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O sócio construtor

História de: Achiles Grecca
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/04/2013

Sinopse

Entrevista cedida ao Museu da Pessoa no dia dois de março de 1999, para o projeto Santos Futebol Clube. Achiles Grecca foi sócio do clube, ocupando, também, o cargo de administrador. Com pais italiano, e nascido em São Paulo, se mudou para Santos ainda muio jovem e diz ter o "coração santista". Nessa entrevista, lembra das cidades de São Paulo e Santos com "caras diferentes", uma vez que praticava nado no Rio Tietê, por exemplo. Apresenta passagens destacando sua infância esportista no clube Regatas Saldanha da Gama, uma participação e chegada da Revolução de 1932 e a construção da Vila Belmiro.

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História completa

P/1 - Santos, dois de março de 1999. O senhor poderia dizer o seu nome, a data de nascimento e a cidade em que o senhor nasceu?

 

R - Eu nasci na capital, em São Paulo, no dia 24 de Fevereiro de 1910.

 

P/1 - E nome do senhor?

 

R – Me chamo Achiles Grecca. Meus pais se chamavam Domingos Grecca e Lúcia Grecca.

 

P/1 - Ambos são de São Paulo?

 

R - Papai e mamãe são italianos. Eu nasci em São Paulo, capital. Vim para cá em 1992, para Santos. E aqui permaneço até hoje.

 

P/1 - Coração santista.

 

R - Santista. (Risos)

 

P/1 - Então eu vou seguir essa ficha. Qual é o endereço do senhor?

 

R – Moro na rua Alamir Martins, número doze, apartamento onze, bairro do Gonzaga, Santos.

 

P/1 - A data de nascimento do seu pai, o senhor lembra?

 

R - Ah, papai e mamãe... Eu devo ter aí, mas, de cabeça, eu não me lembro.

 

P/1 - Depois a gente pega. O pai do senhor fazia o quê?

 

R - Papai era comerciante. Representante aqui em Santos de uma grande firma italiana. Era de importação de vinhos, champanhe... Naquele tempo nós não tínhamos isso no Brasil. Até queijo, queijo parmesão, vinha tudo lá da Itália. E papai era o representante aqui em Santos. Era o que fornecia aqui para o litoral, praticamente.

 

P/1 - E ele veio para Santos já para trabalhar com isso?

 

R - Com essa função.

 

P/1 - A mãe do senhor?

 

R - A mamãe era doméstica. Italiana. Assim... De mamãe eu não tenho muita coisa para contar. Não tem.

 

P/1 - Que cidade que o pai do senhor nasceu?

 

R - Papai nasceu na Calábria.

 

P/1 - Então, retornando, o senhor estava falando sobre a cidade do seu pai.

 

R - Papai nasceu na Calábria e mamãe nasceu na cidade de Mantova, na Itália, também. O ano eu não me lembro.

 

P/1 – “Tá jóia”. Como era a família do senhor? Quantos irmãos o senhor tinha?

 

R - Eu e mais dois. Uma irmã e um irmão.

 

P/1 - Um casal. O senhor é o mais velho?

 

R – Sou o mais velho, depois é a minha irmã Francisca e meu mano Eugênio. A diferença da minha idade para a minha irmã era de dois anos, e para o meu irmão uns quatro anos. Sendo que a mana já é falecida e o mano está morando em São Paulo.

 

P/1 - O senhor lembra alguma coisa da sua infância? As brincadeiras de infância.

 

R - Bom, o que acontece é que eu, quando menino...

 

P/1 - Com quantos anos o senhor chegou aqui em Santos?

 

R - Em 1924, 1923... Tinha 13, 14 anos. Eu tinha 13 anos. Foi de 22 para 23. Acontece que, quando vim para cá, que papai fixou residência aqui em Santos, pouco tempo depois eu ingressei no Saldanha da Gama, o Clube de Regatas Saldanha da Gama. Então eu fui muito apaixonado por esporte. Pratiquei natação, remei, nadei, fiz uma porção de coisa. Eu participei da terceira travessia de São Paulo a nado, com 15 anos. Tiveram que aumentar um ano porque com menos de 16 não podia participar. (Risos) Então eu participei da terceira travessia de São Paulo a nado. Isso era da Vila Maria até a Ponte Grande.

