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"Quero que minha filha se orgulhe de mim"

História de: Amélia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/08/2019

Sinopse

Amélia teve que conviver toda a vida com um pai violento, que espancava a esposa e os filhos. Sua mãe muitas vezes fugia e chegou a passar tempos na rua ou na casa de pessoas que abrigavam ela e os filhos. Tudo isso acontecia mesmo com a família, principalmente o pai, sendo religiosa e frequentando a Igreja. Por conta das agressões, Amélia saiu de casa e viveu um tempo na casa de uma pessoa que a acolheu, nesta época começou a namorar e, algum tempo depois, quando estava vivendo em um abrigo, descobriu que estava grávida. Foi então morar com o pai de sua filha, porém também passou a ser agradida por ele. Entre idas e vindas de abrigos e da casa dos pais, conheceu o Projeto ViraVida, que lhe deu nova perspectiva e uma vida que lhe permitiu morar sozinha e reconstruir sua história. 

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História completa

Meu nome é Amélia, nasci em 1993. A família da minha mãe é do estado de São Paulo e meu pai é da Bahia. É uma história bem complicada, meu pai é uma pessoa meio destrambelhada, faz muitas coisas erradas, pelo o que eu sei, ele contando as histórias, que ele é muito de mentir também, falou que ele era casado com uma mulher e a mulher o traiu e ele acabou com a mulher na porrada e as pessoas, os parentes dela, queriam se vingar, então ele foi fugido para São Paulo. Ele era caseiro de uma casa e conheceu minha mãe. Minha mãe tinha uma filha do primeiro casamento já, depois o ex marido da minha mãe faleceu e ela ficou com uma casa e virou pensionista dele. Depois de mim tenho três irmãos, mais novos. 

 

Nós nos mudamos para a Bahia quando eu tinha sete anos, ia fazer sete, porque meu pai, como eu falei no começo, ele é complicado, ele agredia a minha mãe, agredia eu, meus irmãos, e minha irmã mais velha também, teve vários problemas, com a minha irmã mais velha aconteceu de ele ter espancado. Ela saiu de casa e minha mãe foi junto, só que minha mãe voltou para o meu pai e minha irmã falou que se ela voltasse ela não voltava para casa, ela saiu de casa quando minha mãe aceitou meu pai de novo... A minha história, desde que eu me entendo por gente, toda vez que os meus pais brigavam meu pai agredia minha mãe, dias depois minha mãe fugia de casa, fugia mesmo, saía pela rua, ia para a casa de parentes, para a casa de amigos, quando não achava abrigo ficava pela rua mesmo, e eu sempre fui com ela. 

 

Meu pai ele é doente, que era um ciúmes muito louco com minha mãe, ciúmes que minha mãe não podia olhar para ninguém, como é que se diz, minha mãe, como eu, prefere homens de cor escura, negros, meu pai disse que era minha mãe olhar para um negro... Então qualquer besteira, se ela fizesse alguma coisa certa ou nós, os filhos fizéssemos alguma coisa errada, sobrava para ela. Batia na nossa frente, batia em mim por qualquer besteira, tipo, se eu quebrasse um copo dentro de casa era motivo de apanhar, reunião na escola, a professora falasse alguma coisa, era apanhar. Éramos da igreja, crescemos dentro da igreja, na religião Adventista do Sétimo dia, se olhasse para trás dentro da igreja ou dormisse dentro da igreja, qualquer coisa apanhava.

 

Porque minha mãe voltava para o meu pai eu não sei. Esse é o motivo que nunca entendíamos, a minha vida inteira foi tentando entender isso, ele fazia, acontecia, como eu falei no começo, ela era pensionista, ela tinha direito a dois salários mínimos, era o que sustentava a gente, que ele nunca tinha emprego fixo, era raro, ele dizia que reciclava, saía na rua pegando garrafa, dizia que estava trabalhando com isso e ficava o tempo todo infernizando dentro de casa. Que vida normal é o homem vai para rua trabalhar, a mulher fica dentro de casa cuidando da casa, mas não, era o tempo todo perturbando, não dava paz para ninguém, não podia fazer nada de errado, eu vivia num... eu vivia sob medo, minha vida, a minha infância foi assustadora, qualquer motivo era: “Meu pai vai me bater”, meus amigos tinham medo dele.

