Busca avançada



Criar

História

Para que não se repita

História de: Miguel Varone
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Em sumárias seis páginas, cabe um trecho da narrativa por vezes horrenda da vida de Miguel, que é contextualizada pelos fatos políticos do Brasil de 64. Anteriormente filiado ao Partido Socialista, se ligou à União da Juventude Comunista. Resistiu às forças golpistas e foi punido quatro vezes por conta disso. Além das sequelas em seu sistema nervoso, deixadas pelas cessões de tortura, conta do Brasil e dos brasileiros afetados por este período: cidadãos alienados, perda de entes queridos, endividamento externo e distúrbios psicológicos.

Tags

História completa

P/1 – Senhor Miguel, boa noite. Eu gostaria que o senhor repetisse o seu nome para mim.

 

R – É Miguel Varone.

 

P/1 – E a data e local de nascimento?

 

R – Cinco de maio de 1939.

 

P/1 – Local de nascimento?

 

R – São Paulo, capital.

 

P/1 – Seu Miguel, onde o senhor estava no dia do Golpe?

 

R – No dia do Golpe eu estava começando a fazer o curso de Direito, em Taubaté. Eu estudava de manhã, tinha voltado de Taubaté e cheguei, mais ou menos, uma hora da tarde. Eu fui direto para a sede municipal do Partido Comunista, que ficava lá no Parque Dom Pedro II, nas proximidades da Secretaria da Fazenda.

 

P/1 – O senhor já tinha atividades políticas?

 

R – Sim, já. Na verdade eu comecei a participar em finais de 63. Primeiro eu me filiei ao Partido Socialista, que na época ficava na Praça Carlos Gomes. Depois, descontente com a participação política do Partido Socialista, eu me liguei à Juventude do Partido Comunista [UJC] e comecei a participar de atividades estudantis, na época o órgão que dirigia os estudantes secundaristas. Em 63 eu era estudante secundarista, era a União Paulista dos Estudantes Secundários, cuja sede, na época, ficava na Rua XV de Novembro, naquele prédio onde é o Banco Safra, antigo Banco Moreira Salles. Tinha até uma ruazinha no meio, próxima à Rua da Quitanda ou Rua do Comércio, lá na Rua XV de Novembro. Eu voltei lá e a gente achou, ainda no dia 31 que, até induzido pela direção nacional do Partido Comunista, no caso Prestes e companhia, que os militares nacionalistas das Forças Armadas não permitiriam que o Golpe fosse ser vitorioso. Isso no dia 31, quando as primeiras tropas do General Mourão, do Mourão Filho, lá de Minas, estavam se deslocando de Minas para o Rio e para São Paulo. O Rio não era mais a capital federal na época, mas era a capital política do país. Então muitas das coisas se decidiam ainda lá no Rio de Janeiro, que por sinal era o centro da reação nacional. E na época o governador era o Carlos Lacerda, que era um dos figurões da UDN, União Democrática Nacional.

 

P/1 – Seu Miguel, pessoalmente, qual foi a reação que o senhor teve ao saber do Golpe?

 

R – Foi muito ruim, mas no início a gente viu um entroncamento de todo um processo político que na época estava se desenvolvendo no país, com propostas de modificações sociais, com reforma no campo. Por exemplo, existia uma proposta da reforma agrária que deve ter deixado os grandes proprietários de terra no Brasil muito enfurecidos. E teve outra questão que foi o problema da remessa de lucros, que levou uma interferência direta da embaixada americana no Brasil a fazer a coordenação do Golpe Militar. E na época eu me lembro muito bem, eu era estudante secundarista, a gente tinha uma proposta contra a qual a gente lutou bastante, que foi a Proposta da Lei de Diretrizes e Bases da Educação do Suplicy, não deste Suplicy, mas do Ministro Suplicy, que depois veio a ser Ministro da Educação do regime militar.

 

P/1 – Seu Miguel, ao longo desse tempo todo de Governo Militar, de que forma o Golpe influenciou a vida do senhor?

