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História

Poesia na favela

História de: Giovani Mendes Bispo (Giovani Baffo)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2015

Sinopse

Giovani Mendes Bispo, o Giovani Baffô, fala em seu depoimento para o Museu da Pessoa sobre sua infância na Favela do Morumbizinho, a casa de apenas três cômodos para mais de 15 pessoas viverem, as dificuldades financeiras e sociais, as brincadeiras e como sua família o incentivou a ler. Ele comenta sobre sua época na escola, o trabalho como camelô e sobre como encontrou na literatura um caminho a seguir, falando um pouco sobre sua caminhada através dos folhetos e poemas.  Giovani também fala sobre sua esposa, grávida de quatro meses. 

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História completa

Eu me chamo Giovani Mendes Bispo. Nasci no dia 24 de outubro do ano de 1982, num barracão de zinco, na Favela do Morumbizinho, um dos últimos bairros do Butantã. Sou o oitavo filho de uma família de 16 irmãos. Sou filho da Valdeci Mendes Bispo e pai ignorado. Baffo eu escolhi a dedo, mas era um apelido de infância do meu irmão, meu outro irmão mais velho, que depois ficou pra mim. Sei que minha mãe veio pra São Paulo no ano de 1978, de Ibirapitanga, Bahia e foi morar no Jardim Boa Vista. Ela e mais algumas pessoas iniciaram uma favela que chama Favela do Morumbizinho. Eles começaram a invadir o terreno e fazer casa junto com alguns outros trabalhadores de uma empresa chamada Firpavi. Conheci meu pai em São Paulo já. Meu pai é de Minas, mas eu não sei bem qual foi o contexto. É porque meu pai não registrou nem a mim e nem meus outros dois irmãos que são filhos dele. Não tive convívio nenhum com esse meu pai, eu tinha 29 anos quando eu o conheci. Praticamente deu uma emoção, mas não muito, eu diria, porque eu já tinha ficado velho, eu não precisava mais daquela figura do pai que a gente precisava na infância. Então foi a mesma coisa de conhecer um estranho. A gente passava por dificuldade que todo favelado passa, dificuldade financeira, de ter acesso às coisas, à roupa, alimentação, ao lazer, estar exposto à violência diária, não ter uma casa. A fome era uma coisa constante porque em casa moravam 12 pessoas. Alguns agregados que passavam, algumas famílias que estavam com mais dificuldade, tios, primos que estavam chegando da Bahia e estavam por ali, e só minha mãe que trabalhava na época, e depois meu padrasto. Quando era só minha mãe tinha que se virar muito pra conseguir o básico. Meus irmãos são a Luciana, o Alex, Alessandro, a Daiana, o Rafael, Adriana, Mirele, a Givaldete e outros irmãos, estes que conviveram com a gente em São Paulo. Os outros irmãos que eram mais velhos ficaram na Bahia mesmo, não chegou a ter um convívio sob o mesmo teto. Na verdade a casa era a rua, só entrava em casa pra dormir mesmo, que era um barraco de três cômodos com 12 pessoas. Tinha o quarto da minha mãe e do meu padrasto. Na infância rolavam muitas brincadeiras. Rolava mãe da rua, a coisa que mais fascinava era a pipa mesmo, que mobilizava toda a comunidade. Rolava, a galera era nova, muitos jogos, bater figurinha, bola de gude, pião, iôiô. Futebol muito, na rua e na quadra. Eu tive uma infância quase que rural porque eu nadava, montava a cavalo.

