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História

Para ver a banda passar

História de: Wanderléia Rodrigues da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/03/2009

Sinopse

Nascida em São Sebastião do Paraíba, Wanderleia passou a morar em Cantagalo, Rio de Janeiro, desde pequena. Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, conta sobre a história de sua família, descendente de portugueses, fala sobre sua fragilidade quando era criança e de histórias divertidas da juventude. Desde cedo apresentava dons artísticos, como seu talento para desenho e para a maquiagem, chegou a se formar no magistério pela paixão às crianças, mas sempre trabalhou em serviços administrativos. Atualmente trabalha como roteirista de rádio e como professora de dança, com um grupo de meninas que se apresenta junto à banda da cidade. Conta com orgulho das filhas que seguem os mesmos passos e doe envolvimento delas com o projeto TôNoMundo na escola.

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História completa

Nasci em São Sebastião do Paraíba, quinto distrito de Cantagalo, no dia 26 de Fevereiro de 1969. Meu avô paterno, nascido e criado em Cantagalo, foi pedreiro. As pessoas mais antigas sabem que foi ele quem fez aquela obra linda, a Praça dos Melros, em Cantagalo. Morei durante 24 anos em uma casa só, pequenininha, antiga. A maioria das casas em Cantagalo é assim. Eu dormia no quarto dos meus pais, ficávamos juntos ali. Só saímos de lá porque veio uma prima morar conosco, e precisávamos um quarto a mais. Mudamos para uma casa maior, sempre no centro.

Quando eu era pequena, se espirrava todo mundo corria. Ficava na janela, olhando a criançada brincar, doida para correr, mas não podia. Era aquele carinho gostoso que pai e mãe têm, medo do filho se machucar, principalmente quando têm um filho só. Eu brinquei de boneca até 15 anos.

Comecei na escola no jardim da infância. A gente usava uma jardineira, cada criança com o seu nome no peito. Cada criança tinha um cavalete e perto de cada um de nós tinha uma latinha com vários lápis de cera e apontador. Tinha tinta aquarela, pincel. Uma vez a professora contou a história de uma formiguinha e pediu que os alunos fizessem o desenho da formiguinha passeando, carregando uma folha. Eu fiz? Fiz nada. Eu fiz um jardim de margaridas dando a mão uma para a outra, a mão era a folha. Terminamos, a professora foi de um a um, olhando. Só sei que adoraram aquele desenho porque ele foi parar na secretaria, pendurado num mural, para enfeitar.

Minha vida mudou aos 12 anos. Um dia teve campanha de vacinação na escola. Eu não queria ir. Na minha vez de tomar a vacina, eu corri. A professora sabia que eu nunca tinha pisado na terra, usava bota ortopédica, então prometeu que se eu tomasse a vacina ela me deixaria ficar descalça. Eu tomei a vacina e coloquei os pés no chão. Parecia que estava no céu. Corria de lá para cá, daqui para lá, com o pé todo ralado porque a pele era fina. E a terra, aquela terra! Eu nunca tinha colocado a mão na terra.

Depois dos 12 anos eu pude brincar com as crianças de um abrigo perto de casa. A gente brincava de gangorra, corria de pique, pique-pega, pique-esconde. Tinha muito espaço, e eu não tinha espaço em casa, então quando me via naquele pátio enorme caía, machucava, ia para casa escondendo o machucado do joelho para a mãe não brigar. Era bom demais. Minha tia cuidava desse abrigo. Um dia ela fez um panelão de doce de leite caseiro para o lanche. Na hora do lanche aconteceu um imprevisto e minha tia decidiu deixar o doce para mais tarde. A dispensa era aberta em cima, tinha meia parede, e o cheiro estava uma delícia. Eu e mais duas, as mais sapecas, pulamos a parede, enchemos a mão de doce e não conseguimos sair. Entramos debaixo da mesa. Quando deu, saímos correndo, com doce caindo pelo caminho. Minha tia seguiu o doce e nos encontrou. Ficamos de castigo, olhando para a parede, em pé, sem falar.

Uma vez a professora da segunda aula faltou. As coleguinhas resolveram pular a janela, que era alta. Quando eu fui pular, a minha prima, que fazia estágio de professora, abriu a porta e me viu. Eu caí, querendo correr para ela não me ver, e me machuquei. Quando cheguei em casa minha mãe já sabia que eu tinha pulado a janela. Pensei: “É agora, ou a minha mãe vai me bater ou eu vou ajoelhar no caroço de milho.” Porque contavam histórias de palmatória e eu ficava imaginando esses castigos. Ela falou: “Então, qual vai ser o castigo? Porque menina não pula janela.” “Já sei, vou ficar sem meu doce.” Ela muito séria, falou: “Eu vou te dar o doce. Mas você não pode mais pular janela.” Esse bicho papão dessas histórias, que a minha avó contava, que meu pai contava, a minha mãe, que as professoras, que os pais faziam, aquilo foi deixando de ser o bicho da cara-preta. Eu fui muito calma quando pequenininha, mas depois que eu cresci fiquei bem bagunceira.