 

R – De uma forma terrível, porque a gente era jovem e não concordava, principalmente, com a linha reboquista do Partido Comunista. Porque, na verdade, a cúpula não tinha... O Prestes, por exemplo, que era um secretário político, ele não tinha uma linha própria, ele esteve sempre à reboque da denominada burguesia nacional. Existia um conflito muito grande no Brasil, como em toda América Latina, que era uma conflito entre a chamada “burguesia ascendente nacional”, que é composta por alguns grupos industriais, comerciais, contra a penetração do capital estrangeiro no Brasil, coordenado, inclusive, pela embaixada americana. Então esses grupos, em parte, até apoiavam as denominadas Forças Democráticas para combater os interesses estrangeiros no país, no caso. Continuando, depois eu tive outras participações políticas. Em 64, 65, o Partido Comunista se fragmentou todo, e eu participei do Primeiro Congresso de Reunificação do Partido Comunista. Eu uni uma base que era de bancários, porque eu tinha sido bancário na época. Fui funcionário do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, concursado, e acabei sendo demitido sumariamente por atividades sindicais. Posteriormente a base dissolveu, eu me liguei a um pessoal do Tatuapé e vim ser secretário político da base do partidão lá do Tatuapé. Aí a gente fez um trabalho, depois um trabalho político entre as fábricas lá do Tatuapé, que em sua maioria eram fábricas têxteis, a gente ia para as portas das fábricas fazer divulgação de panfletos contra o Golpe Militar. Depois eu acabei sendo preso por uma questão que surgiu, eu fiquei preso praticamente dois dias. Na minha vida eu tive quatro prisões, uma delas dentro do Golpe Militar, eu me lembro muito bem, foi quando o Carlos Lacerda, ainda governador do Rio de Janeiro, tinha cassado todas as livrarias que vendiam livros de esquerda lá no Rio de Janeiro, e esses livros vieram de caminhão, vendidos por tonelada, para as livrarias de São Paulo. Ao entrar em uma dessas livrarias que ficava na Rua do Seminário eu estava comprando um livro e acabei sendo preso. A segunda vez foi quando o Marcelo Caetano, que foi o substituto do Antonio de Oliveira Salazar lá em Portugal, que foi um ditador que ficou pelo menos uns 30 anos no poder, o Marcelo Caetano tinha sido convidado para visitar o Brasil, e haveria uma solenidade na Casa de Portugal, lá na Avenida Liberdade. A portuguesada estava colando cartazes lá na Avenida São João, e eu e mais um amigo, à medida que eles colavam a gente chegava lá e rasgava. Veio uma viatura do DOPS [Departamento de Ordem Política e Social], pegou a gente e levou lá pro DOPS também. Depois teve uma terceira prisão quando eu já tinha me desligado do Partidão, um dos grupos que fazia parte, dessa base, tinha colocado uma bomba nos pneus da Goodyear, na Rua dos Prazeres, lá no Belenzinho. Isso foi descoberto, quase todo mundo foi preso, eu também fui preso porque me abriram. Eu trabalhava numa empresa, Tesp, eu fui preso dentro dessa empresa − que não existe mais − e me levaram. Mas como eu estava totalmente desvinculado do Partidão, fui solto, porque a própria empresa na época se interessou. Eu fui preso dentro da empresa, eu tinha um cargo de confiança, tal. Depois eu acabei me vinculando à VPR [Vanguarda Popular Revolucionária], em dezembro de 69, até levado por uma pessoa que eu tinha conhecido cinco anos antes no Partido Socialista. E aí, com pouco mais de três, quatro meses, eu era como uma linha auxiliar da VPR, e o pessoal do Fleury foi levado por um cara que depois apareceu na televisão, um cidadão chamado Celso Lungaretti, porque eu tinha guardado ele alguns dias em casa, ele tinha mal se adaptado lá no Vale do Ribeira, onde a VPR tinha um campo de treinamento. Como eu era uma pessoa que tinha uma vida legal, eu acabei guardando ele por alguns dias em casa. Esse cidadão foi pro Rio de Janeiro e ele caiu. No que ele caiu, ele abriu tudo, inclusive o contato que ele tinha tido comigo, que foi um contato muito breve, e eu acabei sendo preso pela equipe do Fleury, isso logo depois do sequestro do cônsul japonês. O sequestro do cônsul japonês se deu em março de 1970, e eu fui preso em abril de 70. Na verdade eu também tive uma pequena participação, eu fui duas vezes lá na Praça Buenos Aires, que é onde morava o cônsul japonês, para saber o horário de entrada e saída dele lá, e no final a minha participação foi pequena, mas eu já tinha guardado o Celso Lungaretti em casa, tal, acabei sendo levado. E por desgraça minha, pelas indicações que o Celso tinha dito de mim, eu fui pego como um grande peixão, depois é que eles perceberam, porque caíram outras pessoas, a VPR acabou se fragmentando, houve uma série de quedas, até a maioria (era?) pessoas que eu desconhecia. O que eu estou relatando era quase uma linha auxiliar, eu conhecia muito pouca gente. E eu acabei sendo preso depois de três dias de espera, porque eu morava lá e morava com meus pais, eu aparecia eventualmente no local. E eles me esperaram, no corredor do meu apartamento, do dia 17 até o dia 20 de abril de 1970. Quando eu estou entrando no apartamento, tem um montão de gente com metralhadora em punho pra me prender. E logo que eu fui preso me colocaram algema e me jogaram dentro de uma viatura C-14. Aí eu fui conduzido para a Operação Bandeirantes, e lá eu fui pro SINARM [Sistema Nacional de Armas], né, no caso. Eu fui… Peguei… Palmatória, começou com telefone, o que era o telefone? Era batida, você estava conversando com um pessoal, o pessoal batia assim, e era tudo gente da Aeronáutica, cara de dois metros de altura. No que você ia, eles te davam paulada na cabeça ou no peito; pediam a mão, você dava a mão, vinha a palmatória. Eles te arrancavam a roupa, você tinha que ficar pelado. Por último, acabei parando no pau de arara, onde eles me colocaram uma estopa suja e colocaram uma das pontas do... Era uma máquina que eles viravam, você ficava pendurado com uma estopa na boca, porque em torno da Operação Bandeirantes tinha casa, e eles queriam evitar que os gritos das pessoas chegassem nas casas do pessoal. E aí aconteceu o seguinte, no meu caso específico, eles jogavam água no meu corpo − porque água é condutora de eletricidade − para que os choques elétricos tivessem um potencial maior.