Em casa eu era o único que lia, então, eu ganhava livro de professor que sabia que eu lia, me dava alguns livros. Eu achava livro na rua e levava pra dentro da casa. Lia muito gibi. A Editora Abril ficava perto de casa, a Dinap, Distribuidora Nacional de Publicações, que era da Editora Abril, mas era uma distribuidora, botava os caminhões e levava pro país inteiro. Então, a gente invadia para roubar livro, revista, gibi, ficava nos caminhões, numa área muito grande. A galera roubava pra revender, o que eles não conseguiam vender eles me davam: “O Baffo gosta de ler, vamos dar pra ele”. Então ganhei muito gibi, muita revista de uma galera assim. Meu irmão foi trabalhar no ferro velho. Ele pegava muito livro, aquelas Barsas, enciclopédia, almanaque. Eu gostava de ler tudo o que caía na minha mão. Eu lia Sidney Sheldon e pirava. Depois lia Thomas Mann. E lia algumas revistas que eu achava legais, umas revistas de comportamento. A mais louca foi a revista Simples que me deu um norte. Lia almanaque. Gibi, velho, li desde Tex, passando por DC, Marvel. Mônica pra caramba, muito Turma da Mônica, Maurício de Sousa. Da Editora Abril eu li muito Mickey Mouse, muito Tio Patinhas, Turma da Luluzinha. Porra, li muito gibi, Lucky Luke.

Eu tinha insônia, tinha dificuldade de dormir, então muitas vezes eu ia dormir seis da manhã, quando estava indo para a escola é que eu estava pegando no sono. Tinha essa dificuldade de ouvir o rádio. Acordava, rolava briga por causa dessa coisa de rádio. Minha mãe tirou o rádio e eu passei a cantar na madrugada, ficava cantando de madrugada que nem um louco. O que eu cantava. Fiquei anotando. Cantava coisa que vinha na cabeça. Qualquer frase, uma frase só, ou um poema inteiro, fragmento, um relato.

Primeira lembrança da escola foi eu ficando na pré-escola, minha mãe me deixando na escola e eu chorando assim. Me adaptei, pra caramba. Os professores gostavam muito. Eu julgo agora que eu era uma criança muito bonita, não sei por quê. Os meus professores eram sempre muito generosos comigo, me tratavam muito bem, melhor do que muitos outros alunos. Era a Escola Municipal de Primeiro Grau Solano Trindade. Estudei até a oitava série. Repeti a primeira e a sexta. Depois passei a ler na Biblioteca do Sesi, mas já é adolescência, com 17, 18 anos que eu ficava no Sesi. É porque eu falo que a escola nos esforçou muito para eu saber quem era Solano Trindade, mas eu vendo assim, eu acho que eu que não era muito ligado, porque eu lembro que a Raquel Trindade ia todo ano lá, que acho que o aniversário do Solano Trindade, a Raquel Trindade ia pra levar coisa do saci, até o próprio Zinho Trindade ia na minha escola pra falar do saci. Tinha uma Semana do Folclore que a Raquel Trindade ia sempre falar do pai dela, levar os livros, era bem legal. Depois eu fui para o colégio Oswaldo Walder, estudei só um ano e fui convidado a me retirar. Estava morando em favela com 18 anos, é muita coisa que você está vivendo. Eu era pichador, era da Mancha Verde, aquela coisa na rua, já fazia umas baladas, estava muito jovem, estava descobrindo muita coisa. Eu estava começando a fumar maconha, acampar, estava querendo abraçar o mundo. Como eu já trabalhava era um saco ir pra escola depois de ter trabalhado o dia inteiro.

Eu andava com três, quatro bandas de punk, a gente tinha o porão do nosso, a gente transformou o porão num estúdio. Então a gente ia pra fumar maconha e pra tocar. Eu não tocava porra nenhuma, ficava só brisando, fazendo letra com os caras e tal, inventava as letras. Trazia livros, botava maconha na roda, botava assunto e ia trocando experiências artísticas e culturais. Falava de festivais que ia ter, marcava de ir pra festival. Tinha aquele festival da Rádio Mix que a gente sempre ia, que era altas bandas de rock. Isso no ano de 99, 2000, quando eu tinha 18 anos.

