Busca avançada



Criar

História

Para além do “Emílio do CEPEUSP”

História de: Emílio Antônio Miranda
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/09/2015

Sinopse

Nesta entrevista, Emílio nos conta a respeito de sua família e de suas raízes em Portugal, onde cresceu e passou sua infância até os 8 anos. Depois, ouvimos muito sobre sua viagem para São Paulo e a vida na capital. Sabemos sobre seu cotidiano na escola, sua juventude, os bailes, a presença da Jovem Guarda e o clima volátil da ditadura militar que cercava os jovens na época. Emílio nos fala sobre sua paixão pelo esporte, o trabalho no restaurante de seu pai e sua relação com a USP, onde entrou em 1974. A partir daí, ouvimos sobre a Escola de Educação Física e Esporte e o Centro de Práticas Esportivas, lugar onde é diretor atualmente. Por fim, Emílio nos conta sobre a formação do Projeto Esporte Talento, o seu casamento, seus filhos e seus sonhos para o futuro.

Tags

História completa

Bom, meu nome é Emílio Antonio Miranda. Nasci dia 30 de novembro de 1948. Eu nasci em Portugal, Bragança e agora estou aqui. Meu pai é Augusto Manuel Miranda. Também nasceu em Portugal. Minha mãe, Maria da Conceição Afonso, também nasceu em Portugal. Os dois casaram lá e migraram para o Brasil, meu pai veio em 54 e nós viemos em 56. Meu pai em Portugal era marceneiro, minha mãe era do lar, e quando vieram para o Brasil acabaram entrando em comércio, como naquela época praticamente todo imigrante fazia, trabalhar em comércio. No caso era padaria, restaurante, essa área. Olha, que eu lembro foi de sair lá de onde eu nasci e nós viemos pra Lisboa, porque nós pegamos o navio em Lisboa. Pra mim era tudo novidade, andar de trem, um negócio, nossa, uma aventura. Viemos de Bragança pro Porto, aí do Porto pra Lisboa. E aí a gente foi morar na Vila Guilherme, que era um reduto português naquela época, Vila Maria, Vila Guilherme. E a coisa é enorme, pra você se locomover já era tudo longe. Pra mim que saía de casa, atravessava a rua e estava nos meus avós, nos meus primos, aqui tinha que pegar ônibus pra visitar, então essa coisa que me causou um pouco de impacto. E a escola. Olha, era uma casa maravilhosa a que a gente morava, porque tinha um quintal enorme, pomar, tinha bananeira, tinha pera, maçã, abacate, mexerica. A Vila Guilherme, onde hoje você pegar ali da marginal pra dentro, como se fosse lá pra Maria Cândida, tudo ali eram chácaras. Onde tem o Center Norte hoje eram lagoas, aquilo foi aterrado. Então toda aquela área que você vê ali onde é o terminal Tietê hoje, ali também eram lagoas. E você indo mais praquela parte ali perto da detenção era tudo chácaras. Na rua que eu morava tinha as casas e depois em frente eram todas chácaras, tudo chácara. Chácara mesmo, a portuguesada plantava e serviam praticamente o mercado municipal, eles plantavam tudo, que era legumes, cenoura, beterraba, alface, couve, tudo essas coisas. E a minha casa, nossa, era uma casa que a gente se divertia. Então praticamente de fruta você tinha tudo ali. Tinha brincadeira, já jogava bola na rua, empinar pipa, era essas coisas assim, correr atrás de balão, fazia balão. Realmente naquela época era um lugar que você tinha realmente muita liberdade, não tinha nenhum risco, as ruas todas de terra ainda, não é nada asfaltado, e a garotada convivia assim. Então esse local era bem bucólico pra época. Eu comecei assim, como meu pai tinha um restaurante eu ajudava, comecei a ajudá-lo. Era muito comum