 

P/1 – Seu Miguel, pra gente concluir, o que o senhor acha que são os resquícios...

 

R – Que eu tenho? Eu tenho o sistema nervoso alterado.

 

P/1 – E no Brasil de hoje, seu Miguel? Os resquícios do Golpe no Brasil de hoje.

 

R – Tem vários resquícios. Primeiro, daqueles que participaram, o pessoal teve consequências de ordem psicológica, muitos perderam parentes, seus entes queridos, outros tiveram que migrar. Eu tenho viajado pelo exterior, até hoje na Escandinávia tem brasileiros que vivem em consequência da diáspora que o Regime Militar provocou, no caso. E outra parte, existem vários resquícios do Golpe Militar: você tinha todo um processo político que avançava com a conscientização da população e que foi estancado naquele momento. Você tinha... O Sérgio Lamberti se referiu do Centro Popular de Cultura, dos estudantes secundários, universitários. Os centros populares, que eram grupos teatrais, em formato de estudantes, que faziam campanha de esclarecimento político pra população. Com o advento do Regime Militar isso foi estancado. De outra parte, você tem o grande problema da dívida externa brasileira, a decantada da dívida externa, que os militares conseguiram não o desenvolvimento, que há de separar o que é crescimento e desenvolvimento do país. O Brasil cresceu a custa de um grande endividamento externo. Os militares, no afã de criar indústrias, até para colocar seus apaniguados, eles endividaram bastante o país, cujas consequências a gente sofre até hoje. Toda essa dívida que a gente tem, ela teve sua origem dentro do Golpe Militar, porque houve um endividamento fantástico. O problema da cultura, hoje, de uma maneira ou de outra, o Regime Militar conseguiu criar várias gerações de brasileiros totalmente alheios ao problema político social do país. Você pega jovem nascido na década de 60, 70, que foram educados na época da ditadura, ou posteriormente à ditadura, eles mal entendem o que se passou a partir de 40 anos atrás, porque o processo político começou bem antes, na época do Getúlio, em 1950. Hoje você tem uma garotada, uma juventude, que está totalmente alheia aos acontecimentos. Eu me lembro, eu estava assistindo ontem à TV Cultura, e a TV Cultura fez uma pesquisa sobre o Regime Militar, e eles relataram que mais de 50% dos jovens não sabem o que aconteceu no país. Inclusive eles perguntaram quais foram as personalidades máximas durante o regime militar, e eu lembro que perto de 50% do pessoal citou o Franco, que foi o ditador da Espanha desde 1936, e o Franco não tinha nada a ver com o Brasil, por aí você vê o nível de alienação.

 

P/1 – Seu Miguel, muito obrigado, infelizmente a gente tem que encerrar.

 

R – O problema é que a história é vasta e fica difícil você sintetizar. Mas tudo bem.

 

P/1 – Muito obrigado pelo seu depoimento, seu Miguel.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+