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História

Refrescado e feliz: não estou sozinho

História de: Márcio Gonçalves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Márcio conta sobre sua experiência e memórias com o Dermacamp, acampamento focado em crianças com problemas de pele ou com alguma lesão física, e a família de amigos e amigas que construiu.

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História completa

Eu já nasci com dermatite atópica. Então, vivo com ela desde sempre: começando as primeiras brincadeiras na primeira série. Sabia que eu era diferente porque eu tinha problema de pele e era visível, era bem marcante.

 

Foi um trabalho pra minha mãe também, que me ajudou e sempre me disse: “Você é diferente, mas ser diferente é normal. Não precisa se preocupar com o que os outros vão falar, não precisa se preocupar com a diferença”.

 

Eu tento enxergar o lado positivo da situação. Não é fácil viver com dermatite atópica, porque é um negócio que você tem que ter um autocontrole, você tem que saber, você tem que ter uma cautela sobre o que você pode ou não fazer, mas, por outro lado, te abre algumas portas também. Eu sei que para mim a dermatite é uma consequência de emoções: se eu estou muito triste, se eu deixar a tristeza dominar, eu sei que em um ou dois dias a dermatite vai aparecer na minha pele.

 

Por conta da dermatite, eu tive a oportunidade de conhecer um projeto e, por isso, de conhecer pessoas que me ajudaram bastante. O projeto é o Dermacamp. O foco do projeto é acolher crianças que têm problema de pele, que tem alguma deficiência, que têm alguma lesão física que abala o psicológico delas - como, por exemplo, não conseguir socializar.

 

A gente acolhe as crianças pra dizer: "Calma, você consegue viver com isso. Tem solução, é só um outro jeito de ver a vida".

 

Quando eu vi outras crianças com problema de pele foi um pouco reconfortante para mim. Foi confortável saber que eu não era o único – até então eu não tinha tido nenhum outro contato com alguém que também tivesse os mesmos problemas que eu. E me abraçaram de uma forma que foi gostoso! Porque antes disso eu tive caso de pessoas se afastarem, de crianças se afastarem, por causa do problema na pele. Ela não sabe o porquê, ela só não quer ter aquilo que você tem. Ela sabe que é diferente e que, teoricamente, não é legal, então ela tenta manter uma certa distância. Por outro lado, o pessoal do acampamento literalmente te abraça.

 

No acampamento, as pessoas estão vendo o problema na sua pele, estão vendo que você está cheio de feridas, cheio de lesões e, sem pensar, elas literalmente te abraçam.

 

Isso já é uma diferença enorme, porque, queira ou não, para uma pessoa comum, se você chega com uma deficiência de pele, ela vai ficar um pouco receosa, ela não sabe o que é aquilo, ela não sabe se aquilo vai passar para ela, então, antes de abraçar, ela vai querer saber o que você tem. Diferente do projeto Dermacamp: antes de saber o meu nome, a pessoa já chega abraçando. Depois que abraça que ela pergunta quem é você. A sensação de carinho é muito legal, é muito importante. Isso foi muito legal para mim: saber que eu não estava sozinho, que eu tinha companhia nessa brincadeira de vida e que não é tão difícil assim, que tem um lado legal e isso pode trazer coisas boas. Acho que foi isso: é de aproveitar, não sei, acho que é. Aproveitar um pouco o momento de poder se sentir abraçado mesmo.


Tem um caso que eu sempre falo: uma criança chegou sem saber o que era abraço sem ser da sua família. Essa criança não conhecia o abraço sem ser do pai, da mãe, dos familiares. E acho que esse momento me marcou tanto, que é um negócio que eu gosto de falar, porque, por falta de conhecimento alheio, a criança deixa de ter carinho, deixa de ter afeto. Quando nós fomos abraçar, ela meio que deu um passo para trás, do tipo: "Você tem certeza que quer me abraçar? Tem certeza que é isso que você quer fazer?" Hoje eu sou diretor de atividades do Dermacamp. Eu meio que me sinto em dívida com o projeto.


É literalmente uma dívida, porque eu não me sinto satisfeito com tudo que eu estou fazendo. Eu sempre quero fazer mais, quero ajudar, quero estar presente.

 

 Eu já fui monitor mirim, subi para companheiro, subi para monitor e agora estou como um dos pilares, entre aspas, do projeto. Na minha época de acampante eu fui tão abraçado, tão acolhido, eu recebi tanto carinho do pessoal que estava lá, que eu tento passar o máximo disso hoje para quem está entrando.


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