Eu lia tudo isso que eu falei, todas as revistas, gibis, livros, Thomas Mann, lia muita enciclopédia, lia muito encarte de CD, capa de disco, lia tudo o que caía na minha mão, ia lendo. Minha mãe descobriu isso e trazia tudo o que caía na mão dela, os filhos da patroa liam e ela trazia pra casa, os caras iam jogar fora periódicos, jornal. Lia muito Caderno 2, Segundo Caderno. Essas paradas eu lia bastante. O Sabático. Comecei a ler essas paradas, mas lia de tudo, sabia muita coisa. Quando eu fui convidado a me retirar da escola Oswaldo Walder, acho que foi no ano de 2001, eu conheci uma professora de História que se chamava Ester, velho, que ela me falou assim mesmo: “Giovani, essas piadas que você faz me atrapalham, está atrapalhando a minha aula. Mas elas são inteligentes, cara, você tem uma coisa pra oferecer. Chega aí, vamos trocar uma ideia. Você está atrapalhando pra caramba a minha aula, certo? Você não vai mais entrar na minha aula, aula de História você vai ter presença em todas, vai tirar A em todos os trabalhos que eu der, em todas as paradas só que a gente vai fazer um trato, vamos ali”. Ela me pegou e me levou na biblioteca da escola e falou: “Ninguém usa isso aqui, velho, você já leu algumas coisas que eu percebi. Então vou dar uma galera pra você ler, sacou?” Ela me deu uma pilha de Caros Amigos, assim: “Isso aqui é pra você levar”. Foi uma formação meio que política, eu fui lendo Caros Amigos, vi que tinha uma galera que publicava no final. Foi onde eu conheci o Ferrez, literatura marginal, a galera que estava fazendo coisa na Zona Sul, que nem Sérgio Vaz. Tinha uma parte que você mandava o poema pra revista e tal e os caras publicavam na última parte e tal e isso muito me interessou. Eu cheguei a escrever os poemas, mas nunca mandei pra revista, mas eu vi que tinha uma galera em favela fazendo poesia, sacou? Ela me apresentou toda essa galera que eu devia ter lido e nunca tinha lido, que foi os Beats, o próprio Bukowski, Neal Cassady, Kerouac, Ginsberg. Me deu a biografia do Caetano. Eu li o Guimarães Rosa, li o Sertões. O Grande Sertões e o Sertões de Euclides da Cunha. Eu fui o aluno que mais emprestou livro da biblioteca em toda a história, do Oswaldo Walder, estudando um ano só lá. Depois eu saí da escola e continuei emprestando livro da biblioteca e tal. Essa foi minha formação mesmo, de mundo, foi quando eu conheci a professora Ester que ela me orientou a leitura, coisas que eu devia ler para estruturar a minha poesia. Já estava fazendo poesia imitando Drummond, imitando o Bandeira. Ela me apresentou o Paulo Leminski que foi a minha grande referência, foi onde eu consegui ser um poeta mais ou menos. O meu primeiro poema é uma coisa que falava assim: “Tubaína ácida destilada, de dia ou de madrugada”, uma coisa assim. A primeira vez que eu apresentei um poema a gente estava organizando o Jornal De Boa, a gente fazia na comunidade. Inventamos um esquema que era macarronada comunitária. Eu tenho um poema curto que foi o que deu um grande espanto, que me projetou pra lugar nenhum, eu diria, projetou pra cima de um caixote talvez (risos), projeção pequena, mas: “Em casa de menino de rua, o último a dormir apaga a lua”. Aí tem: “O amor só com fusão”, que é do primeiro livro.

