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História

Sangue de samurai

História de: Mitsue Tsuhako Tokeshi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Nesta entrevista, Mitsue nos conta sobre sua infância no bairro Liberdade, sua ascendência japonesa e a história da família formada por samurais. Filha de imigrantes japoneses, ela detalha a vinda dos pais ao Brasil, em 1918 e os primeiros anos de adaptação e de dificuldades enfrentadas pela família como trabalhadores de campo em uma fazenda de café em Araraquarense. Ao narrar sobre a mudança da família para São Paulo, no bairro Liberdade, e sobre os sacrifícios iniciais dos irmãos mais velhos em prol da família, algo comum na cultura japonesa, nossa entrevistada relembra a proibição de estudos japoneses nas escolas e da conversão do budismo ao catolicismo, assim como o período em que interrompeu os estudos, no colegial, para ajudar a família financeiramente. Mitsue relata com detalhes sua formação em História Natural na cidade de Curitiba, o namoro,  casamento, filhos, o período em que viveu nos Estados Unidos, acompanhando seu esposo e também seu retorno ao Brasil, marcado pela dedicação a diversos trabalhos voluntários, o que ela atribui aos ensinamentos dos pais ao longo da vida, os valores da cultura japonesa para ela repassados e as sabedorias em forma de provérbios, até hoje preservados em sua memória.

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História completa

 

P/1 – Dona Mitsue, vou começar pedindo pra senhora falar seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Mitsue Tsuhako Tokeshi. Nasci em Catanduva em 17 de junho de 1934. Resido em Piracicaba, na Avenida São João 667, Estado de São Paulo.

 

P/1 – Os seus pais nasceram em Catanduva também?

 

R – Não, meus pais eram imigrantes. Vieram do Japão e chegaram aqui em 1919, eu acho.

 

P/1 – Seus pais já se conheciam ou se conheceram aqui?

 

R – Não, casaram lá. Casaram em 1918 e era um período em que o Japão era muito pobre, paupérrimo mesmo, então o próprio governo estimulava que se emigrasse, e também o governo brasileiro estava sempre fazendo muita propaganda porque havia acabado a escravidão, eles estavam precisando de mão de obra, faziam uma propaganda muito grande no Japão, disseram que era uma terra que dava muito dinheiro. Então todos eles vieram pra ganhar dinheiro, né, e com meu pai também não foi diferente. O meu pai, Mitsuo Tsuhako, ele pertencia a uma família de samurais, eu não sei em que data, mas foi abolida no Japão aquela separação de classes, de nobres e plebeus, acho que não fazia muito tempo e meu avô – que se chamava (?) Tsuhako, ele era também de uma família de samurais, mas pobres, e ele se dedicava a paisagismo, projetava jardins e fazia ikebana. Esse era o meu avô. Um samurai assim, rigoroso, muito correto. E quando houve essa unificação de todas as classes, a minha mãe sempre dizia que se saíram bem aqueles que aceitaram essa nova ordem, né, no país, e se igualaram a todos. E foram pra zona rural, enfim, trabalhar, ganhar dinheiro. Agora, o meu avô, não foi assim. Ele ficou muito revoltado com essa extinção dessa separação de classes, né? Então ele insistia em ter – os samurais tinham um corte de cabelo diferente, tinham um topete aqui assim e não queria cortar. As mulheres também, da classe nobre, tinham uma identificação. Elas tinham tipo de tatuagem nos dedos, feito com carvão. A minha mãe tinha também, mas com o tempo foi sumindo. O meu avô foi muito assim, sabe, como se diz, teimoso. Com isso ficou difícil educar os filhos e meu pai, não sei se ele tinha 13 ou 14 anos, ele foi colocado numa família de gente abastada que eram comerciantes, pra trabalhar e ser educado. Ele ficou nessa família até se casar e lá, o comerciante era de tecidos. Ele exportava tecido porque eles eram de Okinawa, aquela ilha bem ao sul do Japão. Exportava para o resto do Japão e naquele tempo todas as mulheres sabiam tecer tecidos. Iam à loja pegar fios de seda e em casa, no tear, faziam o tecido e assim ganhavam o seu dinheiro, e nessa ilha, desde aquele tempo, eles desenvolveram uma tecnologia de se fazer fibra de folha da bananeira porque lá é mais quente, né, sul do país, tinha bananeiras. Até hoje existe esse tipo de tecido que custa caro. Ele é natural, é muito mais assim, digamos agradável de vestir, e a mamãe fazia isso também, com aquelas fibras de banana que deixam assim bem fininhos e fazem o tecido. E nessa loja em que meu pai trabalhava eles comercializam esses tecidos, exportavam e lá ele foi educado porque era uma família muito boa e o gerente era uma pessoa muito culta. Então ele aprendeu a ler, aprendeu muita coisa. E nessa família, que se chamava Toguchi, era a senhora, tinham dois filhos – um menino e uma menina. O menino era mais ou menos da idade do meu pai. Ele, nas horas vagas, era como se fosse babá dessa criança, dava banho, diz que ele era muito mimadinho, “não come isso, não come aquilo” – o papai dizia: “Eu acho ótimo porque eu comia tudo”. No fim ficaram muito amigos, quando eles já estavam com 18 anos, não sei quanto, ganharam os dois uma viagem por todas as ilhas do Sul do Japão, então ficaram amicíssimos. Nessa loja o papai cresceu. O gerente dessa loja gostava muito dele porque ele sempre foi uma pessoa muito correta, muito trabalhador, assim estabanado um pouco, mas era muito querido. E depois, não faz muito tempo, a gente ficou sabendo que esse gerente havia escrito uma história do meu pai porque achou ele uma criança diferente, uma retidão de caráter e teve a ousadia de vir até o Brasil. Só que com as guerras ele não pode publicar e se perdeu. Temos essa notícia através dos descendentes dessa pessoa. E papai serviu também na Guerra da Coréia. Tem uma foto que ele está – naquele tempo acho que o Japão ocupava a Coréia, não sei, e se casou com minha mãe, Nakami (?) e que também pertencia a uma família de samurais. Só que naquele tempo, 1800… ela nasceu em 1895, não mandava as meninas pra escola, então mamãe era analfabeta. Agora o papai aprendeu porque menino tinha que estudar. E ela ficou órfã muito cedo e foi criada pelos parentes dentro de um palácio porque também era uma família de nobres. Eles se casaram. Aí…

 

P/1 – Sabe como eles se conheceram?

 

R – Não, mas sempre é casamento arranjado, né, ainda mais em 1918, não é?  Então devia ser mesmo casamento arranjado. Papai tinha uma preocupação muito grande em levantar a família, porque eram todos pobres. A propaganda que o Brasil fazia era muito grande, de que vindo aqui todos iriam enriquecer. Até falavam que o pé de café parecia uma árvore de dinheiro. Então ele veio com a intenção de vir pra cá, se enriquecer e ajudar toda a família. Aí eles vieram pra cá. Mamãe sempre contava que ela viu um parente no cais do porto quando eles iam sair, chorando muito, chorando, chorando, porque ele já tinha vindo pra cá. Naquele momento mamãe falou: “Eu acho que não estamos fazendo a coisa certa”, mas vieram, não sei quantos meses de viagem de navio e, chegando aqui, do Porto de Santos, eles eram todos trazidos pra São Paulo onde tinha a Casa do Imigrante, e da Casa do Imigrante cada grupo seguia pra uma região, de trem. Eles foram pra região de Araraquarense, Alto Araraquarense e foram trabalhar na fazenda de café. Os dois eram pessoas da cidade, nunca tinham pegado na enxada, nada. Sofreram bastante, mas assim que chegou, meu pai percebeu que o que diziam lá no Japão e o que era a realidade aqui era muito diferente, os ganhos o contrato, tudo. Então ele comandou uma greve. A primeira…

 

P/1 – Seu pai? Logo de cara?