 

P/1 - Nadando onde?

 

R - Em São Paulo, no Tietê!

 

P/1 - Nadando no Tietê?

 

R - É, era a competição, travessia de São Paulo a nado.

 

P/1 - E o senhor representava que clube?

 

R - Clube de Regatas Saldanha da Gama, entre outros. Não fui só eu. Éramos alguns nadadores. Inclusive uma nadadora também.

 

P/1 - Como era essa competição? Fala um pouco desse episódio para a gente.

 

R - Essa competição era promovida pelo São Paulo esportivo. Hoje não existe mais. Eu participei em mil novecentos e trinta e... Volto a repetir: tinha 15 anos, tiveram que alterar. Está como 16 porque com menos de 16 anos não podia participar. Mas daí deram um jeito lá, e eu participei. Para participar dessa competição, nós tínhamos que tomar um medicamento aqui em Santos, que era para evitar problema de... Até que naquele tempo a água do Tietê não era o que é hoje. Tanto não era que nós participávamos. Mas havia essa prevenção. Medicamentos. E quem me dava os medicamentos aqui era o doutor Martins Fontes, o nosso poeta aqui em Santos. O doutor Martins Fontes era quem me dava essa dosagem no centro de saúde aqui em Santos. E eu comecei essa minha vida.

 

P/1 - Nunca jogou futebol?

 

R - Jogava de brincadeira. Mas, participar, não. Nadei, remei, joguei basquete, sem aparecer muito, mas participava lá no Clube de Regatas Saldanha da Gama. E passei pelo jogo de basquete contra o Santos.

 

P/1 - Nessa época o senhor não tinha ligação nenhuma com o Santos?

 

R - Eu era sócio do Santos. Não era diretor naquela ocasião, mas...

 

P/1 - O senhor é sócio do Santos desde quando?

 

R - Eu entrei para sócio em 1927. Eu entrei... O meu proponente foi Edgar da Silva Marques. Não sei se vocês lembram do Edgar. O Edgar foi um dos grandes árbitros do futebol. Além de jogador, ele tornou-se árbitro de futebol. Edgar da Silva Marques. Foi quem me propôs aqui no Santos. Eu me dava muito com o irmão dele, já falecido. Naquela ocasião ele me chamou: "Você vai entrar para sócio do Santos." Entrei. Meu pai era palestrino. Mas eu entrei nessa época, em 1927, no Santos, e estou lá até hoje. Participei, com muito orgulho, da diretoria por uns quatro, cinco anos. Depois eu tive um pequeno “quiprocó” com o Athiê. Uma coisa simples. Mas não é do meu feitio, então eu larguei, deixei. Mas sem problema nenhum. Eu discordei de um contrato de um jogador.

 

P/1 - Nessa época da década de 40 é que estava tendo esse processo de profissionalização?

 

R - Como?

 

P/1 - A profissionalização do futebol começa a aparecer nesse período.

 

R – É. Nessa época. Não... Foi um pouco antes. Como diretor, eu tive como técnico o Picabé, Valdemar Pimenta. Foram diversos técnicos, inclusive o Lula. Não, o Lula foi depois. Eu já havia saído quando o Lula assumiu. Aí foi a época quando apareceu o Pelé. Aí eu já estava fora da diretoria. Eu participava, assistia os jogos, tudo, mas...

 

P/1 - Eu só vou voltar para cá porque essa parte do Santos o senhor vai poder falar em um outro momento. Aí, o senhor vai poder falar toda a sua carreira. É bom porque o senhor já está relembrando algumas coisas e pondo na memória. Mas, voltando para falar do senhor e da sua trajetória de vida. O senhor estava falando da sua adolescência. Que o senhor nadava, praticava esportes, mas nunca se dedicou ao futebol.