naquela época os filhos ajudarem os pais, o pessoal acabava trabalhando ajudando o pai. Porque era tempo muito duro, muito difícil, não dava pra você ter empregado. As famílias todas trabalhavam juntas. Isso espanhol, português, italiano era muito comum. Aí eu trabalhei, mas ajudava aos pouquinhos, não muito. Depois eu arrumei emprego, fui ser office-boy, mas também não deu muito certo, fiquei um ano, um ano e pouco. E meu pai comprou um restaurante maior, eu fui ajudá-los. Eu estudava à noite, então como eu fui estudar à noite fiquei ajudando. Esse que eu comecei a ajuda-lo, aí a gente já tinha mudado pra Penha, era lá na Penha, na Rua Guaiaúna. A gente aí era maior, um restaurante grande e tal, aí eu fiquei trabalhando com ele direto. Rapaz, olha... se é uma coisa que eu fiz muito na vida foi mudar de bairro, viu? Porque as pessoas, nesse tipo de negócio você muda muito, né? Eu morei na Vila Maria, a Vila Maria foi mais, foi antes da Penha. Era Canindé, Vila Guilherme, aí nós fomos para o Ipiranga, morei um pouco no Ipiranga. Depois nós fomos para Penha, aí lá fiquei bastante, nós ficamos lá uns quatro anos. Voltamos pra Vila Maria, lá a gente ficou bastante tempo também. E depois eu fui para o Tucuruvi. Foi onde eu casei, depois que eu casei mudei para o Jardim São Paulo, que é ali perto do Tucuruvi, e depois já casado vim pro Brooklin e estou aqui até hoje. Mas naquela época não tinha jeito, né? Era Jovem Guarda, fora que começou Beatles, então era a grande... não tinha muita coisa pra fazer na vida, era música, estudar e jogar bola. Era o que eu fazia. Ajudava o meu pai durante a semana, sábado e domingo eu dava um jeito – porque abria, né, o bar ou restaurante – aí eu negociava com ele pra jogar bola, que eu sempre joguei relativamente bem Terminei o científico, aí eu fui fazer vestibular. Mas antes disso, quando eu estava no colegial, eu trabalhando com meu pai e falei: “Pô, pai, eu quero fazer faculdade”. Lógico, eu sabia o que era a USP, como era a USP, mas eu não conhecia aqui, até porque eu morava em Jaçanã, né, então o máximo que eu vinha era Tucuruvi, vinha pra Santana, ia pro centro e tal, mas eu nunca tinha vindo pra cá. Eu sabia que era longe pra caramba. Mas, por coincidência, o pai de um amigo meu que estudava comigo, o Dabius, a gente jogava futebol, trabalhava aqui na USP. E ele trabalhando na USP, um dia eu estava conversando, já quase no final de ano, em 70. Desculpa, bem no finalzinho de 69, 70. Aí eu falei: “Seu Moraes, nas férias leva a gente pra conhecer a USP” “Levo, vamos embora”. Ele tinha carro. Eu fiquei maravilhado com a USP, não tinha nada disso aqui, mas. E ele trabalhava na Geologia. Desculpe, na Filosofia. Lá na administração. “Pô, que legal, que bonito”. E naquela época a USP tinha muito problema pra contratar funcionário, ninguém queria trabalhar aqui, era tudo longe, pra vir aqui era uma vida. Ele falou: “Pô, o que você está fazendo?”, eu falei: “Ah, eu não vou trabalhar com meu pai esse ano, não. Vou fazer cursinho” “Ó, está precisando de gente aqui pra trabalhar como auxiliar administrativo. Você não quer fazer um teste?” “Faço”. O teste era datilografia, mais conhecimentos gerais. “Mas quanto vai pagar?”, vamos chutar hoje. “Acho que vai pagar aí uns 600 reais. Falei: “Quanto???” “É, 600 reais”. Eu falei: “Estou dentro!”