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História

"Saí feliz, saí vivo"

História de: Alcidio Boano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/12/2018

Sinopse

No dia primeiro de Abril soube do Golpe Militar, e descrente, achou que era mentira. Perseguido por presidir o Sindicato dos Condutores de Veículos, perdeu as contas de quantas vezes esteve detido no DOPS, “era rara a semana que eu não ia preso”. Ameaçado e vendo companheiros sendo mortos, não se calou, e hoje lamenta pelas tristes recordações, ao mesmo tempo em que reza pelo futuro do Brasil.

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História completa

P/1 – Seu Alcídio, eu gostaria que o senhor repetisse o nome completo do senhor.

 

R – Alcídio Boano.

 

P/1 – E a data e o local de nascimento.

 

R – Quinze de setembro de 1927, São José do Rio Pardo.

 

P/1 – Seu Alcídio, onde o senhor estava no dia do Golpe?

 

R – No dia Golpe eu estava trabalhando, eu era mecânico nessa época.

 

P/1 – O senhor trabalhava em São Paulo?

 

R – Trabalhava na CMTC [Companhia Municipal de Transportes Coletivos], na Rua Guaicurus, onde hoje é uma praça, é o terminal de ônibus.

 

P/1 – E qual foi a reação que o senhor teve ao saber do Golpe?

 

R – Olha, eu fiquei muito triste, porque eu fiquei sabendo do Golpe no dia primeiro de abril, não foi no dia 31 de março.

 

P/1 – E a reação do senhor?

 

R – Pra mim era mentira.

 

P/1 – E logo que o senhor soube do Golpe, de que lado o senhor se posicionou?

 

R – Eu comecei a ter as minhas reservas, porque eu participava muito das reuniões políticas do PCB [Partido Comunista Brasileiro].

 

P/1 – Nesses primeiros anos do Golpe, como foi a atuação do senhor?

 

R – Olha, eu tinha muita atuação antes do Golpe, e sempre dirigia entidades de trabalhadores. Em 65 fui eleito Presidente do Sindicado dos Condutores de Veículos, com Golpe e tudo, mas os interventores estavam com um ano de intervenção e impediram minha posse, “eu acho que agora é bom”, certo, impediram minha posse. Eu só tomei posse em oito de outubro de 68, por decisão de um mandado de segurança, porque ninguém queria ser advogado pra interpor o mandado de segurança.

 

P/1 – E seu Alcídio, qual foi o impacto que o Golpe teve na vida do senhor?

 

R – Pra mim, depois como dirigente sindical, era rara a semana que eu não ia preso no DOPS [Departamento de Ordem Política e Social]. E consegui ficar seis anos sendo preso no DOPS, Só que eu não dava chance pros empresários do transporte.

 

P/1 – Qual foi a primeira prisão do senhor, o senhor se lembra?

 

R – A minha primeira prisão foi logo no primeiro mês do ano de 69, depois eu perdi a conta, porque toda semana eu era convidado pra ir ao DOPS.

 

P/1 – E a última prisão?

 

R – A última foi de quase seis meses, entrei em 15 de janeiro de 75 e saí em dois de julho de 75. Agora, vi matar muita gente. Quando a Erundina descobriu aquela vala comum lá em Perus, um bocado daquele pessoal eu vi matar, e eles diziam assim pra mim: “Se você não abrir o coração, nós vamos fazer com você o que fizemos com este aí”.

 

P/1 – Seu Alcídio, que resquícios o senhor acha que o Golpe trouxe para o Brasil de hoje?

 

R – O Golpe trouxe uma situação difícil, que não sei quando vamos conseguir sair da situação. Porque quando eu estava preso, o Geisel foi à Alemanha comprar os ferros velhos das usinas. Comprou os ferros velhos que não funcionam até hoje, as usinas nucleares. Endividou o Brasil quase que o dobro, pagou caro pelos ferros velhos que comprou da Alemanha.

 

P/1 – O senhor tem outra?

 

R – Não, o que eu tenho é que mesmo depois de sair da cadeia, o DOPS não me dava sossego. Toda reunião que eu estava, eles estavam presentes. Eu não deixava de falar o que eu tinha que falar, de maneira que saí feliz, saí vivo. Eu fui o primeiro, nós fomos presos em dez trabalhadores, dirigentes do Sindicato dos Condutores de Veículos Rodoviários. Quer dizer, dos dez, só restam quatro hoje. Você deve conhecer o Diogo Baesa, o Santana, o Firmino e eu, que o restante, todos eles já se foram, quase todos com sequelas das torturas.

 

P/1 – Seu Alcídio, pra gente encerrar: no dia a dia do senhor hoje, qual é o reflexo que o golpe tem?

 

R – Olha, pra mim, a situação que o Brasil está passando hoje, pra mim ela se deve a uns 21 ou 22 anos de Ditadura Militar, que não se podia falar. Logo no início eu tive uma experiência difícil, em 70. O Salvador Tolezano era presidente do Sindicato dos Bancários, foi fazer entrevista em Sorocaba. Quando ele saiu, sequestraram ele com a perua do sindicato; mataram, amarraram um paralelepípedo nos pés e o jogaram na represa da Light, em Ibiúna. Em seguida, numa festa de Primeiro de Maio, eles prenderam Olavo Hansen, o envenenaram e ele foi encontrado num terreno baldio. Eu fui ao enterro, não tinha quase ninguém no enterro, todo mundo tinha medo de ir ao enterro. Portanto, as recordações que eu tenho, lamentavelmente, são tristes, de companheiros bons de luta que a ditadura matou.

 

P/1 – Seu Alcídio, qual a importância de um evento como este, sobre essa reflexão em torno do Golpe?

 

R – Bom, a importância é que eu desejo e peço a Deus que nunca mais aconteça isso no Brasil.

 

P/1 – Seu Alcídio, muito obrigado pelo depoimento.

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