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História

O sonho de estudar

História de: David Vaie
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2005

Sinopse

Identificação. Descrição da escola e da casa. Vinda para o Brasil e adaptação. O bairro do Bom Retiro. O primeiro trabalho e o sonho de estudar. A Escola de Farmácia. A montagem de sua farmácia, os produtos que manipulava e o interior da loja. Avaliação dos cursos de Farmácia. A Sociedade Ecológica Brasil-Israel. A Guerra e o abastecimento de matéria-prima. A clientela e as formas de pagamento. Casamento, filhos e netos. O atual sistema farmacêutico. Produtos famosos, propagandas e embalagens. Dia-a-dia atual e venda da farmácia. Avaliações e sonhos.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome é David Vaie. Nasci em 31 de agosto de 1912, na cidade de Rotin, na Romênia. O nome de meu pai era Meer Vaie e o nome de minha mãe era Trana Vaie. Eles também nasceram em Rotin, na Romênia. Eu tinha um irmão e cinco irmãs.

EDUCAÇÃO

Até hoje eu tenho a melhor lembrança da minha escola primária, que era muito boa. As professoras eram muito dignas, muito inteligentes. Elas influenciavam a gente na parte educacional que pertence a cada criança: o amor pelos pais, o amor pela família, o amor pelo povo e por tudo.

INFÂNCIA NA ROMÊNIA

A situação econômica naquele tempo não era muito boa não. Então cada um trabalhava pra sustentar a casa. E eu era o caçula e estava estudando ainda. A casa era bem simples, típica de uma família que precisava trabalhar para o sustento, mas que ao mesmo tempo cuidava da educação dos filhos do melhor jeito que podia. Mas a educação, antigamente, era bem diferente. A mulher sempre estava muito por baixo. Já os homens, alguns trabalhavam, outros estudavam. Mas quer dizer, tinha essas diferenças. As moças também estudavam, mas muito menos do que os homens.

TRABALHO DOS PAIS

Eles eram pequenos negociantes. Meu pai parece que era negociante de cereais e meu irmão ajudava ele no serviço. As moças trabalhavam em casa. Eu perdi minha mãe quando eu tinha seis anos, então a vida era difícil.

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL

Eu deixei a Romênia em 1928, saí de lá como um rapaz. Saí do ginásio lá e estava pensando em continuar aqui. E continuei mesmo. Eu tinha um irmão que veio pra cá em 1924. E durante esses quatro anos, até 1928, ele mais ou menos se arrumou na profissão. Profissão não que ele era negociante também. E como meu pai faleceu em 1927, esse meu irmão trouxe a família toda pra cá. Que não era fácil também pra ele. Mas ele se sacrificou pra trazer a família toda pra cá. E ele fez um grande sacrifício porque ele trouxe uma família de cinco pessoas. E aqui não era fácil para mandar dinheiro, mandar documentos pra poder viajar para o Brasil... E era um outro continente. Até me lembro uma vez, um episódio muito bonito antes de eu vir pra cá: eu entrei lá na secretaria do ginásio onde eu estava e falei para o diretor que precisava do diploma pra poder continuar estudando aqui. Então ele falou: "O que é que você vai fazer no Brasil? Só tem negros lá? Que é que você vai fazer lá?" Eu falei: "Não, eu quero sair, eu estou contente, eu penso que vou alcançar alguma coisa." E graças a Deus alcancei. Mas foi isso que o diretor do ginásio falou. Era essa a opinião dele naquele tempo sobre o Brasil. Então, meu irmão veio pra cá porque, antigamente, lá na Europa, o que a maioria falava do Brasil é que era um país do futuro. País onde a gente pode trabalhar, ganhar uma vida boa, etc. Então atraiu muito os imigrantes para o Brasil e entre eles, a nossa família. E pra dizer a verdade o Brasil não era como hoje, que a dificuldade do sustento da família também é tão difícil. Quando viemos, comparar a vida lá na Romênia e a vida aqui no Brasil era como sair de um inferno para um paraíso. Porque hoje em dia eu até fico pensando comigo, como é que o brasileiro pode falar tão mal do Brasil. Eu não digo que seja falta de patriotismo, mas precisa gostar mais do país. Porque o estrangeiro, quando vem aqui e começa a se desenvolver, estudar etc., ele pensa muito melhor do que muitos brasileiros pensam sobre o Brasil. E quando cheguei a impressão foi muito boa. Mas a mudança de um país para o outro, o modo de vida etc., faz uma diferença muito grande. Ao mesmo tempo, a pessoa que vem de fora começa a pensar logo que, ao invés de sair do inferno, ela veio para um paraíso. E é isso aí. (risos) Eu vim diretamente para São Paulo e sempre morei aqui. A primeira imigração para o Brasil, para São Paulo, é a imigração italiana. E depois vieram outros povos, entre eles nós, os israelitas. E o tempo que a gente viveu na Romênia, na Rússia, era muito difícil, assim como para os judeus. Porque a situação lá naquele tempo, na Rússia, era meio feudal até. O povo não tinha quase direito nenhum, era maltratado e tudo. E então, quando chegamos aqui, era país livre. Tudo que você viu, você gostou porque era livre, era uma liberdade completa.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – BALCONISTA

