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História de: Ligia Maria de Souza Barroca
Autor: Gabrielle Barroca Cruz
Publicado em: 28/11/2018

Sinopse

Ligia Maria é uma figura que gosta muito de contar histórias. Tanto as suas, como as de outros. Porém há uma em particular que tem um lugar especial em seu coração, sua própria história de amor. Depois de 47 anos, ela ainda é muito vívida em sua memória. Quando o destino junta duas pessoas nem o tempo separa.

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História completa

Num apartamento, da sacada se vê os trilhos do trem e na janela da outra ponta vemos a praia. Quadros, retratos e artesanatos espalhados fazem com que ela se sinta em casa no seu novo lar em Santa Catarina. Ficou feliz com o pedido da entrevista, sentou-se na mesa da sala de jantar, nela se encontrava um copo açucenas lilases sobre a toalha de mesa de crochê. Diz que é uma de suas flores favoritas, pois elas florescem perto de seu aniversário e quando pequena a mãe sempre a trazia de presente. E assim começou a contar sua história. 

 

INFÂNCIA

 

O primeiro assunto que tocou foi a infância, nasceu em Cachoeira do Sul no interior do Rio Grande Sul, foi a terceira filha do casal Ladislau e Ligia de Souza. Foi chamada de Ligia assim como a mãe e é a ùnica das filhas que não teve Maria como primeiro nome mas tem como o segundo. Viveu em Cachoeira até os seus 6 anos, na época era caçula.

 

Mesmo depois de tanto tempo ainda tem lembranças daquela época e ri sobre o assunto. “Quando era pequena, minha mãe trabalhava como professora e nos deixava com a minha madrinha de crisma, Maria Gasparina. Podes não acreditar, mas me lembro perfeitamente dos meus irmãos, Paulo e Maria Afra cortaram todos os meus cachinhos. Quando minha mãe chegou só tinha pontinhas dos meus cabelos.”

 

Se mudaram para Porto Alegre por conta do trabalho do pai, onde nasceram as duas outras irmãs, Maria do Carmo e Maria Lúcia. Foram morar numa casa geminada no bairro Tristeza. Ela afirma ter tido uma boa infância, com vários amigos. “Brincávamos com bonecas de papel junto com as filhas do doutor Ito, elas tinham as melhores bonecas porque a tia delas trazia revistas importadas. Mas sempre arrumamos algum jeito de fazer trocas”.

 

Começou a falar sobre a mudança da família para Porto Alegre e ela se lembrou de algumas pessoas que marcaram o começo de sua vida, o tio e a avó por parte de seu . Essas lembranças parecem trazer a ela um ar de nostalgia e felicidade. Uma das pessoas mais marcantes em sua vida foi seu tio Chico, ele cuidava dela e dos seus irmãos, fritava batatas e comandava a casa quando o seus pais saiam para trabalhar. Ele dava uma tarefa para cada um dos três filhos, o Paulo tinha que limpar todos os sapatos, a Maria Afra e a Ligia tinham que tirar o pó e varrer a casa. Uma pessoa marcante em sua vida e depois se estendeu a infância de seus filhos, todos tinham muito carinho por ele. Quando sua mãe, em casa, deu à luz a Maria do Carmo todas as crianças da vizinhança estavam no pátio da casa deles. Pois o pai de Ligia tinha construído uma casinha na parte de trás do terreno. “ Ficamos todos em baixo da janela pra ouvir, estávamos tentando entender oque estava acontecendo e enquanto a coitada da minha mãe estava lá gritando.” Foi um parto muito difícil, Maria do Carmo quase morreu por causa do cordão umbilical que estava enrolado ao seu pescoço mas a médica fez um trabalho fantástico mesmo sendo seu primeiro parto.Enquanto a sua mãe sofria, a irmã custava a nascer e a médica passava trabalho, o tio Chico estava fritando batatas para todas as crianças da vizinhança.

 

Outra grande marca foi sua avó Afra, cuidava de dela quando pequena e criou um carinho muito grande por ela. Foi com sua avó que deu os primeiros passos, e foi ela com quem a avó passou os últimos minutos de sua vida. “Não chorei muito, a vó Afra já havia dito que queria ir, que já era sua hora. Mas eu sinto até hoje muita falta dela.”

