Busca avançada



Criar

História

"O senhor não sabe que o Getúlio se suicidou?”

História de: Rony Castro de Oliveira Lyrio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Em seu depoimento, Rony fala sobre sua família, que deu muito importância à sua educação colocando-o nas melhores escolas. A escolha de fazer Direito e tornar-se advogado, a ironia de ter perdido a entrevista de emprego na Vale do Rio Doce em uma data histórica e como um ano depois conquistou seu lugar na empresa pública. Conta também sobre as peripécias de Jânio Quadros e seus bilhetinhos, o Clube Cauê, os contratos internacionais relacionadas ao minério de ferro com nações como o Japão e a Austrália. A criação do Porto de Tubarão em Vitória, no Espírito Santo, e toda a burocracia que foi construí-lo. Entre outras vivências, conta causos sobre suas viagens e momentos marcantes da sua carreira tanto na Vale do Rio Doce como na SulAmérica Seguros.

Tags

História completa

P/1 - José Carlos Villardaga

P/2 - Claudia Resende

R - Rony Castro Lyrio

 

P/1 – Então, senhor Rony, pode começar?

 

R – Já começou? Eu só queria perguntar se dirijo a você e a ela, ou “José Carlos, você me perguntou isso” ou “Claudia, você perguntou...” Não? Como quiser. Qualquer coisa vale?

 

P/1 – Do jeito que o senhor se sentir mais à vontade. A primeira pergunta é o seu nome completo, data de nascimento e local de nascimento.

 

R – Nome completo é Rony Castro de Oliveira Lyrio, nasci no Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1932.

 

P/1 – Os pais do senhor, o nome deles e o que....

 

R – Osvaldo Lopes de Oliveira Lyrio, Clara Castro Lyrio. Nascido um no estado do Rio, outro em Minas Gerais.

 

P/1 – O pai do senhor, qual era a atividade principal dele?

 

R – Ele teve várias atividades, parte do comércio, teve no banco e depois se aposentou, até trabalhou um tempo na Docenave, que era, naquele momento, uma empresa ainda muito em formação, tinha dois ou três funcionários, então era mais uma cooperação do que um trabalho.

 

P/1 – Ele já estava no Rio de Janeiro? Ele veio pro Rio e?

 

R – Ah não, ele veio pro Rio garoto. Formou-se aqui. Nasceu no Espírito Santo, mas formou-se aqui. Formou e desenvolveu sua atividade toda aqui no Rio de Janeiro.

 

P/1 – O senhor tem alguma ideia da origem da família do senhor? Da onde que ela veio, alguma informação do tipo?

 

R – Olha, a família do meu pai vem da Espanha, naquela zona ali: Espanha, Portugal. Alí, naquela Galícia, mas muito tempo antigo, né, três, quatro, cinco gerações, não sei nem, não dá pra remontar. Sei que vem de lá, da parte dali da Galícia. A família da minha mãe não, era assim uma família muito tradicional de Minas, a família Resende, uma família também de muito tempo no Brasil, que presumo, de origem portuguesa, mas também que se perde no tempo. Não dá pra vislumbrar um parente europeu antes de quatro, cinco gerações, um parente europeu que não seja português, né? (risos)

 

P/2 – De qual região de Minas que ela vem?

 

R – Daquela região de Juiz de Fora, família Resende ali na região da mata, né? Aliás, a família Resende se espraia muito por Minas Gerais. Era uma família muito antiga, mas nós nunca tivemos essa questão de tradição de família. Eu sei que é Resende porque tinha um livro “a família Resende”, mas nós não cultivávamos esse conceito de ser tradicional, de família. Pelo contrário, havia até um negócio de que essa tradição que muitos ficavam invocando, não era algo que, a não ser questão de sangue que representasse algo na nossa vivência, na nossa maneira de ser.

 

P/1 – No ambiente doméstico, como é que era a casa do senhor? Onde morava?

 

R – Você fala o ambiente físico?

 

P/1 – Físico e familiar.

 

R – Familiar era muito bom, muito simpático, agradável. Pessoas que, eu acho, que estavam em certo sentido, avante, na frente do Brasil daquele tempo, que se preocupavam muito com a educação dos filhos. Numa época que ninguém estudava línguas, forçavam a gente, evidentemente, a gente ficava danado da vida, né, nós éramos forçados a estudar inglês, estudar francês. Quer dizer, tinha uma noção um pouco adiante do Brasil de 60 anos atrás, vamos dizer, 50 anos atrás, mais ou menos, minha juventude. Então do ponto de vista cultural, influenciaram muito os filhos, né, e do ponto de vista material, uma família de classe média, bem de vida, nunca tivemos dificuldade. Isso ajudou muito essa convivência sem problemas, tenho boas memórias, graças à Deus. Boas memórias fazem parte. Nós estamos no projeto memória, boas memórias ajudam muito, né?

 

P/2 – Quantos irmãos o senhor tem?

 

R – Eu tenho dois irmãos. Comigo, três. Também acho que se beneficiaram desse problema, todos foram bem sucedidos na vida, razoavelmente bem sucedidos. E, então acho que são recordações boas da família, não só dos meus pais, mas dos avós. Minha mãe ainda tinha um aspecto assim, meio cultural, obrigava, estimulava. Naquele tempo, estimular era obrigar, né? A estudar instrumentos musicais. Então tinha violão, naquele tempo, acordeão, que era um instrumento detestável, né, mas a gente tinha que aprender a tocar acordeão. Então, mas tudo isso, nesse sentido que eu estava falando, criou uma atmosfera boa dentro da família, uma atmosfera cultural, vamos dizer, de preparação básica que eu acho que nos ajudou muito no correr da vida profissional e da vida pessoal.

 

P/1 – A família formava uma bandinha de música?

 

R – Não, não chegava a tanto não. Mas todos eram obrigados a estudar.

 

P/2 – O senhor estudou esses instrumentos todos?

 

R – Estudei violão, acordeão, mas eu era muito ruim, eu tocava muito mal, sabe, de modo que... Quando a gente não faz uma coisa bem, a gente desanima, né, mas fica a parte básica, fica a parte do gosto da música, o gosto da música clássica, ou à música popular. O gosto da música, né?

 

P/2 – A sensibilidade, né?

 

R – A sensibilidade com aquela grande frustração de quem deveria fazer uma coisa bem e não conseguiu. Então, quando a gente tem uma frustração de não fazer uma coisa bem, a melhor coisa que a gente tem pra desculpa é dizer: “Eu não gosto disso!” Então eu digo que não gosto nem de violão nem de acordeão, mas o acordeão, ficou, o violão não. O violão é um instrumento extremamente interessante que comporta todas as variações desde a música popular até uma música clássica. Mas o acordeão não comporta nada, é ruim demais, né, é muito barulhento. Não gosto, não.

 

P/1 – O senhor nasceu em que região do Rio, que local?

 

R – Na Tijuca.

 

P/1 – Na Tijuca. E passou a infância ali?

 

R – Não, um período pequeno, até uns quatro, cinco anos. Depois nós fomos pra Copacabana, naquele tempo, Copacabana ainda era uma outra cidade, né, dava informação... Depois Botafogo, outra vez Copacabana, Flamengo. Mas a infância, até os 13, 14 anos, foi Tijuca, Copacabana e Botafogo.

 

P/1 – E o Rio desse tempo, que lembrança o senhor tem desse Rio de Janeiro?

 

R – Eu tenho lembranças agradáveis. Morei na frente da praia em Copacabana, Av. Atlântica, né, que é o período que eu começo a me lembrar; Botafogo também. Em Botafogo, eu morava ali na rua da Matriz, antes de eu morar em Copacabana, que é hoje, não sei qual é sua vivência no Rio de Janeiro, é a boca da Dona Marta, que não havia, né, aquela favela. Havia uns princípios, assim, havia umas poucas casas se formando no morro. Então, é pra mostrar como era tranquila a cidade. Era muito tranquila, eu morava ali, não havia esse problema que hoje lá tem. E Copacabana então, a Av. Atlântica era deliciosa. Não é isso que vocês conhecem, era uma rua de uma pista só com mão e contramão na Av. Atlântica, e extremamente agradável, que a praia era vazia. Todo mundo aproveitava muito a praia, tinha aquele negócio de interior de andar na praia pra lá e pra cá, pra ver as moças, nem sei como é que chama, (corso?) ou coisa que o valha. (Footing?), né? Então era muito interessante e calmo, uma vida, não vou dizer de cidade pequena, mas que no bloco, no quarteirão, um, dois, três quarteirões, ou Posto, chamava Posto três, Posto Quatro, né? De uma maneira geral, todo mundo se conhecia, então era quase como se fosse uma vida de cidade pequena numa grande cidade, embora o Rio fosse uma grande cidade, já em termos comparativos do Brasil. Mas a grande transformação veio depois, a transformação de Copacabana, veio com a guerra, a imigração. Aí começaram a construir aqueles edifícios e chegamos àquela loucura que, infelizmente, é hoje. A Av. Atlântica continua sendo muito bonita, mas lá pra trás é uma confusão danada, né? Mas era muito agradável, né, o prazer de viver, praia calma, ficava-se na praia, brincava-se, tinha, isso que ainda existe hoje, o bar na praia, o choppzinho na praia. Então tudo isso era muito interessante, foi muito interessante ter participado disso, né?

 

P/1 – O senhor estudou em que escola?

 

R – Eu estudei num colégio chamado, antes do primário, era o Colégio Nossa Senhora de Lurdes, que era um colégio de freira. Depois passei para o Anglo Americano, Andrews, e aí faculdade. Só passei por dois colégios, a não ser na fase primária que foi no Nossa Senhora de Lurdes.

 

P/1 – Ter estudado em colégio de freiras, tinha alguma conotação religiosa dentro da família? Eles tinham algumas coisa?

 

R – Naquele tempo, os bons colégios do Rio de Janeiro eram basicamente colégios religiosos, de padres, né, Santo Inácio, São José, São Bento, mas não tinha primário - pré-primário que chama hoje, antes do primário - então era comum que colégio de freiras tomasse conta das crianças; se ensinasse o primário até o quarto ano. Numa admissão, então, grande parte - quem era religioso, né, - ia para os colégios religiosos, de padre, etc. Basicamente, esse colégio Nossa Senhora de Lurdes era muito ligado ao Santo Inácio, então a tendência era quase que um prosseguimento daquele colégio, passava pro Santo Inácio. Mas eu não passei por lá, fui pro Anglo Americano - que foi justamente o contrário, um colégio completamente dissociado de qualquer religião. Aí um pouco, já mais nesse sentido que eu estava me referindo: de permitir uma educação mais aberta, a questão de inglês. O próprio nome, Anglo Americano, já era um nome esquisito para o Brasil daquele tempo. E aí realmente, eu fui por aquele caminho do Anglo Americano, passando pro Andrews, que também era um colégio sem nenhuma vinculação religiosa, por aí foi. Mas era a predominância daquele tempo, os bons colégios eram realmente os colégios religiosos. Padre sempre teve fama de educar muito, ser um bom educador, rigoroso...

 

P/1 – Com a régua na mão...

 

R – Não, régua na mão eu não peguei não, mas era beliscão de freira. Eu peguei muito, sabe? Beliscão de freira no primário. Mas régua na mão não foi meu tempo. Era um ambiente educacional, como você está falando, muito rigoroso, então os padres com a fama de disciplinadores, todo mundo gostava do, todo mundo não... Os pais gostavam, né, que os filhos tivessem aquela disciplina. No caso do Santo Inácio, os jesuítas, que são excepcionais educadores, né, e naquele tempo, extremamente participantes da vida do colégio. Os colégios eram pequenos, muitos dos padres eram professores. Eu acho que ainda hoje, o Santo Inácio, São Bento, São José, todos têm uma tradição muito grande, ainda são excepcionais colégios, mas, vamos dizer, as alternativas eram poucas de colégios que não fossem religiosos; o Anglo Americano era uma exceção, o Andrews era uma exceção. Havia um ou outro colégio jacobino, umas coisas assim, pra mulheres, meninas, não havia o que chama democratização do ensino, que houve hoje, que existe hoje em dia, que ao mesmo tempo deteriorou um pouco o ensino, mas abriu um universo muito maior de alternativas, de oportunidades, etc.

 

P/1 – Esse investimento na educação, de uma educação mais aberta, era compartilhada pelos seus pais?

 

R – Sem dúvida, pelos dois, mas minha mãe talvez fosse um pouco mais impulsionadora desse movimento, nesse sentido educacional, mas com o apoio muito grande do meu pai, que tinha talvez uma formação menos aprimorada do que ela. Eu diria, um homem que tinha uma sensação de que o futuro permitia fazer muitas coisas. Era um homem que estimulava, que tinha sonhos, talvez até um pouco demais, de sonhar um pouco demais, mas que a pessoa que tem sonho, tende a realizar mais do que aquelas que vive na praticidade do dia a dia.

 

P/1 – Que sonhos o pai do senhor tinha? O senhor lembra disso?

 

R – Não lembro não. Sonho de fazer coisas. Era um homem que vivia criando coisas, fazendo coisas, fazendo negócio, às vezes dava errado e começava outra vez. Sabe aquelas personalidades que, às vezes, estão apanhando, apanhando e alguém joga um refrigério, um pouco d’água, né? E aquilo parece que nem, como se fosse uma planta... Então ele revive, começava outra vez com o mesmo ânimo. Era sonho no sentido que estava sempre querendo fazer uma coisa nova e que não desanimava com as eventualidades dos erros, dos retrocessos. Então foi uma pessoa que eu guardei muito a imagem dele sobre esse aspecto com muito carinho.

 

P/1 – No ambiente de casa, havia alguma expectativa do senhor seguir alguma profissão?

