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O que importa é o outro

História de: Cristiano Burlan
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/10/2017

Sinopse

Cristiano Burlan nasceu e viveu no Sul até os nove anos de idade; depois, mudou-se com a família para São Paulo, para a casa de um tio em uma favela. De lá, para Osasco e, depois, para o Capão Redondo. Ainda criança começou a trabalhar; jovem, saiu da casa dos pais, fugindo à rotina de violência e pobreza. Passou a trabalhar em restaurantes e ingressou em grupos de teatro. Viveu em Barcelona, integrou a Legião Estrangeira – começou e não terminou um curso na Academia Internacional de Cinema, em Curitiba. Em 2004, passou a viver profissionalmente do cinema e fez um filme sobre o assassinato do seu irmão, com o qual foi premiado no festival É Tudo Verdade. Completou, três anos depois, um filme sobre a morte do seu pai. Cristiano deve finalizar um documentário sobre a morte da sua mãe e completar a Trilogia do Luto. Recentemente de volta ao teatro, adaptou duas peças após quatorze anos de distância dos palcos. Consciente da sua responsabilidade, Cristiano se entrega ao ofício de documentarista e ao trabalho de dar voz ao outro.


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História completa

O meu nome é Cristiano Burlan da Silva e nasci em Porto Alegre, em 1975, filho de Isabel Burlan da Silva e Vânio Porto da Silva. Avós maternos italianos; avós paternos de sangue português e, quiçá, romeno. Convivi com a avó italiana, Elvira, de sotaque pesado, boa cozinha e três casamentos. Mas, também, com a avó Custódia, de Laguna, Santa Catarina, trabalhadora e mãe de (se não me engano) treze filhos. A vida com as minhas avós preenche muito do meu imaginário.


Os meus pais foram vizinhos de rua, em um bairro da zona norte de Porto Alegre chamado Sarandi. Estudei no mesmo colégio (público) que eles. Aos quinze anos completos da minha mãe, eles se casaram. Da minha infância, violenta e pobre, me recordo aos flashes. A violência na memória me persegue desde a morte de um porco, por um tio bêbado, na minha frente, aos meus seis anos de idade, no Natal. O sangue jorrava. A pobreza me deixava fora de contexto no encontro com os primos mais abastados: os seus olhares me dilaceravam. A minha proteção me veio do carinho e do amor da minha mãe, a quem eu era muito apegado. Me doía a nossa distância na rotina. Guardo uma cicatriz de certa vez em que, não querendo que ela fosse trabalhar, quebrei um vidro e cortei um pulso.

 

Desde os meus cinco ou seis anos de idade, as manhãs de domingo eram de idas ao clube de várzea onde meu pai jogava futebol. O campo era das vacas durante a semana e, antes dos jogos, as crianças limpavam o terreno dos rastros dos animais. O dia começava bem, mas, ao final, a minha companhia era a de um pai bêbado. Na volta à casa, vi muita briga de faca e facão - sobretudo no armazém do seu Vino, esquina de casa, destino de compra de arroz e feijão na semana e de sangue e violência aos domingos.

 

Em casa, o ambiente oscilava. Os meus pais eram engraçados e nos divertíamos, mas também brigavam muito e chegaram até a quebrar paredes da nossa casa. Quando começavam, os meus dois irmãos e eu corríamos para os vizinhos. A violência do meu pai poucas vezes se voltou contra mim. Cansei de ir a puteiro com ele. A minha mãe é que nos buscava. Então, eu tinha dois pais: um que bebia e era violento; o outro, trabalhador, ponta firme. Eu não tinha raiva, mas pena. Fico triste porque ele tinha muito potencial. Mas, quando as coisas não começaram a acontecer para ele, o meu pai foi se sabotando. Era uma pessoa muito sensível. E o mais apavorante nisso é que eu sei que eu tenho isso em mim também. É um demônio do qual tenho consciência e tento controlar.

