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História

"O projeto é viver"

Sinopse

Nissei, nasceu no pequeno distrito de Novo Oriente, município de Pereira Barreto. Mudou-se com a família para Araraquara, local onde perdeu o pai, quando tinha apenas nove anos de idade. Conta como, através das batalhas da mãe, do incentivo ao estudo e da base proporcionada pelo SENAC, foi possível alcançar o que almejava em relação à sua profissão. Hoje, mescla o antigo ofício de bordadeira aos hobbies, ao mesmo tempo em que trabalha como advogada, mãe, e avó.

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História completa

P/1 - Senhora Fumiko, a senhora poderia começar nos dizendo o seu nome completo e onde e em que data a senhora nasceu?

 

R – Bom, meu nome é Fumiko Niituma Ogata, eu nasci numa cidadezinha, num distrito chamado Novo Oriente, pertence ao município de Pereira Barreto, no dia oito de janeiro de 1936.

 

P/1 - E qual era o nome dos seus pais, senhora Fumiko?

 

R - Meu pai chamava-se Katutaka Niituma, e minha mãe Ume Niituma.

 

P/1 - E onde é que eles nasceram?

 

R - No Japão.

 

P/1 - E quando que eles vieram para o Brasil?

 

R - Eles vieram para o Brasil em 1935. Eu nasci um ano depois da chegada deles ao Brasil. Eles ficaram no Japão cinco anos casados e não tiveram filhos, e vieram para o Brasil e eu nasci aqui (riso). Então eu sou nissei.

 

P/1 - E eles vieram pra trabalhar na lavoura?

 

R - Vieram para trabalhar na lavoura. Vieram como imigrantes, inicialmente já foram para a lavoura e continuaram, meus pais continuaram. Só que meu pai faleceu muito jovem... Aliás, eu perdi o meu pai eu tinha apenas nove anos. Então... Mas é, sempre trabalhando na lavoura. Aí a minha mãe continuou sozinha, ela tinha três filhas: eu e mais duas irmãs, eu com nove anos e a minha irmã menor com dois anos. E a mamãe então tocou em frente, e ela era uma pessoa que não falava português, não sabia comprar uma agulha sequer, porque meu pai é que fazia tudo. Mas olha, ela foi batalhadora, criou as três, fez tudo o que foi possível, inclusive fez questão que as três estudassem. E hoje, com 85 anos, ela continua dando uma força, mora comigo e praticamente criou meus filhos, porque eu sempre trabalhei. E agora ela continua dando a maior força para criar os bisnetos, que são os filhos da Márcia.

 

P/1 - E quando a senhora era pequena, ajudava no trabalho também?

 

R - Na lavoura não me lembro nem de ter ajudado, porque o meu pai ele... Sempre queriam que a gente estudasse mesmo. Inclusive eu tenho, assim, apenas com nove anos, mas eu tenho umas lembranças muito carinhosas do meu pai. Ele queria sempre que estudasse: "Você vai estudar, né?" Era o sonho deles. Então na lavoura eu não trabalhei. Depois que a mamãe ficou viúva até que fazia qualquer coisa, mas o pesado mesmo era só ela, mesmo. Ela nem fazia questão que a gente trabalhasse, não queria nem que... É que trabalhar... Eu comecei a trabalhar, todos nós começamos cedo, mas na lavoura não. Ela deu condições de estudar, de alguma maneira, então no começo foi curso de corte e costura, de bordados, isso antes de entrar no SENAC. Então ela procurou sempre dar alguma condição pra não precisar trabalhar na lavoura. Foi ela quem batalhou mesmo.

 

P/1 - A senhora disse que teve outros trabalhos?

 

R - É, além do funcionalismo, antes disso eu trabalhei como bordadeira, eu bordava, sabe? Porque eu fiz o curso completo na Escola Singer, que era corte e costura e bordados. Trabalhei acho que uns dois anos bordando, e eu ainda costuro, bordo... Bordado não fiz mais não. Depois eu entrei no funcionalismo.

 

P/1 - E quando é que a senhora começou a estudar, senhora Fumiko? Com que idade?