 

R - Não, eu praticava normal, sem entusiasmo para jogar futebol. Para ser um jogador de futebol. O meu esporte era outro, era a natação, até o basquete. Pratiquei todos esses, mas nunca fui um jogador. Mas pratiquei muito pelo Saldanha da Gama. Pratiquei jogos interestaduais, municipais. Enfim, minha vida foi assim. Naquele tempo o atleta não praticava um só esporte. "Vamos lá, vamos lá jogar basquete. Vamos reforçar." Então a gente ia para lá, dava um jeito de participar. "Vamos ver se você tem queda para correr 1.500 metros." Era assim. Não era uma mentalidade só. O sujeito atingia duas, três... Agora, nunca fui nada de atleta não. Ajudava, colaborava.

 

P/1 - Com relação à família do senhor. O senhor é casado?

 

R – Sou casado.

 

P/1 - Qual é o nome da sua esposa?

 

R – Ela se chama Maria Geni Veronezi.

 

P/1 - O senhor recorda a data de casamento?

 

R – Nós nos casamos... Em 22 de maio de 1940. Casei em Monte Azul Paulista, cidade do interior.

 

P/1 - A sua esposa nasceu lá?

 

R – Ela nasceu lá.

 

P/1 - O senhor se recorda da data de aniversário dela?

 

R – Ela nasceu 25 de Novembro.

 

P/1 - O ano?

 

R - Em 1913.

 

P/1 - Ela tem alguma atividade?

 

R - Não. Ela teve uma fratura do fêmur. Ainda hoje eu vou ao fisioterapeuta fazer uma coisa dela. Ela tem dificuldade. O fisioterapeuta esteve aí fazendo uma massagem. Enfim, ela almoçou e agora está descansando um pouquinho.

 

P/1 - Vocês tiveram filhos?

 

R - Tivemos duas filhas.

 

P/1 - O senhor poderia dizer o nome de cada uma delas?

 

R - A mais velha é Maria Lúcia Grecca. Hoje, casada, tem um Constantino. Maria Lúcia Grecca Constantino. E a outra, mais nova, é Maria Luiza Grecca Vidigal.

 

P/1 - E qual é o aniversário delas? O senhor sabe?

 

R - Eu posso pegar.

 

P/1 - Ah, então não precisa. Depois a gente pega. E qual é a atividade delas?

 

R - São domésticas. Donas de casa.

 

P/1 - Falar um pouco da formação escolar do senhor. Onde o senhor estudou?

 

R – Eu estudei no Ginásio Santista. Fiz o primário lá e depois terminei o ginásio no... O ginásio eu terminei em... Quando eu comecei a trabalhar em Santos... Porque meu pai não queria que eu ficasse sozinho. Eles mudaram para São Paulo com 16 anos. Um amigo de papai, que era subgerente da American... Da Visa americana, sabia do meu modo de viver, o negócio de esportes, essas coisas: "Grecca, você pode deixar porque ele fica aqui comigo, eu tomo conta dele. Pode ir. Ele vai trabalhar comigo." E eu fiquei, com 16 anos, sozinho aqui em Santos. Eu trabalhava e de noite eu estudava para terminar o ginásio. E assim eu trabalhei desde pequeno na Dersa, 52 anos.

 

P/1 - Já vamos entrar nessa parte profissional. O senhor terminou o ginásio quando já estava trabalhando. Trabalhava e estudava.

 

R - Passei a estudar à noite.

 

P/1 - O senhor tem religião?

 

R - Sou católico.

 

P/1 - Quantos anos o senhor ficou nessa empresa?

 

R - Fiquei 52 anos.

 

P/1 - Foi o primeiro e único emprego que o senhor teve?

 

R - O único emprego.

 

P/1 - Então vamos fazer um histórico.

 

R - É American Line. Depois passou a Delta Line, mudou, alguns anos depois. Eu fiquei nela 52 anos.

 

P/1 - O senhor começou a trabalhar com 16 anos fazendo o quê?

 

R - Em razão disso. Porque um amigo de papai, que era subgerente aqui, entendeu de que eu devia ficar aqui porque ele sabia que eu gostava muito de esportes. E até porque a cidade é pequena, eu já tinha a minha amizade. A verdade é que a mocidade naquele tempo não é a de hoje. Era outra mentalidade. Então ele disse: "Ele fica aqui comigo. Ele vai trabalhar no escritório."