 

O meu pai trabalhou em uma construtora e em uma empresa de geladeiras antes de virar pedreiro, eletricista e de fazer bicos de manutenção. E eu comecei cedo a trabalhar. O meu primeiro trabalho, aos sete anos, foi como vendedor de panelas na feira, junto a uns ciganos. De tão sozinho, fiz amizade com uns meninos de um acampamento perto de casa. O meu pai aceitou quando comecei a trazer dinheiro para casa. Passávamos dificuldades - minha mãe, assim como o meu pai, desistira dos seus sonhos e trabalhava como empregada doméstica.

 

Criança, a escola foi horrível. O que me salvou foi o contato com a literatura, na segunda série, apresentada por uma professora de nome Nair, em uma sala colorida, tão diversa da escola feito quartel. E o meu apreço pela leitura deu-se pelo exemplo da minha mãe, leitora de gibis no banheiro. Outra saída à violência, à pobreza, à televisão ligada das manhãs às noites em casa: a caça de marrecos e a pesca. Aprendi a atirar muito cedo. Ia com o meu tio - o mesmo da morte do porco - meu pai, meus irmãos e primos e acampávamos em Arroio do Sol e em Gravataí, interior do Rio Grande do Sul. Todos os meus primos matavam, e eu aprendi a matar bicho cedo. Eu não gostava de comer os marrecos e nem gostava de matar. Mas sempre gostei do prazer de comer o peixe pescado por mim.

 

Por volta dos meus oito anos, minha mãe se separou do meu pai, veio pra São Paulo, nos abandonou em Porto Alegre. Nunca tive raiva porque meu pai era muito violento. Ficamos nós, os filhos, com ele, que trouxe uma namorada - a Sandra - para a nossa casa. Alcóolatra e violenta. Moramos, nessa época, em um sítio com o meu avô Edevaldo, em Trevo de Guaiuba, tempo em que eu acompanhava meu pai nas suas vendas de relógios e óculos, em uma banquinha montada e desmontada apressadamente pelo interior de Santa Catarina.

 

Aos meus nove anos, minha mãe voltou. O meu pai se comprometeu a frequentar os Alcóolicos Anônimos e eles reataram o casamento. Viemos para São Paulo, para a Vila Joaniza, uma favela, e ficamos na casa do meu tio Albino. Depois, fomos para Osasco.

 

Aos meus dez anos, estudava de manhã e, à tarde, ia para a USP vender doce, na Faculdade de Engenharia Elétrica, na Poli. Andava com uma caixinha no pescoço. Um dia, descobri a ECA, onde o Guto Araújo e a Cibele Forjaz estudaram, e a sua sala preta, dos experimentos de interpretação dos alunos. Eu não sabia o que era teatro - lá eu vi, pela primeira vez, uma peça e uma mulher nua na minha frente. Na ECA, eu me sentia bem.

 

Um diretor da Poli, conhecido da família, nos conseguiu um apartamento na Cohab Adventista, no Capão Redondo, na região compreendida no Triângulo de Morte, assim como o Jardim Ângela e o Jardim São Luís. No Capão, o Cabo Bruno comandava um esquadrão de extermínio; a Rota e os Pés de Patos (justiceiros, policiais, moradores locais, comerciantes) matavam todo mundo também.

 

Na nossa casa no Capão, tínhamos televisão, sofá, rádio, poucos livros e os gibis da minha mãe. Lá, ganhei uma irmã, Keli, e mais um irmão, o Tiago, além do Rafael e do Ricardo. Criança, eu cuidava dos meus irmãos mais novos - aprendi a trocar fralda de pano aos onze, doze anos. Aos treze, fui, pela primeira vez, sozinho ao cinema. Antes, pequeno, ainda no Rio Grande do Sul, a minha mãe me levava. Me lembro do Cine Leão, na Avenida Assis Brasil. A gente era muito pobre - comprava ingresso, mas não podia comprar pipoca. O meu primeiro filme no cinema foi Os Trapalhões no Planeta dos Macacos, com os meus pais, em um domingo à tarde. O letreiro colorido, neon. O projetor, o escurecer da sala e as imagens. Aquela sensação de já ter estado ali. Mágico.