 

R – Bom, eu, com sete anos fiz um ano de curso japonês. Depois nós paramos, naquela época não tinha aquela idade certa da gente frequentar, então eu entrei um pouco atrasada, até para fazer o primeiro ano, grupo escolar que falam né, antigamente era grupo escolar, hoje é primeiro grau, segundo grau. Naquela época até eu estudei na escola Grupo Escolar Pedro José Neto, uma escola, a mais conceituada em Araraquara, fiz um curso bom no primário. Depois eu dei uma parada, aí que eu fui fazer o curso Auxiliar de Escritório, e em seguida curso Comercial Básico no SENAC. Então eu entrei um pouco mais tarde do que o normal. Ao invés de eu ir direto para a escola, vamos supor, eu fiz o curso de corte e costura, fiz o bordado, e depois que eu fui pra escola.

 

P/2 - Eu queria voltar um pouquinho, dona Fumiko. E como é que foi essa questão, assim, da infância, nessa cidade que a senhora morava? A senhora morava em Nova Oriente... Novo Oriente?

 

R - Não. Lá eu saí pequenininha, mas não me lembro. Depois o que eu tenho muito assim lembrança forte mesmo foi um pouco em Borborema, que a gente morou, e mais em Araraquara.

 

P/2 - Como é que foi então a sua infância em Araraquara?

 

R - A infância foi muito boa, infância assim, de criança mesmo, né. Todas as... Apesar de ter convivido com meu pai só até os nove anos, a gente teve uma infância tranquila. Depois disso só com a mamãe, mas uma infância muito tranquila. Quando com o meu pai, ele era uma pessoa extremamente carinhosa, então, no sítio − a gente morava no sítio −, ele comprou um sítio num lugar chamado Água Branca, que é perto de Araraquara, então isso eu me lembro muito bem: nas noites de luar a gente saía lá fora e ficava conversando, uma coisa que hoje é até um pouco difícil, os pais ficarem tranquilos conversando com os filhos. Naquela época, apesar do trabalho de lavoura, ele comprou esse sítio para plantar verduras, essas coisas. Então a gente ficava olhando o céu, os desenhos que formavam, as nuvens que formavam. Essas coisas eu me lembro muito bem. Aí ele ficou bastante doente, ficou um mês internado na Beneficência Portuguesa de Araraquara. Eu fiquei esse tempo todo com ele no hospital, com essa idade. Antigamente permitiam, hoje criança não pode nem entrar no hospital. Mas eu fiquei com ele praticamente um mês no hospital. Ele não gostava, por exemplo, da comida do hospital, arroz, essas coisas, eles permitiam que eu fizesse até o arrozinho pra ele. Para isso eu tenho uma lembrança boa dele, apesar de doente. Ele teve... Foi desenganado, não tinha mais condições, e naquela época também permitiam que voltasse para a casa e tivesse os últimos momentos em casa, então foi isso que aconteceu, ele voltou pra casa e no dia seguinte faleceu. E de lá pra cá foi uma batalha árdua, mas a infância foi mais ou menos tranquila. Que eu me lembre, a mamãe sempre dando o maior apoio. A gente teve uma infância boa, sem traumas.

 

P/1 - E quem escolheu a escola do SENAC para a senhora estudar, foi a sua mãe?

 

R - Olha, eu não posso dizer “quem escolheu”, mas foi... Naquela ocasião foi assim, uma escola bem conceituada, profissionalizante. A intenção era começar num escritório, por exemplo, eu queria, inicialmente. Então tinha o curso de Auxiliar de Escritório, que dava uma base para você começar em escritório. Foi assim. E a escola que acho que era recém criada na cidade, inicialmente eu fiz o curso de Auxiliar de Escritório, depois é que foi criado o curso Comercial Básico.

 

P/1 - Quantos anos era o curso de Auxiliar?

 

R - Dois anos. E logo em seguida o Curso Comercial, quatro anos.

 

P/1 - E que disciplinas que a senhora lembra que existiam nesse curso de Auxiliar?