 

Minha irmã mais velha saiu de casa, porque meu pai a abusou, só que eu não sei explicar muito como foi isso, que é como eu disse, eu era pequena, nunca foi esclarecida essa história para mim. Fiquei sabendo disso porque vi a minha mãe e o meu pai brigando, no caso, quando eles discutiam ela falava, ele tinha feito, ele falava, ele chegava: “Ah, eu pedi para você”, como se ele chegasse e falasse: “Eu vou fazer isso” e ela dissesse que podia e ele foi e fez mesmo, agora eu não sei se foi com consentimento de minha irmã, se foi forçado, eu sei que eu via coisas quando eu era... eu dormia, era beliche também, eu dormia embaixo com a minha outra irmã menor, que eu e ela dormíamos em cima, minha irmã mais velha, eu ouvia umas risadas, em cima da minha cama, mas eu não entendia, porque eu era pequena. Meu pai chegou a tentar matar minha irmã uma vez, por causa de ciúmes que ele tinha dela. 

 

Quando acontecia essas coisas minha mãe mandava chamar a vizinha, eu lembro que ela: “Vai, chame a vizinha”, nem lembro mais o nome, eu ficava com medo de sair e ele também me pegar, porque ele me batia, eu com quatro anos de idade ele me bateu tanto que meu pé inchou, por causa de um versículo da bíblia, que nossa religião tem que estudar a lição, tem uma lição da Bíblia, tinha que gravar o versículo, a semana toda tinha que decorar para chegar sexta-feira eu falar a ele, se eu não falasse eu apanhava, e teve uma vez que eu apanhei tanto que meu pé inchou, eu tinha um certo medo dele, como eu já falei, desde pequena.

 

Quando ele tentou matar minha irmã nós fugimos de casa, minha mãe ia dar queixa, mas acabou não dando, para fazer o corpo delito e a cara da minha irmã ficou deformada, ela muito branca, ela chegou a vomitar sangue, aconteceu que minha mãe passou uns dias na casa de uma vizinha, botou a gente numa casa e ela foi para outra, eu sei que eu fiquei na casa dessa vizinha que ela mandava chamar na hora da confusão, ficou eu e minha irmã e ela foi, a neném e minha irmã mais velha sumiram, eu sei que quando voltou tudo para casa, minha irmã não ficou em casa, ela ficou... aí foi que minha mãe aceitou meu pai de novo e minha irmã saiu, foi morar com a minha tia, irmã dela.

 

Numa dessas confusões minha mãe fugiu de novo, ela foi embora, não levou a gente dessa vez, não levou nenhuma das meninas, foi sozinha. Meu pai pegou todo mundo e trouxe para Salvador, deixou aqui na casa da minha avó e voltou para falar com a minha mãe. Quando chegou, ele falou a ela que estávamos aqui, ela não pensou duas vezes e veio para cá, foi o fim da picada. O único momento de carinho que me lembro era quando ele chamava, ele dizia na igreja, que eu e minhas irmãs éramos as pedras preciosas dele, que Deus lhe deu. Isso quando algum irmão falava, elogiava a gente, porque por causa do medo éramos umas santas dentro da igreja.

