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História

Raimunda já fez muito, mas não sossega enquanto não estudar agronomia

História de: Raimunda das Chagas Ribeiro (Saracá)
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Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Saracá conta como superou as situações de violência doméstica e hoje é feliz ao lado de seu companheiro.

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História completa

Meu nome é Raimunda das Chagas Ribeiro, conhecida por Saracá, nasci em Lábrea, Amazonas, no dia 13 de Dezembro de 1944. Quando cheguei aqui no Rio Negro, com três anos, veio o interventor de Iranduba, que tiraram o prefeito. Com dois meses, veio me fazer uma visita e não sabia o meu nome, chegou duas horas da madrugada no meu porto e lembrou o nome da comunidade, que não era comunidade, era um... Aí ele gritava: “Saracá, Saracá”... No Iranduba tem poucas pessoas que conhecem o meu nome. Só me chamam Saracá. É um apelido que acatei, porque tem muita Raimunda aqui e eu gosto muito do meu apelido.


O meu pai era seringueiro, e plantava todo tipo de alimentação. Eu sou filha única, são nove homens, só eu de mulher, e fui criada muito paparicada. Eu, com sete anos de idade, tomei conta da casa, porque na época o meu pai adoeceu e minha mãe precisou trabalhar [também como seringueira]. Trabalhou muito, muito... Eu acho que dinheiro meu pai não via, porque uma coisa que não tenho vergonha de dizer, é que eu vim conhecer dinheiro – parece mentira, mas é verdade – eu vim conhecer dinheiro com 17 anos... A mamãe não deixava lavar roupa do papai porque pesava. Mas eu cuidava da casa, fazia limpeza do terreiro, meu pai era muito rígido. Então eu imagino que não tive juventude, infância... Meus pais separaram, minha mãe deixou nós com nosso pai e foi embora, acho que eu tava com onze anos, fiquei tomando conta da meninada tudinho. Fiquei até com minha irmã de oito meses, e daí eu fui me sentindo cada vez pior... Quando ele foi me pedir pra namorar, ele tinha 21 anos e eu já tava completando os 13. 


Eu gostei dele, mas não com intenção de me casar, ou talvez pensava que casamento era assim como brincar de boneca, eu brinco hoje contigo e amanhã tu tá ali num canto... E lá ele foi pedir, o papai não deu. Ele disse que eu era muito nova e que tinha a filha dele pra casar com um homem, não com um cabra safado. Eu não sei o que ele via nele. Ele disse: “Tá bom, a filha é sua e a vontade é minha, e foi embora. “Pai, por que você não deixa eu casar com ele?” “Você nunca apanhou, mas se você começar com esse homem, você vai apanhar.”... Eu não fiquei com medo, e fui me embora com ele e o irmão dele, nós três fomos por um caminho que era três horas de viagem, pra casa dos pais dele.

Quando passei na entrada do caminho onde meu pai cortava seringa, eu deixei uma escrita pra ele: “Fui embora pai, se o senhor quiser ir atrás de mim, eu tô no canto tal”. E eu só fui com um vestido e o outro por cima. Só levei dois vestidos. Quando chegamos lá, os pais dele: “Venha cá menina, quantos anos você tem?” Eu disse. “Você quer ficar com meu filho?”, eu achei graça, mas disse: “Olhe senhor, se eu não quisesse ficar com seu filho eu não tinha vindo com ele, não”. “Tá bom, então você vai dormir aqui em casa, vamos ver a reação do seu pai”. Mas eu sabia que meu pai ia atrás. Aí a velha disse: “Você vai dormir comigo”, eu digo “Eu vou dormir é com ele, eu vim com ele, eu vou com ele”. E fui. Quando foi cinco horas da manhã, tocou: a polícia, meu pai e meus dois irmãos mais velhos...


Quando chegamos no juiz de menor, que foi o galho! O juiz perguntou se ele tinha sido meu autor. Claro que sim, uma menina de 13 anos ia conhecer outro homem sem ser aquele? “Sim”, “E você pretende casar com ele?”, disse: “Sim, se me entreguei pra ele, porque eu quero ser a esposa dele”. E o papai lá, em pé. “Aí seu Lino, a moça quer casar”, o juiz disse. Meu pai: “Ela só vai casar se ela passar por cima do meu cadáver. Eu mato os dois, mas não quero ver ela casada com esse bandido”. O juiz disse: “E você, você quer casar com ela?”, ele disse: “Não, quero não. Eu roubei ela pra quebrar o tabu do pai dela, porque é muito orgulhoso, mas eu não quero casar com ela”. Aí sim, aí parece que eu morri naquela hora. O juiz disse: “Bom, então agora é o seguinte, você vai pra cadeia” – porque naquele tempo honra de moça valia, hoje não... “Você vai pra cadeia e ela vai ficar na minha casa”. O juiz de menor. “Até que ela complete 18 anos. Quando ela completar 18 anos, se ela quiser lhe tirar do xadrez, ela lhe tira, se não ela lhe condena”. Aí ele virou pra mim, perguntou: “Quando você completar 18 anos você me tira?”, digo: “Não, eu vou te condenar o máximo, porque você me enganou, você é covarde. Eu sou uma criança pra você, você tem 21 anos”. Ele foi preso.