 

R – Não, havia uma liberdade total de escolher a profissão que cada um tivesse a sua inclinação, não havia nenhum direcionamento. Havia uma preparação e cada um se direcionou como quis, como permitiu.

 

P/2 – Essa preocupação em estudar outras línguas, o senhor tinha cursos extras no colégio?

 

R – Tinha professor particular, o que era, como eu estava falando, uma preocupação um pouco inusitada na época. Poucas pessoas aprendiam línguas, cursos e muito menos os cursinhos que tem hoje em dia, não havia, e no colégio não... Primeiro, porque começava tarde, não possibilitava que a pessoa realmente adquirisse um conhecimento de língua, né? Eram aulas particulares, um fenômeno bastante comum dentro da relatividade, que a aula particular é cara, era e é cara. Os meus pais, como eu estava falando, investiram nisso, se preparavam, mas eram poucas pessoas que estudavam línguas e poucas pessoas que estudavam com aulas particulares.

 

P/2 – E quais línguas?

 

R – Inglês e francês.

 

P/2 – O senhor começou cedo, então, a estudar?

 

R – Ah, francês sobretudo, que dominava a sociedade daquela época. Inglês era muito pouco - eu devo ter começado a estudar francês com uns nove anos, oito anos, talvez nessa faixa e inglês já bem mais adiante, já com 13 anos, alguma coisa assim. As grandes ramificações da época eram o francês, que dominava toda a sociedade brasileira e havia uma pequena corrente que estudava alemão, que era uma influência europeia. A influência americana era muito pequena no Brasil - as grande influências da época eram a francesa e a alemã, - e depois, então, que veio o inglês, já começando a penetrar e com a guerra, com a influência americana, tudo isso, o inglês foi tomando o lugar do alemão. E o lugar do francês, hoje em dia... É quase por diletantismo que as pessoas estudam, né?

 

P/1 – O senhor quando chegou o período de escolha profissional, escolheu direito, é isso?

 

R – Escolhi direito.

 

P/1 – E como é que foi essa escolha?

 

R – Olha, não havia muitas profissões naquela época, né? O mercado era muito limitado e quase que, tinha um espírito tecnológico, vamos dizer, - não era tecnológico, era científico - que caminhava pra Matemática, Física, que atraía o pessoal de Engenharia e o de Medicina. Do outro lado, era Direito ou Filosofia ou História, coisas assim que não eram práticas, né? Então, havia quase que uma segmentação, até mesmo não sei se hoje existe: quando você acabava o ginásio, havia o clássico e o científico, conforme a sua vocação para as chamadas áreas técnicas, que basicamente seriam Engenharia e Medicina, a outra pra uma parte mais humanística, cultural ou coisa que o valha, que quase pegava o grupo de Direito. Tinha muita menina que ia estudar Filosofia, tinha aquele negócio de ser professora, né? Mas aquele grupo ali de clássico: 70% ia estudar Direito. Aí havia até uma abundância fantástica de advogados no Brasil, né? Os cursos de Direito também eram mais fáceis. A entrada na faculdade era um problema sério, como eu acho que ainda é hoje, né, então, os cursos de Direito eram um pouco mais brandos, vamos dizer, nas suas exigências. Atraía muita gente que não tinha assim, uma vocação definida ou por outra. Não queria ser na parte técnico-científica, que era Medicina e Engenharia. Quase que iriam pra lá, né? Na verdade, como eu não tinha nenhuma vocação para a parte técnica e científica, foi mais um direcionamento natural do que assim: “Eu quero ser advogado, quero defender no Júri”, aquelas coisas que tudo que é advogado tinha mania. Não, foi por esse lado: o lado mais humanístico da profissão.

 

P/1 – E o senhor acabou escolhendo qual faculdade?

 

R – Bom, aí já era pra tentar o melhor, né, já que ia fazer. E aí foi a melhor: a Faculdade Nacional de Direito, que era a melhor longe, hoje Faculdade Federal. Houve um certo namoro com a possibilidade de Diplomacia, mas era um namoro assim, artificial, porque Diplomata vai viajar, viajar era um... Hoje ninguém tem ideia como era difícil viajar naquele tempo, viajar era um sonho, então, Diplomacia tinha um pouco dessa atração de viagem, e essa atração também humanística. Aquilo ali não tinha, não havia um sentido assim prático, objetivo, na Diplomacia como hoje existe. A Diplomacia se alterou de uma maneira substancial, ela passou a ter uma finalidade de resultados que era mais uma finalidade de representação, pelo menos na minha visão, né? Mas Direito foi a escolha, e Direito foi a persistência.

 

P/1 – O senhor chegou a sondar a possibilidade de se tornar um Diplomata?

 

R – Não cheguei a sondar, cheguei a pensar, é diferente de sondar. Cheguei a pensar.

 

P/1 – Pegar o panfletinho, fazer a prova...

 

R – Tinha um charme, né, havia um charme em ser Diplomata, basicamente por essa questão de viajar. O ambiente cultural era bom, né, mas não cheguei nem a fazer curso, nem provas pro Instituto Rio Branco, que era naquele tempo.

 

P/2 – Em que ano o senhor entrou na faculdade?

 

R – Esse negócio de data, eu sei que entrei com 17 pra 18 anos, vamos ver, entrei em 1949 ou 1950, não me recordo bem. Fiz meus cursos todos muito cedo, acabei tudo muito cedo. Fiz vestibular com 17 anos, o primeiro ano já com 18 anos e me formei com 22 anos, o que era cedo naquele momento, o que dava estranhamento de ter que enfrentar a vida com 22. Enfrentar a vida é sempre difícil, mas com 22 anos é mais difícil ainda: emprego no Brasil era um problema. Vocês que são jovens não têm ideia o que é que era o problema de emprego, não. Hoje a gente fala em emprego, mas é que o número de pessoas cresceu extraordinariamente, mas não havia emprego no Brasil, não havia empresas, essa atração que o brasileiro até hoje tem do serviço público, serviço público ___________ que era um emprego, né, é uma volta ao passado. As oportunidades dadas hoje, de arranjar um emprego, de vocês começarem a ganhar uma coisa fixa eram muito poucas, né? Então, aos 22 anos começar sem emprego, sem dinheiro pra montar um consultório e sem cliente, que era pior ainda. Realmente era difícil, mas graças à Deus, tudo correu bem.

 

P/2 – Ao longo da faculdade, o senhor chegou a fazer algum estágio? Algum contato com escritórios?

 

R – Não, nunca fiz estágio. Também não era fácil, aliás, até hoje eu sinto falta, não que tenha necessariamente influenciado minha vida, mas aquela frustração de não conseguir fazer uma entrada no escritório, porque quem entrava no escritório... Bom, está garantido por ali. Você está falando desse negócio, eu estou me lembrando, mas eu não consegui entrar no escritório naquele tempo, né? Então, quando eu me formei, abri o meu consultório de advocacia sem cliente, o que é uma frustração enorme, ficar sentado ali esperando entrar alguém. Esses preços que a gente paga na vida, às vezes têm recompensas posterior, né, enrijece a fibra, sabe o que que é a dificuldade daquele tempo.

 

P/1 – O senhor chegou abrir um escritório de advocacia?

 

R – Abri, abri um escritório de advocacia, logo que me formei, - eu me formei com 22 anos, com 23 anos estava advogado. Já que nós estamos falando em coisas do passado, então fazíamos umas fichas do cliente, o cliente tinha uma ficha: cliente um, cliente dois, cliente, três, e não saía do 17. Aí o cliente 3 voltou com uma outra causa, eu falei:  “Mas não posso dizer que ele é o 18, faz mais de ano.” Então falei: “Bom, agora ele vai ser o cliente 118.” Porque era a única maneira de dar uma velocidade a clientela que parava no 17 clientes, - mais de um ano, que era realmente doloroso. E tinha um outro companheiro também, que abrimos juntos o consultório. Dois corajosos que viveram um período interessante na vida, ________ abrir o consultório e ficar olhando pra porta pra ver quem vai entrar, né?

 

P/2 – Qual foi o primeiro cliente, o senhor se lembra?

 

R – Olha, o primeiro cliente... Eu tenho uma ideia que foi um despejo, mas também não havia muita causa. A ação ia acabar em despejo, cobrança de promissória. Não havia esse direito corporativo que existe hoje.

 

P/1 – Nem divórcio tinha, né?

 

R – Nem divórcio tinha, não havia direito fiscal. Hoje, a advocacia não só tem uma especialização muito grande, mas tem uma abrangência na sociedade muito maior do que teve naquele tempo. Então as causas eram pequenas, né, causa de despejo, - sobretudo um advogado novo, - causa de execução. Ia cobrar do sujeito e ele também estava na miséria, estava mais miserável que o advogado que estava cobrando; coisas horríveis, eu me lembro. Estava fazendo um despejo, tirando um mulher de dentro do apartamento e ela não queria sair, o oficial de justiça... Aquilo era muito doloroso. A advocacia é muito conflitante, mas a advocacia de pequenas causas é realmente uma advocacia dolorosa, porque você encontra pessoas em situações difíceis, e você está defendendo o interesse de seu cliente e é obrigado a tomar algumas medidas que, às vezes, faz uma mudança na vida daquela família que você está fazendo um despejo, por hipótese. Mas, faz parte da vida também, né?

 

P/1 – E aí, do escritório, o senhor...

 

R – Eu continuei com o escritório por algum tempo; aí entrei na Vale do Rio Doce já em 1955. Já que nós estamos falando da Vale do Rio Doce, algo muito curioso: estava comentando sobre a dificuldade de arranjar um emprego. Bom, sempre tinha um amigo, um pistolão, uma coisa ou outra, porque senão não entrava, não tinha solução. Não vou dizer qual foi o pistolão, mas eu consegui um pistolão pra entrar na Vale do Rio Doce: “Opa, advogado. Vale do Rio Doce, a solução da minha vida”, não sei o que mais. Aí o sujeito me marca dia 24 de agosto de 1954 pra eu ir encontrar com o presidente da Vale do Rio Doce; não sei se vocês sabem o que foi o 24 de agosto de 1954? Bom, eu estou em casa me preparando, a reunião era às 10 horas da manhã, pá! Getúlio se suicidou. Eu falei: “Ah, meu Deus do céu. Justo hoje é que ele vai se suicidar, mas não é possível!” (risos) Uma coisa inacreditável, me telefonaram ali: “Ah, Getúlio se suicidou.” Devia ser oito e meia, nove horas, eu falei: “Bom, e agora? O que é que eu faço? Vou ou não vou ao encontro? Eu vou.” Aí fui eu pra cidade, né? Cheguei na cidade e não tinha ninguém. Na sala, lá na Vale do Rio Doce, um escritório muito pequeno, dois andares ali no edifício da Av. Beiramar. Eu entro, não tem ninguém, achava que era só eu e tinha um sujeito lá dentro, que acho que era o secretário geral da Vale do Rio Doce, um homem que teve muita importância, muita força na Vale do Rio Doce, era o Secretário Geral da presidência, chamava Bueno, pequenininho assim, de bigodinho, ele falou: “O que que o senhor veio fazer?” Eu falei: “Eu vim falar com Dr. (Salessa?)”, que era o presidente [fim do lado A da fita 01 / 04], ele falou: “Não, hoje não tem ninguém. O senhor não sabe que o Getúlio se suicidou?” Eu falei:  “Eu sei, mas eu tinha um encontro marcado. Eu vim aqui”. “Não, não, o senhor vai pra casa, que depois nós comunicamos com o senhor, etc.” Bom, fui, né? Tinha sido aquela convulsão no Brasil danada, eu falei: “Bom, perdi meu lugar. Vai mudar tudo, vai sair todo mundo.” Não mudou. O Dr. Lessa ficou, mas o meu pistolão _____, né? Bom, aí fiquei naquele nhã-nhã-nhã de se ia lá ou não ia. Pra simplificar, acabei entrando da Vale do Rio Doce como advogado um ano depois, pra você o que era a persistência; no dia 5 de setembro de 1955. Bom, Vale do Rio Doce, advogado, serviço público - ali era meio serviço público, tinha aquelas anomalias extraordinárias - ninguém tinha me perguntado quanto ganhava, nem eu tinha perguntado, porque eu não tinha coragem de perguntar. “Bom, sou advogado. Vou ganhar bem.” Bom, Getúlio tinha decretado salário mínimo de 2400 reais, foi uma convulsão no país. Aí entrei, comecei a trabalhar, sem saber quanto ia ganhar, no fim do mês aí veio o meu ordenado e era 4200 reais, eu falei: “Ah, advogado com 4200 reais é uma droga. Eu não vou ficar aqui não.” Essa época eu já estava noivo ou namorando, ou melhor, acho que namorando forte. Cheguei pro meu sogro: “Eu vou recusar.” Ele falou: “Como você vai recusar? Ninguém recusa cargo público.” Eu falei: “Eu não posso, o contínuo que toma conta aqui da sala dos advogados ganhava 5400 reais e eu ganho 4200 reais. Não é possível uma coisa dessa!” Ele falou: “Não,” ele era um senhor muito calmo, “Não, meu filho, fica quieto. A vida se arruma, a vida vai se preparando...” Bom, resolvi ficar lá por 4200, né, não tinha tanta coisa pra fazer assim também, e aí começamos uma carreira por ali. Por aqueles 4200, eu acho que eu me dedicava, era um advogado razoável e passei pra 5400, passei a ganhar igual ao contínuo. (risos) Fiquei satisfeito. Aí aconteceram as grandes transformações que conduziram junto com a Vale do Rio Doce: primeiro, fui promovido à assistente da presidência, aí já era um ordenadão 16, alguma coisa assim, não me lembro mais quanto era, e lá fiquei na assistência da presidência depois. Se quiserem, eu conto como é que chegou o restante de assistente da presidência, assistente jurídico, né? A Vale era uma empresa de engenheiros, era uma empresa em que a predominância, o corpo direcional da Vale, era de engenheiros. Advogado estava ali pra fazer alguma coisinha, mas ninguém ligava. Eu, como assistente da presidência, não tinha muita coisa que fazer. Aí acontece outro fenômeno essa hora, eu trabalhava na Vale e era advogado também, tinha meus consultórios ainda, um pouquinho melhor. Acontece outro fenômeno extremamente curioso, no Brasil - os fenômenos estão sempre ligados à fatos políticos: Jânio Quadros. Eu, na assistência da presidência, tinha uma sala ao lado do presidente. Jânio Quadros, outro furacão no Brasil, todo mundo com medo dele, o país estava apavorado ele, com aquela autoridade imperialista dele, né? E havia o Eliezer como presidente da Vale do Rio Doce, ao meu lado: uma sala de um lado, o corredor no meio. O Jânio quando assumiu a presidência, criou as comissões de inquérito que chegavam três pessoas: era um coronel, um advogado, um sei lá o que, contador, e se alojaram na presidência da Vale do Rio Doce. O Eliezer, como presidente, não tinha sala. A sala estava ocupada pela comissão de inquérito, que era sobre a administração anterior, então, tinha uma salinha atrás da minha que era uma salinha assim, reservada pro presidente quando tinha alguma coisa, ia pra lá. O Eliezer foi pra lá, bom, e lá, o conheci. Não o conhecia, ele vinha de Vitória. Embora ele fosse da Vale do Rio Doce, eu não conhecia, e a gente travou um relacionamento muito bom. Havia esse negócio que eu estava dizendo, da predominância muito grande de engenheiros, não sei se o Eliezer falou, ou não falou sobre essa parte, mas quando o Eliezer veio com o presidente José Batista, vieram vários engenheiros, basicamente, da Estrada de Ferro Vitória a Minas, de onde o Eliezer vinha e alguns tantos de Itabira, que eram os dois grandes grupos, mas com muito pouca experiência que não fosse técnica, né? E o Jânio Quadros era aquela coisa louca de mandar bilhetinho pra cá, bilhetinho pra lá. Tinha que responder em 24 horas, né? O Eliezer, meio tonto com aquilo. Então estava eu ali, ele mandava: “Responde isso aqui.” Não tinha ideia do que era aquilo; me dava os dados pra eu responder, né? Aconteceram duas coisas muito curiosas, que eu acho que ajudaram nessa carreira que eu tive na Vale: me deram aquele bilhete maluco do Jânio e eu nunca trabalhei tanto na minha vida, porque chegava bilhete, uma (bogotonha?)... Eram (risos) três, quatro, cinco por dia.