 

R – De cara. Primeira greve. Aí como ninguém sabia falar, os administradores não sabiam falar japonês, eles não sabiam falar português, só que estavam todos de braço cruzado sem trabalhar. Foi chamado alguém da embaixada em São Paulo pra ir lá como intérprete pra perguntar por que eles estavam parados. Aí eles reivindicaram uma porção de coisas que também não foram cumpridas, porque eles tinham que comprar tudo no armazém da fazenda, e tudo era caro e nem sempre o salário cobria. Mamãe sempre contava que passaram anos economizando em comida, porque ele ainda tinha que mandar dinheiro pro pai, imagina. Então comeram batata doce e milho anos e anos. Ela nem podia ver essas coisas e ficou mandando dinheiro. A primeira foto que ele mandou pro Japão em frente do cafezal, mamãe e papai e três filhos – minhas duas irmãs e meu irmão. Todos com roupa comprida assim pra durar bastante e claro, disse vieram pra cá branquinhos já estavam todos pretos, né, e dava pra ver o sofrimento. E quando ele mandou a foto pro Japão, o pai dele não dormia mais à noite. Daí ele mandou uma carta, dizendo que não precisava mais mandar dinheiro. Toda a família de imigrante tinha que vir em três, três que trabalhassem. Tinha que trazer um filho, alguém. Um casal só, o Brasil não aceitava. Então minha mãe trouxe um irmão pra cá e esse irmão dela tinha um sonho de ir pra Argentina, tinha estudado até um pouco de espanhol. Era um jovem bonito e tal, não aguentou. Rapidinho ele fugiu. Fugiu e não se localizava esse irmão da mamãe. O meu pai chamou, cumprindo aquilo que ele havia prometido, chamou um irmão e um sobrinho. Esse irmão não se deu bem aqui e foi embora. O sobrinho dele permaneceu aqui, a família, os descendentes estão todos muito bem. Ele se chamava (?) Tsuhako, tem sete filhos e estão todos muito bem em Sorocaba. Esse meu tio só foi aparecer depois de muito tempo, estava casado com uma brasileira, no Rio de Janeiro. Tinha casado com a filha do dono do Tênis Clube, uma coisa assim, um português, mas ela veio a falecer no parto, então ele ficou de novo sozinho. Foi nessa ocasião que descobriram meu tio. Aí a minha mãe tratou logo de arranjar uma esposa japonesa pra ele. Os descendentes moram no Rio de Janeiro. Essa vida de fazenda foi muito, muito penosa, que é a vida de todo imigrante. Se você for ouvir história de pessoas na minha faixa de idade, eu tenho quase 78, todos contam a mesmíssima história: pessoas que vieram com aquele grande sonho de ganhar dinheiro, salvar a família e que no final acabaram ficando aqui, sabe? E com o tempo eles foram percebendo que não iam voltar mais. Então meu pai sempre sonhando em, pelo menos, mandar os filhos primeiro pro Japão. Então as minhas duas irmãs mais velhas...

 

P/1 – Ele queria voltar? Ele tinha o desejo de voltar?

 

R – Voltar, todos eles.

 

P/1 – Mas você já tinha nascido? Não? Você já tinha nascido?

 

R – Hein?

P/1 –Você já tinha nascido?

 

 

R – Eu não.

 

P/1 – Só teus outros três irmãos?

 

R – Outros três. Porque entre a minha irmã que faleceu ano passado e eu, temos a diferença de 12 anos. Sabe aquelas famílias antigas que vão tendo filho, e tal e tal?

 

P/1 – Mas aí já eram três?

 

R – Eram três.

 

P/1 – Que idade que eles tinham nessa época?

 

R – Nessa época, mais ou... Enfim, esses três filhos meu pai educou pra mandá-los pro Japão. Então fizeram até o quarto ano primário e receberam uma educação japonesa. Então as duas eram fluentes em japonês, tanto pra falar quanto pra escrever. Estavam sendo preparadas pra ir pro Japão pra casar, então eram moças japonesas. Mas daí, naquele tempo, papai plantava algodão, extensão grande! Mas veio a guerra e ele perdeu. Levou oito anos pra pagar a dívida que ficou daquela ocasião. Foi quando ele percebeu que aquele sonho de voltar pro Japão, de mandar os filhos pra lá, não ia mais se realizar. O que que ele fez? O que muitas famílias japonesas fizeram, mandaram os filhos pra São Paulo pra estudar e eles ficavam na fazenda. Então foi isso que aconteceu. Aí nessa ocasião, quando na ocasião da Segunda Guerra Mundial, que eu acho que deve ter começado em 1940, por aí, não é? Ou 1938, não sei. Eu já tinha...

 

P/1 – Quarenta!

 

R – Quarenta? Pois é! E nessa ocasião que o papai perdeu todo o dinheiro e com a guerra, sabiam que não iam mais voltar. Ele pegou os três filhos mais velhos, as minhas duas irmãs eram costureiras, porque em toda família japonesa a filha tinha que ser costureira. Aí viemos pra São Paulo e eu, pequena, com sete anos eu vim. Não falava português, só falava japonês, fui pra escola sem falar uma palavra. Entendia um pouquinho. E aí papai alugou uma casa em São Paulo

 

P/1 – Em que bairro?

 

R – Na Liberdade. E naquele tempo os japoneses tinham aquela coisa, sabe dos filhos ajudarem muito os pais? Aquilo hoje seria inconcebível, mas as minhas duas irmãs trabalharam, se sacrificaram pra cuidar dos irmãos mais novos – meu irmão e eu. Elas trabalhavam bastante. Isso acontecia demais, demais na família japonesa. Você vê famílias – hoje né, famílias que têm médico, têm dentista, tem isso tem aquilo, mas vai verificar tem a filha mais velha se sacrificou trabalhando na roça para o sustento dos menores. Ou um dos filhos se tornou lavrador pra ficar com o pai. Então essa também foi a nossa história, as duas se sacrificaram, trabalharam e é interessante que elas nem se revoltavam, parecia assim uma obrigação. E o filho mais velho também tinha obrigação de cuidar dos pais ou dos irmãos. Então eu ouvia sempre a minha mãe dizendo: “Ai, porque – quando o filho mais velho que era o Pedro, se formar, vai ser diferente porque não sei o que...” Porque parecia que era uma obrigação, aliás, era uma obrigação do filho mais velho cuidar dos pais e dos irmãos. As duas receberam essa formação, mas eu fui pra escola com sete anos e naquela época, em São Paulo, isso em 1940, né, tinham um bom tanto de japoneses morando na área da Liberdade. Todos paupérrimos, com exceção de um ou outro, primeiro, porque era situação de guerra, acho que até pro brasileiro não devia ser fácil. E existia uma escola que se chamava Escola São Francisco Xavier. Era dirigido por um padre italiano, chamava-se Padre Guido del Toro e nessa escolinha que ficava na Galvão Bueno, ele só recebia japoneses pra converter ao catolicismo e também pra ajudar. A criançada de todo aquele Bairro da Liberdade ia pra essa escola. Eu também fui lá, fui batizada. A gente recebeu educação religiosa católica lá. E esse padre foi muito, muito bom e havia também professoras, diretora, chamava-se Lisa... Até outro dia eu lembrava, que se dedicou às crianças da colônia japonesa e a gente estudava português de manhã e à tarde tinha japonês. E com a guerra, o ensino de japonês foi proibido, então a gente estudava escondido. Até o padre dizia: “Quando os policiais aparecerem, vocês colocam o livro embaixo”. E todo mundo tinha um bordadinho pronto, até que fomos flagrados e foi proibido. Então esse padre, ele contribui muito porque, muita gente, minha irmã, adulta, as duas irmãs adultas foram batizadas. E também havia dois franciscanos da Igreja São Francisco, sabe o Largo São Francisco? Que falavam muitíssimo bem japones e também ajudavam em tudo. Tanto que quando terminou a guerra veio uma mensagem do Imperador dizendo que eles haviam perdido a guerra, para esse padre. Foi o Padre Guido del Toro que leu pra colônia essa mensagem do imperador dizendo que infelizmente havíamos perdido a guerra. Então eu tive essa infância de formação católica. Até hoje...

 

P/1 – E na sua casa, como é que era? Quem que exercia autoridade? Seu pai ou sua mãe?

 

R – Era sempre pai, né, família japonesa...

 

P/1 – É o pai.

 

R – É o pai! É claro, né, acho que a mulher sempre tem aquela coisa de exercer poder por trás, não é? Isso a gente vê em qualquer lugar, nas famílias japonesas sabem que tinha uma pessoa de personalidade forte, tudo, mas aparentemente é sempre homem.

 

P/1 – E as comidas. Eram comidas japonesas?

 

R – Japonesa. Todas japonesas.

 

P/1 – O que que você comia?

