Busca avançada



Criar

História

Reguei com suor e nasceram flores

História de: Cláudia Lage Botelho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/11/2003

Sinopse

Da pequena cidade de Vila Real, em Portugal, viajou durante dias, de navio, para chegar ao caótico Rio de Janeiro. Lembra-se de provar Guaraná e encantar-se, bem como do susto que levou com a “grandiosidade da coisa”. Guarda, também, nas memórias, o pé de mimosa que costumava admirar em sua infância na cidade natal. Após arriscar, doar-se ao ramo das flores e fazer maratonas em feira-livres, hoje possui o próprio comércio, que tornou-se o negócio da família. Do pé de mimosa às diversas flores de sua loja, Cláudia cultiva e cativa os transeuntes do centro da cidade.

Tags

História completa

P/1 – Qual é o seu nome?

R – Cláudia. Todo?

P/1 – (riso) É, completo.

R – Ah, Cláudia Lage Botelho.

P/1 – E o local e data de nascimento da senhora?

R – 12 de setembro de 1949. Nasci em Portugal, em Vila Real.

P/1 – E qual o nome de seus pais?

R – Albertino Martins Botelho e Maria Helena Lage.

P/1 – E dos avós, a senhora sabe?

R – Eu acho que sim. (risos) Avós paternos ou maternos?

P/2 – Todos. (risos)

R – Bom, meu avô materno é Agostinho da Cunha Lage, e minha avó materna Augusta da Cunha Lage. Meu avô paterno, Francisco Martins Botelho, e minha avó materna não sei, Maria de alguma coisa... (riso) Que eu não sei.

P/1 – (risos)

R – Porque eu não a conheci, gente. Aliás, eu só conheci o meu avô por parte de pai.

P/2 – Todos os seus avós eram de Portugal?

R – Todos.

P/2 – E de Vila Real?

R – Vila Real.

P/1 – E qual era a atividade profissional deles?

R – Agricultores. Meus avós, todos eles eram agricultores.

P/1 – E dos seus pais?

R – Meu pai, em Portugal, agricultor. Aqui ele era... Exerceu várias coisas. Foi motorista de táxi, depois ele passou a ser comerciante. Minha mãe sempre foi dona de casa.

P/1 – Seu pai era comerciante de que ramo?

R – Comida, tinha lanchonete e restaurante.

P/1 – E a senhora tem irmãos?

R – Tenho uma irmã e um irmão.

P/1 – E como era a sua infância com a sua família, em Portugal? A senhora poderia falar um pouquinho?

R – Posso. Meu pai veio para o Brasil eu tinha quatro anos. Fiquei eu, minha mãe e minha irmã, minha irmã mais velha. No final de quatro anos meu pai voltou à Portugal e trouxe a família toda. Ou seja, minha mãe, eu e a minha irmã, e até procurando coisas melhores. Porque foi uma época de Salazar, que Salazar viva colocando as pessoas no cabresto, cobrando impostos. Aquela época doida, né, que existia. Em Portugal, acho que Espanha, por ali. E então meu pai acho que veio procurar uma vida melhor, trouxe todo mundo para cá. Foi difícil, né, como acho que todas as vidas de migrante, mas conseguimos superar. Quer dizer, de Portugal eu lembro assim, dos meus quatro até oito anos, que eu era super paparicada. Tinha empregada, que nós éramos filhos assim, de pessoas, que tinham... Agricultores, já eram considerados agricultores um pouquinho abastados, então tinha tudo. Vir para cá mudou completamente a vida da gente.

P/2 – E lá, em Vila Real, fica perto do quê? Só para a gente se localizar, assim, geograficamente.

R – Vila Real fica a 70 quilômetros de Espanha. Quer dizer, a parte norte da Espanha, ou seja, Galícia. Perto da Galícia.

P/2 – E é, então, perto... Ficava próximo de Lisboa?

R – Não, Lisboa dá... De Vila Real à Lisboa é a mesma distância como Rio-São Paulo, uns 400 quilômetros, mais ou menos isso.

P/1 – E assim, e as suas memórias de infância em Portugal? De brincadeiras...

R – Ah, muito boas.

P/1 – A senhora lembra de alguma, específica, que possa contar para a gente?

R – Lembro. Brincar na neve, fazer bonecos de neve na neve. Era muito engraçado, porque eu sofria de bronquite, quase morria. Não tinha essa coisa de balão de oxigênio, essas coisas assim. Então era paparicada por causa disso. Porque eu era a filha mais nova da minha mãe, né? Só tinha a minha irmã porque minha mãe foi mãe com 14 anos de idade.

P/2 – Nossa.

R – Então ela me paparicava porque eu era doente, eles me consideravam essa pessoa doente porque eu tinha bronquite. Eu ia para a escola, estudava o dia inteiro e vinha almoçar em casa. Aí, em vez de almoçar, eu ficava brincando com bonecos, bonecos de neve. Quer dizer, eu andava toda cheia de roupa, não sei o quê. Eu chegava, tirava sapato, meia e tal. Aí era crise de bronquite, você imagina. Mas eu me lembro, eu não apanhava. Quem apanhava sempre era a minha irmã, porque ela tinha que tomar conta de mim.

P/2 – Você era poupada.

R – Eu era poupada. Então, como ela não tomava conta de mim, ela sempre apanhava e ficava de castigo. Era muito engraçado. Essa é uma coisa que eu digo até para as minhas filhas, que eu tive infância. Quer dizer, foi uma infância muito curta, muito corrida, porque infância a gente entende que é até 12, 13 anos de idade. Mas eu não, eu, de repente... Eu tive até oito anos de idade. Só. O tempo, o período realmente que eu fiquei em Portugal. Depois, aqui no Brasil, já foi mais estudar, sempre trabalhando, sempre ajudando. Porque era muito difícil, uma época muito difícil.

P/2 – Eles eram agricultores de quê? O que é que eles plantavam?

R – Meus pais plantavam milho, uva, e tinha até azeite. Até azeite eles fabricavam, também.

P/2 – E vocês brincavam por lá também, na plantação?

R – Eu brincava em uma, eu me lembro de um lugar muito distante que a minha mãe tinha, como se fosse uma fazenda, passava um rio de água doce e tal. E tinha cortiça. Era um lugar muito distante, e eu lembro que eu ia como se você andasse a pé, vamos dizer assim, daqui à, talvez, à Barra, ou mais. Então eu ia junto com a minha mãe e ela trazia as coisas, era um lugar muito bonito. Ela trazia as coisas tipo assim, milho, sabe? Ela trazia as coisas junto com os empregados que ela tinha, e eu, para não... Eu não queria vir sem nada, então pegava uma pedra – uma pedra, literalmente falando – e trazia essa pedra na cabeça. Eu olho assim: imagina? Uma coisa de... (riso)

P/1 – (Riso)

R – E esse lugar é um dos lugares assim que eu realmente não... Eu não consigo, que tinha até um pé de mimosa, e eu fiquei fixada naquele pé de mimosa. Imagina uma árvore enorme, toda amarela. Quando eu voltei novamente à Portugal – eu voltei, depois que eu vim para cá, voltei em 89 –, fui com a minha filha mais nova, que tem dois anos. E eu, simplesmente, na minha cabeça, estava assim, sabe?

P/1 – Tinha essa imagem.

R – Aquele lance daquela coisa assim, né? E eu falei: “Gente, eu vou embora direto.” Cheguei em Lisboa eram quatro horas da tarde, porque eu cheguei no verão. O horário lá... Aí resolvi ir para o lugar que eu tinha nascido, que eu tinha vindo assim, sem me lembrar com detalhes. Mas o único detalhe que estava na minha cabeça era esse lugar lindo, deslumbrante, com um pé de mimosa maravilhoso. E eu acabei checando, imagina, eu viajei 400 quilômetros, 400 e poucos quilômetros, né?

P/2 – Nossa.

R – Tanto é que o motorista que eu contratei ele nem aguentou. Chegamos no meio do caminho, ele passou a bola para outro motorista. Mas eu consegui chegar no local, porque estava gravado na minha memória essa coisa aí, esse lugar lindo. E eu fui justamente cair nesse lugar, que é uma distância enorme. Uma coisa de criança mesmo, né?

P/2 – Ficou registrado na sua memória.

R – Muito, muito. Bastante.

P/1 – E como foi a viagem da senhora para o Brasil?

R – Quando eu vim para cá criança?

P/1 – É.

R – Foi de navio, foi muito...

P/2 – Quantos anos você tinha?

R – Oito.

P/2 – Oito.

R – Eu vim em um navio francês chamado Claude Bernard. Naquela época vinha todo mundo de navio, que é maravilhoso. E a gente veio assim, na terceira classe, porque os navios eram divididos: primeira, segunda, terceira classe. A gente veio... Classe super humilde, onde as mulheres eram divididas dos homens. Os homens dormiam em uma parte e as mulheres dormiam em outra, mesmo sendo casados e tal. Eu dormia em uma, vinha em uma cabine... Não, vinha eu, minha mãe, minha irmã e mais, sei lá, umas 30 ou 40 mulheres. E os homens ficavam em outra parte. Então era muito engraçado, porque todo mundo, a tripulação toda falava francês. Vinha só pessoas mesmo... Pessoas humildes nesse navio. E todo mundo enjoava. Porque é uma coisa muito engraçada que eu digo sempre: Portugal é um barato. Você entra em qualquer ônibus – que a gente chama aqui de ônibus – as pessoas começam logo a passar mal. “Cara”, uma coisa assim tipo, maluca. Eu fico impressionada. Mas é um negócio doido. Os ônibus, inclusive, têm aquelas bolsinhas, como existe no avião, caso você se sinta mal. Eu não sei o que ocorre.

P/2 – Por que será?

R – Eu não sei, eu não sei te dizer. Gente, é uma coisa de doido, realmente. Então eu sei que era assim, um tal de todo mundo passar mal dentro do navio, uma coisa maluca. E eu não tive absolutamente nada. Então imagine, eu, uma guria de oito anos – que eu acho que eu sempre fui assim meio, meio maluquinha, sabe, meio assim –, eu não estava assim, sempre estive um pouco fora dos padrões normais, convencionais. Tanto é que isso é outra história. Até uma... Depois de certa época na minha vida, a gente não tinha mais nada a ver com a minha família, até por causa da minha cabeça. Bom, mas aí eu não enjoava. Eu não consegui enjoar, realmente, dentro do navio. Eles serviam muito carne de carneiro. Então imagina: povo português comendo carne de carneiro? De forma nenhuma. Então era uma coisa assim, doida. Porque o povo português queria comer o quê? Queria bacalhau, queria sardinha, porque o português gosta muito desse tipo de coisa. E aí a tripulação fazia festa para as pessoas, para ver se elas passavam menos mal... Todo mundo, pô, era um caos. Eu em momento algum passei mal, nem na hora que a gente atravessou a linha do Equador, que é chamado assim, um ponto crítico quando eles fazem quase 24 horas, a tripulação faz. E põe peças de teatro, põe cinema, põe não sei o quê, e música. E fazem bailes, que é para ver se as pessoas realmente esquecem que tem que passar mal. Eu, em momento algum, passei mal. E me lembro que durante um dia eu sumi o dia inteiro da minha mãe. (riso) Tipo assim, para castigá-la. Eu acho que ela me chamou a atenção de alguma coisa, e eu falei: “Bom, agora eu vou fazer ela me procurar o navio inteirinho.” Aí eu fui. Acabei dormindo na proa do navio, quase... De repente eu podia ter caído no mar, alto-mar. Mas assim mesmo não apanhei também. Ela também me poupou dessa vez (riso). Mas foi muito legal essa minha viagem.

P/2 – Quantos dias de viagem?

R – Ah, eu acho que foram uns 12 dias, não? Uns 12 dias, por aí. Dez, 12 dias. Não era menos do que isso não.

P/1 – E como foi a chegada aqui no Rio? Qual a impressão que a senhora teve?

R – Olha, a chegada a gente pegou uma tempestade até bastante grande. E depois disso a gente chegou aqui de manhã. Estava uma tia minha me esperando, – irmã do meu pai, que era minha tia e minha madrinha, mas eu não conhecia –, com o marido e um primo mais ou menos da minha idade. Ele deveria ter a minha idade. Eu achei assim... Nunca tinha visto um negro, por exemplo. Me assustei a primeira vez que eu vi. Porque eu vi assim, a gente saindo no porto, aí eu vi. Eram estivadores, mas vários estivadores assim, negros. Eu nunca tinha visto uma pessoa negra, aí comecei a chorar. Agarrei assim a saia da minha mãe e comecei a chorar. Essa minha tia: “Não, calma, calma. Isso é normal e tal.” Porque realmente, nunca tinha visto um negro. Quando eu cheguei em casa, na casa dela, tinha um tio meu – também irmão do meu pai –, e ele veio me oferecer Guaraná, que eu também não sabia o que era. Porque lá não... Nunca tinha visto. Nem Guaraná, Coca-cola, não existia ainda naquela época. Aqui não, Coca-cola, tinha Guaraná, tinha negócio de uva, sei lá. Mas eu acho que eu me lembro, realmente, seria um refrigerante chamado Guaraná. Eu sei que ele me deu esse Guaraná e eu achei delicioso, passei a gostar. Mas é isso, a primeira impressão que eu tive foi isso. De ver um monte de estivadores...

P/2 – Ficou assustada?

R – Fiquei assustada. Até pela grandiosidade da coisa. Coisa muito grande, eu venho de um lugar pequeno. Eu tinha visto o mar pela primeira vez quando eu embarquei. Não tinha, não conhecia o mar, conhecia só rio. Sou do Norte, o mar fica para cá.

P/1 – E onde a senhora foi morar, em que bairro, quando chegou no Rio?

R – Eu fui morar ali no Engenho de Dentro.

P/1 – Morar aqui perto da tua tia?

R – Na casa da minha tia, uma casa de dois quartos. Moravam quantas pessoas? Olha gente, moravam três casais, pobreza. Moravam três casais: minha tia com marido e dois filhos. Morava meu tio com a mulher e meu primo. E depois meu pai, minha mãe, com minha irmã e eu.

P/2 – E seus tios tinham o que aqui? Trabalhavam onde?

R – Meu tio, esse meu tio já tinha táxi. Tinha frota de táxi, e esse marido dessa minha tia trabalhava na feira.