 

P/2 – Que tipo de bilhetes?

 

R – “Mude a estrutura societária da Vale do Rio Doce. Prazo: 48 horas.” (risos) “Dê a explicação sobre, porque foi vendido minério pelo valor tal....” Eu não entendia nada, eu era advogado! Sei lá porque que venderam minério a esse valor tanto, né? Mas tinha 48 horas pra resolver, sempre, e o pavor, pavor no Brasil que tinha o serviço público, para público, que era a Vale do Rio Doce. Um pavor total. E o Eliezer me jogava aquele negócio, e eu não sabia como responder, eu falava: “Preço de minério, parte comercial: não entendo nada.” Começava a ligar pra todo mundo, perguntava pra redigir - não que eu fosse responder, estava redigindo. Aí veio um negócio que eu não me recordo como é que é, o Eliezer falou: “Responde assim.” Eu falei, não tinha nenhuma intimidade com ele, depois ficamos grandes amigos, trabalhamos juntos muito tempo, falei: “Presidente, acho que não deve ser assim não, acho que deve ser assado.” Ele falou: “Não, faz assim.” Advogado tem aquele contra ou a favor, então pá, pá, pá, e lá foi o Eliezer pra Brasília encontrar o João Agripino, que era o Ministro das Minas e Energias, e voltou: “O Ministro mandou você dar uma resposta como você tinha dito, faz favor de fazer.” E eu, não fui dizer aquele negócio de não disse, mas não falei nada, né? (risos) E aconteceram umas duas vezes ou três a mesma coisa. Ele mandava fazer, evidentemente que, 10 ele mandava fazer e não havia discordância, - discordância não, seria petulância - um palpite do assistente jurídico de fazer de uma maneira diferente do que ele tinha pedido, porque aquilo ia pro Agripino que era o Ministro das Minas e Energias, depois ia pro Jânio, o Agripino manda mudar. O Eliezer falou: “Bom, mas esse garoto - garoto ainda, tinha 20 e poucos anos - sabe o que está fazendo.” E aquilo foi dando uma certa envergadura àquele cargo de assistente jurídico, que era meio decorativo, né, e como havia todo um corpo de engenheiros que não tinha essa experiência jurídica, um pouco mais de experiência comercial, uma vivência. Era tudo pessoal que vinha de Vitória, __________ aqui no Rio de Janeiro, né? Aquilo foi permitindo uma integração que me ajudou muito na vida, até os dois ou três grandes marcos, onde eu realmente larguei a parte de advocacia e dediquei-me à Vale do Rio Doce. A Vale, vocês estão ouvindo várias pessoas: realmente, a Vale são duas empresas ou muitas empresas. Mas o grande marco foi, realmente, a vinda do Eliezer. Era uma empresa importante, mas que não tinha assim um desenvolvimento, e o Eliezer realmente veio com ideias grandiosas e com um corpo de pessoas extremamente bem intencionadas, esses que eu chamo de engenheiros, né, e a grande transformação ocorreu ali. Aí, eu trabalhava sem aquela loucura do Jânio, que já tinha saído, essa hora, né? Trabalhava-se muito e não permitia que eu tivesse a minha banca de advogado, então tinha que fazer uma opção. Nessa hora, eu já era consultor jurídico da Vale, então já ganhava razoavelmente bem (risos), já tinha direito a automóvel, então permitia largar. Eu tinha que fazer uma opção: ou ficava ali com bico ou coisa qualquer, e ia ser advogado, ou dedicava-me àquilo ali. Foi quando eu praticamente larguei, um ano ou dois depois.

 

P/1 – Não foi uma opção difícil?

 

R – Não foi uma opção difícil - não vou fazer charme - porque o trabalho na Vale do Rio Doce era um trabalho realmente sedutor, extremamente demandante, - não vou dizer a palavra grandioso - talvez é um pouco excessiva, mas eu estava falando a pouco de fazer de sonhos, né, eram sonhos, todos ali tinham sonhos. Ninguém tinha muita ideia - porque era tudo muito moço - do que realmente se estava fazendo, mas havia uma vontade de fazer, e o corpo, o Eliezer, devia ter uns 30 e poucos anos, não sei quantos ele tinha, uns 34, 35 anos, né, e tudo, era uma garotada de 27, 28, 30 anos, que via algo se formando, se dedicava de uma maneira extraordinária. Eu diria até que um pouco, talvez, sem ter uma visão exata do que é que aquilo levaria, mas certamente, sabendo que aquilo levaria a uma coisa completamente diferente do que era a Vale do Rio Doce. Aí vieram as grandes transformações: Tubarão, contrato com Japão - a Vale mudou, não só mudou em tamanho, mudou em maneira de pensar, né? Tubarão foi, eu acho, que o ponto básico da Vale do Rio Doce como é hoje, que permitiu contrato com Japão, permitiu a formação da base que criou a empresa que ela é hoje, depois desse grande desenvolvimento. Mas foi uma fase interessante, eu, já que vocês estão perguntando a mim, ficar falando: “Eu, eu, eu” fica chato, mas tem que falar, se não não consegue falar daquele momento, né? Eu realmente não tinha ideia do que é que nós estávamos fazendo não, né, não sabia nada de minério de ferro: “Minério de ferro, o que é que é isso?”, né, sei que é um pedaço de rocha. Bom, antes de chegar lá, passamos por Tubarão, a concepção de Tubarão, aí uma missão ao Japão. Ninguém ia ao Japão, é pior do que a China é hoje. Nepal, ninguém sabia o que que era. Então, quem vai ao Japão, pra negociar o contrato, né? Acabou um grupo, o Eliezer, que era o presidente, o Oscar que era diretor e que acabou sendo presidente mais tarde, tinha uma pessoa chamada General Rangel que era diretor comercial, e eu porque era advogado. Eu ia redigir o contrato, né? Pensei: “O que é que eu vou fazer no Japão?! Meu Deus, não entendo nada desse negócio.” Aí na antevéspera, uns três dias antes, eu pedi uma reunião aos companheiros, vocês vão ouvir que era o Linhares, o Marcos Viana, o Mascarenhas e eu, os três eram engenheiro, técnicos, e eu falei: “Vocês me expliquem um pouquinho o que é minério de ferro, porque eu vou no Japão discutir minério de ferro. Eu não sei o que é minério de ferro.” Bom, nós fomos pro Japão e foi um sucesso, não porque eu tinha aprendido sobre minério de ferro, mas porque o japonês queira comprar. Era só uma questão de negociação, mas ele queria comprar e fez um contrato, que naquele tempo, era uma fábula: 600 milhões de dólares. Eram 15 anos de contrato, que deu a sustentação econômica pra construir o Porto de Tubarão, que são outros episódios interessantes da Vale do Rio Doce, como ela se formou, sempre com essa grande inspiração, desenho do Eliezer. Aí vieram os contratos com a Belgo Mineira, Samitri, a Acezita, tudo feito naquela época. Você me perguntou se foi uma decisão difícil: não foi, porque era extremamente interessante, o negócio que estava fazendo era extremamente interessante, menos a parte jurídica de detalhamento contratual e muito mais a parte negocial. A parte de discutir, como é que se fazia um contrato, como é que se montava um contrato com essas empresas que eu falei ou com os próprios japoneses. Contrato de Tubarão também, alguns se lembrarão, outros não: houve uma desapropriação, nós perdemos na Justiça. Falamos: “Estamos liquidados.” Perdemos de seis a um no Tribunal de Justiça de Vitória, né, e era muito apertado o contrato pra fazer Tubarão, o porto era muito apertado, o prazo fatal, e não podia parar um dia. Então nós íamos tomar posse do terreno que tinha sido desapropriado, o proprietário entrou com um mandado de segurança ou coisa parecida, começou a... Eu estou fazendo digressões demais?

 

P/1 – Não, está ótimo.

 

R – Começou a votação. “Primeiro voto é nosso”, o relator falou. “Tranquilo, né?” O desembargador pediu o visto e tomamos a surra de 6 a 1. Aí aquilo caiu na cabeça da gente, falei: “Meu Deus, e agora? Como é que nós vamos fazer?” Porque não tinha mais porto, não tinha mais contrato com Japão, não tinha mais nada.

 

P/2 – Mas o que é que ele estava pleiteando? Não entendi.

 

R – Porque toda área de Tubarão era uma grande praia, que era dele, e foi desapropriada pelo estado do Espírito Santo para fazer o Porto de Tubarão, então, desapropriação... Quanto vale?

 

P/2 – Ele estava questionando valor recebido.

 

R – É, ele estava _______________, ele queria o valor, né? Ele ganhou, anulando a desapropriação. Aí vem essa questão da parte comercial, a parte interessante, que eu acho da parte do advogado, né? Nós fomos, a Vale tinha um clube chamado Clube Cauê, que foi um objeto de grande celeuma na Vale do Rio Doce. Fomos lá pro Cauê, se eu não me engano era o Mascarenhas, também foi presidente da Vale depois, Marcos Viana que foi presidente do BNDS, eu e esse sujeito, tinha um nome curioso, não é Ratinho, não, mas é parecido, era um sujeito pequenininho. Depois do jantar, vamos negociar. Não lembro mais, vamos dizer que fosse, a gente ofereceu um milhão, ele falou: “Eu quero 20 milhões.” Não tinha solução, o advogado dele, que era um advogado muito esperto. Eu até cheguei pro advogado dele, falei assim: “Não vai dar certo, nós vamos brigar aqui. Nós perdemos na Justiça, tá forte.” Era um chute, ninguém sabia o que ia fazer. “Mas nós vamos fazer um decreto de desapropriação pelo Governo Federal e aí essa influência que você tem em Vitória, acabou, vai lá pra Brasília.” Aí o advogado ficou assim meio tonto, porque tinha muita influência política a assunto, resultado: resolvemos ali. Os números eu não sei, mas em vez de pagar 20 milhões, pagamos 3 ou 4, mas valia 20. Porque se não fosse aquela terra ali, estava liquidado. Não existiria o contrato com o Japão ou existiria com multas pesadíssimas da obra enquanto não começava. Então, são aquelas coisas que aconteceram na vida, que desviaram ou poderiam ter desviado totalmente o curso da história. Mas Tubarão foi, voltando um pouco... A grande alteração que se fez foi a vinda do Eliezer com essa visão grande, ele até hoje é um homem de visão grande, sempre tem ideias muito boas, e um corpo de pessoas extremamente dedicadas, bem intencionadas, querendo também fazer a coisa. Então, ele deu aquele impulso em que a gente entrava, sem saber muito bem o que é que era, né? O contrato de Tubarão, o Eliezer e eu no Japão, ele exigia que tinha que entrar navio de 100 mil toneladas, porque diminuía o custo e eu não entendia nada. Não tem navio de 100 mil toneladas no mundo, tinha navio de 20 que entrava ali no Porto de Vitória, um portinho pequenininho, né? Então, lá no Japão, nessa visita, nós fomos visitar o maior navio que estava em construção, ainda me lembro, era o estaleiro da Nippon _____ de 63 mil toneladas, eu falei: “Mas Eliezer, não tem navio de 100 mil toneladas. Esse aqui está em construção, é um navio de 63 mil toneladas, vai ficar pronto daqui dois anos e nós vamos fazer um porto de 100 mil toneladas?” Mas eram os japoneses, os japoneses exigiam: “Só com 100 mil toneladas é que dá economicidade ao projeto.” Então, era uma grande visão do futuro, mas não era uma visão precisa, não era isto que hoje talvez fosse mais físico: ia fazer um estudo econômico, estudo disso, estudo daquilo, aquela contradição que havia, ou que há hoje no mundo, né? Era mais uma contradição intuitiva com o aspecto prático do japonês, que estava começando a formar sua indústria siderúrgica e estimulavam os grandes produtores a grandes projetos, porque era uma maneira deles garantirem sua siderurgia. Então se fazia os contratos de grandes valores que davam toda substância econômica pra conseguir financiamento, etc.