 

R – Ah, comia comida japonesa. Aliás quando eles vieram pra cá eles sofreram muito porque não conheciam feijão, comia-se pouca carne, os budistas eram vegetarianos. Trouxeram muitas sementes, né, a introdução de verdura em São Paulo é trabalho de imigrantes japoneses, italianos e espanhóis, e plantavam-se essas coisas. E trouxeram muita coisa. Além de sementes trouxeram ferramentas de trabalho. Imagine que minha mãe trouxe... você conhece hashi?

 

P/1 – Ah hashi, palitinho?

 

R – Pois a minha mãe trouxe pra mexer no carvão, que é de ferro, comprido assim, sabe? E fiquei pensando, como uma pessoa vem de lá do outro lado do mundo e ainda trás uma coisa assim? Mas ele trouxe muita coisas, quer dizer, o que podia, né? O que podia ela trouxe. A comida era assim. E no fim da vida, não no fim da vida, mas depois de velho, o papai sempre dizia que quando você muda pro Exterior e vai morar em algum outro país, com hábitos diferentes, era pra gente se adaptar a isso, porque eles estão comendo o melhor para aquela região, pra aquele tipo de clima. Então não tinha que ficar: “Ah, eu sou japonês, eu quero ficar comendo arroz branco e essas coisas. Não tem!”. Então essa foi uma das grandes lições que papai deixou. Então vai pro exterior, vai morar num outro lugar, observe direitinho como vive esse povo. Procure viver como eles, porque essa é a forma mais acertada. Então se come arroz e feijão então é porque é mais fácil de produzirem, energético, etc. e tal. E também ele deixou vários conselhos no final. Acha que eu estou fugindo da história ou não?

 

P/1 – Não! A gente volta depois pra onde você parou.

 

R – Ele dizia assim, que quando a gente vai pra algum lugar tem que primeiro aprender a língua. No final ele se arrependeu muito de não ter estudado português. Mas eu disse pra ele: “Imagine, você tinha 28 anos. Veio pra ganhar dinheiro pra voltar. E como é que numa fazenda ia estudar português?”. Ele disse assim: “Se eu quisesse acho que daria” Porque sempre tinham professores na área rural. Quem sabe à noite pudesse ter estudado. Isso é uma das coisas que ele dizia: “Não esqueçam, vai mudar pra algum outro país, aprenda a língua.” E também da alimentação e tinha umas outras coisas que ele falava, enfim, ele deixou vários ensinamentos. Eu tive essa formação católica, minhas irmãs também viraram católicas. Mas a vida era muito difícil. Pra imigrante a vida foi assim, quem não passou por isso não consegue nem imaginar. Hoje eu converso...

 

P/1 – Como é que era a Liberdade naquela época?

 

R – Casas simples. A Rua Conselheiro Furtado era onde tinha muitos japoneses, eu morava numa travessa da Conselheiro Furtado, entre a Conselheiro e como é que chama a outra? Não sei o que de Lima. Tinha a Galvão Bueno, a Conde de Sarzedas também tinham japoneses. Eram tintureiros, alfaiates, costureiras, alguns já vendiam produtos japoneses. Tinha gente fazendo tofu, aquele queijo de soja, né, vendendo pra colônia, ou fazendo bolinhos de peixe, mas todos com muita dificuldade. Era assim, pobreza muito grande. Todo mundo alugava uma casa e subdividia, sublocava, com poucas exceções. Então o aspecto... Hoje a Liberdade tá todinha tomada por chineses e coreanos, né, já expulsaram os japoneses, então tá diferente. Era esse tipo de vida. Eu e meu irmão mais novo interrompemos o estudo várias vezes. “Ah, não dá mais, para! Espera melhorar pra continuar.” Daí a minha irmã mais velha casou-se com um dos primeiros médicos a se formar no Brasil, também de família cheia de problemas e dificuldades. Depois a minha irmã segunda casou-se também com um nissei, enfim, foram todos se casando e à medida que os filhos foram se formando, foi melhorando, né? Até eu sempre digo que não tem outra forma de você ascender de uma classe pra outra a não ser pela educação. E nisso, a imigração japonesa eu acho que foi muito bem sucedida, porque eles davam muita ênfase à educação. Você chegava, um grupo de japoneses morando naquelas casas de sapé, de pau a pique que a fazenda oferecia, mas a primeira coisa que eles faziam era construir uma escola e pediam que viesse uma professora brasileira e contratavam um professor japonês. E essas pessoas eram hospedadas na casa dos imigrantes. Minha mãe hospedou muito a professora brasileira. Então eles cuidaram muito disso e a meta era sempre educação. Eles podiam estar morando numa casa de piso de terra, sabe? Numa casa paupérrima, mas já tinha um estudando em São Paulo. Esses que estão por aí já com mais idade, 60, 70 anos, é uma quantidade enorme de médicos, dentistas, engenheiros, os descendentes se forem ouvir a história, é assim. A família passando aperto, mas garantiam que alguém fosse estudar e tinha aquela coisa, de um que se formava já ajudava o segundo, sabe? Isso foi uma grande coisa, uma grande conquista da imigração. Eu acho que agora no centenário, conversamos com muitas pessoas, e a história é igual pra todo mundo, muito sofrimento, de muita luta, mas do sacrifício dos pais para educar os filhos, então assim é que foi melhorando, né?

 

P/1 – A senhora lembra quais eram as suas brincadeiras de infância?

 

R – De infância? Bom, eu brinquei na rua, né, como toda brasileira assim, porque eu morava em São Paulo. Mas também fazia brincadeiras japonesas, também.

 

P/1 – Quais eram as brincadeiras?

 

R – As brincadeiras, eu nem me lembro muito bem, porque eu brincava mais com coisas brasileiras, mas fazia-se origami, e tinha aquela coisa de vai apostar, o brasileiro não fala par impar? Eles tinham aquele Jan-Ken-Po que até brasileiro faz hoje em dia.

 

P/1 – Jan-Ken-Po é…

 

R – É japonês. Você sabe qual é né, Jan-Ken-Po?

 

P/1 – É a pedra, o papel, a tesoura?

 

R – Isso é japonês. É engraçado que até hoje, até os brasileiros fazem Jan-Ken-Po. E praticava-se judô... Que mais? Ah, essas coisas.

 

P/1 – E brincar você brincava na rua? Do que você brincava?

 

R – Ah, brincadeira de roda, de esconde-esconde, essas coisas, né, de coisa brasileira, porque é claro que se eu tivesse morado numa colônia japonesa, acho que eu teria mais brincadeiras japonesas, não sei, mas enfim. O que mais que eu posso falar?

 

P/1 – Como é que você ia pra escola? Ia a pé, de ônibus?

 

R – A pé, porque eu morava ali perto da Conselheiro e essa escola, a primeira escola minha, ficava na Galvão Bueno, esquina com a Barão de Iguape, era perto. Aí depois eles ganharam uma casa na Rua Tamandaré, que era do Barão de Tamandaré, grande. Eu não sei se ainda existe lá. Aí eles ganharam, nós mudamos pra lá. Quarta série eu fui fazer lá.

 

P/1 – Por que que eles ganharam?

 

R – Porque era do padre, né, era uma coisa beneficente, quase não se pagava nada e a quarta série eu fiz lá. E tivemos assim ótimas professoras brasileiras, a minha, da quarta série, eu guardo o nome dela até hoje.

 

P/1 – Como que é?