 

P/1 - O senhor começou no escritório como...

 

R - Era Office-boy. E parei como encarregado de serviço de... Chefe do departamento de tráfego. Gerente do departamento de tráfego.

 

P/1 - E como era a rotina de um trabalho como esse?

 

R - Bom, quando eu comecei na Delta, eu comecei como office boy. Depois eu passei a fazer serviço de engajamento. Engajador. Então eu só corria atrás porque naquele tempo a maior exportação era, e ainda é hoje, o café. Então eu percorria as firmas de café para engajar café nos embarques. Então, o meu contato aqui era com o comércio cafeeiro. Além da parte da companhia Docas... Mas era o pessoal do café. Depois me passaram para serviços externos. Visita de navio. Eu é que visitava os navios. Depois então, com o tempo, eu terminei na Delta como gerente de tráfego.

 

P/1 - Gerente do tráfego gerencia...

 

R - É a maior parte do tráfego... De navio a distribuição de praça. Santos, Rio, Paranaguá, então a distribuição de praça é... A capacidade do navio é, vamos dizer, 40 mil sacas de café. Então eu distribuía uma parte para Paranaguá, outra parte para o Rio. Enfim, de acordo com o movimento da praça. E eu viajava muito. Ia para os Estados Unidos, ia para... Quando havia um problema qualquer lá sobre mudança de serviços, fui convocado algumas vezes por lá... Estive até para ir morar lá. Não fui por causa da minha menina, Maria Luiza, porque, na ocasião, o capitão Clark, que era o chefe da Delta, presidente da Delta, queria que eu fosse fazer um estágio em Nova Orleans. Eu não fui porque justamente na ocasião nós estávamos ganhando a Maria Luiza. E para sair daqui... A minha senhora não falava inglês, a outra, Maria Lúcia, estava com seis para sete anos, e para levar uma menina dessas, recém nascida, para um ambiente daqueles... Eu disse: "Seu Clark, vamos esperar mais um pouco." E assim foi. Acabei não indo. Fui para lá algumas vezes a serviço. Enfim, tive na eminência de talvez morar em Nova Orleans. Mas não foi por essa razão.

 

P/1 - Poderia ter chegado a ver as apresentações do Santos lá em Nova Orleans.

 

R - Bom, naquela ocasião dava mesmo. Eu já estava aposentado, já estava fora da Delta. Se estivesse lá, ia assistir.

 

P/1 - É verdade. Vamos falar do Santos então. O senhor disse que, quando chegou na cidade, já chegou em 1927, sócio do clube. Como foi a trajetória de um sócio até diretor?

 

P/2 - Antes até eu gostaria de saber como foi a sua associação ao Santos. O senhor disse que foi levado pelo Edgar da Silva Marques, mas nessa época o senhor estava fazendo alguma campanha para...

 

R - Não, não, não. Acontece que eu era muito amigo do Tonico, que era irmão do Edgar. E o Tonico vivia lá em casa, e eu chegava até a dormir na casa dele. Era uma amizade muito, muito, muito chegada. E o Dedé entendeu que eu tinha que ser sócio do Santos. Papai era palmeirense, aquelas coisas todas. Então aquela brincadeira: "É sócio do Santos." Foi assim. Então passei a ser sócio do Santos. O Edgar, naquela ocasião, ele já estava... Pro futebol também. Ele já estava começando a arbitrar jogos. Entrei para o Santos dessa forma, sem querer. E estou lá até hoje. (Risos)

 

P/2 - O senhor disse que o pai do senhor era palestrino.

 

R - Papai era palestrino.

 

P/2 - E ele aprovou essa...

 

R - Nessas coisas, papai não... Aliás, lá em casa, nessas coisas, um é uma coisa, outro é outra. Política, por exemplo, não se conversa. Não conversamos nada. Eu fiz a Revolução de 32. Eu sou revolucionário. Participei da Revolução...

 

P/1 - Foi nesse momento que o senhor se aproximou do Athiê? O Athiê também foi revolucionário.

