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História

"Quem não conhece o Brás, não conhece São Paulo"

História de: Ulisses Chagas Correa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Nascido em 1953 em Cascatinha, no Morro da Formiga (RJ), Ulisses Chagas Correa trabalhou muitos anos na oficina do pai em Petrópolis, assim custeava seus estudos e aprendeu o ofício de eletricista. Nesta entrevista ao Museu da Pessoa, fala dos tempos de escola e do gosto pela música que vem de família. Relembra os bailes da juventude e o dia em que viajou a São Paulo pela primeira vez. No ramo de eletricista, Ulisses trabalhou na produção de shows de artistas como Ney Matogrosso, Roberto Carlos, Tim Maia, Angela Rô Rô e Ray Conniff. Depois que essa empresa faliu, continuou trabalhando como autônomo, se mudou para Espírito Santo por um tempo e voltou a São Paulo, passou a dormir em albergues e depois na rua.

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História completa

P/1 – Ulisses, pode falar seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Ulisses Chagas Correa. Correa sem o i. Petrópolis, estado do Rio. E nasci em Cascatinha.

 

P/1 – Seus pais são do Rio?

 

R – Não, minha mãe é mineira, meu pai é lá do Rio.

 

P/1 – E seus avós maternos e paternos?

 

R – São do Rio. Não, da materna é de Minas também.

 

P/1 – Você sabe como seu pai e sua mãe se conheceram?

 

R – Não, isso aí sei por cima, né, que eu não era nascido. Mas meu pai conheceu, que minha mãe trabalhava de empregada de um dentista, aí ele disse que foi fazer uns, entraram com ele e ela tava lá fazendo umas parada lá pro cara lá, aí começaram a trocar ideia, aí casou.

 

P/1 – E você, e aí eles casaram e foram morar em Petrópolis?

 

R – Não, já estavam morando em Petrópolis. Todo mundo em Petrópolis. Só que minha mãe morava na Chácara da Saudade, um pouco distante de Cascatinha, e meu pai já morava no Morro da Formiga, onde eu nasci.

 

P/1 – Aí eles casaram e foram morar lá?

 

R – Aí foram morar lá.

 

P/1 – Seu pai hoje é aposentado mas o que que ele fazia na época?

 

R – Meu pai primeiro. Não, quando ele começou, ele calçava rua. Cortava paralelepípedo na pedreira pra calçar rua. Aí depois entrou numa oficina como ajudante, e quando o dono da oficina se aposentou deu uma loja pra ele. Deu não, mandou ele alugar. Deu a banca pra ele começar a vida. Daí ele tocou. Deu sorte, subiu igual balão e acabou. Aí freguesia boa, conhece horrores da profissão, só trabalha com gente da família, não tem estranho, aí foi tocando. 

 

P/1 – Você. E a sua mãe, que que ela fazia?

 

R – Minha mãe era empregada doméstica, mas depois que casou com meu pai não trabalhou mais.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Tenho. Tenho duas irmãs, uma advogada e outra contadora. A contadora bem casada, advogada não casou. E tenho mais cinco irmãos que tocam essa oficina que era do meu pai.

 

P/1 – E vocês moravam todos juntos, os oito?

 

R – Nós moramos, juntos, na mesma casa.

 

P/1 – São mais velhos, você é o do meio?

 

R – Não, dos homens eu sou o mais velho, mas tenho uma irmã que é mais velha do que eu. Vivo, né, que tem dois irmão mortos. O primeiro que nasceu morreu.

 

P/1 – E como é que foi a infância, do que vocês brincavam lá?

 

R – A infância no morro não teve brincadeira, a única brincadeira que a gente tinha lá era soltar papagaio ou pipa, mas não dava tempo porque tinha que cortar lenha, tinha que estudar e tinha que buscar água, como é que você vai empinar uma pipa? Aí esse era o problema, tinha que acordar de madrugada pra ir buscar água, que é distante a represa. Aí voltava pra casa, tinha que encher o barril, voltava pra casa, ia pro colégio. Aí saía do colégio onze e meia, subia o morro, aí tinha que buscar lenha. Aí voltava com alguma lenha, aí tomava o banho e aí já tava escuro. Aí não tinha mais o que fazer.

 

P/1 – E como é que era dentro da sua casa, quem que exercia a autoridade, seu pai ou sua mãe?

 

R – Não, meu pai sempre foi autoritário em casa, só que é o seguinte, lá em casa, quando ele não tá, quem manda é a minha mãe, quando tá minha mãe, não manda nada, mas isso aí dentro, cada um em ordem, um com o outro. Se ele tiver aqui, tem ele, se ele não tiver, quem fala é a minha mãe, qualquer problema.

 

P/1 – E você teve algum tipo de educação religiosa?

 

R – Olha, eu nasci católico, minha família, uma parte dela é espírita, mas eu sou o seguinte, eu não acredito muito no espiritismo e sou católico, mas só que eu não vou na missa todo dia não, eu passo na igreja, faço o “em nome do pai”, quando eu tô meio zuado, eu vou lá e assisto uma missa, mas todo mundo lá em casa é católico, mas tem essa parte do espiritismo.

 

P/1 – E como é que era na sua casa assim, seu pai era enérgico, sua mãe, como é que era o convívio dentro da sua casa?

 

R – Não, meu pai nunca foi aquele cara de exigir isso e aquilo da gente não, só exigia que a gente estudasse. Minha mãe tinha, sempre tem um problema com a criança, né, se não faz isso, não faz aquilo, mas era tranquilo, só tinha um problema que volta e meia meu pai discutia com a minha mãe, mas isso era problema deles, aí dava aquele reboliço mas sem pancadaria, sem nada.

 

P/1 – Por que eles brigavam?

 

R – Ah, bobeiras, né, meu pai era viciado em corrida de cavalo e tem dia que ele passava na casa da mãe dele pra depois ir pra casa, só que dava aquelas paradas, né, então você chega, vai pra casa ver a mãe e volta pra casa dez horas? Aí começava o bate-boca, né? Mas o resto não, o resto é normal. Pra mim, não posso, nem meus irmão não podem dizer que meu pai é um pai ruim porque ele nunca exigiu que ninguém trabalhasse, falou: “Enquanto eu estiver vivo, se quiser ir pro colégio eu banco”. Inclusive, ele bancou a faculdade das minhas duas irmã, só não bancou pra mim porque eu mesmo pagava a minha parada, e botou meus outros dois irmãos no colégio particular. “Enquanto estudar não precisa trabalhar que eu mantenho a casa, tranquilo.” Passamos aperto no começo que nem toda, tem época que, você pode ter uma malharia, mas tem época que ninguém compra a malha, então meu pai tinha semana em que não pintava nada pra fazer, aí você tinha que reduzir as transações de casa. Mas tudo bem, hoje todo mundo tem seu carro, menos eu, todo mundo independente, mora no que é seu, meu pai tem uma área grande, vive tranquilo, tá bem aposentado. Bem aposentado mesmo, ganha um dinheirinho, mais ou menos.

 

P/1 – E vem cá, com quantos anos você entrou na escola?

 

R – Com seis anos.

 

P/1 – Como que você ia pra escola, a pé, era perto da sua casa?

 

R – Não, é longe, mas eu morava no morro, então aí usava tamanco. Só tinha que descer a pé, né, botava o tamanco dentro da sacola, descia o morro, chegava, entrava no colégio e limpava os pés, deixava o tamanco e ia pra aula. Saía da aula, botava o tamanco dentro da sacola e de novo. Não era asfaltado, não era asfaltado.

 

P/1 – O senhor gostava de ir pra escola?

 

R – Ah, gostava, qualquer criança gosta, como diz, é pequeno, aí depois tem umas que enjoam, né, mas eu sempre me interessei, viu, terminei o primário, parti pro ginásio, aí já fui independente, já fui pra um colégio particular mas por minha conta, já fui estudar num Ateneu, na Avenida Koeler 260. Aí estudei depois, eu podia ter até ficado, porque eu tenho essa irmã que é advogada e a outra que é contadora, e podia estar na frente dela, ter terminado a faculdade, mas depois eu caí no mundo, dar remissão em táxi.

 

P/1 – Vamos voltar, pera só um pouquinho. E da escola, você lembra de alguma professora?

 

R – Minhas professoras sempre foram boas, dona Alice, a dona Miriam, dona Eliete, nunca teve problema comigo.

 

P/1 – Do quê que você gostava na escola?

 

R – Gostava que eu tava fora de casa, e aprendia alguma coisa. Em casa era aquele negócio monótono, a gente não tinha televisão ainda, não tinha rádio, o único rádio que tinha era um pequenininho que meu pai usava. Então você subia o morro e vinha todo mundo. Não tinha TV ainda quando eu fui pro colégio, não existia televisão. Era só rádio. Todo mundo tinha e eu não tinha, então eu preferia ir pro colégio do que ficar em casa. Em casa não tinha também muita guarida não, eu tinha que encher o barril de água, buscar lenha e às vezes eu tinha que passar roupa, limpar banheiro. Já a minha irmã que é mais velha não fazia nada, a minha bronca foi isso.

 

P/1 – E lá na escola você gostava de quê, de Português, Matemática?

 

R – Matemática, eu sempre gostei.

 

P/1 – Qual que você mais gostava?

 

R – Eu sempre gostei de Matemática. Português, História, Ciências, Geografia eu estudava, nunca fui reprovado mas eu não sou muito chegado não, certo?

 

P/1 – Mas Matemática...

 

R – Sou, sempre fui melhor, né, e na escola eu sempre me dei bem. Nas outras matérias eu me dava bem, nunca fui reprovado, mas eu fazia aquilo porque era obrigado. Agora, se fosse só com a Matemática já tá valendo. E também pela minha profissão, porque na minha profissão eu dependo da Matemática. Se não tiver uma boa matemática eu me enrolo todo, qualquer um se enrola todo.

 

P/1 – E no ginásio, você fez ginasial?

 

R – Fiz completo, e estudei até o segundo científico.

 

P/1 – E o ginásio você fez na mesma escola?

 

R – Não, não, eu fiz o primário no Irmã Cecília Jardim, o ginásio no Washington Luiz, que já tá fora de Cascatinha, já tá no centro de Petrópolis e o científico fui para Avenida Koeler, do lado do Castelo Rio Branco, onde só tem as mansão do governo. Ali o Ronaldo Simão, que era um dos Diretores do colégio, alugou aquele castelo pra montar o ginásio dele, que hoje é na Avenida Paulo Barbosa, mas quando eu estudava era na Avenida Koeler, 260. Mas ali tava bom, só que eu tinha que pagar, né, todo mês. Não era meu pai, eu mesmo bancava meu colégio.

 

P/1 – Você ganhava dinheiro como?

 

R – Trabalhando com meu pai. Meu pai sempre teve uma oficina.

 

P/1 – Você fazia o que na oficina dele?

 

R – Eu sou eletricista, enrolador de motores.

 

P/1 – Você aprendeu a ser eletricista lá?

