essa, né? Porque eu acho que a história, ela é feita da, desses pequenos, nós, você é um nó no meio de uma corda compridíssima. Eu entendo a história assim: a corda que não tem fim, né, com pequenos nós, eu sou um nó naquilo. Tem que ter um nó na frente para a história continuar e esse nó na frente são meus filhos, o outro nó serão meus netos, para a coisa continuar e não parar, eu acho que é por aí.

P/1 – Como que começou, você tem quantos filhos?

R – Eu tenho dois.

P/1 – Dois.

R – Eu tenho o Rodrigo e o Bruno.

P/1 – O Bruno também se envolve com música ou é só o Rodrigo?

R – O Bruno começou a se envolver com música, mas ele é assim, ele é absolutamente, se eu sou alternativo, o Bruno é trezentas mil vezes mais alternativo, ele gosta de rock pesado mesmo. Ióoon, aquelas coisas. E sabe, ele é para outro lado da questão e tanto ele tem a compreensão de que você ser alternativo é muito mais complicado do que ser, que o Bruno hoje ele formou em designer gráfico, ele fez um curso técnico de designer gráfico, está querendo agora fazer faculdade também. Ele ouve o dia inteiro quando está em casa, ele ouve o dia inteiro e ele é assim, uma pessoa tão humilde, tão simples, que para nós não, ele sabe que não é bem o gosto da família, ele mete no fone e larga o pau. (risos)

P/1 – (risos) 

R – Para não incomodar ninguém. Mas ele, a música é a mesma coisa. A música está no sangue também.

P/1 – E o Rodrigo?

R – O Rodrigo já tem essa coisa mais, o Rodrigo já é mais harmônico. Já mais jazzista, mais harmônico. Ele, o Rodrigo, ele tem uma particularidade: ele é muito estudioso, ele estudou guitarra, ele estudou com o Beto Lopes, ele estudou com Celsinho Moreira, foi estudar canto com a Babaia, entende? Ele não brinca não, ele gosta, o Rodrigo gosta muito de fazer bem, o Rodrigo não gosta de perder. Ele gosta de fazer bem feito, tanto que você vê, ele agora é um programador de rádio, formou em Propaganda. O Rodrigo é um, é isso que eu queria contar a história do Rodrigo quando menino, como ele é musical, eu e o (Maurity Verônica?), que já faleceu, o (Maurity Verônica?) era um músico da orquestra sinfônica, um contrabaixista da pesada. 

P/2 – Xará, Marilton? Mariltinho?

R – Não, ele é Maurity.

P/2 – Ah, Maurity. 

R – Com ipsilon no final. Maurity Verônica ele tocava contrabaixo e a gente querendo tirar uma música do César Camargo muito difícil. A gente ouvia o disco, bolachão, e não conseguia, compasso composto, 11 por 7, 13 por 8, 17 por não sei o quê, sei lá, estava aquela coisa difícil de tocar e eu: “Maurity, como é que nós vamos fazer para tirar essa música bicho?” Ele foi, a gente ouvindo, a música rodando _____. Ele falou: “Olha para o pé do seu filho.” O Rodrigo tinha o quê? quatro para cinco anos, estava assim encostado em mim assim, ele é muito gordinho, o pezinho parecia um pão de queijo dentro da sandalinha, né? “Olha para o pé.” O Rodrigo marcando compasso certinho, aí nós começamos a contar no pé do Rodrigo e deu certo. (risos)

P/1 – (risos)

R – Tiramos a música.

P/1 – É mesmo?

R – Então foi uma primeira contribuição assim para o pai, foi o que o Rodrigo...

P/2 – Início da carreira.