 

R – Ela chamava-se Cloé (?) de Almeida e ela uma professora já de certa idade, mas solteira, tocava muito bem gaita e formava logo um coralzinho da escola. E até a terceira série – pra começar eu entrei lá sem falar português, era muito tímida, não ia bem, passei do primeiro pro segundo porque era escola particular, porque mal falava. Então foi assim, arrastando até a terceira série, porque eu preferia falar japonês, estudar japonês do que o português, mas quando eu cheguei na quarta série essa professora, a Dona Cloé, formou um coralzinho, que chamavam de Orfeu naquela época, não é? Aí ela achou que eu cantava muito bem. Um dia ela fez todo mundo parar e fez eu cantar. Ela disse... Eu era como que uma solista desse Orfeu e isso me deu assim uma autoestima muito grande e ela, como se diz, estimulou bastante, porque passei a ir muito bem nos estudos. A maioria que estava lá tinha sotaque pra falar português, porque falava japonês em casa, e achavam até estranho. Muitos falavam: “Você fala japonês em casa?, eu: “Eu falo japonês”, mas não sei por que eu não tinha sotaque. Então fui assim bastante estimulada por essa professora. Eu sempre digo que é tão importante você descobrir talento de cada criança e valorizar porque isso muda a vida da pessoa. E as minhas irmãs, coitadas, trabalhando e ganhando dinheiro costurando, sustentando os irmãos com dificuldade. Elas sempre diziam que menina tinha que estudar em colégio de freira, enfiaram isso na cabeça. Aí eu fui fazer o ginásio no Colégio São José, na Rua da Glória, e hoje eu penso, elas não precisavam ter feito isso. Porque tinha que pagar uma mensalidade cara. Colégio São José era um colégio bom, né? Poderiam ter me colocado, estadual tinha pouquíssimo naquele tempo, tinha na Dom Pedro, na Caetano de Campos e tinha um na São Joaquim. Mas claro que eu teria entrado em uma delas! Elas acharam que eu tinha que estudar, menina tinha que estudar em colégio de freira, então fiz o ginásio lá. Também nessa época a vida ficou difícil, parei de estudar, meu irmão estava fazendo Odontologia em Araraquara e papai não tinha dinheiro pra sustentá-lo. Aí eu parei de estudar pra ajudar uma das minhas irmãs, a minha segunda irmã Marina que era casada, mas ainda costurava e eu ajudava pra aumentar a renda dela pra gente. Então família japonesa tinha muito disso, sabe? Um se sacrificar pelo outro. E o meu irmão mais novo fez agronomia na ESALQ, faleceu ano passado no Japão. Esse também por diversas vezes teve que interromper porque acho que o papai não teve muita sorte, sei lá. Era muito trabalhador, se dedicou muito à colônia, aos outros, né, mas voltando bem atrás, o que me faz admirar o que é o povo japonês, o país todo era muito pobre, mandou aquele monte de imigrantes para o Brasil, alguns foram pra Califórnia, a imigração americana é mais antiga que a brasileira, muitos pro Peru, outros lugares. E chegando aqui eles reuniam, aliás eles tinham tudo cadastrado, né, quem é quem, quantas pessoas, em que região estava. E pra cada região, o governo escolhia um líder pra ajudar os demais e poder fazer o relato para o governo do que estava se passando. E papai foi o escolhido na região araraquarense, porque eles estavam em Catanduva, mas era de Araraquara pra lá. Então ele recebia muita visita de pessoas que vinham consultar sobre problemas, queriam fugir da fazenda pra outra, enfim, ele fazia isso. E também o imigrante chegava, recebia uma caixinha – que eu me arrependo de ter perdido, que parecia um armariozinho de remédios. Sabe, você abria uma tampa assim, tinha um monte de remedinhos, uma gaveta com remédios, e todo mês eles recebiam uma circular sobre doenças tropicais, porque todas as doenças que davam aqui o japonês não conhecia né? Então vinha isso e o papai tinha que vir a São Paulo uma vez ou outra, pra fazer o relato de pessoas que morreram, que nasceram, que adoeceram, não sei o que. E naquela ocasião papai nos contou que um dia a mãe ficou muito doente. Estava com febre, muito mal e gemendo na cama, e ele não podia nem dormir, não sabia o que fazer, não sabia nem o que era. Acendeu a lamparina e foi ler o folheto que vinha sobre a saúde e quando ele leu, todos os sintomas que ela estava tendo era de tétano e era questão de horas, de tomar vacina e salvá-la. E a história daquele tempo é assim: aconteceu tal coisa, seu pai pegou um cavalo, porque era o único transporte (risos), pegou o cavalo e voou pra cidade, chegou de manhã, bateu na porta da farmácia que ainda estava fechada, comprou a vacina e voltou a tempo de salvá-la. Então, fico muito admirada porque o governo ter, sabe, esse controle todo daqueles imigrantes, de onde cada um está, escolher um líder para cada região e sabe, esse líder receber esses folhetos, de como se cuidar – não sei se era só de saúde ou se era de outra coisa, ele fez isso por muito tempo. Era sempre o representante porque papai era muito falante, sabia falar muito bem e tal, sempre era escolhido líder. E o japonês tem uma mania de formar associação. Até papai brincava dizendo que se tivessem três japoneses morando numa região, um ia ser presidente, o outro tesoureiro e o outro secretário. Já tinham uma associação, só que ele era sempre o tal do presidente. Então eles são muito, muito organizados. Até hoje se você vai pra uma região que tem muitos japoneses como Mogi das Cruzes, norte do Paraná, os clubes são muito fortes. Tem para rapazes, moças, senhoras, senhores e idosos, até hoje, né? Agora em Piracicaba que tem poucos japoneses, se misturou muito cedo, esse clube tem mais brasileiro do que japonês, mas existe. Então ele foi sempre muito ativo nisso. E quando terminou a guerra, o governo japonês condecorou as pessoas que trabalharam, que contribuíram e papai recebeu também. Veio uma pasta bonita, teve uma festividade aqui na Embaixada e recebeu do estado dele também, mamãe achava tão fantástico eles saberem quem trabalhou, quem contribuiu, quem ajudou.

 

P/1 – E a sua mãe e o seu pai eles se davam bem?

 

R – Muito bem. Viveram bastante, graças a Deus, ambos morreram com 86 anos. Graças a isso eu falo japonês né? Porque famílias que os pais falecem cedo, no fim acabam perdendo né, ficam falando português e como eles viveram bastante, eu falo.

 

P/1 – Aí você estava falando, ele foi condecorado...

 

R – Foram, vários daqui foram, mas o papai também recebeu pelo reconhecimento do trabalho em ter ajudado as pessoas da colônia. Era do perfil dele ajudar, mas sofreram muito. Porque viveram naquela época da gripe espanhola que morreu gente à beça. Mamãe dizia que todo dia saia um enterro. Aquela época da gripe espanhola.

 

P/1 – E na adolescência, onde você fez o ginásio, o colégio?

 

R – Eu fiz no São José.

 

P/1 – O colegial também?

 

R – O colegial não, porque aí a família estava muito mal de vida. Fui ajudar minha irmã pra sustentar o mais velho.

 

P/1 – Você foi trabalhar?

 

R – Eu trabalhei com a minha irmã. Eu fui costurar com ela.

 

P/1 – Você aprendeu a costurar?

 

R – Aprendi a ajudar.

 

P/1 – O que você fazia?

 

R – Eu fazia mais arremates, né, ela costurava muito bem e pra ajudar o outro irmão a se formar, né, porque tinha que pagar e meu pai não podia. Então tudo foi assim aos trancos e barrancos, sabe? Da minha geração, a história é sempre assim. Alguns seguiram caminho mais fácil, mas a maioria é assim. Os mais velhos sofreram bastante e os que eram mais novos tinham uma vida melhor, uma coisa mais regrada, um estudo mais regrado, mas é assim. O que caracterizou o pessoal daquela época é aquela garra muito grande, eu acho que ainda resta um pouco disso e o meu pai foi assim uma pessoa muito correta, muito honesto ao extremo, muito teimoso e veio pra cá, acreditava assim piamente no futuro do Brasil pela agricultura.

 

P/1 – Se discutia política?

 

R – Muito.

 

P/1 – Em que momento que você voltou a estudar?

 

R – Eu voltei a estudar depois que levantou um pouco a família.

 

P/1 – Que foi quando? A senhora lembra o ano?

 

R – Nossa, eu me formei tarde, porque fiz um colegial muito vagabundo.

 

P/1 – Aonde foi?

 

R – Eu fiz numa escola particular, depois eu fui fazer, é aquela tal história, né? Você nunca sabe que carreira seguir. Meu pai queria que todo mundo tivesse – pelo menos eu, meu irmão, tivéssemos um curso superior.

 

P/1 – Os outros não tiveram?

 

R – Não tiveram porque iam voltar pro Japão.

 

P/1 – E voltaram?

 

R – Não, ninguém voltou, porque veio a guerra, enfim casaram e ficaram aqui. O meu irmão fez Odontologia, né? E eu queria muito fazer Pedagogia. E naquele tempo na família ninguém sabia o que era Pedagogia, nem ser pedagogo. E o meu irmão era o único que tinha estudado, dava palpite, que falou: “Não, você vai fazer História Natural”. Hoje eu percebo que não era esse o meu caminho. Não seria minha vocação. Aí prestei vestibular e fui...

 

P/1 – Por que que ele queria História Natural?