 

Enquanto tudo isso acontecia eu ia à escola. Era um inferno, eu preferia mil vezes estar em tudo quanto é lugar, menos em casa, amava quando tinha aula, ia para a escola, estudava, quando não: “Meu Deus, tenho que voltar para casa”, quando não tinha aula que, pela rigidez eu passava sempre de ano direto, tinha que me esforçar, chegava no fim do ano eu dizia, mentia, que estava tendo recuperação, eu dizia que estava tendo aula para eu ir à escola, para não ter que ficar em casa. Porque eu detestava ficar com ele, porque eu não conversava com a minha mãe, ele queria saber... a rotina era: ele brigava com ela, batia nela, ela fugia comigo, comigo e com minhas irmãs, meu pai até escondia os documentos da minha mãe para ela não ir embora, mas sempre era eu, eu sempre fui mais apegada, sempre, nunca admiti o que ele fazia, então era essa agonia. Quando minha mãe voltava para casa eu preferia a morte, mas ele sempre encontrava a gente, só uma vez minha mãe voltou por decisão própria.  

 

Estar na rua, na verdade, para mim estava bem, porque eu amava muito minha mãe, estar com ela era tudo, porque nem em casa podia ter paz, falar com ela, conversar com ela, não podia que ele ficava em cima querendo saber, que para ele a gente toda vez estava tramando alguma coisa, era um inferno. Toda vez que a minha mãe fugia ela voltava para ele, eu não aguentava mais viver aquilo. 

 

Numa das fugidas da minha mãe, na rua, uma vez um homem apareceu dizendo que ele viu a situação, ele previu que a gente estava num caso de rua, ai falou assim: “Ah, você quer me ajudar a arranjar umas caixas? Eu te dou quarenta reais”, eu inocente, precisando de dinheiro para comer, fui atrás dele sem avisar nada à minha mãe, vai ele levando, me levando para o meio do mato, chegou no mato ele mandou eu tirar a roupa, pronto, comecei a chorar: “Não, minha mãe, minha mãe”, eu com doze anos: “Minha mãe, minha mãe”, ele: “Para de chorar”, dizendo que ele estava com uma arma, mas ele não estava, disse que ia pegar um “negocio”: “Ai, minha mãe, minha mãe”, só que a minha sorte, graças a Deus, eu estava menstruada, quando ele tipo mexeu que viu, ai ele me largou, foi o momento dele me largar que eu saí correndo, saí correndo, correndo, correndo, e voltei, quando eu voltei para minha mãe ela só faltou me matar: “Como é que você sai sem me avisar, se seu pai descobre um negócio desse me mata”

 

Sair de casa foi por minha vontade. Eu queria fazer o que eu queria, ele nunca deixava, eu queria usar calça, eu queria usar uma maquiagem, eu queria soltar o cabelo, não podia cortar, a situação, se minha mãe fizesse alguma coisa que ele não gostasse também... aquilo foi me cansando, foi me cansando, eu disse: “Que nada”. Minha mãe, como eu falei, quando ela fugia, encontrava a casa de alguma pessoa que dava apoio, eu fui para a casa de uma menina que na época minha mãe fugia, eu fui sozinha, essa menina morava com o marido dela e eu fiquei lá, no começo ela fazia, me tratava super bem, eu ajudava dentro de casa. Meu pai foi atrás no Conselho Tutelar, a primeira vez, logo que fugi de casa, fiquei pela rua, uma irmã da igreja me encontrou, me levou para a casa dela, ela me levou no Conselho Tutelar, o Conselho Tutelar me deixou num abrigo durante uma semana, chamou meu pai para conversar, quando eu voltei para a mesma, acho que dois dias depois eu saí de novo, eu vi que não ia mudar, aquilo ali tudo foi nada, saí de casa. 

 

Eu saí de casa, conversaram, eu saí de casa de novo, foi quando eu fui para a casa dessa menina, essa menina era casada, fiquei lá e o Conselho foi lá, meu pai, o Conselho falava que eu... perguntava se eu estava me sentindo bem ali, se eu queria voltar para casa, eu dizia que não, eu não queria, então eles falaram: “Amélia, você fica aqui até esfriar a cabeça e depois você volta”, então nesta, conheci o pai da minha filha, comecei a namorar com ele e a dona da casa não gostou, porque ela queria alguma coisa com ele. Um dia, com ela me controlando, e o marido dela tentou mexer em mim, aí fugi para a casa desse meu namorado, isso com treze anos. A mãe dele ficava questionando, queria saber quem era meu pai, e um dia, depois de discutir com o irmão do meu namorado, esse irmão dele me agrediu, eu saí de lá. Só que eu estava decidida a não voltar para casa, procurei o Ministério Público e falei que eu não queria voltar para casa, que eu não me sentia bem, eles me colocaram num abrigo para menores, onde eu fiquei seis meses.