 

P/1 – E nesses contratos, o que cabia a cada uma das partes?

 

R – Em que sentido?

 

P/1 – No cumprimento desse contrato de longo prazo, a cada parte correspondia o quê? As condições?

 

R – Você está falando Japão e Brasil? Eram acho que 9 ou 10 empresas siderúrgicas no Japão que se reuniam, faziam um “pool” e compravam minério de ferro, e a Vale se obrigava a fornecer o minério de ferro. Então era basicamente isso, uma garantia que a partir do ano tal ela receberia ou compraria tantos milhões de toneladas de minério de ferro. Isso por 15 anos num processo crescente, e a Vale se obrigava a ter uma estrada de ferro, que ela já tinha uma muito boa, que o Eliezer tinha feito, uma estrada excepcional, mas que não havia condição de embarcar navio grande, e um navio de 30 mil toneladas, no Japão, não tinha economicidade. Então, tina a obrigação, um se obrigava a comprar e outro se obrigava a aparelhar-se. Eles tinham uma grande dúvida se a Vale do Rio Doce ia ter condições de se aparelhar e fornecer. Então, este contrato, naquela época, isso foi em 1961, 600 milhões de dólares. Mas era muito dinheiro! E permitiu à Vale do Rio Doce a tomar empréstimo no Banco Interamericano, no Banco Mundial e fazer as obras todas que depois possibilitaram o crescimento, né? Olha, antes desse período de 1961, o Eliezer chegou a pegar isso; eu peguei já, participando. Você via assim, na presidência: tinha um quadro onde estavam marcados os navios que iam chegar, pra mostrar o que que era o tamanho da empresa. Era um quadro que tinham 10, 15 navios, esses somados iriam dar também 2 ou 3 navios de que os japoneses queriam, de 100 mil toneladas. Depois houve a evolução, os navios foram crescendo, o porto foi melhorando, foi o marco. Depois havia uma dúvida se a Vale teria minério, era outra dúvida incrível, se tinha minério pra atender aquilo tudo, né? Aí surgiram os contratos, que também foram fundamentais pra Vale, sobretudo pra estrada de ferro com a Samitri, que era a Belgo Mineira, com a Acezita, né, porque davam grandes volumes de movimentação na estrada e consequentemente, diminuíam os custos da estrada de ferro, melhorava a rentabilidade na empresa. Esse foi o grande passo naquele tempo, _______ um pouco intuitivo, um pouco sonhador - não um sonhador, não vou dizer sem os dois pés no chão. Um pé no chão nós tínhamos, mas um sonhador, que achava que aquilo podia ser feito, numa época que havia uma dúvida dos próprios japoneses, que eram os grandes estimuladores. E no Brasil então, ninguém sabia o que que era aquilo.

 

P/1 – A dúvida permaneceu no ar, até o momento...

 

R – Até o momento da abertura do porto de Tubarão havia dúvida, mas depois de um certo tempo, obviamente, já tinha mudado a mentalidade da Vale, não só o Japão, mas na Alemanha. Os contratos feitos aqui haviam concepções novas, como, o aproveitamento de carga de retorno, tinha a Usiminas que importava carvão. Antigamente, os vagões iam levando minério de ferro e voltavam vazios. Com a existência da Usiminas, permitiu que os vagões trouxessem o carvão. Então, tudo aquilo contrabalançava o conceito que depois foi extrapolado também pra parte marítima, né, mas isso já é numa fase bem mais adiante, onde surgiu a Docenave com esse conceito de aproveitamento de carga de retorno. Havia aí, lá por 1962, 63, um princípio de ideia, dos grandes navios serem “Ore-Oil” (Mínero-Petroleiros), navios que carregam minério e carregam petróleo. Outra encrenca desgraçada, porque tinha que discutir com a Petrobrás e ela não queria saber. A Petrobrás sempre foi, não vou dizer nem autossuficiente, um pouco, extremamente arrogante, né? Não queria nada, mas a gente discutindo, tentando provar que a economicidade daquilo era fantástico e eles não acreditavam no conselho do __________. Aí surgiu a Docenave - que depois eu posso comentar um pouquinho o episódio da Docenave, que é outro episódio curiosíssimo - mas surgiu esse conceito do “batendo lata”, que era o mesmo conceito do aproveitamento da carga de retorno, consequentemente, o barateamento do transporte. Minério de ferro, não é o minério que vale, o que vale é uma logística. Em Itabira, havia uma discussão sobre o que vale o minério de ferro: “Vale muito, não vale muito”, discussões que hoje a gente não tem ideia do que que eram. Nós estávamos conversando, se eu não me engano, sobre o Pico do Cauê, a discussão do Cauê era uma coisa bárbara! O Cauê vai sumir, desaparecer, o morro... O Carlos Drumond fazendo poesia sobre o Cauê: “O Cauê é da minha infância e tinha aquele morro lindo.” E havia o outro lado, o econômico, que o Cauê pode ser uma beleza, mas em si não vale nada, porque ele está lá fixo e só vale quando você tira ele dali e joga no alto-forno. Então o grande problema, o que que era? Era a logística, o transporte, a movimentação, que foi a grande arma da Vale. Evidentemente, que hoje é uma empresa complexa de muitas outras coisas, como se fala, é uma mineradora, né? Era uma grande empresa de logística, de tirar o minério, colocar no vagão, transformar o porto, colocar no navio e aí, subsequentemente, o navio... Então, isto eram conceitos novos, relativamente, na época, e essa questão do Cauê era uma barbaridade, uma briga com Itabira. “Vai acabar, vai ficar um buraco em Itabira!” Não sei se ainda existe esse negócio, mas havia esse negócio do buraco de Itabira e toda a tentativa de formar aquele negócio.

 

[Fim da fita 01/ 04]

 

P/1 – Se o senhor quiser começar a contar do Docenave...

 

R – Eu acho que a Docenave é uma fenômeno muito interessante, mas começo falando um pouquinho do Japão. Depois podemos fazer uma digressão sobre o Japão, da experiência que foi pra todo mundo da Vale do Rio Doce. O Japão era aquele mundo desconhecido, nós chegamos lá... Não ia ninguém ao Japão, brasileiro ir ao Japão não existia. Ao chegar lá, tinha um sujeito brasileiro no Japão, que era um rapaz, o Gil, depois foi prefeito de Belo Horizonte. Gil ______, estava lá no Japão e era o representante da Usiminas, né, então ele que dizia a gente como é que era o Japão. Aí veio esse contrato do Japão, que depois foi uma experiência que era herdada, quer dizer, adquirida do primeiro contrato, se transmitiu aos outros contratos. O japonês, aquele ambiente impenetrável, né, um grupo de japoneses num lado e um grupo de brasileiros no outro. Nós éramos quatro, nesse caso. Começamos a conversar, nós tínhamos 15 dias pra ficar no Japão, era o prazo marcado pra ficar no Japão, e aquilo não evoluía, tinha discussão, discussão... Um falava pau, outro pedra, pau ou pedra, todo mundo sabia que não era nem pau e nem pedra. Quando chegou nos dois últimos dias, é que vieram os assuntos importantes, todos os assuntos importantes vieram, que o japonês usava muito o conceito de que o ocidental é impaciente, ou seja, realmente é impaciente. Está acabando o prazo pra ir embora e não vai nada, então ele jogava todos aqueles fatores importantes na última hora. Então foi esse o primeiro contrato do Japão que eu estava falando. Os últimos dois dias eu não dormi, fiquei 48 horas sem dormir. E essa experiência - eu fiz uns 6 ou 8 contratos com as ______ japonesas - quer dizer, eu fiz, eu fui um dos protagonistas. Todas elas - a última noite era sem dormir - porque eles colocava aquela pressão, e você tinha que falar assim: “Não, eu fico aqui o tempo que for necessário.” Então você tinha que ficar a noite inteira, e aquele sistema muito curioso do intérprete, um falava pro outro, falava pro outro, falava pro intérprete e que cansava o ocidental. O americano sofreu muito no Japão, porque achava que aquilo não ia pra lugar nenhum e ia embora, não saía o contrato, né? E a gente, brasileiro, enfrentava aquele negócio, ficava lá aquelas 48 horas. E não sei como é hoje, acho que não é mais assim, mas mesmo depois que eu me afastei da Vale, os companheiros que substituíram, que fizeram a negociações, também passaram pelo mesmo problema. Aquele problema de deixar você cansar, cansar, cansar, que era um problema da grande diferença de cultura oriental e ocidental, ____ paciência tremenda, sabia que tinha tempo. Primeiro que ele estava na casa dele, né, o outro impaciente, porque não saía, queria voltar. Então só um fenômeno curioso desse primeiro contrato do Japão.

 

P/1 – E eles vinham ao Brasil também?

 

R – Vinham, mas as negociações eram sempre lá.

 

P/1 – Sempre lá?

 

R – Vinham muito ao Brasil, mas as negociações eram sempre no Japão. Tanto as nossas como a dos australianos, que era o grande competidor do Brasil, ainda é, né, grande fornecedor de minério de ferro. Eles só negociavam lá no Japão. Você tinha que ir lá e naquele tempo, anos 60, o Japão estava começando a se formar como país: não tinha nem hotel. Tinha um hotel imperial e um hotel chamado Palace. Então, quando acabava aquele seu prazo, você tinha que ir embora do Japão, porque não tinha lugar pra ficar. Tudo isso era uma, não vou dizer que era uma guerra psicológica, mas uma movimentação psicológica extremamente interessante pra quem não tinha a mínima experiência, o ocidental, sobretudo o brasileiro, do Japão, né? Então era um processo curioso, toda a formação desse contrato, que depois desse grande, sucederam vários outros. O Japão foi chave pra Vale do Rio Doce. Não fosse o Japão, a Vale do Rio Doce também não existiria hoje, aliás, não só pra Vale do Rio Doce, também pros australianos, ele dava toda a sustentação de volume e de contratos a longo prazo que permitia o fornecedor se financiar e ao mesmo tempo, permitia ele garantir o fornecimento da matéria-prima - porque não tem nada no Japão, né? O fornecimento da matéria prima por longo prazo, grande comprador, grandes quantidades, ele se garantia e com siderurgias novas. Aí veio o grande crescimento do Japão na área siderúrgica. Mas vamos voltar à Docenave. Você estava perguntando da Docenave, foi outro dos fatores extremamente curiosos na minha vida, e quase que eu falei que era advogado, não entendia nada daquilo ali, mas achava que o mesmo conceito que nós tínhamos desenvolvido na estrada de ferro, tinha que ser desenvolvido na navegação, e que nós deveríamos vender CIF, e não FOB. FOB é “Free on Board” e CIF é “Cost, Insurance and Freight”, são seguros de frete, e não sei porque eu fique com a cisma que tinha que fazer aquilo. Eu era advogado, mas já tava envolvido na parte comercial, e havia o Diretor Comercial, que era um General, General Rangel. Acabamos amigos, mas naquele período, garoto impetuoso de 28 anos com um General, né, e eu sustentando que tinha que fazer e o que não tinha que fazer. O Eliezer também dava apoio, mas não queria entrar muito na briga, dava apoio também era na base que tínhamos que vender custo de frete, e eu insistindo. Não é que o General fosse contra, ele não queria perturbar o sistema, né, de comprar FOB. Havia os ______ que compravam e ele era contra, achava que era muita complicação. Ele falava: “Isso é uma complicação! Navio é uma complicação!” Bom, eu ganhei a discussão. O Eliezer decidiu formar a Docenave, né? Eu ganhei, falei: “Agora alguém vai formar a Docenave. Navegação, né?” Aí eu cheguei pra ele: “Eliezer, quem é que vai ser o diretor da Docenave?” Ele falou: “Você.” Eu falei: “Eu? Mas eu não entendo nada de navegação.” Ele falou: “Você não viveu dizendo que era bom o negócio, agora você faça a Docenave!” (risos) Então começou a Docenave, que eu não tinha ideia do que era aquilo, mas aí começamos a montar aquele negócio, voltamos ao negócio ___________, dos navios combinados. Aí eu fretei um navio, foi uma loucura total, mas era aquela loucura sadia, era vontade de fazer coisas, de ganhar, de crescer. Fretei um navio, era um __________, devia ter uns 20 no mundo, até hoje me lembro do nome do navio, ele chamava Berta ____.

 

P/1 – Quantas toneladas ele tinha?