R – Início da carreira dele como músico. Depois rapazinho já, ele estava no Isabel Hendrix ainda, foi fazer a peça Liberdade, Liberdade. “Ô, pai, vou cantar lá, tocar violão.” Eu falei: “Então vamos.” Fui igual mãe de miss, né? Eu, Tatá, minha mulher, nós fomos igual mãe de miss. Aí, cadê o Rodrigo? Eu falei: “o que é que o Rodrigo vai fazer?” Aí de repente a gente ouve uma voz no fundo do teatro com violão: (canta)  “A mão que toca um violão, se for preciso...”, coincidentemente uma música do Bituca, né? Do Marcos Vale, gravada pelo Bituca e pelo Marcos Vale, entra o Rodrigo pelo meio da platéia cantando isso, aí eu desabei, é lógico que eu desabei. Puf. Comecei a chorar, etc e tal, por pouco eu não dou vexame, porque é emocionante e aí o Rodrigo foi isso. Queria, não queria servir o Exército, eu fiz tudo para tirá-lo, mas eu estava trabalhando fora então não consegui, eu conheço todo mundo em Belo Horizonte, em Minas, mas eu estava fora de Belo Horizonte, não consegui tirar ele do Exército, foi fazer CPOR, me ligou: “Pai, me tira que minha onda não é essa não, dar tiro.” Foi um dos primeiros alunos do CPOR, não conseguimos tirar, fez bem feito, ao mesmo tempo, com dezessete anos entrou para a faculdade, você entende?

P/1 – Hum, hum.

R – Dezessete para dezoito anos, estava formado em Propaganda, vinte e um anos. E está aí, ele está assim, sempre fazendo bem feito.

P/1 – Agora está fazendo mestrado?

R – Não, ele está fazendo pós-graduação, está fazendo uma pós em Ciência da Informação e o Bruno já é mais o Marilton, não gosta muito de estudar não, eu nunca gostei de estudar.

P/2 – É o mais novo.

R – É o mais novo. O outro é eu de novo, o Rodrigo nesse aspecto de fazer tudo bem feito ele é, o perfeccionismo ele herdou muito de minha mulher, porque minha mulher é perfeccionista e o Bruno é eu, é aquela coisa largada, sabe? Aquela coisa alternativa e rebelde pela própria natureza, mas, fazer o quê, né? Cada um é cada um.

P/1 – Ô, Marilton, e ele é muito amigo do Gabriel Guedes?

R – O Rodrigo, sim. Eles tiveram um trabalho juntos, até tem um troço engraçado. O Lô muito conhecido, lógico, o Beto, eles iam para o interior os dois fazendo show, né, em alguns lugares apresentaram o Rodrigo como filho do Lô. “Esse é o filho do Lô.” Ele falou: “Não, eu sou filho do irmão do Lô. Eu sou sobrinho do Lô. Sou filho do Marilton.” “Marilton? Quem que é Marilton? Filho do Lô.” Não, eu sou filho do Marilton.” Até que chegou umas moças muito bonitas: “Você é filho do Lô, né?” Ele: “Sou.” (risos) 

P/1 – (risos) 

R – Igual aquela coisa do, aquela história do Frank Sinatra, né bicho? Você sabe essa história do Frank Sinatra?

P/1 – Não.

R – O cara falou assim: “Você é o Frank Sinatra?” Ele falou: “Não, eu sou o Sebastião lá de Rio Acima.” Aí ele chegou no hotel, chegou no aeroporto: “Frank!” Ele falou: “não, sou Sebastião de Rio Acima, não sou Frank Sinatra não.” Aí chegou no táxi: “Porra, nós temos que arrumar uma limusine, né, Frank?” Ele falou: “Não, eu sou o Sebastião de Rio Acima.” Aí chegou no hotel: “Seu Frank, o apartamento presidencial...” “Não, eu sou o Sebastião de Rio Acima.” Entrou no apartamento. A hora que ele entrou no apartamento uma loira maravilhosa, nua: “Frank!” Ele: (canta) “When somebody love…” (risos)  

P/1 – (risos) 

R – Teve que mandar, né? Então o Rodrigo aconteceu isso com ele também. “Não, sou filho do Lô mesmo.” (risos) A hora que apareceu uma mulher bonita.

P/1 – (risos) Ô, Marilton, tem muita coisa para falar mas eu queria que você falasse um pouquinho da época da Rádio Inconfidência. Deixa eu tirar até uma dúvida aqui: teve, a Tatiana comentou comigo que durante muitos anos às dezoito horas não tocava a Ave Maria, tocava Paixão e Fé.

R – Não, tocava Saudades do Brasil do Jobim. Eles tocavam, era um momento de pausa, e logo depois eu consegui fazer isso, foi um negócio assim que, e era...