Quando eu vim pra cá eu tinha terminado o curso ginasial lá, mas estava pensando em continuar os estudos. Então comecei a trabalhar como balconista e com o primeiro mil réis (que era naquele tempo) que eu ganhei, comprei uma gramática portuguesa.

EDUCAÇÃO

E eu ia estudando a gramática sozinho. O romeno é uma língua latina e é muito parecida com o português, tem muitas palavras iguais também. Então, como eu saí no último ano e vi logo que a gramática era a mesma coisa e eu não precisava fazer muita força pra aprender, comecei a me preparar pro resto dos estudos. Fiz um cursinho preparatório pra entrar na escola e, depois, foi a vida escolar. Fiz escola de Farmácia.

SÃO PAULO ANTIGA – BOM RETIRO

Eu vim morar no Bom Retiro e foi onde sempre fiquei. Gostei muito do bairro, que não era como hoje. Mas tinha aquelas lojas, cada um tinha a sua lojinha de roupas e sapatos e outras coisas. E vivia disso aqui. Com o tempo a coisa foi se desenvolvendo muito, cada um procurava trabalhar pra poder ganhar a vida.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – BALCONISTA

E eu achei que eu devia trabalhar também. Então trabalhei de dia pra poder estudar de noite. Chegava em casa às vezes às dez e meia da noite e ficava até duas, três horas da manhã estudando, já que teria que trabalhar no outro dia. Não foi fácil, foi uma vida muito difícil. Meu primeiro trabalho foi de balconista, na loja do meu irmão que já estava aqui.

FAMÍLIA

Eu morava com o meu irmão e com as minhas irmãs e assim formamos uma família. Tinha tudo em casa. As irmãs trabalhavam para preparar e outra irmã menor ajudava também na loja. Então éramos uma família como toda as outras, ajudando um ao outro.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – BALCONISTA

Não lembro o nome da loja, mas era um modelo muito pequeno, não tinha muitas coisas. Ele construiu aquilo em quatro, cinco anos e não podia fazer muita coisa ainda. Mas só o fato de poder tirar a família do inferno e vir aqui, já era uma grande coisa. Vendíamos roupas de mulher e de homem. Naquele tempo era difícil, assim como hoje. Mas hoje, por exemplo, você tem o Mappin ou qualquer Mesbla. Você vai lá, faz uma compra e paga em cinco vezes, seis vezes. Mas se você não comprar deste jeito você não vai ter nunca nada. Você quer ter uma geladeira na sua casa e você não tem possibilidade de comprar em dinheiro, então você sabe que vai pagar com 30, 40, 50% talvez a mais, mas você vai ter isto. Se você ganha tanto por mês, você tira tanto pra pagar, mas daqui a seis meses você vai ter aquilo. E se você não faz isso, você não vai ter.