 

R – Ele devia ter umas 30 mil toneladas de petróleo ou carvão, podia ser também, dos Estados Unidos, né, ou pra minério. Aí começou aquele negócio: “Como é que eu faço ou não faço?” Tinha lá um comandante, eu falei: “Vem cá, comandante. Vem cá me ajudar.” Ele falou assim: “Mas eu também não entendo, eu sou comandante da marinha de guerra.” Eu falei: “Tem que entender, comandante é navio, tem que entender.” Que aliás, depois, acabou sendo diretor da Docenave muito tempo, o João Marcos Dias, né? E então, me ajudava ali pelo menos. “Me dá os termos. O que quer dizer isso?” Aí alugamos o Berta ____, com a grande reação da Petrobrás, que não queria transportar. A Petrobrás não queria vinculação com empresa brasileira, ela queria ser livre, independente. E o Berta ____ começou, a Petrobrás também fretou um “Ore-oil” e aí começou o desenvolvimento inicial da Docenave, que é nesses gestos do conjunto, de ousadia, que eu chamo ousadia sadia, mas baseada um pouco na ignorância também: “Nós vamos acertar. Nós não sabemos o que é, mas nós vamos acertar.” Isso era o espírito que impulsionava a Vale daquele tempo. Todos queriam acertar, havia uma vontade de acertar, uma vontade de fazer coisas, e a Docenave foi uma dessas criações também muito baseada num conceito de que a combinação de transporte permite uma grande economia para quem está fazendo o transporte e ao mesmo tempo, lhe dá um controle sobre o preço. O ideal pra todo mundo é vender CIF, porque ele dá um controle sobre o preço e pode variar conforme você quer, porque quando você vende a FOB você não tem um controle sobre o preço, sobretudo, porque havia um preço de tabela, a Vale tinha um preço de tabela. Mas foi o começo da Docenave, que acabou tornando uma grande empresa. Acho que depois ela diminui um pouco a intensidade, mas aí, começou a combinar trigo, carvão, petróleo, e acho que foi muito importante pra Vale do Rio Doce, como instrumento de comercialização.

 

P/1 – A Petrobrás foi o único...

 

R – Não tinha ninguém favorável, a não ser aquele grupo de malucos ali de meia dúzia, que defendia o conceito. Ninguém era favorável, mas era um pouco por ignorância, a gente tem medo do que não conhece e é preciso ser um pouco destemido, ousado, ou inconsciente também, às vezes, de enfrentar o desconhecido. Aí vem um grupo que tinha medo daquele desconhecido: “Pra que nós vamos criar problemas pra nós?” E havia um pequeno grupo que não: “Vamos criar um problema, porque dá grandes oportunidades.” A Petrobrás não era a Fronape, naquele tempo, não era favorável, ela não queria vincular o petróleo com o minério. Não que ela estivesse errada, a função dela era transportar petróleo e do momento que ela começava a subordinar o petróleo a uma outra mercadoria, - porque um tinha que chegar, carregava aqui no Rio ia pra Vitória - poderia interferir na sua logística própria de transporte. Então ela não era favorável, mas depois, acho que vários contratos foram feitos entre a Docenave e a Fronape, que...

 

P/1 – Era vantajoso pra Petrobrás?

 

R – É extremamente vantajoso. Mas também é complexo, foram feitos contratos com a Fronape, contratos com a Siderúrgica Nacional, que importava muito carvão dos Estados Unidos, trigo, também que o Brasil importava trigo dos Estados Unidos. E aí a Docenave já numa outra fase, uma fase mais avançada, vamos dizer, comercial e tecnicamente, fez muitas dessas operações e não sei se faz hoje, eu acredito que faça alguma, mas acho que não teve o mesmo dinamismo posterior que teve a Vale do Rio Doce. Foi um instrumento de criação, assim, também desse período heróico em que se faziam coisas com grande vontade de acertar, com grande sentido de que havia algo a ser feito que poderia haver erro, vários erros foram cometidos sem dúvida alguma, mas que não se ousasse, se não fizesse uma coisa nova, ela não sairia daquele marasmo que ela vivia. Uma empresa importante, mas exportava 5, 6 milhões de toneladas por ano.

 

P – E o governo, como é que era? O governo compartilhava de alguma forma com essa visão de que a Vale podia ser grande, ou não?

 

R – Não. O governo é um ponto importante nessa análise, pelo menos na minha ótica da Vale, o porquê da Vale, na minha opinião, ser um grande sucesso. Foi um grande sucesso, é um grande sucesso. Era uma empresa de governo, que dava importância pra ela como dava pra Siderúrgica Nacional, que era outra empresa de governo importante também na conjuntura. Mas não havia assim uma visão estrutural econômica, sobretudo, da Vale do Rio Doce. A parte de Siderúrgica Nacional, havia, porque havia aquele conceito de que aço era poder, aço era a base da economia de um país industrializado. O conceito de um exportador, com todas aquelas encrencas de vai ficar buraco, não vai ficar buraco, o nacionalismo... Tinha o Gabriel Passos, que tinha sido ministro, que era um nacionalista: “Vamos tirar riquezas do Brasil, o Brasil vai ficar pobre _______ vai exportar.” Então não havia essa concepção da importância que a Vale teria ou poderia ter. Hoje a gente não pode ser tão crítico do passado, porque a visão é diferente. Havia uma certa importância política, hoje ainda é ________ de Itabira, Minas Gerais, menos em Vitória, paradoxalmente. E havia um negócio chamado fundo de melhoramento da Vale do Rio Doce, aí era um importância pro General, porque era um “x” da receita, do resultado do seu trabalho, que _____ fundo pras prefeituras locais, os políticos se interessavam, mas você tocou na parte do governo e eu diria assim: uma das razões de sucesso da Vale, na minha opinião, é que o governo nunca se meteu muito na Vale. Havia uma noção de que era internacional, então não se podia fazer muita brincadeira com o governo internacional, e não havia muita interferência política. A interferência política era o presidente, evidentemente, e na diretoria. Mas havia se formado, quem foi estruturador da ideia foi o (Dias Leite?), que naquele tempo era um construtor, uma pessoa muito inteligente, (Macafuri?), que era o chefe da gente, que havia criado, chamava a junta de direção de planejamento, eu não lembro o qualificativo, que era formadas por funcionários, era o superintendente. Então, quando havia assim esse sentido político, político ruim, político de nomear gente, ninguém se lembrava do superintendente, se lembrava do diretor. Então era nomeados diretores políticos, mas o poder não estava com eles, o poder estava na área executiva dessa junta, que eram oito naquele tempo. Isso permitiu que a Vale passasse, mais ou menos, incógnita, ou 90% incógnita, 80% incógnita, as grandes demandas políticas, né, porque este corpo se manteve, mais ou menos, eu não me recordo de ter visto um superintendente que fosse um político ou nomeado por um político, eram todos pessoas da casa, isso dava um espírito de corpo de fazer coisas, dava uma continuidade na ideia que era extremamente importante. Mudava um superintendente, mudava um os outros 7 e tinha a mesma ideia, tocava aquilo pra frente ____________, e os eventuais atendimentos políticos são menos importantes. Então, eu acho que essa foi uma das grandes razões pela qual a Vale se desenvolveu de uma maneira extraordinária, porque a parte política, política nesse sentido mais mesquinho, ela passava por cima. Ela tirava a casca, mas não tirava o miolo, aquele miolo era sadio, aquele miolo se desenvolvia, e aquele miolo, acho que ainda hoje é essa estrutura, mas até pouco tempo, era a estrutura básica de sustentação da Vale do Rio Doce. Existia, já um pouco mais adiante, até uma brincadeira que haviam duas, a gente chamava duas grandes máfias, a máfia da Vale do Rio Doce e a máfia da Energia Elétrica, porque eram todas as mesmas pessoas, na Energia Elétrica também era um corpo, mais ou menos uniforme, a Cemig foi um grande elemento de difusão do desenvolvimento de energia elétrica no Brasil que se mantinha unido, tinha o mesmo pensamento de desenvolvimento do mesmo propósito. Então essa questão política, ou a pequena interferência política na Vale do Rio Doce, na minha opinião, permitiu que ela funcionasse como uma empresa privada, né? Muito mais tarde na minha vida, a indústria privada, que estou convicto que é necessário, o sistema público não funciona. Eu dizia sempre a vários empresários: para vocês entenderem o que é o sistema público, vocês tem que passar por lá, porque senão não vão entender como é que se forma aquilo ali, como é que a opinião que é, o sentido extraordinário de força, não tanto hoje, mas no passado há 40 anos atrás, a força que um superintende, que um gerente tinha, é uma força colossal. Aquilo ali se não for  bem dosado, se não for bem orientado, distorce, porque ele está, estava naquele tempo, hoje menos, com uma força não compatível com o posicionamento dele com a indústria privada, né, então, era a força do Estado com pessoas não, às vezes qualificadas, sobre a empresa privada. A empresa privada cresceu muito no Brasil, já não é mais a mesma coisa, mas aquela experiência de entender o funcionamento do serviço público ou da empresa pública, né? Quem não viveu não sabe como é que é aquilo, como é que se forma opinião, aquelas ideias, às vezes certas, às vezes erradas, de defender determinados privilégios, determinadas ideias, que se corporificam, aquilo fazia parte da empresa. E no caso da Vale foram extremamente sadias, porque essa corporificação de ideias era vamos fazer coisas, vamos crescer, vamos desenvolver e deram no que deram com uma empresa extraordinária.

 

P/2 – O senhor acha, então, no caso dela, que é excepcional. Nesse sentido?

 

R – Eu convivi na Vale com, estou falando agora da empresa pública, depois eu convivi na empresa privada também, né? Mas eu convivi na Vale com outras empresas públicas naquela ocasião e encontrei pessoas inteligentíssimas, extremamente capazes, extremamente dedicadas, mas eu não encontrei um grupo razoavelmente homogêneo, tão forte como na Vale do Rio Doce, um grupo que perdurou, tinha pessoas que ficavam lá 10, 15 anos em cargos importantes, que mantiveram todas essas características que eu acabei de falar: vontade de fazer, de crescer. Não é, é uma _______ que eu chamo honestidade de propósitos, que é tão importante como a honestidade vulgar, que vulgarmente se chama. Havia uma honestidade de propósitos e acho que ainda existe, hoje é outra concepção, outra estruturação, e naquele tempo, o Brasil dos anos 60, anos 50, era um Brasil muito atrasada, mas eram muito atrasado. Obviamente, eu estou falando hoje com uma ótica do ano 2000, mas as coisas que a gente passava, experiência de vida, olhada hoje por essa ótica, de 50, 40 anos depois, como é que era possível que alguém pensasse assim, né? Mas a Vale sempre teve essa honestidade de propósitos, que deu a criação de Tubarão e deu todas expansões, Carajás, a presença mundial, a respeitabilidade. Aí tenho certeza que também os empresários respeitavam extremamente a empresa. Também é uma coisa muito curiosa no contrato com a Belgo Mineira, que foi um contrato fundamental para a Vale do Rio Doce, extrema importância para Samitri, que hoje é uma empresa muito grande. A Samitri tinha propriedades minerais perto da Vale, mas que não tinham saída, só sairiam pela vitória amiga ou não sairiam, e nós tínhamos feito um grande contrato com a Samitri com esse mesmo grupo que eu estou falando: o Eliezer, Linhares, Mascarenhas. O contrato foi feito, aí o Eliezer saiu da Vale do Rio Doce e veio Paulo José Lima Vieira. Paulinho Vieira, de Minas Gerais e uma ótima pessoa, mas sem entender o que era a Vale, chegou ali meio desconfiado. Bom, depois eu ainda era consultor jurídico, continuei como consultor jurídico, eu sentia assim, no princípio ele era muito frio. Mas é serviço público, então se muda o presidente... Eu falei: “Bom, eu vou embora, etc.” Mas acabamos tornando, se não amigos, uma relação amistosa de subordinado, viajamos juntos, fomos pro Japão, outro contrato com o Japão. E um dia ele me disse porque que era aquela frieza: é que o pessoal da Belgo Mineira, que era o Chico Pinto, o Paulo Leão, não lembro mais quem, achava que nós éramos comunistas. Eu falei: “Pô, mas ô Dr. Paulo, por que que é comunista?” “Não, porque a defesa de vocês, da força da Vale, que tudo era a Vale, que vocês eram comunistas.” Eu falei: “Comunista? Pois eu não sou comunista. Nunca fui, nunca pensei em ser comunista.” Mas era esse negócio daquela união, da defesa dos interesses da Vale contra a iniciativa privada - não era contra, mas era uma disputa comercial contra a empresa privada, que também era uma empresa estrangeira. Então a gente era comunista. (risos) Realmente era um negócio de brincar, Paulo Lima Vieira depois conheceu, contou o fato, o Chico Pinto, que era um personagem muito interessante da Belgo Mineira, também depois contou: “Pô, nós pensávamos que vocês todos eram comunistas e não queriam que a empresa estrangeira crescesse no Brasil.” Bom, mas eu acho que eu saí do assunto, que eu não sei onde é que nós estávamos.

 

P/1 – Esse nome comunista nesse momento era...