P/1 – É coisa sua? 

R – Não, isso é do Claudinei, não é meu não. O Claudinei que fez isso, eu, depois do Saudades do Brasil, é que eu entrei com um negócio em horário nobre que ninguém acreditava que ia dar certo e deu. Foi, entrei com música instrumental, instrumental brasileiro, porque a Brasileiríssima só tocava música brasileira. Então eu entrei com instrumental brasileiro às sete da tarde, acabava o Saudades do Brasil, entrava de seis às sete, até a Hora do Brasil e tive a alegria de fazer esse programa ao vivo com alguns, fiz com o César, fiz com o, e assim aquela coisa como a gente está fazendo aqui: a coisa mais descontraída do mundo, o cara ia lá dentro: “Olha, esse disco é bom, vou tocar.” Sabe, o músico convidado é que fazia a programação, batia papo. Era um, foi um grande sucesso da rádio, mas na música que tocava na Brasileiríssima era Saudades do Brasil do Jobim. Lindíssimo, né? A gente, era a hora que ficava aquela loucura na rádio, porque a rádio era uma loucura, um lufa, lufa, a gente respirava, né, e tocava isso.

P/1 – Pausa, né? E me fala uma coisa, você também trabalhou muito com publicidade?

R – Trabalhei, eu ganhei alguns prêmios.

P/1 – Jingles, o quê?

R – Eu fazia jingles, né? Eu fazia jingles. Eu tenho um jingle que eu não fiz mas eu, que eu, eu sou por exemplo, na Rádio Itatiaia que é a principal rádio AM de Belo Horizonte, a campeã, eu sou o músico mais executado. Por quê? Porque tem há trinta anos que tem uma vinheta que eu fiz para o jornalismo que ela está até hoje. E assim...

P/1 – Canta para a gente?

R – E assim ,né, o jingle era o seguinte. A gente tinha uma permuta no estúdio HP com a, a gente sempre mandava alguma coisa para eles assim numa boa. Não era, então a gente não ocupava os músicos para também não ficar pedindo aos músicos para te tocar... (falha na gravação) (canta) “...tiaia, jornalismo.” Depois tiraram o Itatiaia, ficou só: “Pramm, jornalismo”, está até hoje no ar. Eu falo para o Emanou Carneiro, que é o dono da rádio, eu falo: “Eu sou o músico mineiro mais executado na Itatiaia. (risos) Toda hora, de hora em hora vocês me tocam.” (risos) 

P/1 – (risos) Tem algum outro jingle assim para produto, ou casa, que você...

R – Tem. Eu tenho, o primeiro shopping center de Belo Horizonte foi o shopping center que é lá do, hoje é o como é que chama? Como é que é o nome dele? Aquele lá da BR.

P/2 – BH.

R – BH Shopping. Foi o primeiro shopping center de Belo Horizonte. Então o primeiro jingle do shopping, eu ganhei prêmio nacional, etc e tal, foi com esse jingle: (canta) “Shopping center maravilhoso lugar, báraran...” Eu não lembro mais a letra, mas assim, ganhei prêmio com esse jingle. Eu ganhei prêmio com, qual outro prêmio que eu ganhei? Biocolor. (Canta) “Biocolor valoriza o seu clique. Biocolor qualidade Kodak.” Ganhei também prêmio, ganhei um monte de prêmio, não valia nada porque no final das contas esse prêmio você ganhava, mas quem ganhava era a agência. 

P/2 – Ah.

R – Eu me lembro que os meus dois filhos eram meninos e estavam doentes e eu fiz esse do BH Shopping que ganhou prêmio. Aí depois eu fui tocar no jantar da Associação Mineira de Propaganda no final do ano. “Melhor jingle”, eu falei: “Opa”. Eu sabia que meu jingle estava concorrendo. “Shopping Center, agência não sei o quê.” Foi o dono da agência que recebeu o, ele, olha, ele não me deu nem o, os caras não te davam nem um briefing para você fazer o jingle, era shopping center. Porque eu fiz um monte na época desse jingle que era: “Shopping é melhor porque não tem chuva, não tem calor e nem vento.” Aí o cara chega: “Não te chuva, não tem calor e nem vento.” Virou o tema da campanha do shopping, ganhou prêmio para tudo quanto que é lado, e nem falaram: “Quem fez isso aqui tudo, quem bolou isso aqui foi esse cachorro aí que está tocando piano para vocês tomar uísque aí.” Sabe?

