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História

Relatos de uma vida desperdiçada

História de: Eronides Santiagua
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/05/2017

Sinopse

Do pai, que morreu assassinado antes mesmo dele nascer, Santiagua sequer menciona o nome. Da mãe, que viu sair de cena praticamente sem se despedir, quando tinha seis anos e meio, guardou a lembrança de um início: o início de seu infortúnio, seu sofrimento. Daquele episódio guardou, também, a certeza de que Deus não é justo nem misericordioso. Tornou-se filho órfão de mãe e de Deus. A maldade da família - irmãos apenas no sobrenome, mas não no coração - o marcou profundamente. E o impeliu a lançar-se no mundo, talvez em busca de uma explicação, talvez para fugir das desgraças. Foi sem rumo, sem senso, sem limites. Ingressou na calada da noite, talvez tentando completar a tarefa mal sucedida de três vezes que buscou a morte. Na noite, no vício, no pecado, na desorientação, na rua e nos albergues, nos hospitais e na solidão, vive a amargura de ser alguém em decomposição, em processo de destruição, em inegável exclusão. Curiosamente, Eronides Santiagua, em seu relato sofrido, alterna uma postura cidadã com pensamentos destrutivos e deixa transparecer sintomas de insanidade, certamente já reflexo de prolongada convivência com álcool e drogas. E, nesse depoimento sem meias palavras e sem pudor, ele não fala apenas de si, mas das muitas facetas de uma vida desperdiçada e desconstruída. Ele dá voz à pessoa que o destino açoitou; ao indivíduo já sem perspectivas; ao ser que não fez escolhas, foi topando tudo e deixou levar-se ao simplesmente nada. Infelizmente, existem muitos Santiagua neste mundo, gente que deixa, atrás de si, a desintegração e nenhuma construção. Ainda assim, é a estória de uma existência.

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História completa

Eu nasci em Sorocaba, interior de São Paulo, no dia 27 de outubro de 1971. Cinquenta dias antes, meu pai havia sido assassinado em Guarulhos. Com seis anos e meio de idade eu vi minha mãe morrer. Bem na minha frente. Do coração, aos 36 anos.

Posso dizer que não tive infância. Eu me criei, do jeito que Deus quis. O mesmo Deus que me tirou minha mãe. Família também eu não tive. Que família é essa onde os seus irmãos dizem pra você que só são irmãos por causa do sangue e do sobrenome, e que “cada um tem que viver sem depender do outro?”. Que família é essa que a irmã da sua mãe, sua tia, pega os filhos dela pra criar e os maltrata, judia, faz comer o pão que o diabo amassou, e um a um vai fugindo - ou se perdendo? Onde você come depois do cachorro e apanha muito? E apesar disso, eu queria dizer a ela que a amo. Como mãe adotiva. Mesmo ela tendo me mostrado o pior da maldade humana. E dizer a todos que me machucaram que eu queria matá-los, arrancar parte do seu corpo, mas que não consigo fazer isso não. Ao invés, eu os perdoo.

Um dia - tinha menos de dezessete anos - resolvi sair de casa. Nesse dia, minha mãe adotiva comprou uma chácara em Salto do Pirapora e eu fui pra lá. Lá eu tentei me matar três vezes. Não adiantou, nem o capeta me queria.

Saí por esse mundo como andarilho. Não sei como nem por que, cheguei em São Paulo. Tinha sido cobrador de ônibus por doze anos, tentei continuar a ser em São Paulo. Só que o itinerário foi outro: o centro da cidade, a calada da noite, o álcool, as drogas. Virei morador de rua, volta e meia vou para o albergue, fui como que adotado por uma ONG - É de Lei! - mas não escapei das doenças: HIV, câncer, agora tuberculose e, pra completar, hepatite C. Uma coisa é certa: estou morrendo!

Sabe, não tenho rancor, não guardo mágoa. Tenho mesmo é saudade. Tão grande que me dá até arritmia. Saudade do que não fui, do que não fiz, da família que não tive, dos parentes que não vejo - nem quero ver. Saudade da infância, que dizem que é coisa boa. Gosto de ler, às vezes compro jornal. Sou flamenguista, depois corintiano, conheço um monte de jogadores pessoalmente. De vez em quando vou ao estádio ver o São Bento, o XV de Piracicaba. Não pago. Nem estádio, nem ônibus, nem metrô. Estou isento de pagar tudo isso porque estou morrendo, já tenho até caixão comprado. Mas, voltando ao futebol, já “trombei” com muitos jogadores na calada da noite. E artistas também. Mas, dos famosos, gosto mesmo é de me ver. Minha imagem no espelho, ao levantar. Levantar e agradecer: “Obrigado, Senhor, por mais um dia vivo”.

Às vezes me perguntam como é que eu fui parar na rua. Eu digo que, quando você tem uma família de verdade, isso não acontece. Agora, quando você é filho órfão, caçula, e o parente que ficou com você ficou para maltratar, bater, escorraçar, aí você um dia foge. E se perde. E se destrói. Você não vive, você desperdiça a própria vida dia a dia, se desconstrói. No meu caso, desde 1989 que eu estou “na calada, do Centro, da noite”.

Não gosto da pedra, só do wisky, do Dreher, da maconha, da cocaína. Do crack não. Ainda bem, senão “eu já teria me perdido”. Eu luto contra tudo - e contra as doenças. Mas deixo nas mãos de Deus. Quem sabe Ele não tem lá um lugar melhor para mim? Reservado para mim? Só que eu não tenho cura mais não, estou morrendo. Mas também, chega! São 45 anos, estou preparado para a morte. Enquanto isso, vou vivendo meu sonho: amanhecer, sem ninguém me acordar, e dizer: “Bom dia!”. Sim, bom dia! Apesar de eu ter um arrependimento - o único - do qual me lembro todo dia: o de ter nascido.

 

Editado por Paulo Emilio Rodrigues Ferreira

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