PERFIL DO CONSUMIDOR

A mesma coisa era naquele tempo. O sujeito precisava comprar uma roupa, eu não sei quanto ele ganhava por mês naquele tempo, mas com aquilo se ele pagar 20 ou 30% a mais, ganhava ele, que podia ter alguma coisa na vida, e ganhava a pessoa que trabalhava com isso. Naquele tempo as pessoas geralmente compravam o que era necessário, não tinha luxo. Naquela época não tinha nem geladeira, nem televisão. A gente tinha um radinho pequeno e já era uma grande coisa. A vida não era fácil não. Ao mesmo tempo ele trabalhava em sociedades da colônia daqui, ajudando numa e noutra. Eu me lembro quando eu vim pra cá que tinha um curso de português inicial pra quem não sabia nada. Então tinha a sociedade que já organizava um curso para as primeiras palavras, para você aprender. Isso já era uma grande coisa. E tinha outras sociedades que ajudava o imigrante novo com dinheiro, com mantimentos, com alguma coisa para poder existir. Mais ou menos o que acontece agora com o pessoal que está vindo do norte e está perdido aqui, porque São Paulo é grande. Ele precisa de ajuda também e infelizmente não tem muita ajuda como devia ter. Eu fiquei trabalhando na loja do meu irmão mais ou menos uns dois anos, mas já estava estudando. Estava trabalhando e estudando de noite. E não era fácil porque quando você estuda, você tem aquele interesse pelos estudos. E eu queria ser médico então, precisava de um período integral pra estudar e era muito difícil, por isso escolhi Farmácia.

FILHOS

E graças a Deus o caminho dos meus filhos e dos meus netos é a mesma coisa. Porque meu filho é médico e meu neto também. Estudam e estão seguindo sempre o mesmo lado. Eu tenho uma neta que entrou na USP agora, está fazendo curso de enfermagem padrão. Ela entrou o ano passado, em janeiro, agora vai passar para o segundo ano. Mas estou admirado, como ela gosta desse curso! Porque além de gostar do curso você ainda ajuda alguém com isso.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – FARMÁCIA RIBEIRO DE LIMA

Quando eu tinha a farmácia, não era como hoje que você entra na farmácia com a receita toda pronta. Você precisava saber aquilo tudo que tinha estudado: a fórmula, fazer receita, formular receita. Então os médicos, naquele tempo, eles receitavam só a fórmula pra você fazer. Então a gente trabalhava só com isso. Eu me lembro que quando eu vim pra cá, depois que eu abri a farmácia, tinha poucos médicos. Então o farmacêutico era considerado como médico. Mesmo quando o sujeito ia no médico ele ia também na farmácia perguntar se esse médico era bom. E quando ele trazia a receita, perguntava ao farmacêutico se estava certo, se era bom o que o médico receitou. Então era uma outra vida, não era como hoje. Tinha dois médicos da colônia. Um deles ainda está vivo e trabalhando até hoje. Era meu colega no primeiro ano de farmácia, mas depois ele saiu e foi estudar medicina no Rio de Janeiro. E ele é médico até hoje aqui no bairro. Tem um outro que já era formado, já era médico. A primeira farmácia que fundei foi na Rua Ribeiro de Lima, 583. Chamava-se Farmácia Ribeiro de Lima e ficava lá onde é o Banco Real hoje. A farmácia ficava na frente e no fundo eu morava com a família. Então às vezes chegava um médico às duas, três horas da madrugada, junto com a mãe de um filho que estava doente, com febre, qualquer coisa, para eu preparar remédio.

PROFISSIONAIS DA MEDICINA

Então isso do trabalho do médico era quase um sacerdócio, um trabalho que hoje não se vê mais. Hoje não quero falar mal porque meu filho também é médico. Mas não é a mesma coisa. Você não tem aquele ideal, é diferente. Mas a gente sentia uma satisfação íntima porque estava ajudando alguém na doença dele. Por isso eu incentivo a minha neta, porque ela gosta do curso. Outro dia que eu estive na casa dela ela falou: “agora eu vou precisar de um estetoscópio e um aparelho de pressão” Então eu falei: "Eu vou comprar isto pra você". E comprei, lá na Fretin e escrevi umas palavras pra ela:"Eu te dou esse presente e tenho grande satisfação. Porque esse mesmo presente eu dei para o meu filho quando ele entrou na faculdade de medicina!" Na minha época, também comprei o meu lá na Fretin. Eu gosto daquela casa, é mais séria. É uma casa que os empregados atendem muito bem, com delicadeza, então é muito bom.

