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História

Pé molhado

História de: Aldo Minchillo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/12/2012

Sinopse

Identificação. O pai, italiano, e a mãe, brasileira. A infância no bairro da Mooca, as brincadeiras, o italiano falado nas ruas. Comentários sobre as transformações urbanísticas e culturais da cidade. O desenvolvimento e a decadência do ramo de comércio de peles e couros em função das novas dinâmicas econômicas, tecnológicas e culturais da sociedade. As diversas lojas que possuiu em endereços da região do Brás e os altos e baixos desse ramo de atividade. Comentários sobre sua atuação Sesc e no Clube Espéria.

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História completa

“Em 1941 eu fui trabalhar com um tio que já tinha ligação com o ramo de couro, isso foi na Rua Carneiro Leão, no Brás. Fui lá para ser contador da firma e eventualmente ajudar nas vendas. Era uma firma do meu tio, mas depois foi evoluindo, eu entrei de sócio alguns anos depois, fiquei sócio com a ajuda do meu pai e nós transformamos a firma na Casas de Couro São Crispim. O ramo de couro e peles tinha força em São Paulo porque nós, os atacadistas, recebíamos mercadoria do Norte, do Nordeste, principalmente do Sul, e a revendíamos aos pequenos fabricantes de calçados, aos consertadores de calçados, alguém que fazia artefatos, alguma mala. Nós tínhamos o comércio do ramo de couros estabelecido aqui na capital, principalmente no Brás e no Anhangabaú. Havia bons atacadistas, mas os curtumes começaram a se instalar em São Paulo, tendo aqui um depósito ou um representante. Com isso, eles nos expulsaram do comércio no ato. A gente tinha que procurar um ou outro que não tinha representação e, enfim, fomos perdendo a força. Fomos só atendendo industriais menores, por exemplo, do lado da Vila Mariana, Jabaquara, do lado da Avenida Santo Amaro, do lado de Santana e Tucuruvi, do lado da Lapa, do lado de Pinheiros. No meu caso, por exemplo, quando começou a ficar ruim o atacado aqui em São Paulo, nós passamos a fazer o interior, porque lá ainda tinha pequenas fábricas de sandálias: Limeira, Birigui, Franca. E por aqui abrimos filiais para poder atender pequenos consertadores, então nós chegamos a ter seis lojas. Tive loja na Avenida Santo Amaro, na Voluntários da Pátria, Praça Marechal Deodoro, Praça da Liberdade, Belém... eram pontos intermediários, mas até isso foi acabando, porque, se alguém abriu mais adiante, depois também segurou e não tinha para todo mundo. Então fomos diminuindo o número de lojas e veio a ideia de colocar peruas na rua para vender diretamente para o consertador de calçados. Aí o que aconteceu? Outros também fizeram a mesma coisa e foi se exaurindo. E o consumidor mudou também: a mulher hoje conserta o calçado? Não. A mulher ao invés de ter três ou quatro pares de sapato, como antigamente, tem mais de 20, 30. Nem o saltinho gasta mais, não é? Outro grande inimigo do nosso setor foi o automóvel, porque, se eu ando de automóvel o dia inteiro, não gasto calçado. Então as coisas foram mudando. Sapato há 50 anos só se vendia se tivesse sola de couro, ninguém queria saber do sintético, Passou o tempo e aí entrou o tal de courvin e outros sintéticos que mexeram com o mercado. Hoje, ao contrário de antes, se trabalha mais com sintético. Antigamente a sola tinha que ter resistência, hoje a sola se faz num dia. É um produto químico ou dois que você põe lá dentro e, quando você tira, matou 70% das fibras, porque curtiu o couro com mais rapidez. Aí o que acontece? Se tiver um sapato desses e pegar uma chuvinha, você põe o pé no úmido, pode apostar que seu pé vai ficar molhado. Antigamente, o bom era quando não molhasse o pé, hoje molha. O ramo foi mudando. E assim como do couro, nós poderíamos falar de alfaiate, de marceneiros e uma série de outros. São situações curiosas, né? Se hoje estivéssemos no auge, fazendo as malas que se faziam, tudo de couro como se fazia, os sapatos, nós não teríamos nem 10% do couro para poder atender a isso. Enfim, o ramo de couros não está desaparecendo, ele já desapareceu.”

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