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História

Relatos de um conflito interno

História de: D. J. Positivo
Autor: Leonardo Godoy
Publicado em: 15/02/2019

Sinopse

D.J. Positivo nos conta sobre sua vida em uma Venezuela diferente da que hoje enfrenta uma grave crise humanitária: conta sobre suas experiências amorosas na infância, as dúvidas atreladas à juventude, sua relação com a arte e com o trabalho, o casamento e o nascimento da filha e sua jornada de aceitação com sua orientação sexual O entrevistado, que vive no Brasil há mais de quatro, nos relata ainda o momento que se descobre soropositivo, os desafios e conflitos internos até a aceitação da condição.

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História completa

Depois de 2 anos no Brasil, como refugiado vindo da Venezuela, D. J. Positivo caminhava pelas ruas da cidade de São Paulo em um dia comum, daqueles bem agitados e com muito movimento. Foi na região central da cidade que ele avistou tendas do Sistema Único de Saúde (SUS) que ofereciam testes de HIV grátis. Decidiu fazer o teste para tirar a dúvida das costas, ele já desconfiava de sua saúde pela frequência de doenças que estava adquirindo nos últimos meses, “o que será que está passando com o meu corpo, por quê?”, conta.


O teste revelou a soropositivade. É nesse momento que, segundo ele, seu mundo cai por terra - um turbilhão de sentimentos o inunda e toda sua trajetória de vida passa a ser por ele analisada. Onde errou, porque errou e se, de fato, errou. A luta de D. J. Positivo para aceitação da sua condição começa, não exatamente no momento em que descobre a doença, mas contra os seus “demônios” desde sua vida na Venezuela.


D. J. Positivo conhece a arte cedo - quando pequeno gostava de pintar quadros da praia sendo o mar seu tema principal, como um horizonte a se aventurar e um espaço para se tranquilizar. O jeito como ele pintava “tinha umas pedras assim que entravam no mar, tipo uma parede e coloquei as pessoas na água[...]”. Desde muito novo, sentir e pintar andavam de mãos dadas na vida de D. J. Positivo, inclusive, o amor - motivo da sua mais intensa guerra interna. Aos dez anos, lembra que gostava muito de uma menina e lembra que “fazia cartas e desenhava um coração com uma flecha, aquele coração pingava sangue num copo” para entregar à garota. Se beijaram, num dia inesperado, e em outro dia não anunciado, acabaram. O primeiro conflito de D. J Positivo acontece ao mesmo tempo em que essa história.


Ele conta sobre um menino na escola, loiro, de olhos verdes e muito engraçado por quem  começou a sentir uma estranha atração, “então começou um conflito aí, porque eu não sabia porque isso acontecia, mas para mim era tormento, atormentava a minha cabeça”. Vindo de uma família tradicionalmente religiosa, entender seu sentimento por alguém do mesmo sexo era  se ver como errado e atormentado pelo pecado.


Foi assim que D.J. passou a se fechar em seu próprio mundo, por não compreender o que sentia - ou por compreender demais que aquilo era errado, a partir do que havia aprendido na igreja. Ao mesmo tempo em que crescia, e continuava a se sentir atraido por meninos, se envolvia na igreja como um refúgio de seus sentimentos, “ eu ficava ali com os meus amigos e não falava disso, então não tinha namorado, não tinha namorada, nada, era sozinho.”


A certeza sobre o sentimento que habitava D. J. desde muito novo veio só aos 17 ou 18 anos, com a primeira experiência sexual com um homem “ele fez com que eu deixasse sair um pouco aquele gosto, aquela atração por homens. Ele me falava nas orelhas coisas muito legais, até que finalmente nós tivemos uma relação sexual, eu gostei um pouco e ao mesmo tempo me sentia muito mal, eu sentia: “eu vou para o inferno”. Para D. J. Positivo, era como se ele estivesse carimbado e todas as pessoas ao redor o julgavam por sua sexualidade. Viver em uma sociedade machista e heteronormativa era a fonte das incertezas e motivo para constante intranquilidade.