 

R - O Auxiliar tinha assim: português, matemática, auxiliar de escritório... Mas eram coisas mais básicas, sabe? Depois, com o Curso Comercial, é que completou, né? Também eram várias disciplinas, como eu mostrei, várias disciplinas mesmo, mas assim, mais era básico, para você ter base pra continuar a fazer o curso secundário, que antigamente era secundário, depois o superior. E a escola SENAC deu... Eu posso falar isso, na minha época tudo, ela deu muita base. O básico era mesmo básico, português, por exemplo, eu posso dizer sinceramente o que eu sei de português, o que eu aprendi, aprendi mesmo lá. O professor era o professor Celso Moraes Silveira, então... Porque o português a gente precisa estar frequentemente reciclando, mas o básico foi lá mesmo, no SENAC. Inclusive a matemática, todos foram excelentes professores, mas alguns a gente lembra, pra homenagear todos... O senhor Celso, Nazarena Cortês, Áurea Schiavon são os mais destacados, porque, como eu comentei, são professores que se dedicavam aos alunos, eles queriam que eles aprendessem mesmo, então davam a maior força. O pessoal... Olha, da turma, todos se destacaram, inclusive dessa turma dois alunos ganharam bolsa de estudo para o exterior, não posso me lembrar os nomes... Hoje são bancários, são contadores, são universitários, professores primários. As mulheres, a maioria fez Magistério, então são professores, hoje quase todos aposentados, e outros funcionários também, funcionários públicos.

 

P/1 - Quem eram os alunos que frequentavam a escola? Como a escola selecionava eles?

 

R - Lá não tinha seleção, que eu me lembre, na época não havia seleção. O pessoal ia e se matriculava até o limite de vagas, não havia uma seleção não, pré-vestibular... Se matriculava. Teria que ter terminado, claro, o curso primário, que era essencial, e depois era o secundário.

 

P/1 - E a escola fazia visitas às empresas?

 

R - Não, que eu me lembre não faziam. Não chegava ainda a... Porque era um curso Comercial Básico, né? Acho que não era tão voltado para as empresas, eu acredito. Era mais escritório, comércio, talvez.

 

P/1 - E a senhora se lembra de outras atividades, por exemplo, torneios esportivos ou culturais?

 

R - A gente participava. Eu era do diretório, eu era... Centro, centro acadêmico. Mas eu, por exemplo, não participei, não participava, porque inclusive eu sempre trabalhei e estudei, então foi uma coisa meio complicada, mas o pessoal se organizava pra isso sim. Recreação, bailes, brincadeira dançante que chamava antigamente, não era um baile assim, brincadeira dançante. Então eles tinham as suas atividades, esportes, mas eu acredito que naquela ocasião a maioria tinha outra atividade, eles trabalhavam e estudavam. Não quero dizer com isso que eram pessoas de pouca renda, não eram, muitos optavam, tinham condições de pagar uma escola, por exemplo, mas optaram pelo SENAC. E era uma turma muito boa, sabe? Uma turma unida, então muito boa, entre Docentes e alunos era uma coisa, era uma família. Então as lembranças do SENAC são muito boas.

 

P/1 - No que a senhora trabalhava durante o curso de Auxiliar de Escritório?

 

R – Então, eu fazia... Eu trabalhava como bordadeira, eu bordava à máquina, máquina industrial. Era isso no começo, e depois, terminando o SENAC, é que eu ingressei no funcionalismo. Então de lá pra cá, funcionária pública.

 

P/2 - Como a senhora coordenava essas duas atividades? Quer dizer, que horas eram as aulas e que horas a senhora trabalhava?

 

R - As aulas eram noturnas. A gente trabalhava durante o dia e à noite ia pra escola.

 

P/1 - E a escola era perto da sua casa?

 

R - Em cidade do interior é tudo perto, não tem, como São Paulo, uma distância de meia hora, uma hora, não, não era, era uma distância, vamos supor, de 15 minutos. A escola ficava numa rua chamada 9 de Julho, e eu morava na Avenida Feijó, então lá pra cima, mas no máximo, a pé, 15 a 20 minutos era a distância. Em interior tudo é perto, relativamente perto. Hoje Araraquara está grande também, se você mora num bairro já fica meio distante, mas funcionava tudo no centro, né?