 

R - Eu fui.

 

P/1 - O Athiê também foi. Vocês se conhecem...

 

R - Não, eu conheci o Athiê aqui em Santos.

 

P/1 - Anteriormente ou posteriormente?

 

R - Depois disso. Eu conheço o Athiê... O contato com o Athiê, contato grande, contato mais chegado foi em 1940, por aí. Por causa dele e por causa do Lauro. Lauro Cury, era médico. Não sei se ele faleceu. E o Lauro era muito amigo meu também. Aliás, uma belíssima pessoa. Médico. Ele é vivo ainda o Lauro?

 

P/2 - Até pouco tempo, era.

 

R - Eu tenho a impressão de que o Lauro Cury... Não sei. Deve ser. E eu tinha um maior contato com ele que com o Athiê. Um belo dia, quando estávamos em uma reunião... Rubens Ferreira Martins, que foi prefeito aqui em Santos, e que também estava como diretor do Santos, entendeu de me convidar para participar da diretoria do Santos. Isso começou em 47.

 

P/1 - O senhor foi diretor de qual departamento?

 

R - Eu fui segundo tesoureiro com Acácio de Paula Leite Sampaio, que tem um grupo escolar dele aqui, "Acácio de Paula Leite Sampaio". Posteriormente, eu passei a vice-presidente de patrimônio. Foi quando começamos a levantar esse estádio, em 48.

 

P/2 - Esse enfoque da construção do estádio é importante, mas, antes disso, eu queria que o senhor falasse um pouquinho da sua experiência da Revolução de 32.

 

R - É aquele negócio porque, veja bem, em 32 eu estava com 22 anos. Paulista de São Paulo. E nós sabíamos a luta que estávamos tendo aqui em São Paulo. Eu não sei a opinião dos senhores, mas eu respeito muito, nós estamos enfrentando essa situação absurda... Para mim, isso aqui está um caos. Na minha opinião. Naquela ocasião entendemos em São Paulo uma revolução. Nada de separatismo. Não tinha nada disso. Era de mexer com o país, com o Brasil. Porque o estado que trabalhava mesmo era... Como ainda hoje. Vocês são de São Paulo mesmo? É a máquina propulsora nossa é isso aqui, até hoje. E aí foi a partir do entusiasmo, do Saldanha da Gama, atletas... Ingressei. Fui para o front.

 

P/1 - Como que é tomar a decisão de ir para uma guerra?

 

R - Eu não diria uma guerra. Fui para uma revolução, estive em trincheira. Fui preso em trincheira.

 

P/1 - Pois é, mas, de qualquer maneira, está colocando a...

 