P/2 – Trabalhava em feira?

R – Em feira, feira livre. E as mulheres não trabalhavam, eram donas de casa.

P/2 – E aqui no Rio de Janeiro, o que é que você brincava, que lugares que você ia? Parque?

R – Olha, parque, brincar, eu acho que não. Não tive essa chance de brincar. Por quê? Porque, para eu estudar aqui... Quando eu saí de Portugal, eu vim com uma terceira classe, que eles chamam lá, que é terceira classe. Porque você entra na primeira com sete anos de idade. Mas eu, tipo assim, em um ano eu tinha conseguido fazer dois, porque você passa lá por provas. É completamente diferente daqui. Então eu, para estudar aqui, o meu pai não tinha condição de pagar escola e tal. E eu fui estudar, comecei a estudar naquela República do Peru, ali na Rua Arquias Cordeiro, aonde eu comia na escola, eles me davam os livros, me davam a roupa, me davam tudo. E eu ia a pé, ia e voltava a pé, porque meu pai, coitado, não tinha nem um niquelzinho para me dar para o ônibus. Então eu não tive chances de brincar, isso que eu falei: lá, eu era super mimada e tal. A gente veio a minha vida mudou completamente, entendeu? Mas eu, em momento algum, acho que fiquei frustrada ou tive qualquer trauma. Não, muito pelo contrário, entendeu? Acho assim que, “putz”, foi a melhor escola que eu tive, foi muito legal. Porque eu fui, comecei a estudar, comecei a trabalhar. Sempre assim, voltada para o trabalho, realmente. Eu peguei uma época que existia o trabalho de menor, que você trabalhava até às quatro horas da tarde, depois você saía para estudar. Eu sempre fiquei assim. Então brincar, brincar, realmente, não. O máximo que eu... Não, a minha brincadeira, qual era? Era dia de sábado, de repente... Porque a gente depois foi morar em uma avenida, e tinha criança da minha idade, _______ idade, então seria isso. De sábado você ficar conversando um pouquinho com amiguinha. Mas brincar mesmo, não.

P/1 – E na adolescência, como a senhora se divertia com suas amigas?

P/2 – Bailes, como é que era? (riso)

R – É, deixa eu te falar. Como eu sempre... Eu comecei a trabalhar muito cedo. Eu, de repente, com 14 anos, 15 anos, eu já estava trabalhando. Trabalhava e estudava. Então eu tinha... Quais eram os meus amigos? Gente do trabalho mesmo.

P/2 – Do trabalho.

R – Só. Então final de semana seria cinema. Eu sou de uma época onde a gente tinha que namorar, mas tinha que namorar no portão de casa. Porque é um tabu danado, imagina. E é, mas assim não, de, cinema, era complicado. Quando, se você namorasse, se você fosse ao cinema, você tinha que ir com pai, com mãe. Aquelas coisas assim, malucas. Mas eu nunca fui muito assim não, sempre joguei muita coisa para o alto. Nunca obedeci os padrões, entendeu? Mas eu não tinha, eu não tinha amizade, amizade, não. Só as pessoas mesmo do trabalho.

P/2 – E é pessoal mais velho?

R – Sempre pessoas mais velhas, sempre.

P/2 – Você acha que você amadureceu mais rápido?

R – É, eu acho que sim, acho que sim.

P/1 – Isso era o que, década de 60?

R – Isso.

P/1 – E como a senhora se vestia? Como era a moda na década de 60?

R – Ah, eu sou da época da minissaia, gente. (estala o dedo) Doideira. Eu já aprontei com essa minissaia (riso). Eu saía de casa... Eu sou da época assim que você pintava o olho, era delineador, aquele plástico. Então meu pai não permitia que você... A gente não podia, não podia pintar nem nada. E minha irmã sempre acatou muito o que ele falava. Eu não. Então eu saía de cara limpa de casa, de minissaia, porque eu sempre peitei. Eu usava minissaia de 30 centímetros. Putz.

P/1 e P/2 – (riso)

R – Era coisa de doido. Eu tenho fotos lá, depois até eu trago. Gente, eu lembro que eu tinha gente para esperar eu subir no ônibus onde eu pegava o ônibus. E quando eu saltava na Presidente Vargas, tinha um monte de gente, sabe? Isso quando eu ia e quando eu voltava. Em São Paulo, uma vez, eu estava na Avenida Paulista, porque depois eu fui trabalhar... Esse meu último emprego, a matriz era em São Paulo. Aí o rapaz... Eu fui para comprar uma meia-calça, o senhor da loja teve que fechar a porta, porque era uma época daquela, imagina uma... Ainda conseguia, né, as pessoas pararem para te ver de minissaia. Legal, né?

P/1 e P/2 – (risos)

R – Aí o cara fechou a porta, arriou as portas, porque de gente para burro. E essa empresa, inclusive essa última que eu trabalhei, eles me usavam. Quer dizer, usavam a minha imagem para eles conseguirem as coisas, para vender. Porque eles vendiam muito, e sempre faziam com contrato. Então foi uma época que eles... A estufa pegou fogo em São Paulo, eles tinham assim, já coisas marcadas, com contratos e tal, e eles me usavam. “Ah, Cláudia, vai lá. Você fala lá com o pessoal e tal para dar mais um prazo.” Porque eles tinham que pagar multa. E eu achava isso legal. Quer dizer, nunca... Não era voltada para esse lado capitalista, sabe? Eu acho que todo dia eu estava aprendendo uma coisa, então essa história de minissaia era muito engraçada, porque eu sempre peitei meu pai nessa história de “de minissaia, não.” “Não adianta não você falar, porque eu vou usar minissaia. E acabou assim, não tem essa.” Agora, de pintura eu saía de cara lavada, chegava no meio da rua, pegava o delineador e pintava. Quando voltava para casa, tirava novamente. Mas era muito engraçado. Eu dava uns dribles no meu pai, porque não se podia namorar. Então, se eu namorasse, tinha que levar o namorado em casa e tal. Pô, não tem nada a ver essa história. Um dia eu estava no escritório e vi meu pai parado lá em baixo com um amigo dele, e eu tinha marcado com o namoradinho que eu tinha, e ele tinha carro. Imagina. Você entrar no carro do teu namorado era o fim. Aí eu falei: “Pô, mas eu não vou?” – eu pensei – “Vou dar um drible no meu pai.” E passei por ele como se eu não tivesse visto. Aí eu estou andando, atravessei a Presidente Vargas e Rio Branco, não sei o quê. Estou vendo assim, pelo rabo de olho, meu pai atrás de mim. Fui, atravessei para o outro lado e entrei no carro do meu namorado. Meu pai ficou lá me procurando, aí eu cheguei em casa bem depois dele, ele já pronto para me fazer alguma coisa. “Que horas você saiu do escritório?” Aí eu disse a hora certinha. “Qual foi o caminho que você tomou?” O caminho certinho que eu tinha tomado – porque ele estava atrás de mim – “Pô, mas por que é que você chegou uma hora dessas?” “Ah, sei lá pai. Porque eu fui para a Praça Mauá esperar o ônibus, eu quis vir sentada e tal.” “Mentira sua, porque eu também estive lá e não te vi.” Eu falei: “Ah, eu entrei então, devo ter entrado em alguma lanchonete para tomar um suco.” Consegui despistar. Muito tempo depois – isso já se passaram anos – a gente conversando eu falei: “É, sabe pai, aquele dia...” – porque ele se acha muito esperto, meu pai – “Sabe aquele dia que você disse que tinha me visto? Pois é, eu entrei bem no carro do meu namorado.” Ele: “Ah, se eu soubesse você tinha apanhado uma coça.” Mas era muito engraçado, porque ele achava que você tinha que ser submissa, como ele sempre fez com a minha mãe, com a minha irmã e tal. Mas aí minissaia não tinha nem por quê. Eu, grávida da minha filha mais velha, usava minissaia. Muito engraçado, né, um barato.

P/2 – (riso) Então a senhora fala um pouquinho do seu primeiro emprego?

R – O meu primeiro emprego... Meu primeiro emprego foi na Praça Mauá, ali na... A gente fala Praça Mauá, de repente, né? Na Rua _________, e eu tinha feito um curso de datilografia e taquigrafia. Como eu fiz muito rápido, a própria escola me arrumou um emprego, aí eu fui para ser secretária lá do senhor dono da empresa. que era uma... Eles importavam aparelhos para laboratório. No final, acho que por eu ser assim, bem extrovertida, fazer amizade com facilidade, eles acabaram me colocando para fazer CACEX [Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil] para uma...

P/2 – Quantos anos você tinha?

R – Eu tinha 15 anos. Eu passei a fazer as importações, todas, da empresa. E fiz amizades boas no Banco do Brasil. Era uma época que não entrava mulher no Banco do Brasil, só quem era importador era homem. Eu usei até depois esse mesmo conhecimento de exportação e importação, eu usei nesse meu último emprego também.

P/2 – E nessa época você ainda morava lá, você morava aonde?

R – Morava em Engenho de Dentro.

P/2 – Ainda. Sempre morou lá...

R – Morava lá com a minha mãe e com o meu pai. Não, morava no Méier.

P/2 – Ah, tá. Já tinha se mudado para o Méier.

R – Já tinha mudado para a Rua Seis de Maio.

P/1 – Mas é próximo, né? Engenho de Dentro?

R – Próximo, é próximo.

P/1 – E como era o comércio nesses bairros, a senhora se lembra?

R – Lembro.

P/1 – Pode contar um pouquinho para a gente?

R – Posso. Eu me lembro do primeiro armazém, o primeiro armazém que a gente fazia compras. Era de um senhor português. Não existia supermercado quando eu cheguei aqui. Eu me lembro que não existia supermercado, poucas pessoas tinham televisão, e poucas pessoas tinham geladeira. O comércio era assim, de bairro. Eram armazéns, quitandas, açougues. Esses armazéns tinham assim, as coisas de primeira necessidade: arroz, feijão, carne-seca, essas coisas assim. E a quitanda era frutas, verduras, legumes, e tinha algum... Não, era só isso. Eles não misturavam como agora eles fazem. E o açougue. Mas não existia supermercado.

P/1 – Mas tinha alguma loja, principalmente no Méier, nessa região, que chamava atenção? Que a senhora gostava? Até de roupa, de algum outro tipo de...

R – Não, uma coisa que me chamava a atenção no Méier – porque eu ia todo dia a pé, ia e voltava – Era o Rei da Voz, que era do Rubens Medina. Então ficou assim, primeiro porque era uma loja grande de aparelhos e tal. E eu escutei pela primeira vez o Roberto Carlos cantando...

P/1 – (risos)

R – (riso) Eu achei aquela voz... “Que legal, né?” Aí voltei. Então fiquei, voltei para saber quem estava... Era compactozinho. Eu lembro que era uma vitrola cara, compridona. Você, para botar o disco, era lá em baixo, sabe? As coisas meio doidas. Aí eu perguntei lá para o vendedor: “Pôxa, quem está cantando?” “Roberto Carlos.” Aí pronto, fiquei fã do Roberto Carlos. Fiquei, agora não sou mais. (riso) Mas o Rei da Voz era...

P/2 – (riso) Era aonde aqui? Qual a rua ela ficava? 

R – Era na Dias da Cruz. Inclusive, esse Rubens Medina dormia na casa da... Em uma das casas da avenida que eu morava. Eu conheci Medina pobre. Legal, né?

P/2 – E loja de roupa, assim?

R – Olha, loja de roupa eu posso...

P/2 – Aonde você comprava?

P/1 – Onde a senhora comprava as suas minissaias? (risos)

P/2 – (risos).

R – Ah, tá. Loja de roupa, depois que eu já estava grande, eu comprava muito em Copacabana, na São João Batista. E tinha uma pessoa que fazia também as roupas mais exóticas, porque eu sempre gostei de oncinha, sabe, bem perua? Oncinha, não sei o que, vermelhão, essas coisas assim. Até hoje. Então tinha uma pessoa que fazia para mim. Mas algumas coisas eu comprava em Copacabana, São João Batista. Comprei muito na São João Batista, Copacabana. E criança não, criança não tinha quase roupa.

P/1 – E voltando então ao primeiro emprego. A senhora falou que trabalhou nessa empresa lá na Praça Mauá e tudo.

R – Hum, hum.

P/1 – Então pode falar mais um pouquinho da sua trajetória profissional, até a senhora começar a trabalhar nesse ramo de flores?

R – Posso. Fui para esse meu primeiro emprego, acho que fiquei dois anos. Depois eu fui para outro, que era de cosméticos, era desse Roberto Molica, que era, na época, dono de toda Volta Redonda. Fiquei pouco tempo, porque ele era uma pessoa problemática. Eu fui para ser secretária, aí, uma época assim, sabe? Existia a cantada do chefe. Sabe como é que é? Então ele achava que eu... Que ele tinha que me namorar, alguma coisa assim. Então não dava. Eu saí. Acho que fiquei seis meses, oito meses, não sei. Depois eu saí para essa Indusa. Essa indústria metalúrgica, que era multinacional. Fiquei dois anos, porque eu vim ser secretária aqui da filial do Rio, que a matriz mesmo era na Itália. Depois tinha aqui em São Paulo, e aqui a gente tinha a matriz no Rio. Existe essa firma até hoje. Fiquei lá dois anos, depois eu casei. Tive a minha primeira filha, resolvi ficar um pouco com ela. Quer dizer, mas ainda estava como se eu fosse voltar para a empresa. Resolvi não voltar mais, porque eu achei que não... Sei lá, não estava mais fazendo a minha cabeça, né? E foi uma época em que eu resolvi me divorciar, que também foi outra assim... “Tsc”, outra “forçassão” de barra, para a época. Fiquei... Minha e meu pai ficaram sem falar comigo, quase me deserdaram. Acho até que me deserdaram um pouco, mas tudo bem. Então eu achei que eu tinha que partir para uma coisa minha, sabe, que eu pudesse dispor de tempo para ficar com as crianças. Não ficar em uma empresa que, de repente, eu não iria ganhar, né? Porque eu não quis pensão, não quis nada. De repente não ia ficar, né? Então eu resolvi partir para essa. Aí comecei a trabalhar vendendo flores em feira livre. Só flores, em feira da Zona Sul.

P/1 – E agora, voltando um pouquinho para falar dos seus pais. Você falou que seu pai, no início, trabalhou no comercio também, aqui no Rio.