 

P/2 - E nesse curso Comercial Básico tinha aulas práticas ou só teóricas?

 

R - Não, tinha prática sim, tinha muitas aulas práticas. Inclusive esse curso abrangia datilografia, e é muito importante no comércio. Quer dizer, no escritório, sem saber datilografia, não tem condições. Então tínhamos aulas de datilografia, aulas de escrita contábil, tudo era prático, aula de caligrafia pra você escrever bonitinho. Eram aulas muito boas, matérias essenciais. E aula de francês, inglês, latim no comecinho, depois tiraram.

 

P/2 – Existia, naquela ocasião, um Escritório-Modelo em Araraquara?

 

R – Não, do SENAC não.

 

P/2 - Mas vocês faziam estágio em algumas empresas?

 

R – Não, não chegamos a fazer não. O pessoal não fez. Era na própria escola, até que o professor de contabilidade era Tomieko Kakuza, tinha muita experiência, mas não tínhamos escritório não.

 

P/1 - E os comerciantes... Desculpe.

 

R - Eu queria completar que não tínhamos escritório experimental.

 

P/1 - Os comerciantes da região procuravam a escola para oferecer emprego pros formados?

 

R - Eu sinceramente não me lembro, na ocasião. Eu sei que hoje procuram, né? Hoje são muito procurados os alunos do SENAC, eu acredito que sim também, porque muitos se colocaram nas empresas, no comércio, em escritório de contabilidade, principalmente. Porque a maioria foi fazer o curso Técnico em Contabilidade, depois de terminado o curso básico, eles partiram... Inclusive eu fiz o curso Técnico em Contabilidade. Porque de alguns anos pra cá não é mais, não se formava contador. Contador eu não me lembro exatamente qual é o último ano de contador, 1950 e pouco, não me lembro exatamente. De lá pra cá quem faz o curso Técnico em Contabilidade não é mais contador, é técnico em contabilidade. Anteriormente, quem fazia esse curso saía com o título de contador, mas já na nossa época já não era contador, já saía como técnico em contabilidade. Então a maioria foi para escritório, outros fizeram curso superior, Ciências Contábeis.

 

P/1 - E a senhora poderia contar a história de que a senhora recebeu o prêmio de melhor aluna e a medalha de ouro?

 

R – Bom, durante o curso todo, os quatro anos, ninguém... Nunca se tocou nesse assunto pra gente, então a frequência, a aplicação era normal de cada um, a gente... Eu só vim saber um pouquinho antes, depois da entrega das últimas notas, das últimas provas, então foi uma surpresa muito grande, porque eu nem vinha acompanhando se dentre a turma eu teria tirado nota maior alguma vez em algum desses anos. Acho que a gente não se preocupa com isso, se a minha nota é melhor ou pior, a gente se preocupa em fazer a prova e tirar a nota pra... Nem tanto para ser aprovado, porque eu sempre digo que os cursos, as escolas, os cursos que a gente faz, a gente não deve se preocupar só em passar de ano, eu acho que a preocupação de cada um seria aprender, assimilar, o que muitas vezes não acontece com os jovens alunos; querem passar de ano, né? Mas naquela turma não, o interesse era aprender. Então eu nunca me preocupei em ser... Tirar a nota maior ou qualquer coisa assim. Foi uma surpresa, realmente, e surpresa de ter conseguido isso, e surpresa agradável. E no dia da formatura é que eu recebi, tanto o diploma de honra ao mérito quanto a medalha.

 

P/1 - A senhora falou que dois colegas receberam uma viagem pros Estados Unidos?

 

R - É, viagem para o exterior, mas não foi da minha turma, foi da turma seguinte, foram premiados com bolsa de estudos no exterior, e são alunos do SENAC, terminaram o curso no SENAC.

 

P/1 - Na sua turma havia também esse tipo de premiação?