 

R – Com meu pai, que meu pai conhece horrores. Se bem que meu pai começou, quando meu pai casou com a minha mãe, ele ainda cortava pedra pra calçar a rua, depois arrumou um lugar lá e os caras levaram ele pra oficina, aí quando o cara se aposentou, o dono da oficina se aposentou, falou pra ele: “Estou me aposentando” e deu um dinheiro pra ele pra ele alugar uma loja pra ele. Ele acreditou, alugou, o cara deu a banca pra ele, deu umas carcaça, e ele tocou a vida. Aí em 1965 deu aquela enchente em Petrópolis, caiu a oficina, a barreira caiu em cima da oficina. Saiu na correria de novo, alugou uma sem nada, aí foi tocando, que ele é conhecido, aí subiu igual balão, subiu mesmo, igual balão, lá em casa todo mundo tem carro zero, tem telefone em casa.

 

P/1 – E voltando lá, aí no ginásio você pagava seu estudo...

 

R – Eu mesmo pagava. O ginásio todo eu mesmo paguei. Só no primário que eu não pagava porque era público.

 

P/1 – Aí no ginásio você foi pra escola particular.

 

R – No ginásio foi particular.

 

P/1 – E você saía, algum tempo sobrava pra você se divertir com amigo?

 

R – Não, não, na época, quando eu era menor? Na época não, ainda era menor.

 

P/1 – No ginásio.

 

R – A gente naquela época tinha mais aquela base de educação prendida na família, né? Então não ia pra baile, se bem que lá em casa todo mundo é músico, mexa, mas só lá em casa, no aniversario conseguiu fazer uma festinha. Mas fora pra um salão, até eu quase cair num salão eu já tinha quase dezessete anos. Mas também bancava por minha conta. Eu nunca dependi da família pra me bancar a não ser quando eu bati. Aí meu pai teve que me bancar, mas também não faltou nada.

 

P/1 – Como é que era Petrópolis nessa época da sua infância, juventude? Como é que era o espaço, como é que era a cidade?

 

R – O espaço era, hoje o espaço é curto, mas naquela época a gente tinha o espaço, e tinha, só existia mais bacana, né, isso aí...

 

P/1 – Existia mais o quê?

 

R – Existia mais bacana, como tem bacana hoje. Tem as favelas hoje, mas Petrópolis tem bairro que só mora global, tem nego que tem. Na Mosela, no Quitandinha, Quarteirão Brasileiro, Independência, só mansão, né? Aí depois começou a periferia, um morrinho aqui, outro morrinho ali, um morrinho aqui, outro morrinho ali, e aí começou. Mas mesmo assim era difícil. 

 

P/1 – E a sua casa ficava onde?

 

R – No morro da Formiga, em Cascatinha.

 

P/1 – Como é que era a casa?

 

R – No começo era três cômodos só, um cômodo grande dividido em três. Aí depois, quando o tempo correu, meu pai marcou aqueles três cômodos e fez três quartos, sala, cozinha e banheiro e uma área. Aí depois ele aumentou de novo, fez uma sala só pra ver televisão porque no morro a primeira televisão foi do comandante e depois a do meu pai. Então, ia todo mundo lá pra casa ver aquelas novelas em preto e branco, na época não tinha a cores, aí quando dava seis horas, seis e pouco, as crianças iam lá pra casa, aí forrava na sala, aí ficava vendo televisão, quando dava dez horas meu pai desligava pra todo mundo cair fora e ir dormir. 

 

P/1 – Seu Ulisses, daí você trabalhava antes de entrar no ginásio.

 

R – Eu trabalhava, a minha profissão era eletricista três fases, eu aprendi minha profissão com meu pai, que meu pai tinha a oficina. Então eu estudava de manhã, aí subia o morro, pegava a mala de almoço dele e do meu tio, aí levava o almoço dele, aí ficava na oficina, aí varrendo a oficina, aí limpando alguma coisa. Aí comecei a interessar pela profissão. Meu negócio não era ser eletricista, meu negócio era crescer, comprar um caminhão pra transportar tijolo, às vezes. Meu negócio era esse.

 

P/1 – Você queria fazer isso?

 

R – Eu queria, só que...

 

P/1 – Por que você queria ser caminhoneiro?

 

R – Não, eu via os caminhões passarem de onde eu morava, porque naquela época os caminhão era tudo iluminado, né, pela frente, porta e aquilo, aí de longe parecia uma árvore de natal, aí eu fascinei com aquilo. Mas não deu. Aí fui dar um jeito lá na praça, de táxi, mas aí ficou ruim. No ponto de táxi eu dei uma caída.

 

P/1 – Vamos voltar atrás, você disse que na sua casa seus tios tinham muita, eles eram músicos. Quem que tocava música, quem era músico lá?

 

R – Não, meu pai toca, meu tio toca, lá em casa todo mundo é músico.

 

P/1 – Teu pai toca o quê?

 

R – Saxofone. Meu padrinho, saxofone. Meu tio, trombone. Meu outro tio, trombone. Meu outro tio, padrinho, bateria. Um tio que morreu batia surdo. O outro batia surdo. E tem um cara que não é meu tio legítimo, mas toca instrumento de corda, violão, banjo, essas coisas. E tem um outro que fazia parte de um grupo, no carnaval, né, e tocava pandeiro.

 

P/1 – E eles se reuniam pra tocar?

 

R – Lá em casa, fazia ensaio lá em casa. Primeiro fazia no Morro da Formiga, né, assim. Depois passaram a fazer num clube embaixo, em Cascatinha.

 

P/1 – Você toca alguma coisa?

 

R – Eu não, eu só… ah, bato um tamborim da hora, conheço de bateria, mas não me ligo muito aí nessa parada não.

 

P/1 – Você lembra de alguma música que eles tocavam? 

 

R – Ah, eu me lembro de tudo quando eles faziam, que eu ficava ali acompanhando, mas só que eles não me levavam, quando eu era criança ainda, então não tinha aquela onda, que naquela época o Juizado de Menor, no salão, antes do salão abrir a porta tinha um membro do Juizado de Menor ali na porta do salão, então você não tinha condição de ir, de entrar. E fazia muito baile na casa de rico.

 

P/1 – Eles tocavam?

 

R – É. Então você não tinha acesso. Os ricos só contratam o conjunto, né? Até o carregador é deles, entendeu, então a gente não ia, a gente não ia.

 

P/1 – E como é, eles tinham um conjunto então.

 

R – É um conjunto, na época falava Jazz, né, mas eles usavam mais pro carnaval, que tem uns parentes meus que tocavam na banda, então é músico, porque todo mundo toca lá por música, né, de ouvido, mas o forte deles era o carnaval, porque dava mais dinheiro, e esses bailinhos de casa não funcionava. Hoje em dia, não funcionava naquela época e hoje em dia também não funciona, que ali montava uns eletrônico violento, então qualquer bailinho de casa você aluga um rack, bota ali um pick-up e acabou a brincadeira. Então você não vai pagar uma banda, um conjunto. Naquela época só os clubes que faziam baile de carnaval, e alguns Jazz que tinha, que tocavam lá um fim de semana, então não tinha aqueles… era mais as giratórias de 78 rotação, três, quatro, caixas esparramadas e o povo ficava por ali. E no morro uma sanfona, um banjo. 

 

P/1 – Como que era o nome do conjunto deles, tinha nome a banda?

 

R – Do meu pai era Jazz Boa Vista.

 

P/1 – Não, como é que eles chamavam, o conjunto?

 

R – Jazz Boa Vista.

 

P/1 – Jazz Boa Vista?

 

R – É. Mas sempre se deram bem, os músicos até...

 

P/1 – Eles se apresentavam muito?

 

R – Oi?

 

P/1 – Eles chegaram a fazer muitas apresentações?

 

R – Não, no carnaval eles não ficavam parados e durante o ano, antes, num período de um carnaval pro outro tinha esse meu tio padrinho, que os caras procuram ele pra fazer algum show, algum aniversário, e o resto do pessoal não saía porque não depende disso, cada um já tinha uma profissão, então não interessava pra eles, só interessava por causa do carnaval. No carnaval você ia fazer, vamos supor, você ia pra casa do Jorge Silvestre, pra mansão dele, falecido, que Deus guarde a alma dele em algum lugar. Então a gente pagava pra um baile de carnaval, dinheiro que dava pra ganhar, né, vamos supor, em seis meses. Aí no outro dia você fazia uma matinê e um soirée (suarê), que matinê é das crianças e o baile da noite é dos adultos. No outro dia você ia pra outra mansão. Então em quatro noites e três dias você ganhava quase seis meses de salário, certo, com despesa feita. Aí no resto você ia trabalhar na sua profissão, que lá em casa dá pra fazer uma firma, tem empreiteiro, tem pintor, tem eletricista, bancada de eletricista, tem torneiro, tem estofador, tem tudo, você pode montar uma construtora, vai depender de só mais alguém pra trabalhar, né, porque um pedreiro não vai fazer um edifício sozinho. Mas cada um tem uma profissão. 

 

P/1 – Aí você falou que com dezessete anos você começou a ir em baile, essas coisas.

 

R – É, com dezesseis.

 

P/1 – Onde você começou a ir?

 

R – Oi?

 

P/1 – Onde você começou a frequentar?

 

R – Ah, lá na Mosela, aí às vezes eu ia lá pro Dona Isabel, no Morin, às vezes ia pro Cascatinha, onde eu nasci, às vezes ia pro Palmeira, no Quissamã, mas mais que eu ia pra Celeste na Mosela, que eu não sou muito chegado de ficar pulando, isso não, meu negócio era aqueles cara de ficar na mesa tomando alguma coisa, batendo papo, sei lá não sei o que, às vezes saía pra dar uma dançadinha mas não nesse negócio de ficar se jogando que eu não sou doido. Aí eu procurava mais o salão clássico, que tinha um dinheirinho, jogava bem, então dava pra dar uma curtidinha. Não reclamo da situação não, mas eu podia ter aproveitado melhor. Eu, não lá em Petrópolis, mas agora aqui eu já ganhei dinheiro até umas horas. Aí eu ganhei dinheiro.

 

P/1 – Vamos voltar, que tipo de música que você escutava?

 

R – Eu sempre fui clássico, né?

 

P/1 – Música clássica?

 

R – É, eu sempre fui clássico, eu não sou muito chegado nessa jogada da Jovem Guarda.

 

P/1 – Qual, você sabe algum compositor, alguém que você escutava?

 

R – Eu sempre ouvi Jamelão, Ataulfo Alves, Carlos Alberto. Escutava as outras, né, porque às vezes o rádio não era meu, o cara ligava lá eu não podia falar nada. Mas eu nunca fui desse negócio, eu sempre fui um cara clássico. Ouvi muito Ângela Maria, Odete Soares, na época tinha um programa na Rádio Nacional com, não lembro o nome do locutor, o nome do locutor eu não me lembro. Então tinha aqueles programas de noite, era dez horas, começava um programa que duração de dez horas, só de bolero, uma balada, isso aquilo, aí eu continuo botando naquilo lá mesmo e não acho graça nessa bancada de ficar pulando, essa coisa aí, bla bla bla, isso é doideira. Pra ouvir tudo bem, mas batucada assim você vai começar a dançar, daqui a pouco você tá suado, a menina suada, né? Cada maluco com a sua ideia mas eu tô fora. E mais tranquilo, você senta numa mesa, aluga uma mesa, pede lá, o garçom te traz uma cerveja, um vinho, quando tem dinheiro, uma champagne, aí você curtindo, batendo um papo, tomando alguma coisa, e aí você chama uma mulher, uma amiga, dá uma voltinha no salão pra dançar, volta pra mesa ali de novo, aí dá. Agora você tem que ficar lá pulando e tal, isso e aquilo, aí acabou dali tem que ir pra casa correndo tomar banho que já tá com a roupa colada no corpo, aí não vira, não vira, não vira. Pra ouvir ainda dá pra ouvir alguma coisa, mas quando eu fazia ação, que depois eu vim trabalhar, bom, vai chegar nesse ponto.