R – Hum, hum.

P/1 – Pode falar um pouquinho desse comércio do seu pai?

R – Era comércio... Era lanchonete.

P/2 – Ele tinha a lanchonete aonde? Era no Méier?

R – No Méier, isso. Ali na...

P/2 – Lembra do nome?

R – Não. Eu sei que era a Rua Coração de Maria. Mas o nome da lanchonete eu realmente não lembro.

P/1 – E a senhora chegou a ajudar na lanchonete?

R – Não. Meu pai teve também botequim na Rua Ferreira de Andrade, ali no Méier. Meu pai ficou com esse bar primeiro, depois ele partiu para essa lanchonete. No final ele foi para táxi e se aposentou. Meu pai trabalhou pouco, com 50 anos de idade ele parou de trabalhar. (riso)

P/2 – E a faculdade, você chegou a fazer? Como é que foram seus estudos, até onde você estudou?

R – Então, pronto. Eu estudei, fiz primário – que falava na época que eu estudava. Era primário, admissão. Depois eu fiz o ginásio e fiz alguns cursos. Fiz um pouco de... Fiz Ted, na época. Porque era, fiz assim vários cursos na Ted, como se fosse profissionalizante. Depois eu fiz curso de secretária, secretariado. Acho que foram dois anos, aí parti para trabalhar e tal. Depois eu resolvi fazer faculdade, fiz Faculdade de Direito.

P/2 – Faculdade de Direito.

P/1 – Chegou a trabalhar?

R – É, eu cheguei a... Eu montei escritório com uma amiga minha. Essa minha amiga hoje deve estar com quase 90 anos de idade. Um barato também a Dulce _______. Mas eu fiquei dois anos só, porque essa coisa, como eu já estava acostumada, com comércio, ou... De certa forma você é livre, né? E tinha coisa assim que não tinha nada a ver comigo. Eu passei a fazer Direito de Família, e você começa se envolver muito. Como eu tinha, na época, duas gurias – que eram as minhas duas filhas mais velha – para sustentar e tal... A minha amiga não, porque a minha amiga já era aposentada do Ministério da Saúde. Quer dizer, não tinha filhos, qualquer coisa que entrasse para ela estava legal. Mas eu não, eu tinha duas pessoas para manter, não dava. Eu já estava também acostumada com comércio. Falei: “Bom, essa não é minha praia. Eu vou embora.” Mas foi por isso que eu não fiquei.

P/2 – E a sua relação, assim, com flor e com... Você acha que veio alguma coisa da infância de Portugal, de campo? Como é que é? Você acha que...

R – Olha, eu acho que sim. Porque, bom, eu sou do signo de terra. Então eu não sei se isso tem a ver. É como eu acho que eu falei para você: eu sou meio eclética. Então em determinada época da minha vida, alguém me psicografou. E assim, do nada. Tem umas coisas que acontecem comigo do nada, sabe? Então a pessoa simplesmente pediu meu nome, data de nascimento, dia, mês e ano, tal. Um dia eu recebi uma carta lacrada, literalmente lacrada, com lacre. Mandaram que eu lesse, analisasse e depois respondesse. Bom, então realmente, tem tudo a ver comigo. Como eu acredito nisso... Eu estou dando meu depoimento, meu depoimento de vida, né? Então realmente tem muito a ver. Eu acho que isso sim tem muito a ver de coisa que você já viveu, coisa que já foi em outras épocas, em outra escala, em outro mundo. E essa minha terceira vida tem muito a ver... Não, essa minha quarta tem muito a ver com a minha terceira vida, que eu vivi há muito tempo atrás. Porque eu sobrevivi realmente plantando flores e plantas. E quem me acolheu, até foi uma pessoa que... Me acolheu porque eu era judia, eu comecei a pregar o cristianismo, fui até expulsa de casa. Tem muita coisa a ver, e eu acho que essa coisa de eu gostar de flores e de plantas... E eu gosto mesmo, eu amo, eu amo o que eu faço. Eu gosto do meu trabalho, por isso que eu acho que ele até dá certo. Com toda essa recessão que está, né? Mas aí eu olho de repente para trás e eu vejo quanta coisa eu consegui construir com... De repente com o amor que eu tenho pelo que eu faço. Porque logicamente, faço porque é um meio de você ganhar. Mas eu poderia estar muito rica, sabe por quê? Porque eu não precisaria estar me preocupando, de repente, com as minhas filhas, de dar até boa vida para elas. Não precisaria estar preocupada em dar emprego para de repente 16, 20 pessoas, não é isso? Se eu fosse só pensar no dinheiro. Então eu acho que dá certo por causa disso, porque eu realmente gosto. Deve ter alguma coisa a ver sim. Mas para mim tem muita coisa a ver com essa coisa que eu falei anteriormente, com certeza.

P/1 – Então conta para a gente como... A senhora já falou que começou por opção, por ficar mais perto das suas filhas e tudo. Mas conta como foi o primeiro dia de trabalho, a primeira ideia, ou...

R – O primeiro dia de trabalho... Deixa eu te falar.

P/1 – Com flores, assim.

R – Com flores.

P/1 – É.

R – Um dia eu me vi assim, sem dinheiro nenhum. Eu sempre, sempre tive evidência, porque eu acho o seguinte, você tem que passar sempre pela vida, não deixar ela passar por você. Não, tu passa, vai ____________. Então eu sempre tive... Sempre estou em evidência. Eu sempre converso muito, sempre procuro conhecer. Um dia eu me vi assim: sem dinheiro, sem perspectiva de nada. Quando você jogou assim... Você joga tudo para o alto, jogou: pô, agora daqui para a frente vai ser paulada. Ou você sai atropelando, ou então você fica ali na tua. Eu desci, resolvi descer... Existia um negócio na Prefeitura chamado Secretaria de Fazenda. Existia ali na rua, ali na Marechal Câmera, um departamento dessa Secretaria que regia essa parte toda de feira, de feiras livres. Eu sabia que isso, de repente, te dava retorno. Fui para lá, eu queria saber o nome do diretor, quem seria o diretor que poderia me conceder uma licença, uma autorização. Eu gostaria de saber como funcionava. Cheguei lá, encontrei uma pessoa até que eu já conhecia, que era do Ministério da Agricultura, que funcionava em cima. E por coincidência o diretor de lá chamava-se Flávio Batalha, que era namorado dessa minha amiga que eu já não via há muito tempo. Aí foi bem mais fácil. Porque foi em uma época que não se davam concessões. Porque isso é uma concessão a título precário, como tudo na Prefeitura. Era uma época que não se dava concessão de espaço físico para feiras de Zona Sul. Para feira de Zona Norte você conseguia, feira de Zona Sul não. Mas você precisaria ter um sítio para sair coisa de produtor. Bom, resumindo a história, eu sei que eu consegui. Até porque, ou por sorte ou porque eu nunca quero nada de mal para ninguém. Tudo o que eu quero para mim eu quero para os outros, não tem essa. Eu acho que eu sempre tive muita sorte. E consegui em um... Comecei a fazer duas feiras por semana. Depois...

P/2 – Em que ano foi isso, só para a gente ter uma ideia?

R – Foi 70... Não, 80, 80 e...

P/2 – Já na década de 80?

R – Foi a primeira vez que o Papa veio ao Brasil. Oitenta, né?

P/2 – Oitenta.

R – Oitenta, não é isso?

P/2 – Oitenta.

R – É, eu lembro que foi em um dia de quarta-feira que ele até ligou para a minha casa para eu não ir trabalhar. Porque era uma feira em Copacabana, na Domingos Ferreira, era uma feira maravilhosa. Para eu não trabalhar porque eu ia criar problema para ele, porque como eu ainda não estava com uma concessão definitiva... Bom, resumindo a história, eu sei que nessa, depois eu consegui mais três concessões. Ou seja, mais três licenças. E trabalhei assim durante muito tempo na feira. Trabalhava só Zona Sul.

P/2 – Começou na Zona Sul?

R – Comecei na Zona Sul.

P/1 – Quais bairros da Zona Sul?

R – Trabalhava terça-feira Ipanema, General Osório; quarta-feira, Domingos Ferreira, Copacabana; quinta-feira Leblon, General Orquiza; sexta-feira, Nossa Senhora da Paz; Sábado, Laranjeiras, e domingo eu acho que era a Urca.

P/1 – E como era a feira? A senhora tinha o quê? Barraca de flores?

R – De flores.

P/1 – Conta um pouquinho como era essa rotina da feira para a gente.

R – Bom, a rotina da feira era legal. Eu gostava. Você conhece gente muito boa. Inclusive eu fui até na TV Manchete. Me pegaram até em um... Aliás, eu deixo, eu acho... Vou me lembrar. Eu já apareci no Fantástico, na Praça Nossa Senhora da Paz. A Fátima Bernardes me entrevistando. Eu sempre desligadona, nem conhecia a Fátima Bernardes.

P/1 – (riso)

R – Que coisa doida. Uma outra menina também, uma ruivinha que era da Globo – Agora ela não está mais na Globo também – me entrevistando. Eu entrando no carro cheio de flores e tal, e ela também falando. E essa na TV Manchete eles me pegaram na quarta-feira, lá na feira de Copacabana, e pediram para eu... Gravei o programa. Eu sei que esse programa foi ao ar umas duas ou três vezes. Até porque eu comecei a conversar, sabe, rindo e tal. Aquilo eu acho que deu audiência para eles, deu Ibope, sei lá. E me colocaram lá. Mas a feira era muito legal, era ótima. Eu tinha... Era uma maratona para mim.

P/2 – Como é que você começava a preparar? Como é que era?

R – Não, a gente fazia os arranjos assim, de véspera. Sempre tive um depósito...

P/2 – Em casa mesmo?

R – Não, eu sempre tive um depósito. Já tinha, eu tinha um depósito aqui na Rua dos Inválidos, isso depois... Depois que eu mudei para essa casa eu já botava lá. Mas era assim, eu tinha um empregado que já ficava arrumando as flores todas. Eu que fazia as compras, como até hoje. Eu sempre... Compro o que eu gosto, o que eu acho que as pessoas...

P/1 – Mas como é que se compra flores, assim? Me explica.

R – Como é que se compra?

P/1 – É, como faz.

R – Existe um mercado só de flores no atacado. Hoje minhas flores vêm de São Paulo, mas existe aqui no Cadeg. Aqui em São Cristóvão – que são vários –, não são produtores, são vários intermediários. Você vai lá e compra. Porque vem amarrado, pacotes de flores amarrados. Pacote de rosas... A rosa é vendida a cinco dúzias, o pacote. E as flores de campo são o pacote fechados. Crisântemos é tudo pacote no atacado. Então eu... Era um trabalho assim: segunda-feira você fazia o mercado. Eu ia com carro, dirigia lá, pegava as flores. O menino, na terça-feira, já fazia todos os buquês. Eu sentava do lado dele. Fiz muito arranjo de flor, muito arranjo. E na quarta-feira a gente já saía de madrugada, só que terça-feira eu já começava. Eu tinha uma Fiorino, aí eu já começava a levar a parte toda de plantas. De plantas de flor, plantada. Eu levava para Copacabana, aí eu deixava com o porteiro. Tinha lá um esquema, e de madrugada eu ia só com a parte das flores. Vendia muito, era muito bom. aí quinta-feira você ia assim tipo com o que tinha te sobrado de quarta-feira. Você acrescentava mais um pouco e na quinta-feira depois você fazia assim um mercado grande que era para sexta-feira. Uma das feiras melhores que eu tinha. Sempre foi quarta-feira Copacabana e sexta-feira Nossa Senhora da Paz.

P/1 – E como se conservam flores, assim?

R – Normal.

P/1 – Você tem temperatura certa, alguma coisa?

R – É, se você tiver um frigorífico, uma geladeira, é o ideal, mas se você não tiver, – que é difícil também –, você comprando ela fresca, ele te dura mais de uma semana.

P/1 – Como assim, uma flor fresca? Desculpe, é que  tem que contar os detalhes que _____________

R – Como é que você vai saber que uma flor é fresca? Você vê pelo pé. Sabe se ela está... Bom, a gente que é profissional, você olha assim, ela vem amarrada. Você vira o pé. Se você ver que o pé dela não foi cortado ainda, é uma flor fresca. Ela foi tirada da chácara, embalaram e botaram no mercado para vender. Se você a vê assim, com corte ou com marca de água, isso quer dizer que ela já deve estar na mão de quem está te vendendo a uns três, quatro dias, então não é uma flor fresca. (riso)

P/1 – (riso)

P/2 – Mas já tinha algum conhecido seu que já era desse ramo para você pegar ideias e coisas assim? Ou...

R – Meu tio.

P/2 – Já tinha.

R – É, meu tio trabalhava em feira, em feira livre, com flores. Mas em uma época... Nessa época que eu era criança, bem criança.

P/2 – Ah, tá.

R – Depois eu passei para paisagismo. Eu fiz alguns cursos e comecei a fazer cobertura de pessoas, de clientes até que eu tinha na feira, que compravam flores comigo. Aí, sabe, você vai rolando outro trabalho. Só que eu comecei sem entender nada, sem saber nada. Mas aquela coisa de você fazer... Mas você tem que gostar. Então eu cansei de fazer muita coisa, gente. De fazer... Eu falei: “Gente, isso está uma droga. Vou desfazer isso tudo de novo. Vou fazer novamente.” Foi assim, sabe? E você foi aprendendo. Depois não, depois eu fui fazendo algumas coisas, alguns cursos e tal, hoje eu tiro isso de letra. Mas foi legal, sabe, uma escola. Peguei assim... Sempre tive sorte, como eu disse, né? Porque tem uma senhora chamada Margarida Pereira que ela faz doces para a alta sociedade, uma doceira maravilhosa. De dois em dois anos eu fazia a casa dela. Assim do nada, porque eu comecei a vender flores para ela. E ela me contrata sempre. Me contratava sempre para, de dois em dois anos, mudar toda a casa dela. Poxa, era uma bênção. Em uma época que você estava precisando, sempre vinha na hora certa. Você estava precisando, vinha dinheiro. Muito legal, gente, sempre tive sorte. Não posso me queixar. Com certeza.

P/1 – Como era a sua relação com os outros feirantes, com as pessoas da feira? As pessoas gostavam muito da sua barraca?