PRODUTOS

Eu preparava todas as fórmulas que os médicos mandavam: cápsulas, comprimidos, supositórios, xaropes, gotas, tudo isso eu fazia. Fora isso eu tinha fórmulas minhas que eu preparava também. Tinha pomadas, tinha cápsulas e outras coisas. O pessoal do bairro se acostumou tanto com as minhas fórmulas que já vinham e pediam. Eu punha o nome fictício no remédio e o pessoal já vinha: "Me dá tal e tal pomada". Eu tinha uma tal de pomada "antisséptica" que ela fazia um efeito formidável pra qualquer ferida que não fechava, qualquer coisa. Então o pessoal vinha comprar e eu vendia muito, era uma fórmula boa. Depois que eu fechei a farmácia muitos me telefonavam: "Onde eu vou comprar essa fórmula agora? " Eu falava: "Tá bom, vem aqui que eu vou te preparar isso." E fazia depois que a farmácia estava fechada. Eu chamava essa pomada de "Antisséptica", que é nome genérico para tudo que é antisséptico. E tinha outras coisas também, até que quando antes de me aposentar eu ainda pensava em aprovar lá no serviço sanitário, nesse que controla as farmácias. Mas depois o pessoal começou: "Papai chega. O senhor trabalhar tanto, chega com isso!" E eu parei. Mas até hoje eu tenho balanças, raias e outras coisas que usava na farmácia.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – TRABALHO VOLUNTÁRIO NO LAR GOLDA MEIR

Eu tenho uma balança sensível que pesa miligramas, décimo de miligramas, e que ficou na minha casa o tempo todo. Depois quando entrei no Lar Golda Meir, como voluntário para ajudar, descobri que eles tinham uma farmácia, mas não sabiam comprar, não sabiam fazer. Precisava organizar, precisava de uma pessoa que conhecesse isso para organizar. Então fui voluntário e comecei a organizar a farmácia. Mas aí foi ficando difícil porque o Lar vive das contribuições do pessoal e isso não é fácil. Se eu não me engano tem trezentas e poucas pessoas lá e cada um já tem uma certa idade, precisa de um empregado para estar com ele. Aí eu procurei dar da minha parte aquilo que eu podia pra poder ajudar os velhos e eles gostavam muito. Mas depois os medicamentos ficaram muito caros, os remédios prontos. Então nós nos reunimos e eu mais outro farmacêutico, que hoje é diretor lá, começamos a fazer dentro, manipulando os medicamentos. Por exemplo, um zílium para úlcera no estômago, que hoje está custando uns 25 reais ou 20 reais, nós conseguíamos fazer aquilo por três, quatro, cinco reais. No laboratório isso não é possível porque eles precisam de propaganda, de empregados, de embalagem, e tudo aquilo que encarece o produto. E nós não, fazíamos tudo sozinho. E com isso ajudávamos o Lar. E eu fiquei durante sete anos trabalhando lá como voluntário. Eu sentia uma satisfação íntima porque eu ajudei uma pessoa doente, ajudei uma pessoa de idade. E eu me sinto bem graças a Deus e sou feliz porque tenho a memória muito boa e posso dar uma entrevista ainda. E eu sempre gostei dessas coisas, e ainda gosto, de ajudar o outro mesmo que indiretamente. Acho muito bonito da nossa parte porque hoje em dia, com a situação financeira, um rouba aqui, outro rouba lá, e não é fácil encontrar uma pessoa que se interesse por uma coisa mais sublime.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – FARMÁCIA

As prateleiras não tinham esse luxo que tem hoje, mas dava para o pessoal organizar tudo em ordem alfabética: comprimidos de um lado, xaropes do outro. E outras coisas como ampolas. Aplicava-se muita injeção na veia, injeção no músculo, na veia intradérmica. Tudo isso a gente fazia na farmácia. Quer dizer, não pertence ao ramo da farmácia, mas quem não tem possibilidade de consultar os médicos pra fazer uma injeção, a farmácia faz. Hoje a farmácia é diferente porque o pessoal que trabalha numa farmácia é prático de farmácia. Quando chega uma pessoa e fala: "O farmacêutico está?" Está, mas ele está muito lá no céu, é completamente diferente daquilo que se tinha.