 

Com treze para quatorze anos, na minha escola, no Capão, havia o descaso dos professores pelos alunos; a biblioteca com sequer vinte livros; a merenda nojenta; as drogas e as notícias de mortes recorrentes. Doze amigos próximos morreram - boa parte por policiais. A grande paúra na periferia era o camburão da Rota ou o Opala Preto. Dentro, podia ser um Pé de Pato, o Cabo Bruno ou algum comparsa. Você sabia que ia morrer. Atiravam primeiro e depois iam entender quem era. Aos quinze ou dezesseis anos, sobrevivi a uma chacina. Jogando futebol na escola, a Rota chegou e atirou em todos. Não contei, não podia chegar em casa e falar “acabei de levar um tiro na cabeça e não morri.” Ninguém se preocupava com quantas pessoas morriam no Capão Redondo.

 

Os cursos livres e a biblioteca Robert Kennedy, em Santo Amaro eram o meu refúgio. Li compulsivamente. Dostoiévski e Ivan Turgueniev. Depois, Tolstói. Arquipélago Gulag, Soljenítsin. Entendia os russos, os gulags, mesmo não estando preso. A pobreza acaba sendo uma certa prisão. Me marcou um trecho de um livro, cujo nome ou autor não me lembro: “Você tem uma certa tendência ao luto”. Mal sabia eu que isso viraria a minha própria história.

 

A minha casa sempre foi a rua, os meus amigos. Nem todos éramos do crime, mas tantos se envolveram apenas porque não havia nada para fazer, para se sentir parte. Cometi meus pequenos delitos; senti a sensação de poder e segurança ao pegar, pela primeira vez, uma 38 na mão e o prazer ao participar de um assalto a mão armada. Mas nunca participei de ações violentas.

 

Sempre tive uma sensação meio Robin Hood, raiva de classes: não roubava alguma coisa de alguém, mas pegava o que era seu, o que me tiraram. A gente tinha essa conversa, com os amigos bandidos, gente que lia e optou pelo crime. Romantizo, mas é uma possibilidade de ver as coisas. Fui chamado para participar do crime porque tinha, como eles chamam, proceder - sabia me colocar, conhecia as gírias, os signos, os códigos. Tinha que saber - ser branco no Capão era um problema. E para sobreviver, você tinha que ser violento também. Se não, você sofria a violência. Então entre apanhar e bater, eu preferi bater. É horrível falar isso, eu não falo isso com orgulho. O meu irmão Rafael foi levado para o crime; eu entrei por escolha própria.

 

Em paralelo, com quinze, dezesseis, dezessete anos, comecei a fazer curso de teatro, descobri a música clássica, as apresentações de balé na Casa de Cultura, no Teatro Paulo Eiró, e passei a frequentar o Teatro Municipal. Os casais brigavam e sempre sobrava um convite. Com dezessete anos, passei a trabalhar em um restaurante e fui morar na Bela Vista, em um apartamento sublocado. Foi a liberdade. Ser garçom estava na moda entre os atores. Me interessei pela gastronomia e trabalhei por dez anos em restaurantes - no Spot, no Ruella, no Le Tan Tan e fora do país. Cheguei a abrir um restaurante em Goiânia, fiz curso de sommelier.

 

A vida nos restaurantes foi ladeada pela entrada no teatro. Primeiro, no grupo do meu amigo Caetano Viela; depois, na Companhia de Arte Degenerada, do Sérgio Ferreira. Descobri, cedo, que como ator eu era medíocre. E como diretor, nessa época, é para esquecer. Mas foi importante. Voltei ao Capão Redondo e comecei a dar oficinas - lá montei o grupo A Fúria.

 

Com vinte e dois anos de idade, juntei dinheiro e fui para Barcelona. Comecei um curso no Instituto de Teatro de Barcelona. Ganhei bolsa parcial, mas o curso era em catalão. Não foi legal. O dinheiro acabou rápido. Fiz amizade com uns marroquinos e comecei a fazer pequenos tráficos para me sustentar. Fui para Tânger – apaixonado, atrás da prima de um traficante. Muçulmana, fui ameaçado de morte pelos seus parentes. De volta a Barcelona, conheci um brasileiro indo para a Legião Estrangeira e a ele me juntei. Tinha na memória o relato do Jean Genet no Diário de um Ladrão.