Morar na casa do juiz foi muito ruim pra mim, fui pra casa do delegado, passei três meses na casa do delegado. Quando foi na última audiência, já pra ele ser condenado mesmo, ele perguntou: “Raimundinha, se você completar 18 anos você me tira do xadrez?”, digo: “Não, eu vou lhe condenar ao máximo”. Ele ficou assim, e o juiz disse: “E agora?”. Aí ele disse que casava comigo, mas maldita hora que ele disse aquilo! E meu pai disse que não, não, não casava, eu digo: “Eu caso sim, pai. Ele é o meu dono”. Eu sei que, moral da história, casei. Foram cinco anos de sofrimento muito doído. Parece mentira, apanhava tipo criança. Tive filhos com ele. Eu até digo hoje, graças a Deus que meus filhos foram nascendo e foram morrendo. Pra encurtar a história, eu sou mãe de oito filhos, e não tenho nenhum das minhas entranhas. Tem Ézio, que é o dono dessa casa, e a Iolanda. O Ézio eu criei desde o ventre da mãe dele, ela me deu ele no ventre, com três meses. Eu sou parteira. Levei pra minha casa, cuidei dela, fiz o parto, ela me deu por tinta e papel, passado em cartório. Ele é registrado no meu nome. E a Iolanda, eu já peguei com 11 anos. A mãe me deu também. 

Meu pai faleceu, antes do meu marido morrer. Aí fiquei com um filho de dez anos, esse que morreu com dez anos. Quando [meu marido] morreu, eu disse que ia-me embora, os meus sogros apelaram, tiraram o meu filho. Essa é a parte mais doída pra mim (choro)... “Raimundinha, quer ir pra Manaus comigo? Eu te levo”, eu digo: “Eu vou”. Quando cheguei, fui morar na casa de uma pessoa que conhecia a minha mãe aqui no Rio Negro. Aí eu vim na casa da minha mãe. Ela nem me conheceu mais. Eu conheci ela! ... Eu acho que ele se apaixonou na primeira vez que me viu. Ele é mais novo do que eu 17 anos... Eu digo: “O que? Quero não, vou criar menino não, gente! Estou cansada de lutar com criança, é uma criança pra mim isso aí”. Mas ele queria e queria, a gente se acertou, estou com 34 anos com ele. Criamos o Ézio, ele estava com três anos. Ele nunca encostou um dedo no Ézio e a gente se dá muito bem. Nós somos felizes até hoje! É meu marido, meu parceiro, meu amigão, meu pai, minha mãe, aquele filho que eu gostaria de ter tido e não tive, ele é esse filho. Na hora de marido é marido, na hora de pai ele é pai e na hora 
de filho ele é filho, e o certo é que a gente nunca brigou. Mas eu acho que ele não briga, porque quando eu me casei, eu já era a Raimunda que eu sou hoje, a dona da minha venta.


Eu trabalhava lá na fazenda do coronel Galvoso, era chefe de uma turma de 60 mulheres. Eu era líder das mulheres, ganhava o dinheiro como folha de pau. Mas, não deram emprego pro meu marido, ele ficou em casa. Ele era a mulher naquela hora. Eu às vezes digo pra ele: “Tu nunca me deixou, porque eu sempre fui a dona da casa”... Mas a gente é feliz... Arranjei trabalho pra ele “Mas é o seguinte Idelfonso, vamos trabalhar nós dois, mas quando chegar você vai fazer comida, eu vou lavar a roupa, você varre a casa, eu lavo a louça, nós vamos dividir”. E até hoje nós divide isso, não tem negócio de “Ah, eu vou passear”, nada, vai fazer comida, eu vou fazer as coisas...


Fui fundadora dessa comunidade. Parece mentira, se você chegasse aqui, isso aqui tudo era um matagal que só deus mesmo pra tirirical... Terminei o Ensino Médio, estudei a longa distância. Eu dava aula até sexta-feira, sexta-feira de tarde eu tinha que ir, estudava sexta à noite, sábado o dia, à noite, domingo até meio. Estudava e fazia prova. Assim eu tirei em três anos e três meses, mas sofri muito... Tive que passar três meses em Manaus, lá no Padre Anchieta, na época era um colégio, passei três meses lá estudando direto, nem saía de lá pra canto nenhum. E ele aqui com meu filho... Me formei, aí sim. Recebi um diploma, 
um anel. Meu anel quem me deu foi meu marido. Minha mãe ralha porque eu não uso. “Mamãe, eu vou usar um anel desse aqui? Chama atenção, ele é muito grande, a pedra dele é muito grande.”... Eu fui monitora dois anos dos alunos no Tumbira, onde tem até uma casa com o meu nome, a Casa do Professor, Virgílio deu o meu nome. Eu tenho muita honra por isso. 

Então a minha vida até me formar professora foi muito sofrida... Eu tinha 64 alunos só da parte da manhã. À tarde eu tinha 25, e sete horas da noite eu tinha mais 15. Segredo deles gostarem é esse meu modo. Eu fazia brincadeiras com eles, a gente estudava, mas 
brincava também... Eu ensinei tudo! A gente ia pra fora marchar... Nossa fanfarra era um tambor desses de 20 litros, com couro de veado raspado, amarrado na boca, reunimos a tal tabaca e compramos um tarol. Então era essa a nossa fanfarra, mas era muito animado, muito animado mesmo. Eles gostavam muito de mim. 


[Sou aposentada] por tempo de serviço... Ainda tenho esperança de fazer uma faculdade, 
Agronomia. Esse é um sonho que ainda não realizei, mas de ser professora, de ter o 
restaurante já, só não fui a dona. 

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