R – Gostavam.

P/1 – Paravam, olhavam? Como era a reação das pessoas com seus arranjos?

R – É, porque de certa forma, eu acho que eu sempre inovei. Eu comecei a fazer flores de campo quando na feira se faziam aquelas coisas tradicionais: era macinho, florzinha só, e tal. Eu comecei a fazer, inovar. Botar gérberas, liziantros, sempre assim. Muito voltada sempre para estar sempre na frente no mercado. E comecei a trabalhar mais com flores finas. Até eu trabalhava, vamos dizer assim, com quatro, cinco, seis, sete barracas, às vezes. Quer dizer, concorrentes, e eu sempre conseguia me suprir. Porque eu conseguia vender mais, tinha bastante clientela, mas até por causa da qualidade do produto. Mas eu, de uma certa forma, me dava bem com todo mundo. Era super conhecida, também, na feira.

P/1 – E a senhora ficou na feira até mais ou menos que época? De quando a quando, assim?

R – Deixa eu te falar, eu fiquei na feira acho que, possivelmente, uns 20 anos. Uns 20 anos, até surgir essa coisa lá da Rua do Verde, que também surgiu através da feira. Eu tinha um cliente que era o Jacques. E ele era arquiteto do município, e a gente sempre conversava. Você tem... Você, na feira, trava conhecimento com muita gente. Só que você não pergunta para a pessoa o que ela é ou deixa de ser. Mas gente até importante, como o Carlos Lessa, por exemplo. Hoje ele é presidente do BNDES. Ele é meu cliente, conheci na feira. Mas a gente não fica perguntando o que você... A não ser que a pessoa fale automaticamente o que faz. Então essa história da Rua do Verde começou também porque o Jacques se... Eu era PDT [Partido Democrático Trabalhista], ele era PDT. A gente discutia política e tal, e eu o conheci na feira de Laranjeiras. Um dia ele falou assim para mim: “Poxa, queria dar um... Ter um jeito de te ajudar em alguma coisa, sabe? Mas não sei nem de que forma eu posso te ajudar.” No sentido de eu de repente sair da feira. Aí o Marcelo Alencar veio como prefeito e o Jacques veio a ser um assessor direto dele. Foi criada uma Secretaria para dar para esse meu amigo. Ele tinha me falado de um projeto, que era esse projeto da Rua do Verde. Mas sabe aquela coisa que você joga conversa fora, fala mil coisas e de repente você não se fixa no que foi falado? Aí um dia, tarde da noite, um dia de dezembro, ele ligou para minha casa: “Cláudia, sabe aquela história que eu te falei daquele projeto?” Eu falei: “Não. Sei lá Jacques, mas continua.” “Pô, está na hora agora. Eu acho que eu posso te ajudar. Olha, esse projeto existe, fui eu que elaborei, já existe o local e tal. Vamos nos encontrar amanhã para eu te falar. Então era esse projeto da Rua do Verde, onde ele era... Deu para fiscalização que funcionava na feira, para distribuir, para dizer, falar sobre esse processo, sobre esse projeto. Mas a fiscalização não teve tempo hábil para dar para todos os feirantes do ramo de flores. Então poucas pessoas tiveram acesso. Ou seja, foram criados 12 boxes ali na Rua do Verde, que eram para 12 profissionais do ramo. Porque ele não queria que entrasse camelô. E qual foi a tática que ele criou, ou que ele adotou: seria a pessoa que provasse que trabalhava em feira livre com flores e plantas, a mais antiga. O critério que ele adotou seria esse. Que você escolheria a parte que você queria ficar ali. Então, na época, só foi dado para mim, porque eu já sabia, e mais uma outra pessoa. De repente nem conseguiu ficar lá muito tempo. Eu, como provei através de uma licença que estava no nome do meu pai, muito antiga e tal, eu provei que a gente trabalhava já há bastante tempo em feira. Esse critério adotado, eu peguei aquela parte toda da Rua da Carioca. Quer dizer, até esse projeto da Rua do Verde foi com conhecimentos de feira.

P/2 – Então localiza para a gente. A Rua do Verde fica na...

R – Rua da Carioca, na altura do 58. Vai até a Sete de Setembro, 217. Então a história daquele projeto era o seguinte: aquilo ali era um lugar que estava fechado, cheio de mendigos e tal. E na época do Saturnino Braga, ele tinha dado para um grupo, Tortura Nunca Mais, ele ia dar aquele espaço. Aí eu não sei por que, o que ocorreu, Saturnino saiu, entrou o Marcelo Alencar. Então esse meu amigo, de repente, fez esse projeto. A Prefeitura fez os dois prédios, o prédio da Carioca e o prédio da Sete de Setembro. O da Carioca são salas com banheiro, e lá na Sete de Setembro foi criado para que? Para, uma sala vestiário, para as pessoas, funcionários que existissem na Rua do Verde. Banheiro masculino e banheiro feminino. E foi inaugurado, Foi a última inauguração que o Marcelo Alencar fez como prefeito. Ele não teve... Aquilo seria ponto para 12 profissionais do ramo.

P/1 – Isso é em que ano?

R – 82, né? O ano que aquela menina morreu, Daniella Perez.

P/1 – Então em 92.

R – Foi em 92. Foi o dia, até, que ela morreu. Foi 28, parece.

P/2 – É, em 92.

R – 28. Então, como não teve tempo hábil, ficou aquilo. Porque ali seriam 12 boxes. Na realidade um projeto super legal, porque aquilo passou a fazer parte do corredor cultural, como aquela parte quase toda da Carioca e mais algumas coisas ali, por ali. E a gente tinha assim, muito pouco tempo, porque de repente você... Quando inaugurou – eu tenho lá as fotos da inauguração –, com, “pô”, acho que meia dúzia de flores, de plantas. Porque não tinha nem como. Eu ainda fiquei uns dois anos trabalhando na feira. Ficava lá e trabalhando na feira também. Eu ia divulgando o nome, entendeu? “Ah, pô, agora eu estou lá na Rua da Carioca, não sei o quê.” Eu comecei a trazer bastante clientes, até, também, de feira. Para ali, para a Rua do Verde.

P/1 – E tem outra rua, também com flores, que a senhora tem box?

R – Tem a Travessa da Natividade. A Travessa Natividade é assim: a gente começou ali na Rua da Carioca, e começamos assim, com trabalho, fomos implantando e tal.

P/1 – Mas foi dentro desse mesmo projeto?

R – Desse projeto. Quando a gente estava ali há uns três anos, aí nós resolvemos querer alcançar uns vôos mais altos. Partimos para shopping. Abrimos filial de Cláudia Flores em um shopping de Caxias e outro em Alcântara. Então, pô, é uma coisa que não deu certo, que, sei lá, foi mal administrado, sabe? Eu não ficava lá, eu ficava mesmo na Rua da Carioca. No espaço de um ano a gente teve uma perda bastante grande, fechamos as lojas, mandamos funcionários embora e tal. Um belo dia ligaram para mim. Existia um subprefeito chamado Augusto Ivan, esse homem foi muito importante para o Centro do Rio de Janeiro. Eu acho que vocês até devem conhecê-lo.

P/2 – Ainda não.

R – Ainda não? Eu acho que o Carlos conhece. Esse já é o terceiro livro que ele editou, até falando sobre o Centro e tal. Então o Augusto Ivan era muito dinâmico, era maravilhoso. Tudo o que a gente pensasse em fazer pelo bem estar do Centro... Porque eu acho o Centro do Rio de Janeiro lindo. Pô, a gente podia contar com a parceria dele, porque ele brigava, ele lutava. Ficou oito anos como subprefeito. Aí um dia ligaram para mim que o Conde queria me oferecer alguma coisa. Eu falei: “Lá vou eu.” Para variar, lá fui eu para a Prefeitura. Tinha uma reunião com o Conde, com o subprefeito, pessoas da administração do Estado. Aí o Conde me ofereceu aquela rua, a Travessa da Natividade, e eu topei. Fui embora. Sabe o que é você topar um desafio sem você ter um centavo no bolso? Mas eu tenho nome, sabe? Eu pensei assim.

P/2 – Mas foi só para você?

R – Só para mim. Ele só ofereceu para mim. Eu fui lá...

P/2 – Explica para a gente onde é que fica a rua?

R – Fica do lado da Igreja São José, em frente a (Coderte?), né?

P/1 – Perto do que? Da...

R – Ela termina na Travessa do Paço. É como se você fosse para a Praça XV.

P/1 – Praça XV.

R – Ela, você entrando pela Rua São José, no final da Rua São José mesmo. Atravessou a Presidente Antonio Carlos você já vê a Igreja São José e vê aquela rua. Uma rua até maior do que a Rua do Verde. Aí ele: “Que tal você ter uma rua só para você?” A rua estava horrorosa, sabe? Cheia de tapumes, com carros, cheio de mendigo. Eu falei: “Gente, eu vou topar.” Topei, e quando eu cheguei, quase me mataram. O pessoal lá de casa quase me deu: “Você é doida. Como é que você... Sabe, está fechando duas lojas. Você está endividada, como é que você vai topar um negócio desse?” Eu falei: “Seja o que Deus quiser.” Aí o prefeito só disse uma coisa, que ele realmente não... A Prefeitura não tinha como investir, e ele queria no prazo de dois meses que eu fizesse a rua, que eu projetasse a rua e tal. Eu: “Está bom, eu topo.” Fiz a rua. Inaugurei no dia que ele determinou, realmente. E tive o apoio, realmente, da subprefeitura do Centro. Apoio no sentido de Comlurb, de limpar rua, sabe? De botar carrinhos lá, de lixo, essas coisas, assim. Agora, o resto mesmo por conta da gente. “Então vamos projetar a rua”. Projetei a rua. Começamos em uma sexta-feira, trabalhamos sexta o dia todo, a noite toda, sábado. Fomos embora. Na segunda-feira, quando amanheceu realmente o dia, a rua estava projetada, feita. O Conde sentado no banco de cimento, cruzou as pernas. Sobrevoou de helicóptero tirando fotos e tal. Isso, durante muito tempo, foi até a menina dos olhos de ouro lá para a Prefeitura. Porque a rua realmente ficou super bonita. E _____: “Pô, dá a impressão que eu estou assim, em um lugar da França. Só uma coisa sua mesmo.” Ele assim para mim. Legal, né? Essas coisas eu acho que são mais importantes que qualquer coisa.

P/1 – É.

R – Então a gente... Projetei coqueiros em vasões enormes. Bancos, chafariz. Cristo de braços abertos. Quer dizer, não está para a Guanabara porque está para a Antonio Carlos, essas coisas assim. Mas ficou super legal. Depois eu consegui fechar a rua. “Fechar”, que eu digo, é gradear. Porque a gente começou a brigar com (Inpan?) porque eles não deixam de forma nenhuma, só que eu liguei para o Augusto Ivan e disse que não tinha condição. Porque eu estava pagando 1500 reais para o segurança ficar a noite inteira. Imagina a rua aberta dos dois lados, você ali com uma porção de material... Aí o Augusto também topou essa briga. “Não, vamos brigar e tal.” Eu falei: “Olha, Augusto, se eu não conseguir fechar isso, eu realmente não tenho condição de ficar, porque eu não estou fazendo... Não está girando para eu pagar, ter essa despesa toda.” Aí conseguimos fechar também. A gente fecha às sete horas da noite e abre às seis horas da manhã, os portões. Mas ficou super bonito.

P/2 – Por que você acha que agora eles estão com essa preocupação com o verde aqui no Centro da cidade?

R – Olha, porque na verdade, a cidade está meio abandonada. Então a Prefeitura precisaria gastar para ela reformar as praças, reformar as ruas. O verde é uma forma até de você embelezar sem a Prefeitura precisar gastar muito. Só que o custos disso é muito alto. Tem pessoas aí que você pode andar no Centro, eu não sei, mas em determinados bairros já tem muita gente... Abandonando porque é muito caro.

P/1 – Então esse projeto além da Rua do Verde, no Centro, também se estendeu para outros bairros, mais ou menos na mesma época?

R – Isso, na mesma época. Isso foi na época mesmo do César Maia, a primeira vez que ele veio. Porque ele é muito voltado para essa coisa. Eu tenho a impressão que ele anda muito pela Europa. Porque ele copia bem os modelos. que você vê... Tem em várias cidades de diversos países da Europa. Pelo menos que eu já estive, então é muito assim, sabe, muito igual.

P/2 – Tem outras ruas do Verde assim nos bairros?

R – Tem a Rua das Flores ali na Tijuca. A Rua do Verde é aqui onde eu estou. Tem a Travessa das Flores, que é onde eu estou também, que é a Travessa Natividade, e tem a Rua das Flores, que é lá na Tijuca, que também é super bonito, muito bonito. E tem outros quiosques. Acho que em todas as praças aí do Rio de Janeiro todo tem. Onde tem praça tem quiosque.

P/1 – E é tudo pela Prefeitura?

R – Pela Prefeitura não, o espaço é da Prefeitura. Você paga uma licença. O resto é por tua conta, você faz o quiosque. Existe o modelo padrão de quiosque, a Prefeitura é que determina, e você paga uma licença, eles te dão uma licença para você funcionar. No caso meu, lá da Rua do Verde, não. Eu tenho um contrato com a Prefeitura, eu pago um aluguel. Ali na praça, na Travessa das Flores, a gente também paga.

P/2 – E essa coisa do comércio no shopping que você falou, que você tinha duas lojas no shopping e não deu certo, você acha que as pessoas preferem comprar flores ao ar livre mesmo do que...

R – É, eu acho que não funciona, em shopping não funciona. Primeiro que é tudo muito caro em shopping, então você tem que ter um volume muito grande de venda. E flor, em si, ela não te dá um volume muito grande de venda, a não ser assim, nos dias próprios. Porque hoje até está meio complicado. Hoje eu prefiro trabalhar no Dia dos Namorados do que trabalhar no Dia das Mães. Porque Dia das Mães todo mundo coloca flor em qualquer lugar. Mas a pessoa, você de repente dá para a tua mãe uma rosa, a tua mãe está se contentando com uma rosa que ela vai receber. Dia dos Namorados, não. Dia dos Namorados você quer dar para o seu namorado, para a sua namorada um buquê carésimo, uma orquídea, não tem essa. Realmente o Dia dos Namorados é or concour, está sendo o melhor dia para venda de flores, com certeza.

