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História

Salvo do fundo do poço

História de: Arlindo Gonçalves de Jesus Júnior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/09/2015

Sinopse

Nesta entrevista, Arlindo nos conta a história de sua família e de sua criação na comunidade São Remo. Nos fala sobre os conflitos familiares e de sua vida conturbada na escola- relação esta que foi transplantada para o Projeto Esporte Talento (PET), em 2002, quando lá entrou. A partir daí então, nos conta sobre o cotidiano e as atividades do projeto, de suas travessuras, bagunças e casos que o levaram a ser expulso de lá em 2006. Arlindo nos fala também de como depois desatou a cometer pequenos delitos e quase entrou num caminho sem volta. Neste período, foi ajudado pela igreja protestante da comunidade, onde até hoje atua como pastor. Por fim, sabemos um pouco sobre suas perspectivas para o futuro e seus sonhos.

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História completa

Meu nome é Arlindo Gonçalves de Jesus Júnior. Moro em São Paulo, data do meu nascimento é 10 de março de 91. O nome do meu pai é Arlindo Gonçalves de Jesus. O nome da minha mãe é Maria José dos Santos Gonçalves de Jesus. Cresci lá na São Remo mesmo, né, sempre morei lá, há 24 anos. Quando eu era mais novo nós tinha uma grande dificuldade pela questão do espaço que todo mundo dormia no mesmo lugar, não tinha quarto separado praticamente, o único quarto que era separado era o da minha mãe e do meu pai, mas nós irmãos não tinha quarto só pra mim, pra ter uma privacidade maior. Todo mundo era junto ali, mas hoje já deu uma mudada. A primeira lembrança da escola acho que foi na primeira série. Eu já tive que ficar trancado dentro da sala e não poder ir pro recreio, foi a primeira lembrança que foi já pior. Eu aprontei demais dentro da sala de aula e já no primeiro dia aula já fiquei de castigo. O PET criou, acredito que teve um projeto de escola com o projeto, então eles mandavam os papéis e quem pudesse preencher o papel. E acho que tinha uma seleção, se não me engano, e eu fui uma das pessoas selecionadas nesse projeto, que aí acabei conhecendo. Ah, o primeiro dia que eu fui vir pra cápro PET eu entrei, já fiquei olhando assim: “Nossa, ó o campo, grande”, olhava as coisas aqui, eu falava: “Nossa, bacana”. E aí a primeira professora que eu tive o primeiro contato foi com a Kátia e com a professora Pérola, na época, né? Ela era estagiária, se não me falha a memória. Mas eu já frequentava a USP por questões de morar perto, a gente mora do lado, na realidade, então acabou tornando uma casa, né, tornando a nossa convivência. Então a metade do nosso tempo, o tempo todinho que nós teve foi aqui dentro, então, era o único lugar que nós podia entrar, andar de Circular de graça, poder andar na USP inteira, aí é bacana. Ah, na Cidade Universitária o que nós mais gostava de fazer era andar de ônibus. E segundo, andar pelos prédios. Nós ia em todas as faculdades, ECA, História, Geografia, andava em tudo que é faculdade. Eu chegava aqui no projeto e a primeira coisa que eu fazia era bagunçar. Eu lembro que quando foi passando um tempo, e aí você vai criando uma convivência no espaço, você vai pegando as coisas, então você vai vendo que você vai ter uma liberdade, querendo ou não você cria uma liberdade. Eu achei que a liberdade se tornaria libertinagem, então eu comecei a extrapolar naquilo que não devia, né? Aí, vixi, aí era bagunça demais, chegava de manhã, tentava chegar primeiro do que os professores, chegava já aqui dentro, ficava sentado ali fora, já esperando alguém chegar pra poder zoar, ir lá em cima andar, bagunçar. Era a melhor coisa que eu queria fazer, era bagunçar. Teve um dia que eu participei de uma competição do Olipet, se não me engano, e eu lembro que eu corri nesse dia. Eu lembro que eu estava correndo, fez uma volta ou duas, nós tinha que dar, nesse espaço aqui fora que tem da trilha, dá mil metros se não me falha a memória. E nesse dia aí todo mundo começou a correr naquele gás, pique, e eu sempre, por mais bagunceiro que eu fosse, mas sempre prestava atenção. Então sempre aprendi que nunca devemos começar com aquele gás todo, devemos sempre guardar o gás pro final, né, então comecei bem devagar e uma pá de gente na minha frente correndo, aquele gás todo e esperei. Na última volta foi a hora que eu explodi e cheguei em primeiro lugar. Muitas pessoas, como hoje eu entendo que pra mim, quando eu estava aqui na época eram professores, só que na realidade eles eram estagiários. Tipo assim, era um período em que eles ficavam aqui mas rapidamente sempre estava trocando e eu não entendia isso, sempre quem ficava eram o Zé, a Kátia, a... esqueci o nome dela agora, mas sempre estava, então falava: “Por que eles ficaram e os outros vão embora?”, então via essa diferença, mas nunca entendia. A conversa que me marcou mesmo foi o dia que eu fui expulso daqui. Foi o dia que eles foram na minha casa por ter feito uma coisa muita errada e aí acho que aquele dia acho que foi o dia que foi marcado. Aí eu comecei a aprontar, né, aí eu comecei a aprontar. E aí foi onde eu descabecei de verdade.Eu comecei a entrar pro lado errado. Então comecei a furtar, comecei a andar com más companhias, piores do que eu, e fui traçando a minha vida para o pior. Aí continuei fazendo a mesma coisa, sempre aprontando, sempre fazendo coisa errada. Só que quando eu cheguei até os 16 pra 17 anos que eu procurei a mudança, que aí eu olhei pra mim e falei: “Pô, to crescendo, não tem como continuar na mesma vida, né? Não tem condições de eu continuar da mesma maneira. Ou eu procuro mudar ou eu procuro piorar a minha situação”. E aí eu procurei mudança. Então preferi ir pra uma igreja e colher algumas coisas que a igreja nos traz. Então primeiro o amor ao próximo, o amor a si mesmo. Ah, um vizinho meu sempre me chamava, sempre me chamava e um dia eu falei: “Eu vou”. E aí eu fui e depois comecei a frequentar de verdade, procurei a mudança, cortei bastantes amigos. Através da igreja conheci outros lugares, outros estados, nunca tinha ido. Então, teve uma mudança por completo, mudou completamente a minha vida. A importância do PET pra mim ela tanto forma a pessoa profissionalmente, ela pode ser formada aqui dentro pra trabalhar no esporte, ela pode ser formada aqui dentro e ela forma até o caráter da pessoa, basta a pessoa querer. Se a pessoa quiser ela é formada com os projetos que têm aqui dentro. Então tipo assim, o projeto é muito bom, só que infelizmente, eu não sei porque, quando é menino nós pensamos como menino, então acho que não dá tanta importância. Algumas pessoas dão importância e aproveitam, outras não. Outras pegam isso e jogam no lixo, foi isso que eu fiz, peguei a oportunidade que eu tinha e joguei no lixo. Então essa oportunidade hoje muito faz falta. Ajudou um pouco. Não tudo mas ajudou bastante a refletir na vida, pensar. Então ela me ajudou bastante. Hoje eu falo pra várias pessoas, teve pessoas que chegou a entrar aqui ainda quando eu já tinha mudado, já tive conversa com algumas pessoas e falei: “Aproveita porque eu não aproveitei”. Pra aproveitar. Porque é um momento único, é um momento que passa, mas se as pessoas souberem aproveitar esse momento que se passa, esse momento vai valer muito lá na frente.

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