P/1, P/2 – (risos) 

R – É aquela coisa da humildade da profissão do músico. Você fica ali tocando, eles te botam para tocar ali e vamos embora, por isso que eu acho que de uma certa forma esses meninos hoje, que qualquer menino que faz três acordes no violão já vira artista, né? Eu acho que eles estão certo, é isso mesmo, porque ficam bancando os bobos, a gente tocando para os outros, a gente tem que ter, esses meninos todos aí hoje, são todos artistas, né? “Não, eu não toco na noite, eu sou artista.” Mas ele está certo. Sabe por quê? Você ficar tocando na noite aí, ficar tocando em recepções acontece isso, como aconteceu comigo diversas vezes, a gente é desrespeitado diversas vezes, como o Bituca foi desrespeitado algumas vezes. O Bituca, eu me lembro, o Bituca já era o Milton Nascimento – e quem me contou esse caso foi o próprio Bituca – que ele foi aqui em uma determinada, chegou de uma temporada na Europa, de uma temporada lá, ele foi em uma festa com um amigo nosso, que não interessa quem, mas foi em uma festa, o amigo falou: “Não, vamos lá, preciso da sua presença lá”, ele foi, chegou lá, a dona grã-fina da festa falou: “O senhor não vai cantar nada para a gente não?” Ele falou: “Ô, minha senhora, eu vim cá como convidado do Fulano etc e tal. Eu estou vindo da Europa, para mim cantar eu tenho que ter uma produção, alguma coisa. Tem que ter um microfone bom.” “Não, tem o violão da minha filha.” Ele: “Não, não é assim, não sei o quê.” “Então, o que o senhor está fazendo aqui?” Milton Nascimento, se o Milton Nascimento sofre esse tipo de constrangimento de, né? Imagina nós que não, (riso) que somos, ele é JB, eu sou PTB, meu filho. (risos) 

P/1 – (risos) 

R – Sabe, ele é importadão, bacana. Milton Nascimento é grife. Eu, Marilton? Então “nego” te desrespeita mesmo, por isso é que eu acho que esses meninos que hoje faz três acordes e já vira artista está certo. Tem que ser isso mesmo, tem que ser artista mesmo. “Eu sou artista e pronto.” 

P/1 – Legal. Tati, você tem alguma pergunta?

P/2 – Não, ah, sobre o museu, né?

P/1 – Para a gente acabar. Mas tem que ter uma, deixa eu te perguntar uma coisa, Marilton, essa música, esse tipo de música que surgiu ali na esquina com o Lô, com o Milton, o Beto Guedes, Flávio Venturini, tudo, que caracteriza o Clube da Esquina como é que você acha assim: que ela é um movimento, não é um movimento? Ela tem uma característica própria? O que é que você acha?

R – É eu acho que a riqueza harmônica desses meninos, esses meninos que eu digo é Bituca...

P/1 – (risos) 