 

R – Não, porque que ele não tinha a cabeça muito boa e imaginava: “Ah, faça isso, faça aquilo”. Uns palpites que ele deu eram desse jeito e como ele era o único que tinha estudado aqui a gente ouvia muito.

 

P/1 – Seu pai tinha alguma expectativa pra alguma carreira?

 

R – Não, ele queria que cada um fizesse aquilo que gostasse. Mas aquela tal história, né, acha que mulher vai casar. Quer que estude, que faça um curso superior, mas a expectativa sempre era maior em cima dos meninos. E aí eu prestei vestibular, era a única faculdade que tinha de São Paulo tinha parece que quinze vagas e era a única, não tinha em lugar nenhum. Hoje tá cheio, mas não tinha, e eu fiquei, como se diz? Não passei na primeira chamada, né, como chama?

 

P/1 – Na lista de espera.

 

R – Na lista de espera. E como eu já estava com mais idade, com várias interrupções e fui fazer em Curitiba. Então eu fiz História Natural em Curitiba.

 

P/1 – Qual faculdade?

 

R – Na Federal. Me formei, dei aula no ginásio.

 

P/1 – Espera aí, como é que foi essa mudança pra Curitiba? A senhora…

 

R – Foi muito boa.

 

P/1 – Você morava com quem?

 

R – Eu morava na Casa do Estudante, da Estudante Universitária. Éramos em sessenta moças. E foi uma fase muito boa, muito gostosa. Cheguei a ser presidente da casa.

 

P/1 – Vamos voltar só um pouquinho, antes dessa faculdade. A senhora já tinha namorado, gostava de alguém?

 

R – Não.

 

P/1 – O que se fazia na adolescência? Bailinho? O que que, qual era o divertimento?

 

R – Imagina! Fazia nada (risos). Não fazia nada. Não tinha essas coisas, viu? Podia ir a clube japonês, mas a gente não frequentava. Enfim, levava uma vida assim... Ah, pra dizer a verdade, era mais voltada ao trabalho, a ajudar. Mas aí, depois eu me formei.

 

P/1 – Vamos voltar pra faculdade. Aí você prestou e como é que foi essa mudança em Curitiba? Como é que era a vida na Casa do Estudante?

 

R – Era muito boa, sessenta moças, ótima gente.

 

P/1 – Era uma casa? Era um dormitório?

 

R – Era uma casa.

 

P/1 – Moravam sessenta mulheres?

 

R – Sessenta moças de vários cursos. Foi uma fase muito boa, divertida, a gente que administrava, escolhia o menu, sabe? Dava um bocado de trabalho.

 

P/1 – A senhora fez amigas lá?

 

R – Fiz. E aí no último ano eu até trabalhei bastante pela casa. Depois eu me formei, dei aula em Mogi das Cruzes.

 

P/1 – Como é que foi o curso?

 

R – Muito fraco, viu? Hoje parece que tá muito bom, mas naquele tempo, isso em 1955, também era um curso começando, né, muito fraco.

 

P/1 – Que matérias, teve algum professor que marcou a senhora?  Que se gostava mais?

 

R – Teve sim , mas eu não… quer dizer, eu fui boa aluna, eu era tida como uma das melhores, mas eu não era talhada pra isso.

 

P/1 – Mas era uma das primeiras?

 

R – É, eu entrei em primeiro lugar lá.

 

P/1 – Passou em primeiro lugar?

 

R – Mas era pouca gente, né? A concorrência era pequena, não era como hoje. Hoje é dificílimo em tudo, mas naquele tempo não era. Só a de São Paulo era mais difícil, só quinze vagas, uma escola mais conceituada e tal. Daí lecionei, já estava namorando o meu marido.

 

P/1 – Vamos só voltar um pouquinho. A faculdade não pagava porque era Federal, mas a senhora trabalhava lá?

 

R – Não, aí a minha família já estava melhor.

 

P/1 – Eles te mandavam dinheiro?

 

R – Mandavam dinheiro. Claro que era pouco, mas depois eu ganhei bolsa, trabalhei no Laboratório de Biologia, ganhava um dinheirinho.

 

P/1 – Foi seu primeiro trabalho remunerado lá?

 

R – Isto. Era de bolsista…

 

P/1 – Mas foi o primeiro que a senhora ganhou dinheiro?

 

R – É, foi o primeiro.

 

P/1 – O que que a senhora fazia?

 

R – Trabalhava no laboratório, amolava aquelas navalhas naquele tempo era micrótomo, né? Não sei o quê. Fazia meio de cultura, essas coisas. Foi um período curto, mas eu ganhei um dinheirinho. E depois eu lecionei em Mogi das Cruzes, no colegial e no normal, e depois lecionei no Brasília Machado, aqui em São Paulo. Aí me casei.

 

P/1 – Aonde que a senhora foi? Seu marido foi seu primeiro namorado?

 

R – Foi.

 

P/1 – Como você o conheceu?

 

R – Porque ele é irmão do meu cunhado, que a minha irmã se casou com o irmão mais velho dele, que era médico que também cuidava de todos os irmãos, ele era o penúltimo dessa família. Daí quando eu me casei fui pra Piracicaba, isso há muito tempo, né? Ainda dei aula um pouquinho. Daí quando eu tive…

 

P/1 – Como é que a senhora conheceu o seu marido?

 

R – Porque ele era da família, né?

 

P/1 – Você lembra assim da primeira vez que você viu ele?

 

R – Desde criança.

 

P/1 – Você gostou dele?

 

R – Desde criança. A gente não se encontrava muito porque cada um morava distante. Com as dificuldades financeiras não tinha aquele coisa de ficar viajando, indo e tal.

 

P/1 – Com quantos anos vocês começaram a namorar?

 

R – Acho que eu devia estar com quanto? Uns vinte, por aí.

 

P/1 – Você já estava na faculdade?

 

R – Já.

 

P/1 – Como é que vocês decidiram namorar? Como é que foi?

 

R – Essas coisas, acho que são automáticas, não são? Não é? Acontece, né? E também é diferente, né, o tempo é diferente, né, a época é diferente. Ele estudava em Piracicaba, na ESALQ, eu trabalhava em São Paulo. Daí depois quando eu tive os filhos, eu não trabalhei mais, porque o meu marido ficou órfão com dois anos, ele perdeu a mãe com dois anos e o pai com sete, então foi aquela... É uma outra história muito triste. Aí ele sempre dizia que a coisa mais triste é uma criança chegar em casa e não poder chamar pela mãe na volta de casa. Então ele falou: “Não, eu quero que meus filhos voltem pra casa e encontre sempre a mãe”. E depois outra, pagavam tão pouco que o que eu ganharia dando aula no ginásio, por exemplo, não ia cobrir salário de empregada e babá.

 

P/1 – Aí a senhora casou com ele. Como é que foi o casamento? Teve festa?

 

R – Muito simples porque também não tínhamos dinheiro. Muito simples. Só em família. Fomos passar a nossa lua de mel em Fortaleza porque tinha um congresso de olericultura e ele havia ganho…

 

P/1 – Ele fez o quê?

 

R – Agronomia na ESALQ, e já era professor da ESALQ, né, era da escola de Agronomia. Aí ele ganhou a passagem pra participar do congresso, então bastaria pagar a minha passagem, então fomos a Fortaleza. Também foi uma época muito difícil. Aí tivemos três filhos.

 

P/1 – Você lembra dessa viagem?

 

R – Ah, lembro.

 

P/1 – Como é que foi?

 

R – Foi muito boa, mas também assim, ele durante o dia participando do congresso. Nós paramos em Salvador na ida e Fortaleza era já muito bonita. Voltamos alguns anos atrás, já tá diferente, né, tudo. Parece um paliteiro de prédios, né, é até difícil de enxergar a praia, mas foi muito bom.

 

P/1 – Vocês casaram e foram morar aonde?

 

R – Em Piracicaba, ele formou e ficou lá. Assim que formou, ele já foi convidado pra ser professor de Fitopatologia e ficamos lá, e daí depois que nasceram meus dois filhos, o Élcio e o outro, o Flavio, que é médico. Eles eram pequenininhos e meu marido ganhou bolsa da Rockfeller pra fazer PhD nos Estados Unidos. Então fomos pra Columbus, Ohio, e foi também um período muito bom. Ficamos três anos lá. Foi assim, pras crianças, acho que foi muito importante.

 

P/1 – Que ano que foi isso, a senhora lembra?

 

R – 1968.

 

P/1 – Quantos anos eles tinham?