 

R – Ah, naquele tempo você estava liquidado! Depois ficou muito bom, depois virou ruim outra vez. Agora também, acabou Rússia, acabou não sei que mais, né? O negócio de comunismo, não da parte doutrinária, mas não sei se o Eliezer contou a vocês a abertura do Porto de Bac, ele contou, não? Foi na Iugoslávia, né? Nós tínhamos ido ao Japão - não sei se tinha mais alguém - e estávamos voltando do Japão depois de 15 dias. Aquilo era uma saco, né, e eu doido pra voltar pra casa. A viagem era uma viagem de 16 horas, e nós vimos ali, 15 dias tínhamos ficado juntos no avião. Depois de quatro horas que a gente está junto dentro do avião, não tem mais o que falar, né? Durante o dia, ele estava na janela e eu estava na ponta, doido pra ir pra casa, porque daí chegava na Europa e da Europa nós vinha pro Brasil. Aí tem aqueles bolsos do avião, né, e o Eliezer gostava muito de olhar mapa. Eu estou vendo ele pegar aqueles mapas, estou aqui quieto olhando ele quieto ali, ele falou assim: “Rony, solução pra entrada do minério de ferro nosso na Europa Oriental é por Bac.” “Pô Eliezer, não aporrinha. Essa hora você vem falar esse negócio.” “Não, está aqui! Eu vou mostrar pra você, ta pá pá, Porto de Bac, não sei que lá.” Eu só olhando assim e está correndo o tempo, faltava umas três horas ainda pra chegar em Hamburgo: “Nós vamos aguardar”. Eu falei: “Ah, (riso) não, pelo amor de Deus! Eu estou chegando do Japão, doido pra ir pra casa! Minha família está me esperando e nós vamos pra Bangolávia?” Bom, fomos. Chegamos em Hamburgo, trocamos de avião, paramos lá um dia e fomos. Mas é coisa de maluco, que foram formadas, extremamente interessantes, que a história eu estou até lembrando, curioso que o Eliezer não tenha tocado. Fomos pra Bac, chegando lá: é um porto ali, junto de Trieste, naquele golfo ali. Não conhecia ninguém, nem nós sabíamos com quem ia falar, nem coisa nenhuma. Aí chegamos em Belgrado: um calor, uma cidade horrorosa...

 

P/2 – Só os dois?

 

R – Sós os dois. Nós dois num calor, chegamos num sábado, domingo, aquele calor. Naquele tempo, não tinha ar condicionado, um calor e eu falei: “O que nós viemos fazer aqui?” Aí ele fez um contato com o embaixador brasileiro em Belgrado. O embaixador brasileiro ficou satisfeitíssimo quando soube que nós estávamos lá e levou a gente pra uma boate lá. Nós falamos: “Mas embaixador, não era isso, não queríamos incomodar.” Ele falou: “Não, vocês não sabem o prazer que vocês me dão!” Nunca tinha nos visto, mas me olhando assim falou: “Mas não aparece ninguém aqui! Eu quero falar com vocês, porque há muito tempo que eu não sei o que é um brasileiro.” E tinha aquele negócio que embaixador não pode se movimentar, sair do país, né, sem autorização do Itamaraty. Ele falou: “Eu fico preso aqui em Belgrado sem fazer nada. É um favor que vocês me fazem.” E levou lá pra uma boate. Coisa muito curiosa. Na Iugoslávia, tem um pouco de influência oriental. Tinha umas odaliscas, umas mulheres horrorosa, gordas, né? Aí, nós ali sentados, ele falou assim: “Você está vendo? Isto é que eu estou condenado a viver!”(risos) Então ele ficou ali batendo papo, mas ficou um grande amigo, acho que o nome dele era Escorel, Lauro Escorel, e arranjou uma entrevista lá em Bac. Lá fomos nós pra Bac, lá no diabo, perto de Triestre, né? O iugoslavo não tinha a mínima ideia, tinha lá um portozinho bom, aí começamos a conversar, eu conversar não, o Eliezer conversava que eu ficava do lado, e saímos dali com um protocolo de ______ e não é que iugoslavo fez o Porto de _________. (fim do lado A da fita 02/04) E a Vale passou a entrar ali___________ o minério de ferro, pra abastecer a Áustria, porque pela Iugoslávia era mais simples, mais barato, do que vim lá por cima pra entrar na Áustria, mas só pra mostrar essas coisas curiosas na vida, meio anedóticas.

 

P/2 – Que ano isso?

 

R – Isso deve ter sido no ano de 63, mais ou menos, em 64 o Eliezer saiu. Então era extremamente divertido. Você estava sempre fazendo alguma coisa, algumas que você nem acreditava. Voltando do Japão, vou parar em Bac? Ninguém sabia o que era Bac, eu muito menos! Mas era divertido, aí depois fomos mais vezes à Iugoslávia, que já estava se transformando, e a diferença de Belgrado para Bac ou para Trieste era impressionante. Comunista, aquele negócio pesado, né? No hotel, e eu vejo uma dança todo mundo: “Mas caramba, que negócio bom!” Era a fronteira com a Itália, a contaminação do italiano já tinha tomado conta. Belgrado era uma coisa horrível, e o _____ ou ________ era muito agradável.

 

P/1 – O Eliezer me contou algumas coisas, que ele apareceu numa foto falando em russo com o Tito, alguma coisa assim, aí chamaram ele de comunista também.

 

R – Isso é parte da história dele, mas isso aí aconteceu outra coisa. Ele fala russo e o Jango gostava dele. O Tito vinha ao Brasil, e o Jango, ele deve ter contado a história. Eu acho que o Jango queria que ele ficasse pra falar com Tito, russo. O Eliezer falou: “Rony, temos que ir embora daqui.” Eu falei: “Como? Nós vamos embora?” “Não, você já imaginou eu com o Tito? Estou liquidado pelo resto da minha vida! Vamos embora!” Aí encontramos um contrato pra ele negociar pra quando o Tito chegasse aqui, a gente não estava aqui. Evidentemente que era ele, eu não tinha importância nenhuma no fato. Mas o Tito, Jango, aquela bagunça aqui no Brasil, estava liquidado e muito tempo esse negócio de falar russo pesou nele. (riso)

 

P/1 – Como você viveu na Vale esse momento, quer dizer, essas conturbações, saída do Jango, os militares. Houve uma ingerência maior, houve uma tentativa disso dentro da Vale?

 

R – Eu acho que, repito que, na minha opinião, seria injusto dizer que o Jango interferiu na Vale, o Jânio Quadros. Os presidentes da república praticamente não atrapalharam a Vale, nenhum deles. Um ou outro tinha maior posicionamento, maior interesse. O Jango tinha interesse pela Vale, ele não entendia nada daquilo, mas ele tinha interesse pela Vale, gostava acho que bastante do Eliezer, mas era um sujeito estruturalmente despreparado pra função, então ele não entendia, mas não atrapalhava. E como havia esse relacionamento bom dos presidentes da Vale com os presidentes da república, isso resguardava muito a empresa, porque não havia grandes interferências políticas sob a empresa. Um dos segredos da Vale, do grande, foi esse: ela passou os tempos com muito pequena interferência política.

 

P/2 – Mesmo com os militares?

 

R – Mesmo no regime militar. Veja, os militares uma grande parte - eu já estava nos Estados Unidos - acho que ali já havia nos militares uma noção da importância econômica que a Vale teria. O Brasil com esses problemas do regime arbitrário, né, mas também naquele tempo, já começava a mudar o sentido econômico. O sentido econômico passou a ser muito mais presente no Brasil do que era antes de 1964. Veio o Roberto Campos, esse pessoal todo que trouxe uma nova ideia de que a economia era importante, e antes, eu diria que a política era importante. Embora fosse um regime extremamente político, porque era militar, etc. Não, eu acho que ela foi resguardada, - integralmente, ninguém é no Brasil, em país nenhum no mundo - mas ela foi resguardada por muito pouca interferência e pela essa continuidade. Essa formação, esse corpo, que vocês estão ouvindo alguns, todos aí são pessoas, todos têm importância, tiveram importância na formação da Vale, Carajás já foi uma outra ideia, né, também suportada pela conscientização do que era a parte econômica. Carajás é outro episódio que o Fábio deve ter contado, que é extremamente curioso, né? Aí tem um pouco de anedota, deve ter um anedotário e um pouco de verdade. Ninguém sabia que havia Carajás, no Brasil inteiro, aí chega um americano, _______, que descobriu Carajás. “Mas como é que descobriu Carajá? Ano sei que lá...” Segundo dizem, eu não sei se é verdade: ele descobriu Carajás olhando o atlas geográfico brasileiro. Olhou o atlas, - não é olhar assim  como você olha ou eu olho, deve ter olhado lá com algumas coisas - e viu uma mancha que não fazia sentido lá no meio da floresta, uma mancha, né? Resolveu então verificar e descobriu a potência de Carajás que era da United States Steel, que pediu a concessão de Carajás. Aí eu já não me lembro mais quem era o Ministro, acho que era o Dias Leite, que fez um escândalo: “Não é possível vocês ficarem com Carajás!” Tanta coisa que Carajás tinha, que não era possível. A United States Steel reconheceu a importância política que seria enfrentar um problema daquele e vendeu parte pra Vale do Rio Doce, fez uma associação com a Vale do Rio Doce, não pelos belos olhos da Vale, é porque era tão importante estruturalmente, uma relevância tão grande pra economia do Brasil, pra economia mundial, que ela sabia que não ia conseguir, como a Petrobrás quando encontrou aquele óleo na Líbia, que teve que entregar, não dava pra fazer. Bom, aí vêm outras coisas malucas do país, negociar com a US Steel pra fazer o projeto, o interesses eram completamente diferentes. Aí o Fernando Roquete, que já era o presidente da Vale, comprou a US Steel, que ela estava precisando de dinheiro, ele apertou a ________ e comprou por 50 milhões de dólares. Não vou dizer que eu vou comprar, porque eu não tenho, mas se deixasse, eu tomava dinheiro emprestado e ia comprar. E que foi outro golpe, não golpe no sentido de armação, mas outra decisão extremamente corajosa, que ninguém entendeu como o Fernando conseguiu, Fernando também era uma pessoa de boas intenções, ficou muito pouco tempo na Vale, diria que ele não conseguiu entender muito bem a vale, mas tomou essa decisão. Acho que não fazem honra a ele de reconhecer que ele foi o que propiciou a existência do Carajás, que daí depois veio o desenvolvimento, etc. Eu te falo com absoluta isenção, porque eu saí da Vale quando o Fernando entrou. Não tinha assim um relacionamento bom, mas eu acho que ele na história da Vale, ele não teve o crédito que deveria ter por essa decisão ousada de comprar da US Steel os outros 50% que eram dela, né?

 

P/1 – Em que momento o senhor foi pros Estados Unidos e por que dessa ida?

 

R – Bom, eu antes de ir para os Estados Unidos, eu fui para a mineração das Ilhas ______, lá em BR, né? O Eliezer tinha ido pra lá. Saiu o Eliezer, aquele negócio, como é que fica isso aí? Entrou o Oscar de Oliveira, muitos não se entendiam muito bem com o Oscar, era uma ótima pessoa, mas tinha umas ideias um pouco diferentes daquele corpo estrutural que eu estava falando. Então saiu o Marcos Viana, o Eliezer saiu, mas por circunstâncias políticas, e ele vivia dizendo: “Vem pra cá, vamos trabalhar juntos, estamos acostumados, etc.” E aí eu fui pra lá, pra _____ e fiquei um ano, mas também não andava, sabe, o projeto do Antônio, precisava conversar com americano, conversar com americano, aquele negócio. Porque nós não estávamos acostumados com aquilo, nós estávamos acostumados a pensar, olhar, decide e toca pra frente. Aquilo era uma “amurrinhação”, estudo pra lá, estudo pra cá, e não saía, né? Aí entrou o Dias Leite na presidência da Vale, que era conhecido nosso, e convidou tanto o Eliezer como a mim pra voltar pra vale, mas já estava na fase internacional da Vale. Então nós voltamos, íamos até juntos pra Europa, mas na última hora o Dias Leite decidiu, o Eliezer foi pra Europa e eu fui pros Estados Unidos. Nós dividimos aquele grupo, né, isso já em 1978, se eu não me engano. Não, 1968. E nos Estados Unidos não havia nada, havia uma representação, um “trader”que vendia muito pouco, e eu fui pra abrir um escritório da Vale, que na primeira fase funcionou  muito como um escritório de compras e na segunda fase também como um escritório de vendas, e acho abrimos bastante o mercado americano, que era um mercado que a Vale não tinha presença alguma. E eu vou lhe contar daqui a pouco dois fatos importantes, além dos contratos, mas deixa antes eu contar uma piada, nós estamos aqui meio “jocoso”, então: eu ia pra Europa, cheguei na Europa, cheguei a encontrar casa em Genève, mas na última hora fui pro Estados Unidos. Então embarquei minha mulher, eu, quatro filhos, uma empregada, primeiro colocamos uma empregada nos Estados Unidos, já foi uma dificuldade danada porque não tinha visto, né, e fomos lá, alugamos um hotel residência. Eu falava inglês razoável, minha mulher menos, as crianças não falava “níquel” de inglês. Aí fomos lá pra esse apartamento lá até que razoável, hotel residência. Chegamos e naquele tempo, vocês não são desse tempo, quando você ia pra um hotel, a grande preocupação de todo mundo era a banheira, se a banheira estava infectada ou não estava infectada - não era brincado não, tinha gente que jogava álcool na banheira, punha fogo - e a pobre da Clarice, a empregada, estava lá limpando a banheira, chá-chá-chá e a minha mulher falou: “Mas, Clarice, que você está fazendo aí?” “Estou limpando a banheira, mas o sabão daqui não faz espuma.” Minha mulher: “Deixa eu ver o que você está fazendo.” Aí pegou, era caixa de açúcar, (riso) porque naquele tempo não tinha. Naquele tempo, não tinha açúcar em caixa, açúcar era daqueles saquinhos União, né, e a pobre coitada estava com açúcar pra lá, pra cá, e não saía espuma, né? Então, o foi outro desbravamento pioneiro, pra mim foi extremamente importante a vida nos Estados Unidos, foi ótima, graças à Deus eu não fui parar na Europa. Mas naquele princípio, era um princípio difícil, então a minha grande preocupação era meus filhos irem pro colégio: como é que dizia pra ir ao banheiro, se eles quiserem ir ao banheiro. Como é que eles pedem pra ir ao banheiro, né? Então, eu ficava ensinando como é que falava pra pedir ao banheiro, etc, e nós estávamos num apartamento que era no 12º andar, então você entrava no elevador e fala “Twelve, please”. Aí eles foram pro colégio, então, começa a contar: “One, two, three... eleven, twelve, please, thirteen...”, (risos) Então tinha essa experiência de imigrante - só que não era um imigrante duro, né, não tinha um problema financeiro - extremamente importante na nossa vida, uma experiência totalmente nova, uma cultura diferente, que ao mesmo tempo unia a família, porque não tinha laços fora, a família se unia muito e adquiriu uma outra maneira de pensar que acho que contribuiu muito também para os meus filhos, na vida deles atual.

