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História

Os pés na nossa porta

História de: Karina Nogueira
Autor: Karina Nogueira
Publicado em: 01/11/2019

Sinopse

É a síntese da minha trajetória de vida perpassada por muitos obstáculos e dificuldades nada palatáveis, mas que no "fim" nos faz ver com mais clareza o que realmente queremos dessa vida severina.

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História completa

A infância foi boa, pobre porém boa. Fui à escola, mas somente até os 10 anos (a dita quarta série). Na pré-adolescência minha mãe começou a me ensinar a cozinhar. Entrando na adolescência fui catequista na Igreja Nossa Senhora Auxiliadora da cidade de Lavras. Com 14 anos (1994), também fazia o curso de corte e costura. Poucos anos depois, minha família abriu uma sorveteria, mas que também vendia quitandas (aqui em Minas, quitanda são bolos, bolachas, pães, etc.). Eu fazia o sorvete e o batia em uma batedeira gigante feita pelo meu pai. Ela tinha um motor de máquina de lavar roupa. Nele ficava acoplado uma furadeira manual, e nela, no lugar da broca, ia a colher da batedeira. Em 1999, voltei a estudar no supletivo, 1 ano em 6 meses. Isso mesmo, fiquei dos 10 até os 19 anos sem estudar, apenas trabalhando.

Nessa época, minha família começou a frequentar uma religião diferente, cheia de dogmas e fundamentalismos, e infelizmente essa religião separou minha família para sempre. Arrumei meu primeiro emprego (subemprego) de carteira assinada e como eu havia trabalhado na sorveteria da família - que fechou devido à má administração e as idas infindáveis aos encontros da tal religião, e que nos obrigava a fechar todas as vezes- consegui o emprego em uma sorveteria, o empresário chegou até ir à casa de meus pais, coisa que eu nunca vi. Ele foi um carrasco comigo, quando chovia e ninguém ia ao estabelecimento comprar sorvete, ele nos culpava (eu e as minhas colegas de trabalho), isso mesmo que você ouviu! Ele nos culpava por estar chovendo! Não suportei 3 meses. Sai, porém, eu já havia conseguido outro emprego em uma lanchonete que havia adquirido a máquina de sorvete, que era novidade na época. Continuava os estudos junto ao trabalho. Passei por outros subempregos humilhantes e eu sempre, nunca estive satisfeita com coisa alguma. Sai de casa ao 23 anos e fui morar sozinha, já não dava mais para morar com minha família, meus pais tornaram-se fanáticos religiosos, e assim, meu pai conseguiu legitimar de vez o seu machismo.

Em 2004 conclui o Ensino Médio, no ano seguinte fiz cursinho pré-vestibular gratuito oferecido pela universidade federal da cidade. Passei em Pedagogia em uma universidade privada e fiz o impossível para pagar até que chegou o momento que fui barrada por atraso no pagamento da mensalidade. Isso foi um soco na boca do meu estômago. Perdi o emprego, abandonei a faculdade, fui morar na suíte do meu namorado. Estudei para concursos, e eu resolvi prestar vestibular na federal aqui, prestei para Filosofia, fui monitora de uma disciplina. Mudei para Letras, fiz pesquisa durante toda a graduação. Passei no concurso para professora do Estado, passei, fui trabalhar, fiquei doente, sim, a escola me adoeceu.

Abandonei tudo.Foram muitos pontapés e a porta não suportou A depressão se instalou. Isso já era 2017. Três meses na cama, remédios, psicólogos. Ganhei tintas a óleo, pincéis e uma tela do meu amor, aí pintei e desde então venho me curando entre uma pincelada e outra. No meio desta história toda há Inter histórias, muitas, quem sabe, algo ou alguém me impulsione a contá-las um dia. Sigo respirando.

E, estudando novamente, iniciando uma nova graduação sigo.

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