 

P/1 – Você já tinha tido alguma namorada, qual foi a sua primeira namorada?

 

R – Isso aí eu já tinha uns vinte anos, não era namorada, não era aquela por… como eu tinha, já tinha uma certa condição, então eu comprava o bagulho, sacou? Os outros caras, vamos supor, vamos pro Lusíadas[?] aí ninguém tinha dinheiro pra pagar pagar a entrada, eu tinha pra pagar a minha e de quem fosse comigo. Aí eu já pegava um táxi, isso aquilo, já arrumava alguém que ia comigo, dentro da sala de aula eu já arrumava alguém que ia comigo. “Vamos nessa?” “Vamos.” E tudo bem, acabou. Mesmo hoje em dia nada, mas pra mim eu era o bom das bocas, eu tava com o dinheiro, que eu sempre tive um dinheirinho no bolso, trabalhava com o meu pai e fazia uns biquinhos também. Às vezes meu pai, meu pai era camarada meu, ele chegava às vezes, o cara precisava de serviço rápido, aí ele mandava o cara conversar comigo, aí eu vinha no meu pai, falava: “Quanto você vai cobrar por isso?”. “Meu preço é esse.” Aí eu ia no cara e ali dobrava o preço e o cara pagava. Então sempre tinha dinheiro. Eu sempre...

 

P/1 – Você lembra de alguma namorada dessa época, especial, que você...

 

R – Não, não, nunca tive, esse lance eu nunca guardei comigo não, é igual jornal, leu e tem, não serve. Agora tem a, não, pode ser, essa aí é funcional. Agora tem essa menina que eu casei com ela, aí eu tenho uma filha com ela mas somos separados, meu pai mandou ela de volta pra terra dela, segurou a filha, que é minha filha, aí depois a menina começou já a dar problema, aí meu pai chamou ela: “Olha, leva tua filha também”, e acabou. Meu pai joga duro também, meu pai… que mulher você sabe que é a cada esquina uma, cada janela duas. Se eu tiver um qualquer no bolso, um abraço. Porque olha, eu acho e sempre achei casamento bobeira, eu, né? Que isso é bobeira, casa aqui, posa, bla bla bla, e a mãe da mulher escolheu os móveis e mais aquilo, e tua conta. Dois meses de casado sai um de uma porta e outro de outra, e tu fica com a conta, certo? E aí? Bobeira.

 

P/1 – Aí você estava com dezessete anos e você estava no colegial?

 

R – Estava no, não era colegial, era científico.

 

P/1 – No científico.

 

R – É.

 

P/1 – Você fez científico.

 

R – Isso. Ficou incompleto, que eu saí no terceiro ano com sete meses.

 

P/1 – Por que que você deixou, parou?

 

R – Pra vir pra São Paulo.

 

P/1 – Por quê que você...

 

R – Eu vim pra São Paulo pra comprar um remédio pra minha mãe, saltei na antiga rodoviária que era na Luz, achei bem bonito aquela rodoviária, cheia de quadradinho de cor, fiquei ali um tempão olhando aquilo. Depois catei um táxi, não encontrei o remédio nas farmácias ali do lado.

 

P/1 – Mas por quê, o remédio só tinha aqui?

 

R – Só tinha porque o laboratório tinha falido, já tinha parado o laboratório, e era daqui o...

 

P/1 – Sua mãe estava doente?

 

R – É, minha mãe estava doente, e o médico lá falou...

 

P/1 – Estava com o quê?

 

R – Minha mãe estava com um problema no pulmão, e o médico falou que se não tomasse o remédio ela ia pro tombo, aí meu pai…, eu falei: “Não, me dá o dinheiro que eu vou, você vê, se der problema você já tá aí e eu vou”. Aí meu pai me deu na época cento e noventa cruzeiros, olha, eu lembro que na minha época cruzeiro era dinheiro até umas horas. Aí eu vim embora. Cheguei na rodoviária ali, não conhecia nada, voltei, fui num bar, tomei um cafezinho, já tomava pinga, aí já tomei uma, aí fui no ponto de táxi e falei pro cara: “Precisava ir nesse laboratório aqui, Avenida Santo Amaro, 123”. Ele falou: “Vamo embora”. Aí cheguei lá, falei pelo porteiro, passei pela portaria, aí o cara falou: “Olha, já encerrou a fabricação, mas ainda deve ter alguma coisa no laboratório aí”. Aí ele voltou e falou pra mim que tinha uma caixa e três vidros, aí eu falei: “Vou levar a caixa e três vidros”. “Mas pra quê, tu vai pra um hospital?” Eu falei: “Não, é pra minha mãe”. “Mas leva dois vidros só que dá.” Eu falei: “Não, vou levar a caixa e os três vidros porque vai que precisa de mais, eu vou ter que voltar aqui”. Aí minha mãe tomou um vidro e ficou boa. Ainda deve ter remédio lá até hoje (risos), se não estragou. É, papo sério, que eu ia voltar? Aí eu levei. Mas é papo sério mesmo.

 

P/1 – Aí você voltou com o remédio...

 

R – Voltei com o remédio e…

 

P/1 – Mas aí você foi pra estação da Luz, chegou na rodoviária…

 

R – Aí eu olhei, né, nunca tinha vindo, não saía…

 

P/1 – Como foi essa chegada?

 

R – Que eu morava em Petrópolis, então Petrópolis é bonito, mas eu não vi, já lá o centro do Rio é interessante, né, é interessante o centro do Rio, principalmente à noite, mas só vinha lá no Rio, tinha ido no Rio, no Maracanã, umas duas ou três vezes, certo? Aí cheguei em São Paulo, aquela rodoviária bonita, aqueles teatros cheios de cor, bla bla bla, fiquei ali olhando o movimento, gente pra caramba, em Petrópolis não tem tanta gente assim, só no fim de semana. Aí falei: “O bicho aqui é bom, né?”. Aí pensei, pensei, aí quando eu saí de táxi pra correr atrás do remédio, aí eu comecei ver, né? Aí pensei: “Vou voltar lá, levo o remédio da minha mãe, no outro dia viajo pra cá de novo”. Acertei as contas pro meu pai, ele falou pra mim pensar, falei: “Que pensar, rapaz, dá o que é meu e vou no contador”, que a firma é registrada.

 

P/1 – Mas te deu uma vontade de vir pra São Paulo então.

 

R – Deu.

 

P/1 – Você conhecia alguém já aqui?

 

R – Não, não. Eu tinha já um amigo engenheiro, mas trabalhava em Santo André, na GE. Eu tinha o endereço pra ele, pra procurar ele e tudo, quando eu quisesse vir pra São Paulo, e tinha, mas não fui, eu vim à toa. Aí passei um tempo, passei um tempo. Aí depois...

 

P/1 – Com o dinheiro que você tinha.

 

R – Não, ainda tinha o dinheiro, com o dinheiro que eu tinha.

 

P/1 – Você veio morar onde?

 

R – Na Uruguaiana, no Brás. Boca quente, ali nego matava três de manhã, quatro de tarde, cinco a noite e deixava dez amarrado pro outro dia. Ladrão até umas horas, o Brás naquela época, quem não conhece o Brás não conhece São Paulo.

 

P/1 – Como é que era o Brás naquela época?

 

R – Naquela época era algumas ruas calçadas e o resto era asfaltado, passava o bonde ainda, né, tinha a estação que não tinha aquela frente, era normal, quando se fechava a cancela pro trem passar, aí passava o trem. Quando a cancela abria, tinha aquela multidão de gente, um pra um lado, outro pro outro, tinha cinco esfaqueados de um lado, três mortos do outro. Era assim. Nego que tinha funerária naquele lugar, naquela época, ficou rico. Parava outro trem a cancela fechava, rapidinho tinha três mil pessoas de um lado, na sua posição, duas mil do outro. Quando o trem passava que a cancela abria, nego tava assaltando, um esfaqueando o outro, e tal e aquilo, mas era bom o Brás, era não, é bom. Muita...

 

P/1 – Você, como é que convivia no meio disso?

 

R – Na malandragem, eu tinha, já fiz amizade com as mulher de vida fácil, então tinha uma velhinha ali parecendo a Maria Baiana, que mandava no Brás, sacou? O que ela falasse, a molecada, se ela falasse: “Dá um tiro na cara desse”, o cara dava, entendeu? Então já fiz amizade com ela, aí ninguém esquentava comigo. 

 

P/1 – Por quê que você saiu da sua casa? Você estava com a vida toda organizada e veio pro Brás, você quis vir procurar trabalho, estudar aqui, o que você queria, o que esperava de São Paulo?

 

R – Não, não, São Paulo eu não conhecia, eu vim conhecer quando eu vim comprar o remédio da minha mãe.

 

P/1 – O remédio, mas por que você resolveu mudar, o que você queria fazer aqui na cidade?

 

R – Não, eu vim tocar minha vida porque o meu problema é, a gente sempre trabalhou por conta, mas começou aquela onda, meu irmão mais novo, meu pai começou a passar… meu pai se aposentou, deu o lugar dele pro meu irmão, nem me perguntou se ia, se eu quisesse, se eu quisesse ficar no lugar dele. Eu mandei meu tio embora, meu pai botou um outro irmão meu no lugar do meu tio. Então já tava, não tava prestando mais ali. Aí eu já tinha o conhecimento de São Paulo, falei: “Tô indo”, acertei as contas com ele e falei: “Oh, um abraço”. A gente se conversa por telefone, bato papo com meus irmãos, minha mãe.

 

P/1 – Aí você foi pro Brás, mas você queria trabalhar aqui do quê, o quê que você foi procurar?

 

R – A mesma profissão minha. 

 

P/1 – Aí você foi procurar trabalho?

 

R – Aí fui procurar trabalho, não, fiquei dois dias de bobeira, né, vendo o movimento, aí depois o dinheiro tava acabando, que eu vim com o dinheirinho mais ou menos, né, aí falei: “Tá na hora de correr atrás”, aí comprei o Diário Popular, naquela época tinha emprego pra caralho, e a Gazeta Esportiva, você lembra? A Gazeta Esportiva de segunda-feira, um caderno desse tamanho assim só de emprego, aí vi Instituto de Energia Atômica, vi lá na Sabesp, pegando eletricista bobinador, eletricista de manutenção, eletricista… aí eu fui pra Cidade Universitária. Cheguei lá, o engenheiro gostou da minha e me deu a vaga. Mas eu saí do instituto porque é o seguinte...

 

P/1 – Você foi trabalhar aonde na USP?