 

A experiência na Legião, em um quartel próximo a Marselha, foi horrível. Tinha que aprender técnicas de luta e de tortura; decorei a Marselhesa, jurei a bandeira. Com três meses de quartel, não completei o treinamento. Forjei meu teste psicotécnico e fui expulso, com cem francos no bolso e um colega da Córsega. Liberto, aproveitei quatro noites intensas em Marselha.

 

Em 1999, com vinte quatro ou vinte e cinco anos, voltei ao Brasil e a trabalhar em restaurante. Retomei o contato com o povo do teatro e tentei fazer cinema - tinha feito uns filmes ruins em Super-8 em Barcelona. Pensei que talvez o cinema fosse um lugar para se estar. Comecei a ver filmes compulsivamente - no cineclube, na Mostra de Cinema, no festival É Tudo Verdade. Depois de anos, voltei ao Capão. Morávamos o Rafael, separado da ex-esposa, e eu. Eu o levei para trabalhar em restaurantes, e ele aprendeu a ser um bom barman. Muito bonito (loiro de olhos azuis) e assanhado, comeu qualquer ser que andou e rastejou pela face da terra. Um dia, eu o vi pegando, no banheiro do restaurante francês onde a gente trabalhava, o Vivi, um rapaz muito moderno. Rafael era um pansexual, com um poder de atração muito forte.

 

Para Rafael, a rotina no restaurante deu lugar ao roubo de carros sob o comando de um policial da Rota. Certa vez, ao cobrar o seu pagamento por um trabalho, foi morto. Na véspera, eu o havia encontrado fumando crack em casa. Experimentei muitas drogas, vi muitos usuários de heroína, mas achei isso muito pesado. Foi a minha mãe que me telefonou e contou, chorando, sobre a morte do Rafael. Um primo tinha sido testemunha. Jantando com uma namoradinha, contei o que havia acontecido e obtive como reação: “Esse negócio de morte e pobreza eu não trabalho muito bem”. Ela levantou e foi embora. E eu encontrei o meu irmão em uma vala comum, morto com sete tiros pelas costas. Enlouqueci.

 

Quando alguém morre na periferia, o corpo fica coberto com jornal cinco, seis horas até chegar o camburão, o IML, a polícia científica. Lá, esperando, eu reconheci os assassinos passando na rua. Coloquei alguns deles na cadeia. Mas, antes, um amigo me deu uma 380 e mais um 38 e muita cocaína. Passei dois dias cheirando e pensando em matá-los. Quase coloquei fogo na casa de um deles. Recuei ao ver uma senhora sair da casa com mais duas crianças. Não me tornei um assassino.

 

Após a morte do Rafael, passei uns dois anos hesitando viver. E, depois, resolvi estudar cinema, na Academia Internacional de Cinema, em Curitiba. Fui bancado por uma namorada abastada, amigos e pequenos trabalhos. O primeiro bolsista da escola. Antes de ser expulso, fiz um curta que entrou em um festival internacional. Nessa época, eu só estudava e bebia. Paulo Leminski dizia: “Beber em Curitiba não é crime, é legítima defesa”.

 

Morando em Curitiba por dois anos fui a boas salas de cinema e depurei o meu olhar. Mas passei muita fome e frio. Tenho uma relação de amor e ódio com aquela cidade. Conheci pessoas legais, mas me decepcionei com os professores técnicos e pouco cinéfilos, exceto o Fernando Severo.

 

Por volta dos meus vinte e cinco anos, a minha mãe se separou do meu pai, saiu do Capão para Uberlândia, com o Lourival, um borracheiro que fora seu vizinho, e com meus irmãos Tiago, Ricardo e Keli. O meu pai acabou indo para Uberlândia - e a minha mãe se separou do Lourival e aceitou o meu pai de volta. Mas, nesse reatar, o meu pai tentou agredir minha mãe de novo. O meu irmão, o Tiago, brigou com ele. O meu pai escorregou, caiu, bateu a cabeça e morreu após uma semana de hospital, em 2004. Fui para Uberlândia enterrá-lo. É uma cidade que eu odeio, aquela terra vermelha. Fiquei um pouco com raiva do Tiago, quando o meu pai morreu. Mas eu vejo o meu pai nele - são muito parecidos.