. Pra mim era fortuna porque eu não ganhava nada (risos), trabalhava pro meu pai Aí com esse negócio também de estudar eu falei: “Ah, vou estudar”. E o Brasil tinha sido campeão em 70, de futebol. E eu conheci o Parreira. Até hoje eu tenho amizade com ele, de vez em quando a gente se encontra por causa do futebol, que é uma outra área que eu atuo. Eu falei: “Pô, vou ser isso aí, vou ser preparador físico de futebol. Educação Física, tal, tal, tal”, e descobri que a USP tinha Educação Física. Falei: “Já quero estudar na USP, tem Educação Física, vou fazer isso”. Prestei vestibular e passei tranquilo. Até 74 eu trabalhei na USP como funcionário, depois eu saí. Formei, aí saí em 74, fui trabalhar numa academia lá no Brooklin, fui dar aula lá e voltei pra cá como professor em 78. Em 78 quando foi implantada na universidade a Educação Física obrigatória, começou a contratar professores, aí contrataram nove e eu fui um delesEu acabei em 73, aí eu fiz especialização em 74 em judô. Até isso ainda era estagiário, que sempre fui estagiário. Eu tinha uma academia de judô, natação, caratê, ginástica e criamos a primeira escola de futebol no Brasil, que era a Escola Bellini, por isso que eu falei do Djalma Santos que trabalhou comigo. Então fundamos a Escola Bellini de Futebol logo depois daquele fiasco de 74. E o Bellini era o nosso ídolo porque tinha sido campeão e tal. Aí levamos Bellini, Djalma Santos, Ivan, levamos todos ex-jogadores pra lá. Fui sempre dando futebol, futebol, futebol, depois deixei o judô. Quando virei diretor técnico deixei o judô que veio outro professor e fiquei só na área de futebol. Diretor técnico do Cepeusp. Porque assim, você tem o diretor geral e tem o diretor técnico. Eu fiquei de 85, fiquei acho que uns oito anos como diretor técnico. Mas sempre também dando aula. Conheci minha mulher, a Rosemeire, no Projeto Rondon. Nos casamos no dia três de julho de 76. Tenho dois filhos. Um é o Luís Augusto, o outro é o Fernando. Luís Augusto está com 35 e o Fernando, 33. Luís Augusto é publicitário e o Fernando é professor de Educação Física, trabalha também com personal trainer e futebol. E o Luís Augusto é músico, tem banda, se vocês quiserem divulgar, eles tinham o, ai caramba, tem a banda que era mais ligada a rock, agora não, agora eles estão indo pra música mais instrumental. Olha, pra mim o Cepe está impregnado na minha vida porque eu desde 1970 estou aqui, sempre, então pra mim faz parte da minha vida. É assim, mais de 60%, mais, parece que passei a minha vida inteira praticamente aqui. Estou há 40 anos. E assim, é um lugar que eu me realizo, me sinto bem, gosto muito, acho que é um lugar que sempre vou querer estar aqui, mesmo depois que eu me aposentar, eu até brinco com o pessoal aí, terceira idade eu vou vir pra cá para usufruir mais o que eu puder (risos). Pra mim é aquela coisa que fica assim, é uma parte da sua vida, né? Uma coisa que te completa profissionalmente, acho que profissionalmente pra mim me abriu imensas portas, em todos os sentido, tanto relacionamento humano, relacionamento de atividade profissional. Consegui, através do Cepeusp, conviver com muitas pessoas importantes, tanto no meio esportivo como no meio aqui dos reitores, governadores, presidentes, alguns atletas famosos, então isso me deu muita, muita, não só autosatisfação mas também muita alegria. Então o Cepeusp pra mim é em suma assim, é um braço, dois braços da minha vida, do meu corpo. Eu tenho o tempo inteiro, minha vida é identificada, mesmo quem me conhece profissionalmente é o Emílio do Cepeusp, Emílio do Cepeusp. Estamos aqui.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+