R - Bom, aí as sensações são diversas. A primeira é se alistar, saber que vai... Você tem uns 15, 20 dias de aprendizado, vamos dizer, de caserna. Depois parte para o front, Engenheiro Bianor, que era na divisa... Nem sei se existe ainda essa cidade, Engenheiro Bianor, na divisa de São Paulo com o Rio. São Paulo estava sozinho contra o Brasil todo. E o que acontece é que dizem que, naquela ocasião, o nosso comandante, que eu esqueci o nome, tardou muito em não ir diretamente. Se tivéssemos um avanço rápido, nós teríamos chegado lá. Chegando no Rio, estava... Mas é aquele negócio... Engenheiro Bianor. Lá eu fui preso. O engraçado disso tudo é que eu fiquei três meses na Ilha Grande. Fiquei na Ilha Grande preso. Tenho até o meu cartão do presídio. Aqui em Santos tinha até outros personagens. Enfim, tinha diversas outras personalidades presas lá comigo. Médicos... Ficamos lá no presídio cerca de três meses, quando houve o término. Só que, quando eu estava não Ilha Grande eles não me davam passagem para ir direto para Santos. Eu teria que ir para o Rio. Acontece que papai e mamãe... Na véspera da Revolução, papai tinha se mudado para o Rio. Eu fui levar minha mãe de São Paulo, na terça-feira, para o Rio, onde eles iam fixar residência. Isso foi num sábado. Na madrugada de sábado para domingo, estourou a Revolução. Mamãe e minha mana ficaram em São Paulo, papai e meu mano ficaram no Rio, já estavam lá, com casa alugada e tudo, e eu vim para cá. Foi quando me alistei. Bom, aí eu fui preso e fui parar no presídio no Rio de Janeiro. Aí eu consegui, por intermédio de um policial... Volto a repetir porque o convés (?) que me levou para a Delta Line, quando eu tinha 16 anos, nessa época era gerente no Rio de Janeiro. Então eu consegui, por intermédio de um guarda, mandar um bilhetinho. "Estou no presídio preso. Entre em contato com papai, tal e tal." Mandei. No dia seguinte, de manhã, nove horas da manhã, estavam lá papai, ele e mais quatro, que deviam ser advogados. Foram lá para me tirar do presídio. Eu saí do presídio. "Não, não, de jeito nenhum. Eu não vou, papai. Estou fazendo sinceramente. Todos sabem disso. Eu vou ficar aqui com o pessoal." Bom, para encurtar o negócio, fui parar na Ilha Grande. Não acertei a liberação, fui parar na Ilha Grande. Quando cheguei na Ilha Grande, o tenente Canepa, que era o chefe do presídio, mandou me chamar. Quer dizer, aí já veio alguma indicação do Rio de Janeiro. Foi trabalho feito no Rio. Eu seria o intendente do presídio. A parte de intendência. Eu seria o encarregado. E que eu escolhesse mais duas pessoas. É claro que eu levei dois amigos meus: Edmundo Souza Leite e o outro Bernilzo, não-sei-o-que Bernilzo. Então, nós começamos a trabalhar. Nós fazíamos a distribuição de coisa. (Risos) E assim foi. Houve problemas na Ilha Grande, ameaça de um levante. Mas tudo terminou bem. E lá fiquei dois, três meses. Só que, volto a repetir, eles não davam passagem para Santos. Eu teria que ir ao Rio. Papai e mamãe estavam no Rio. Uma visita. Precisa ver a recepção que nós tivemos no Rio.

 

P/1 - Como foi?

 

R - Eu tenho a fotografia lá na Avenida Rio Branco.

 

P/1 - O senhor falou que foi uma recepção, que tem foto. Essa recepção foi como?

 

R - Quando chegamos no Rio, fardados, eu e mais outros três ou quatro. Então o que eu tinha de casa era farda. Mesmo porque eu ia ficar no Rio uns dois, três dias com papai e depois viria para cá.

 

P/1 - Farda de revolucionário.

 

R - De revolucionário. Lá virou uma sociedade, que eu não me lembro o nome todo, de paulistas. Era uma sociedade de São Paulo. E nós fomos recepcionados nessa sociedade. Era ali perto do Brahma. Eu esqueço o nome. Fizeram questão de que fossemos lá. Uma solenidade simples, sem muito alarde, mesmo porque não poderia ser de outra maneira. E assim foi. Fiquei lá dois ou três dias com papai e mamãe. Aí vim para Santos. Mamãe e a mana foram para o Rio, fixaram residência. Fiquei em Santos e a família morando lá. E assim foi. Minha vida foi essa. De moço, vamos dizer. Mas a Revolução foi isso. Eu não sei se foi mais entusiasmo... Eu não sei. Fomos diversos, não fui só eu. Moços, atletas do Saldanha, alguns. Isso. E essa é uma das passagens. (Risos)

 

P/1 - Aí o senhor volta para Santos e retoma as suas atividades.

 

R - Voltei para Santos e continuei na Delta Line.

 

P/1 - Aí, paralelamente, já associado ao Santos.

 

R - Em 1947, o Rubens Ferreira Martins, que foi prefeito aqui, que foi muito amigo... Porque eu fui presidente da comissão central(?) de esportes em 48. Em 48 nós realizamos os primeiros jogos abertos em Santos. Aí, ele e o Athiê, entenderam que eu deveria participar também do Santos. Eu aceitei e fiquei uns anos lá. Em 51 eu voltei a realizar os jogos abertos aqui. Realizei dois jogos abertos aqui em Santos. Em 51 não, em 53.  Em 1948 e 53. Mas, eu participei de jogos abertos fora de Santos, chefiando as delegações de Santos. Ribeirão Preto, Jundiaí, Campinas, e assim.

