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História

Professor Itamar Xavier

Sinopse

Essa é a impressionante história de alguém que dedica sua vida a fazer com que pessoas tenham acesso à cultura, arte e informação. O Itamar, melhor do que ninguém, sabe da importância que isso tem na vida de cada pessoa, pois trilhou um árduo caminho, da infância pobre na periferia de São Paulo, passando pela violência e crime, até se tornar um semeador de livros e formar bibliotecas comunitárias em áreas carentes de Presidente Prudente. Sua trajetória de vida é um exemplo do poder de transformação pelo conhecimento e da determinação de um homem e sua luta na busca de sair de uma situação sem qualquer perspectiva de futuro e, hoje, formado em pedagogia, especialista em psicopedagogia, com MBA em gestão educacional e docência do ensino superior, é criador de diversos projetos educacionais voltados a crianças e famílias que vivem em situação de risco e exclusão social. “Ler me ajudou a saber mais sobre as pessoas e sobre mim mesmo, e, como um ser inacabado que sou, a leitura molda meus pensamentos e transforma minhas atitudes, tornando-me tolerante com os outros e suas diferenças. Ler me torna cada vez mais humano.”

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História completa

O professor Itamar Xavier nasceu em um bairro da periferia de São Paulo, onde morou em uma comunidade carente junto com seus pais até completar 6 anos de idade; os pais, analfabetos, não tiveram acesso a bens culturais e aos livros, o que, segundo Espindola (2012) tem como consequência a desigualdade cultural e social. Outros estudiosos também apontam a falta de acesso aos bens culturais, em especial os livros, como causa da dificuldade na resolução dos problemas encontrados no dia a dia e na falta de autonomia para tomar decisões.

 

Aos 6 anos de idade, seus pais se tornaram moradores de rua, o levando a morar com um casal de tios. Seu tio, alcoólatra, e, também, analfabeto, não teve acesso adequado aos livros e bens culturais. Morou com eles até completar 13 anos de idade, quando após vivenciar uma série de violências e abusos, confrontou seu tio que o mandou embora de sua casa. Após ser mandado embora da casa dos tios, foi morar com sua avó em um bairro no extremo sul da zona sul de São Paulo “Parelheiros”; onde, nos anos 90, jornais divulgavam, em suas notícias, ser esse um dos bairros mais violentos do pais. Nesse lugar, teve suas primeiras experiências com drogas e o mundo do crime.

 

Nunca havia lido um livro em toda sua trajetória de vida, quando, então, foi preso e cumpriu medidas socioeducativas na antiga FEBEM, Fundação Estadual do Bem-estar do Menor. Nessa instituição, teve seu primeiro contato prazeroso com um livro; de castigo, por brigar e agredir um outro interno e, trancado no isolamento, teve contato com um objeto de leitura, um livro de Paulo Coelho, chamado Veronica Decide Morrer. Havia tentado, anteriormente ler outras obras, mas, os livros não lhes eram atrativos, não conseguia permanecer lendo e, na escola, os professores fracassavam em suas tentativas de convence-lo, mas trancado naquela sela, era a única coisa que podia fazer. Começou com as leituras comerciais, mais fáceis de compreender; aos poucos, passou a ler outros textos que exigiam maior competência leitora; porém, a interpretação, muitas vezes, era equivocada ou não conseguia atingi-la.

 

Ao sair nas ruas, sem expectativas e esperanças de uma vida melhor, voltava a fazer uso de drogas e se envolvia com o crime; assim, deixou de lado os livros, e abandonou os estudos. Consequentemente foi baleado duas vezes, e preso três. Esse professor entende que nada justifica os erros cometidos; porém, considera que essa vida desviada para o crime constitui uma das suas explicações na falta de acesso aos livros e a outros bens culturais. Na última prisão, cumpriu 5 anos, passando parte desse tempo tentando fugir, cavando buracos (tuneis) ou participando de rebeliões. Em outra parte do tempo, lia os livros disponíveis nas unidades prisionais pelas quais passou. Não conhecia o poder de transformação que o livro possui, o poder humanizador, não entendia que o pensamento humano é construído culturalmente, a partir do compartilhamento interpessoal com pensamentos dos outros e, assim, a partir de tais leituras literárias, começou a descobrir outras formas de viver, de falar, e de se comunicar.

 

A análise de Trevizan (2012) do Poema do Beco de Manuel Bandeira possibilitou ao professor fazer comparações entre sua vida e o poema de Bandeira. Ficou claro para ele, que o contato com bens culturais o possibilitou enxergar algo além do beco no qual a vida o havia preparado. A medida que novas leituras eram feitas, se tornavam visíveis as mudanças de atitudes e comportamentos que ocorriam em sua vida e, principalmente, na sua forma de falar, se diferenciando, inclusive, das gírias muito utilizadas pelos apenados. Percebeu que os conceitos e valores construídos ao longo da vida começam a ser transformados, tendo em vista que esse professor permaneceu recebendo novas referencias culturais, dialogando e conhecendo novas maneiras de viver, passando, assim, por um processo onde, a cada dia, novos conceitos e valores passaram a integrar seu repertorio cultural. Vivendo as experiências dos próprios autores lidos, sem de fato vive-las, mas substituindo concepções anteriores que não lhe faziam bem, por novas concepções que lhe ajudaram a criar uma nova identidade humana , cultural e social.