 

P/1 – O senhor foi com a família e mais quem?

 

R – E olhe lá. (risos)

 

P/2 – Ficou em que local?

 

R – Em Nova York. Fui morar no subúrbio, perto, uma hora de Nova York. Mas você chegava a uma vivência em Nova York... Tinha um sujeito brasileiro em Nova York, que era um sujeito da Siderúrgica Nacional, não tinha mais ninguém, não tinha brasileiro. Depois veio o pessoal do Banco do Brasil, aí o Brasil começou a crescer, em 1968 foi quando o Brasil começou a crescer, o chamado milagre brasileiro naquela fase... No fim, quando nós saímos de lá já tinha muito brasileiro, quase sempre de empresa pública, né, mas tinham várias empresas privadas também. Na primeira ida eu fui assim, eu não conhecia ninguém, não sabia como é que fazia: “Como é que aluga uma sala em Nova York? Como é que contrata uma pessoa?”

 

P/2 – Você foi pra montar?

 

R – Montar, não tinha nada lá. Aqui você chega, no Brasil, num despachante, pega alvará. Aí peguei um cara do Citibank e falei: “Como é que faz pra montar uma empresa.” “Aluga uma sala, o que você quiser.” Eu falei: “Mas e depois”? ”Começa a trabalhar!” (risos) A gente pensa que: “Eu vou tirar o alvará, licença disso, licença daquilo...”, né? Aí começamos a trabalhar, e foi realmente muito importante, acho que foi importante pra mim, pra minha família. Foi importante pra Vale do Rio Doce, porque esse ir e vir de pessoas da Vale para lá, o escritório, também deu outra visão a eles. Como eu estava lhe falando antes, acho que ele ainda é diretor da Vale, o Armando Oliveira Santos foi pra lá como estagiário, quer dizer, primeiros conhecimentos do Armando em minério de ferro foram feitos lá no estagiário nesse escritório. Depois teve o Marinho, que também passou por lá, várias outras pessoas passaram por Nova York, que não tinha nada, enquanto que na Europa havia uma estruturação herdada do antigo “trader” que representava a Vale. Mas que o (Ditizel?) e o Eliezer também foram muito importantes pra sedimentar... Nos Estados Unidos não tinha nada, nada, nada.

 

P/1 – Isso eliminava o “trader”, na medida em que se...

 

R – Essa era uma tentativa de vender direto, né? A Vale, antes desse período dos anos 60, ela basicamente vendia ao “trader”, que comprava e distribuía lá para os consumidores, pras usinas, e a tentativa nossa era de fazer a venda direta. Então, tudo isso foi um encaminhamento nisso, quer dizer, o “trader” da Europa foi substituído pela Itabira(-zaenets?). E eu não posso nem dizer que era um “trader”, porque era um tão insignificante em Nova York, mas havia, uma empresa chamada Cleveland-Cliffs, foi substituída pela Itabira, e ainda havia o “trader” do Japão. Aí é uma encrenca danada porque tinha uns dez, mas o “trader” é uma figura que a gente tinha a maturidade econômica. O “trader” tem um papel e um intermediário tem um papel. Então eu estava lá nos Estados Unidos, fato que acho que poucas pessoas sabem... Linhares vem aqui, não vem? Ele vai se lembrar disso. Um dia me aparece um “trader”, um velhinho, assim, “enxutinho”, perguntando se a Vale queria vender pra China. Eu olhei pra ele: “Esse cara é vigarista, vender pra China...” Nova York, via “trader”, vender pra China? Eu falei assim: “_____________” “Não, mas o senhor tem que me dar o contrato.” Eu falei: “Isso é contra a política nossa no Brasil. Faço ou não faço? Vou fazer.” É outra aventura de tentar abrir o mercado chinês, né, era um sonho. A gente nem passava nem perto da Coreia, quanto mais da China naquele tempo. Bom, fizemos um contrato de Itabira com o chinês, com o chinês não, com o “trader”, que se eu não me engano era Philip Brothers, pra vender 100 mil toneladas de minério chamado (lamp?), uns pedaços grandes - é outro negócio curioso. Aí teve uma coisa mais gozada do mundo, um medo danado daquilo dar certo, não dar errado, né? Lá vai o navio chinês, navio chinês não, navio fretado por chinês pra buscar o minério da Vale do Rio Doce, e aquilo vai dar certo, não vai dar errado. Havia uma exigência, o minério da Vale do Rio Doce é um minério freável, quebra muito, né, daí que tem esse depósito enorme de finos que ela tinha lá em Itabira, etc. E o chinês não queria que o minério fosse com finos, toda a qualificação do técnico de minério tinha que um máximo de “x” de finos, o chinês... O “trader”, que chinês eu nunca vi, falando comigo: “Você tem que prestar atenção no fino, etc.” Bom, tava chegando o navio em Vitória, o Tubarão, que aliás ele ia carregar em Vitória, porque a instalação de Vitória que saía o (lamp?). Sábado. O navio saiu, ligo pra casa do “trader”... Ele era judeu ortodoxo, não falava no telefone no Sábado. Eu falava: “Mas meu Deus do céu, como é que eu faço pra falar?” Mas não falava, aquele ortodoxo. Tem uns ortodoxos, extremamente miserável que às 6 horas de sexta-feira até às 6 horas de sábado ele não faz nada, ele fica em casa, e o Linhares me telefonou: “Mas o que é que eu vou fazer Linhares? Não posso, o homem não atende o telefone!”  Mas o "trader", o judeu, bem preparado, ele é uma eficiência... 6 horas e 1 minuto ele tocou pra mim, na minha casa, Sábado: “O navio saiu patati- patatá”. Aí o Linhares - pode perguntar quando ele falar. Eu falei: “Linhares, não pode ter fino, Linhares.” Então, ele montou uma estrutura pra peneiramento do minério que além dele já vir com fino que quando cai no porão ele estilhaça, né, que atrapalhou toda estrutura de embarque, porque o navio, estavam todos na fila. Enquanto estava peneirando o fino, o navio não saía, os outros não podiam atracar. Aí saiu o primeiro navio, falou: “Olha, o segundo navio você dá um jeito, porque não vai poder ser aqui se for embarcada 100 mil toneladas.” A primeira entrada da Vale do Rio Doce na China foi feita de Nova York via um "trader" que não atendia aos sábados. Muito curioso. (riso)

 

P/1 – Que outros negócios foram fechados nos Estados Unidos? Você conseguiu abrir esse mercado americano?

 

R – Eu acho que houve uma abertura muito importante, sabe? Primeiro, porque conseguiu se vender nos Estados Unidos, que só havia... Esse negócio que eu estava falando do (lamp?), né, era um minério que o americanos gostava, porque é um minério de alto teor e bom pra ___ (preciaria?). Os Estados Unidos tinha muito minério, tinha e tem, né, muito minério. Aí veio a outra fase nos Estados Unidos, do “pellet”, que o americano já estava no nisso e a Vale do Rio Doce começou a fazer também. E nós fomos os introdutores do “pellet” brasileiro da Vale do Rio Doce nos Estados Unidos. E aí foi alguns contratos importantes, três anos, cinco anos, e a Vale que não tinha mercado americano: quando eu saí de lá, tinha um mercado razoável. Acho que era uns 10  milhões de toneladas por ano, agora não me lembro mais, que era muito naquele tempo, né, não sei como é que está hoje. Além disso, foi muito importante também pra parte de compras. Aí sim o negócio do "trader" é importante, né, porque a gente não tinha noção sobre preço que se cobrava das compras americanas. Como nós éramos uma empresa americana - embora somos propriedade daqui - nós começamos a fazer, como é que chamava a expressão em inglês... Nós começamos a fazer pedido de coleta, e começamos a verificar que havia barbaridade de acréscimo de preço, né? O sujeito comprava, valia 10 nos Estados Unidos e vinha um fornecedor cobrava 15. Como ninguém tinha ideia o que custava aquilo, vinha por 15 e foi outro perigo extremamente curioso. O pessoal falava: “Mas esses caras são ladrões.” Não é que sejam ladrões, eles estavam ganhando dinheiro, né? A economia foi extremamente importante, mas deu a noção à Vale, porque ela não tinha, de que ela podia exercer seu poder de compra não necessariamente através de um intermediário. Me lembro de um rapaz, que era um superintendente, gerente de compras, que era um bom rapaz, amigo meu, ele falou: “Vou resolver - vou resolver não - vou te dar um “pedidozinhos” pra ver como é que vai funcionar.” Eu estava lá, queria fazer movimento, então ele deu lá compra peça, não sei o que mais, eu não entendia nada obviamente, mas fiquei procurando, bate aqui, bate ali. Bom, resultado: em três dias eu pus a peça aqui; o cara ficou maravilhado, evidente que eu andei de avião, saiu caro pra chuchu, mas pra mostrar eficiência, né? E aí foi desenvolvendo, virou um escritório de compra, quando eu saí de lá comprava, mais ou menos, 80 milhões, 100 milhões de dólares por ano, né, então era extremamente importante pra Vale, pela economia, pelo conhecimento do sistema, como é que funcionava, e pela rapidez, né, porque enquanto ________ carta de crédito, aquelas coisas todas, nós estávamos lá, nós garantíamos o produto, dava uma velocidade ao fornecimento muito importante para grandes obras que a Vale fez e deve continuar fazendo.

 

P/1 – E isso não tinha dificuldade de importação no Brasil...

 

R – Não, licença havia. Não, não havia. Dificuldade existe, burocracia enorme. Era muito maior. Tinha um negócio chamado Similar Nacional, que era uma coisa infernal, mas como era um programa - isso com o governo dando todo apoio, não me lembro mais qual o Ministro da Fazenda da época - a Vale passou a ter uma importância naquele período, muito grande, para a formação de divisas brasileiras. Então os Ministros da Fazenda começaram a suportar muito os pedidos de importação da Vale. Mas, enquanto a burocracia estava correndo, a empresa lá - que não era um escritório, era uma empresa - garantia o fornecimento, então o sujeito começava a fabricar enquanto a burocracia ia correndo. Quando saía a licença, já estava pronto ou quase pronto, isso desde locomotiva até parafuso, porque um parafuso quebra uma máquina, né? Então, foi outra experiência muito importante pra mim... Nós estamos falando de mim e pra Vale também, acho que extremamente significativa.

 

P/2 – Até que ano o senhor ficou lá nos Estados Unidos?

 

R – Até 1974.

 

 [PAUSA]

 

P/1 – O senhor ficou lá até 1974?

 

R – Em 74 já, voltando ao Brasil... Aí já é uma parte muito pessoal, mas curiosa por essa questão de rumos que a gente toma na vida, que são pequenas coisas que tomam rumo na vida, que se a gente tivesse seguido aquele caminho, tinha parado pra outro lado completamente, né? Então, minha mulher estava querendo voltar pro Brasil, que minha filha estava chegando na idade de escola e não volta mais pra casa. E, é verdade, nos Estados Unidos não volta mais - então nós voltamos em 1974. O Marcos Viana era presidente do BNDS, eu tinha um convite pra ir pra SulAmérica pra ser diretor e tinha um convite do Marcos pra ir pro BNDS pra também ser diretor, e tinha um convite do Mascarenhas, que era o presidente, mas estava saindo pra ir pra Docegeo. Aí fica aquele negócio, aquele espírito público, BNDS um negócio muito importante. Estou em casa aqui na dúvida, a família lá. “O Andreaza vai para Atlântica.” Vocês lembram do Andreaza, né, uma figura, ia ser candidato a Presidente da República. “O Andreaza vai pra Atlântica.” O Andreaza é Ministro, quase candidato pra presidente da república e o máximo que ele conseguiu foi ser diretor da Atlântica. Eu estou perdido lá nos Estados Unidos, ninguém sabe nada, estou sendo convidado pra ser diretor da SulAmérica, não vou pro BNDS. E fui pra SulAmérica, né, que foi a outra fase da minha vida extremamente gratificante, também importante, mas que aí não se insere mais no conceito Memória da Vale, mas uma memória própria [fim da fita 02 / 04]. Aí pedi uma licença da Vale, fiquei um período fora.

 

P/1 – Você pediu uma licença da Vale?

 

R – Pedi uma licença, sem vencimentos (risos) e fiquei uns 10 meses licenciados, depois então saí de vez da Vale. Então é outra fase da vida, mudando completamente, mas sempre acompanhando com muito carinho, muita atenção, porque foi uma parte extremamente importante da minha vida. Como acho que foi uma parte extremamente importante da vida de todos esses que vocês estão ouvindo aí, são 20 e tanto anos, 30 anos que passaram com muitas discussões, muita briga - não briga nesse sentido mau, mas um formalismo muito grande entre o corpo dirigente, executivo, então, era muita discussão, mas sempre com esse propósito de fazer coisas, que acho que essa sempre foi a grande tônica da Vale e continua a ser ou continuava ser, acredito que vai continuar a ser, embora, hoje, os caminhos dela são mais complexos, porque tem muito negócio e as decisões são mais difíceis. Mas se eu pudesse encerrar esse projeto memória, eu diria que o corpo, não só o corpo dirigente, mas o corpo funcional da Vale, teve sempre essa vontade de fazer coisas. Ela esteve adiante de seu tempo, sempre, e criou do nada uma empresa internacional, uma das maiores empresas internacionais, acho que ainda é a maior exportadora de minério do mundo, se não é, é perto disso, né? Saindo num período que tínhamos uma certa estreiteza de pensamento, de analisar que vamos tirar as riquezas do Brasil, que o Brasil ia ficar pobre e acho que ela contribuiu pra todo o desenvolvimento, que me perdoe lá os itabiranos - se eles ainda têm a mesma ideia, acho que não - contribuiu para o desenvolvimento de Itabira, pra todo o desenvolvimento da região, Vitória, Espírito Santo se beneficiou barbaramente da existência da Vale. Foi uma riqueza criada e que fluiu. Sinto-me extremamente compensado... Financeiramente não compensou não, só fui ganhar dinheiro depois de (aprovada?), né? (risos) Mas não adianta muito a parte de sensação, né, que permite ter as recordações disso que eu estou falando pra vocês aí, é algo que valeu mais do que muita compensação financeira.