 

P/2 - O senhor disse do início da construção do estádio, da idéia da construção. Como é que foi?

 

R - Aquilo veja bem, faz tanto tempo, mas eu me lembro que, numa reunião de diretoria estávamos lá, e o Athiê levou essa proposta. Claro que nós preferíamos até uma área maior para o estádio, mas o dinheiro é muito curto. Como é que surgiu o negócio, eu não sei. Mas eu sei que o Athiê levou ao conhecimento da diretoria em uma reunião, que havia uma proposta da Antarctica, se eu não me engano de 48... Não sei se era contos de réis...

 

P/1 - O dinheiro muda tanto, né?

 

R - Muda. (Risos) Aí, a Antarctica queria o direito exclusivo da... É claro, era um adiantamento. E foi assim que nós começamos. "Então vamos levantar o estádio." E aí levantamos. Foi uma pena essa fotografia porque eu entreguei lá para o Miguel. Interessante. Estava lá a turma toda. Um dos grandes colaboradores de Santos, que já morreu, Ciro Fortunato, um grande advogado, sujeito espetacular, inteligentíssimo, grande orador, amicíssimo meu, lamento até hoje a morte dele. E assim é a vida. Vão perguntando por que...

 

P/1 - Antes disso, o Santos jogava onde?

 

R - Na Vila Belmiro mesmo. Nós começamos a derrubar aquilo em partes. Começamos com a parte do fundo. Aquilo era madeira e telha de zinco. Começamos pela parte dos fundos, o gol de entrada, aquela parte. E assim foi, derrubando, fazendo. Começamos assim.

 

P/1 - O senhor é santista?

 

R - Não, eu sou de São Paulo.

 

P/1 - Não, santista de coração.

 

R - Ah, sim, eu sou Santos Futebol Clube até morrer. Sou mesmo.

 

P/1 - Desde 1927, como sócio santista, o senhor deve ter assistido muitos jogos aqui.

 

R - Ah, muitos. Se eu não assisti todos, eu assisti quase todos. Se eu não assistia é porque não tinha condições. Ou eu não estava aqui ou por motivos óbvios. Ia a todos os jogos á noite. E viajei muito com o Santos. Eu não peguei essa fase de viajar para o exterior, mas aqui no Brasil eu fiz algumas viagens.

 

P/1 - Ah, aquela excursão Norte e Nordeste. O senhor chegou a fazer?

 

R - Fiz uma.

 

P/1 - Muitos jogos, muitas vitórias, né?

 

R - Grandes vitórias.

 

P/1 - O senhor viu o Antoninho jogar?

 

R - Ah, claro. Quem levou ele para lá foi o doutor Antonio Feliciano. Foi um dos grandes advogados de Santos, foi prefeito de Santos, o doutor Antonio Feliciano.

 

P/1 - Conta para a gente uma partida que não tenha saído da memória do senhor, que tenha marcado muito, do Antoninho. Fale do desempenho dele.

 

R - O Antoninho... Nós dizíamos... Vocês chegaram a assistir o Antonio jogar? Não, né? Eu não vi até hoje jogador carregar uma bola - carregar bem entendido, no chão. A bola parece que era colada na chuteira dele. Eu nunca vi. Era uma coisa linda. Foi um grande jogador. Faleceu moço. Quem o levou para o Santos foi o Antonio Feliciano. O Antonio Feliciano foi até padrinho de casamento dele, do Antoninho. É isso. Mais alguma coisa? Vão perguntando.

 

P/1 - O senhor se recorda de alguma partida do Pelé que tenha marcado?

 

R - Do Pelé? Todas elas. (Risos) Sinceramente, eu vi uma partida com o Guarani aqui, que nós perdíamos de um a zero, dois a zero. Com o Guarani. E o Pelé, do meio do campo, fez o primeiro gol.

 

P/1 - Do meio do campo?