 

R – Na USP, Cidade Universitária. Lá no Instituto de Energia Atômica. Se eu tivesse ficado lá eu já tava aposentado, mas eu comecei a trabalhar e passar fome, que eu só ia ter direito ao restaurante – lá tem um restaurante daora, dois – depois que passasse a experiência. A experiência naquela época era noventa dias. E se tinha que trabalhar os noventa dias, passasse tu recebia, se não passasse eles te davam uma coisa pra tu ir embora. Aí eu falei: “Pô, já tinha vencido o hotel”. Eu saía de lá do Instituto de Energia Atômica, pegava uma umas banana num ônibus que é grátis, que os ônibus que roda lá dentro, chegava em beira, soltava e ficava ali. Quando dava uma guarida, o trem me trazia pro Brás, quando não dava eu ficava por lá mesmo. No outro dia voltava.

 

P/1 – Dormia onde?

 

R – Na quebrada do trem ali em Pinheiros. Aí eu me invoquei, aí eu falei, por telefone eu falei com meu pai onde eu tava, aí ele não. Meu pai. Aí tinha um colega meu que trabalha na Villares de elevadores em Santo Amaro. Aí falou pro meu pai: “Oh, tô na Villares. Dá o endereço dele que eu vou procurar ele”. Aí o cara veio me procurar. Meu pai deu o endereço, aí o cara veio mesmo me procurar. Que ele vai pra Petrópolis todo fim de semana. Ele só me sacaneou, que ele falou: “Não, vamo embora que o emprego tá arrumado”. Eu tava no Instituto de Energia Atômica de onde eu não devia ter saído. Fui atrás dele pra Village. Chegou lá, ele entrou, deu a volta, entrou pela porta dele e falou: “A portaria é essa aí, tu vai e conversa com o pessoal do departamento”. Tá bom. Mas eu pensei que ele tinha arrumado pra mim à boca. Cheguei no departamento pessoal: “Não, não estamos pegando ninguém, não viu o quadro ali na porta? Não tem nada de eletricista”.

 

P/1 – Você já tinha saído do outro?

 

R – Já tinha dado baixa do outro. Aí eu virei bicho, mas não falo com ele até hoje. Ele já tinha dado umas outras mancadas na época. Aí comecei a pastar, aí fui pro DCI, você lembra do DCI, Diário de Comércio e Indústria, na Mooca, aí fui pra lá fazer um bico, entregar jornal de madrugada embaixo de chuva pra não passar fome. Aí volta e meia o bicho pegava, ligava pro meu pai e ele mandava um dinheiro pelo ônibus pra mim, mas aí eu já tava na gandaia, o dinheiro acabava rapidinho.

 

P/1 – Por que você tava na gandaia, o quê que era a gandaia?

 

R – Não, a gandaia era a vida noturna, uma mulher aqui, outra ali, outra ali.

 

P/1 – E você bebia?

 

R – Eu sempre bebi, eu aprendi a beber com a minha vó, falecida minha vó.

 

P/1 – Desde quantos anos você bebe?

 

R – Ah, desde uns seis pra sete anos. 

 

P/1 – Você bebia com seis anos?

 

R – É, bebia. Eu ia buscar pinga pra minha vó, eu vinha pelo caminho dando uma bicada. Morava no morro, então a pinga era lá embaixo, aí eu comprava um garrafão, “deixa eu dar um golinho pra ver como é que é bom”, aí pegava o gosto, falava pra mim “beleza”, mas nunca tive problema não, com cachaça. Mas já ganhei dinheiro, não é aí, eu tô assim hoje mas por minha culpa mesmo, eu já ganhei dinheiro. Arrumei um apartamento em Perdizes, paguei.

 

P/1 – Pera aí, vamos voltar. Aí você começou a trabalhar no DCI...

 

R – Aí eu, não, fazendo bico.

 

P/1 – Entregava jornal por onde?

 

R – Eu fazia a zona de Pinheiros e a Cidade Universitária, aquela zona todinha ali, fazia chuva ou fazia sol. Aí os caras do DCI já me, eu como biqueiro, já me jogaram numa máquina pra ajudar o falecido Veloso, Deus que guarde a alma dele em algum lugar, que ele morreu também, então já tava quase dentro do jornal. Aí surgiu a boca ali pra ir para…, eu falei: “Eu não vou ficar vendendo isso aqui”.

 

P/1 – Pra ir pra onde?

 

R – É pra mim ir pra Bardela, que era aqui no Limão, tava mudando pra Jandira. Falei: “Demorou, é dois palito, não vou deixar de ser registrado pra ficar fazendo bico”. Fui pra Bardella, trabalhei na Bardella três anos e sete meses, aí a Bardella faliu, aí o bicho pegou. Se eu tivesse ficado no jornal eu tava registrado e agora tava aposentado. Aí eu fui pra Bardella, fiz a mudança do Limão pra Jandira, mas deu três anos e sete meses ali, depois faliu.

 

P/1 – Você fazia o que lá na Bardella?

 

R – Sou eletricista.

 

P/1 – Lá na Bardella o senhor foi fazer o quê?

 

R – Mesma profissão, eletricista e bobinador, eles fazem, lá na Bardella é só gerador, é maquinário pra trem, pra navio.

 

P/1 – E na Bardella você morava onde quando você trabalhava lá?

 

R – Primeiro eu morei em Jandira mesmo, num quartinho, dentro de um terreno lá, alugado. Aí depois voltei pro Brás, mas continuei trabalhando na Bardella, aí voltei pro Brás, no mesmo hotel onde eu morava, que eu tenho amizade com o Santiago, com dinheiro ou sem dinheiro eu posso ficar um mês lá morando, o problema é ter que pagar depois, né? Aí voltei pro Brás de novo, que a gente usava sempre aquela máxima, “Quem não conhece o Brás não conhece São Paulo”, e é fato. Porque se você falar pra mim que conhece São Paulo, se conhece o Brás conhece São Paulo, se não conhecer o Brás, não conhece. Aí voltei pro Brás de novo. Depois pensei em ser camelô, mas não adianta, não dá, meu negócio é a parte elétrica mesmo.

 

P/1 – Aí você saiu da Bardella...

 

R – Aí saí da Bardella e dei, fiquei fazendo uns bicos no Brás. Na época tinha muito bico no Brás, pra entregar sapato e tal, isso e aquilo, ia buscar lá nas fábricas, aí deu um tempo, aí comecei fazendo carregamento no Poladian Produções, na Suncharms.

 

P/1 – No Poladian você fez o quê?

 

R – Eu fazia os carregamento lá com gato, tipo assim, quem carregava carreta lá pra ir pra Campinas, ligava pro gato e “me trás dez peão”, aí ele ia no Brás, catava dez peão e ia.

 

P/1 – Mas trabalhava com quê, com iluminação?

 

R – Não, antes não fazia nada disso, aí eu fui fazer uma montagem no Anhembi, aí deu um problema no canhão, aí deu um corre daqui, corre daqui, que tem um cara que só mexe com isso, aí antes do cara chegar eu vi que era a cela que tinha queimado, tirei ela e fui na gaveta, peguei outra e coloquei, funcionou, aí o, vieram, me chamou, falou: “Quem arrumou isso aí?”. Falei: “Ninguém, só tava queimada, eu botei a outra”. Aí depois deu um pepino no rack, aí já foi todo mundo na lata. Aí deu um pepino no rack lá, não tinha eletricista, aí falaram pra mim: “Tu não é eletricista?”. Aí eu falei: “Mas não tenho nada a ver com isso”. “Vai lá cara e vê se tu arruma isso, porque senão como é que vai ficar?” Aí fui, arrumei, aí o gerente dele, o João, trabalhou com ele lá, o mesmo cara que arrumou lá no Anhembi arrumou aqui, “Por que não chama o cara pra trabalhar com a gente?”, aí me chamou pra me fazer uma proposta, era boa. “Eu vou morar dentro do estúdio, mas no estúdio mesmo, né, viver no meio dos artistas e viajar. Aí eu falei: “Demorou”. Aí eu falei pros caras: “Oh, tô indo embora”. Aí ele marcou comigo na segunda-feira meio dia lá. Aí me mandou conversar com ele, subi no mezanino, conversei com ele, falou: “Documento tá aí?”. “Tá.” “Então vai.” Ele olhou, aí falou: “Você vai viajar dez horas da noite”. No mesmo dia, aí eu falei: “Mas aí eu tenho que, aonde eu vou, tenho minhas coisas”. “Então você vai pegar o carro, vai lá, pega tuas coisas, volta pra cá, dez horas você viaja”. Falei: “Tá bom”. Aí eu fui pro Espírito Santo. Quando eu voltei, aí...

 

P/1 – Você foi fazer o que no Espírito Santo?

 

R – Ney Matogrosso. Quando eu vi já tava feito, fui fazer o show dele, né?

 

P/1 – Você foi fazer o quê?

 

R – Eu sou iluminador e operador de som. Era o que eu fazia como bico. 

 

P/1 – Mas aí você já tinha feito iluminação quando você foi trabalhar com o Ney?

 

R – Já, já. Já me conhecia, que eu sempre que tem uma montagem aqui, o outro cara daquele aí, passa pra ver se tem alguma coisa ali que ele pode pescar pra usar na dele.

 

P/1 – Mas você já não tinha trabalhado até então com isso lá no, a primeira vez foi no Poladian?

 

R – Foi no Poladian, já tinha feito bico pra outros caras, mas trabalhar direto...

 

P/1 – Pra que outros caras você já tinha feito bico?

 

R – Ah, fiz pro João da Costa, que era na procissão de aniversário de São Paulo, e Corpus Christi, que era uma procissão grande que vem pra Sé, daí tem um pouco de áudio e um pouco de iluminação, aí eu fui ajudar a fazer um bico pro João da Costa. Aí nego foi me conhecendo, conhecendo. Mas a primeira parada que eu fiz mesmo foi pro Poladian produções. Primeiro aquela lá...

 

P/1 – Aí o Poladian foi quando você foi...

 

R – Aquela era a maior equipe que tinha. Além dele não ter dinheiro, o negócio dele não era nem isso, ele usava isso pra conseguir, pra passar o dinheiro, que ele é criador de cavalo, tem cavalo até umas horas, tanto lá no haras de Santo Amaro como ali, tem em Sorocaba dois haras que é dele, e só cavalo que vale mais que a família, sacou? Tem dinheiro, o homem. Mas ele usava a produção como… o dinheiro, e coisa e aquilo. Ele pagava bem, pagava bem.

 

P/1 – Aí o primeiro show que você fez lá foi do Ney Matogrosso no Espírito Santo?

 

 R – É, no Espírito Santo. Aí depois fiz a, fiz meu primeiro show lá, mas depois viajamos com o Ney na turnê dele todinha, quarenta e três shows, fizemos o último no Maranhão. Aí quando eu voltei aqui…

 

P/1 – Você conheceu o Ney Matogrosso?

 

R – Eu conheci, de ficar conversando assim. Ele era, só que ele era novinho, né, novo assim, mais velho que eu mas era novo. Aí a gente ficava dois dias de folga, aí tinha, O Olympia tinha o Roberto, aí tava fazendo show no Olympia, aí voltamos, faltou o iluminador do Roberto, aí o João falou: “Dá pra tu ir pra lá?”. Falei: “Eu não tô cansado”, dava, aí fui pra lá. Aí fiz amizade com a assessoria do Roberto, que na época quem pagava a gente era a filha dele, a Paula, que vinha: “Oh, toma isso aqui, o teu, o teu, o teu”. Aí já me deu dois dinheiro: “Esse é teu e esse aqui meu pai mandou te dar”. Aí trocando ideia com o empresário do Roberto, que é o Branco, um dos empresários, aí ele falou: “Não, vou mandar o Mané te deixar, e no nosso show tu fica sendo o iluminador exclusivo”, aí fiz minha carreira toda. Ganhei dinheiro pra caramba, ganhei dinheiro. 