 

Desde 2004, já vivendo profissionalmente do cinema, me sentia responsável por contar a história do Rafael. Começo o filme do meu irmão procurando os seus ossos para reconstruir a sua imagem. E, com o filme sobre ele, me senti útil no cinema pela primeira vez. Foi uma virada como artista e ser humano.

 

Fazendo um filme sobre a morte do meu irmão, quis falar sobre os muitos irmãos e adolescentes mortos nas periferias das cidades brasileiras. O mais importante do filme é que ele é tocante para algumas pessoas. Em uma das suas cenas, apavorante, a minha irmã diz: “Todo mundo morreu de maneira muito violenta e eu acho que isso é a nossa sina. E acho que isso vai acontecer com a gente também”. Talvez seja uma sina mesmo.

 

Sou duas pessoas diferentes - diretor e professor, na Célia Helena e na Academia Internacional de Cinema. Leciono há onze anos na AIC, escola donde fui expulso. Dar aula é importante. O cinema é cancerígeno: vaidade, jornal e viagem. Sinto ansiedade quando estou produzindo e frustração quando realizo.

 

Sempre tive apreço pelos marginais na História da Arte: Samuel Fuller, Nicholas Ray, Rogério Sganzerla, Glauber. Cineastas que fizeram seus filmes com poucos recursos. O advento de novas tecnologias digitais democratizou o acesso de novos realizadores.

 

Da minha parte, sempre terminei os meus filmes. Finalizei meu décimo quarto longa agora - já passei dos vinte filmes, vou parar de contar. Acredito que, modéstia à parte, talvez eu tenha um pouco de estilo para fazer filmes, senão eu já teria me matado também. E adoraria que os meus filmes fossem vistos sob outra perspectiva que não só a de um ex-pobre, bandido, salvo pela Arte.

 

Filmar para mim é como respirar e, quando eu comecei a respeitar meus instintos, o cinema começou a acontecer para mim de maneira mais orgânica. Demorei dez anos para que isso acontecesse. Hoje, no cinema, tento não levar tão a sério as coisas. Perdi a ingenuidade, mas nunca a inocência. A perda da inocência traz por consequência o cinismo - e a morte para um artista.

 

Em 2007, fiz um filme sobre o meu pai – chama Construção. Um média metragem muito simples, de 48 minutos em um canteiro de obras. Cinco minutos de tela preta no começo só com o som da obra. Com Construção participei pela primeira vez da competição no É Tudo Verdade. Naquele ano, o João Moreira Salles foi hors concours com Santiago. No Estadão, a manchete foi: “Festival É Tudo Verdade esse ano tem o filho do pedreiro e o filho do banqueiro”. Fui vaiado, mas senti tanto prazer aquele dia porque foi a primeira vez que as pessoas reagiram ao meu trabalho. A sala lotada. Em 2013, voltei ao festival, em competição, e ganhei o prêmio pelo documentário do meu irmão.

 

Essa série de filmes sobre a minha família eu chamo carinhosamente de Trilogia do Luto: o primeiro, sobre o meu pai (Construção); o segundo, sobre o meu irmão (Mataram meu irmão). O terceiro eu começo a filmar no domingo, que é Dia das Mães. Para mim é um rito de passagem. No filme sobre a minha mãe, o relato é sobre a sua morte, por um cara mais jovem, um pedreiro, com quem ela vivia. Analfabeto. Descobri isso quando formos assistir a um DVD – minha mãe pediu para colocar dublado (o que eu odeio) porque o sujeito não sabia ler as legendas. Eu o achava muito estranho. Recebi a notícia de que ele a tinha agredido, fiquei transtornado. Três semanas depois, ele a matou enforcada. Ciúmes. Minha irmã a encontrou nos fundos da casa, estrangulada por um fio.

 

O que me impulsiona a continuar? Sou gaúcho. O Rio Grande do Sul é um estado onde os homens são misóginos, violentos, machistas. Reconhecer o machismo em mim é apavorante. Assisti a um filme chamado Precisamos Falar sobre Assédio, de uma moça. Fiquei tão apavorado com aquilo - eu me reconheço naquilo também.

