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Rodrigo Mendes

História de: Rodrigo Mendes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/10/2005

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Nasci em São Paulo, em 30 de setembro de 1971. Como a maioria dos brasileiros, minha ascendência envolve uma série de misturas. Meu pai, José, tinha avós espanhóis e italianos, enquanto minha mãe, Sonia, traz em sua árvore genealógica alemães, austríacos, italianos e, diz a lenda, índios brasileiros. Desde o jardim de infância, eu e meus irmãos Fabiana e Conrado estudamos no Colégio Visconde de Porto Seguro, escola de origem alemã, na qual permanecemos até o final do ensino médio. Guardo felizes lembranças dos meus treze anos como aluno do Porto. Ao contrário de grande parte de meus colegas, minha decisão sobre a escolha profissional não envolveu grandes polêmicas e angústias. Quando criança, por influência de meu pai, considerava o futebol meu esporte favorito. Não só como torcedor apaixonado do Corinthians, mas também como praticante. Após anos dedicando minhas tardes a peladas com meu primo no quintal de casa, acabei desenvolvendo certa intimidade com o assunto. Entre todas as atividades esportivas que praticávamos no colégio, a bola nos pés sempre foi minha zona de conforto e destaque. Aos 13 anos, em virtude de uma lesão no joelho direito, fiquei afastado do futebol por alguns meses, o que representou uma grande frustração e, talvez, a primeira grande adversidade com a qual fui obrigado a lidar na minha vida. Tentei resolver a questão por meio de fisioterapia, mas acabou sendo necessária uma intervenção cirúrgica. Resumindo a história, três meses após a operação do meu joelho, estava eu jogando bola novamente, sem nenhuma dor ou limitação. Essa recuperação teve tal importância que decidi fazer Medicina. Nada me parecia mais nobre do que uma profissão que devolvia às pessoas bem-estar e qualidade de vida. Passei a divulgar que seria médico, mais especificamente ortopedista, especializado em operar joelhos de esportistas. Segui decidido a percorrer esse caminho até os 18 anos, quando comecei um cursinho pré-vestibular. Em agosto daquele ano, ao sair de casa para levar meu irmão num jogo de tênis, fui surpreendido por dois assaltantes que pretendiam levar meu carro. Sem ao menos manifestar suas intenções, um deles atirou em meu pescoço, abriu a porta do carro, jogou-me no chão e levou o veículo. Começava ali uma nova etapa da minha vida. Minha relação com a arte teve início na época do jardim de infância, quando comecei a fazer desenhos de observação dos móveis da minha casa. Pela primeira vez passei a observar mais atentamente as questões de luz, sombra e perspectiva, na tentativa de traduzir o mais fielmente possível os objetos que retratava. Gostava também de desenhar paisagens e colori-las com giz de cera, usando uma técnica de dégradé que aprendi com um amigo. Não demorou muito para meus trabalhos começarem a chamar a atenção das pessoas. Inicialmente dos meus pais, depois dos meus primos, tios e amigos. A arte foi, portanto, a primeira atividade por meio da qual me senti reconhecido. Após acumular várias pastas com minha “produção”, minha mãe decidiu fazer uma pequena exposição durante uma de minhas inesquecíveis festas de aniversário dessa época. Recebi em casa todos os meus colegas do colégio e parentes, durante uma tarde em que um dos pontos altos era a presença de um carrinho de cachorro-quente (o mesmo que ficava na porta do clube que frequentávamos), sem limite de consumo. A exposição foi montada em uma das paredes da garagem, por onde todos os convidados passavam. Pouco tempo depois, o futebol passou a ser o foco de minha atenção, e minhas tardes deixaram de ser culturais. Voltei a ter um contato mais intenso com as artes visuais aos 19 anos. Na época, estava em fase de reabilitação do acidente. A bala disparada pelo assaltante atravessou meu pescoço e passou próximo à coluna espinhal. A alta temperatura gerou uma lesão na medula, que paralisou minha musculatura e ocasionou a perda de algumas funções abaixo dos ombros (tecnicamente denominada tetraplegia). O processo de recuperação de um caso como esse é bastante delicado e lento. Fui obrigado a abandonar os estudos e dedicar todo o meu tempo aos diversos tipos de fisioterapia e demais procedimentos médicos necessários. Levei seis meses para voltar a