EDUCAÇÃO – FACULDADE DE FARMÁCIA

Na faculdade não se aprendia tanto da parte de exame de urina, essas coisas. Mas tinha outras coisas que precisava estudar. Agora, dentro da farmácia, indiretamente você aprendia com os próprios laboratórios vendo o resultado de um, resultado de outro. Se você estuda parasitologia, microbiologia, você sabe sobre os micróbios que produzem tal doença, qual a doença que deu no exame, etc. Você já pode orientar o paciente também antes de ele ir no médico. Mas é que hoje decaiu muito. Tem o sindicato das farmácias, tem esse CRF – Conselho Regional da Farmácia, que procura sustentar a coisa como estava antigamente, mas é um pouco difícil. Tem bastante faculdades onde se ensina o estudo de farmácia e o pessoal gosta muito. Muitos estudantes pegam gosto não no primeiro ano, mas depois que eles começam a estudar e ver como a coisa é diferente. E você estuda muitas coisas bonitas. Por exemplo as fotografias do professor Monteiro, que era professor de higiene. A gente sempre tinha satisfação de assistir uma aula dele, era uma coisa formidável. Ele punha a ciência na língua da pessoa. E se você estuda Farmácia, tem que gostar de tudo, não adianta. Tem que saber de tudo um pouco. No ginásio você pode gostar de uma matéria a mais, uma matéria a menos, mas dentro da medicina ou da farmácia, você tem que saber de tudo. Os médicos, por exemplo, têm estudo de laboratório. Então ele faz o diagnóstico dele, mas ele manda num laboratório para ver o que é que tem. E ele se baseia muito sobre isto porque estudou. E isso é muito importante.

INTERESSE SOCIAL E ECOLÓGICO

Agora, fora a farmácia, eu sempre gostei de me dedicar à sociedade. Por exemplo, no tempo da guerra, começava a imigração pra cá de pessoas que não tinham nada, estavam em campos de concentração. E eu me preocupava com isso, em ajudar os novos imigrantes com roupas, com comida, com primeiro dinheiro para poder começar a trabalhar. E vieram muitos deles. Centenas e centenas ou milhares. Então tinha muitas sociedades das quais eu também tomei parte, ajudando esses imigrantes novos. Outro exemplo, a Sociedade Ecológica Brasil-Israel. Eles se ocupam para transformar o deserto em jardim florido, como se diz. A parte principal lá é se ocupar para florestar o país e já foram plantadas milhões de árvores. Essa sociedade foi fundada em 1891 na Basiléia, na Suíça, pelo Movimento Sionista. Na época ainda não tinha o governo de Israel, mas a juventude sempre procurava, já na Europa, se interessar por isso e ajudar de qualquer forma. É uma sociedade que vive de forma socialista, onde todos trabalham, a caixa é uma só. Se você hoje precisa de coisa, um terno ou um sapato, eu te compro, eu te ajudo, porque o dinheiro do teu trabalho entra numa caixa comum. Quando estive em Israel eu tive o prazer de plantar com minhas mãos uma muda que representa a vida do país. Hoje em dia se fala muito aqui em ecologia, mas antigamente não tinha. Mas já naquele tempo Israel se ocupava com a ecologia. Eu me lembro de um livro que eu li que, na Grande Guerra, a Alemanha estava aliada com a Turquia contra a Inglaterra, França, e depois entraram Estados Unidos também. Então o imperador da Alemanha, como era aliado da Turquia, foi convidado pelo sultão da Turquia para visitar a Palestina, que era colônia deles. E ele olhou aquele deserto lá, onde só havia pedras enorme e areia, e disse: “Vou te dizer uma coisa: esse país só poderá ser dominado por aqueles que vão saber cultivá-lo, senão não vai sair nada disso. Quem vai saber cultivá-lo e vai saber plantar árvores, vai poder transformar isso em alguma coisa e poderá dominar aquilo". E felizmente o povo judeu preparou sua juventude para isso. Mais tarde eles foram parar naquele tempo que ainda não era Israel, ainda era Palestina, viveram lá, se desenvolveram e quando mais tarde, quando teve a guerra de 39 até 42, eles entraram no exército britânico, aprenderam a guerrear, a trabalhar nisso. E depois constituíram o exército que hoje é o exército de Israel.

COMÉRCIO DURANTE A GUERRA

Naquele tempo não tinha tanta indústria farmacêutica e não era tão desenvolvido assim, nem os sais eram tantos. Descobriu-se muita coisa depois. Então, durante a guerra, é claro que faltou alguma coisa. Eu me lembro quando eu ficava na fila pra comprar açúcar, pra comprar pão, pra comprar outras coisas. Vida de guerra...

MATÉRIA-PRIMA E FORNECEDORES

A matéria prima vinha de fora, mas já tinha um pouco aqui que já serviu para facilitar o trabalho da farmácia. Mas a maior parte vinha da França, da empresa que hoje é a Rhodia. Mas depois a Rhodia começou a fabricar aqui também e então não faltavam mais sais. Tinha a Rhodia, tinha a Polifarma e tinha outros. Mas a principal era mesmo a Rhodia.