 

R – O Élcio tinha quatro, ia fazer quatro. O Flavio tinha dois. Ficamos três anos, e quando eu voltei, voltei grávida da última, da Eliane que nasceu em 1972.

 

P/1 – Como é que foi a vida lá, aonde vocês foram morar?

 

R – Fomos morar em Columbus, Ohio. Foi muito boa, viu, muito boa. Ele estudou muito, trabalhou muito porque competir com americano, fazer doutorado não é fácil. Esse foi um período muito bom. Muito enriquecedor por que... Daí me lembrei muito do papai. Eu me preparei antes de ir melhorando meu inglês porque eu ia pros Estados Unidos, não queria babá, não queria empregada e sabendo que o curso ia ser muito puxado pra ele, se eu não falasse inglês ia ser muito difícil, né? Cuidar de tudo, das crianças e tudo mais. Isso foi uma das influências do meu pai. Como aqui eu tinha empregada, deixava criança com empregada e ia estudar inglês. Isso ajudou muito porque chegando lá, realmente o curso dele era puxadíssimo. Eu tinha que fazer compras, ir pra escola, falar com professores. Então foi um período assim que eu aprendi muito e também, de novo, lembrar dos conselhos do papai. Chegar num país estranho, observar como as pessoas vivem, o que fazer, o que comem. Eu convivi mais com americanos do que com brasileiros. Convivíamos com brasileiros, porque tinha uns dezessete professores da ESALQ lá, na mesma cidade, com outro convenio, né, da Rockfeller era só ele. E daí eu aprendi muito porque muita gente vai e volta do jeito que foi. Aprendi a cozinhar. Tinha uma vizinha americana que cozinhava muitíssimo bem, participava de concursos de culinária, nós éramos os degustadores, então eu aprendi.

 

P/1 – O que você aprendeu?

 

R – Tudo!

 

P/1 – Fala mais, assim algum prato.

 

R – Eu aprendi tudo com ela, viu. A fazer torta de maçã, torta de... a famosa pumpkin pie, assar todas as abóboras, enfim, convivi muito com eles. Eu aprendi bastante. Isso foi uma coisa muito boa porque hoje eu tenho amigas em Piracicaba que falam: “Nossa, a gente não aprendeu nada!” Isso é uma outra coisa, tem que, sabe, ter uma certa curiosidade cultural, né, aprender! Porque é uma chance de a pessoa se enriquecer. Então isso foi muito bom. Eu convivi com eles, fui babysitter – porque todo mundo lá faz babysitter, né, pra ganhar um dinheirinho. Cuidei de crianças americanas.

 

P/1 – Você cuidava dos seus filhos e aproveitava...

 

R – Isso. O Élcio ia pra escola, mas o segundo ainda não ia e depois, quando começou a ir e fazer um período só, já ficava e quando os dois estavam na escola, mesmo assim eu fazia babysitter. E também fui, àquelas escolas americanas – excelentes por sinal, todas elas têm o que chama de mãe da sala – room’s mother. Eu me candidatei pra ser room’s mother da sala do Élcio. A gente ia lá pra ajudar. Tinham mães que trabalhavam na biblioteca uma vez por semana e eu fiquei nessa sala dele que também foi muito bom. E a Universidade de Ohio, em toda universidade americana recebe muitos estrangeiros, então havia um clube de professores estrangeiros e assim que chegamos vieram uma família de americanos nos visitar, porque eles iam ser os nossos parentes – o Host Family, sabe?  Foi muito bom e as mulheres, tinha o clube das mulheres, de bolsistas estrangeiros. Então os americanos vinham nos pegar e a gente ia uma vez por semana pra ter um programa cultural, visitar museus. Imagine, fui visitar uma fábrica que fazia carne de soja, já naquele tempo hein? Com sabor de bacon, não sei o quê, e enfim, e as crianças ficavam com outras voluntárias americanas chorando, berrando, né, porque a maioria não fala inglês. E ficavam sendo cuidados por essas senhoras voluntárias americanas enquanto a gente fazia o programa. E quando foi no ultimo ano, eu já tinha feito tudo, a programação que elas faziam todo ano de visita a museu isso e aquilo, me candidatei pra ficar na sala pra cuidar, pra olhar as crianças, o que foi muito bom. As americanas me agradeceram muito porque eu falava português com as crianças brasileiras, falava japonês com as crianças japonesas e arranhava o espanhol, né, dava pra entender um pouquinho o italiano, então elas traziam criança de tudo quanto é lugar: “Ah, você fala essa língua?”, “Não essa eu não falo!” (risos).

 

P/1 – Mas a senhora tem facilidade com as línguas? Em aprender.

 

R – Acho que sim, de certa forma, talvez. Foi um período muito rico. É aquela coisa, quando você sai, você tem que aproveitar muito bem

 

P/1 – Quanto tempo a senhora ficou lá?

 

R – Três anos. O Élcio não falava mais português, já tinha esquecido. Falava só inglês. As escolas são excelentes, né, naquele tempo, comparada com as daqui. Aqui melhorou muito, então pra eles também foi muito bom. Aprendemos muito mesmo. E essa é a nossa vida. Mas hoje acho que não vim pra contar minha história, né? Tinha que contar da família, não é?

 

P/1 – Não, a sua, da família, de todo mundo.

 

R – É, eu ainda comentei com o Élcio, que a ênfase maior que eu gostaria de dar é sobre os que já foram, os antepassados né, porque o que se passa aqui...

 

P/1 – A senhora quer voltar e falar deles?

 

R – Não, não sei se eu vou falar alguma coisa pra que os descendentes possam ter uma ideia do que era o Japão naquela época, como era essa coisa de divisão de classes que felizmente tinha terminado já e também dessa, como se diz? Bravura que seria daqueles que tiveram a coragem de vir, né, porque precisa ter muita coragem pra imigrar pra outro país, que não sabe nada, não tem dinheiro, um grande sonho – são todos sonhadores, né? E a luta que eles tiveram aqui foi uma coisa assim... Assistiram o filme da Tizuka Yamazaki?

 

P/1 – Qual deles?

 

R – Como é que chama?

 

P/1 – Gaijin?

 

R – Ah, Gaijin, pois é. Muito suicídio. E foi realmente difícil se adaptar a uma nova cultura, então o que a gente gostaria de passar pra eles é essa coisa, essa coragem, essa perseverança, essa luta por um ideal. E trabalho, eram todos muito trabalhadores, idealistas, muito honestos, muito corretos. E claro que num povo tem de tudo, mas é mais ou menos uma tônica assim da raça japonesa. Isso é uma coisa que a gente gostaria que passasse para os que...

 

P/1 – A gente pode até voltar se a senhora quiser contar mais alguma coisa do começo. Só pra gente terminar um pouco aqui    essa linha que a senhora estava contando, aí a senhora volta quando dos Estados Unidos? Em 1969?

 

R – Não, ficamos três, voltamos em 1971.

 

P/1 – Em 1971, foi em 1968?

 

R – É, 1968, 1969, é... nós fomos em junho.

 

P/1 – Aí voltaram pra Piracicaba?

 

R – É, porque o meu marido não saiu do emprego desde que entrou.

 

P/1 – E aí como é que foi essa volta? Essa adaptação?

 

R – Foi boa também. Porque sempre voltar pra casa da gente é bom. Não é?

 

P/1 – A casa estava aqui, vocês não tinham alugado? O que que vocês fizeram com a casa?

 

R – Nós morávamos em casa de aluguel, mas enfim, voltar pra sua terra...

 

P/1 – Mas voltou pra mesma casa? Alugou? Então como é que foi?

 

R – Não, voltamos pra mesma e construímos aqui onde a gente mora até hoje. A volta também foi boa.

 

P/1 – Aí a senhora continuou tomando conta dos meninos. A senhora não foi trabalhar aqui, foi? Trabalhar fora?

 

R – Não. Depois que eles cresceram, acho que o Élcio já estava no colegial, me dediquei várias vezes a trabalho voluntário.

 

P/1 – É? Que trabalhos que a senhora...