Embora D. J. viva como refugiado no Brasil hoje, encontrou diferentes refúgios durante a vida. Um deles, e talvez o que tenha causado o maior conforto, foi a arte. Foi e é na arte que encontra seu caminho para libertação dos pesos internos e externos, na dança, na pintura e no criar. Arte é, para ele, romper com amarras.


Aos 25 D. J. conhece uma moça, consegue se abrir e encontra por alguns meses, um novo refúgio no nascimento de sua filha com essa moça,  - “saber que tem uma vida que está crescendo no corpo de outra pessoa e que você é parte dessa criação, de algum jeito. E, depois, você vê aquela pessoa pequenina, que é parte de você, então, era uma coisa mágica para mim, da vida, e tudo isso”. Por um breve momento, D. J. se viu livre dos demônios internos e pôde desfrutar da vida que havia ajudado a criar - por alguns meses, não houve incerteza.  


A atração por homens reapareceu e a paixão pela moça que havia conhecido aos 25 anos passou. Foi o ímpeto que precisava para aceitar a singularidade de sua condição e colocar um fim no casamento. Aquela foi a última mulher com quem D. J. se envolveu amorosamente até hoje. E daí, mudança era a única constância na sua vida - no trabalho, na sua identificação e nos estudos - foi estudar artes plásticas, que não terminou, para depois estudar Pedagogia e de fato, se formar.


Depois de terminar a faculdade, D. J. voltou a trabalhar na construção civil, numa época em que Hugo Chávez era presidente. Foi direto para um projeto parecido com “Minha Casa, Minha Vida”, segundo ele. E logo na primeira semana de trabalho, sofreu um acidente grave que fez com que quase perdesse mão - teve que se afastar do trabalho e nas piores condições possíveis, uma vez que o governo não reconheceu seu acidente como um “acidente de trabalho”.


Precisando de repouso e recuperação e completamente desamparado pelo governo de seu país, D. J. foi morar com a mãe e a irmã onde era a antiga casa de seus falecidos avós. Foi, segundo ele, um período conturbado, marcado pela dependência em drogas e por um sentimento de desespero. E foi assim, dia após dia, que D. J. se viu afundar num universo de depressão e abuso de drogas, se afastando de sua família cada vez mais, “eu deixei de fazer esporte, então, eu olhava nas paredes as medalhas que eu tinha recebido quando eu fazia, os troféus, as fotos de quando eu graduei na faculdade, de minha filha, e pensei que eu não podia acabar com minha vida desse jeito, que, se eu continuasse, eu ia acabar. Eu comecei a olhar os quadros que eu tinha feito, as pinturas, as coisas para minha mãe, para minha família”. E, por opção própria, D. J. foi internado.


Depois de um mês, saiu da clínica de reabilitação, teve algumas recaídas, mas, ao final de cada dia, ele era mais forte do que elas e superou o vício. O que nunca mudou, porém, foi a pressão constante em que vivia por ser homossexual - não se sentia confortável ao andar na rua e se deparar com pessoas homofóbicas, não se sentia confortável por não poder se abrir para sua filha e falar sobre sua orientação sexual, se sentia abandonado pelo governo de seu país, todos esses foram elementos que começaram a mexer com D. J. Positivo e o obrigaram a pensar em alternativas para conseguir viver melhor e mais feliz - quem sabe, saindo da Venezuela.


Algumas pessoas falam de Deus, do jeito que for, mas eu sei que nós somos energia, que nossa cabeça é uma energia, que nós podemos canalizar para o jeito positivo que nós queremos. Então, comecei a visualizar a ideia de sair, e teve um dia que eu tinha que fazer isso. A resposta quando as pessoas me perguntam: “por que você escolheu o Brasil?”, eu falo: “eu não escolhi o Brasil, o Brasil escolheu a mim”.