 

P/1 – Você ficou na equipe do Roberto Carlos?

 

R – Não, no show dele. 

 

P/1 – Só fazendo show dele?

 

R – É, e quando, até nos ensaios eu tava presente, no Olinda, no Palace, isso aquilo. Quando não tinha nada que ele ia gravar e ia pra fora, eu não ia, aí já tinha a boca dos outros. Aí eu fazia Ney, Tim Maia, Angela Ro Ro, que eu fiz uma vez pra nunca mais fazer, Sandra de Sá, algumas gravações pra TV, às vezes nos esportes, que tinha fazer alguma força lá.

 

P/1 – Por que pra Angela Ro Ro não mais?

 

R – Oi?

 

P/1 – Por que pra Angela Ro Ro não mais?

 

R – Não, não mais, eu trabalhei pra ela, mas ela é, não é que ela é assim exigente, ela é metida à brava, e você trabalhando, sabendo o que você tá fazendo, não é porque você é o patrão que você vai gritar comigo. Você gritou comigo, você pega os teus negócios, se vira, me dá o meu e acabou. Tem mais na equipe aí, o Brasil tá cheio de equipe. Sou profissional, não quero gritar.

 

P/1 – E você bebia nessa época?

 

R – Sempre bebi, tô te falando que eu aprendi a beber com a minha vó.

 

P/1 – Mas você bebia muito?

 

R – Ah, num clube, se você vai fazer um evento dentro de um clube, então principalmente aqueles que são fechados assim igual o Juventus, se você quiser botar uma caixa, falar pro cara: “Bota uma caixa de whisky aí atrás da minha mesa, que eu tô fazendo o som”, ele bota. “Mas qual marca?” Se você falar que é J&B ele manda abrir a caixa, o coiso de gelo e o copo. Se eu beber aquilo ali tudo divino, se eu não beber eu posso, terminou o show, boto no caminhão ou na carreta ou no carrinho que tá comigo e vou embora.

 

P/1 – Mas a bebida atrapalhava teu trabalho?

 

R – Não, nunca atrapalhou, nem aqui, nem na produção, nem na parte elétrica quando eu tava dentro da [?] ou na Bardella. E sempre bebi, trabalhando bebendo, sem problema, dirijo bebendo, já fui pego umas cinco vezes, só que ali não era essa, agora pegou, não tinha esse negócio de ponto na carteira nem coisa nenhuma. Agora tem esses papo agora, toma cem aí e deixa eu ir embora. Eu sempre bebi, eu falei que eu aprendi a beber com a cachaça da minha vó. 

 

P/1 – Você falou que você foi...

 

R – Mas nunca deu problema não.

 

P/1 – Lá fora você falou que você fez Rock in Rio.

 

R – Fiz primeiro no Rio, aí fiz um aqui em São Paulo e o segundo no Rio. Aí depois quando pintou o terceiro eu já tava em São Paulo, aí eu já tava trabalhando, já tava bem.

 

P/1 – E nesse período todo você morava onde?

 

R – Ah, em São Paulo eu morei em lugar pra caramba. O primeiro lugar que eu morei foi o Brás, né, já te falei. Depois fui pra Jandira, fui pra Pedreira, aí da Pedreira eu vim pra Utinga, aí depois morei na Cardoso de Almeida, aí morei bem na Cardoso de Almeida, sobradão, só que aluguel, era do gerente da Fabrimar, mas amigo meu pessoalmente. Aí dali eu voltei pro Brás de novo, aí depois fui pra São Caetano, depois vim pra Santo Amaro, aí voltei pra São Caetano de novo, falei: “Não, última parada”.

 

P/1 – E nesse período você não casou?

 

R – Não, não queria não, essas vidas que leva não dá pra casar, você não pode falar: “Ah, vou nessa”. Você tá aqui agora, daqui a pouco liga o escritório: “Oh cara, daqui duas horas tu viaja”. Aí tu fica uma semana fora, duas. É entregar na mão dos outros, aí não é interessante, então você tem que viver à toa, né, não é interessante. De vez em quando você passa três meses, quatro meses no mundão aí sem vir em casa, você acha que a mulher vai te esperar?

 

P/1 – Mas nesse período todo você sempre teve casa?

 

R – Eu tenho casa em Petrópolis, agora aqui eu sempre tive aonde morar. Agora que eu não tô tendo porque meu dinheiro tá acabando, acabou, praticamente acabou.

 

P/1 – Mas lá em Petrópolis você...

 

R – Eu tenho casa lá.

 

P/1 – Voltava pra Petrópolis?

 

R – Oi?

 

P/1 – Você voltava pra visitar sua família lá?

 

R – Não, minha família eu tenho contato mais com toda a semana por telefone, meu pai já falou: “Pode conversar comigo um dia todo a cobrar que não dá problema, mas só quero que você mantenha a ligação, ligado comigo. Se precisar de alguma coisa sabe onde tá teu pai”. Mas eu que parei com isso. Eu parei. Pô, toda vez que eu volto lá vem meu pai pagar minha passagem de volta? Meus irmãos tudo andam pra lá de carro. Meus irmãos, cada um tem um sobrado deles mesmo, e um carro na garagem.

 

P/1 – Aí você falou que em Perdizes foi bom, você chegou a comprar casa? 

 

R – Cheguei a comprar.

 

P/1 – Você juntava dinheiro?

 

R – Juntava e ganhava bem, né?

 

P/1 – Você juntava e gastava?

 

R – Eu gastava, mas eu ganhava bem, né?

 

P/1 – Mas você gastava em quê, bebida? 

 

R – É, eu ia muito em boate, viradinha de noite, você vai pra uma boate, você gasta numa mesa, se você tiver no bolso, gasta dois pau numa mesa e sai e deixa a mulher pra lá e sai doido. E no outro dia você volta...

 

P/1 – Era só bebida?

 

R – Só bebida sim, na minha vida só bebida.

 

P/1 – Droga você nunca usou?

 

R – Não, não. Não sou contra quem usa mas eu nunca usei. Agora bebida, se botar uma garrafa ali eu bebo, se botar duas eu bebo e não dou problema não, depois eu vou embora, quando achar que não dá mais eu abro a porta aqui e vou embora e acabou. Mas eu cansei de ganhar dinheiro também buscando maconha pras bandas.

 

P/1 – Você fazia avião?

 

R – Eu fazia, vou ganhar dinheiro mole, eu não tenho nada a ver com o bagulho, se você não me ganha. “Tá levando isso aqui pra quem?” “Tô levando.” “Pra quem?” “Não sei, o cara lá que pediu.” Né? Também não ia entregar ninguém, né, os caras lá que pediam. “Ah, tá aonde o cara?” “Tá na praça lá.” Estava ali.

 

P/1 – Você fazia os aviões?

 

R – Eu sempre fiz os aviões pros artistas.

 

P/1 – Pros artistas.

 

R – É, agora assim, vamos supor, não tô falando você, se você pedir pra mim comprar pra você, se ela pedir também, eu não vou. Agora os artistas, eu tinha contato com eles, e era cara de fé. Alguma bronca que der era pra buscar pra mim, se a segurança pega, os caras seguram, que a própria lei sabe que o cara é viciado. Então sabe que se você tá trabalhando pra ele, porque compartilho com ele alguma coisa, mesmo que você não use, mas você é empregado dele praticamente. Então ele tá te pagando pra fazer aquilo, agora pra tu, vou falar, eles deram desconto na época, pra comprar o bagulho pra ele, você sabe que tá na outra esquina, você dá uma volta no quarteirão e vai comprar, bebe até umas hora, depois você vai lá e pega o bagulho dele, chega e entrega normal. Aí você bebeu, desconta o dinheiro do táxi que não usou e ainda te dá um troco, tua diária tá lá ganha, hotel cinco estrelas, todas essas coisa. Você não vai ser amigo de um personagem desse? Não é não? É dinheiro fácil, dinheiro fácil. Você só não pode acompanhar ele, que esses caras são doidos, eles ficam assim, viram umas duas, três noites, cheirando, fumando e acabou. Agora eles têm, agora você não tem, mesmo que ganhe bem, eu não tenho condições de acompanhar a vida deles. Acompanhar a vida do Ney Matogrosso, do Jessé. Jessé eu trabalhei pro Jessé, outro cara bom, bom patrão. Mas era exigente, bom patrão. Acompanhar uma vida que leva um Erasmo Carlos, um Roberto Carlos, não dá, como empregado dele dá, agora quando você acompanha a vida dele não.

 

P/1 – E o Erasmo? 

 

R – Erasmo, eu não cheguei a trabalhar com ele, mas ele era o mais sério, foi doido na época da Jovem Guarda, mas depois ele se tocou, quando ele montou o estúdio dele. Ele mesmo montou o estúdio dele, ele se tocou que, ele teve alguma coisa, mas não é igual aquela doideira de primeira, de quando era ele, Wanderléa, Rosemary, Jorge Ben, na época que começou a Jovem Guarda, todo mundo fumava e cheirava, aí depois...

 

P/1 – Você trabalhou com todos eles?

 

R – Trabalhei com todos esses artistas, só não trabalhei com quem surgiu agora porque eu já saí fora da parada faz três anos e pouco. Às vezes trabalha com esse, vai surgindo boate, boate, salão, salão, estrada e estrada. Ganha dinheiro.

 

P/1 – Aí você comprou, você chegou a comprar uma casa, você falou.

 

R – Comprei.

 

P/1 – Quando?

 

R – 1987, 1989.

 

P/1 – Você comprou onde a casa?

 

R – Em Jandira.

 

P/1 – E o quê que você fez com a casa?

 

R – Depois vendi. Mas não que eu tava precisando do dinheiro, é que eu cismei, eu tava indo pro Espírito Santo, aí vendi, aí acabei nem indo pro Espírito Santo, aí não tenho a casa, mas eu tenho casa em Petrópolis, né, a que meu pai me deu, meu pai deu uma casa pra cada filho.

 

P/1 – Mas por que você quis ir pra Espírito Santo?

 

R – Porque eu me amarrei na cidade lá.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Espírito Santo, no porto, quando você vê o peixe vindo assim, dá pra você catar com a mão, sacou? O pessoal de lá não é tão agitado igual os outros estados, dá uma liberdade. Até numa compra numa loja te trata diferente, te deixa montar de dentro da loja, sacou, você se sente tão à vontade que você não tira uma peça ali e não esconde ela pra roubar. O cara te deixa em casa. E o pessoal que convive lá é outro, todo mundo é igual, ser humano. Mas o capixaba é, o estilo dele te tratar é outro, não é aquele estilo igual um baiano, um sergipano, um carioca ou um fluminense, no meu caso, tem uma divergência que o Espírito Santo não tem. Tanto faz em Vitória como no Espírito Santo, não tem isso não. Quando chegou você é o mesmo cara, come no mesmo prato, bebe no mesmo copo, e eu gostei de lá, eu gostei de lá. Mas não deu pra ir.