 

Quando eu estava nesse abrigo descobri que estava grávida, foi uma confusão, um desespero. Não era nem pela gravidez, mas por causa de meu pai me matar. Fui com a assistente social na minha casa e consegui falar a sós com minha mãe, mesmo com vergonha, disse: “Mãe, quero te pedir perdão, aconteceu e eu não vou ficar aqui, porque isso não é justo, vocês me criaram, mas agora é um filho, eu não vou dar essa preocupação a mais a vocês, vou criar meu filho com o pai dele e acabou”, sem saber ainda se o pai ia assumir ou não. Sem conseguir achar o pai da minha filha, ele estava trabalhando, voltei para o abrigo e liguei para ele do celular de uma menina de lá. Falei que estava grávida, no momento ele falou que ia assumir, só que eu entendi que ele ia sumir, eu chamei a dona do abrigo e falei, ela falou: “Não se preocupa, a gente vai lá”. Ele recebeu a intimação para aparecer no Ministério Público, chegou, conversou, perguntou se ele ia assumir a criança, ele falou que ia assumir. Meu pai antes ameaçava ele mas, como eu estava grávida, não tinha mais jeito, ninguém podia dizer nada, aí ficamos juntos.

 

Eu fiquei um tempo no abrigo e teve um momento que minha mãe e minha irmã também fugiram do meu pai e foram para lá. Por causa disso meu pai ficava insistindo para voltarmos para casa, dizendo que queria a família unida. Então um dia voltamos, mas ele ficava me acusando, discutindo. Por causa da gravidez ele não podia me agredir e se eu denunciasse ele para o Ministério Público, o nome dele já estava sujíssimo… Não quis ficar lá, fui procurar o pai da minha filha, falei que se ele não me tirasse de lá eu ia acabar me matando, então fomos morar juntos. No outro dia, depois, alugamos um barraco mesmo, não era nem casa, começamos a morar juntos, começou a comprar as coisas um pouquinho, a televisão. Começamos a morar juntos, começou outra perturbação, porque eu, como eu tinha treze anos, eu não sabia nada de como cuidar de uma casa, viver uma vida, ser dona… minha mãe não me ensinava. 

 

A família dele ficava me enchendo, falando que eu não sabia fazer nada. Depois tive a menina, isso tudo ainda morando com ele, foi, começou o negócio de agressão, ele me bater também, o pai da minha filha me agredia, porque eu sou muito de não aguentar nada de ninguém, pelo pior que seja eu puxei o gênio do meu pai. É você me dizer um ai eu estou te dizendo dez, então é demais, eu estou errada, eu sei ouvir, mas o negócio era que ele ficava ouvindo os outros, conversa da mãe dele. Eu tentei aprender, chamei uma vizinha para me ensinar, aí a mãe dele falava que eu estava botando gente dentro de casa, ele vinha irritado do trabalho, eu respondia e ele me agredia. Nisso minha filha já era nascida. A gente mudou de casa e eu conheci uma menina, uma amiga, que meu namorado não suportava, porque ela tinha fama de sair com um e com outro, mas era a única pessoa que eu tinha para conversar. Eu às vezes chegava e não cuidava direito da minha filha, porque não sabia, trocava a fralda na hora errada, e todo mundo me criticando. Eu ameaçava sair de casa, pegava a menina e ele falava “não vai levar a menina”. Nesse período eu estudava, a minha filha ficava com a mãe dele, mesmo ela dizendo que não tinha obrigação, mas eu sabia que sem estudar não se é ninguém. 

