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Quando você faz aquilo que você gosta

História de: Gotschalk da Silva Fraga (Guti Fraga)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2012

Sinopse

Guti Fraga relembra a infância em Goiás e sua mudança para Argentina, sua fiel relação com o teatro, a faculdade de medicina, sua ida para o Rio de Janeiro e a faculdade de jornalismo na UFRJ e seu casamento na beira do rio. O ator fala sobre seu trabalho com Marília Pera e Nós do Morro e como chegou à Suburbia com o personagem Éder.

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História completa

Por que Gotschalk? Por que esse nome alemão lá em Alto Garças? Porque morava o Fritz, um médico alemão que morava lá desde antes de 1950. Ele que sugeriu o nome do meu irmão, que se chama Gutemberg, e o meu, que é Gotschalk. A pouco tempo atrás eu descobri que significa ‘abaixo de Deus, acima de rei’. Bonito! Meu pai é de 1800 e tal, e eu só lembro do meu pai velho. Quando eu nasci meu pai tinha 60 anos. Eu morei em fazenda, brincava de vaquinha com manga, com frutas, botava paradinha, palitinhos, eram minhas brincadeiras. E meu pai, na sequência, virou escrivão nessa cidade chamada Alto Garças. Minha mãe sempre foi de roça, e praticamente quase tudo o que a gente comia minha mãe plantava. Meu pai teve uma fase muito ferrada, que eu me lembro que ele ficou muito tempo sem ganhar dinheiro e a gente passou pindaíbas.

Às vezes minha mãe fala assim: “Tem cada coisa que sua mãe já fez pra cuidar d’ocês que você nem sabe”. “Ah legal mãe, tá legal”. Eu me sentia um índio em Goiânia quando eu me mudei. Você sai do mato! Eu me lembro de brincadeiras no Alto Garças que os garotinhos falavam assim: “Pô, meu pai caçou um índio”. Como se índio fosse um animal. Normal eu estar assim e passar uma onça pintada. Imagens que eu tenho de estar em cima de um bando de siriemas. A escola pública era disputada, qualquer classe social. E isso, de alguma forma, veio e marcou profundamente a minha vida. Eu vejo que hoje a minha reação talvez venha muito dessa uniformidade social que tinha através da educação. Eu sempre fui meio contemplativo das ações das pessoas. Porque com toda essa miséria que a gente vivia eu nunca questionei, eu nunca tive crise. Eu acho que as crises maiores vieram quando eu comecei a ter momentos, na minha vida, que era doidões. Tipo sair da escola, chegar em casa, e o que tinha pra comer era uma farofa de ora-pro-nóbis! Em Goiânia eu não entendia de política. E comecei a fazer teatro com um cara que tinha um grupo de teatro chamado “Grupo de Teatro Exercício”.

Comunistão, ele que escrevia os textos, dirigia, atuava. E eu entrei nessa parada e me amarrei. Eu nem sei porque. Eu hoje reflito que talvez tenha sido pela própria relação social que se envolvia. O teatro também ele é terápico, tem todo um jogo, você trabalha com um jogo o tempo inteiro. A minha mãe sempre foi a favor da busca do desenvolvimento, mesmo analfabeta Ela achava que a gente tinha que estudar e criar uma forma de sustentabilidade. E aí prestei um vestibular em Goiânia pra Jornalismo. Depois, “Mãe, pai, negócio é o seguinte. Eu to querendo ir pra Argentina que vou estudar lá, eu quero fazer Medicina”. Doideira! 1975 indo pra Argentina, nunca tinha saído de Goiânia! Eu fazia Medicina de manhã, Agronomia à tarde e teatro à noite. Nunca deixei de fazer teatro onde eu tava, isso era uma coisa meio doida na minha vida. Primeiro eu cancelei minha faculdade de Medicina. Aí tava só na Agronomia, era maneiro, mas aí larguei Agronomia também. Voltei pra Goiânia. E eu sempre quis ir pro Rio. Tinha uma menina que eu conhecia lá do teatro, a Gal, terminou que eu me casei com ela. Casei na beira do rio.