 

P/1 – Aí você foi morar aonde, você vendeu a casa, depois que você vendeu a casa foi morar aonde?

 

R – Pensão. 

 

P/1 – E gastou o dinheiro da casa?

 

R – Não todinho, mas quase todo. Depois quando me toquei já tava quase acabando, mas não foi por ficar pagando pensão, aluguel de pensão, é que na pensão eu ia pra, na época eu não parava lá, eu ia girar a noite toda. Então vamos supor, se eu estivesse desempregado, eu ficava num bar embaixo, eu morando sozinho, o bar embaixo, eu acordava, tô dentro do bar. Aí vai, quando dá cinco horas eu tava chapado, aí ia em cima, trocava de roupa, ia pro ponto de táxi, chegava no ponto de táxi, falava pro cara: “Vai rolar a noite, vamo embora”. Aí ia pra boate, ia pra uma boate aqui, outra ali, conheci boate pra caramba. Aí o dinheiro foi indo, foi indo. Onde você tira só e não coloca, acaba, certo?

 

P/1 – Aí você parou de trabalhar?

 

R – Não, aí eu perdi, aí foi o seguinte, aí eu fui mandado embora porque deu um desfalque lá no Poladian, aí o Poladian reuniu todo mundo e falou: “Vou acabar com o estúdio, deu um rombo e como eu não dependo disso – pagou todo mundo, do dia pra noite –, se alguém achar que eu tô errado vai, procura um advogado, liga para o táxi, que eu intero”. Aí eu falei: “Tá bom, vou voltar a fazer bico”. Aí voltei a fazer bico, mas aí eu marquei que eu não continuei pagando o INPS, com o dinheiro do bico dava pra mim pagar o INPS, meu INPS era alto, mas dava pra eu cobrir. Aí quando eu pensei em ser autônomo, eu já tava sem dinheiro, aí pra mim fazer um autônomo com menos do que eu ganhava não é negócio pra mim. Mesmo se eu fizesse um autônomo com um salário, tem meses que a gente não conhece o dinheiro pra pagar o INPS de um salário. E, quando mudou o aeroporto pra Guarulhos, matou a gente que fazia bico aí de carregador, de levar, motorista, matou com a gente. Aí vai todo mundo pra Guarulhos, o resto foi pra Campinas, então aí os transportes foi tudo pro aeroporto, não tem mais nada em Santo Amaro que conta.

 

P/1 – Mas você parou de fazer iluminação e luz e som?

 

R – Não, quando eu parei eu tava desempregado, mas agora o quê que acontece: as equipes todinhas se fixaram nos salões. Você vai no Olympia, a luz lá é do Gabi, o som lá é do Gabi, tá montado lá o mesmo todo. Você vai no Juventus, a luz lá é do Gabi, o som também é do Gabi, tá montado o mês todo, se existe contrato de um ano é um ano que ele vai ficar lá mesmo. Aí você vai, vamos supor, no Aramaçan, tá o João da Costa, fixo lá também. Aí quebrou a gente que era freelancer, aí quebrou, porque o cara é fixo.

 

P/1 – E você não consegue contato com eles pra voltar?

 

R – Não, consigo, mas acontece o seguinte, agora fica difícil porque eu tenho contato com eles direto e reto, mas pra o problema é o seguinte: num show você usa um iluminador, às vezes dois operadores de som, um pra baixo e outro pra cima, e mais nada, certo? Na hora de desmontar tem dois ajudantes aqui, que ajuda a desmontar rapidinho, e os carregadores que vão de fora com o gato. Então cadê, o caras têm dois iluminador bom, tem dois operadores de som, muitas vezes o cara, o dono da empresa também é operador, então tem show que ele mesmo opera, quando vai ficar meio caro pra ele, ele mesmo opera. Tem dono que é iluminador, e iluminador de primeira. Ney Matogrosso é um iluminador que até Deus duvida. Ele conseguiu iluminar, ser iluminador no show de outros artistas. No dele ele só não é porque não dá. Aí quebrou. Se algum dia tem algum grande evento aí, tem no estádio, aí você arruma um bico, mas é só daquele show. Então todos que foram contratando as equipes parou. Você sabe que pra comandar um show, vamos supor, dentro do Olympia, é só ter um bom operador de luz, que você comanda a iluminação todinha do salão. E dois operadores de som.

 

P/1 – Qual foi o show mais marcante que você fez?

 

R – Eu, pra mim?

 

P/1 – É.

 

R – O que eu, na minha cabeça o que eu gostei foi o do Ray Conniff. Do Ray Conniff eu gostei por duas coisas: o cara é bom e é um cara humilde. Vamos almoçar, vamos tomar café, vamos tomar uma cerveja, vamos jantar e vamos dormir todo mundo no mesmo hotel. Com os outros não existe isso. Aquele coroa é gente fina, certo, todo mundo almoçava, outro cara também que era gente fina, parecido, o Jessé. Jessé gosta que tomava café da manhã com ele, almoçar com ele, fazer lanche da tarde com ele, depois do show dele ia todo mundo pro mesmo restaurante jantar junto: carregador, operador de som, a banda dele, a mulher dele e ele. Emendava as mesas e ia. Aí cativa, agora os outros não, acabou o show já quer pegar o helicóptero dali e não querem te ver, recebe o dinheiro deles lá no banco, problema teu, se o teu não tá é problema teu e do teu patrão. O dele tá no banco às vezes um mês antes dele fazer o show. Os nosso não, a gente tem que trabalhar pra merecer pra gente receber. Pode fazer um empréstimo, mas ele vai vir descontado.

 

P/1 – Desde quando você tá morando na rua?

 

R – Ah, se eu voltar no lápis, não, na rua eu nunca morei não.

 

P/1 – Você mora onde?

 

R – Não, eu tô dizendo assim, você falou na rua aí você falou lá na rua… 

 

P/1 – Não, que você tá...

 

R – Se eu botar tudo… volta e meia eu, há uns três anos e pouco, né? Mas moro porque eu quero, porque eu tenho amigos que têm casa e pra mim, pra não morar dentro da mesma casa, eu compro uma TV e uma cama e boto na garagem, só tem um carro. A garagem tem banheiro, tem tudo, e você toca a vida. Mas eu não quero. Eu podia ter esse dinheiro pra poder viver, mas a gandaia não deixou.

 

P/1 – E você tá morando onde?

 

R – Agora tem dia que eu, quando, às vezes eu faço um biquinho aí eu caio num hotel. Quando eu não vou, eu vou pro albergue, coisa assim, e tem albergue também que quando você chega tá lotado, às vezes não tá, mas tem cara que já tá lá no albergue há três anos e ele já tá cativo lá, e as assistentes sociais que tem por aí já tem uns caras mais ou menos certo que vão. Tem, não todas, né, mas tem algumas que já têm aqueles caras certos, vamos supor, que tem noventa anos, mas leva molequinho de dezessete, e aí? Gosto não se discute. O cara nunca vai ter um teto pra ninguém, já trabalhou cinquenta anos. Você não pode reclamar. Às vezes você chega lá dez horas, o molequinho chegou quatro horas, mas quando vai pro chamado, o nome do molequinho já tava lá desde ontem, e aí, você vai fazer o quê? Reclamar com o prefeito?

 

P/1 – E você não pensou em voltar pra Petrópolis?

 

R – Não, eu passava lá quando eu viajava, mas eu posso ir lá ficar em casa um dia, dois dias, Petrópolis pra mim, agora pra mim ir pra Petrópolis eu vou como turista, pra morar não. Eu batalhei pra caramba lá, não ganhei nada, não ganhei nada.

 

P/1 – E seus irmãos sabem que você tem essa vida aqui, aqueles que têm carro, casa?

 

R – Não, não sabem porque eu nunca dei esse tipo, assim, quando eu tava bem, eu passei que eu tava bem pra eles, sacou, que aí meus amigos que trabalhavam aqui também falavam: “Meu nome é Ulisses Chagas Correa”, lá me chamam de Chagas, e aqui de Fumaça, então chegava lá e dava notícia: “Pô Fumaça, tu comprou isso e comprou isso”. Aí depois que eu vim parando, vim quebrando, eu não dei mais notícia. Então talvez eu tenho, alguém deve ter pensando que eu até morri já, que nem contato com esses caras que vieram direto e reto eu tenho, que eu tinha que ir pra Santo Amaro pra ter contato com eles, e eu não vou a Santo Amaro. Às vezes eu vou levar um motorista lá mas só chegar e deixar o motorista e vir embora. Eu tô praticamente do lado do pessoal uns dez anos, uns nove, dez anos. E tem, eu posso ligar pra casa, meu pai atendendo, eu posso falar o dia todo com ele, uns dois, três dias direto. Mas se a minha irmã que é advogada atender e eu falar meu nome, ela CRAU.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque a gente não se dá.

 

P/1 – Por quê, o que aconteceu?

 

R – Ah, porque ela é mais velha do que eu, né, então ela repetiu o primário, repetiu dois anos do ginásio, científico ela passou batido, e eu não tinha repetido nada, saí do científico porque eu quis, e eu que era pra ser advogado lá em casa, mas eu saí no mundão e ela foi pra faculdade. Aí começou o bate-boca. E meu pai sempre falou que o prazer dele era me ter no lugar dela bem antes, e eu tinha condição pra isso. Eu nunca repeti um ano, nunca fui reprovado, cansei de ter, lá em casa tem honra ao mérito meu que deve dar uma pilha assim ó, que a diretora, o diretor dava. Mas eu não esquentava a cabeça, e depois eu me toquei, quando eu comecei a viajar, não tem coisa melhor que você tá aqui um dia, tá ali um dia, só que às vezes fica difícil quando você não tem dinheiro. Aí você tem, na minha época não tinha albergue, sacou? Tinha a casa das irmãs que nego falava, né, casa do padre, mas pra tu entrar lá era difícil, tu fazia ficha hoje e levava três meses, às vezes tu já tinha morrido quando saía a sua vaga, depois que começou um albergue aqui, outro albergue ali e tal. Aí deu. Aí deu, mas eu não reclamo não, eu não reclamo não, tá bom.

 

P/1 – Quando foi a primeira vez que você foi pra um albergue?

 

R – Foi, não tem ali a, aquele albergue perto da, perto do batalhão ali, no Cambuci, o batalhão do lado, tem aqueles predinho de quatro andar ali do lado, né, aquele albergue que tem do lado, agora tá desativado, agora é da polícia militar lá, né, quartel. Primeiro albergue que eu fui parar era aquele ali. 

 

P/1 – Como foi sua primeira noite no albergue, você lembra?

 

R – Lembro que era um tumulto violento, eu nunca tinha passado por isso. Então aquele empurra-empurra e um ambiente meio esquisito. Depois você, acostuma, tá sabendo que é, não tem outro jeito. Hoje você tem albergue de luxo, hoje tem, mas naquela época não tinha.

 

P/1 – Era esquisito, o que era esquisito?