 

R - Do meio do campo. Uma falta quase do meio do campo. Aqui na Vila Belmiro. Parece que ganhamos o jogo de cinco a um, cinco a dois. Se eu assistir alguma coisa do Pelé, eu vou ficar aqui até... Não é só comigo não, é qualquer um. O Pelé é fora de série.

 

P/1 - O senhor fez a menção ao jogo noturno. Na época que o senhor começou a freqüentar - não havia nem estádio -, os jogos eram só de dia ou tinha iluminação artificial?

 

R - Quando começamos a fazer já tinha iluminação.

 

P/1 - Já tinha?

 

R - Já tinha. Quando começamos a fazer o ginásio já tinha iluminação nossa. Depois foi mudada. Essa nova que está aí agora eu não vi ainda. Qualquer hora eu vou lá.

 

P/1 - E como era a iluminação que já existia na época que o senhor começou? Comparada com essa de hoje...

 

R - Era uma iluminação, normal.

 

P/1 - E chegava a iluminar bem?

 

R - Ah, iluminava bem

 

P/1 - Porque eu sei de episódios que... Parece que o Santos foi jogar com o Botafogo, uma coisa assim... Inclusive parece que acabou virando jogo treino porque estava apagado. Mesmo ligado a meia força, não tinha luz.

 

R - Ah, esse jogo eu não assisti, não me lembro.

 

P/1 - A iluminação da Vila Belmiro sempre foi boa?

 

R - Ah, sempre foi boa, não é, Pastore? A iluminação nossa sempre foi muito boa.

 

Oswaldo Pastore - Na época não era ruim, não.

 

R – Boa... Igual a qualquer um.

 

Oswaldo Pastore - Primeiro eram as quatro torres, depois mudou. Foi na arquibancada que eles puseram os holofotes?

 

R - Foi, foi na arquibancada e na geral.

 

Oswaldo Pastore - Depois que construíram a geral.

 

R - Isso depois de 40, quando nós começamos a fazer o ginásio. Mudaram as torres. Foram todas mudadas. Tudo coisa nova. Tudo mudado.

 

P/1 – “Seu” Achiles, como era viajar com o Santos? Essas excursões pelo interior...

 

R - Bom, quando eu viajava com o Santos, era mais aqui no interior, coisa e tal. Jogos amistosos. Meu companheiro de sempre, volto a repetir, era o Fortunato. Esse que era advogado, um grande orador, sujeito... Era um divertimento. Toda vez que nós íamos às cidades do interior, onde fossemos, sempre éramos carinhosamente recebidos. Sempre, sempre, sempre. Nas cidades, nós éramos em todas elas... Umas mais, outras menos, mas todas elas eram muito boas. Isso não é só com o Santos. Isso acontece com todos os clubes. Quando é convidado para ir em algum lugar, tem que ser bem recebido. Dentro daquilo, é normal. Mais alguma coisinha?

 

P/1 - Caminhando para o fim, o senhor poderia contar aqui para a gente qual a sensação que o senhor está experimentando tendo essa oportunidade de estar colaborando para o museu do Santos, já que essa entrevista vai entrar para a história do clube, a história de vida do senhor, que também faz parte da história do clube. O senhor chegou a ser administrador...

 

R - Em primeiro lugar, eu queria dizer que estou recebendo com muito agrado, com muita simpatia a visita que os senhores estão nos fazendo. Agradeço muito. O que eu tenho a dizer, sinceramente, coisa e tal. É claro que, no entusiasmo, sempre tem uma pequena reserva. É isso. Falei em Santos, vou falar em Santos, vai me emocionar porque é um clube que eu estou há... há 27? Estou lá há quantos anos? Emociona, né? Mas é isso. Outras coisas para contar, eu não tenho. A não ser que vocês tenham alguma pergunta para fazer.

 

P/1 - A não ser que o senhor queira falar alguma coisa que o senhor ache que esteja faltando.

 

R - Volto a repetir, a dizer que quero agradecer essas visitas que os senhores estão nos fazendo. Isso nos sensibiliza. E quando tiver alguma dúvida, que eu puder ser útil, disponha.

 

P/1 - Está ótimo. A gente agradece demais então. Muito obrigado.

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