R – Menino Bituca, menino Lô, menino Beto, menino Toninho, Tavinho, essa moçada tem um negócio chamado riqueza harmônica e é um negócio sério, tem uma riqueza melódica diferente também e a riqueza, então música o que é que é? Música é ritmo, melodia e harmonia, se a sua música é rica harmonicamente, melodicamente e ritmicamente você tem aí um tesouro nas mãos, né? Mas mais do que esse tesouro nas mãos, eu acho que essa música é uma referência do século, século XX, quando os estudiosos, então a importância desse museu, né? Porque quando os estudiosos lá na frente vão falar assim: “qual o cara..” não é a única referência, Bossa Nova é uma referência, principalmente da juventude classe média do Rio de Janeiro, se você pegar a referência da Bahia, de baianos, você tem a Tropicália, uma grande referência e agora esse movimento também das Timbaladas, não vamos negar, seria burrice negar, não vou correr aquele risco que eu fiz lá no passado de dizer, de achar ruim com os Beatles, né, que depois eu quebrei a cara, mas eu mesmo quebrei a cara, não... Então, assim, apesar do apoio, de todo o apoio de Antônio Carlos Magalhães e assemelhados lá, que eles tinham na verdade era um grande projeto, para fazer aquele menino que morreu, o Luis Eduardo, fazer ele presidente, então atrás desse projeto veio esse boom da música baiana, essa explosão da música, mas ela é importante, você ver essas multidões, elas não estão, essas multidões que vão para a Bahia no Carnaval não estão tão equivocadas, né? Eu acho que é uma bobagem se você negar isso, você não pode negar isso, você não pode, tem que estudar, tem que ver o que é que é, tem alguma coisa atrás disso além da grande divulgação, do dinheiro que cerca isso tudo, tem alguma coisa, o Carlinhos Brown não é um primata, é um cara inteligente, é um cara talentoso, tem que ver isso, então, são referências musicais ao longo dos tempos. E o Clube da Esquina é isso, mais do que um clube fechado, de amigos, de parceiros e de companheiros é uma referência da música que emergiu do, de Minas Gerais para o resto do mundo, é uma referência, porque você veja bem, sem querer desfazer de outros movimentos e de outros, a hora que você, isso aí é reverenciado, isso que o pessoal faz assim como Jobim, você está entendendo? Assim como Caetano e Gil, são coisas que o mundo inteiro reconhece, o mundo inteiro reconhece como formas superiores de expressão cultural. Então esse museu, de uma certa forma, ele deixa isso para as próximas gerações, para essas gerações ele deixa esse testemunho, esse acervo todo de fotos, gravações, depoimentos, quer dizer, ele complementa porque já tem um tesouro musical todo pronto, que são as gravações. Ele complementa com, eu acho que foi o Marcinho que foi muito feliz. O Marcinho aliás, eu na minha vida, conheci dois gênios, eu tive a alegria de conhecer dois gênios: um é Bituca o outro é Marcinho. Marcinho é um gênio, é um irmão querido que sabe das coisas, ele sabe, Marcinho é um cara que ele, o Brasil não conhece ele direito não, quando Lamarca falou, perguntaram para o Lamarca, que o Lamarca falou assim: “O maior poeta da língua português chama-se Márcio Borges.” Olha para você ver, Carlos Lamarca, um herói brasileiro. Então o Marcinho é um gênio, sabe, é um gênio. Eu assim com a, eu sou, eu me considero um cara modestamente inteligente, eu sou inteligente, mas o inteligente, ele tem que baixar a cabeça e render homenagem aos gênios como Bituca e como Marcinho. Então esse dois, Marcinho, esse gênio está conseguindo isso, está fazendo isso, que é essa referência cultural do que aconteceu em Minas, do que acontece em Minas, né? Porque não vai parar, daí a pouco já vai ter música do Gabriel Guedes, já vai ter música do Rodrigo e dos meninos do Marcinho, isso tudo vai continuar, mas a referência de como começou isso tudo o Marcinho está conseguindo fazer isso de uma forma brilhante. Ele está de parabéns e eu estou envaidecido de estar podendo modestamente contribuir com o meu depoimento aqui. 

P/1 – Entrar para o museu, como é que é isso? O que você achou assim de passar esse tempo aqui com a gente recuperando a sua trajetória de vida?

R – Está sendo muito bom, porque na verdade eu que nunca fiz análise, fiz meu primeiro divã de psicanalista (risos), eu estou fazendo aqui hoje. Eu estou dando uma passeada no meu passado. Essa sede da gente ser contemporâneo, a gente tem vontade de ser contemporâneo sempre, né? Então essa sede de contemporaneidade às vezes você esquece um pouco, você não pode virar as costas para o seu passado não. Você tem, e hoje aqui eu tive a oportunidade de externar alguns pontos de vista que eu acho que eu nunca tinha falado para ninguém, estou falando aqui hoje, né?

P/1 – (risos) Tá joia.

R – Tá joia?

P/1 – Obrigada.

R – Eu é que agradeço. Valeu. Muito obrigado.

 

[Fim do CD 02 e da entrevista]

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+