Vir para o Brasil foi uma confluência de casualidades. A oportunidade veio com dois turistas que precisavam de um guia para conhecer a zona leste da Venezuela; D. J. se candidatou e viajou para próximo da fronteira da Venezuela com o Brasil. Depois de alguns dias, um dos turistas resolveu ir para Manaus, e D. J. se juntou a ele - foi uma oportunidade que não pensou duas vezes antes de abraçar.


A vida em Manaus, segundo D. J., já se mostrava melhor do que na Venezuela, a cidade, a arquitetura, as pessoas, o seu primeiro emprego em um hotel. Tudo isso eram sinais positivos que só foram atrapalhados pelo medo de estar ilegalmente no Brasil e as consequências que isso traria. Por isso, ele não tardou em arrumar sua documentação para pedir refúgio, uma vez que estava em situação de vulnerabilidade por poder ser perseguido pelas milícias venezuelanas da fronteira com o Brasil. A viagem de Manaus para São Paulo também não tardou, o clima quente de Manaus era insustentável e D. J. ficava doente com frequência.


Chegou a São Paulo, passou duas noites na rodoviária Tiête e depois foi atrás de alguma casa de acolhida. Foi um movimento também de conhecer a cidade de São Paulo, “e então eu comecei a marcar as ruas com uma lupa, eu olhava o nome delas, eu fazia um roteiro para andar e assim foi a primeira vez que eu cheguei ao centro, porque eu vi aquele prédio grandão que tem aquela bandeira que fica ao lado do prédio Martinelli, foi bem legal”. Com um lugar para dormir e um conhecimento básico da cidade, D. J. começou a trabalhar em bicos na construção civil, mas toda vez que fazia isso, ficava doente. E então, voltamos ao começo do nosso texto.


Toda a trajetória aqui contada foi a vida de D. J. Positivo, resumida, até chegar no momento em que descobre ser soropositivo. O momento foi de angústia, como se ele estivesse sendo confrontado por todos os fantasmas de seu passado, por todos os medos que viveu e toda a opressão causada por sua vida na Venezuela.


Os quinze dias de espera até a confirmação do diagnostico positivo do vírus da HIV foram estarrecedores para D. J, “[nesse tempo] todas as dúvidas que eu tinha em minha cabeça, todo o preconceito que eu tinha em meu país, tudo o que eu sabia do HIV - que vou morrer, vou ser apontado por todo mundo, e que tudo já estava acabado”, conta.


As preocupações sempre vão estar aqui, os fantasmas sempre vão ficar aí. Todas aquelas situações da minha vida passada de quando eu estava mais jovem, tudo isso sempre estará aí. Mas, eu não posso continuar sempre assim. Eu tenho que pegar todo esse monte de coisas e colocar aqui do lado, eu sei que estão ali, mas, eu não posso continuar com esse peso nas minhas costas, eu tenho que deixar tudo de lado e hoje em dia eu sinto que eu estou mais aliviado, estou mais tranquilo, estou mais focado nas coisas, estou focado mais na parte profissional de dar aula de espanhol, provavelmente inglês.




Desistir não estava no vocabulário de D. J. Positivo, sua perseverança em vencer a condição fez com que ele descobrisse suas fortalezas interiores, “para mim o mais principal é acreditar em si mesmo, que é possível fazer as coisas. Não é uma coisa que não é muito fácil para se falar com jeito, mas é possível, somente o único trabalho que a pessoa que tem HIV tem que fazer principalmente é tomar o remédio todos dias”, frisa.

 

Sua história termina com o começo de sua vida: “Eu nasci na cidade de Caracas na Venezuela, um país que adoro, mas hoje eu estou aqui e reconstruindo minha vida nesse país com todos esses desafios que já passei e estou passando e que ainda faltam para passar.”

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