 

P/1 – Mas, e o clube do Cauê? O senhor vai contar pra gente, né?

 

R – O clube do Cauê é uma coisa curiosa, extremamente pequena, mas que, naquele momento, teve uma importância muito grande, né? Em Vitória, os engenheiros resolveram fazer um clube, isso nos anos 1958, 59 e realmente era um clube muito bom. Não era um clube muito bom, era uma casa extraordinária! Uma casa muito boa, moderna, etc, um terreno muito grande e aquilo chocou Vitória. Vitória era um “burruzinho” de pensamentos e ambições, né, e aqueles parecia uma espécie de privilegiados: que os engenheiros da Vale tinham formado um clube, chamado Clube Cauê, com instalações muito boas. Tinham uns 4 ou 6 quartos pra visitantes, etc, e causou um grande escândalo na cidade, todo mundo falando mal da Vale e um dos grandes inquérito determinados por Jânio Quadros era o Clube do Cauê.

 

P/1 – Com bilhetinho?

 

R – Bilhetinho, sim. Bom, resultado: fecharam o clube do Cauê, porque o governo mandava: “Fecha o Clube do Cauê!” E o Clube do Cauê ficou fechado não sei quanto tempo e não vendia, porque não tinha comprador pro valor dele, e também não se fazia nada. Mas foi um grande fator de desgaste pra alguns colegas que, aliás, eu nem conhecia, que eram os chamados engenheiros da Vale. Quando começou era pequeno, né, e o presidente da via pública faz um escândalo desgraçado por um diabo de um clube. Bom, só pegando Jânio Quadros pra encerrar essa conversa, a não ser que vocês queriam mais alguma coisa... Nos bilhetes malucos do Jânio Quadros, ele resolve transferir a sede da vale do Rio Doce pra Minas Gerais, “sem quê, nem porque”, mas era política, né? Então ele deu um bilhete que a Vale do Rio Doce tinha 30 dias pra estar instalada em Minas Gerais. Meu Deus, que coisa de maluco! 30 dias pra estar instalada em Minas Gerais, e que tinha que tá todo mundo lá. Meu Deus, que coisa de louco, né, mudou a vida de todo mundo aqui. Mas o negócio era tão maluco, o homem era tão imperialista, era tão autoritário, que começaram a sair ônibus, primeira semana saíram três ônibus de gente que mudou pra Belo Horizonte, falei: “Estou liquidado.” Eu advogava e disse: “Acabou meu consultório, vou pra Minas Gerais agora.” (coloca a mão no rosto)

 

P/2 – Em Belo Horizonte?

 

R – Belo Horizonte. Tinha um grupo que podia ir pra Itabira, mas era Belo Horizonte. Aí com grande força, consegui ficar no último ônibus e falei: “Bom, pelo menos, eu tenho 30 dias aí pra resolver o que vai acontecer.” O resultado foi: saiu o primeiro ônibus, saiu o segundo ônibus, saiu o terceiro ônibus, foram para onde? 40, 50 pessoas. Não dava, né, não era possível transferir tudo aquilo pra Minas Gerais, não tinha comunicação, ninguém falava em telefone internacional, não tinha ponte aérea, o sujeito vinha do exterior pra cá tinha que apanha aqui pra ir pra Belo Horizonte. Aí, conseguiu-se um prazo do Jânio Quadros, um prazo maior de 3 ou 4 meses, e depois, ele era louco total, ele mesmo se esqueceu do assunto. Aí ficou aquele grupo de desterrados que foi pra lá, alguns ficaram, alguns voltaram, e a maioria ficou por lá mesmo. Capaz de vocês entrevistarem alguém aí que estava naquela leva que foi pra Belo Horizonte. O Jânio era uma coisa de enlouquecer, completamente “estabelado”.

 

P/1 – Eu queria que o senhor desse, um pouco, comentasse sua carreira na SulAmérica. Como é que foi essa trajetória?

 

R – Bom, vamos fazer curta porque essa parte é uma parte que, evidentemente, é muito importante pra mim, mas não está dentro do projeto de vocês, o projeto memória, o projeto relacionado, né? Bom, como eu disse, eu entrei na SulAmérica também sem entender nada do assunto, trabalhava com minério de ferro, advogado, navegação, todas essas coisa, e fui trabalhar em seguro. Não sabia o que que era, quer dizer, sabia o que qualquer um de nós conhece sobre seguros, não sabia o que era seguros, mas entrei na parte administrativa financeira, tinha uma certa experiência, né, e por ali fui desenvolvendo como diretor, depois passei a vice-presidente, depois vice-presidente executivo, e presidente, onde acabei - não acabei, porque eu estou lá ainda - só que agora eu estou num conselho de administração. Mas também foi extremamente gratificante, eu acho que, sem falsa modéstia, nem coisa nenhuma, consegui transformar... Aí acho que a Vale do Rio Doce teve outra vez uma importância muito grande pra mim, porque entrei numa empresa que era muito estratificada, uma empresa de 100 e tantos anos, muito estruturada, com aqueles padrões tradicionais, diretor não fala com fulano, não sei que mais. Aquelas coisas que havia antigamente, né? E como eu trazia da Vale esse sentido de que todo mundo é igual, evidentemente tem as hierarquias, mas todo mundo é igual, até mesmo porque o serviço público lhe ensina isso: você hoje é importante, no dia seguinte você cai, depois você volta ao topo. Então há um respeito maior aos seus companheiros, acho que ali consegui transformar muito e uma empresa de extraordinária importância, mas que estava um pouco parada no seu tempo, né? Essa trajetória que eu percorri, de 1974 até o ano passado (1999), quando eu passei pra vice-presidente do conselho, também foi extremamente importante. Consegui, não: “Eu consegui, eu simplesmente estava na frente”, meus companheiros e eu conseguimos transformar a empresa na maior empresa de seguros do Brasil e, consequentemente, da América do Sul. Então foi mais uma das coisas que me deixa uma grande satisfação, não tanto por ser isto, né, por ter conseguido fazer isso, por ter sido a primeira, por transformar em primeira. É que em todo esse processo que a gente vive, a gente tem um processo de criação, um processo de desenvolvimento e tem um processo humano também, a sensação de que você gerou oportunidades pra outros, isso pra mim sempre foi muito gratificante. Acho que a revolta, aquele negócio do comunismo, do socialismo, né, o sentido social que o empresário tinha muito pouco, acho que hoje tem mais: a noção de que a sociedade é importante pra ele, é importante economicamente. Você não pode ser um bom empresário numa sociedade pobre, e é importante na sua responsabilidade de empresa e de desenvolvimento, geração de oportunidade... Acho que isso tudo que eu consegui, outros conseguiram na SulAmérica e em outras empresas brasileiras, pra mim foi grande parte proveniente dessa bagagem da Vale do Rio Doce, aquilo é uma formação de oportunidade de emprego, é uma formação de riqueza, é uma transformação de mentalidade, então acho que na SulAmérica tenho conseguido, me sinto gratificado, meus colegas que contribuíram pra isso, aqueles que abriram meus horizontes. E espero que tenha aberto também lá, nas duas empresas que eu trabalhei, na (Emberre?), que eu trabalhei muito pouco tempo, mas não vou dizer que acho, eu tenho certeza que eu fiz, criei coisas que - não coisas pra mim, também usufrui porque progredi. Mas um homem tranquilo, no sentido que a responsabilidade humana e social - com todas as injustiças e todas as coisas erradas que podia ter feito - foi cumprida, e ainda tem um tempinho pra cumprir um pouco mais, mas foi cumprido até tanto. Então só pra encerrar esse aspecto social, a gente não tem nada mais: eu, por exemplo, sou fazendeiro de, mais ou menos, fim de semana. O prazer que dá, de poder ajudar aquelas pessoas, não é que eu ajudo, não é que eu chego lá é distríbuo dinheiro, não faço isso não, aquilo é um negócio como outro qualquer, né? Evidentemente que procuro tratá-los humanamente, um salário decente. Mas não estivesse eu lá, eles não teriam oportunidades, eles estariam sem emprego, então, eu trouxe a fazenda como um fecho de que essa é uma das grandes satisfações que eu tenho, tanto da Vale do Rio Doce como da SulAmérica. Não estivesse eu lá, não tivesse exercido certas funções, muitas pessoas que hoje, tiveram ou terão oportunidades, e que por sua vez, propagaram oportunidades pra outras pessoas, pedra na água, aquelas ondas que vão se distribuindo, não teria ocorrido. Então, isso é importante pra mim. Eu agradeço a oportunidade de ter falado, porque a gente não fica mexendo no baú, e eu não sou de ir ao psicólogo, você são meus psicólogos. (riso) Muito obrigado.

 

P/1 - Como que é o cotidiano do senhor hoje?

 

R - Meu cotidiano é um cotidiano de... Manhã: um pouco de trabalho pessoal que eu tenho que desenvolver, um pouco de andar na lagoa - esse negócio desses peixes aí me atrapalharam, a vida, né (risos) - e é outra coisa triste, você vê aquilo ali, é uma beleza, estraga por uma incúria, né, mas isso é outra coisa... Então, ando, almoço, às vezes almoço em casa, às vezes almoço na cidade com amigos ou negócios, e geralmente passo minha parte da tarde na SulAmérica ainda fazendo minhas coisas que eu tenho que fazer ou que posso ajudar. A grande diferença que existe em você ser executivo ou não, que é a minha responsabilidade atual, é que executivo, numa posição sobretudo de presidente, é um sofrimento permanente e, ao mesmo tempo, uma satisfação colossal, porque embora outras tenham feito, você acha que fez, também é um sofrimento, que eu estou conversando e tenho que resolver isso e aquilo. A decisão que é meu grande elemento de sacrifício, de demanda do executivo, é o principal, e é o que dá a grande distinção da pessoa que nasceu pra ser executivo ou não nasceu pra ser executivo: ela decide, aquilo tem um preço fantástico. Agora, no conselho de administração: você não decide, você só dá palpite, então quem vai decidir é você. Eu falo essa ideia de fazer isto e isto, agora a responsabilidade não é minha, é sua. A minha vida é essa hoje e tem a fazenda. Agora quando vocês tiverem tempo, olhar as vaquinhas...

 

P/2 - O que o senhor produz lá?

 

R - Leite, carne também, quer dizer, tenho gado de corte, mas o gado de corte é um gado sem charme, porque ele nasce, cresce, engorda e mata. Já a vaquinha é divertido, ela dá mais leite ou menos leite, aquele dia que você torce com ela, vai dar mais leite, quase que você pode puxar a teta pra ver se ela dá mais leite. Obviamente, do ponto de vista econômico é uma imbecilidade total, mas é divertido. Uma vaca dá 30 quilos, 40 quilos, você nem sabe como sai leite dali, sai leite que não é brincadeira. É outra satisfação. Já que nós estamos falando em gado, o gado de corte, pra mim, é uma maneira de ganhar dinheiro e a vaca de leite é uma maneira de perder dinheiro, mas é mais divertido. Você está fazendo alguma coisa e todo dia é uma emoção. Ela deu mais leite ou não deu mais leite? Nasceu o bezerro ou não nasceu? E perde dinheiro, mas isso é secundário... Você se diverte.

 

P/1 - O que o senhor achou de dar o depoimento, de ter participado?

 

R - Eu achei muito interessante, sabe, José Carlos? Eu só acho que não está interessante, porque eu não sei o que os outros falaram. (risos) Achei muito interessante, porque acho que não é hábito meu, e acho que não é hábito da maioria das pessoas de ficar falando o que fez, o que não fez, ou até, a não ser naquele diálogo que você tem consigo mesmo, né? Você sempre pergunta, mas não fica fazendo uma recapitulação, então a oportunidade que vocês me deram e vão dar aos outros, pra mim foi muito bom, muito interessante. Eu recapitulei aqui num prazo curto, coisas da minha vida, que talvez tivesse ficado lá no baú. O diabo é que agora eu vou sair daqui pensando em tudo que eu não falei e que eu tinha que ter falado. Mas olha, a iniciativa, acho que é muito importante pra dar um sentido, a palavra histórica é uma pretensão, não é um sentido histórico, mas um sentido das razões, motivos e circunstâncias que levaram à formação desse conjunto econômico extremamente importante que é a Vale do Rio Doce, não só um conjunto econômico, mas um conjunto de pessoas, um conjunto humano, sem o qual a Vale não teria existido. Só espero que ela continue a ser muito importante, que daqui, vocês são muito crianças ainda, daqui a mais 20 anos vocês façam outra memória: “Lembra daquele cara que falava besteira aqui, sabe, aquele cara disse que a gente ia fazer outro projeto memória?” Está bom?

 

P/1 - Obrigado.

 

P/2 - Muito obrigada.

 

R - Obrigado a vocês

 

[fim da fita 03 /04]

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+