CLIENTES

Meus clientes eram pessoas do bairro, mas também tinha muitas pessoas de fora. E ao farmacêutico, naturalmente, cabia atender com delicadeza e com confiança quando o cliente queria fazer uma receita recomendada pelo médico. Muitos médicos recomendavam a farmácia que eles tinham mais confiança aqui no bairro. E mesmo os clientes de fora, um ou outro já tinha levado uma fórmula, via que fazia o efeito, então tinha uma certa confiança. Isso muito, graças a Deus. Eu tinha um nome muito bom. Até hoje eu passo na rua e muitos me conhecem: "Ô doutor como é que vai? Faz tanto tempo que eu não vejo o senhor!". E isso é um prazer pra gente que fez alguma coisa para a sociedade com essa parte de farmácia.

PAGAMENTO EM CADERNETA

Naquele tempo farmácia era farmácia, não era um meio de lucrar, de ganhar muito dinheiro, como é hoje. E eu era idealista, por isso estudei farmácia. E gostei, é claro, porque é uma satisfação minha de chegar uma pessoa que não podia pagar e eu poder fazer o remédio: "Seu David, meu filho está doente e eu não tenho dinheiro!" "Vamos fazer o remédio!" Mas eu deixava anotado. Tem uns que pagavam, voltavam depois, outros não. Eu me lembro de um médico aqui, doutor Celestino Borreau, aquele era um dos maiores médicos daqui de São Paulo, professor na faculdade naquele tempo de medicina. Então ele chegava na casa de alguém que não tinha o dinheiro, ele dava consulta e ainda deixava o remédio para o doente. Eu me lembro.

FORMAS DE PAGAMENTO

Naquele tempo as pessoas pagavam mais com dinheiro porque ninguém tinha dinheiro no banco pra ter cheque. Muito pouca gente podia ter dinheiro no banco.

CASAMENTO

Quando montei a farmácia minha senhora nem estava no Brasil ainda. Ela veio depois, da Polônia. O pai dela sofria de úlcera no estômago e era cliente da farmácia. Então ele vinha na farmácia como qualquer outro e eu atendia ele. Agora, eu não podia imaginar que ele escrevia para a filha dele, lá na Europa (risos), que ele encontrou na farmácia dois rapazes – eu e meu irmão – muito bons. E nunca vi pessoa tão boa. Mais tarde ela veio pra cá, daquele jeito, e casamos. Graças a Deus, casei muito bem. Ela me ajudava muito na farmácia pra trabalhar e constituímos uma família muito boa. Estamos contentes até hoje. Ela se chama Dona Ana.

FILHOS

Nós temos três filhos, sendo duas mulheres e um menino. O filho é médico, muito bom médico, segue o mesmo caminho também: quando não tem pra pagar, ele dá consulta do mesmo jeito. E tenho uma filha que é formada em Educação Sanitária, mas ela não se dedica muito a isso. Estava se dedicando agora a uma boutique. A caçula é professora. E ela se formou como professora e agora está fazendo pedagogia na Faculdade Oswaldo Cruz. E ela gosta muito disso. Infelizmente teve que se separar do marido, mas tem dois filhos formidáveis. Ela trabalha e estuda e sustenta a todos, sozinha. Isso ela já aprendeu com o pai também.

NETOS

Eu tenho sete netos, graças a Deus.Todos eles estão estudando. Por parte do filho tenho três netos, por parte da filha maior tenho duas netas e da filha menor, tenho dois netos. Todos eles estão estudando. Uma das netas por parte da filha maior, da Sofia, é psicóloga formada e professora de inglês. Do filho, um estuda administração de empresas e a menina, que tem 18 anos, entrou na faculdade para enfermeira padrão e está gostando muito da profissão. A menor está ainda estudando no ginásio, se formando agora este ano. E da outra filha, um está no ginásio, se formando esse ano, e o outro está fazendo o último grau colegial. E espero que ele entre na faculdade também, ele quer estudar odontologia. Eu gostaria que eles seguissem em farmácia se ainda fosse como no meu tempo. Hoje eu vejo a farmácia como uma coisa comercial, como qualquer outra coisa. É mudou o sistema, a parte industrial ficou muito mais desenvolvida. A farmácia de manipulação hoje tem muito poucas e tem poucos médicos que receitam, também. A maior parte são de receitas prontas, o medicamento já está pronto.