Eu era fascinada por maquiagem. A minha tia vendia produtos Avon, e me dava as revistas. Eu recortava batons, sombras e ficava passando na minha mãe. Quando fiz 15 anos ganhei dos meus pais um estojo de maquiagem completo: espelho, blush, sombra, batom. Nunca entrei em curso, mas fui descobrindo as coisas me maquiando e passei a maquiar noivas, madrinhas.

Meu sonho era desfilar. Porque eu vi na televisão umas mulheres desfilando, muito magrinhas, com roupas bonitas. Calçava o sapato da minha mãe e o “camisolo” dela e fazia a mesma coisa. Realizei meu sonho, não tenho do que reclamar, porque desfilei muito! Quando eu era mocinha, as lojas faziam desfiles para apresentar as roupas novas que chegavam. Eu desfilava no coreto da praça ou no clube. Me realizei. Mas também gostava quando tinha carnaval, me via em um carro alegórico, e até hoje não realizei esse sonho!

Terminei o primeiro grau em uma cidade vizinha, no Município de Cordeiro, porque a escola tinha Segundo Grau e meu pai queria que eu me acostumasse com o lugar. Eu estudava muito, levantava às cinco da manhã, tinha oficina à tarde, chegava em casa sete e meia da noite. Depois amei fazer o Segundo grau, Magistério. Adoro criança. A gente tinha que estagiar em várias escolas, fomos até em escola com crianças especiais, e tínhamos de fazer relatório em cima disso. Porque eu fiz o magistério em ensino particular, baseado no parâmetro curricular nacional. Desde o momento em que concluí o magistério, estava apta a entrar em uma sala de aula. Mas nunca fui professora de escola.

Eu atuo como coreógrafa. Faço um trabalho de dança com jovens de 12 a 16 anos. Esse grupo vai a todas as apresentações da banda municipal de Cantagalo. Eu sempre gostei de dança. A Secretaria de Educação tinha a banda, e não tinha pessoas que gostassem e quisessem desenvolver isso. Um amigo meu pegou a parte dos músicos e eu entrei com a parte da linha de frente, que são as balizas. Eu desço a rua da minha casa com as 14 meninas arrumadas, na fila. Tudo direitinho, mãozinha na cintura. Onde uma põe o pé, a outra põe o pé também, não tem risada. Depois que acaba, até me pegam no colo, mas, antes é tudo direitinho. Não tem briga, não tem confusão. Tem conversa, que eu converso muito. Às vezes, eu falo: "Olha, a tia hoje falou muito.” Elas falam: "Não, tia, eu te amo." É meu presente.

Profissionalmente, trabalhei em uma empresa de ônibus durante oito anos. Mas meu pai adoeceu, eu fiz acordo e saí. Aí me chamaram para a rádio. Adequaram meu horário para eu poder cuidar dos meus pais. Aprendi a operar áudio. Sou roteirista. Faço o roteiro da programação. Recebo a chave de músicas, do que vai entrar como inserção, para poder programar a posição e hora de cada uma. O roteirista faz isso, programa dentro da grade, do horário nobre, que é de sete da manhã até cinco da tarde. Tem a exclusividade de clientes. O cliente escolhe a hora para rodar o dele. Tem que ir exatamente naquele momento, como rege contrato. Mas tenho que entender de tudo, se faltar alguém e acontecer algum problema, eu não posso deixar a falha no ar. Rádio é ao vivo, não pode deixar a peteca cair.

Fui casada. Tenho duas filhas, uma de 14, outra de 15 anos. São as minhas amigas. Tenho 12 anos de divórcio. Sou muito feliz. Eu me dou com o pai das meninas, porque o pai e a mãe, mesmo separados, têm que estar sempre mostrando aos filhos que a família está ali. Acompanho de perto a vida das minhas filhas. A escola delas, Escola Municipal Professor Evandro do Vale Moreira, é aberta aos pais que quiserem conhecer o ambiente, os professores. Nessa abertura eu entrei, e sempre fui muito bem recebida. A escola delas se tornou a minha segunda casa. Eu vou lá, faço, pinto a “sapequeira”. Minhas filhas estão amando o projeto “Tô no Mundo”, despertou nelas o interesse para aprender, para fazer, para participar em grupo. O projeto despertou a atenção, o querer participar, o querer aprender. Desenhos que fazem de acordo com o projeto são colocados na Internet. Eu fico lá babando, olhando. Tem uma série de coisas na página do projeto que desperta muito o aluno. Ele fica interessado em aprender e participar.

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