 

Quando minha filha tinha um ano e meio eu saí de casa, fui para um abrigo, mas deixei ela com o pai. Por mais que gostasse dele, a relação estava desgastando por falta de comunicação e tudo isso, minha filha começou a crescer e ver as briga, chorava, fazia um escândalo, porque ele vinha, me agredia, ela começava a chorar, ela é traumatizada, se qualquer pessoa me dá um grito ela já está em cima de mim chorando, pensando que vai acontecer alguma coisa. Abrigo não é lugar para ninguém, mas eu preferia estar num abrigo do que estar em um lugar que eu estava sendo agredida, ameaçada, eu preferia estar no abrigo e eu não ia levar a minha filha para um abrigo sendo que ele é pai, ele tinha uma estrutura, querendo ou não, para criar uma criança.

 

Foi minha amiga Mirela que fez a cabeça da mãe dela e elas me deixavam ir para a casa delas de final de semana, eu pegava minha filha e ia para lá, a mãe dela assinou para ser minha responsável. Nessa época também eu fazia curso, comecei a namorar outra pessoa, ficava a semana toda no abrigo, de manhã era curso, de tarde eu ia para a escola e de noite eu ficava dentro de casa, e fim de semana ia ver minha filha. Fiquei um tempo lá, mas me mandaram embora porque eu estava ocupando a vaga de alguma pessoa que precisava mais que eu. Voltei para a casa do meu pai, mas fiquei uma semana, ele me espancou, eu soltei tudo que tinha guardado em cima dele, e fui para a casa desse meu namorado. Daí eu comecei a procurar ajuda para a minha mãe, fui no Juizado, Ministério Público, conversar com eles, falar o que acontecia, que ia ser melhor minha mãe ir para São Paulo, porque lá tinha a família dela e ela foi embora com uma das minhas irmãs. Eu fui para um abrigo de novo, o terceiro, e o meu pai começou a me perseguir para saber onde estava minha mãe, e eu desesperada toda vez. 

 

Dias depois uma pessoa de outro abrigo por onde eu passei falou que tinha um curso, para eu fazer a seleção para o Projeto ViraVida, fiz a seleção no projeto, teve a entrevista de grupo, a prova e a entrevista pessoal e que a menina que me entrevistou, foi até Mônica, de Pernambuco, perguntando sobre a minha vida e dias depois ela me ligou. Nessa confusão toda, eu no abrigo, esse último abrigo, era um dos piores que eu passei, então fiz de tudo para voltar com o pai da minha filha, porque precisava sair daquele lugar, ficar com a minha filha. Voltamos, fomos morar juntos de novo e eu recebi a ligação falando que eu tinha sido aprovada no projeto. Quando me ligaram, minha lágrima desceu na hora, o pai da minha filha ainda ficou me olhando, acho que não sei, eu estava pressentindo que realmente ia ser algo importante ou não sei, eu sei que na hora as lágrimas desceram, eu: “Meu Deus, muito obrigada”. Depois continuaram as brigas, a violência, saí da casa dele de novo, deixei minha filha com ele e vim morar com uma amiga de infância. Na época eu fazia o curso e estudava, como sempre, conheci essa menina, que tem a história muito igual a minha. 

 

No decorrer, que eu terminei com o pai da minha filha, estava sozinha, conheci o meu atual namorado. Começou a não dar certo de morar com essa amiga, ela não pagava a parte dela do aluguel, eu não podia ter privacidade com ela em casa, então conversei com meu namorado, nós começamos a procurar casa, minha amiga Mirela também sempre do meu lado. Comecei então a morar sozinha. Ai que ruim, morar só é horrível, porque, pelo meu passado, eu fico lembrando certas recordações. Acho injusto o que eu passei, minha mãe nunca tomou atitude e ela voltou para o meu pai, meu pai descobriu que ela estava em São Paulo, ele foi atrás dela, nesse meio tempo que eu estava... foi atrás dela, ela voltou para ele, voltaram para Salvador de novo, eu lavei minhas mãos. Minha mãe faleceu, do coração. Só que a maioria foi acho que desgosto da vida que ela vivia, porque a minha mãe era nova, ela tinha quarenta e nove anos, ela tinha uma doença, ele não respeitava, tinha… 

