Busca avançada



Criar

História

Os sonhos, as visões e a dieta com um pajé contador de histórias

História de: Vladimir Vicente Brandão (Pekã Rasu)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/10/2019

Sinopse

Pekã Rasu nos leva para um portal de magia, sonhos e mistérios do mundo indígena. Filho do pajé mais velho do povo Yawanawa, Yawa, Pekã Rasu nasceu no Acre no povo Yawanawa ainda no tempo da seringa, era bom ṕescador e caçador, mas vivia muito na farra sem praticar a cultura, com mais de 40 anos de idade foi confrontado se iria ou não seguir a sua cultura, ele então decidiu entrar direto no estudo mais profundo, o doutorado Yawanawa, a dieta do Muká com o seu pai, então nos revela uma série de sonhos e visões mágicas e mais importante que isso resgata a conexão com sua linhagem abrindo os ouvidos da alma aos ensinamentos do seu pai, um pajé eterno na memória do seu povo.

Tags

História completa

De quando eu era criancinha o que eu lembro ? Eu cortei seringa, junto com meu irmão, pra
gente, na época, o que gerava dinheiro era a seringa. Tinha que cortar a seringa, prasobreviver, pra comprar as coisas pros patrões, né? Na época ele tinha patrão, os brancos. Eucortei seringa, mais meu irmão, até os meus 18 anos, e meu pai cortava seringa tambémEu fui um caçador, da minha idade, jovem da minha idade não teve, igualmente, uma pessoacomo eu, um matador de anta. Eu matei muita anta. Eu matei 13 antas. E as nossas medicinasda mata, como kapun que a gente tomava, a gente ia e todo dia que a gente ia, a gente trazia,aí eu comecei a arranjar família, eu tive 10 filhosEu nunca gostei de estar na rodada do Uni {Ayahuasca } e no contar de história. Eu nuncagostei, mas os meus tios, meus primos diziam: “Rapaz, vamos lá ouvir” e eu dizia: “Não queroouvir agora”, porque eu sentia que não era minha hora ainda, eu gostava muito de folia, debeber, de sair curtindo. Por isso que eu não ligava muito pra minha cultura, gostava muito defazer essas coisas ruins.Eu virei o jogo foi agora, o ano passado. No ano passado eu virei a minha história. Que quandoeu ouvi falar muito bem da nossa espiritualidade, que é o Muká, nossa planta sagrada e aí osmeus primos, meu tio disse assim: “ Pekã Rasu, por que você também não faz?” Eu disse:“Rapaz, não é pra mim, não. O meu pai falou que é muita coisa, não é brincadeira, não é pra sebrincar com isso. É coisa muito séria”. Mas aí eles me incentivaram: “Você é filho do pajé maisvelho e verdadeiro. Por que você, o filho, não se valoriza e nem valoriza seu pai?” E aí foiaonde que eu comecei a pensar pra virar o jogo. E no dia eu aceitei: “Tá bom”Ele ensinava tudo lá, todas as histórias. As histórias não são pra todo mundo, também. Não étodo mundo que sabe contar história. São poucos que sabem contar história. E aí disse: “Quebom! E você já aprendeu a cantar?” Disse: “Eu já aprendi o canto”. Esses cantos que a gentecanta, nós na alegria do uni, é um canto diferente. Um canto de força. É diferente, já. E eucantei pra ele e ele disse: “Está certo, é isso, então você está num caminho bom, é um bomaluno”. E aí a gente foi caminhando, foi caminhando, passamos cinco meses nesse retiro, lá.O primeiro meu sonho é que... a gente não dorme durante a noite, é aquele silêncio total.Quando o dia foi amanhecendo, eu fui pegar um cochilo pra eu dormir, que eu não tinhadormido à noite e eu sonhei que tinha uns índios que estavam me flechando, queriam acabarcomigo, queriam me devorar, só via flecha passar como chuva, pra me ferir, pra acabarcomigo. E aí eu fui muito esperto, eles não conseguiram me tocar. Depois veio um índio, comuma pena de Japó e saiu vexando graça pro meu rumo. Muito forte. Ele perguntou: “O que tuestá fazendo?” Eu disse: “Estou passando nesse caminho” “Esse caminho não era pra vocêpassar por aqui, mas como você já está nesse caminho, nós queríamos devorar você, masfelizmente nós não conseguimos. E você é o que teve mais sorte e em todas as suascaminhadas você vai ter vitória, porque isso já foi muito forte pra mim”. Aí ele me abraçou edisse assim: “Está aqui o caminho pra você caminhar nesse caminho”. Mas eu falei para o meupai e meu pai falou pra mim assim: “Meu filho, essa é a força do Muká, mesmo. Que bom quevocê se defendeu de todas elas. No entanto, o caminho você vai caminhar, não vai terdificuldade. Primeiro que você sabe dominar a nossa língua, bem, você não tem dificuldade. Osprimeiros passos de todas essas histórias é a nossa língua, que você a domina bem, você sabede tudo”. E aí outra noite eu dormi e eu sonhei, que todos esses poderes vêm através do sonhoe, quando você toma Uni{ Ayahuasca, bebida sagrada indígena} também, vem também, mas
primeiro é o sonho. Aí vinha um cavalo voando, em cima desse cavalo vinha um anjo e, atrásdele, vinham duas bandeiras. Era uma vermelha, uma preta, uma azul e uma amarela. Atrás,vinham voando. Aí eu vi quando eles vinham voando. Aí eu falava: “Lá vem uma imagem muitogrande”. As pessoas que estavam comigo não conseguiam ver. “Vocês não estão vendo, não?”“Não”. Ninguém estava vendo nada, só eu que estava vendo. Ninguém conseguia ver. Daí elaveio voando, voando, voando. Lá na aldeia sagrada nós estávamos fazendo a dieta. Elachegou em cima da minha cabeça, não passou, nem eu sentindo força dentro da minhacabeça, ficou voando. Aí, quando arreguei minha cabeça assim pra eu olhar, ela virou um pingode uma chuva. Quando eu abri minha boca e olhei, assim, pra cima, ela pingou mesmo dentroda minha boca. Aí me acordei. Aí falei pro meu pai e meu pai disse: “O sonho é muito bom.Muito lindo esse sonho. Não é pra todo mundo. Então, você está sonhando muito bem.Provavelmente, meu filho, você vai ter históriaEntão eu tive um sonho, essa visão veio através de um yawanawá velhinho, mesmo. Essevelhinho era o meu pai, . Ele chegou assim: “Agora você vai contar história. Está preparado pracontar história?” Eu disse: “Tô” “Então, vai contar história”. Aí me acordei, esse foi no sonho, nooutro dia fomos tomar uni e agora é minha vez de contar história, e ali pela primeira vez, conteihistória.Ele mesmo, meu pai com 104 anos pegou a planta, o Muká e tirou, fez o pedido, depois meentregou, eu fiz meu pedido, depois que eu mastiguei, engoli o sumo e depois disso ele meensinou e me esperou até no dia em que eu inteirei um ano e no outro dia ele já fez apassagem dele, eu completei minha dieta e ele morreu no dia seguinte.O meu sonho, hoje, é de seguir os meus passos da minha vida e ser um Yawanawáverdadeiro, pra eu ser um Yawanawá verdadeiro é ter minha identidade. A minha identidade éo quê? É eu saber contar uma história, eu saber fazer uma cantoria, eu saber rezar, pra curar,ajudar as pessoas. Se eu não tenho essas coisas dentro de mim e se eu não souber, eu nãosou Yawanawá. Sou fisicamente, mas espiritualmente eu não tenho nada, sou vazio.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+