P/1 – Você acha, assim, que outras épocas do ano, tipo Natal, Páscoa, as pessoas dão flores? Já têm arranjos, essas coisas?

R – Então, deixa eu te falar, funciona. Mas deixa eu te falar como é que funciona. Por exemplo, são características de bairros. Centro, onde eu estou localizada, Dia das Mães para mim, por exemplo, a minha venda é via internet ou por telefone. Porque domingo eu não trabalho, não funciono dia de domingo, que já é hábito mesmo, o ano inteiro você não funciona domingo. Então alguém vai me comprar flores para eu entregar, mas ela está me comprando isso já com um pouquinho de antecedência. Natal, também não vendo. O Natal para mim... Para mim funciona em dezembro as três primeiras semanas de dezembro. De repente a semana de Natal e de Ano Novo para mim não funciona. Mas ela já funciona muito bem para bairros. Ano Novo, por exemplo, funciona maravilhosamente bem para beira de praia. Ipanema eu cansei já de vender flor em Ipanema gente. Palmas brancas, rosas brancas. Pô, sabe, de você ficar cansada de vender, cansada mesmo? Mas para mim não funciona isso, não funciona porque é Centro. Agora, Páscoa também, para bairros ela funciona bem, para Centro, não. Mas as pessoas dão flores... E você me perguntou se existem arranjos específicos, né?

P/1 – É.

R – Para as datas, existem. Natal é muita flor tropical, que é à base de vermelho, muito dinheiro, essas coisas assim. Muita pinha que a gente já faz isso mesmo, a gente já faz os arranjos. E Ano Novo é mais a flor branca, arranjo de flor branca. A gente também tem esse serviço de fazer para as casa, para a gente decorar as casas.

P/1 – Então nessa época a senhora trabalha decorando eventos para empresas, para casas mesmo, para ceia, essas coisas?

R – Hum, hum, fazemos, fazemos alguma coisa. Uma época boa para a gente também é Ano Novo Judaico, também é muito bom para mim, porque a gente já tem uma relação de clientes, então para a gente funciona legal também.

P/1 – Como é essa decoração?

R – Usam muitas flores, basicamente a mesma flor que a gente usa , que no nosso Ano Novo. Muito crisântemo branco, palmas, essas coisas assim. E flor tropical, eles também gostam bastante. Pessoal judeu.

P/1 – E os casamentos?

R – Casamento judaico eu acho que eu nunca fiz. Eu já fiz Barmitzva, que eles chamam, que é 13 anos de menino. Já fiz vários aqui na sinagoga de Botafogo. Que é assim, com árvores, com plantas altas e todas enfeitadas. Mas casamento eu nunca fiz.

P/1 – Mas outros casamentos...

P/2 – Nem casamento...

R – Não, não, faço muito casamento. Faço.

P/2 – 15 anos?

R – 15 anos, casamento. A gente tem decoração quase todo final de semana.

P/1 – E qual a preferência do pessoal que vai para casamento, que tipo de flores vai para casamento, que tipo de flores para 15 anos, qual a preferência das pessoas?

R – É quase que igual. Hoje as pessoas estão seletivas, mas sem poder gastar muito, então ficam procurando preço. Quase sempre o preferido é flor de campo, que sai bem mais barato, tanto para 15 anos quanto para decoração, para casamento.

P/1 – Para isso a senhora fez curso, alguma coisa, para aprender essa decoração? Como é que funciona? Como começou nesse ramo de decoração?

R – Não, eu não fiz curso não, deixa eu te falar. Eu não fiz curso de decoração não, fiz algumas coisas de paisagismo, como eu já tinha falado, mas é uma coisa assim, muito intuitiva. Você tem que gostar, sabe? Você tem que gostar. É você bater o olho: “Ah, esse arranjo está bonito.” Ou então você não gostar, você desmanchar. Eu já fiz muito isso na minha vida. Hoje até buquê de noiva a gente faz, e eu aprendi praticamente sozinha. “Olha, vamos começar a fazer o buquê. Pô, mas está feio. Ih, mas esse candelabro aqui está horroroso. Vamos fazer tudo de novo.” Aprendi assim, muito sozinha. Hoje eu não faço, quase, porque eu tenho um florista. Mas se precisar fazer eu faço qualquer tipo de arranjo, até porque hoje o mercado está melhor do que quando eu comecei, porque hoje você trabalha com espuma floral, aquela... Ou com aqueles (quesães?) também. Se você não tiver muita intuição, dá para você fazer com essas coisas, assim. É só usar um pouquinho da tua imaginação. E vamos fazer, dá para fazer. Mas hoje não, hoje eu tenho um florista. Mas logicamente, sempre assim, com olho crítico, entendeu? “Ah, eu não gostei não, seu Ivo. Faz tudo de novo que isso aqui está uma merda. Vamos fazer tudo de novo.” Ele olha assim para mim, vai e faz numa boa. Sempre eu estou criticando.

P/1 – E a senhora já decorou casas, ou festas de pessoas famosas, algum evento?

R – De pessoas famosas, já. Famosas... É, são famosas. Eu já fiz um aniversário do Roberto Carlos, isso eu acho que em...

P/2 – Você ainda era fã? (riso)

R – Era fã.

P/1 e P/2 – (risos)

R – (risos)

P/1 – Deixou de ser fã aí. (risos)

P/2 – Quando foi isso?

R – Isso foi... Todo ano a gente manda flores para o Roberto Carlos no aniversário dele, mas a gente recebe pedido via internet. Foi, acho que, em 84. Acho que 84... 86, 86 a gente decorou o aniversário dele.

P/2 – Como é que foi isso?

R – Foi assim...

P/2 – Onde é que foi?

R – Foi na Urca, na Avenida Portugal. Ele gosta muito de rosas vermelhas, mas... Não, foi em 80 e poucos. Ele estava com essa Miriam...

P/2 – Myriam Rios.

R – Ou foi aniversário dela, alguma coisa assim. E aí foi um mordomo dele, que era mordomo, motorista, não sei o quê. Ele sempre comprava flores comigo em Laranjeiras. Aí ele perguntou se eu não podia ir lá decorar. “Posso decorar.” Mas não vi Roberto Carlos.

P/2 – Ah, vocês foram o que, de manhã cedo?

R – Fomos. Mas a gente já levou os arranjos todos prontos, normalmente a gente leva os arranjos prontos. São raras exceções que a gente faz alguma coisa no local, a gente já leva as peças prontas. Mas não vi Roberto Carlos, vi a Myriam Rios. Uma casa simples, de uma pessoa, que a gente está sempre decorando: Artur Lavínia, que esse é advogado. É cliente nosso, e nós estamos sempre decorando, lá na Atlântica. Miguel Falabella, Lena Crespi.

P/2 – Miguel Falabella aonde?

R – Miguel Falabella, quando eu faço as coisas dele, é em Ipanema.

P/1 – O que, para festas ou dia a dia?

R – Festas, não, as coisas dele, ele adora palmas vermelhas. E eu conheço Miguel Falabella, Leina Krespi, aquele Botino. Eles andavam assim, em trio. Eles começaram a me perseguir desde Copacabana, quarta-feira. _____ beber chope, sabe, porque ele é muito... Agora não, o cara está hiper famoso. Mas Copacabana, quinta-feira, às vezes eles iam. Sexta-feira, quando eles não tinham realmente nada de teatro, televisão, ou quando estavam viajando, com certeza que eles iam lá, me perturbar. Nana Caymmi, minha amiga. Faço muita coisa para a Nana, mando sempre que ela faz show no ________, no Canecão. Ela sempre manda a Denise, filha dela, me ligar, ou a Estela, que tem sempre uma mesa lá para mim. Estou sempre fazendo as coisas para ela. Quem mais? Famoso? Ah, eu faço o Consulado da Áustria, faço o Consulado da Bélgica.

P/2 – Ah, é?

P/1 – A história da... A senhora já contou, né?

R – É, porque eu costumo assim, você conhece mil pessoas, nesse meu tipo de trabalho, conhece mil pessoas. Então eu gosto de festa. E uma fama assim que eu tenho de convidar pessoas para a minha casa, sem muita etiqueta, sem muita coisa, porque tem determinadas pessoas que eu realmente não... Imagina, eu não consigo, então eu armo sempre uma festa. Vamos fazer uma festa julina, sempre faço festa julina. Às vezes junta 200 pessoas na minha casa. Bom, a última, e vai sempre muita gente. Vai gente desde, sabe, nossa gente, que trabalha comigo, até pessoas hiper grã-finas, importantes e tal. Essa última agora foi aniversário da minha filha que ela resolveu... Foi agora em março, ela resolveu fazer uma festa caipira. Era uma festa à fantasia.

P/2 – À fantasia.

R – Aí essa consulesa da Áustria, que mora ali na Santa Tereza... Da Áustria não, da Bélgica, ela é... O marido dela é belga, e ela é, parece que, africana. Ela tem assim, um tipo. Aí eu convidei ela, se ela queria ir lá em casa, e de repente ela apareceu na minha casa. Achei que ela não iria na minha casa. Ela apareceu na minha casa, ela com o motorista, com as duas filhas e as duas amigas da filha. Aí tá. Acho lindo, maravilhoso, minha casa, não sei o quê. Eu sempre faço assim, sabe, mocotó? Porque suburbano, principalmente suburbano, gosta desse tipo de coisa. Faço mocotó, faço caldinho de feijão, essas coisas. E ela amou, porque ela nunca tinha visto na vida dela. Aí bom, pelas tantas da noite eu falei: “Bom, ela vai embora, né?” Aí ela não, ela chama o motorista dela, manda o motorista me comunicar que ela iria dormir na minha casa, sem ser convidada. Eu falei: “Gente, eu estou perdida. Mas vamos embora, né?” (riso)

P/1 e P/2 – (risos)

R – De repente você acomodar, quatro pessoas, seis pessoas... Ela, não, cinco pessoas. Eu falei: “Gente, que doideira.” Isso quatro horas da manhã, eu morta de cansada. Eu falei: “Ah, vamos embora.” O nome dela é Maria Paula, “Dona Maria Paula, vamos embora.” Eu dei meu quarto para ela. “Dorme aqui. A senhora deita na minha cama com as suas duas filhas. Eu vou botar as outras duas meninas no quarto da Carol.” Mas as meninas quiseram dormir no chão, numa boa. Porque não tem, né... Tem que ser, elas que se convidaram.

P/2 – É.

R – Aí adorou a minha casa, disse que a minha casa era maravilhosa, que a minha cama não sei o quê... Gente, bom, acabando com a história: Sabe o que ela fez? Ela ligou o ar-condicionado, em vez de ela ligar o ar-condicionado para ficar a casa gelada, ela ligou o ar-condicionado para ficar quente.

P/2 - Hum.

R – Gente, eu falei, “não acredito”. Falei: “Cara, eu não acredito em uma coisa dessa.” Quando eu, de manhã, levanto para abrir a porta, eu bato na porta, ela já estava. Um calor dentro do quarto, insuportável. Falei: “A senhora não passou mal?” Ela falou: “Não, uma delícia. Gente, que delícia.” Coisa de doido. Aí ficou o dia inteiro, o dia inteiro na minha casa, achando assim, linda a casa. Porque eu tinha colocado a cama certa, no lugar certo para ela dormir, sabe? Umas coisas assim, meio malucas. Eu falei: “Gente, ainda existe gente mais maluca do que eu.” Brincadeira. Mas umas coisas doidas, como foi dona Evinha uma vez na minha casa, também. Essa dona Evinha que eu fiz uma festa também, aí convidei a governanta dela, e ela me ligou dizendo que ia lá levar um bolo. Eu não tinha convidado, mas também tratei normalmente, entendeu? O que é que você pode oferecer para uma pessoa dessa? Uísque, eles têm uísque de não sei quantos anos. Aí eu ofereci uma cachacinha. Ela adorou. Acho assim, maravilhoso uma cachacinha portuguesa, né? “Pô, mais que barato. Não sei o que, não sei o que mais.” Ficou 20 minutos, cheia de segurança, foi embora. Tem umas coisas muito engraçadas que às vezes acontecem, mas por causa disso, entendeu? Até porque você conhece as pessoas, mais diversas que você possa imaginar. É muito bom.

P/1 – E a senhora assim... A sua casa, a senhora decora?

R – Decoro.

P/1 – Mas usa bastante sua criatividade, seu trabalho?

R – Decoro, decoro. Como também lá na loja eu estou sempre mudando as coisas. Se você for lá hoje, vai ver de uma forma, amanhã você já vai ver de outra. Aí eu costumo dizer que eu sou meio cigana, porque eu vivo mudando. Que é uma forma assim, que você tem de, de repente, estar mudando o visual. E para mim funciona assim, eu sei exatamente de cada detalhe. Eu sei exatamente do que eu tenho. Às vezes os vendedores não sabem. Chega o cliente pergunta: “Ah, tem isso?” “Não tem não.” “Tem sim, vai lá em baixo que você vai ver.” Então é uma forma também que eu tenho de guardar. Na minha casa eu gosto, eu... A minha casa é grande. É uma casa grande, boa, que eu tenho uma piscina boa. Tenho um espaço enorme onde eu coloco muita planta. Estou sempre mudando. Mas plantas, assim, eu tenho, faço coleção de palmeira. Adoro palmeiras. Eu boto tudo envasado em vasos grandões, porque o terreno que eu tinha eu não tenho mais. Fiz uma outra casa atrás, feito um apartamento. Mas aí eu tenho um jardim. Tudo assim, sabe, em coisas grandes. Palmeiras plantadas, grandonas.

P/2 – E você que cuida?

R – Eu que cuido. Mas não tem muito mistério não. As minhas plantas são molhadas uma vez só por semana, sabia?

P/2 – É, não tem nenhum segredo não? Alguma coisa assim para ficar...

R – Não, eu tenho plantas de 15 anos, 20 anos comigo.  

P/2 – Alguma planta que você goste mais? Flor?

R – Não, eu gosto de planta exótica. Amo palmeira, gosto muito de palmeira. Gosto de planta de flor, mas eu gosto de planta de flor... Não é toda planta de flor que eu gosto. Eu gosto de buganvília, mas não é toda cor. Também tem que ser um buganvília trabalhado, não é, você sabe, não é de qualquer maneira. Gosto muito de colmeias, amo colmeias. Tipo das cores mais diversas que você pode imaginar eu tenho. Tenho vermelha, azul, cor-de-rosa. Mas eu sou muito voltada para o verde, gosto muito de verde. Na minha casa eu tenho pouca planta de flor.