 

R - Não, da minha não foi nenhum, foi na turma seguinte. Essa informação que eu obtive depois, inclusive conversando com uma das que foi professora e tudo, ela tem uma verdadeira... Eu não digo paixão, mas ela gosta tanto do SENAC, trabalhou tanto, que ela enaltece essas coisas. Ela falou: "Olha, se você tiver a oportunidade, você diz que dois alunos nossos ganharam bolsa de estudos para o exterior, pra estudar no exterior".

 

P/1 - E essa medalha que a senhora recebeu significou que a senhora foi a melhor aluna de toda a turma nos quatro anos?

 

R – Sim, nos quatro anos. Não que eu seja inteligente ou qualquer coisa assim. Aconteceu, né? Mas foi uma surpresa muito agradável e gratificante pra gente, isso diz um pouco do esforço... Todos eram esforçados, mas eu fiquei muito feliz.

 

P/2 - E como é que era o cotidiano no colégio... Quer dizer, nesse curso? Vocês usavam uniforme, eram salas de aula mistas, como é que era?

 

R - A sala de aula era mista e usávamos uniforme.

 

P/2 - Como é que era esse uniforme?

 

R – Saia, blusa e até uma gravatinha, sabe? Isso é... Antigamente se fazia muita questão, e era importante identificar a escola, então tinha um emblema na manga, inclusive também na colação de grau foi a questão de se usar o mesmo uniforme para identificar o SENAC mesmo.

 

P/1 - E a escola, ela era respeitada na cidade?

 

R - Muito. Sempre muito respeitada, muito. Bem conceituada, uma escola muito organizada. Isso é um todo que faz a escola assim, desde a direção, os professores, e em consequência os alunos, né? Então é um todo, é uma escola, até hoje eu acredito que é uma escola bem respeitada, uma escola super bem organizada, sempre foi. Na minha época foi uma escola muito organizada, muito voltada para o aluno, para o próprio estabelecimento. Dava muito incentivo ao aluno e a cada um dos professores.

 

P/2 - E foi, assim, o único curso que a senhora fez no SENAC? Ou a senhora fez outros cursos?

 

R - Eu fiz muito pouco curso no SENAC porque depois fui pro funcionalismo, aí a gente precisou fazer curso relacionado com o trabalho. Então no SENAC eu fiz muito pouco mesmo. Fiz um curso de redação oficial, um curso de imposto de renda pessoa física e em matéria de artes fiz um curso de flores, arranjos e flores.

 

P/1 - Isso foi quando?

 

R - Ah, isso foi quando... Isso foi... Não foi muito tempo não, foi quando? 1976, por aí. Eu não sou muito boa de data não, vocês vão me desculpar. Foi bem depois de formada, lógico. Depois que eu sai do SENAC.

 

P/1 - E o prédio do SENAC hoje funciona no mesmo local onde era a escola?

 

R – Não, hoje eles têm um prédio próprio, muito bem organizado, um local ótimo. Antigamente, na minha época, não, era uma casa adaptada. Hoje não, hoje nem tem comparação, tem tudo lá, tudo...

 

P/1 - E o que a senhora achou de ter de voltar ao SENAC, depois desses anos todos, para fazer um curso?

 

R - É sempre familiar, interessante. Você fala: "Poxa, SENAC. Então vamos." Eu só não fiz mais por falta de oportunidade, porque o SENAC realmente oferece muitos cursos, cursos bons, inclusive até curso jurídico é feito no SENAC, no estabelecimento do SENAC às vezes, mas eu não tive oportunidade. Mas foi muito bom voltar. Apesar de não ser no mesmo prédio que eu estudei, parece familiar.

 

P/2 - Fale um pouco pra gente sobre esse curso de flores que a senhora falou.