 

Aí assim, comecei, comecei a minha independência, o curso me encaminhou ao mercado de trabalho, moro só, tenho a minha vida, me sustento, tenho um namorado que me ajuda, dou graças a Deus por isso, e minha filha, que pretendo ano que vem estar com ela, ela vai morar comigo, porque sempre deixei bem claro, o dinheiro é pouco, mas eu compro as coisinhas dela, dou dinheiro para o pai dela comprar as coisas… No projeto eu aprendi muitas coisas, a história de outras pessoas, ver que não só era eu que sofria e todo mundo tem os seus problemas, a comunicação com os psicólogos, vendo que aquilo que eu passei não era o fim do mundo, que eu podia superar, que a minha vida eu tocava para a frente. Eu já saí do projeto, estou só trabalhando, mas era muito divertido, aprendia, trocávamos informações direto e reto, os professores diziam que eles aprendiam também muito com a gente, era uma troca de informações e a gente, eles ensinavam a educação e a gente ensinava história de vida para eles, era muito legal.

 

Sobre o meu pai, no fundo, no fundo eu só queria distância, eu pensava em pegar meus irmãos para criar se tivesse condições e que ele se danasse, mas pelo o que eu sei da religião, Deus, por mais que a gente seja pecador, ele está com os braços abertos para todos nós. Eu não sei o motivo de o meu pai agir assim, nunca tivemos uma conversa a não ser ele agindo da forma dele, brusco. Eu só queria ter um pai e uma mãe, porque eu tinha, mas é como se não tivesse, que meu pai era só aquela grosseria e minha mãe submissa dele, para fazer o que ele queria. Eu fico sentida, por causa de um probleminha, como acontece quando tem aquele negocinho de dominó, você mexe numa pecinha só e acaba com a coisa toda, por causa de um problema, meu pai, saí, que se ele não fosse desse jeito eu não ia querer sair de casa cedo, eu não ia procurar ter filho cedo, né, eu não ia fazer nada disso. Como hoje em dia, eu, como pessoa, pra mim tudo é uma conversa, chego, eu falo direto com meu namorado, que eu sou a primeira namorada dele, séria, então eu sempre chamo ele, a gente tem a nossa discussão, eu falo: “Qualquer problema chega para conversar”, briga, pirraça, essas coisas não levam a lugar nenhum.

 

Meu maior sonho hoje é ter a minha própria casa, minha família, eu quero dar à minha filha o que eu não tive, amor, carinho, respeito, mostrar a ela um mundo diferente do que eu vivi. Também quero me casar, eu e meu namorado falamos disso, não casar ano que vem, mas já morarmos juntos. Porque eu fico pensando assim: Maria Rita é pequena, ela tem muito ciúmes de mim, então comecei a conversar com meu namorado e assim, eles foram se entendendo, agora eles já brincam mais, já ela, ela não obedece a ele ainda, eu falo, ele fala com ela, eu preciso falar pra ela obedecer, então é uma coisa muito difícil, então eu pretendo já ano que vem, quando ela vier, eu já estar com ele, porque se ela vir antes e ele vier depois não vai dar certo.

 

Eu quero estudar, terminar meus estudos, dar tudo à minha filha, tipo essas coisas. Tipo, vocês tão vendo maquiagem, essas coisas. Então, quando eu era pequena, meu pai não me dava nada, por causa da religião também, essas coisas, brinquedo era muito difícil, então eu quero trabalhar para dar tudo à minha filha, certo, também ensinado a ela que também ela tem que estudar, ter o dela, mas eu quero viver assim para a minha filha, ser a mãe que eu quero, que um dia ela olhe para mim e fale: “Minha mãe, eu tenho orgulho de você”. Ter a minha família é o que eu mais quero mesmo, é ter família.


 

“Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações”.

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