 

Minha mãe foi morta por um homem e sofreu violência masculina a vida inteira. Tem uma questão ali, além de pessoal: o Brasil é um país violento com as mulheres. Pensei em filmar a minha mãe no dia da sua morte e essa ideia de filmá-la me oprime até hoje. O assassino da minha mãe está solto - uma das possibilidades do filme é que eu vá atrás dele.

 

O filme sobre a minha mãe vai se chamar Elegia de um Crime. Tenho o roteiro até o primeiro dia de filmagem; depois, esqueço tudo. Preciso me relacionar de maneira orgânica com o filme. A coisa já não é mais racional – ela tem que ter um batimento humano. Tenho que me colocar no lugar do outro e que a câmera se torne uma via de mão dupla. O título para esse filme surge inspirado em Alexander Sokurov, o primeiro cineasta a fazer um filme em uma única tomada, Arca Russa. O Sokurov tem uma série de filmes emotivos, de Elegias, de lembranças, sobre a influência do Tarkovski, a arte, a música.

 

A outra coisa que eu não sei se vou ter coragem de fazer ou querer - eu já tenho até editora - é um livro. Ele vai chamar Nota Sobre Luto: a minha história pessoal com a feitura desse filme. O Jean Claude Bernardet, importante na minha vida, colocou isso na minha cabeça. O Jean Claude e eu, a gente se reconhece é numa certa dor e brinca com o tema da morte. Reconheço essa abertura à possibilidade do imponderável em boa parte dos meus parceiros de trabalho. Para mim é fácil falar – tive que correr riscos a vida inteira.

 

O luto opera na minha sensibilidade de uma maneira estranha: não consigo mais ver o rosto da minha mãe. É como se o meu corpo me protegesse. O filme é a minha última homenagem a ela, apaixonada por filmes, e que forjou muito do meu ofício. E é, antes de mais nada, uma tentativa de um filho reconstruir a imagem da sua mãe.

 

A minha irmã está em Uberlândia, é casada, cabelereira e tem duas filhas. Tenho um sentimento por ela que não gostaria de ter: pena. Tão doce e sensível, foi ela que encontrou a minha mãe morta. Toda vez que eu tenho que voltar às coisas da família é uma semana sem dormir, é horrível. Mas, contraditoriamente ou não, sinto falta do ambiente familiar. Estou morando com uma pessoa há dois meses. Não sei se vai dar certo, mas estou tentando. Não tenho filhos.

 

A minha vida é uma tragédia. Nunca parei para pensar em felicidade – o que eu mais busco é poder dormir uma noite tranquila. Acordo e o que vem à mente é a imagem da minha mãe morta, o corpo do meu irmão, meu pai chorando de dor no hospital. Não cheguei a uma conclusão, mas o eu são os outros e os outros são essa minha história. Quanto mais eu sou, mais eu me reconheço no outro. Antigamente, eu me preocupava muito como os outros me viam. Perda de tempo. Então, o meu eu: a minha mãe que morreu, o meu irmão que foi assassinado e a minha irmã que tem uma vida dura.

 

Agora, fiz o Estopô Balaio: voltei à periferia depois de ter virado burguês, retornei a um lugar do qual me afastei por opção. Esse filme me fez rever minha relação com o trabalho, com a vida com os amigos, relação amorosa.

 

Dialético, reflito o tempo todo e tenho consciência da minha mediocridade e dos meus fracassos, o que não me impede de fazer. Na minha história de vida, se eu tivesse hesitado, estaria morto ou morando na periferia com cinco, seis filhos, empregado em uma fábrica.

 

O meu maior medo é acordar e me ver impedido de trabalhar - por exemplo, doente. O meu trabalho é falar sobre filmes, ou fazer filmes, ou fazer teatro. Tudo o que eu sempre quis na minha vida. O cinema talvez tenha me salvado - ou tenha me feito me perder completamente. Hoje vivo um momento (antes impensável) em que às vezes sou pago para fazer isso. Se tem alguma felicidade, talvez seja isso.