 

R – Que pra você levar uma facada era dois palito, pro cara catar tua bolsa e sair no mundo era três palito também. Às vezes você botava, você tava na fila lá pra pegar o rango, o cara te puxava, o outro entrava e pegava o rango e ia embora. Você não podia deixar o chinelo assim e deitar na cama, que de manhã tinha… ali, você levava, ia no banheiro, cadê o chinelo? Hoje em dia ainda tá essa zona, mas é devagar, porque hoje já tem segurança, naquela época não tinha, só era desempregado, como que três, quatro cozinheiras, duas arrumadeiras, dois porteiros vão tomar conta de trezentos homens de uma vez só? Não tem, não tem condição. Só no quartel que o capitão dá as ordens, se ele der um grito dois mil homens ficam parados. Hoje não, hoje você tem, num albergue aí de duzentas pessoas você tem quarenta funcionários. Naquela época não, tava começando ainda.

 

P/1 – Mas quando você dormiu a primeira noite no albergue, o quê que você pensou? “Não vou mais dormir aqui, vou mudar de vida”, te deu essa vontade?

 

R – Não, não, não deu porque eu já tinha ficado umas noites na rua, porque eu só fui pro albergue porque eu vi umas seis mortes do meu lado.

 

P/1 – Qual foi o primeiro dia que você dormiu na rua?

 

R – Ih, agora não me lembro não, mas tem tempo, tem tempo. Eu tava numa quebrada, não sei se foi… eu tava na Lapa, mas eu tava fazendo bico, aí nós não tínhamos direito a hotel, fui fazer um carregamento num clube lá na Lapa, não sei se tá em atividade ainda, aí os caras não davam o hotel pros carregadores, dado o número de carregamento. Aí o show ia ser sexta, sábado e domingo, então nós saíamos pra carregar no domingo à noite, aí pagou a diária do nosso serviço e falou: “Oh, vocês se viram, só vou dar dinheiro no domingo, quando descarregar dentro do estúdio”. Aí nós já tínhamos gastado nosso dinheiro, aí vamos fazer o quê, fizemos uma vaquinha, compramos um quilo daquela linguiça defumada, compramos churros, fizemos uma fogueirinha e começou o bicho, aí se você passa no supermercado, no mercadão, você não passa fome. Qualquer restaurante quando tá fechando aí, se você chegar e pedir: “Tem alguma coisa que sobra aí pra eu comer?”, o cara te dá um marmitex fechado na hora. Se você chegar, pedir numa barraquinha te dá também. Aí começou essas comunidades a distribuir comida à noite, então você só precisa de moradia. Depois que você tá com duas cervejas na cabeça, a calçada é o melhor colchão que tem. É arriscado, mas é o melhor colchão que tem, essa é a vida, às vezes você acorda tá todo molhado que tá chovendo pra caramba, mas você continua naquela. De manhã você levanta, dá uma volta, você vai andando assim, aí passa perto de uma residência, eu não peço, às vezes tô andando assim, a mulher fala: “O tio, quer tomar um café?”. Eu não vou falar que não. Aí me dá um café, se tiver puro eu agradeço, me dá, enquanto eu tô tomando café o cara vai lá dentro, faz dois, três lanches, acho, aí boto na sacola e vou embora. É que eu não peço nada a ninguém. Não deu, vou no Mercadão e cato umas fruta, vou na feira livre, final de feira, que é a melhor coisa que tem pra comer pastel.

 

P/1 – E você continua bebendo?

 

R – Continuo bebendo, bebendo, tô dizendo que eu bebo desde os cinco, seis anos.

 

P/1 – E você não pretende parar? Já te deu vontade de parar?

 

R – Já, mas não, já pensei em parar, mas tem uma hora que eu tô assim sentado, eu falo: “Tô legal”, daqui a pouco eu tô, aí eu vou, vou pra tal lugar, vou embora, aí eu paro ali e falo: “Vou tomar uma”, pô, mas tô sem beber desde anteontem, aí vem aquele impulso, e eu não sou cara de ficar no bar, ali, bebendo no balcão. Eu vou no mercado e compro um litro pra mim, boto dentro da sacola e vou embora. Você não me vê assim, você não me conhece, mas os meus amigos não me veem na roda dentro do botequim, não me veem jogando uma sinuca com o copo do lado. Pode me encontrar na rua, na calçada, já sabendo que eu tenho tudo, mas eu e Deus, sozinho. Quem pede, dependendo do cara eu dou um gole, dependendo do cara, digo: “Não, acabou cara”, e vou embora. Já diz o ditado, antes sozinho do que mal acompanhado. Melhor coisa que tem, até pra dormir. Então eu sempre bebi sozinho, cigarro, só uso da Souza Cruz, mas sempre compro meu cigarro, quando eu não tenho sou mais de catar bituca do que de pedir, às vezes o cara tem e te nega, às vezes você pede vinte pra ele, que é a quantia do cigarro, ele vira pra tu e fala: “Oh rapaz, vinte eu não tenho, só tenho dezenove”, pega o maço e bota no bolso de novo, e vai andando, aí fica chato. Então eu vou andando, cato uma bituca ali, beleza, tá grande assim, eu acendo. Passo no ponto de ônibus, você pega cigarro assim desse tamanho acesso ainda. Se você parar no ponto de ônibus aí tem três caras fumando e o ônibus dele chega, você fala: “Fumei”, ele entra para o ônibus e ele joga, quando não cai na baia que tá cheia de água, cai ou na pista ou na calçada, você vai lá e pega. Aí vai dizer: “Não te dá doença?”. Não, não dá, que doença pior que é o fumo dentro do pulmão, eu não tenho problema não. E tem outra, se você souber, é igual aquela jogada, quem tem boca vai à Roma. Se você souber viver, não te falta nada. Tu vai numa comunidade aí você pede uma roupa, nego te dá uma calça, uma camisa, um par de chinelo, um sapato. Tem cara que não bate prego pra ninguém nem nunca bateu por causa disso. E dentro de São Paulo tem essa birra, nos outros estados não, e eu conheço todos. Não tem essa mordomia do cara parado. Tem o cara parado, mas albergue três dias e manda cair fora. Dá a passagem e um abraço. Aqui não, você vive dez anos, vinte anos dentro de um albergue, igual eu conheço gente de vinte e um anos, vinte e dois anos...

 

P/1 – Você tá há quanto tempo no albergue, nesse que você tá agora?

 

R – Não, agora eu não tô em albergue não.

 

P/1 – Você tá onde agora?

 

R – Agora em qualquer lugar, eu vou andando, vejo um lugar que dá pra dormir, eu pim, quando não tenho nada pra fazer vou lá numa tenda, nesse pessoal, aí fico lá batendo um papo, na hora que fechou eu saio, onde der pra dormir eu deito.

 

P/1 – O que que é uma tenda?

 

R – É esse pessoal, ali no Parque Dom Pedro, é aqueles bagulho que parece um circo, parece o show, aí você fica, de manhã eles abrem, você vai pra lá ver televisão, é bom porque se não tem nada pra fazer não fica aí dando mole. Você fica lá sentado, toma um banho, aí, não tem almoço nem café. Aí de noite passa o pessoal da comunidade que dá uma sopa, dá um marmitex, mas eu não espero essa onda, eu saio antes. E vou embora, meu dinheiro pra mim sozinho dá, eu cato latinha até umas horas, então eu sempre tenho um dinheiro pro marmitex, tenho o dinheiro pra minha pinga, que eu não bebo no balcão, eu compro a garrafa, compro o litro, nunca compro, a garrafa uma vez ou outra, só quando o dinheiro, eu compro um litro. De cigarro, eu sempre compro um pacote de fumo e o meu maço de cigarro. Acabou o cigarro e eu não tenho dinheiro, tem o pacote de fumo. Fumo ninguém quer. “Você tem um cigarro aí ou?” “Não tenho cara, só tenho fumo.” “Ih, fumar.” Não sei o quê, então é mesmo, é mais cigarro pra mim. “Tem papel?” “Não tenho não.” “Ah, então eu não quero não, não tenho papel também.” “O problema é teu.” E um pacote de fumo tá um trezentos e cinquenta, um e trinta, dá pra fumar um mês sozinho. Você pega o cigarro, aí se gastar aquele cigarro, dá quase meia-hora, aí você vai fazer outro cigarro daqui a três, quatro horas. Pinga, tem um despacho ali e tem uma garrafa de pinga, passa, pede licença, pode beber que não dá, bom, pra mim nunca deu, né, não dá problema. Você vai no cemitério tem garrafa de cachaça fechada, de champagne, vinho, defunto não bebe.

 

P/1 – Tem do quê, de macumba?

 

R – É, mas defunto não bebe. Nem come, tem lá aqueles pratão de farofa assim, não come, já morreu, certo?

 

P/1 – É despacho?

 

R – É. E santo vai descer pra beber ou comer? Não vai, certo. Então não mando ninguém pegar não, que eu já vi cara morrendo aí por causa disso, mas pra mim nunca deu problema, o que não pode é abusar, né? E passa, de vez em quando tem um cara ali botando lixo pra fora, fala: “Oh, deixa que eu ponho lá pro senhor”. Aí ele manda levar o saco pra botar na caçamba, que aí você vai embora. Ele: “Ou, vem cá, vem cá”, te dá um conto, te dá dois. É só você saber viver. Você passa, tá fechando um restaurante, aí fala: “Já jantou? Já almoçou?”. “Não rapaz, tô numa caminhada aí.” “Senta aí.” Aí tem aquele cara que manda reservar dois marmitex, um não foi buscar porque teve que fazer uma viagem, mas vai pagar o marmitex, então ele sabe que ali já tá pago, aí: “Leva esse marmitex aí, já tá pago”. Só que você tem que andar, né? Se for ficar sentado o dia todo aí do céu só cai chuva. E às vezes, algum relâmpago, algum raio, aí é problema.

 

P/1 – Ulisses, hoje a gente conversou um pouco sobre a sua vida, acho que dariam horas você falando sobre ela. Olhando a sua trajetória de vida, se você tivesse que fazer alguma coisa diferente o que que você faria?

 

R – Olha eu, se eu tivesse que fazer alguma coisa de diferente e tivesse condições, comprava uma carreta e ia viajar. 

 

P/1 – Qual é o seu maior sonho hoje?

 

R – Meu maior sonho sempre foi ter o meu caminhão próprio, não tive ainda porque a gandaia não deixou, porque eu já podia ter, que eu já ganhei dinheiro pra isso, certo, mas viajei, viajei, e andava pra tudo, “beleza, agora vou comprar ele”, mas esqueci de guardar alguma coisa. Eu tinha um dinheirinho, bababi bababa e na estrada, você sabe que você, se você for o patrão, você não junta o dinheiro. Se você for o empregado, você junta, mas se você for o patrão. E o resto não, eu tô te falando, se eu quiser, se eu voltar pra casa, eu tenho que trabalhar com meus irmãos. Mas eu não dou o braço a torcer, eu devo voltar pra casa mas não trabalhar com eles. Ter onde dormir, onde cozinhar, mas vou fazer um, tem que dar um meio de eu não trabalhar pra eles. Me sacanearam uma vez, não vou dar chance de sacanear duas. Então posso voltar lá pra trocar ideia, não sei o quê, até de repente se tem um problema lá que eles não resolvem, e tiver no meu alcance, eu resolvo, não cobro nada, isso aquilo. Mas: “vamos trabalhar com a gente?”. Tsc tsc. Nem por reza braba, certo? E tenho, lá também tenho amigos, tenho conhecidos, tem muito sitiante, Sorocaba ali eu conheço gente até umas horas, conheço haras com cavalos se eu for pra lá também eu arrumo alguma coisa pra fazer, se eu for pra Itaquá eu passo limpo todo dia, em restaurante, em posto de gasolina, é em uma construção lá em Itaquá todo mundo me conhece ali de cabo a rabo, faço uma horta pra um no quintal dele, faço uma horta pra outro, aí: “Quem fez sua horta?” “Foi o Fumaça.” “E aí?” “Ele vai vir tal dia.” “Então manda ele ir lá que ele vai fazer a minha” e tal, aí já bebo, almoço, janto, o que não deu pra trabalhar naquele dia já durmo na varanda ou na garagem pra no outro dia terminar rapidinho, dinheiro na mão, tal, e vou embora. Eu não fico parado, e pra mim comer e beber, pra mim, não falta. Eu não tenho preguiça. O único problema meu é que teve uns dias lá que eu marquei, já era pra estar aposentado.