 

R – Eu fiz, o primeiro que eu fiz, eu fiquei dois anos numa favela de cortadores de cana. Eu fui chamada por um grupo de senhoras de uma igreja protestante, pra ensinar o uso da soja e naquele tempo não havia nem soja à venda em prateleiras de supermercado. Então era uma coisa que não era hábito do brasileiro. Eu levava um saco de soja e vendia pras mulheres a preço de custo, porque não existia. Isso foi um trabalho muito gostoso. Ensinei a fazer leite de soja, a comer a soja, aí tive que pedir ajuda a amigos pra doar liquidificador, moedor, porque eles não tinham, numa extrema pobreza e daí depois eu acabei ensinando a cozinhar outras coisas, né? E naquele tempo eu tinha um carro só, muitas vezes meu marido ia buscar. Aí ele dizia: “Porque você não ensina a comer tal coisa?”. Sabe, tinha aqueles matos comestíveis, né? Então ensinei a usar essas coisas. Aí fiz campanha de horta, porque essa faixa da população não tem hábito de plantar nem um pé de couve, não é? Então fiz a campanha da horta. Mas também nem todas aderiram porque a indolência é muito grande, né, nossa senhora! Foi muito bom e naquele tempo, a LBA dava um quilo de leite em pó pra cada mãe de criança pequena que frequentasse algum curso naquele local. Aí elas iam por isso. Faziam curso de pintar pano de prato, de não sei o quê, não sei o quê, e eu dava essa parte de culinária. Aí a LBA parou de dar o leite porque disse que não tinha mais dinheiro e elas pararam de vir. Uma coisa assim impressionante, se você não recebe algo em troca não vai aprender. Fiquei muito chateada, mas ainda assim eu voltei naquele local várias vezes, vi que várias tinham aprendido a usar. Uma delas, grávida, tomou leite de soja o tempo todo, tinha tido uma criança muito saudável e ainda continuava fazendo aquele leite, dando pras crianças, aí eu parei. Depois de alguns anos eu fui pra Pastoral da Criança. Na Pastoral da Criança eu ajudava a fazer multimistura. Vocês conhecem o trabalho da Pastoral da Criança, né?

 

P/1 – Mais ou menos.

 

R – Da Zilda Arns, né, que ela que começou. Ela desenvolveu uma multimistura nutritiva, supernutritiva que passaram a morrer menos nenês e tal. As voluntárias pesavam e eu fui fazer, tinha uma central na igreja onde a gente fazia multimistura que ia farinha de farelo de arroz, gergelim moído, pó de casca de ovo, pó de folha de mandioca, uma coisa verde, né? E o que mais que entrava? Entrava vários grãos. Eu ia lá e fazia isso aí, peneirava e tal. Foi também um trabalho muito bom que eu aprendi bastante. Porque havia um grupo da Pastoral que ia nas comunidades pesar as crianças, acompanhar, ensinar a fazer soro fisiológico e ensinar a cozinhar, aproveitar restos. Elas usavam talos de beterraba, de espinafre, de tudo. E tinha um livrinho de receitas. Eu tenho também uma receita lá, nesse livrinho. Foi um período muito bom. Daí sempre achava que a gente tinha que arrumar uma verba pra comprar uma peneira americana, sabe? Que não tivesse que fazer assim, eu estava com bursite, peneirar aquilo lá era muito difícil, acabei deixando a Pastoral. Mas também foi um tempo que eu aprendi bastante. Aí depois, isso mais recentemente, eu tive problema com a vista. Primeiro operei uma inflamação da retina, depois tive descolamento de retina que foi assim sério. O médico me dizia que não sabia se eu ia ler ou escrever e tal, mas felizmente eu melhorei. Mas daí eu conheci uma senhora em Piracicaba que é quase cega, ela enxerga pouquíssimo e ela é voluntária, dá aula de artes plásticas para deficientes e não deficientes, num clube. Há anos que ela faz isso. Quando eu a vi falei: “Nossa, eu não tenho nada né, porque ela não enxerga quase nada e ainda faz tudo isso!”, aí eu fui ser voluntária ajudando a essa senhora que chama Suzete. Daí fundou-se em Piracicaba – eles não gostam que chame de ONG - uma associação de auxílio a deficientes visuais, onde eu estou até agora. Mas eu tive tanto incidente em família, perdemos três pessoas idosas uma trás da outra, na família, e doenças e tal, interrompi um bom tanto, mas eu tenho ido pra ajudar. Quando me chamam, eu vou. Eu trabalho com cegos e que também é muito gratificante. Você vai lá, as pessoas não enxergam nada e tão alegres, e vai indo muito bem esta, chama-se Avistar essa associação. Hoje tem deficiente dando aula de informática pra outros deficientes. Aprenderam de tudo, Braille, tem uma senhora dando aula de tear, uma senhora da cidade que, a melhor professora de tear dá uma aula à tarde por semana. E não enxergam nada. Estão fazendo coisas bonitas e eu tenho ido lá pra ajudar a enfeitar esses trabalhos deles. O bom dessa Avistar, trabalho melhor que eu acho é assistência aos pequenininhos. Eles estão com vinte crianças e alugaram outra casa. Tudo com dificuldade financeira, né, porque parece que essas associações precisam mostrar que andam com as próprias pernas pelo menos por três anos pra depois começar a receber verba, não é assim? Então estão com dificuldades. Eu gosto de fazer essas coisas, eu me sinto muito bem. E com a idade vai ficando difícil, né, porque esse lugar onde a Suzete dá aula tem escada e a gente vai ficando velha, vai ficando tudo mais difícil, né, vai dando preguiça também, mas eu procuro fazer alguma coisa porque é bom.

 

P/1 – Eu fiquei com uma dúvida no começo. Seus pais eram budistas e viraram católicos aqui? Como é que foi?

 

R – Isso preciso contar realmente. Papai era muito religioso. Os dois eram budistas, mas o papai era mais religioso. Eu o ouvia cantando os mantras budistas todo instante e nos ensinava.

 

P/1 – Você lembra de algum?

 

R – Lembro sim.

 

P/1 – Você pode falar pra gente?

 

R – Ele estava sempre andando e falando (?), que eu também não sei o que significa, mas é um mantra budista. E ele, papai falava muito, ensinava muito, contava histórias, lia muito, e daí ele era assim, vários ensinamentos budistas a gente recebeu dele porque ele era muito falante. Trabalhava-se bastante, mas eu me lembro também que na minha casa, depois do jantar, a gente não queria nem tirar a mesa porque ficávamos conversando e ele sabia contar historias muito divertidas, tudo o que ele lia no jornal, livros. Eu me lembro que eu era ainda adolescente assim, ouvia papai lendo pra mamãe, domingo, né, quando não trabalhava ou dia de chuva e tal, ele leu Guerra e Paz de Tolstói, até ficar assim, em frangalhos. Acho que ele tinha assim uma queda pelo Socialismo, Comunismo, sei lá, por ter sido uma pessoa muito pobre. Ele leu todos os vários autores russos, Dostoiévski eu via papai lendo. E contava também muita história e falava, aqueles ensinamentos sábios de budista, provérbios.

 

P/1 – Que ensinamentos ele falava que você lembra?

 