 

R - De flores? Foi um curso muito gostoso, curso com tecidos, a gente aprendeu até tingir, bolear que fala, comprar os materiais. E todo tipo de flores, inclusive flores para enfeitar roupas de toalete, arranjo de casa, tudo... Então depois, no final, teve uma formatura assim, solene, e fizemos os arranjos com as próprias flores que nós aprendemos a fazer. Até hoje eu tenho guardado as flores que eu fiz no curso, muito bonitinhas. Eu não pratiquei depois né, mas a colega que fez junto, ela ainda faz, foi um curso muito bom, arte mesmo. Como eu não sou arteira, não continuei, mas o curso foi muito bom. (risos)

 

P/1 - Depois do curso técnico em Contabilidade a senhora continuou estudando, né?

 

R – É, continuei. Ingressei no funcionalismo, inicialmente como escriturária, e depois de uns dois anos eu fiz o concurso, sempre através de concurso, fiz um concurso pra cargo de julgador tributário e comecei a exercer. E no decorrer do exercício da função a gente sentiu necessidade de fazer um curso superior, e mais especificamente de Direito, aí eu que voltei a estudar, porque eu fiz, saindo do SENAC, dei um intervalo de alguns anos, fui fazer o curso Técnico de Contabilidade, e fiz o primeiro ano. Passei para o segundo e interrompi para me casar. Eu me casei, aí quando o meu filho já estava grandinho, com cinco anos, eu voltei a estudar, então eu terminei! Voltei para o segundo ano, terminei o segundo e o terceiro e terminei o curso Técnico em Contabilidade. Aí pretendia fazer Direito, mas em Araraquara não tinha ainda o curso de Direito. Então resolvi prestar vestibular em São Carlos, e foi lá... Isso em 70, 70 passei lá, comecei a frequentar, e no meio do ano criaram em Araraquara. Mas eu continuei a fazendo o curso em São Carlos, porque justamente nessa época Araraquara perdeu a sede da Delegacia. Como eu disse, eu trabalhava na Delegacia Regional Tributária de Araraquara, que é um setor da Secretaria da Fazenda, e Araraquara perdeu porque o Estado resolveu... O governo resolveu dividir o Estado em dez delegacias, e Araraquara perdeu porque a sede foi para Ribeirão Preto. Então era a cidade mais próxima, e a minha função de julgador tributário só poderia exercer nas sedes, então deveria ser em Ribeirão Preto, São José, Presidente Prudente, São Paulo ou Santos. Eu optei por Ribeirão Preto, e foi exatamente no ano em que eu entrei na faculdade. Então eu fiz esses quatro anos viajando para Ribeirão Preto, trabalhando o dia inteiro, voltando e indo pra faculdade em São Carlos. Eu fui viajante os quatro anos. Fiz a faculdade de Direito em São Carlos, fiz meu curso de Direito. Quando foi no terceiro ano eu tentei, fiz uma transferência pra Araraquara no terceiro ano. Falei: "Poxa vida, por que eu vou fazer em São Carlos se tem em Araraquara? Já chega na cidade, já vou." Mas infelizmente não me adaptei. Engraçado, a gente se adapta ao sistema da escola, professores e tudo, né? Eu cursei dois meses e voltei pra São Carlos. Então eu colei grau em São Carlos.

 

P/2 - E como advogada a senhora conseguiu galgar algum posto no funcionalismo? Como é que foi a sua carreira dentro do funcionalismo depois da sua formatura?

 