P/2 – Ah, tá.

R – E todo o jardim que eu vou fazer, se deixar para eu fazer, é difícil eu colocar planta de flor (riso).

P/2 – (riso) Faz só verde.

R – É, só verde. Eu gosto.

P/1 – Bom, dona Cláudia, vamos entrar agora um pouquinho sobre a trajetória do Centro, né?

R – Hum, hum.

P/1 – Algumas perguntas em relação ao Centro, a sua experiência de trabalhar no Centro. Bom, como era o comércio do Centro na época que você foi trabalhar no Centro?

R – Quando eu fui para ali para a Rua do Verde?

P/1 – É.

R – Era melhor do que agora. Tinha bastante... As lojas todas abertas, e a gente vendia mais, vendia bem mais do que a gente está vendendo agora. Não tinha essa coisa, essa violência.

P/2 – Ah, tá. Era mais tranquilo.

R – Com certeza.

P/1 – Então o que você acha que foi a principal mudança? Falou que já tem mais ou menos dez anos que a senhora está lá.

R – É, vai fazer 11 anos.

P/1 – Nesses 10 anos, as principais mudanças? _____ fala um pouco para a gente?

R – A violência. A violência foi muito forte. O desemprego, população de rua. Muita gente na rua. Porque eu acredito...

P/1 – Aumentou?

R – Muito. Eu acredito que isso tenha aumentado vamos dizer assim, de uns... Quando terminou a LBA [Legião Brasileira de Assistência]?

P/1 – Depois do Collor, por aí.

P/2 – ____________, quando ele acabou.

P/1 – 93, 94.

P/2 – 92, 93.

R – Não, foi mais tarde.

P/1 – 94, por aí.

R – Porque quando acabou isso... Porque eu comecei a notar que tinha mais meninos, crianças na rua, mas até um índice baixo. Mas depois que terminou isso, você começou a ver muita gente idosa na rua, e isso é assustador, você fica se questionando. Porque quando você vê, de repente, uma criança, eu acho que já faz parte. Infelizmente eu acho que já entrou na rotina da gente você ver uma criança. Agora, gente idosa? Sabe? Homens e mulheres idosas. Assim, de 60 e poucos anos, 70, como você começou a ver, eu acho que isso já começa a ficar assim... É muito conflitante, pelo menos para mim. Acho que isso afasta, afasta as pessoas.

P/2 – Você acha, então, que o comércio meio que deu... Diminuiu, assim?

R – Bastante. Principalmente acho que restaurante. Porque a gente tinha até clientes que a gente fazia a manutenção de restaurantes, e muitos deles fecharam. Muita gente. E ali na Rua da Carioca mesmo, tem muitas lojas fechadas. Restaurante ali eu acho que fecharam uns três. Sapataria Mala Moderna que estava ali, pôxa, acho que desde 49, ela fechou também, semana passada. Então é isso, porque ou as pessoas te pedindo esmola... Você fica ali, você fica muito vulnerável. Assalto, essas coisas, é complicado. Nós já fomos assaltados ali.

P/2 – É?

R – Já fomos. Ali assim, à mão armada. Porque é assim. As coisas vão mudando, vão mudando gradativamente. Quando nós começamos ali, o nosso pique maior era na hora do almoço. Por quê? Quando as pessoas saíam dos escritórios – ali tem a Petrobrás perto, BNDES, e tal –, atravessavam e elas viam, descobriam de repente que ali tinha flores, tinham várias coisas. Então nosso pique maior era de meio dia até duas horas da tarde. Você ficava assim, em uma boa. Hoje acabou, de três anos, quatro anos para cá, acabou. Não tem mais essa, não se tem pique. Hoje o que é que a gente faz? A gente vende por telefone e por internet. A gente tem um site, então você consegue vender. Agora, de gente de passagem? Porque dia de sábado era o melhor dia que nós tínhamos ali. Agora de sábado você vai só para arrumar a loja e acabou. Olha, esse sábado era 11 e meia a gente não tinha vendido uma rosa, você acredita? 11 e meia. A outra lá a gente nem abre mesmo, dia de sábado. Porque o público de lá é Fórum, Assembléia, essas coisas. Então não, realmente não vale a pena você abrir. Só se abre a Carioca. Mas as coisas vão mudando bastante. Então o Centro precisa ser revitalizado. Porque se ele não for, a tendência do Centro é acabar. As pessoas, se não tirar esse mundaréu de gente aí da rua, essa população de rua... Porque assusta. Está assustando as pessoas. Pararem, né? Outro dia eu fui parar o carro, tipo assim, parei o carro no sinal ali na... Em frente a Visconde do Rio Branco. Aí veio um cidadão me oferecer alguma coisa para eu comprar. Eu falei: “Não, obrigada, eu não quero.” Ele começou a insistir, eu falei: “Já disse que eu não quero. Obrigada.” Aí ele falou assim... Eu falei: “Pô, eu estou dura.” Aí ele falou: “Pô, isso é a maior demagogia, sabe? Isso é a maior demagogia. Você, com um carro desses, dizer para mim que está dura? É por isso que vocês são assaltados, são sequestrados, é por causa disso, entendeu?” Então é aquele negócio. Eu falei: Pô, meu irmão”, – ainda falei assim – “você não está na rua aí tentando vender alguma coisa? A mesma coisa sou eu. Eu estou na rua também tentando. Só que você fica afugentando as pessoas falando dessa forma.” Então acaba não sobrando cliente para você, acaba não sobrando cliente para mim. Porque as pessoas vão, ficam assustadas, né, vão para onde? Ou para o shopping, qualquer coisa assim.” Ele ficou olhando para mim, mas é isso aí. Isso assusta as pessoas.

P/1 – E outras lojas? Tem outras lojas do ramo de flores lá no Centro?

R – Tem bastante. Que eu saiba tem assim: tem no Largo da Carioca, tem na Rua São José. Tem, acho que, três na Sete de Setembro, já no final, mais voltado à Praça XV. Tem duas na Rua do Carmo, tudo ali perto. Acho que tem na Praça dos Professores uma também. Tem na rua Miguel Couto, na Beneditinos também tem. Ah, tem muita coisa, gente. Ali no Centro tem muita coisa.

P/2 – Qual é o perfil dos clientes ali do Centro? Quem compra?

R – Quem compra? Mais... Bom, eu, ali, atendo mais empresas. Ou seja, empresários, secretárias e tal. Mas eu atendo muita gente também de bairro tipo Copacabana, Ipanema. Mas isso porque eu trouxe os clientes que eu tinha, entendeu? Então as pessoas continuam comprando comigo. Mas ali o Centro é isso, na maioria está se resumindo só a pessoas que estão trabalhando ali, mesmo.

P/2 – Trabalhando.

R – É. E tem muita empresa mudando, né? Porque a gente trabalha...

P/1 – Quais são as maiores empresas e lojas que ainda existem no Centro? Que a senhora acha, assim, que tem bastante importância?

R – Loja?

P/1 – Principalmente em relação a comércio?

P/2 – Loja.

R – Bom, tem aquela, aquela ali que era na... Ah gente, esqueci o nome dela... A Renner.

P/1 – Hum, hum.

R – Que é ali na Buenos Aires, né? Buenos Aires?

P/2 – Acho que não é não.

R – Não, na, “tsc”, Uruguaiana. A gente tem a C&A ali também, ali perto. Acho que a Loja Americana leva bastante gente. Tem duas, né? Tem uma mais ali na Rua do Passeio. Quer dizer, as duas são relativamente perto. E empresas, bom, eu vou dizer as empresas assim que eu atendo: Petrobrás, eu acho que é hiper importante. BNDES. Nós temos, eu tenho ali a Canadá Life, que é uma empresa grande de... Acho que é de telefonia, cliente meu. A Multiplan, que é a do shopping. A gente inclusive trabalha para eles. Mas acho que a Multiplan está mudando. Eu tinha o Banco Boa Vista, os Mata, Paula de Mata Machado, estão mudando também.

P/1 – Você acha que tem muita gente mudando?

P/2 – Saindo do Centro?

P/1 – Eles estão o quê? Migrando para outros lugares da cidade?

R – Isso. É, empresário assim, de porte grande, está passando a despachar da própria casa dele com medo de sequestro, essas coisas assim. E quando é assim, de certo porte, eles estão muito voltados para a Barra, né? Por causa da Barra que eu acho que é um transtorno. Porque Barra, para você chegar... Mas a gente está perdendo muita coisa no Centro. Isso é que eu digo, se não for revitalizado, se não for feita alguma coisa, acho que... Um negócio assim, meio que correndo... Vai perder muito mais, com certeza.

P/2 – Por que sábado e domingo não existe?

R – Não, não existe. Sábado então, “putz”. Domingo já era normal mesmo. Mas o sábado? Sábado você, olha, esse sábado uma hora da tarde a gente não tinha... Não tinha uma loja aberta a não ser o Bar Luiz, porque isso aí é tradicional. Você chega lá meia-noite...

P/2 – Está aberto.

R – Ele continua ali, aberto. Aqueles teatros que tem ali na Praça Tiradentes, eu acho que eles deveriam ter sempre, estar sempre funcionando. Mas não, nunca tem peça, porque isso é da Prefeitura. Porque eu acho que isso levaria bastante gente para ali. Tem um projeto ali naquele prédio que era o antigo Detran, aquele Projeto Tiradentes que eles não consegue fazer, tirar isso do papel. A Rua do Lavradio está pronta, né? Não sei se vocês já passaram lá na Rua do Lavradio.

P/2 – Já.

R – Ficou super bonita e tal. Mas eu acho que ela não está conseguindo deslanchar até por falta de segurança.

P/2 – A gente vai ter um depoente de lá também.

R – Quem é? O Plínio? O Plínio é gente boa, gente maravilhosa. Ele vai falar alguma coisa do que eu estou falando. Conheço o Plínio há uns 15 anos, 15, 20 anos. É.

P/2 – É legal que...

R – Mas o Plínio é uma das pessoas mais fortes que tem ali na Rua do Lavradio. E tem lojas fechando. Porque ele ainda tem o teatro, o café ali...

P/2 – É.

R – Que ele está sempre assim, sabe? Promovendo. Está sempre com ideia. E ele trabalha assim, com muita gente da televisão. E ele está achando muita dificuldade. Difícil, sim. Se não se tomar realmente alguma medida, vai ficar mais complicado. Porque quem perde, até quem perde somos nós mesmos. Nós, que gostamos do Centro do Rio.

P/2 – É.

R – Com certeza.

P/1 – Dona Cláudia, agora vamos falar um pouquinho do dia a dia lá da Rua do Verde mesmo. Vou pedir para a senhora, primeiro... Qual é o nome do seu quiosque?

R – O meu é Cláudia Flores.

P/1 – Cláudia Flores. E a senhora pode descrever um pouquinho como é a fachada, o interior do quiosque? Como é a disposição dos produtos, das plantas, tudo?

R – Não, ali não é nem quiosque, ali são boxes. Então eu tenho assim, pela Rua da Carioca eu tenho aquela parte toda. A Rua da Carioca, onde eu exponho algumas plantas, onde fica o meu florista com as flores de corte, fazendo os arranjos. Depois você... Entrando eu tenho um box onde eu coloco só vasos. Depois eu tenho outro box que eu coloco só cachepôs de palha, móveis para jardim. Depois um outro que eu coloco estátuas, chafariz. E lá eu faço uma mistura. É meio um mercado de pulgas , sabe. Placas, mil coisas ali. Plantas de flor pequena, mudas, são vários box.

P/1 – Então hoje a rua é tudo da senhora também?

R – Não, não é toda minha não. Tem outra pessoa lá, mas eu nem sei quem funciona lá, porque passou para um irmão, é outro irmão, não sei. A outra da Travessa das Flores é que é toda minha.

P/1 – Tem alguma planta, flor mais vendida? O que é que sai mais?

R – Olha, o que sai mais, por incrível que pareça: orquídeas.

P/1 – Orquídeas.

R – Apesar de ser uma planta...

P/1 – É cara.

R – Cara, mas tem um público muito, sabe, muito fiel. Você não tem ideia como as pessoas gostam de orquídeas.

P/2 – E a senhora entrega em casa?

R – Entrego em qualquer lugar, até no exterior.

P/2 – Que legal.

P/1 – E como é que se dá isso, de entregar no exterior? Como é que isso funciona?

R – É que isso é via internet, isso é intercâmbio. Por exemplo, eu trabalho aqui com uma, duas, com três empresas aqui no Brasil. Uma aqui em Manaus, uma em Brasília, outra em São Paulo. Então todos os pedidos que eles recebem via internet, nessas cidades deles que é aqui para o Rio de Janeiro, eles me mandam. Aí eu faço o serviço, e o que eu receber para a cidade deles eu mando para eles. E o exterior é a mesma coisa. A gente tem floriculturas que a gente trabalha, entendeu?

P/1 – Então no caso, se tem uma de Portugal para mandar para o Brasil, a senhora faz o trabalho para eles, e vice-versa?

R – Claro, isso, isso.

P/2 – E como é que faz propaganda? Tem propaganda no jornal? Como é que se divulga?

R – Olha, eu tive, eu já investi muito em propaganda. Quer dizer, muito. Investi mais do que eu estou investindo atualmente. Mas a minha propaganda sempre foi assim, meu trabalho, né? Trabalhar com critérios, com honestidade, acima de qualquer coisa. Então essa propaganda foi muito boca a boca. Hoje eu tenho um site na internet e não faço mais nada.

P/2 – Qual site? “www...”