O altar era um tronco, muitas abóboras, morangas e tangerinas, tomates decorando tudo. A gente casou e fomos pro Rio. Chegamos no Rio e fomos pro Vidigal. O Vidigal tinha uns duplex que só moravam artistas. Eu consegui transferência e fui fazer Jornalismo na UFRJ. E fui fazer escola de teatro Martins Pena. E aí minha vida virou. A gente pregava uma outra forma de vida, de liberdade. Eu sempre fui um pobre ferrado. Favela pra mim é minha língua, minha vida, normal. Era a pobreza que eu já vivi a minha vida toda. Domingos Oliveira estava fazendo um trabalho, um grupo novo, e fui trabalhar com ele. Foi um dos melhores momentos da minha vida.

E me chega pra assistir o nosso exercício a Marília Pêra. E a Marília mandou me chamar, me convidar pra trabalhar com ela, que ia montar uma peça com Domingos, que foi Adorável Júlia. Eu falei: “Como não, minha flor?” E eu comecei a virar Baixo Leblon. Era a primeira vez na minha vida que eu tinha um carro. Nunca tinha frequentado restaurantes maneiros. Em Nova Iorque, eu comecei a ir nos off, off, off do Village, ao Soho, ao Harlem, naqueles teatrinhos desse tamaninho. Eu entrava, assistia, cabia dez pessoas, oito, que eu olhava, ficava assistindo. Um capricho no figurino, uma luz, uma interpretação, comecei a ficar apaixonado pelo off-off-off. Eu comecei a ver que aquilo podia estar no Vidigal. E isso mexeu comigo, eu falei: “Cara, a minha vida mudou! Vou parar com tudo. E vou fundar um projeto no Vidigal.”. Fui pro Rio.

Eu sabia que ia acontecer uma transformação, todo glamour que eu tinha conseguido na minha vida ia morrer, eu ia voltar a comer uma vez por dia. Mas eu fundei o “Nós do Morro”. Eu queria um projeto de teatro caminhando junto com uma filosofia de vida. Sabendo que eu ia comprar uma briga de estereótipo, por ser um grupo numa favela. O requisito era simplesmente você estar estudando. Começando a ler já podia fazer “Nós do Morro”. E nós nunca entramos na vibe de tirar ninguém do tráfico. Eu acho que a gente sempre entrou com o jogo do desejo. Quando você deseja você insere normas estabelecidas. Mas nós nunca fomos um projeto de falar “ah, vamos tirar pessoas do tráfico”. Nunca, nunca. Foi por desejo! Por que não eu pegar a metodologia do Freire e buracar junto com Stanislavski, com Boal, com Bock, com a Amir Haddad, sei lá, com a Marília?

E aí você acaba criando um caminho próprio. E se você pegar desde o início pra cá, nós estamos falando de vida, nós não estamos falando só de teatro. Você não faz um tipo de trabalho desses sem dividir vidas. E eu dividia minha vida com essas pessoas todas, de verdade. Dividia o meu pão de cada dia. Sempre foi assim. Estreamos o Machadiando. Foi uma peça que foi um grande divisor de águas, foi a primeira vez que a Bárbara Heliodora foi a uma favela. Foi lá, ficou encantada, fez uma crítica linda. Foi o primeiro prêmio Shell, que até então a gente era um Zé Ninguém. Acho que o prêmio te traz uma identidade, como se você virasse um cidadão.

Mas só em 2001 que nós tivemos o primeiro patrocínio, que foi a Petrobrás. Cidade de Deus foi um divisor muito forte na nossa vida também. Muito, muito! Todo interior da Inglaterra conhecia o “Nós do Morro” por causa do Cidade de Deus. Eu to num momento da minha vida que eu to precisando renascer. E acho que a gente só renasce quando você faz aquilo que você gosta. Eu precisava trabalhar como ator. E eu faço o Eder, que é o gerente do posto de gasolina. E eu sinto que o Suburbia pra mim tá sendo um renascer.

Não quero mais abrir mão de trabalhar como ator. Hoje o “Nós do Morro” tem 26 anos. 26 anos que eu não tiro férias! Porque eu fico ainda querendo quebrar pedras no caminho de um monte de gente. Mas a gente é paciente, como Drummond. Eu sou paciente, mas eu acho que a gente tem que atalhar caminhos.

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