FARMÁCIA DE MANIPULAÇÃO

Os poucos médicos que receitam fórmulas são, principalmente, esses que tratam de regimes. Por exemplo, tem a Veado d'Ouro, cujo proprietário, Daniel Vera, foi nosso colega também, junto com o Carvalho e outros. Ele era paraguaio. Então a farmácia Veado d'Ouro era uma das mais conhecidas (é até hoje) e de mais confiança. Quando os médicos têm uma fórmula e ele quer ter a confiança, ele manda lá na Veado d'Ouro. Antigamente muitos mandavam na minha.

INDUSTRIALIZAÇÃO DOS LABORATÓRIOS

Essa industrialização começou mais ou menos em 1940. Já tinha laboratórios, mas a expansão dos começou depois. Hoje, por exemplo, tem a Ciba Geyger, que é um dos maiores laboratórios. Naquele tempo eles fabricavam Cibalena e algumas coisas pequenas. Hoje eles são laboratórios muito importantes. Laboratório Sandoz também é um dos melhores laboratórios. Ele tem a matriz na Suíça. O Roche tem muitos laboratórios bons. Os produtos deles são os melhores produtos que tem e que os médicos gostam mais. Têm mais confiança também.

PRODUTOS

Naquele tempo que eu comecei o produto mais conhecido era o Biotônico, que todas as famílias, povos ricos, davam para os filhos terem apetite, para ele engordar, etc. Mas tinha outros produtos também, não tanto quanto agora porque a medicina não estava tão desenvolvida.

PROPAGANDA

A propaganda da farmácia era a própria freguesia, a própria clientela. Ao adquirir confiança na farmácia, ela recomendava pras outras pessoas também. O mesmo faziam os médicos: eles olhavam, sempre acompanhavam, sabiam em quais podiam confiar. Então era uma espécie de intercâmbio: eu indicava pro meu cliente um médico de minha confiança e o médico indicava a minha farmácia para o paciente dele.

EMBALAGENS

O xarope era em vidro. As cápsulas tinha caixinha redonda de papelão, que custava muito mais barato que tudo aquilo que o laboratório precisava fabricar com bula. A embalagem a gente comprava. Coisa de papelão era fácil comprar e de vidro, também. A gente tinha uma vidraria ou vidraçaria na Lapa, muito boa e então a gente comprava deles.

LABORATÓRIOS

Já em laboratório é diferente, tem mais despesas até chegar o produto na mão da farmácia. E ele nem tem culpa também. Quer ganhar muito dinheiro, mas não tem toda a culpa. O modo de desenvolver a indústria custa caro e nos Estados Unidos também se repete a mesma coisa. Toda essa pesquisa, o governo está custeando. Aqui, por exemplo, não temos tanta pesquisa como tem lá. Mas as pesquisas fazem com que o médico fique importante e que ele possa se basear naquilo que ele estuda para saber o que é. Vem muita coisa dos Estados Unidos pra cá para os médicos, como meu filho que está estudando até hoje, mesmo formado há 25 anos. Cada vez que chega lá, ele está com livros. Há pouco tempo ele esteve em Miami e trouxe tantos livros, tudo em inglês, porque precisa acompanhar. Se um médico não acompanha, ele fica pra trás.

PROFISSIONAL DE MEDICINA

A medicina se desenvolve cada vez mais e, com a farmácia, a mesma coisa. Precisa sempre acompanhar. Eu vivo em congressos, faço tudo pra acompanhar. Não fico sentado em cima daquilo que eu estudei, não. Não pode. Tem que acompanhar sempre, tanto propaganda que o sindicato manda, propaganda médica, propaganda pertencente à farmácia, congressos farmacêuticos de todos os estados.

MATÉRIA-PRIIMA

A gente comprava de casas que trabalhava só com sais para fazer medicamentos. No meu tempo, tinha uma que se chamava Polifarma, que trabalhava só com isso. Hoje deve ter muitas outras.