sentar e um ano para poder sair do ambiente da minha casa. Foi nessa época que recebi um convite para começar a pintar. A ideia partiu de um artista, Luca Vitale, durante uma festa na casa de praia da Daniela Salim, minha amiga de infância. Ao me ver sentado na cadeira de rodas, Luca interessou-se por minha história. Aproximou-se dizendo que tinha uma forte intuição de que eu poderia me desenvolver como artista. Uma semana depois dávamos início à minha primeira aula, usando a aquarela sobre papel como técnica. A partir desse dia passei a dedicar três horas todas as tardes a essa nova empreitada, entusiasmado com as inúmeras descobertas dela decorrentes. Como minha produção artística representava a única atividade diária desprendida da fisioterapia, canalizei toda a minha energia para esse fim, e logo colhi bons frutos: após três meses, tinha em mãos sessenta trabalhos finalizados. Fui convencido pelo Luca de que valeria a pena organizar uma exposição, proposta que se espalhou rapidamente entre meus amigos. Não tardou a surgir meu primeiro patrocinador. Roberta Gabrielli, mãe do Marcio, meu amigo de infância, me visitava semanalmente e acompanhava com entusiasmo meu trabalho como pintor. Ao saber da ideia da exposição, ofereceu o salão de festas do prédio onde morava para realizar o evento. Alguns meses depois acontecia minha primeira vernissage, na qual recebi mais de 700 pessoas interessadas em me prestigiar e conhecer minha produção inaugural como artista. Nessa noite, emocionado por ver tanta gente disposta a me apoiar – fato notório desde meu primeiro dia de hospitalização –, decidi que precisava devolver, de alguma forma, tudo que havia recebido de minha família, parentes, amigos e tantas outras pessoas entusiasmadas com a possibilidade de colaborar com a minha história. Nascia nesse momento a ideia de criar um projeto que representasse a minha contrapartida à sociedade. Comecei então a divulgar para os convidados da exposição que meu próximo passo seria fundar, em São Paulo, uma escola de artes que oferecesse oportunidades de desenvolvimento a pessoas cuja história de vida envolvesse situações de exclusão. Acabei assumindo um compromisso público, que servia como referência fundamental para que eu não desistisse do projeto durante as inúmeras situações de dificuldade, incerteza e insegurança que estariam por vir. No primeiro semestre de 1992 inaugurávamos um espaço batizado de CRM, Cursos Rodrigo Mendes. Segundo meu pneumologista, foi a forma que encontrei de obter o meu CRM (registro no Conselho Regional de Medicina, obtido por quem se forma na área). A iniciativa começou com um grupo de dez alunos com deficiência, pertencentes a comunidades de baixa renda. Para me acompanhar na condução do projeto, convidei Luca Vitale, que assumiu a posição de professor. Apesar de não termos experiência, aporte financeiro e planejamento, acreditávamos que valia a pena investir na ideia. Passados dezoito anos, a tal escola hoje se chama Instituto Rodrigo Mendes e atua como um centro de pesquisas sobre educação inclusiva. O objetivo, nessa nova fase de nossa trajetória, é colaborar para que a rede pública de ensino brasileira tenha competência para acolher qualquer estudante, inclusive aqueles que tenham algum tipo de deficiência ou transtorno de comportamento. Até pouco tempo, essas pessoas eram sistematicamente encaminhadas para escolas especiais, o que as impedia de conviver e interagir com as demais crianças e jovens. Para isso, temos investido na produção de conhecimento e em cursos de formação continuada sobre uma educação que garanta o direito à igualdade e respeite as singularidades humanas. Acredito que as escolas capazes de desenvolver suas práticas a partir dessa visão mais contemporânea de ensino poderão oferecer uma educação de melhor qualidade para todos. Ao longo de todos esses anos, além do meu envolvimento direto com o Instituto, tive a oportunidade de me formar em administração de empresas e atuar como consultor de negócios em diferentes indústrias. Hoje, um dos meus sonhos é produzir uma série para televisão voltada para adolescentes. Sejam quais forem os ventos que estão por vir, acho que morreríamos felizes se conseguíssemos nos lembrar, a cada manhã, da capacidade que temos de continuar sonhando e nos transformando, desafio saudável para qualquer ser humano.

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