R – É, claudiaflores.com. É normal. E hoje realmente eu não faço, não faço mais páginas amarelas, eu não faço mais nada. Porque eu acho que eu não estou nem precisando disso (riso). Não é que eu esteja ganhando bem, muito, não. Mas sabe, eu acho que eu já cheguei em um estágio aonde eu tenho certeza que no Centro você está vendo sempre a minha logomarca. Eu sou bastante conhecida. Até porque a gente coloca para trabalhar pessoas assim: eu peguei um anãozinho para trabalhar. Porque ele é super discriminado, né? Primeiro por causa da cor, segundo por causa do tamanho. E eu fiz um trabalho de paisagismo quatro anos atrás na catedral ali da Igreja Universal, na Suburbana, que eu plantei lá palmeiras de 12 metros de altura e tal. Eu fiquei trabalhando lá oito meses, e eu conheci esse rapaz lá. Ele veio me pedir emprego e eu dei emprego para ele. Quando eu terminei o meu trabalho lá, eu trouxe ele para trabalhar. Aí lá vai, sair um homem de, imagina, ele tem, acho que, 90 centímetros de altura, super parrudinho. Você vê um homem com carrinho cheio de plantas. Aí tu só vê as plantas andando no meio dos carros, né?

P/2 – (risos)

R – Aí logo que ele foi trabalhar lá ele saiu para fazer entrega com esse carrinho. Aí toca o telefone, era cliente meu lá da loja. “Cláudia, é Dimas. Olha, essa coisa só podia ser tua ideia. Gente, Deus vai te abençoar muito.” Eu falei: “Mas o que foi Dimas?” “Olha, eu não acreditei quando eu vi, sabe, um toco, eu vi uma porção de plantas andando sozinhas no carrinho. Quando eu vi assim, vejo a tua camiseta com a tua logomarca, vejo aquele toco andando, só podia ser ideia tua. Pôxa, Deus vai te abençoar, porra, mas muito. Você cresceu e tal.”  Porque realmente eu não faço discriminação. Então assim, você tem que dar até chance para quem nunca teve chance na vida. Esse menino está comigo até hoje, e ele é assim, como se fosse o xodó, né?

P/2 – (riso) O mascote.

R – O mascote dos clientes. Tem muito cliente que liga: “Não, quero que você mande o Henrique. Fazer manutenção, na mão do Henrique.”.

P/2 – Como é que é o nome dele? Henrique?

R – Henrique. É Carlos Henrique. Ele, outro dia, saiu no jornal. Foi lá o jornal da Carioca, fotografou ele lá na loja e tal. Aí ele... E os clientes adoram ele, sabe? A gente tem a Borélia, cliente da gente. No final do ano você pensa que manda o presente para mim? Nada disso, manda o presente para o Carlos Henrique. Mas é legal, é super legal. Então são essas coisas que de repente a gente fica um pouco diferenciado no mercado. É aquilo que eu falei, eu não estou assim voltada... Eu preciso trabalhar, logicamente. Tudo o que eu tenho eu consegui realmente com esse meu trabalho, e eu me considero hiper satisfeita por causa disso.

P/1 – Quais seus maiores clientes: homens, mulheres, empresas?

R – Meus maiores clientes são empresas, mais homem. Homem compra mais do que mulher, sabia?

P/2 – É. (risos)

P/1 – Para presentear, né?

R – Para presentear. E tem um detalhe, o homem fala assim, cliente meu...

P/2 – E eles entendem? Como é que é?

R – Ahn?

P/2 – Eles entendem de flores?

P/1 – Ou pedem para você escolher?

R – Não, é muito engraçado, é engraçado. Eles chegam lá nas épocas e falam assim: “O Cláudia, manda, você sabe o, você sabe...” Por exemplo, vou dar o exemplo de um cliente meu aqui, que é do Citibank: “Poxa, você sabe do que a Selma gosta, não sabe? Não, sabe o arranjo que ela gosta.” Eu falo: “Ah, eu sei, tá.” Então você tem que lembrar realmente com detalhes do que é que a mulher do cara gosta.

P/2 – Do que cada um gosta.

R – E sempre costuma dar certo. Mas costuma dar certo não é porque você lembre com detalhe. Por que é que dá certo? Porque você trabalha com produto de qualidade, com produto que realmente a maioria das pessoas acha bonito.

P/2 – Hum, hum.

R – Acho interessante. Então pôxa, vai ter um, de repente, que vai achar feio, como isso acontece. Mas é difícil a pessoa não gostar de gerbera, de lisianthus, de lírios, né, gente? Você fazer um arranjo desse, qual pessoa que não gosta? Então você acaba acertando, porque você trabalha com coisas de bom gosto. Não é porque você sabe detalhe. Ah, vou me lembrar do que a Selma gosta? Então... E também os cachepôs, que a gente procura sempre... Eu nunca faço nada repetido, sabe? Tipo assim, eu trabalho com cachepô, para uma orquídea, rústico. Eu não coloco outra planta, eu não faço um arranjo de flor de __________ nesse mesmo cachepô. Eu já faço uma coisa mais elaborada, não sou repetitiva nos arranjos. Porque você também não consegue fazer um arranjo igualzinho ao outro. De jeito nenhum, isso...

P/1 – E a senhora percebeu mudanças no tipo de cliente?

R – Hum?

P/1 – A senhora percebeu alguma mudança no tipo de clientes, ao longo dos anos?

P/2 – Exigências. Eles estão querendo mais?

R – Ah, sim. São mais exigentes sim, logicamente. Olha, com essa coisa da internet, que te deu muita comodidade hoje, você... Por isso que eu digo, não são as pessoas que estão passando que a gente vende. Realmente você está no teu escritório, no teu local de trabalho. Você pega um telefone, você está acessando qualquer coisa que você precise, a não ser um apartamento, que você não tem como ver. Assim mesmo, se tiver no site lá, você vai olhar. Mas hoje as pessoas não vão sair, não saem para a rua para olhar. Então...

P/1 – Então a senhora acha que eles têm menos tempo? As pessoas têm menos tempo?

R – Menos tempo, com certeza. Mas isso não quer dizer que a gente não tenha que estar sempre com uma exposição de bastante coisa. Você é obrigado. Se você quiser continuar no mercado, quiser estar competindo dentro das pessoas de um certo porte, você está sempre investindo. Porque eu não posso, de repente, me dar ao luxo de ficar com um site lá e acabou. Então todo dia eu tenho que investir em mercadoria, em coisas diferentes. Eu estou toda hora, toda hora eu estou fazendo isso, porque se não você também fica naquelas, na mesmice, acabou-se, não tem como.

P/1 – Então assim, na prática, hoje as pessoas compram mais ou menos flores?

R – Hoje as pessoas compram mais flores. Mas eu acho que ainda é pouco. O brasileiro não tem hábito de comprar flor como tem, acho que, o americano, o europeu, em si. Se você olhar a proporção, do mundaréu de gente que existe no Brasil e o que você vende, o percentual é muito pouco.

P/2 – Por que será?

R – Eu acho que é a cultura.

P/2 – É cultural.

R – É, é um problema de cultura.

P/2 – Mas já melhorou. Você acha que já melhorou?

R – Sim, com certeza que sim. Pôxa, eu acho que esses rapazes, esses homens jovens – jovens que eu digo assim, de 30 anos, vamos dizer assim, uma faixa até 35 anos –, eles estão com outra mentalidade, completamente diferente do que tinha antigamente. Antigamente quem comprava flores era mulher e, pô, em raras exceções seriam homens que compravam alguma coisa, até com medo: “Ah, vou carregar um ramo de flores?” Hoje a gente manda flores até para militar.

P/2 – Antigamente era só mulher que recebia flores, né?

R – Não, muito pelo contrário. Olha, esse ano o Dia dos Namorados, quem recebeu muitas flores, quem comprou muita flor foi homem. Eu tive muito pedido de homem comprando flores, muito mais do que mulher. E eles querem carregar, não querem que a gente entregue. Numa boa. Com certeza o homem compra mais. Eu gosto mais de atender cliente homem do que cliente mulher.

P/2 – (risos) Por quê?

R – É, porque eles são assim, não existe meio termo. O cara quer aparecer muito, é difícil homem pechinchar, muito difícil.  

P/2 – (risos)

P/1 – (risos)

P/2 – Mulher não?

R – Mulher pechincha.

P/1 – Mulher é mais pão dura?

R – É muito difícil você dar o preço assim para uma mulher, ela de repente: “Ah, pôxa, não dá para você fazer isso aqui. Ah, não sei o que, não...” Homem não tem essa. Homem chegou, bateu, ele já sabe o que ele quer. Acabou-se. Ou então te liga. A gente atende o Pactual também, que é um ótimo cliente que nós temos. Quer dizer, o Pactual, em si, não, mas os clientes do Pactual. Pô sabe, numa boa. Liga: “Ah, quanto é o ramo de flor?” “50.” “Ah, pode mandar.” Acabou-se. As meninas não: “Pôxa, Cláudia, faz mais barato que não sei o que mais. Posso passar um cheque para não sei quantos dias.” Homem não tem essa.

P/1 – (riso)

R – É verdade.

P/1 – E como as pessoas chegam à loja? Você tem estacionamento? Onde elas param, como é?

R – Olha, eu não tenho estacionamento. Às vezes, quando o cliente me liga que quer ir de carro para ver alguma coisa, eu costumo mandar que eles parem em um estacionamento lá na Igreja Presbiteriana, porque a gente aluga lá  três vagas. Então eu peço até para eles deixarem o carro lá. Mas até deveria ter ali, porque Centro é complicado. Mas normalmente é difícil o cliente ir de carro, porque ele sabe até que a gente entrega, faz entrega. Então ele vai... Ou vai de táxi ou vai de metrô, de condução. É difícil...

P/1 – Então essas três vagas são mais para aqueles clientes cativos, né?

R – É. tipo assim: “Ah, eu quero comprar ‘x’ vasos, mas eu quero ver a planta.” Tem cliente que a gente fala assim: “Ó, vou te mandar isso assim, assim, assim.” O cara aceita numa boa, sabendo até que você vai mandar coisas de qualidade. Mas tem aquele que realmente quer ver, mais do que certo. Ele quer ver o vaso, o detalhe de vaso, o detalhe de planta, aí ele vai. Mas normalmente é difícil ele ir de carro, é difícil.

P/1 – E quais as plantas mais vendidas? A pergunta é a seguinte: se, ao longo dos anos, o gosto mudou?

R – Hum, mudou.

P/1 – O gosto pelas plantas, o tipo de planta? Como era assim, o que foi mudando?

R – Bom, você, antigamente, vendia o quê? Muita mudinha, mudinha de nada. Mudinha que o produtor faz para ela ser descartável, porque esse é o comércio dele. Muita roseira, roseira de encher, tal. Muita violeta. Hoje... Olha, eu já tive épocas ali de eu vender 50 caixas de violeta por semana. Eu comprava 50 caixas de violeta por semana. Você multiplica isso por 15. Hoje eu passo semana sem trabalhar com uma caixa de violeta. E passo semana sem trabalhar com mudas. A gente traz mudas quando a gente tem um trabalho, a gente fez um projeto e tal, mas esse projeto exige algumas mudas, então a gente passa a trazer. Hoje nós estamos mais... Como é que se diz, nós, hoje, não precisamos estocar tanto. Hoje a gente trabalha por etapa. A gente tem uma chácara pequenininha lá em cima, em Campo Grande, na Grota Funda, que eu costumo chamar. Então a gente vai armazenando as coisas ali. À medida que a gente vai desenvolvendo o trabalho, a gente vai lá com o caminhão, pega, leva para a casa do cliente ou leva para o lugar que estiver fazendo o serviço. Mas as pessoas hoje não compram assim, não compram nada, elas compram, realmente, plantas (avulsas?). E compra também quando ela está precisando. Planta assim, ornamental. A planta ornamental hoje está com muito mais saída do que ela tinha dez anos atrás, bem mais. Tipo, areca é a que vende mais, o pessoal chama ela de coqueiro, aquela palmeira. Mas hoje o que é que eu vendo mais de planta ornamental? Eu vendo muita ráfia, muita fenice, vendo sagu. Assim, plantas que eu estou dizendo de porte, de certo porte, isso tem bastante saída. E as orquídeas que eu falei, oncidium, (jucibídeos?), essa coisa assim sai bastante.

P/1 – Além de São Paulo, tem outros lugares que a senhora consegue esses produtos? Outros fornecedores?

R – Aqui tem bastante coisa, aqui no Rio tem bastante coisa. Mas as coisas de São Paulo, além delas terem diferença, elas vêm com preço bem melhor do que aqui do Rio.

P/2 – Ah, é? Aqui no Rio que lugar que tem assim?

R – Olha, tem muita coisa ali em Vargem Grande, chamado Vargem Grande. Tem assim, hortos, bastante hortos. Mas de repente eles têm o mesmo preço que eu tenho aqui na cidade, entendeu?

P/2 – Ah, tá.

R – Porque eles estão mais voltados para trabalhar com paisagistas, mesmo. Mas tem muita coisa ali em Campo Grande, de planta ornamental, sim. E Campo Grande, e temos Grota Funda, Ilha de Guaratiba, tem muita coisa.

P/1 – Como a senhora teve a ideia de trabalhar com internet?

R – Olha, eu tive a ideia porque você não pode ficar para trás, tem que estar sempre alerta no mercado. Tem, a gente fez o site acho que tem uns três anos, quatro anos. Quando a gente começou a ver que uma loja virtual, seria mais uma opção que você tinha, tem mais um campo. Não vai dizer que você venda muito com internet. Hoje, de repente, se eu for comparar, ver o quanto eu gastei em um site, o quanto eu gastei na internet, o quanto eu vendi, eu realmente ainda estou no prejuízo. Mas é o tal negócio, você está dentro do mercado e está divulgando a tua marca.

P/2 – É uma opção, né?

R – Com certeza. E está divulgando a tua marca.

P/2 – Tem uma pessoa que cuida?

R – Tem, é o Marcos, o meu genro.

P/1 – E como essas plantas são acondicionadas, embaladas?

R – Bom, a gente tem... A gente tira elas do chão – normalmente a gente tem alguma coisa no chão –, tira do chão, você... Existe um processo que a gente chama que é um processo de sangramento, que é tirar ela com o máximo de terra que você possa tirar para ela não sofrer muito. Vai cortando as raízes dela. Aí você embala, deixa ela embalada em um... O torrão dela em uma maior parte de 15 dias, até a gente dar bastante substrato. Você arrancou, aí você põe bastante substrato debaixo daquelas raízes. Embala ela e deixa 15 dias. A gente costuma dizer que é enviveirada. Depois desse tempo você vai e joga nos vasos, planta nos vasos.

P/1 – E os vasos, as embalagens, os arranjos, são personalizados com a logo da loja?

R – Não, só na etiqueta, ainda não fiz papel. Não porque eu acho que eu não gosto. Particularmente, eu não gosto.