 

Foi nessa época pai ter conseguido comprar a primeira casa própria da família. A casa tinha uma história muito interessante. O antigo dono era um coronel, mas quem morava nela era a sua amante . Quando ele morreu sua esposa tentou tirar a casa da amante, a mulher entrou em surto e quebrou a casa inteira com um machado. Quando eles chegaram lá a mãe de Ligia começou a chorar ao ver a casa, achando que não havia conserto, mas o pai viu potencial. Eles foram morar lá enquanto reformava o lugar, demorou alguns meses. Algumas vezes tiveram que dormir sem telhado mas aos poucos foram construindo e ali moraram por muito tempo.

 

Chegando no assunto adolescência ela diz ter sido uma menina muito triste. Se sentia feia, muito magra e a sua irmã era considerada muito bonita, o que não ajudava. Mas namorou algumas vezes, sofreu com alguns términos.

 

“Quando o Vinicius terminou comigo eu olhei para minha mãe e disse ‘A partir de hoje não vou mais viver, vou vegetar’. Sempre fui muito dramática”. Depois desse episódio ela ainda se relacionou com outro rapaz, Sergio, antes de conhecer o seu marido. Ficaram juntos por alguns anos mas ambos perceberam que eles gostavam mais da família um do outro do que deles em si.

 

AMOR

 

Após ter terminado a escola, Ligia passou um tempo dando aula mas quis entrar na faculdade. Como não tinha dinheiro para pagar cursinho, foi para Tramandaí para estudar sozinha, seu pai foi com ela e ficaram um fim de semana lá. “Para me preparar para o vestibular fiz coleção de jornais, tinha muitas matérias sobre o Golpe de 1964. Eu tinha tudo documentado - antes, depois e durante.” Fez a prova, na primeira leva não passou e com isso ficou muito triste. A segunda leva saiu no outro dia e ali ela estava como a primeira, então dali entrou na faculdade de direito. “A faculdade pra mim foi muito boa. No terceiro ano eu conheci uma figura, o Milton”.

 

Quando ainda namorava Sérgio eles iam à uma churrascaria famosa junto com alguns amigos. Ela diz que nunca tinha acontecido isso antes na sua vida, por ser muito certinha e mesmo não amando mais o companheiro nunca havia olhado para outros. Mas quando estavam sentados no restaurante passá um homem lindo, com uma camisa verde musgo, eles trocam olhares e ela diz ter pensado: “ Meu Deus era tudo que queria ter na minha vida”. Passou um tempo, e ele não para de olhar para Ligia. Se irritou com a situação e o ficou encarando ele também. Quando o homem foi sair da mesa dele, colocou a acompanhante para andar mais para frente e continuou com os olhos fixos nela , acabou esbarrando e levando algumas cadeiras no caminho. Achou que nunca mais o veria em sua vida, mas quando ela estava indo trabalhar no escritório de advocacia do tio, se esbarram.

 

Não acreditou quando o viu, “Ele já veio falar comigo, me perguntou onde eu ia. Eu disse que ia trabalhar com o meu tio ali no edifício União e ele pediu para me acompanhar.” Foram conversando até o escritório e Milton a perguntou o que ela ia fazer a noite, falou que lecionava numa na Escola Técnica Tristeza. Ele perguntou se podia buscá-la, ela aceitou mas achou que não iria acontecer mas ele apareceu.

 

Foi a “revolucionária” da família, porque Milton era divorciado e tinha um filho. “Meu pai chorou”, contou.Minha mãe ficou muito chocada, foi um escândalo para época. Uma suas irmãs a mandou uma carta dizendo que ela ia matar a mãe de desgosto. Porém se manteve firme, porque gostava muito dele.

 

Antes de eu os apresentar, meus pais sempre iam para a praia e eu ficava em Porto Alegre por conta do trabalho. “Nessa época conheci o Luiz Fernando, o filho dele. Coisa mais linda aquela criança do olho claro e o cabelo bem loirinho. Foi uma paixão de cara, ele gostava muito de mim brincava com ele como se eu fosse criança”.

 

Uma noite chegou tarde porque estava na casa de Milton mas não havia falado onde estava e acabou vendo que o pai chorava. Eles sempre foram muito próximos, ela era única das filhas que pedia e falava tudo na frente dele, não conversava com a mãe para que ela pedisse para o pai o que queria. Foi depois daquele momento que ela percebeu que hora de eles se conhecerem, pois não havia motivo para tudo aquilo. Na noite do encontro, eles chegaram eram 21h mas o pai só falava das viagens, dos negócios, o que ele tinha feito, quem tinha conhecido. Tudo isso para não tocar no assunto que eles tinham se reunido para tratar.

