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História

Quando educar é aprender junto

Sinopse

Pode-se dizer que esta é a história de uma menina que adorava aprender e tinha o sonho de ser professora. Que pensava em fazer faculdade, ao invés de cumprir o padrão de casar e ter filhos. Esta é a história de Marileusa Raimunda, nascida num sítio, no município de São Julião, estado do Piauí, e que, perseverante, foi em busca de seu sonho, que começou numa escola rural e prosseguiu até a graduação. Conheceu o Telecurso com denominações diferentes, em dois estados, mas utilizando a mesma metodologia, a mesma satisfação de aprender junto com seus estudantes. E, em sua caminhada pelos desafios e pelas conquistas da educação já são 16 anos. Sempre com um novo olhar, com uma nova perspectiva a cada dia, com a certeza de que o Telecurso lhe propicia colocar em prática, com mais vigor, entusiasmo e qualidade, o desejo de ensinar aprendendo.

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História completa

Eu sou Marileusa Raimunda da Silva e nasci no dia 25 de abril de 1967, no Piauí, em um município chamado São Julião. Sou filha de agricultores e de família numerosa - onze filhos, no total. Muito criança ainda ajudava minha mãe nas tarefas de casa, e até os nove anos estudei em escolas rurais. Quem me alfabetizou foi uma prima, que era professora. No entanto, eu lembro que quando eu cheguei na escola já sabia escrever o meu nome, só não sabia ler - minha mãe tinha ensinado. Como aconteceu com o catecismo: quando eu cheguei lá, já sabia rezar. Sempre tive o gosto pelo estudo; daí que a infância e a adolescência foram tempos de sair da minha terra natal para estudar: primeiro, um distrito ao lado e depois, do quarto ao oitavo ano da época, em Picos. Aliás, na minha família foi sempre assim: os mais velhos saindo para estudar e os outros indo atrás. É claro que tive as brincadeiras de criança, na rua com os colegas, em casa com os irmãos, mas estudar foi algo que sonhei desde pequena. O que as meninas naquela época pensavam? Em casar, ter filhos. Eu não, eu almejava fazer faculdade, ser independente, ajudar meus pais. Eu queria, por influência de um professor do ensino fundamental, ensinar Matemática. Acabei, no entanto, sendo professora de Português e Ciências. E trabalhando em outras coisas: no comércio do meu irmão, na Justiça…

 

Literalmente, corri atrás do estudo: fui para Picos fazer o ensino fundamental; para Campos Sales concluir o ensino médio - Magistério; para Araripina, fui tentar o vestibular e, finalmente, chegar à tão sonhada faculdade. Sempre recolhendo impressões, lembranças: de disciplinas, de professores, de escolas. Minha primeira graduação foi em Agronomia, mas por circunstâncias - diversas e adversas - não me identifiquei. Fui fazer então um curso de graduação para Formação de Professor, em Ciências, habilitação em Biologia. O que me marcou, digamos assim, nesse curso, foi a questão da metodologia - eu tinha o entendimento de que não deveria ser, necessariamente, somente aquele livro que era imposto, somente aquela direção, aquilo que se afirmava que seria o correto, talvez a verdade absoluta. Saí de Araripina, voltei para Campos Sales, onde surgira a oportunidade de um emprego com a inauguração do Fórum. Durante o dia fui expedir mandados de prisão, bloqueio de contas e outras questões da Justiça. E, à noite, eu reservava para a sala de aula. Não Matemática, como era o meu sonho, mas Português e Ciências.

 

E estava assim, com as atribuições e as dificuldades de cada profissão, quando surgiu, no município, na minha carreira, no horizonte e na minha vida, o Telecurso, no Ceará, com o nome de Tempo de Avançar. Mas era o Telecurso. Eu tinha contrato de trabalho temporário no município – na Educação e na Justiça - de forma que não fui chamada de imediato a participar. Só quando muitos desistiram, lá por suas razões, me avisaram e eu tive que correr para não perder a Formação de Professores. Mais uma vez lá fui eu, literalmente, correr atrás: peguei um ônibus, com uma colega, para Fortaleza, as duas se revezando numa poltrona só! E fui encarar o desafio. A formação começou e eu fui para a sala errada - eu era destinada ao ensino médio e fui para o fundamental - mas acabou dando super certo: bons formadores; uma metodologia que me conquistou; a questão do aprender junto - muito, muito importante e que me marcou demais; a oportunidade de expandir a educação de tantos para o ensino médio; o histórico inspirador do projeto em si, esclarecendo a origem, seus fundamentos, sua presença na vida das pessoas, facilitando o aprender. Então cheguei lá, fiz a formação e voltei. Fui escalada para o ensino médio. Primeiro dia de aula, entusiasmo completo, expectativa. Só que, ao entrar na sala que me indicaram, a surpresa: quase 80 estudantes, quando o normal seria 25, 35. Entrei assim de lado, quase não consegui entrar. E lá dentro, nova surpresa:

 

Quando eu cheguei, uma nova surpresa: lá estavam muitos dos estudantes que tinham estudado comigo o ensino fundamental.

 

Aí, formaram quatro turmas do ensino médio. E eu me lembro de que ficamos ali, numa garagem - sim, uma garagem, com poucas condições para o trabalho com os estudantes. A televisão, pequenininha; o quadro, desse tamanhozinho.

 

Já em 2014, na minha terceira turma, um novo desafio: estava incerta a parceria do município para o projeto naquele ano, e por isso não havia mais espaço na escola, mas ainda havia estudantes para as turmas. Então, não tendo dúvidas de que assegurar esse direito era o mais correto a ser feito, peguei os estudantes, fiquei na praça pública. Sentei em círculo e quando vi, dava para fazer duas turmas novamente. Não passava teleaula, mas falava da metodologia. Ia falando e construindo a base para o trabalho. Enfim conseguimos uma escola.

 

Mas, a despeito dessas dificuldades, produziu-se, adequadamente, o conhecimento. Deu-se a educação no seu sentido mais amplo, ou seja, do aprendizado aos gestos de solidariedade; à formação para cidadania e lições de vida. A exemplo de estudantes que se reuniram para doar cestas básicas; treinamento em urnas eletrônicas; episódios de arrependimento e perdão. E eu, como professora, não obstante aquelas circunstâncias desafiadoras, senti-me muito mais segura graças, certamente, à metodologia empregada. Muito mais segura do que anteriormente, lá no ensino fundamental. É que agora, no Telecurso, já havia uma sintonia. Principalmente porque a metodologia aplicada leva o professor - um só para todas as disciplinas - a aprender junto com os estudantes.

 

Em resumo, já se vão 16 anos (!) que eu estou envolvida na proposta do Telecurso, entre Tempo de Avançar, no Ceará, e Travessia, em Pernambuco. Sempre com o mesmo entusiasmo, a mesma satisfação e a mesma vontade de continuar no dia seguinte. A verdade é que não me vejo fora dessa metodologia que, desde o início, me encantou, provocando inteira identificação. Sem cansaço, sem a sensação de rotina, de mesmice, sempre com um olhar diferente, ainda que seja a enésima vez. Sempre com a absoluta certeza de que valeu e continua valendo a pena, em meio a todas as dificuldades, ao resistir, ao conviver com a realidade de dividir o conhecimento, de aprender compartilhando o saber. Cumprindo a meta de motivar, de apoiar o desenvolvimento integral dos estudantes.

 

Então, se um dia essa metodologia for podada, for tirada, eu não consigo me separar dela. Mas, para a educação, o que isso significaria? Significaria uma educação à moda antiga (...) não dá para viver à moda antiga.

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