 

P/1 – E não dá pra aposentar agora, você já foi ver?

 

R – Não, se eu me aposentar agora, o que eu já paguei de INPS, porque meu INPS sempre foi alto, então não é interessante agora entrar na onda de um salário. Mas agora se eu arrumar um dinheiro, bancar o tempo que eu não paguei, pra eu me aposentar em cima do que eu já paguei. Se bem que com um salário dá pra eu viver. Durmo no albergue, janto no albergue, tomo café da manhã no albergue, de dia só tem que ir na boca, comprar um marmitex, tem marmitex aí de um conto, é quase igual o de três conto ou de cinco conto, a diferença é só que é na mistura, mas mata a fome, continuo comprando minha pinga de litro, acabou, a noite volto pro albergue, acabou, chego lá, tomo um banho, janto, vou dormir. Cigarro, que eu já falei, eu compro um pacote de fumo e um maço de cigarro, uso mais o fumo do que o cigarro, quando eu não tenho eu cato bituca, então não tem grande tristeza comigo.

 

P/1 – Você quer trocar de vida?

 

R – Não, trocar de vida em qual sentido?

 

P/1 – Modo de vida assim, que você leva. Você sonha em ter uma casa?

 

R – Não, casa eu tenho, aqui não tenho, mas em Petrópolis eu tenho.

 

P/1 – Mas você não tem vontade de voltar ainda?

 

R – Não, não. Vontade não. Eu tenho que ir lá pra ver como é que tá a família, e tal e aquilo, eu tenho uma pancada de sobrinho que eu não conheço nenhum. Devo ter uns dez ou mais de sobrinho, e eu não conheço nenhum. Até tem sobrinha minha que já casou e eu não conheço também. Eu já tô fora de lá há uns quase vinte anos. E passava lá volta e meia, que eu subia a BR volta e meia, ou então ia pro Rezende, então de qualquer maneira eu passo em Petrópolis.

 

P/1 – Ulisses, o quê que você achou da experiência de contar esse depoimento aqui, dessa nossa conversa, de lembrar seu passado?

 

R – Não, pra mim isso é normal porque eu volta e meia fico batendo papo sobre quem eu fui, quem eu não fui, que é a vida que a gente leva porque eu tenho muitos amigos na mesma situação minha, às vezes uns melhores e outros piores, certo, aí a gente se encontra: “E aí cara, tu arrumou o quê?” “Não arrumei nada.” E um começa a bater papo com o outro. Mas eu acho interessante, porque é aquela jogada, a gente não se conhecia, vocês chegaram e perguntaram e eu tô contando a minha vida, certo? Se bem que você nunca conta a vida toda, né, tem sempre alguma coisa que você oculta, a não ser numa outra oportunidade eu vou falar a mesma coisa e vou falar uma coisa que não falei nessa, já aconteceu antes de eu vir aqui na primeira vez. Mas pra mim é normal, como dizem os caras, cada um na sua profissão, né? Você usa essa aí como sua profissão, né? Eu na minha parte elétrica, e volta e meia eu faço uns bicos.

 

P/1 – O que você acha de ter um museu onde a gente guarda a história de vida das pessoas?

 

R – É interessante, né, é interessante isso aí, mais ou menos, porque se já tem o museu em Petrópolis que tem as coisas de Dom Pedro II, que é o maior museu que tem, tá até a carruagem dele lá, da Princesa Isabel, tá lá tudo em Petrópolis, casa dele, de Santos Dumont, que tá do lado lá, cidade católica, a cama onde Santos Dumont dormia que era uma escrivaninha, de dia ele tava escrevendo, de noite ele entrava debaixo e dormia, tá lá do lado, da onde ele morava, do lado da Universidade Católica. Então eu acho isso interessante. Daqui a, vamos supor, daqui a dez anos surge um carinha aí, dá uma olhada e se interessa, às vezes o cara nem pensou em ser alguma coisa na vida, aí se interessa pela vida de alguém que já passou aqui e segue. Vai ter cara também que vai criticar, certo, mas isso é normal. Eu acho interessante, assim oh, se fala do presente e ao mesmo tempo se fala do passado. E o futuro só Deus quem sabe, certo, às vezes você tá aqui e amanhã já foi, aí não tá mais no teu lugar, de repente eu desço aqui, amanhã liga e fala: “Oh, sabe aquele cara que tava lá? PIM, saiu ali, morreu”, então acabou. O presente se vive agora e o passado já foi, e o futuro só Deus é quem sabe. Mas é uma boa, é uma boa. O bom pra vocês, que eu acho, vocês tinham que catar mais a molecada de menor, sacou, isso é que tá, que eu já tô com sessenta e quatro, pra mim qualquer coisa me diverte agora. Mas essa molecada de doze, treze, catorze anos, não tô dizendo que vocês estão no caminho errado, mas precisava mais de uma, se bem que se botar lá eles não vão endireitar nem com reza braba, sacou, precisava dar, não adianta vir aqui com o comando aqui, mas precisava de dar, não tirar da rua, procurar ampliar o SENAI, botar, levar o moleque lá pra fazer logo o SENAI aí vê, vai se interessar e ver aquela máquina gravadora, que vai falar assim: “Esse aqui é um torneiro mecânico. É um torneiro mecânico.” “O quê que faz?” “Faz essas peça aqui”. Vir um salvador aí pra ver se abre a mente dos moleques. “Pra quê que serve isso aqui?” “Pra montar um carro lá, pra montar um ônibus, pra montar trem, metrô, isso aqui alguma parte vai pro avião”, mas se não fizer isso a molecada só pensa em cheirar, fumar, roubar, mais nada, mais nada. Antigamente não era assim. Eu tenho a minha profissão e não virei a cabeça porque eu não era assim. Você não vê cada um com uma habilidade, torto. Você vai numa DP aí, ou numa detenção, tudo cara de trinta e dois, trinta e quatro, vinte e sete anos. Você não vê um de sessenta e quatro, de cinquenta e nove, porque a vida era outra. Então tinha que pegar, tentar orientar essa molecada e não passar o que se passa agora. Eu acho que se analisar bem o país tem esse problema, que eu, com sessenta e quatro, pra mim o que vier é lucro, certo? Eu sei onde eu como comida de graça, eles também sabem, mas eu tenho coragem de chegar ali, se você falar que tem esse barrão pra derrubar, a gente vai começar, eu te dou meu preço, se gostou manda pegar, se não vai falar: “Te dou tanto”, eu tô precisando, eu vou fazer. Agora um moleque não vai querer isso. Você tem que botar na “medideira”, pensa que essa máquina faz isso mas depende de um cara pra operar ela, tu fica aí, o cara vai te ensinando aos poucos, dali a pouco, quando tiver hábito, aí você arruma emprego em tal lugar. Mesmo que não arrumar, o moleque já fugiu da rua. Aquele tempo que ele tá vivendo, aprendendo alguma coisa, ele não tá lá na rua. E eu na rua, eu sei o que eu faço, eu chego ali, como eu te falei, eu cato uma bituca, se eu, caiu o dinheiro do cara ali, eu pego e falo: “Caiu o teu aqui”. Se ele me paga uma pinga pra mim tá bom, se ele não paga também problema dele, vai com Deus. Se eu ver um negócio mole aqui eu não pego, porque não é meu, o moleque vê que tá difícil mas ele vai tentar roubar, por quê, porque ele não tem ninguém que orienta ele. O pai não chama pra conversar, às vezes o pai nem conheceu, a mãe tá na gandaia, a irmã mais velha tá todo dia cheia de fumo, não consegue nem falar, a irmã já tá na vida também, o quê que um molequinho desse vai viver? Ele tem a quem seguir? Não vai numa escola, certo? Na minha época você era obrigado a ir pro colégio. Tinha todo dia que mostrar a caderneta pro pai e a prova. Hoje em dia não, o moleque, bota o moleque no colégio, num ano ele vai três dias no colégio, e o pai ainda fala: “Não, meu filho tá estudando”. Quando vê o moleque já tá torto, já tá pedido pela Justiça há muito tempo. Aí já matou, já cheirou.

 

P/1 – Já foi.

 

R – É, aí que é o problema. Então se pudesse dar uma condição melhor de vida pra molecada, pau que nasce torto não tem jeito que morre torto, né, aí você pega, bota tudo aqui pra ajudar e o bicho fala: “Não quero isso daí não”. A vida boa tá lá fora, então tem que deixar ir. Mas já tem molequinho que eu vejo aí no canto triste. “Aí cara, vamo ali, vou pagar um café pra tu.” “Compra um pão pra mim que eu vou levar pro meu irmão.” Mas tem moleque que você fala pra ele: “Vamos lá tomar um refrigerante, um café”. “Eu sou moleque de refrigerante? Eu tô a fim é de um fumo agora, vem pagar refrigerante pra mim?” Então é isso aí. O governo não tem nada a ver com isso, nem tampouco vocês. Nem tampouco a mãe e o pai, porque quando tá em casa a gente dá conselho. Depois que caiu na rua, com o mundão em cima, se o cara tiver cabeça ele aprende, se não tiver fica aí nessa vida. Por que eu não sou vida torta? Porque eu tenho cabeça. Porque eu fui pro mundo moleque novo. Não roubei, nunca matei, sempre tive minha grana, agora não tô tendo, mas sempre tive minha grana, conheço horrores, já passei apertado, já passei aperto também, não sou brigão, briguei umas três ou quatro vezes na vida, levei desvantagem em duas e levei vantagem em duas, mas nada, eu conheço gente até umas horas, agora você pega um coisa desses aí, pergunta pra ele: “Em qual escola você estudou?”. Ele fala: “Eu nunca fui na escola.” “Qual que é o nome daquela rua ali?” Não sabe ler. 

 

P/1 – É.

 

R – Isso aí que é. Não tô dizendo que o serviço de vocês é, não é, tem que ser isso também. Mas se tiver que montar um bagulho, tem que por pra molecada, senão, daqui um tempo, eu já tô com sessenta e quatro, mas a molecada, daqui um tempo vai pra favela.

 

P/1 – Ulisses, queria agradecer a entrevista.

 

R – Tá limpo.

 

P/1 – Foi muito bacana. 

 

R – Precisando, só mandar chamar.

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