DIA A DIA ATUAL

Eu leio jornal e gosto muito de ler livro. Eu vou muito às sociedades, não fico em casa não. Sou vice-presidente da terceira idade da Hebraica. Estou lá há sete anos. Quando entrei, existiam há três. Então sábado, chega lá 100, 120 pessoas. Hoje está demonstrado que tem um estudo de geriatria e gerontologia. A geriatria é a vida normal da pessoa, você fica mais velho tem problemas de saúde, tem isso e aquilo, então o médico tem que dar remédio pra você ficar bom. Agora gerontologia é o estudo que prepara o doente para ele não ficar doente, quer dizer, se você vai para terceira idade, você olha uma conferência, você ouve uma canção, todo mundo canta, você dança. Então você esquece que você está ficando velho. Porque os filhos, cada um tem o seu problema, tem a sua família. Ele não pode, por exemplo, ficar com você. Agora, pra você ficar pensando que vai ficar doente, que está velho, que não sei o que, isto te faz mais doente do que você está. Então a gerontologia prepara esse terreno. Antigamente não se pensava no idoso, hoje se pensa muito. A primeira palestra que eles me pediram para fazer foi sobre a farmácia e eu fiz uma palestra que durou duas horas. Eu tenho gravado comigo. E cada pessoa que vem lá eles se divertem, eles se distraem. Isso é muito importante para evitar as doenças que vem com a idade. É uma parte da gerontologia que ajuda bastante

FALTA DO COMÉRCIO

Estava difícil. Claro que uma pessoa que trabalha 40 anos no ramo tem saudades daquilo que viveu. A tua vida está dentro daquilo. Mas os filhos começaram a falar: "Papai até quando você vai trabalhar? Chega. Você pode viver com aquilo que você tem. Nós não precisamos de você. Então cuida da sua vida." Então eu parei. O salão era meu. Eu aluguei e vendi a mercadoria que tinha. Naquele tempo dinheiro não era nada também. Com o aluguel que eu tenho posso viver muito bem, não preciso de luxo. Mas posso fazer uma viagem uma vez ou outra, e isso é muito importante na vida. Posso sentar em cima de um livro e ler duas, três horas. Eu gosto muito daquilo. E só posso dar graças a Deus que cheguei a isso. Chegando um rapazinho de 15, 16 anos para o Brasil e podendo fazer o que eu fiz...

SONHO

Sonho é uma coisa que você não tem limites, ninguém tem: você tem isso, você quer outra coisa. Mas falando na pessoa que tem mais ou menos o seu contentamento, eu graças a Deus sou contente com o que fiz. Ajudei muita gente na minha vida. Ajudo até hoje. Tenho sobrinhos que estão vivendo em Israel, filhos deste irmão que estava comigo e foi com a família toda pra lá. Ele faleceu em Israel. Mas os sobrinhos que eu tenho lá eles vivem muito bem, estão no mesmo caminho. Um é professor, um é secretário da faculdade, a outra menina é professora, tudo dentro de um limite de um estudo expansivo muito bom, que eu gosto. Eu quando vou lá, ou mesmo daqui, às vezes, mando dinheiro pra ajudar quando chega a Páscoa, quando chega Ano Novo.

REFLEXÃO SOBRE A TRAJETÓRIA

Não mudaria nada na minha vida, graças a Deus estou contente com o que fiz. E não há mais tempo pra mudar. Às vezes a gente fica conversando em casa, e minha mulher diz: "É, você ainda tem disposição pra fazer muita coisa!" E eu tenho disposição. Mas eu olho a verdade, eu olho no espelho e vejo como é a vida. Com 82 anos o que eu posso querer ter? Eu posso querer que a memória fique boa. Hoje a gente fala: "você está bom?” “Sim estou bom.” “Então você me reconhece?" O importante é isso! Porque tem muita gente com essa idade que já não reconhece o outro. Se eu posso dar essa entrevista a vocês já é uma grande coisa! Foi uma vida muito difícil, mas apesar disso eu sou muito contente porque eu consegui fazer alguma coisa de bom, uma coisa bonita. Constituí minha família, casei, formei minha família com meus filhos, fiz todos os meus filhos estudarem, todos são formados. Então isso aqui já dá um certo amor pelo país onde você fez a tua vida. Você pode dizer: "Não, você não é brasileiro". Eu sou brasileiro naturalizado, mas eu tenho tanto amor pelo Brasil quanto qualquer outro brasileiro, talvez até mais.

REFLEXÃO SOBRE A ENTREVISTA

Dar esse depoimento aqui é muito útil. Isso aqui serve para estudos dos nossos filhos, netos. Ouvindo essas histórias eles aprendem muita coisa que eles não sabiam. Nós temos que pensar na geração que vem, a coisa mais importante é isso, para que eles andem, que eles vão no mesmo caminho que você foi. E para uma pessoa de idade, isso tem um valor importante, que é ver que vai ter um prolongamento daquilo que ele fez. A parte mais importante da vida humana é permitir que outras gerações andem no mesmo caminho.

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