 

Já havia passado da meia-noite, Milton ainda não tinha conseguido falar, até que não se segurou mais. Ele falou que se amavam e queriam viver juntos. Seu pai o perguntou se já estava tudo certo sobre seu divórcio, ele respondeu que sim.

 

Por enquanto estava tudo, mas quando seu pai sugeriu deles se casarem no Uruguai, ela respondeu: “Pai pelo amor de Deus,a satisfação que eu devo não é para uma sociedade, não é para parente, não é para ninguém, ela é para ti e para a mãe. Esse casamento no Uruguai não tem valor nenhum aqui no Brasil. Nós viemos aqui te dizer, pra fazer tudo certinho mas não esperar que a gente case em outro país porque eu não faço isso".

 

Na tarde seguinte quando ela voltou depois do trabalho, em sua cama havia um pequeno enxoval. Foi a forma de sua mãe dizer que estava “ok” com a situação. Passaram três dias Ligia resolveu que estava na hora, Milton havia pegado uma gripe forte e ela queria ir cuidar dele. Arrumou as malas e avisou a mãe, que ficou espantada com rapidez. “ ‘O que eu vou falar para o teu pai?’ Minha mãe falou e eu respondi ‘Aconteceu o que eu disse para ele o que ia acontecer, eu vou lá pro Milton’ e eu fui”.

 

30 ANOS DE CASADO, FILHOS E O SONHO

 

No começo de 1973 Ligia achou que estava grávida, sua cunhada Avani a emprestou a carteirinha do convênio para que ela pudesse fazer uma consulta. A resposta foi positiva, estava grávida. Como ainda era professora contratada do Estado, não tinha plano de saúde.Primeira coisa que seu marido fez depois da notícia foi arrumar todos os seus papéis e ir atrás de um plano para ela. “Foi uma gravidez super tranquila” comentou Ligia. Em outubro ela deu à luz a primeira filha, Carla. Três anos depois nasceu Milton Fernando de Souza Barroca, ou como ele se apelidou, Tito. “Perdi um filho entre a Carla e o Tito, e depois do Tito perdi outro, mas ficou tudo bem, eu tinha minha família”

 

Viveram muito bem, na casa localizada na Avenida Jacuí. Foram trinta anos de casados, com momentos bons e ruins. “Casamento nunca é um mar de rosas. São duas pessoas diferentes, com criações e mentalidades diferentes, que se unem para se adaptarem. Casamento é uma eterna adaptação, conhecimento constante. Porque se parar, não vai para frente”. Milton foi diagnosticado com câncer e veio a falecer em 2001. “Eu achei que não ia viver” relembrou tristemente. Na religião foi onde ela encontrou suas força, de crente passou para praticante, e nela encontrou uma forma de prosseguir com sua vida.

 

Quando seu esposo estava mal hopistal, Ligia pediu à Deus que ele descansasse pois não aguentava mais vê-lo sofrer. No mesmo momento Milton ficou doente, ocorreu uma aproximação com a mãe de Ligia. Após a perda, sua mãe acabou vindo morar com ela. Se dedicou aos cuidados da mãe, o que cooperou para que continuasse na ativa e mantivesse “a cabeça no lugar”. Outra forma de ajuda, foi ter se ligado com os seus netos e filhos. Na época, o casal tinha quatro netos. Fernanda filha de Luiz Fernando, Milton Fernando Junior filho de Tito, Guilherme e Gabrielle filhos de Carla. Anos depois nasceram mais dois Gabriel e a Raissa, filhos mais novos de Tito. “Eu vivo para eles” afirmou.

 

Depois de 17 anos, por alguns motivos de saúde teve que passar a responsabilidade para sua irmã mais nova, Maria do Carmo. No mesmo ano houve um evento que impactou sua vida, o assassinato de sua irmã mais nova, Maria Lúcia. O crime fez com que não tivesse mais vontade morar em sua casa, já não tinha mais vontade de morar na sua própria casa e pela primeira vez em anos tinha tempo de sobra. Foi quando seu filho precisou de ajuda para cuidar de seus filhos pequenos.

 

Tito mora em Santa Catarina então Ligia viajava quase toda semana para sua casa. Então se abriu uma nova oportunidade na vida dela, uma mudança. No final de 2017, alugou um apartamento em Imbituba e hoje mora lá. Cuida de seus netos mais novos e de vez em quando vai a Porto Alegre visitar os outros. “Parece que tudo foi premeditado. Eu e Milton sempre quisemos morar na praia, hoje eu realizo o nosso sonho” finaliza Ligia,com sorriso.

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