 

Não tenho expectativa em relação ao cinema - quero fazer coisas grandes no teatro, ao qual retornei, agora, passados quatorze anos. Com um sócio, pela Cia dos Infames, montamos A Vida dos Homens Infames, a partir de textos do Foucault, e a Música Perfeita para o Suicídio, de escritos de Emil Cioran. Teve público, mas não crítica. Ainda assim, senti um prazer que eu não sentia há um tempo trabalhando. Me senti voltando para casa. O teatro é um lugar agradável para se estar.

 

Estou tentando controlar a minha ansiedade. A sensação é que eu estou no lucro há muito tempo já. Queria puxar o freio de mão e curtir. Sinto falta de ser vagabundo (na melhor acepção da palavra) e não fazer nada. Mas, ao mesmo tempo, se eu não estiver filmando, fazendo uma peça ou dando aula, que sentido vai ter a minha vida? Queria ser um diretor clássico filmando, em Paris, com aquelas atrizes maravilhosas, bebendo champanhe, e não um cineasta aparentemente marginal, sem grana, que deve no banco e tem o cartão de crédito sempre estourado. Mas, está tudo certo.

 

Fiquei surpreso e feliz com esse convite do Museu da Pessoa. E completamente apaixonado porque o contato com as pessoas, com as histórias é força motriz para o meu próprio trabalho. Aqui, eu não deveria receber, deveria pagar. Isso tem sido um fôlego como artista e ser humano. O que importa é o outro. O trabalho do Museu vai ao encontro com o meu ofício como documentarista. Recontar, trabalhar com a memória. E eu acho lindos os rostos das pessoas buscando o seu passado, a ressignificação da sua própria história por meio da palavra, do verbo, ou até dos silêncios. É luminoso mesmo; há um renascer nessa verbalização.

 

É bonita a história dos outros. Em Rei Lear, de Shakespeare, há um personagem de uma fala só: “Há um mundo lá fora”. O universo do cinema é antisséptico, de conversas só sobre cinema. Ter contato com histórias reais de pessoas, vidas distintas, é estimulante e prazeroso.

 

Ao filmar, as pessoas não são só vozes, mas imagens. Sou um instrumento de revelação dos signos. Para isso, preciso de tempo, humildade, para que o outro apareça e as coisas se revelem. Já perdi muito filme porque eu não tive a sensibilidade necessária para ouvir o material. Hoje, como artista, eu tenho vontade de ver com os ouvidos e escutar com os olhos, uma subversão dos sentidos.

 

Aqui, no Museu, preciso de depuração e diálogo com o material, em respeito às histórias. Elas reverberam dentro de mim. Não posso ser um artista truqueiro. Nem um esteta, trabalhando a forma pela forma. Há uma responsabilidade com ressignificação.

 

E achei do caralho essa imersão de três dias aqui Museu. Sou uma pessoa muito reservada, mas estou ficando mais facinho - acho que estou perdendo a fibra de bandido. Estou mais abusado depois que fiz 40 anos, adorando experimentar. O resultado do meu trabalho, aqui, será um filme. Mas eu também sinto uma frustração de que talvez o trabalho demande uma capacidade que eu ainda não tenho. Não tenho uma relação frívola com o cinema - para mim, existe um ritual. É diferente ter que elaborar a partir de histórias de outras pessoas que eu nem conheço, que estou conhecendo ali por meio da imagem, do som, da voz, do seu discurso.

 

As escolhas do Museu, para a Mostra, foram muito boas. Tenho fé no olhar único, individual. Eu me sinto em uma casa de malucos: à vontade. Não são em todos os lugares, e nem em todos os projetos em que estou envolvido, que eu me sinto tão bem assim. Sinto uma unidade, uma boa onda.

 

Entendo que o Museu tem um trabalho monumental de registro, reprodução e de transmissão de histórias. Só posso agradecer porque eu estou estimulado e espero que as pessoas gostem do que vão assistir. E se não gostarem, não tem problema. O problema é a indiferença: que haja uma reação. Contar a minha história para o Museu foi sadomasoquista, incrível e sofrido. Não sei se o meu relato tem alguma relevância ou se vai servir para alguma coisa. As pessoas vão achar que é mentira. Até eu acho que não aconteceu comigo.


 

Editado por Camila Curado

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