Mas o que rolou, o que deu aquele boom, o susto mesmo assim, foi que eu morei no Rio de Janeiro. Eu fiquei muito tempo querendo ser poeta, falando da minha poesia. Eu trabalhava em São Paulo sendo camelô. E frequentando biblioteca, frequentando show, me instruindo culturalmente. Eu era camelô. Eu fui 12 anos camelô, isso tem até a ver com menino de rua. Eu vendi calça jeans, vendi relógio, vendi cotonete, tudo o que você pode vender em São Paulo eu vendi. Cueca, meia, boné, cinto, carteira, brinquedo. Vendia na 24 de maio. Só que eu era camelô, eu ganhava muita grana, eu me mantinha bem, ganhava um dinheiro legal, ajudava em casa, andava com as roupas que gostava de andar, comprava minhas coisas e tal. E passei pra Vila Madalena, olha que doideira, foi bem legal, eu descobri que os poetas andavam no bar, ali no Baby Beef. De sábado o Allan da Rosa, Maurício Marques. Poetas e muito artista em geral, mas os poetas que eu me ligava Bill, Berimba, o Caco. O Pedro não, o Pedro eu acho que foi depois. O Caco, o Maurício Marques que colava umas coisas pela cidade, mais por Pinheiros mesmo, Vila Madalena. Nos postes, ele colava. Eu me ligava e arrancava e tal. E o Bill fazia a postesia, botava os poemas no poste assim, eu via, ia trampar e ficava encucado com esse negócio de poesia, estava sempre ligado em poesia na cidade. Pichação eu estava ligado também, grafite, eu estava ligado na cidade, mano! Todo sábado eu saía do Centro, da 24 de maio, pegava meu dinheiro e ficava no bar, ficava bebendo perto dos caras, ficava ouvindo as conversas, tal. Os caras tinham um sarau que o Berimba agitava no Espaço Plínio Marcos, aquela poesia, os caras falavam, eu ficava ouvindo os caras falarem. Então todo domingo eu estava lá, os caras agitavam o CAI-MAL, eu ia nas festas que eram muito legais. Eu ficava quietinho mesmo, não me enturmava, ficava só olhando. Chegou um dia que o Maurício Marques falou assim pra mim: “Maluco, aí poeta, chega aí, velho, cola com nós, se enturma”, de tanto eu ir. Eu falei: “Ah mano, eu não sou poeta, não, eu não sei nada” “Não, você é poeta sim, pode andar com a gente, se enturma legal. Eu sou o Maurício”. Me deu até um livretinho, A Mandala que ele tinha feito e que era dele também. Depois ele chegou até a me dar o livro com a mina que eu namorava na época, deu pra gente e tal. Isso aí é coisa de 2003, 2004. Eu fiquei com essa vontade de publicar. Chegou em 2007, 2008 eu não aguentei mais, eu fui e fiz o meu livreto.

O menino de rua nasce depois disso. Eu comecei a andar na rua mesmo, a morar na rua, dormir na rua, dormir em hotel, ir pra cidadezinha pequena, passar dois dias, o festival está rolando e voltar, dormia na casa de amigos. Vendendo livretos, só folhetos. Eu cheguei a ir pra Brasília, até com o Caco Pontes. Eu fui do Rio pra Brasília, de Brasília fui morar em BH. De BH fui morar em Ouro Preto, tudo vendendo livro, fiquei tocando festival e vendendo livreto, vendendo livreto. Eu conheci o Renato Limão, isso é muito louco, eu encontrei o Renato Limão em BH, começamos a manguear junto e tal. Voltei a morar em Ouro Preto de novo. E de Ouro Preto eu vim pra São Paulo. Fui para uma Flip. Fui eu e o Thiago Calle pro Rio de Janeiro, outro poeta. A gente foi pro Rio, eu lancei um livretinho na hora, a gente ficou mangueando, ficou na escadaria do CCBB escrevendo os poemas. Eu falei: “Ah mano, devia botar o Menino de Rua, então, vou pôr esse poeminha”. Ficamos mangueando três dias, ficamos um fim de semana no Rio, era um feriado de quatro dias. A gente ficou o feriado no Rio, ficamos mangueando, mangueando, vendi uns 300 livretos no fim de semana todo. Voltei pra São Paulo, fiquei mais uns seis meses em São Paulo, falei: “Vou morar no Rio de novo”, decidi voltar pra morar no Rio. Quando eu voltei pro Rio pra morar a molecada pirava nesse livretinho, por causa desse Menino de Rua, o livreto estava bombando. “Giovani Baffo é um cara de São Paulo”. A molecada estava pirada, a poesia da rua, os moleques querendo me conhecer, conhecia poema meu, não sei o quê. E ficou esse menino de rua, menino de rua, lancei o livro com o Berimba. Eu organizo o Sarau da Viela, que é bem desorganizado pra falar a verdade, e também o Menor Sarau do Mundo, que não deixa de ser um sarau, mas é uma diversão.

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