R - A minha formatura contribuiu para o exercício da minha própria função, que é de julgador tributário. Porque o cargo de julgador tributário é um julgamento em primeira instância dos contenciosos fiscais, abrange o ICMS, os inter vivos, a gente julga esses processos. Então é um julgamento em primeira instância, porque a segunda funciona em São Paulo, Tribunal de Impostos e Taxas. O meu curso de Direito serviu para poder exercer a função de julgador tributário, e inclusive nesse período a função era incompatível, eu não pude exercer a advocacia. Eu tinha impedimento total de advogar em consequência da função de julgador tributário. Eu só pude advogar quando me aposentei, em abril de 84. De lá pra cá... Só que nesses quatro anos, aliás, praticamente dez anos anteriores à minha aposentadoria, a função minha era de Chefe de Cartório Eleitoral da 239ª Zona de Araraquara. O juiz me requisitou de Ribeirão para vir trabalhar no Fórum, no Cartório Eleitoral. Então esses dez últimos anos eu exerci a minha função como chefe do Cartório Eleitoral da 239ª Zona, mas a função também impedia de eu exercer a advocacia. Em 84 me aposentei no cargo de julgador tributário e deixei as minhas funções de chefe de Cartório Eleitoral, aí que eu fui advogar. Mas foi assim, a vida inteira trabalhei, trabalhei fora, trabalhei batalhando, deixei o cartório em ordem pra continuar. Depois de aposentada fiquei mais uns dois meses para deixar tudo orientado. Aí quando eu falei: "Bom, a partir de amanhã eu não vou mais", aí deu uma coisa assim e eu falei: "Não, a partir de amanhã é que eu vou." Fui para o escritório no dia seguinte, mas, apesar disso, não deixei o Cartório Eleitoral. Em seguida, trabalhei mais sete anos colaborando com o pessoal do eleitoral, porque o Cartório Eleitoral da 239ª Zona Eleitoral tem poucos funcionários, e eu fiquei dirigindo o cartório durante mais uns sete anos, dirigindo eleição, fazendo eleição. E só agora recentemente é que eu falei: "Bom, agora chega, né?" Então deixei de vez. Mas depois que me aposentei ainda fiquei uns sete anos colaborando com o pessoal, com o juiz do Cartório Eleitoral, juiz eleitoral. De 84 pra cá é que eu estou advogando, militando na advocacia. Eu estou trabalhando assim: conciliando casa, netos e o serviço de advocacia.

 

P/2 - E atividades de lazer, assim, o que é que a senhora faz de atividades de lazer?

 

R - Assim, habitualmente eu não faço nada. Eu, como perdi meu marido recentemente, não tenho feito mais nada.

 

P/2 - Mas a senhora costura ou borda alguma coisa?

 

R - É, costura até que é... Pouco tempo, depois deu uma... A gente precisa fazer alguma coisa, sabe? Porque se não fizer, acaba pirando, como diz na gíria. Então teve um mês aí que eu costurei doidamente. Perguntaram: "Por que está costurando tanto?" Era uma maneira de ocupar a cabeça. Mas no momento o meu tempo é todo tomado, sabe? Porque os filhos da Márcia, inclusive, ficam em casa, a gente colabora, né? Criança toma muito tempo, e mais o serviço de advocacia está tomando bastante tempo. Então lazer praticamente no momento não, estou deixando um pouco de lado. Quem sabe algum dia ainda a gente volte. Nem clube não frequento mais.

 

P/1 - A senhora tem dois filhos?

 

R - Dois filhos, um casal. Eu tenho o mais velho, o Alberto José, que é médico, médico e diretor da Área Médica do Tribunal Regional Federal, 3ª Região aqui de São Paulo. Ele é casado, a minha nora é médica também, e eles têm dois filhos. E a Márcia, que é enfermeira e docente da Universidade Federal de São Carlos. Também tem dois filhos, e o marido é professor universitário também, ele é consultor, inclusive trabalhou um período no SENAC. Então eu tenho quatro netos e uma neta.

 

P/2 - Então a senhora tem escritório?

 

R - Tenho.

 

P/2 - Qual é a área que a senhora mais trabalha no Direito?

 

R - No Direito a área é cível; mais é família. Família, menores, essa parte de inventário, arrolamento é que eu faço mais. Crimes esporadicamente, às vezes quando tem relação com algum cliente do cível a gente acaba atendendo o pedido, mas não faço crime não. Mais a área cível mesmo, a área de família e menores, crianças.

 

P/1 - E senhora Fumiko, quais são os seus projetos ou sonhos ainda a realizar?

 

R - Isso é meio complicado o senhor me perguntar nesse momento. Eu realmente não tenho projetos, no momento não tenho.

 

P/1 - A senhora falou que tem quatro netos homens?

 

R - Quatro netos homens. Eu tenho projetos assim, de continuar vivendo, entende? Que eu tenho a minha mãe com 85 anos, e tem os meus netos, então a gente colabora, a gente vive assim, mas, no momento, falar de futuro infelizmente não posso falar, não tenho.