R – Eu não lembro muito bem, por exemplo, um dia eu estava chorando, aí ele me pôs no colo e disse: “Não precisa chorar porque o papai está segurando você com seus braços, mas lembre-se por toda a sua vida, que a gente tá sentado no colo de Deus Pai e ele está sempre com os braços assim, à sua volta”. Aquele ensinamento de japonês, que quando a tempestade vem na vida e você se curva como um bambu e quando passa, você volta à sua posição. Então quando está difícil a vida, está insuportável ele falava: “Vire uma tartaruga, se encolha toda, fique quietinha assim, encolha a cabeça, as pernas sabe, tudo, fique quietinha. Vire uma tartaruga.” E assim, tanto é que eu gosto muito dessa linha Budista porque você não tem que acreditar em dogma nenhum. É a filosofia de vida correta, de fazer o bem, não é, essa é a filosofia, isso é muito bonito. Daí a religião budista é assim, eles tem muito culto aos antepassados. Você vai nessas  igrejas Seicho-no-iê ou Messiânica, tudo tem o culto aos antepassados e fazem cerimônias periodicamente: “Ah, tantos anos de falecido do meu avô, não sei o quê...” Reúne todo mundo, vira uma festa e isso dá um trabalho para os filhos, principalmente para o filho mais velho. E se o filho mais velho não fizer, outros terão que fazer. E o papai percebeu que isso não seria possível aqui no Brasil, que seria um encargo muito grande pros filhos. Aí um dia ele disse: “Olha, Deus é um só. Tanto faz o nome que Ele tem, é um só. Eu estou no Brasil, vou me tornar católico, porque todas elas são boas e são iguais. Deus é um só. Porque eu vou livrar vocês dessa obrigação de tá comemorando como budista. Essas cerimônias de culto aos antepassados, de comemorar tantos anos da morte de não sei quem”. Sabe, realmente é complicado porque a gente conservou. Lá em Presidente Prudente onde eles moravam tinha uma freira coreana, mas falava muito bem o japonês e aparecia lá também um padre japonês. E eles resolveram estudar e estudaram com afinco, sabe? A gente via papai e mamãe de manhã lendo Bíblia, e viraram católicos, foram batizados. Tem até uma foto, papai com as freiras, esse grupo de católicos lá e ajudava no jardim do Colégio Cisto Rei e assim virou católico-católico. Acho que o papai tinha essas sabedorias que passou, de chegar num lugar, se inteirar da cultura desse país, aprender o que há de bom. Ele dizia que nós tínhamos que nos considerar até abençoados porque podíamos tanto aproveitar o que havia de bom na cultura brasileira e conservar as coisas boas da cultura japonesa. Então tínhamos muito mais vantagem mesmo do que uma pessoa que pertence à uma cultura só. E também uma coisa que também foi uma sábia por parte do papai, ele saiu de uma ilha pequena, do sul do Japão que chama Okinawa e lá eles têm um dialeto. A maior parte das pessoas se comunicam lá em dialeto que só dá pra usar naquele lugar, porque no resto do Japão esse dialeto ninguém entende. Quando ele teve os filhos, os meus irmãos nasceram, ele falou: “Nós vamos só falar o japonês correto, que se comunica no país todo. Porque se eu for ensinar o dialeto, esse dialeto só vai servir pra nossa comunidade pequena de Okinawa.” Então, todos, minhas irmãs pequenas, receberam a educação assim japonesa mesmo. Todos nós falamos o japonês e não sabemos esse dialeto. E que também, quem sabe a gente pudesse ter aprendido o dialeto, mas antes o japonês oficial do que um pequeno dialeto, não é? Então isso foi uma das coisas que papai foi assim, eu acho que foi muito sábio da parte dele. E também essa de mudar de religião também, foi uma coisa boa porque realmente Deus é um só, não é? Ele ficou assim católico fervoroso, os dois. E ambos enfrentaram a morte de uma forma tão bonita. Meu pai já estava com oitenta e seis anos e aí começa a ficar ruim disso, daquilo e o meu cunhado que era médico, ainda fez algumas cirurgias quando já estava idoso, mas ele viu que já estava chegando ao fim. Então tratava de falar coisas boas, deixar conselhos e quando ele já estava muito mal, que ele fez uma cirurgia, mas estava muito mal, ele já sabia que ia morrer e começou a programar como seria o final, sabe? Ele chamou a minha irmã e disse assim: “Olha, vocês vão fazer o velório aqui em casa, no velório do japonês tem que ter atrás do caixão um papel grande, com o nome, com os dizeres assim. Aí você vai naquele armazém da esquina e você compra o papel e chama o amigo dele que se chama Toma, você chama o Toma, que ele tem letra muito bonita. Ele vai escrever. E o carvão – japonês escrevia com carvão, você tem uma caixinha de carvão que você vai fazendo assim’, eu até dei pro meu sobrinho há pouco tempo. Dizia: ”Não vai fazer com água, coloca álcool porque isso vai desbotar menos” então deu todas as ordens. “E não se esquecer de servir café quente, chá quente, umas bolachinhas gostosas pra quem vem de longe.” (risos) Ele deu todas as instruções. Ele já estava assim bem... “A que horas vocês vão fazer o meu enterro?”(risos) A gente dava risada porque ele encarou assim, sabe? Minha mãe não fez essas coisas, mas também morreu assim, de velhice, né? Interessante que eles tinham saúde, viu? Hoje todo mundo tem problema de coluna. Não me lembro deles terem tido problema de coluna. Eles eram muito fortes. E uma prima minha, esposa daquele sobrinho que veio com ele, são de Sorocaba, também faleceu com idade e nós fomos ao enterro dela. Aí vou na casa dela, está a nora do filho mais velho, fazendo o almoço, porque essa minha prima tinha dito: “Você é nora do filho mais velho, você vai ficar encarregada de fazer o almoço pros parentes que vem de longe. E budista não come carne no dia do falecimento. Então você vai fazer uma refeição vegetariana”. Deixou o menu pronto, você faz isso, você faz arroz, você faz o missoshiro, mas não põe carne nem peixe, põe tofu frito mas não põe cebolinha, não sei o quê. Uma salada de acelga que estava deliciosa, todo mundo trouxe receita pra casa. E ela disse: “As minhas louças japonesas estão em tal armário”. Imagine, tá morrendo e tá programando uma coisa dessa? Eles são assim viu, sempre pensando no outro. O japonês é muito de pensar no outro. Eu achei demais, demais, não é? Nossa Senhora! Engraçado, ela não pediu pra filha não, pediu pra nora. Ele disse “Você é a nora do meu filho mais velho, então você que vai fazer.” E fez. Essa salada de acelga é tão gostosa, todo mundo trouxe a receita. Nós ficamos tão impressionados, viu? Papai tinha essa coisa de falar do outro. Ele citava vários provérbios. Se está tomando a água do rio, usando a água, nunca turvar essa água para o que vem depois, né, alguém vai tomar água lá embaixo, enfim, um dia vou fazer um caderninho só de provérbios que ele falava tanto. Porque eles são ricos em provérbios. Ah, uma coisa muito sábia que papai sempre falava, ele dizia que quando você está assim bravíssima com alguma coisa, doida pra dar a resposta, não é, espere três dias, porque se você esperar três dias ou você não vai falar mais, se falar vai fazer diferente, vai falar diferente. Isso também muito bom porque a gente aplica de vez em quando. Alguém fez um desaforo muito grande, você fica assim. Uma vez eu estava pronta pra dar uma resposta, meu marido veio correndo e falou assim: ”Esqueceu o que se pai falava? Espere três dias!” Isso é muito sábio, porque no auge daquela raiva, você não vai falar muito bem né? E isso ele também falava: “Depois de três dias você pode ou perceber que era você que estava errada ou então vai falar diferente”. Este ditado pra mim foi muito bom. E tem uma série de coisas que ele falava que era muito boa. Mamãe também era uma pessoa muito inteligente. Apesar de não ter estudado, ela também falava um japonês muito bonito e excelente cozinheira e ela tem esse mérito. Ela aprendeu com as mulheres dos imigrantes portugueses, italianos e espanhóis que estavam todos ali como imigrantes nas colônias, ela aprendeu fazer muita coisa. Fazia pão muito bem, aprendeu a fazer polenta, linguiça, sabe, todas essas coisas ela aprendeu. Isso foi realmente muito bom porque várias mulheres japonesas não aprenderam não, ficaram restritas à comida. Ela sabia fazer tudo isso, aproveitou bem. E o português dela era assim, misto de coisa que italiano falava, que o espanhol falava, até o fim da vida ela falava naranja, na-na, nananja, lalanja, larranja, qualquer coisa assim, era espanhol (risos). Ela era realmente uma pessoa muito inteligente, muito assim, ela tinha mais os pés no chão do que o meu pai, que era muito sonhador, Nossa Senhora! Ainda comentei com o meu irmão que se ele tivesse ouvido em muitas ocasiões o que a mamãe achava que era mais certo, teria sido melhor. Mas como mulher japonesa, a última palavra é do homem, né, nem sempre ela conseguiu fazer valer. Mas ela tinha mais, ela era mais realista. Os pés no chão. E lutou, lutou, e trabalhou bastante e ela nos deixou, uma das coisas que ela nos ensinou, a mamãe sempre foi muito nervosa, muito preocupada com a família, hipertensa e já com oitenta e não sei quantos anos, já com a vozinha fraca, estávamos nós três irmãs comentando sobre problemas, problemas que todo mundo tem, preocupações. Aí a mamãe falou com aquela vozinha fraca já: “Não se preocupem com nada porque tudo acontece do jeito que tem que ser”. Aí levamos um susto, minha irmã falou: “Desde quando a mamãe pensa assim?”, porque ela não era assim. Ela falou: “Porque infelizmente depois de tanto observar, aprendi isso não faz muito tempo. Então vocês que são mais jovens, comecem já. Não se preocupem, as coisas vão ser do jeito que tem que ser.” E não é verdade?

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