P/2 – Não vai com a marca então da...

R – Não, só a etiqueta. Eu coloco uma etiqueta assim, quando é arranjo pequeno, arranjo de flores. Mas quando é planta grandona, não. Só quando eu coloco em cachepô, aí eu coloco. São uns cachepôs assim de... Quando o serviço também pede isso.

P/2 – E vasinho? Tem vasinhos, assim...

R – Tem. Tenho todos os tamanhos. De terracota, rústico, o que você possa imaginar tem. Ali é meio mercado das pulgas, tem tudo ali.

P/1 – E como são os tipos de móveis que senhora falou que vende também?

R – Eu vendo moveis para jardim e moveis de cana-da-índia, de bambu. Vendo de ferro. É só isso. Mesa, essas coisas assim.

P/2 – E como é a forma de pagamento da loja?

R – Eu tenho todos os cartões e cheque pré-datado. A gente, às vezes, tem cheque pré-datado até 150 dias.

P/2 – Nossa. Quando é que começaram a trabalhar assim? Com cartão, com...

R – Sempre começamos. (riso)

P/2 – Sempre?

R – Porque senão você não consegue.

P/1– E na época da feira assim, era a dinheiro, né?  

R – Dinheiro. Época ótima.

P/2 -– Dinheiro e  só dinheiro.

P/1 – E quando tinha mudança de moeda, você via... Tinha crise, tinha problema de comércio?

R – Não, não tinha não. Engraçado, na feira não existia isso. Eu me lembro quando mudou para... A gente mudou para Real? Não, Real não, eu já estava ali. Acho que foi quando o Collor entrou, confiscou, todo mundo ficou sem dinheiro. A mim ele não confiscou nada. Na época eu não tinha poupança, não tinha nada (riso). Eu lembro que me ofereceram, na época, um carro. Eu tinha um Monza na época, eu tinha um Monza. Me ofereceram um Kadett zero quilometro. Assim, tipo, se eu ia dar meu Monza e a pessoa depois ainda ia me voltar dinheiro. E eu não quis porque eu teria que assumir dívida. Mas sabe uma coisa maluca? Na feira eu acho assim, não tem crise. Você sempre... Nem tem crise, nem tem cheque, não tem nada. Não tem cartão, não tem nada.

P/1 – Como é a sua experiência na relação patrão e empregado, e tudo?

R – Bom, vou dizer que eu sou ótima, né? (riso)

P/1 – (riso)

R – Não, mas eu não... Até sou. Eu sou porque eu acho assim, se a gente trabalha, eu passo a maior parte do tempo no trabalho, e eu procuro fazer da melhor forma que eu faço, tipo, que eu possa fazer. Eu dou o café da manhã para eles. Até porque eu estou muito presente ali, de repente eu sei problema que cada um tem. Falta de dinheiro, ou porque o filho nasceu, ou porque... Sabe? Porque está doente, ou porque a mulher brigou. Essas coisas assim. Então realmente a gente está convivendo ali, não tem jeito. Eu costumo dizer assim: “se vocês trabalhassem em um lugar aí em que vocês não vissem a cara do patrão, sabe, o patrão nem soubesse que vocês existem, a coisa não aconteceria.” E estou sempre assim, sou um pouco mãezona deles. Porque eu fico fazendo algumas coisas para o pessoal que trabalha meu não saber. Tipo assim, ou dar dinheiro, ou pagar almoço. Sabe essas coisas assim? Porque eu fico morrendo de pena, eu vejo que tem pessoas ali que não levam... Nem levam comida. Não... Sei lá, não tem estrutura. Gasta o dinheiro ou em bebida ou coisa parecida. Aí eu vou, fico...

P/2 – Quantos funcionários tem atualmente, mais ou menos?

R – Eu acho que a gente tem... Ai, registrado, uns 20, umas 20 pessoas.

P/2 – Umas 20.

R – É.

P/1 – E você dá treinamento para eles?

R – Damos, damos. A parte de jardinagem a gente dá, e florista também. Quando o cara vai começar a gente vê o trabalho. Sempre fica assim, a titulo de experiência. E a gente procura até mostrar um pouco a personalidade da empresa, quer que faça dessa forma. Mas damos sim.

P/1 – Fala um pouquinho agora da sua família.

R – Da minha família. Qual família?

P/1 – Da família de...

P/2 – Seus filhos. (riso)

R – Minhas filhas.

P/2 – Ah é, são filhas.

R – Filhas, só tenho duas. Tenho três filhas, tem a Ana Paula, que é a mais velha, está com 33 anos. Está esperando uma nenezinha, vai ser a Júlia, que vai nascer em setembro. Possivelmente no mesmo dia que eu, imagina. Eu falei que ela vai ter uma virginiana sempre para bater de frente com ela, porque ela bate muito de frente comigo.

P/1 – É sua primeira neta?

R – Não, eu tenho um neto de quatro anos.

P/1 – Ah.

R – Vai fazer cinco anos. O Igor, que é filho da Patrícia, que fica lá na Travessa. Automaticamente os dois maridos trabalham também lá. E meu marido. Também trabalha, ele cuida mais dessa parte administrativa, dessa coisa assim.

P/1 – Então o negócio é em família?

R – Negócio em família. É complicado, porque a gente não consegue desvincular. Se você brigou ali, está brigando por qualquer coisa, você está levando essa briga para casa. Em final de semana, se você bobear, você vai ficar ali...

P/2 – Só fala de trabalho, né?

R – Só fala de trabalho e só fica de mal. Também final de semana, é brabo.

P/1 – Então a senhora acha que suas filhas vão dar continuidade a esse negócio?

R – Eu acho que não, acho que não, até porque a minha filha mais velha ficou bastante tempo lá com a gente. Hoje ela dá... Agora, na parte da tarde, ela já dá aula, é professora de inglês. Sábado ela já não trabalha tem bastante tempo. Eu acredito que depois que a neném nascer ela vai ter que fazer opção, né? Porque ela ficava trabalhando todos os dias na parte da manhã. Sexta-feira ela fica o dia inteiro. Mas depois ela não vai querer dar aula a noite, vai querer ficar com a filha, logicamente. A minha... A Patrícia, de repente... não sei. Carol, não sei, ainda está meio indefinido, porque ela está estudando, só tem 17 anos.

P/1 – Ela é mais nova?

R – Carol é a mais nova. Acho que de repente a Carol, ela se parece um pouco mais comigo, assim, em personalidade. Mas eu não sei se ela levaria isso à frente ou não.

P/2 – Mas elas gostam? Não têm esse prazer com... Nada?

R – Têm. A Paula, por exemplo, trabalha muito bem com arranjos de mão. Ela faz muito bem buquê de noiva, faz melhor do que o florista. Até melhor do que eu, também. Patrícia é mais assim... Ela é mais arrumadinha, é mais detalhista, sabe? Você passa lá onde ela está, ela está com as coisas sempre nos seus devidos lugares. Mas ela não tem... Como é que eu vou te dizer? Ela não é atirada comercialmente, entendeu? Ela é medrosa.

P/2 – Ah, tá.

R – Aliás, eu acho que elas são. As duas também são assim, meio medrosas. Tipo assim, de não apostar naquilo que ela tem na mão ou de saber o potencial, saber o que ela pode fazer ou não. Acredito que... Não sei, não sei se dão continuidade.

P/2 – Mas você gostaria que elas dessem?

R – Gostaria. Gostaria, com certeza. Até porque foi... Existe toda uma estrutura para isso. Porque é aquilo que eu falei no início, se eu realmente não gostasse ou não me interessasse, eu de repente não teria chegado a esse topo. Eu seria mais uma que estaria aí no mercado e acabou. Hoje eu estaria com uma lojinha pequenininha, acabou. Era só para mim e “pt saudações”. Mas até porque eu queria que fosse divulgado e desse continuidade. É tão legal. Mas vamos ver.

P/1 – E a senhora possui outra atividade além desse trabalho?

R – Se eu possuo?

P/1 – Outra atividade?

R – Não, não, só essa.

P/1 – E diversão, o que faz para se divertir?

R – Ah, diversão? Eu estou sempre me divertindo. Olha, eu adoro teatro (riso), estou sempre, sabe? Não tem dia assim para mim, um dia certo para eu sair. De repente encontro uma pessoa amiga, vamos parar na Rua do Lavradio, ou vamos para o Bar Luis, ou vamos para Copacabana, ou vamos para Ipanema. Vamos para a Barra. Ah, senta, conversa, toma chopinho, né? Que eu não gosto muito, eu gosto mais de um bom vinho e tal. Eu não tenho hora, quando está pintando está pintando. É difícil eu ficar em casa final de semana, e quando não existe diversão, vai uma porção de gente amiga lá para casa e fica lá.

P/2 – Gosta de fazer festa, né?

R – Gosto de fazer festa. E mesmo quando não tem motivo para a gente fazer festa, a gente está sempre armando. Churrasco, ficar lá na beira da piscina, sabe? Nadando lá, conversando, jogando conversa fora. Adoro música. Onde eu sei que tem um barzinho... Até as pessoas me ligam. “Olha, hoje vai ter um happy hour.” “Vamos lá.” Lá vou eu. A gente fica cansado, mas precisa se divertir. Eu vou numa boa.

P/1 – Como consumidora, a senhora é o quê, exigente? Onde é que costuma fazer compras, loja que mais gosta?

R – Eu não sou muito exigente não, mas eu sou meio detalhista. Tipo assim, por exemplo, eu não vou a festa de rua. (riso) Você pode me convidar para uma festa de rua, uma festa junina, que eu não vou. Mas não é que eu seja pedante ou coisa parecida, é porque essa coisa assim eu não gosto, não vai. Eu gosto de coisas boas, gosto de... Sou meio perfeccionista. Mas eu não sou assim uma pessoa exigente. Exigente em roupa? Não, eu gosto de coisa boa. Quando eu compro, eu compro uma coisa boa, uma coisa que vá durar, que eu vou ter anos aquela coisa. Por que é que eu vou comprar um mundaréu de coisas que de repente eu vou jogar fora? É só isso.

P/1 – E onde a senhora costuma comprar? Shopping, no Centro?

R – Não, eu não compro em shopping. Eu odeio shopping, não tenho a mínima paciência para shopping. Olha eu compro muita coisa na Rua da Alfândega, gente. Pode acreditar. O pessoal fala, sabe? – Aliás, as pessoas que não são assumidas, como eu, tinha clientes assim que moram em Zona Sul – “Deus me livre, onde fica a Rua da Alfândega?” Canso de encontrar lá. Outro dia encontrei uma amiga: “Mas Clara, tu descobriu a Rua da Alfândega?” Por que eu não vou dizer que eu compro na Rua da Alfândega? Tem coisas maravilhosas, só porque... É uma coisa, sabe? Eu compro muita coisa em Rua da Alfândega. Muita coisa mesmo. Roupas, assim, para mim? Com certeza. Roupas de cama, mesa e banho? Legal, também compro. Tenho assim, tenho um rapaz até que faz para mim algumas coisas quando eu quero, mais elaborada e tal, aí esse rapaz você tem um outro preço. Mas as minhas coisas são assim. Compro lá, mesmo não sendo do shopping. Vocês jamais vão me ver no shopping, não vou.

P/1 – E quando a senhora tem que dar presentes, é o quê? Costuma dar flores? Plantas?

R – Dependendo da pessoa até se eu sei que gosta sim, dou flores, dou plantas.

P/2 – Você mesmo prepara?

R – Isso.

P/2 – De acordo com a cara da pessoa?

R – Isso. Mas tem gente que quer assim, receber uma flor, e não quer receber uma jóia. E _______.

P/2 – E tem flor que combina com o tipo de pessoa?

R – Tem, tem flor que combina sim, tem a cara. A gente costuma dizer assim: “Pô, isso aqui é a tua cara.” Por exemplo, eu tenho uma amiga minha que ela é arquiteta. Então não tem... Eu não sei o que vou dar para ela. Bom, o que é que eu vou dar para ela? Eu sei que ela adora amarílis. E ela faz aniversário até perto do meu aniversário, é uma época que não tem amarílis, mas eu sei que eu consigo as flores. Aí eu já vou, sabe? Eu já deixo os bulbos ali e tal. Aí vou esperando e eu faço um belo arranjo de amarílis e dou para ela. Ela fica assim, feliz da vida, é a coisa melhor do mundo para ela.

P/1 – Você acha que tem assim, tem alguma a flor de acordo com a personalidade? A pessoa mais tímida gosta mais de tal flor ou...

R – Eu acho que não. Acho que tudo são coisas assim criadas, criadas até pelo comércio como... Acho que não.

P/1 – Igual aquilo que mãe tem que receber rosa, acha que isso...

R – Não tem nada a ver. Ou namorado: “Ah, vou dar para a minha namorada a vermelha, cor da paixão.” Nada disso, gente. É a coisa que eu falei, é tudo criado. Imposto, realmente, pelo homem, pelo comércio, até para fazer sair mais aquele produto. Mas eu acho que não, acho que para mim funciona assim: bati o olho eu gostei, acabou. Tem que ser dessa forma. Vermelho, paixão. Amarelo, dinheiro. Branco, paz. Não tem nada a ver esse tipo de coisa. É que é coisa mesmo feita, com certeza.

P/1 – A gente vai passar agora para a parte final. Se a senhora pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, o que mudaria?

R – Eu acho que nada, acho que eu faria tudo de novo.

P/2 – Faria tudo de novo.

R – Faria tudo de novo, com certeza.

P/1 – E o que a senhora acha de ter participado desse projeto da Memória do Comércio da Cidade do Rio de Janeiro, falando da sua experiência como comerciante?

R – Pôxa, muito bom. Apesar de eu não saber o que é que era, sabe, essa coisa maluca. “Com quem eu vou falar...” Vocês já tinham falado comigo várias vezes, eu não sabia quem era. Legal, gente, legal. Eu acho que vai ficar assim... Para mim eu acho que foi uma das melhores coisas que me aconteceu nesses, vamos dizer assim, nesses dez anos. Realmente, pode acreditar.

P/2 – A senhora vai ser nossa convidada para o lançamento, aqui no Sesc, do livro.

R – Pô, legal.

P/2 – Obrigada pela participação.

R – Nada, obrigada a vocês.

P/1 – Obrigada.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+