 

P/1 - E senhora Fumiko, para concluir: o que a senhora achou de ter contado a sua história de vida e a sua história no SENAC para o Museu da Pessoa?

 

R - Eu achei ótimo, eu agradeço ao SENAC. Eu até tinha conversado, eu até falei com a Márcia... Eu, no momento... Quer dizer, se for pensar bem eu não teria condições de ter vindo hoje, ter falado com vocês. Mas vocês foram maravilhosos, me deixaram bem à vontade. E eu agradeço bastante esta oportunidade de ter... Poder falar um pouquinho, eu não tenho muita experiência de vida com relação ao SENAC, mas a gente vem acompanhando como é o SENAC em Araraquara. A gente sabe que isso não pode parar, ele deve continuar com esses cursos, porque é uma escola de formação profissionalizante. Tanto o jovem quanto pessoas mais... Procuram sempre profissionalizantes, e é muito importante isso aí. Então a gente vem acompanhando. Para mim foi bastante gratificante, e no momento que eu aproveito pra agradecer a vocês todos essa oportunidade. Estamos finalizando não?

 

P/1 - Eu só quero perguntar mais: As pessoas do SENAC hoje conhecem a senhora? Sabem que a senhora recebeu a medalha? Ou, enfim, já teve algum, vamos dizer, encontro de ex-alunos que a senhora mostrou?

 

R - Não, infelizmente nós não cultuamos essa amizade depois, assim, de nos encontrarmos, comemorar a data de formatura, né, não foi. Porque eu acho que cada procurou, então a gente tem contato com algumas pessoas. Com referência a vinda eu conversei, tive a oportunidade de conversar com professoras, duas professoras, eu gostaria muito de ter falado com o professor Celso, mas não tive oportunidade. O tempo foi relativamente curto. Agora, com alunos eu não tive oportunidade ainda, mas se eu encontrar vou comentar, conversar com eles. Mas não tive, eles não estão sabendo. Agora, da medalha sim, na ocasião ficaram... Acho que todos receberam, ficaram contentes, e é uma turma muito boa. Até hoje, apesar de a gente não se frequentar, porque não é cidade grande... Mas é incrível, a gente não tem mais condições de nos frequentarmos, de... Sabe? Então a gente encontra assim de esquina, às vezes em supermercado, a gente bate um papo, rememora, comenta sobre o SENAC daquela época. Tem gente que está morando em São Paulo, e alguns em Araraquara. Foi um tempo bom.

 

P/1 - Está bom, muito obrigado.

 

P/2 - Muito obrigada pela entrevista.

 

R - Bom, em primeiro lugar eu quero agradecer essa oportunidade que o SENAC me deu, e principalmente e primeiramente, como se trata de um relato da minha vida, eu só queria deixar o meu profundo agradecimento, quer dizer, isso a gente agradece todo dia, toda hora, a Deus em primeiro lugar, de ter me proporcionado... Quer dizer, começando estudar no SENAC, por exemplo, mas primeiro pros meus pais, ter tido um pai assim, embora tenha perdido cedo, pela minha mãe que hoje está ali, o esteio ainda da família, pelos meus filhos que estão encaminhados, graças a Deus, filhos maravilhosos, igualmente maravilhosos a nora, que é médica, o genro, e pelos meus netos, que a razão da vida da gente; agora, sobre o meu marido, nem teria condições porque foi um companheiro, né? E eu acho que se não fosse ele eu não teria condições nem de fazer... Nem de estar trabalhando na minha função do que eu fui, nem ter feito o curso de Direito, porque realmente foi um companheiro compreensivo, colaborador, participante, inclusive quando eu estava fazendo Direito, no primeiro ano de Direito ele me acompanhava toda noite na faculdade. Então foi uma pessoa maravilhosa, e algum dia eu ainda vou conseguir falar dele sem chorar, mas ainda não posso. Muito obrigada!

 

P/1 - Obrigada a senhora.

 

P/2 - Obrigada.

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