 

Ao sair, da prisão para liberdade, sofreu as dificuldades que sofrem os egressos do sistema penal. Com falta de experiência e capacitação profissional, baixo nível de escolarização, sem ter onde morar ou condições de se alimentar e vestir-se, com medo da miséria, ainda cometeu novos delitos, ao mesmo tempo que trabalhava em um subemprego, entregando panfletos em um farol. Felizmente, não voltou a ser preso e as coisas passaram a melhorar a partir do momento que conseguiu refletir sobre os fatores que lhe proporcionariam uma vida melhor. Observou que a maioria das pessoas que vivem economicamente bem, tinham um grau de escolaridade elevado. Tal observação motivou esse professor a retomar seus estudos; ingressou em um programa de supletivo, concluindo, assim, seu ensino fundamental e médio, enquanto ainda entregava panfletos no farol ou trabalhava como garçom em um restaurante. Em 2008, ganhou uma bolsa para cursar pedagogia na Universidade do Oeste Paulista – UNOESTE. Em meio a dificuldades, pensou em desistir, porém, diversos fatores contribuíram para continuar e enfim concluir o curso de Pedagogia em 2011. 

 

A Leitura e a escrita tiveram papel fundamental nesse processo de transformação social e cultural, são as ferramentas de Deus. No entanto, outros fatores contribuíram: algo muito importante nesse processo foi o apoio de pessoas que o enxergaram como sujeito de direitos, vivendo algo parecido com a experiência do personagem da obra de Hugo (1975) Os Miseráveis onde Jean Valjean, ao sair da prisão, passa fome, sem ter onde dormir e rejeitado, sofre com o preconceito da sociedade, até que um padre o reconhece como sujeito de direitos, o recebe em sua casa, lhe dá de comer e um lugar para dormir. No meio da noite, Jean Valjean rouba as pratarias da casa, agride o padre. Durante a fuga é pego pela polícia que o leva até o padre. Para sua surpresa, ele não o acusa e diz para a polícia que lhe havia dado de presente a prataria roubada, diz que havia dado, ainda, outras que ele havia esquecido de levar. Aquele ato de amor deixou o personagem de Víctor Hugo constrangido, envergonhado do seu roubo. Enfim, ele verdadeiramente se arrependeu e um ato de amor foi mais poderoso que qualquer tipo de punição.

 

Com esse professor aconteceu algo semelhante. Usava drogas e cometia delitos, enquanto pessoas o ajudavam e demonstravam amor por sua vida. Esses atos de amor foram lhe deixando constrangido, foram causando mudanças em sua forma de pensar, construindo, nele, atitudes semelhantes as das pessoas que lhe tratavam com amor. Passou a perceber que seu psiquismo estava se alterando, a partir dos pensamentos dos outros, nas suas relações, interpessoais, intersubjetivas e interpretados, tornando-se referências devidas para aquele que os interpretava.

 

Durante a realização do curso de pedagogia (na UNOESTE) foi contratado por uma ONG, para trabalhar como assistente administrativo e, no último termo do curso de pedagogia, uma professora o estimulou a resgatar sua história com os livros. Foi então, que percebeu que não havia tido, na infância, ou mesmo na fase adulta, o acesso necessário aos bens culturais e livros. Ao fazer essa constatação, sentiu um desejo de intervir para que outras pessoas tivessem o acesso que não teve. Começou, então, uma campanha para arrecadar livros que seriam usados na formação de uma biblioteca na ONG. O projeto passou a ser desenvolvido em parceria com a UNOESTE, sendo, em seguida, cadastrada na Pró-Reitora de Extensão e Ação Comunitária da universidade, recebendo o nome “Projeto Leitura Campeã”.

 

A campanha de arrecadação dos livros foi notícia na TV e jornais impressos; após formar uma biblioteca com 4 mil livros, por meio do projeto de extensão universitária, passou, também, a criar pontos de leitura em UBSs, rodoviárias, praças e escolas, e a desenvolver ações de incentivo à leitura como: concursos de leitura, distribuição de sacolas com coleções de livros, evento literário denominado Piquenique Literário e outras ações que passaram a atender, também duas escolas da rede municipal de ensino, sendo uma delas escolhida para realizar uma pesquisa para avaliar as ações. O projeto Leitura Campeã, se tornou, na sequência, objeto dessa pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Educação – PPGE (mestrado) na UNOESTE. Enfim, a partir das experiências vividas com os livros, esse professor, percebeu consideráveis mudanças socioeconômicas em sua própria vida, além de melhorias em diversos setores, como ressalta o jornal Folha de São Paulo 2017 e o programa Caldeirão do Huck 2018.

 

Hoje atua como professor na rede pública e desenvolve diversas ações e projetos que visão o acesso aos bens culturais em comunidades carentes de Presidente Prudente.

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